20 de agosto de 2011

Galeotas Reais











Majestosamente decoradas, as galeotas reais são embarcações de uma beleza rara e única em toda a história da Marinha Portuguesa. Construídas com linhas elegantes e de enormes dimensões, estas embarcações, movidas a remos, destinaram-se, ao longo dos tempos, a transportar os membros da família real e as mais altas individualidades da diplomacia internacional.

Suscitando um verdadeiro espectáculo de excelência e sumptuosidade, as galeotas reais adornavam as águas do estuário do Tejo, desempenhando, na perfeição, o papel de anfitrião dos monarcas e dilpomatas que nos visitavam.

Embora a história nos relate a existência, desde sempre, de embarcações engalanadas para a condução dos nossos soberanos, é difícil identificar a sua primeira utilização. Sabe-se, porém, que antes da construção da primeira galeota, nos primórdios da monarquia, o transporte da realeza era feito a bordo de embarcações, aparentemente vulgares, que depois de ricamente decoradas, cumpriam esta nobre função.

Marcando presença em cerimónias de gala e festejos reais, estas embarcações testemunharam diversos momentos históricos, nomeadamente a celebração de casamentos reais, a comemoração de vitórias e o enaltecimento de figuras públicas.

Vários são os episódios passados a bordo destas embarcações, como o encontro ocorrido em pleno rio Tejo, em 1383, entre o rei D. Fernando e D. Henrique de Castela, que celebrou a paz entre os dois reinos ibéricos. Conta-se, igualmente, que D. Manuel utilizava as galeotas para dar despacho aos assuntos públicos, enquanto se passeava pelo rio. Terá sido a bordo de uma galeota real que D. Beatriz seguiu, em 1521, para a nau «Santa Catarina do Monte Sinai», na qual se transportava semelhante embarcação, destinada a fazer o desembarque da princesa. Na viagem que fez para Lisboa, por ocasião do seu casamento com D. João, vinda de Espanha, D. Joana de Áustria é recebida pela Corte portuguesa numa esplenderosa e rica galeota. Posteriormente, D.Sebastião, seu filho, terá utilizado estas embarcações para se deslocar até às naus que o transportaram às praças do Norte de África, nomeadamente a Alcácer Quibir.

O período de governação filipina marcou a ausência das galeotas na paisagem fluvial, agora repleta de galés espanholas. Só em 1662 voltaram a descer às águas do Tejo, preparadas para embelezar mais uma cerimónia de casamento. Uma deslumbrante e colorida falua real, protagonizou o transporte de D. Catarina de Bragança até à nau-almirante da esquadra inglesa, que a conduziu a Londres, onde contraiu matrimónio com D. Carlos II de Inglaterra. Contudo, a presença de Filipe III, reforçou a imponência na construção das embarcações reais. Assim, foi em 1666 que se construiu o primeiro bergantim português.

Apesar da extraordinária e atribulada história vivida por estas embarcações, a documentação a ela referente é bastante escassa. Considerado como o mais precioso e completo documento alguma vez escrito sobre o assunto, o livro «Noções da Legislação Naval Portuguesa», elaborado pelo cabo das galeotas reais Manuel Pinto da Fonseca, constitui o verdadeiro repositório das memórias destas peças náuticas.
Resta acrescentar que para além da função de recreio, lazer e condução de cerimónias de Estado, as embarcações régias, de um modo geral, serviram, ainda, as componentes militar e científica, lideradas por alguns monarcas portugueses. Falamos dos reis D. Luís – o primeiro rei Oficial de Marinha – e D. Carlos – pioneiro e mentor dos trabalhos de Oceanografia e Ictiologia em Portugal. Destaca-se, ainda, a presença de embarcações reais em eventos náuticos de carácter desportivo.
Fotos: Mónica Franco

1 comentário:

Carlos Gomes disse...

Os navios da Corte que serviram à investigação oceanográfica foram os quatro iates "Amélia", o último dos quais rebaptizado com o nome 5 de Outubro após a implantação do regime republicano. As galeotas não serviram para esse fim nem dispunham de condições para tal.
Após a implantação da República, as galeotas foram retiradas e, felizmente, ficaram a salvo de eventual destruição, tendo sido arrecadadas até meados do século passado num velho barracão situado no Seixal, em instalações pertencentes à Marinha e que actualmente servem o Instituto Hidrográfico. Apenas dali saíram para serem expostas no Museu de Marinha.