16 de julho de 2013

A arte do silêncio



Duas declarações de dois protagonistas da política nacional – um ministro de Estado no activo e o outro já reformado – incendiaram o país. O primeiro, provocou uma grave crise governativa, com desastrosas consequências económico-financeiras, que se reflectiram, de imediato, no agravamento da dívida soberana. O segundo, comentando com imensa infelicidade a apresentação do novo Patriarca de Lisboa, teve o condão de irritar crentes e não-crentes. Mesmo sendo republicano, laico e socialista, esperava-se do experiente político uma atitude mais contida e delicada.

A arte da governação não é fácil. Os tribunos estão sempre a ser escrutinados pela opinião pública. Qualquer deslize na acção ou por palavra é, de imediato, ampliado pela comunicação social. Preso por ter cão e por o não ter, os titulares dos órgãos de soberania e antigos governantes não podem ignorar que muito do que fazem, ou omitem, tem ressonâncias na vida nacional e, quiçá, internacional. Não se lhes pode permitir ligeireza no exercício das suas funções, ou irresponsabilidade no desempenho da sua magistratura de influência. Não basta que sejam sérios, devem também, como a mulher de César, parecê-lo.

A transparência política não é incompatível com a necessária descrição. E o estatuto de ex-chefe de Estado não exime da obrigação de contenção nas declarações públicas, antes acresce maior responsabilidade social, sob pena de desprestígio da própria instituição presidencial.

Um antigo chefe de governo europeu, há muito falecido, questionado pela razão da sua atitude, habitualmente reservada, nas reuniões do conselho de ministros, respondeu sabiamente: «O homem é escravo das suas palavras e senhor dos seus silêncios». Nem mais.


P. Gonçalo Portocarrero de Almada

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