31 de agosto de 2014

Uma questão laboral?

A profissão mais antiga do mundo não é a que, como tal, se costuma falsamente referenciar, mas a de agricultor, porque a Adão foi dada a missão de guardar e cultivar o jardim do paraíso. Só depois surgiu, de uma sua costela, Eva, que também não desempenhou essa ignóbil actividade. Como esposa e mãe, foi outra a sua ocupação, talvez uma das mais meritórias e difíceis de todos os tempos. Deve ter sido o caso porque, como é sabido, Abel e Caim não se davam bem…
Aliás, a dita mais antiga não só o não é, como também não é profissão nenhuma. O trabalho não é qualquer ocupação, mas apenas aquele ofício que, por tender ao bem comum, dignifica quem o executa. Uma ladrão, ou um assassino, não é, portanto, um trabalhador, por muito 'profissional' que seja na sua arte. Também  não trabalha quem mercadeja o seu próprio corpo, porque esse comércio é degradante da dignidade de quem o realiza, de quem dele se serve e, mais ainda, de quem o explora.
Está na moda defender 'quem trabalha na indústria do sexo' (Público, 18-8-2014). Pedem-se direitos para estas operárias do seu corpo, mas uma tal exigência implica a aceitação da vergonhosa situação em que vivem e que as destrói, física, psíquica e espiritualmente. Será que, quem quer 'sindicalizar' estas proletárias do sexo, também reconhece que os 'industriais' de tão lucrativa empresa são uma legítima entidade patronal?!
Não era suposto que os democratas progressistas arremetessem contra esta descarada exploração humana?! Não era de crer que os humanistas da democracia cristã se insurgissem contra este pecado social?! Porque razão as feministas não defendem estas pobres vítimas?! Não são, também, mulheres?!
Há dois mil anos, também todos abandonaram a mulher pecadora, excepto Jesus (Jo 8, 9).

Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada, ionline 2014.08.23
Fonte: Povo

30 de agosto de 2014

O Estado, a Nação e o Rei


Consta que, interpelado pelo presidente americano Theodore Roosevelt sobre o papel que desempenhava, o Imperador Francisco José, da Austria-Hungria, terá respondido - a minha missão como rei é defender o meu povo dos seus Governos.
Eis como se diz tudo. E cem anos depois, estas palavras, com estes propósitos não podem ser mais actuais.
Em monarquia, o Rei é o Chefe de Estado apenas por inerência das suas funções essenciais, as de representante da Nação - da nossa História, da nossa entidade cultural, da nossa independência, da nossa projecção num futuro sem termo.
A índole política da chefia estatal tem um alcance meramente instrumental no contexto do significado nacional do Rei e da Família Real.
O que tudo é tão mais verdade quanto é certo, em marés de Positivismo, a lei passou a - citando António Sardinha - determinar a sociedade, em vez de unicamente a exprimir. Quer dizer, nos tempos correntes em que o Estado, inchando sempre, desenfreadamente voraz, passou a alimentar-se à custa dos cidadãos.
Paradoxo dos paradoxos, a saúde das gentes recomenda hoje, mais do que nunca, uma anarquia sã, pelo enaltecimento do municipalismo; e um regime estável, apenas alcançável pela aplicação do Princípio Dinástico. Pela Monarquia, enfim.

João Afonso Machado

Fonte: Corta-fitas

28 de agosto de 2014

Uma entrevista exclusiva com a Família Real de Portugal: sem assuntos proibidos

Dom Afonso, Dona Isabel, Dona Maria Francisca e Dom Dinis. Na hora das fotos, a duquesa de Bragança comentou: “Meu filho Afonso não é a cara do Dom Joãozinho [príncipe da família imperial do Brasil]?”

Por Michelle Licory

Glamurama recebeu um convite inesperado: entrevistar a família real de Portugal, que depois de passar por Tailândia, Camboja, Bali e Timor Leste, estava até esse fim de semana no Rio de Janeiro, completando um mês de viagens. Vieram para o casamento da princesa Amélia de Orleans e Bragança com o escocês Alexander James Spearman, realizado no último dia 16 na Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé, e se hospedaram no Pestana, em Copacabana. É que o hotel recebeu um selo real de qualidade: “By appointment, entende? Meu marido reconhece que a rede Pestana representa bem Portugal”, nos explica a duquesa de Bragança, Dona Isabel, mulher de Dom Duarte Pio de Bragança, que seria o rei de Portugal, caso a monarquia voltasse. Ele não veio ao Brasil. Nosso encontro – totalmente informal, na própria suíte que ocuparam – foi apenas com a duquesa e seus três filhos, os príncipes Dom Afonso, 18 anos, o herdeiro, Dona Maria Francisca, 17, e Dom Dinis, de 14, que nunca tinham sido entrevistados antes, de acordo com a mãe. Ela, aliás, foi criada em São Paulo, dos 9 aos 24 anos: seus pais – que se dividiam entre Portugal e Angola - decidiram vir para o Brasil em 1974 “por conta da revolução”. Ah, dona Isabel foi pedida em casamento em Ilha Bela, sabia?

