31 de agosto de 2015

Falta à Democracia uma Instituição Fundamental



«(...) a única forma de garantir a isenção de uma instituição, fundamental para o funcionamento de qualquer Estado, é não ser eleita: A partir do momento em que é eleita, é por alguém: os partidos representam parte da população. Essa autofagia que temos na Constituição republicana é ainda pior porque o nosso chefe de Estado é eleito pelas mesmas pessoas que elegem o governo e, supostamente, devia ser um contraponto ao governo. Temos o caso de Cavaco Silva que é supostamente o Presidente de todos os portugueses, mas foi eleito por 23% do eleitorado. Ou seja, há 77% do eleitorado que não concorda.»


Luís Lavradio


30 de agosto de 2015

TGV: terrorismo a alta velocidade

O feito heróico fica com quem o praticou, mas a lição é para todos. Não temos o TGV, mas também temos criminosos, heróis e cobardes. Tal como havia dentro daquele TGV. Os heróis fazem a diferença.

Pelo seu carácter excepcional, vale a pena recordar o heróico episódio de sexta-feira passada, 21 de Agosto, a bordo do TGV Amesterdão-Paris.
Quando o comboio estava perto da estação de Arras, no norte de França, ainda próximo da fronteira com a Bélgica, Ayoub El-Khazzani, armado até aos dentes, fez tenção de atacar os passageiros. Felizmente, na carruagem viajavam também, entre outros, quatro bravos, que fizeram frente ao guerrilheiro islâmico: um consultor inglês de 62 anos, Chris Norman; e três norte-americanos, o estudante Antonhy Sandler e seus amigos militares, Spencer Stone, da Força Aérea, em serviço na base das Lajes, nos Açores, e Alek Skarlatos, da Guarda Nacional dos Estados Unidos da América.
Que a França seja socorrida, in extremis, por um britânico e três norte-americanos, tem a sua graça, neste septuagésimo aniversário da vitória da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos na II Guerra Mundial… Não sei se foi para honrar essa memória, mas o presidente francês concedeu a mais alta condecoração do seu país, a Legião de Honra, aos principais protagonistas da acção que frustrou este ataque no TGV gaulês.
A principal arma dos terroristas não é militar – metralhadoras, bombas ou granadas – mas  psicológica, ou seja, o terror. Semear o medo é o que, em primeiro lugar, se pretende com o terrorismo: criar um estado de pânico que, na realidade, impeça qualquer tipo de reacção. Por isso, é fundamental que o ocidente não se agache ante as pretensões totalitárias dos extremistas. Por esta razão foi necessário reagir contra o atentado ao semanário Charlie Hebdo, por mais indecentes que fossem – e eram mesmo! – as suas graçolas de muito mau gosto e duvidoso humor.
O feito heróico fica com quem o praticou, mas a lição é para todos. Ou seja, não basta que os Estados e as forças de segurança zelem pela defesa dos direitos, garantias e liberdades fundamentais; é preciso que todos e cada um dos cidadãos se consciencialize que este combate também lhe diz respeito.
Ante o alheamento dos ferroviários que, em vez de fazerem frente ao terrorista marroquino, se trancaram na cabine, deixando indefesos os passageiros, entre os quais também havia crianças, houve quem tivesse a coragem de pôr em risco a sua vida. O herói não é alguém que, como um louco temerário, ignora o perigo, mas quem, conhecendo-o, faz-lhe frente. Sabe que também pode morrer, mas prefere perder a vida com honra, do que conservá-la à custa de uma infame cobardia. Foi essa a grande lição que os heróis do TGV deram à França e ao mundo inteiro e que os fez merecer, com toda a justiça, a Legião de Honra.
Dados os nossos brandos costumes, não abundam as ocasiões de protagonizar gestos de um tal heroísmo. Não temos o TGV, mas temos criminosos, heróis e cobardes. Num assalto à mão armada, em plena via pública, quantas pessoas seriam capazes de socorrer a vítima? Quantos passageiros de um comboio, autocarro ou eléctrico, teriam a coragem de fazer frente a um carteirista, apanhado em flagrante?! Não é verdade que a maioria das pessoas, nessas situações, prefere não se dar por aludida, deixando impune o atacante e a vítima entregue à sua triste sorte?
Na sociedade pós-moderna está instalado um certo terrorismo social, que é o ambiente propício para o crime urbano. Em vez da solidariedade cristã, que vê no outro um alter ego, há um clima de indiferença generalizada, que leva a que cada qual só se importe consigo mesmo e com a segurança dos seus familiares e dos seus bens. Mas, quem se desinteressa do bem comum, é também vítima dessa indiferença e, certamente, cúmplice, por omissão, dos que se aproveitam criminosamente dessa passividade.
Faltam heróis da vida comum. Na nomenclatura religiosa, esses defensores da verdade e do bem têm um nome: são os santos. A principal virtude cristã não é a da religião, mas a da caridade: “ninguém tem mais amor do que quem dá a vida pelos seus amigos” (Jo 15, 13).
Seria asfixiante, como uma prisão ou um campo de concentração, uma sociedade em que todos fossem vigiados. Salvo o caso de guerra, não é desejável que cada cidadão seja um soldado, mas todos devemos ser guardiões da justiça e da paz. Só quem vence o egoísmo, pode ousar lutar contra todos os medos.

