18 de abril de 2014

Paixão


Na semana santa, a Igreja recorda a paixão e morte de Jesus Cristo.
Apesar de não ser, para um cristão, um relato inédito, impressiona sempre essa tão viva recordação de um facto acontecido há cerca de dois mil anos, mas sempre presente. Na realidade, a todos incomoda e interpela a crueldade do suplício infligido ao crucificado. Por mais que se teorize o padecimento humano e se enalteça o seu valor, a dor dói. Decerto, porque fere o corpo, mas sobretudo porque é incompreensível para a razão.
Não obstante o mistério de um tão grande sofrimento, não é esse o centro para onde converge a liturgia da Igreja no tríduo pascal. Não é à dor que se presta homenagem, na prostração inicial dos celebrantes, no eloquente intróito da paixão do Senhor, na sexta-feira santa. Não é a cruz que se adora quando, genuflectindo, se beija o madeiro.
Com efeito, a dor, pela dor, nada vale. O maior sofrimento pode ser vazio de sentido e de valor. Até o sacrifício da própria vida pode não ter, mesmo em termos religiosos, nenhuma relevância.
Nada vale se não for por amor e ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos. Os fiéis são convidados a prostrarem-se diante da Cruz, não para adorarem o sofrimento de Jesus, mas para nela se reconhecerem amados por ele, com um amor que, sendo universal, é também individual. São Paulo tinha consciência de ser pessoalmente destinatário desse amor infinito do Deus humanado, «que me amou e se entregou por mim» (Gal 2, 20).
Jesus, «tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao extremo» (Jo 13, 1). É o amor de Cristo que a Igreja celebra na sua paixão, a maior prova desse amor por todos e por cada um, sem excepção. Um amor que é, verdadeiramente, paixão.

Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada

Fonte: Povo

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