Por marketing, por lógica e pelo lado emocional
 ”Se a monarquia voltasse, seria muito bom para o país. Cada vez que muda o presidente, tem que começar de novo as relações com o mundo inteiro. Quando você tem um rei, um príncipe, ele vai crescendo e conhecendo as pessoas. Se pensar em marketing… Você sabe quem são todos os reis da Europa, mas não quem é o presidente da Alemanha”, exagera a duquesa. ”Duvido que saiba. Ninguém sabe. E é o país mais forte da Europa. Além disso, o povo se vê na família, uma família que está aí para o que der e vier e não vai embora, enquanto o presidente fica quatro, cinco anos e depois o outro que resolva. A monarquia é muito melhor para o povo, sobretudo nessa época de globalização, em que estamos perdendo um pouco da nossa cultura. A gente fica pensando em como vamos salvar nossa cultura, já os presidentes estão mais descansados. A nível emocional… Nunca pensei que ia casar com meu marido e sempre fui a favor da monarquia. Até por lógica, é um sistema muito mais importante para lançar um país no mundo. Uma vez meu marido teve uma reacção furiosa ao entrar em uma loja e ver que não tinha nenhum produto português. Foi a reacção de um homem apaixonado. É importante não se deixar ficar blasé.”

 “A pátria encarnada em uma família”
“A nossa situação em Portugal não e oficial, e oficiosa, o que dá bem mais trabalho. Eu me protejo um pouquinho, mas meu marido viaja sempre pensando em como pode promover a cultura portuguesa, criar ligações com países de língua portuguesa.” Perguntamos se ela cria os filhos como príncipes ou como cidadãos do mundo. “Passamos nossos valores cristãos. Somos católicos, vamos a Fátima… E nos preocupamos em dar para eles noções de responsabilidade. A gente não pode pensar só na tradição. A tradição e a história ajudam a gente, mas para se lançar para o futuro, para aprender e ser gente da nossa época. Não fiquem pensando que é só privilégio. Pelo contrario: é muito mais obrigação. É esse espírito que a gente tem. Eles estudam em um colégio normal, têm amigos normais. Até andam de metro. A maioria dos príncipes é assim. Tem essa ideia de fora de que estão em uma redoma, por alguns exemplos que existem. Mas a maioria são pessoas normais, que trabalham. E somos uma referência, a pátria encarnada em uma família. As pessoas lá me perguntam como estão os ‘nossos meninos’. Não são meus, são de todos.”


Pra quem gosta de escândalo…
“Pra quem gosta de escândalo, nossa família é um pouquinho sem sal. Eles saem, se divertem, mas por enquanto não há nada de escândalo. Espero que não haja.” A gente quis saber se os adolescentes são alvo de paparazzi. “Não porque sempre tivemos esse contacto muito próximo com as pessoas. Quando eles eram pequenos, cada revista queria fazer a sua foto. Mas eles ficavam muito cansados. Então hoje temos o nosso fotógrafo oficial. A gente tira foto no Natal, em ocasiões especiais, e divulga. Isso porque as pessoas gostam de seguir a família. Mas não aparecemos o tempo inteiro. Não é muito saudável.  E você viu aqui como eles ficam presos na hora de tirar foto. Com o nosso fotógrafo, se sentem mais à vontade. É mais prático.”

Se não vira ateu e republicano
Perguntamos se Dom Afonso é criado para ser rei, caso a monarquia volte. “De certa maneira. Ele fez 18 anos. Em Timor houve uma cerimónia. Desceram a montanha, vestiram ele todo, puseram uma roupa tradicional. Foi muito bonito. Houve um pacto e o rei de lá trata os outros reis como primos. Então não importa essa questão de não ser mais colónia. Eles não pertencem mais a Portugal, mas tem um afecto. O embaixador da China até há pouco tempo quando vinha a Portugal primeiro cumprimentava meu marido, e depois ia se apresentar. A relação milenar, ou secular, entre Portugal e China era muito mais importante. Eles levam muito em conta essa ligação histórica.” Tudo bem, mas Dom Afonso gosta de ter essa função? ”Ele tem que gostar, mas a gente fala: se você não quer, tem sempre alguém que pode tomar o lugar. Temos muito cuidado porque tanto religião quanto monarquia a gente tem que dar em dose certa, se não vira ateu e republicano.  A gente faz devagar, mostrando que sem duvida é um serviço, e não um privilégio. ” Comentamos que ele é o mais tímido dos três. “Talvez… Mas é o mais observado também, o que é sempre mais complicado.”