Fonte: Observador

28 de agosto de 2015

S.A.R. O Príncipe da Beira irá consagrar-se a Nossa Senhora no Santuário da Lapa em Sernancelhe

Cumprindo uma tradição de séculos SAR O Príncipe da Beira irá consagrar-se a Nossa Senhora no Santuário da Lapa (Sernancelhe, Viseu) dando continuidade ao acto praticado pelos príncipes e princesas da beira ao atingirem a maior idade. 

Apesar de Vila Viçosa, nunca a Família Real portuguesa deixou de estar intimamente ligada ao Santuário da Lapa 

O profundo significado espiritual e simbólico deste acto não fica, por certo, indiferente a nós, monárquicos e portugueses.

Neste acto singelo far-se-á história, pois renovar-se-á a ligação estreita e sentimental entre o Povo da Beira e o seu Príncipe.

Não pode, para nós, monárquicos activistas pertencentes à Causa Real, ficar despercebido este momento, deixando de nos esforçar por tomar parte dele e acompanhando o nosso Príncipe. Sobretudo porque provém de um sentido desejo popular dirigido ao Príncipe da Beira, traduzindo uma dedicação e um orgulho verdadeiros para com a Família Real. Não esqueçamos que é para o Povo e com o Povo que queremos lutar pelas nossas convicções.

A 6 de Setembro acompanhemos e sejamos testemunhas da Pia União de SAR O Infante Dom Afonso de Santa Maria à Irmandade de Nossa Senhora da Lapa, numa manifestação popular cheia de autenticidade.

Aguardam-se milhares de peregrinos, sobretudo do norte do país (a peregrinação deste dia é conhecida como a peregrinação do Minho desde tempos ancestrais).

Esteja também presente. Não falte!

Na véspera, SS AA RR serão recebidas em sessão solene pelo Presidente da Câmara de Sernancelhe.

27 de agosto de 2015

D. Manuel II ao Colo de Minhota



Atestando a importância do Traje à Vianesa e das Festas da Senhora D’Agonia, neste cliché datado de 1890, uma rapariga vestida à lavradeira de Viana, que à altura fazia parte da Casa Civil do Paço, e que pertencia a uma das mais distintas famílias do concelho minhoto, segura ao colo o então Infante Dom Manuel de Bragança, Duque de Beja e futuro e derradeiro Rei de Portugal como Dom Manuel II – na fotografia com apenas cinco meses de idade.
Tendo começado já as icónicas Festas da Senhora D’Agonia, em Viana do Castelo, tradição já com 232 anos, hoje é dia de centenas de raparigas e senhoras desfilarem no Cortejo da Mordomia vestidas com os trajes tradicionais de cada freguesia da capital minhota. Neste concorrido e emblemático desfile das mordomas na Romaria D’Agonia, progredindo pelas principais ruas do Centro Histórico de Viana do Castelo, as mulheres envergam os tradicionais e coloridos trajes à vianense de lavradeira, de mordoma, de noiva, de meia senhora ou com traje de festa, segurando na mão, envoltos num lenço de Viana, uma vela votiva ou um palmito e envergando ao peitilho os mais variados artefactos do chamado Ouro de Viana: gramalheiras, fios – alguns de três metros – com e sem pendente, colares de contas, peças, custódias, borboletas, cruzes de raios e de Malta, Corações de Viana em filigrana, brincos à Rainha, escravas, tudo em ouro e num valor que rondará os 14 milhões de euros.
Tradições seculares que enchem Portugal de orgulho!
Miguel Villas-Boas

