8 de outubro de 2012

A Santa Censura que teima em funcionar


 
O dia foi rico em pantomimas: a bandeira de pernas para o ar na blindada cerimónia para os apparatchik, o discurso de Costa fazendo de Secretário-Geral do PS e do Presidente fazendo de Sumo Sacerdote, planando sobre píncaros obscuros; a gritante de serviço, rábula obrigatória para qualquer cerimónia que meta hierarcas do regime, mais a canora protestante cobrindo de ridículo, medo e consternação os senhores do aquário em que se foi transformando o regime, caquético de 38 anos. O 5 de Outubro foi, sempre, uma não-cerimónia, mas este ano a dita república terá perdido, caídos no tropel da fuga para os carros blindados, os anéis e as gargantilhas, temendo que um mais ousado lhe cortasse os seios.
Os últimos dias do regime

Pela tarde, minuto sim, minuto não, a baterias da manipulação das tv's - as tais que badalam os sinos freneticamente para chamar o povo das indignações e das manifestações "ladrões-vão-trabalhar-gatunos" - para dar corpo a uma indignação compostinha. Dois mil burgueses ataviados das gangas da praxe metidos na Aula Magna, dois mil que lá estão desde sempre, o sorrisinho bem-aventurado, o destrambelhado discurso arqueológico que fez a fortuna dos PC's de outrora, os abaixo-assinados sobrepondo-se à legitimidade do voto, a alacridade da ideologia salva-mundos. Os dois mil - que só multiplicados por dez dariam um deputado - falaram em nome do povo, pediram a cabeça do Primeiro-Ministro e quase que deixaram confessar o propósito do ajuntamento, ou seja, catapultar Carvalho Rodrigues para a presidência.
 
Da digníssima sessão patriótica que teve lugar no Palácio da Independência, nada. A Mesa Censória continua como dantes, cortando, silenciando, torcendo, escolhendo aqueles que existem e impedindo de falar aqueles que detêm, talvez, a chave para a salvação da liberdade deste país que se vai despenhando lentamente pelos caminhos do caos e da anarquia. O Senhor Dom Duarte, de mãos limpas - os monárquicos não roubaram, não traíram, não engaram - preferiu uma comunicação que devia ter sido ouvida, lida e reflectida por todos os portugueses. Falou de pátria, de salvação colectiva, de amor e cooperação entre todos os portugueses, lembrou que estamos todos juntos e que a salvação reside na unidade. Para os lápis vermelhos do garrote da censura que não reconhece o nome, a única sessão do dia que convidava à elevação não aconteceu. Este país é, manifestamente, merecedor das maiores reservas. Recusa a mão que lhe estende a paz, a dignidade e a restauração.
 
Temo que nos próximos dias algo de terrífico aconteça. Estamos, caros leitores, na iminência de um magnicídio. Vai acontecer. Há no ar pólvora e ódio prestes ao deflagrar de um espectáculo que nos deixará atónitos pela imprevisibilidade brutal. O regime e os censores não querem ver. Espero não ter razão e que a minha intuição me engane.
 
Miguel Castelo-Branco
 
Fonte: Combustões

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