E as jóias da coroa?
É claro que perguntamos sobre as jóias da coroa portuguesa, glamurette! “Usei no meu casamento um diadema que foi da última rainha de Portugal, dona Amélia. É uma jóia muito bonita e bem guardada. Como é uma peça histórica, nunca viajei com ela para fora de Portugal. Só usei no casamento e em fotografias oficiais, mas nem daria para usar mais. É muito grande. A maioria das jóias não ficou na família, nem as propriedades. Em Portugal, existe a fundação da Casa de Bragança, e todo mundo pensa que é nossa. Não é. Na época do ditador Salazar, ele pegou as coisas da família e pôs na fundação. Também tem peças em museus. O que está connosco, a gente preserva. Isso tudo passa sempre para o filho mais velho, mas a minha sogra, dona Maria Francisca, era da família imperial do Brasil e, quando casou, recebeu alguns presentes. Esses eu vou passar para a minha filha, Francisca.”

Intelectual de segunda
Por fim, perguntamos o que Portugal pode aprender com o Brasil.  “Os portugueses são um povo sério, trabalhador, mas não são tão à vontade. E o que me chocou muito quando voltei a Portugal… No Brasil, e nas Américas, uma pessoa pode ter sua religião e ser intelectual. Não é conflitante.  Na Europa, se você fala que tem religião é considerado um intelectual de segunda.  Mas Portugal está aprendendo.”


* No final do nosso tempo com a família, conseguimos conversar um pouco com os três príncipes.

Dom Afonso, príncipe da Beira, o herdeiro do trono
Perguntamos como ele se sente no papel de herdeiro da coroa. “Não vou mentir: um pouco nervoso. Penso no peso, na responsabilidade se a monarquia voltar pra cima de mim e para o resto da família. As pessoas ficam de olho em nós. Se nos comportamos mal, fazemos alguma coisa fora do lugar… É um pouco demais, mas por um lado gosto de ser o mais velho porque posso tomar conta dos meus irmãos. Por outro lado, eles não gostam muito que eu fique em cima deles. Gostaria de fazer as mesmas coisas que meu pai faz, conseguir o que ele consegue. O holofote é um pouco chato porque de vez em quando gosto de ficar relaxado, descansado, mas tenho que ter sempre o cuidado de não ser mal interpretado. Se a monarquia voltar, por um lado, fico contente, não só por nós… Não é sempre assim, mas dizem que em um país de república, quem tem poder e dinheiro está contente e o povo descontente. Na monarquia, o povo esta contente e quem está no poder estar cansado. Há mais controle… Quem governa é para manter as pessoas contentes.” Dona Isabel interrompe para explicar melhor o raciocínio do filho. “Tem uma metáfora… A república é como um jogo de futebol, uma partida entre dois grupos, na qual o árbitro foi escolhido [ou eleito] por um dos times. Na monarquia, como o rei está por cima dos partidos, é mais isento… Isso que ele está querendo dizer.”

Dona Maria Francisca
Comentamos que a mãe disse que espera que um dia ela use em seu casamento o tal diadema da rainha Amélia. “Gosto imenso dessas coisas e também acho engraçado uma jóia passar de geração em geração. Quem sabe um dia minha filha também vai usar.” De que mais ela gosta ”imenso”? “De música: Rolling Stones, Phoenix, indie rock. Minha única responsabilidade hoje é ser boa aluna. É minha prioridade. Tenho a preocupação de me comportar bem, ser responsável. E faço voluntariado. Antes fazia no colégio. Hoje participo de jantares para angariar fundos para instituições que recuperam toxicodependentes. E quero ir para a África ajudar lá.” E aí foi a vez de Afonso interromper: “Você quer é ir à praia lá.”

Dom Dinis
“Ser um terço do meu pai já seria um sucesso. Agora é mais responsabilidade com estudos do que com festas… Podemos ter redes sociais. Nós temos. Mas precisamos tomar cuidado com o que publicamos, como qualquer pessoa. Não tenho propriamente um ídolo na música porque esses artistas às vezes fazem coisas…” Que príncipe não faz? “Isso, mas nem pessoas normais fazem. Meu ídolo é meu pai.”


