18 de setembro de 2013

O anti-monarquismo psicológico



Grande parte dos chamados “problemas filosóficos” e dos “problemas teóricos” têm como origem o temperamento, como notava William James. No que à intriga polítiqueira respeita, não funciona o amor à verdade nem preocupações éticas. Sendo a menos interessante, ocupa lugar cativo no sentimento anti-monárquico e recruta sobretudo argumentos de traumatismo social, despeito e ressentimento. O velho Gregorio Marañon (neurologista) escreveu nos anos 30 um belíssimo ensaio sobre a pecha do ressentimento na política (O Ressentimento em Tibério) que se aplica como uma luva ao arsenal de móbiles de que se serviram os agitadores para destruir a reputação da Casa Real, das Instituições e até da Liberdade – a mais ampla que se viveu em Portugal nos seus oito séculos de História – que foi a chamada Monarquia Constitucional. O ressentimento dos traumatizados sociais foi particularmente importante na agitação do movimento republicano e há casos gritantes de republicanismo (isto é, anti-monarquismo) para com ele perdermos muito tempo, como são os casos de Guerra Junqueiro, do Sr. Grandela e tantos outros chefes de fila republicanos que assim se fizeram por não verem cumpridas expectativas de reconhecimento e negócios.

As tertúlias maledicentes do velho Café Gelo do Rossio, “O Marquês da Bacalhoa”, de António de Albuquerque, que Raul Brandão calcinou: “Agora é jornalista, escritor, poeta, e publica este livro de escândalos, em que a rainha, senhora na mais alta acepção da palavra, é posta de rasto. Assim, parte apreciável dos escritos republicanos estão manchados pelo humor raivoso.

Serviu-se o ressentimento de meios de grande violência psicológica, pela palavra e pela palavra escrita, que abriram portas ao revolverismo ao bombismo, à apologia da violência e até do regicídio, quiçá o mais vergonhoso acontecimento da vida política portuguesa. Vulgarizada a violência, tornou-se justificável toda a violência que foi a história da chamada 1ª República; em suma, aquilo a que um arrependido, Homem Cristo Pai chamou de banditismo político.

De notar que, para os não-traumatizados sociais, o problema da destruição da monarquia nunca se colocou. Eça aceitou a monarquia como um dado da identidade política portuguesa, assim como António Sérgio – um homem da esquerda e monárquico – filho e neto dos viscondes Sérgio de Sousa, que até quebrou a espada de oficial da marinha quando veio a tal república.

Houve, também, os arrependidos da república: Braancamp Freire, Fialho de Almeida (que foi perseguido e deixou de poder publicar em Portugal e teve de editar no Brasil), António Sardinha, Alfredo Pimenta.
Actualmente, posto que o número de traumatizados sociais tendeu a decair com o fim da tal classe operária, que se tornou proprietária, consumista e viajada para as repúblicas dominicanas e brasis, a base de recrutamento passou a ser feito entre os alpinistas e trepadoristas sociais: a nova classe de parvenus, os novos colarinhos brancos dos aparelhos dos partidos, dos Calistos Elói e do alto funcionalismo improdutivo e, sobretudo, da alta finança, que já não é a alta finança de outrora (do Visconde de Balsemão, de Teixeira de Barros, até dos Espírito Santo e dos Melos), mas essa plutocracia semi-letrada, carregada de baias e deslumbramentos de socialite. Esses são, verdadeiramente, a nova classe que não tolera a possibilidade de uma restauração monárquica. Seguem a velha lógica do incendiário: “se não posso ter, deito-lhe fogo”.


Miguel Castelo-Branco


Fonte: Combustões

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