16 de outubro de 2014

“Mea culpa!”

Só uma Igreja verdadeira e humilde é credível e digna de confiança

Uma boa notícia: o ex-arcebispo Jozef Wesolowski aguarda, em prisão domiciliária, o seu julgamento por um tribunal italiano, depois do Vaticano o ter condenado, por ter praticado actos pedófilos na República Dominicana, onde foi núncio, e destituído da condição clerical. É vontade expressa do Papa que «um caso tão grave e delicado seja resolvido sem demora», «com o justo e necessário rigor» (L'Osservatore Romano, 26-9-2014, ano XLVI, nº 39).
Uma boa notícia?! De facto, há novidades bem mais felizes, mas é também uma boa notícia a que denuncia um crime monstruoso, como é o caso, e anuncia o castigo do prevaricador e a legítima defesa das vítimas. O diagnóstico de um tumor maligno é, neste sentido, uma boa notícia porque, sem o conhecimento da doença, não seria possível providenciar a cura.
É natural e razoável que uma pessoa, ou instituição, preze o seu bom nome e a sua fama, mas não que o faça à custa da verdade. É mais importante que a Igreja seja verdadeira do que estimável, sobretudo se essa respeitabilidade se fundar no encobrimento da realidade, por muito dura que esta possa ser como, de facto, por vezes é. Só a total veracidade da entidade eclesial, nomeadamente quando reconhece a indignidade dos comportamentos de alguns dos seus mais destacados membros, como agora aconteceu, a faz credível e digna de confiança.
Quando algum escândalo ameaça a instituição católica, alguns pastores tendem a desculpabilizar o alegado prevaricador, a esquecer os ofendidos e, pior ainda, a ocultar a verdade. É sagrada a presunção de inocência até à sentença judicial transitar em julgado mas, depois, contra os factos criminosos, já não há argumentos. É compreensível aquela reacção defensiva instintiva, mas não é aceitável, nem cristã. Porque a Igreja deve dar a prioridade aos inocentes e não aos agressores, qualquer que seja o seu estatuto, até porque os cargos eclesiais, mais do que honras, são acrescidas responsabilidades. Mas, principalmente, porque uma Igreja que não é verdadeira não é de Cristo, que é a verdade, mas do seu inimigo, que «é mentiroso e pai da mentira».
Há quem se aproveite destes factos para atacar os católicos, como se a excepção fosse a regra e a maioria dos padres fossem pedófilos. Não são e há que ser prudente em «tão grave e delicado» assunto, mas a má-fé de alguns não pode servir de álibi. Ninguém se pode cobardemente refugiar nessa desculpa, porque não são as culpas alheias que fazem inocentes os verdadeiros culpados. Só uma religião que acata a realidade objectiva dos factos, quaisquer que sejam, é verdadeira. Só uma Igreja que aceita, para si mesma, a dinâmica da conversão, é credível como instrumento de salvação.
Significa isto uma mudança radical da atitude católica? Não, porque já assim agiram os primeiros cristãos. A Igreja de então, embora perseguida, não forjou uma falsa aparência imaculada, mas deu um corajoso testemunho da verdade, nua e crua.
Era uma enorme vergonha para a Igreja e para os bispos, sucessores dos apóstolos, que Judas fosse um dos doze. Mas os evangelistas, que poderiam ter omitido o nome do traidor ou, pelo menos, a sua condição de apóstolo, não o fizeram. Nem Cristo, aliás, fica bem na escritura: afinal, não foi ele quem o escolheu?!
Também não omitiram a tripla negação de Pedro, nem que o Mestre lhe chamou o nome do próprio demónio, Satanás! Quando esse apóstolo já era Papa, poderia ter muito sorrateiramente mandado retirar estes episódios chocantes, em que ele era o mau da fita, para efeitos de uma nova edição dos Evangelhos, corrigida e … branqueada. Poderia até justificar-se com razões pretensamente pastorais: não escandalizar os pagãos, a converter; nem abalar a confiança dos fiéis, que lhe deviam obedecer. Também poderia ter argumentado que esses tristes episódios não eram, como de facto não são, essenciais para a fé. Mas, também aqui, a verdade prevaleceu.
A penitência não é uma operação de marketing, nem uma plástica de rejuvenescimento artificial, mas o reconhecimento sincero do próprio pecado. Embora cada falta seja pessoal, há actos que adquirem uma dimensão institucional, de que o todo não se pode desentender. Seria hipócrita uma entidade que se engalanasse com as virtudes dos seus santos, mas não se reconhecesse nos vícios dos seus membros pecadores. A Igreja dos bons é também a dos maus, chamados à conversão.
A pior tentação em que pode cair a Igreja católica é a de se amar mais a si mesma do que à verdade, que é Cristo. A Igreja só pode ser fiel ao seu divino fundador e à sua missão salvífica se for humilde, ou seja, verdadeira, também colectivamente. Se for serva e não senhora da verdade. Se amar Cristo mais do que se ama a si mesma. Se procurar apenas a glória de Deus e não a sua própria honra. Se não procurar agradar ao mundo, mas louvar a Deus, na confissão contrita das suas faltas. Se der razão da sua esperança, anunciando ao mundo, na sua própria experiência do pecado e do perdão divino, aquele amor que tudo desculpa, tudo crê e tudo espera.

P. Gonçalo Portocarrero de Almada
OBSERVADOR 11/10/2014

Fonte: Povo

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