Dom Afonso, Dona Isabel, Dona Maria Francisca e Dom Dinis: Família Real Portuguesa no Rio
Créditos: Juliana Rezende


















Fonte: Glamurama

27 de agosto de 2014

“TRATAMENTOS” E MUITAS COISAS MAIS!

“Exmo. Sr. Duque de Cadaval

Se meu nascimento, embora humilde, mas tão digno e honrado como o da mais alta nobreza, me coloca em circunstância de V. Exª me tratar por tu, caguei para mim que nada valho.
Se o alto cargo que exerço, de Corregedor da Justiça do Reino em Santarém, permite a V. Exª, Corregedor-Mor da Justiça do Reino, tratar-me acintosamente por tu, caguei no cargo.
Mas, se nem uma nem outra coisa consente semelhante linguagem, peço a V.Exª que me informe com brevidade sobre estas particularidades, pois quero saber ao certo se devo ou não cagar para V.Exª.”
Santarém, 22 de Outubro de 1795.
Pina Manique, Corregedor de Santarém.

Foi notícia a deliberação (por unanimidade!) da Assembleia Municipal (AM) de Torre de Moncorvo, do passado dia 27/6, em abolir os títulos académicos no seu seio.
Ufano, o respectivo Presidente (pelos vistos, este título ele mantém), engenheiro, perdão ex-engenheiro, digo, ex-engenheiro lá dentro e engenheiro (talvez) cá fora, de seu nome José Mário Leite, veio justificar a decisão na “óptica da democracia republicana e da Revolução Francesa, de onde saíram os princípios da Liberdade, Fraternidade, e Igualdade, passando todos os deputados a ser iguais.”
A gente já sabia que as novidades, antigamente, chegavam a Portugal – segundo diziam – com décadas de atraso; e mesmo tendo em conta que o ocorrido se deu em terras de Trás (quer dizer, atrás dos) – os – Montes, não deixa de pasmar – e isso sim seria a notícia – que a Revolução Francesa só agora chegue a Moncorvo, 225 anos depois!
Provavelmente já se esqueceram que os tais defensores da “Liberdade, da Fraternidade e da Igualdade” (paragem na escrita, para riso intenso), a quiseram exportar na ponta das baionetas e nos retalharam o país, o corpo, a fazenda e, até, a alma, entre 1807 e 1811 e deixaram umas sementes malditas, que nos ensanguentaram em guerra civil durante cerca de 100 anos (pausa para meditação profunda).[1]
Parece que ainda não acabou…
Mas, aparentemente, a AM não tem mais com que se entreter e gasta tempo com estes rodriguinhos, a não ser que o edifício da AM se tenha transformado nalgum templo de inspiração maçónica. Quem sabe?[2]
Só não entendo é porque em vez de se passarem a tratar por “deputados” e “vereadores” – outros títulos! – não se designam apenas por “cidadão fulano tal”; e se passaram a ser todos iguais, um não bastaria? Sempre se poupavam uns trocos…
A igualdade é uma das maiores mentiras postas a correr, pela simples razão de que somos todos diferentes.
A igualdade tem que ser vista e equacionada no respeito, consideração e justiça que cada ser humano deve merecer e não em querer transformar todos numa massa amorfa e indiferenciada, ou a querer tornar igual o que é naturalmente diferente (caso dos homens e mulheres).
Um título é uma diferenciação de habilitações que identifica melhor um determinado profissional. Que mal haverá nisso?
Será que o passo seguinte é o das pessoas passarem a ter vergonha do que conseguiram na vida?
Os títulos académicos não devem à partida ser adjectivados ou implicarem qualquer estigma ou preconceito. Mas, de facto, cada um dos seus titulares pode comportar-se relativamente a eles, num amplo espectro que vai da inveja à arrogância, passando pela vaidade.
Tais comportamentos têm a ver com a maneira de ser de cada um e não com o grau académico ou profissão que ostentam.
E o que é realmente importante não é o grau académico nem se há ofícios bons ou maus, melhores ou piores. O que interessa é saber se há bons ou maus profissionais.
Mas, enfim, em vez de se assumir tudo isto, naturalmente, gosta-se é de arranjar confusão e sarna para se coçarem…
O resultado tem sido o cada vez maior nivelamento, por baixo, tendo como consequência a imbecilização da sociedade e a menorização do ser humano.
*****
Outros exemplos têm vindo a medrar, desde há muito, como é o caso de jornalistas da Rádio e Televisão estarem sempre a forçar o “tu cá, tu lá” com o público, entrevistados, concorrentes a concursos, etc., sem que até hoje se tenha ouvido alguém colocar o jornalista no seu sítio, numa cobardia parola de não quererem parecer “démodés” mas antes muito modernaços; a prática de entrarmos num estabelecimento comercial qualquer, tratarmos o empregado por “senhor” e recebermos em troca um “você”; a de dizermos “bom dia” e ecoar o silêncio, mais a recente moda, possivelmente iniciada nos “call centers”, de tratarem os indígenas por senhor, seguido do primeiro nome, quando costume antigo sempre tratou os portugueses pelo apelido, reservando o nome próprio para a família próxima e a amiga intimidade.
Para já não falar nos pais que se querem assumir como “amigos” dos filhos, como se ser pai fosse ser inimigo dos mesmos…
Toda esta prática desregrada tem levado, não a uma informalidade saudável, uma franqueza de atitudes, ou a uma lealdade de relacionamento, mas sim a um relaxamento rasteiro e sem nível nas relações de trabalho, na educação, cortesia, e em todas as instituições, a começar pela escola, e já há muito atinge as próprias Forças Armadas e de Segurança.
A coisa arrisca-se a ficar fora de controlo e acabar tudo à chapada, pois onde não há regras a tendência imediata é voltar à lei da selva.
Os professores da maioria das escolas e Universidades que o digam.
Até nos hospitais militares houve uma tentativa – felizmente frustrada, até ver, apesar dos pecadilhos – de omitir os postos, alegando-se que ali só havia doentes, como se um doente perdesse o direito à sua personalidade jurídica ou passasse à categoria de número![3]
Por tudo o que disse e ficou por dizer, ninguém deve abdicar do tratamento a que tem direito, no mínimo porque o mesmo lhe deu muito trabalho a obter e aos outros não lhes custa nada…
A moda deste “relaxamento” social começou com a informalidade anglo-saxónica que, sem embargo, sabe distinguir o que é “bagaço” do que é “serviço – ao contrário dos latinos; teve um movimento uniformemente acelerado com os diferentes movimentos “hippy”, “pacifista”, “libertação das mulheres” e mais uns quantos “ismos” e explodiu com o “Maio de 68”, em França.
Entre nós entrou de supetão, quando as comportas que seguravam as águas se romperam em 1974/5.
O que aconteceu em Portugal, porém, foi mais grave não só pela rapidez e anarquia em que tudo se passou mas, também, porque para além das transformações políticas e sociais visava derrubar qualquer tipo de hierarquia, logo de autoridade.
Nada foi feito inocentemente, pois intentava-se criar sobre os escombros algo de radicalmente diferente: uma sociedade comunista, socialista, terceiro-mundista, maoísta, ou o raio que os partisse, o que só foi parado a 25 de Novembro de 1975.
Mas a tábua rasa da hierarquia e da autoridade manteve-se, porque servia por razões semelhantes a todas as forças políticas que despontaram e, sobretudo, para quem quis impor um jacobinismo serôdio, o laicismo e o relativismo moral. O que conseguiram.
Tudo isto facilitou o apoucamento e o controlo das instituições estruturantes da Nação e as manobras subterrâneas. Também não é por acaso ou incompetência, que nos últimos 40 anos não se conseguiu pôr de pé um Serviço de Informações minimamente credível.
Ora sem Autoridade – e esta não tem que ser adjectivada, simplesmente, existe ou não – nada se consegue edificar…
Resultou que todos os governos de que fomos servidos se limitaram a gastar e a vender o que havia e tudo o que construíram não foi com riqueza criada, mas com o dinheiro que pediram emprestado ou receberam da UE (e nunca houve almoços grátis).
Deixaram a sociedade à solta, tendo o cuidado de aspergir subsídios (enquanto foi possível), eleições e paz social, “oblige”.
Criaram uma mentira enorme, baseada na autocensura e na distorção da realidade, onde quem tinha um olho e má formação, foi roubando o que pôde.
E como tudo isto atingiu proporções inauditas, quase ninguém o quer ou pode admitir.
Resta a bancarrota que deixou de ser possível esconder.
Não estou a poupar nas palavras nem tenho receio de ser acusado de mentiroso.
*****
Mas voltemos ao “tratamento” para vermos como regredimos em termos civilizacionais e em educação.
Comecemos pela Igreja.
O Papa tem direito ao tratamento de “Sua Santidade”; um Cardeal a “Sua Eminência Reverendíssima”; um Bispo a “Excelência Reverendíssima” e um Padre a “Reverendíssimo”.
Quanto à realeza – cingimo-nos à portuguesa já que pelo mundo fora as designações variam – o monarca deve ser tratado por “Majestade” ou “Sua Majestade” e um Príncipe por “Vossa Alteza” ou “Alteza Real”.
Relativamente à Magistratura, um Juiz do Supremo Tribunal, vence o tratamento de “Colendo”; o do Tribunal da Relação é “Venerável” e o do Tribunal de 1ª Instância antecede de “Meritíssimo”. Já o Ministério Público tem “Procuradores”.
A Universidade fica-se pela designação de “Magnífico” dada ao Reitor, sendo os degraus académicos de “Professor Doutor” (com vários graus, e por extenso), para os Doutorados; “Mestres” para os detentores de um mestrado e de Dr. (sem ser por extenso), engenheiro, arquitecto, etc., em função das diferentes licenciaturas.
Já a Diplomacia reserva o tratamento de “Excelência” (por extenso) a Embaixadores e Ministros Plenipotenciários, e o de “Vossa Senhoria” para Encarregados de Negócios e Cônsules.
As coisas são assim e assim é que estão bem.
O problema é que tudo isto caiu em desuso e já quase ninguém quer saber de tais “peculiaridades pré-históricas”, ou sequer as conhece.
E as instituições, apesar de não as terem renegado, apenas usam o tratamento entre si (quando usam), e em discursos protocolares, numa espécie de circuito fechado e já só falta pedirem desculpa por o fazerem.
*****
Deixámos propositadamente a Instituição Militar para o fim.
Até 1974, o tratamento aplicado aos oficiais era o seguinte: Aspirantes, Subalternos e Capitães/1ºs Tenentes tinham direito ao tratamento de Vossa Senhoria a anteceder o posto, que já de si era acompanhado da palavra “Senhor” ou do característico “Meu”; os oficiais superiores venciam “Vossa Excelência”, bem como os oficiais generais; ao passo que “Sua Excelência” era reservado a Marechais e Almirantes.
Em 1977/8 – note-se que ainda funcionava o Conselho da Revolução, pelo que não houve aqui qualquer influência civil – a hierarquia militar deu um tiro nos pés (o que tem feito, infelizmente, amiúde), ao reformular o Regulamento de Continências e Honras Militares e retirou o direito à dignidade do tratamento a todos os oficiais, à excepção da atribuída aos oficiais generais, marechais e almirantes.[4]
As razões por que o fizeram nunca foram explicitadas (creio), mas tal explica-se por todas as vicissitudes entretanto vividas e de que ainda hoje não recuperaram.
Já a população transmontana merecia melhor sorte (embora a sorte dê muito trabalho), mas ainda está a tempo de aprender com o antigo – e abençoado – Corregedor de Santarém.

[1] Sem falar nas desgraças que nos aconteceram a partir de 1795 e no combate e perseguição que lhes tivemos que dar, para os correr de Espanha, e os perseguir até que se rendessem, o que só aconteceu em Toulouse, em 1814.
[2] E atenção, no areópago da “Loja” a hierarquia é severa: tem 33 graus e a cada um corresponde um “título”.
[3] A “grande reforma” dos hospitais militares já fez com que se misturassem oficiais, sargentos e praças no mesmo quarto…
[4] Regulamento actualmente em extinção por inanidade!
Ten. Cor. Piloto Aviador (ref.)
João José Brandão Ferreira


Fonte: O Adamastor

26 de agosto de 2014

A FAMÍLIA REAL PORTUGUESA EM TIMOR LESTE

A Família Real Portuguesa na casa de Gabriela Carrascalão em Timor Leste.
Atrás na foto Bruno Lecantre e Nuno Carreira.



S.A.R. Dom Duarte de Bragança na varanda da casa de Gabriela Carrascalão em Timor Leste



S.A.R. Dona Isabel de Herédia de Bragança observando o filho mais velho, S.A.R. Dom Afonso de Bragança a colocar uns goggles artesanais de pescadores de Atauro


S.A Maria Francisca de Bragança e a prima Joana de Herédia, treinando no como dobrar guardanapos em TL , no restaurante " Malinamoc Paradise".


Fonte: Gabriela Carrascalão
Publicado por: PPM Braga

25 de agosto de 2014

ÍNDIA PORTUGUESA: O EXEMPLO DE ANICETO DO ROSÁRIO!

“Nesses anos, quando um soldado português desembarcava de um dos barcos da sua Nação para servir num forte de Moçambique, ou em Malaca, ou nos estreitos de Java, já previa, durante o seu tempo de serviço, três cercos, durante os quais comeria erva e beberia urina. Estes defensores portugueses contribuíram para uma das mais corajosas resistências da História do mundo.”

James A. Michener (escritor americano)

No dia 22 de Julho passou o 60.º aniversário da morte heróica do Subchefe Aniceto do Rosário, da Polícia do Estado da Índia, ocorrido em 1954.


Tal evento deu-se quando bandos armados da União Indiana, à revelia dos bons costumes e violando grosseiramente o Direito Internacional, ocuparam os enclaves de Dadrá e Nagar-Aveli, contíguos a Damão.

O Tenente Coronel Pedroso da Silva teve a iniciativa de sugerir à PSP a evocação da efeméride, o que esta acabou por fazer, acto a que dignamente se juntaram a delegação da Liga dos Combatentes de Pinhal Novo, e outros cidadãos, nomeadamente ex-alunos do Instituto Militar dos Pupilos do Exército – estabelecimento militar de ensino onde o órfão de Aniceto do Rosário veio estudar seis anos depois da morte de seu pai. A cerimónia teve lugar na praça que tem o nome do herói, junto à Penha de França, em Lisboa. [1] 


Praça que, felizmente, sobreviveu à mudança de nomes que os desatinos políticos e sociais; as vinganças ideológicas e a má formação de muitos impuseram em vários locais, após o 25/4/74, e cujo expoente maior ocorreu com uma ponte inaugurada a 6/8/1966…

Sorte nossa, senão em vez de nos curvarmos respeitosamente perante tão subido nome, teríamos que virar a cara, compungidos e envergonhados de eventualmente termos de encarar com algum “revolucionário” de mau porte, inimigo manifesto da Nação dos Portugueses.

Para mal dos nossos pecados já quase ninguém conhece ou se lembra de Aniceto do Rosário. E, no entanto, ele pertence àquela imensa plêiade de portugueses que mantiveram o nome de Portugal, honrado, nos quatro cantos do mundo e elevaram bem alto a Bandeira das Quinas.

Não é de admirar que assim seja.

Nos últimos 40 anos para além de um ensino médio medíocre, sob todos os aspectos e onde se esbanjaram incontáveis milhões de contos e, sobretudo, euros, e do destroço da educação a nível das famílias, assistiu-se a um discurso político e mediático em que se elogiava a cobardia; se branqueou malfeitorias e se casquinou da Honra e do Pundonor.

Já nem vale a pena elaborar sobre os altares a que se elevaram traidores, desertores e até simples autores de delito comum.

Aniceto do Rosário não procedeu assim. Foi antes a sua antítese. Por isso é, para muitos, um mau exemplo…

Dois dias antes da invasão dos enclaves – que um Estado Português, sem discernimento e sem vergonha reconheceu “de jure”, em 1975 – o governador de Damão foi impedido de se dirigir a Dadrá, pelas autoridades indianas.

Aniceto do Rosário, natural de Diu, que chefiava uma pequena força policial de sete elementos, enviou ao governador a seguinte mensagem: “Parta V. Exª descansado que eu não deixarei ficar mal a bandeira portuguesa”. Disse e cumpriu.

Dois dias depois um bando de Sathyagraha (pretensos libertadores), à mistura com membros do Exército Indiano, entrou em Dadrá e exigiu a rendição da autoridade portuguesa. Aniceto do Rosário recusou e abriu fogo. Ferido, acabou por ser morto, à facada e a tiro, juntamente com o guarda António Fernandes.
Missa por alma dos mortos, na Basílica do Bom Jesus.

A torpe ocupação de Dadrá e Nagar-Aveli constituiu a primeira acção violenta, por parte da União Indiana, que culminou na invasão de Goa, Damão e Diu, em 18/12/1961.[2]

Foi um longo calvário que começou logo após a independência da União Indiana, em 1947.

Pouco tempo passou para que aquele novel país - que apenas tinha direito a reivindicar o que herdou do Império Britânico - passou a exigir que o Governo Português lhe entregasse a soberania sobre os territórios do Indostão onde a bandeira que nos foi legada por Afonso Henriques flutuava há 450 anos.

De toda a vasta argumentação apresentada nada, mas absolutamente nada, justificava ou sustentava tal desiderato.

E nem sequer foi difícil ao governo de Lisboa, de então, desmontar todos os argumentos, um a um.

Por fim o Tribunal Internacional da Haia deu razão a Portugal quando submetemos o pleito à sua jurisdição e, até, o Conselho de Segurança da ONU, condenou a invasão de 1961, o que só não vingou pelo veto da U.R.S.S..

Por isso não descansarei enquanto em todos os livros de História em uso oficial e nos discursos dos responsáveis do Estado, não se diga a verdade, e se condene sem peias, aquela bárbara atitude dos responsáveis indianos, indigna de tão antiga civilização.

Esta seria a melhor homenagem que o que resta da Nação Portuguesa poderia fazer, não só a Aniceto do Rosário, como também a todos os bons portugueses que desde Vasco da Gama, viveram, lutaram, comerciaram, colonizaram e evangelizaram, tendo estabelecido naquelas paragens uma comunidade e uma presença que não deslustra perante seja quem for.[3]

Pode considerar-se Aniceto do Rosário, o primeiro combatente português a cair nas últimas campanhas ultramarinas que fomos obrigados a desenvolver para fazer face ao último – embora, suspeito, não derradeiro – grande ataque movido internacionalmente contra Portugal (1954-1975).

Quando a Escola Superior da PSP passar, um dia, a atribuir patrono a cada um dos seus cursos, Aniceto do Rosário deverá, seguramente, figurar entre os primeiros.

_____________________

[1] Escusado será dizer que não demos conta de qualquer notícia veiculada pelos “média”, excepção para uma notícia veiculada por Hernâni Balsa.
[2] Os enclaves eram território português desde o século XVIII, através de tratado celebrado com o Império Marata, em 1779.
[3]  E que têm mais do que o direito a fazer parte da Comunidade de Países de Língua Oficial Portuguesa…


Ten. Cor. Piloto Aviador (ref.)
João José Brandão Ferreira

Fonte: O Adamastor

24 de agosto de 2014

Presidentes "de todos os portugueses"


Quando há pouco mais de um século a Monarquia foi violentamente derrubada, um dos argumentos mais pesados repetia à exaustão o escândalo da despesa que a manutenção da instituição representava. O rei, a rainha e restantes membros da Casa Real eram publicamente humilhados, sendo acusados de roubo e de condenarem centenas de milhar de portugueses à fome, à sobrevivência em alfurjas imundas e na melhor das hipóteses, à fuga para o Brasil. Sabemos o que depois sucedeu. Contas feitas, levantamento da questão dos Adiantamentos e os republicanos espantados por aquilo que encontraram. Afinal, a Coroa portuguesa era aquela cuja dotação era a mais reduzida de toda a Europa, ficando mesmo atrás das suas homólogas da Sérvia, Bulgária, Grécia e dos países nórdicos. Pior ainda, dos bens privados do monarca - o património da Casa de Bragança, cujo furto seria republicanamente legalizado por Salazar - saía uma boa parte do dinheiro que pagava as despesas de representação do Estado. Nunca nenhum dos bonzos republicanos por uma vez que fosse se atreveu a mostrar a este crédulo povo, o engano deliberado do comboio da propaganda que chegaria à estação final do assassínio em praça pública.

Num daqueles episódios que a tornaram estimada pelos portugueses, um dia a rainha Maria Pia impacientou-se com o dilúvio de críticas a respeito de gastos em aparatos. Naquele momento, o móbil era o grande retrato pintado por C. Duran, uma magnífica obra que se encontra na Ajuda. Diziam os críticos beneditinos que Sua Majestade apresentava-se despojada de qualquer jóia da Coroa, sendo isso um desleixado desrespeito para com a dignidade da instituição que também representava. Como era seu hábito, D. Maria Pia teve afiada réplica, dizendo-lhes  que ..."eu não preciso de usar jóias, eu sou a rainha". Por aquilo que o retrato ainda nos mostra, as cores nacionais bastavam-lhe para o efeito pretendido.

Ontem noticiou-se a contribuição da banca para as campanhas presidenciais, como se tal coisa fosse uma novidade. 

Todos sabíamos que os presidentes da república, sejam eles Mários, Jorges ou Aníbais, desde sempre contaram com o desinteressado financiamento de entidades que para todos os efeitos mandam em Portugal, os tais homens que são "donos disto tudo". Nada mais nada menos, senão maningues saguates para moleques de serviço. Pior ainda, a par de Robertos do teatro da finança, os presidentes são produtos que como Emídio Rangel gostosamente se gabava, eram susceptíveis de venda ao eleitorado ou de forma mais crua, sabão macaco impingido  como sucedâneo de banhos de leite de burra. Após o pecúlio vertido nos cofres dos candidatos e sendo um deles infalivelmente eleito, logo surgem compensações sob as capciosas fórmulas de embaixadas banqueiras capazes de dissolverem maiorias políticas, obrigarem os governos - com a assinatura ou silêncio presidencial - à extorsão de PPP e a uma miríade de contratos ruinosos, a clara imposição de uma política externa desastrosa e todo o tipo de encartes de camaradas em lugares estratégicos do poder.

É esta a verdadeira raiz da carcomida árvore da república. Como em relação a si próprio dizia o general Francisco Franco (y Bahamonde), eles têm isto "atado e bem atado".

* O sr. Guterres vai ficar sem emprego na ONU, mas já se coloca na fila para uma desinteresseira colaboração na solubilidade dos nossos males. 

Nuno Castelo-Branco