26 de agosto de 2015

Da República e da Monarquia

Tivemos três Repúblicas até agora. A primeira de 1910 até ao golpe de estado de 1926, a segunda daí até ao 25 de Abril de 1974, a terceira, desde 74 até agora. Pela sua sucessão tumultuosa, pela presente e cavada crise, pelo sempre frustrado desenvolvimento social, torna-se evidente a necessidade de uma revisão.
Algumas das mais nefastas experiências do nosso passado político, é verdade, foram erradicadas. A desordem social e política da Primeira República não se sucedeu na seguinte formulação e, na Terceira República, não houve tanta perseguição aos adeptos da segunda. As formas extremadas de combate político foram, felizmente, subtraídas da nossa convivência. No entanto, durante mais da metade do século XX assistimos às réplicas dessas formas de combate político, sobretudo pela via das ditaduras à esquerda e à direita.
A meu ver, a tolerância política e cultural e a consequente convivência democrática são as heranças mais belas e frutíferas deste passado de cem anos, e os seus inversos - a intolerância, o individualismo político e o revolucionarismo - que foram as causas graves pelas quais a Europa e a sociedade portuguesa mais sofreram nos séculos XIX e XX, estão erradicados.
Hoje, convivemos democraticamente, sem que as maiorias esmaguem a voz e as práticas das minorias, a nossa sociedade é plural, mas há muito se tornou evidente a falta de uma organização no sistema político democrático conveniente à eficácia de seus propósitos. É necessário continuar com firmeza o que politicamente se tem mostrado eficaz, mas é também necessário sermos capazes de uma profunda reestruturação, para ganharmos a eficácia perante os objectivos da democracia e para que a continuidade do desenvolvimento social se torne irreversível. Quanto se perdeu em esforço e dinheiro pelo caminho das ziguezagueantes políticas acerca do que é fundamental (Saúde, Educação, Justiça)? Enquanto reformulamos a nossa existência social e cultural para uma nova sociedade e uma nova economia, temos de realizar referências estáveis ao nosso viver democrático, de outro modo, continuará o que tem sido geralmente expresso como problema: desconfiança, desemprego, baixa produtividade, corrupção, etc..
Porém, considero que a democracia portuguesa alcançou uma idade de passagem. Para transformarmos a situação presente, que envolve problemas sociais e económicos muito graves e, sobretudo, prolongados, para operar as transformações requeridas pelas várias expectativas do tecido social, a nível nacional e na pertença à União Europeia, as respostas adequadas terão de ser perspectivadas, já não com remendo sobre remendo, mas por uma profunda resposta democrática e por uma democracia melhor.
O desenho estrutural da política doméstica revela incompletude. As frequentes irresoluções, dilações e retornos não advêm do diálogo democrático mas de, digamos, oscilações, ora administrativas ora políticas. As reformas e as regulações não têm sido nem ágeis nem faseadas a longo prazo, de modo a suavizar inconvenientes delas derivadas. Deste modo, sem uma perspectiva institucional de longo prazo, o custo das mudanças é maximizado e, assim, muitas vezes, a eficácia da democracia é intermitente.
E enquanto os recursos e as circunstâncias oscilam, os objectivos são dispersados.
É, por isto, necessário adicionar na sociedade portuguesa uma instituição, apartidária, independente de interesses económicos, representante do todo nacional: a Instituição Real, propiciadora da permanente conversação democrática visando consensos estratégicos, sem os quais, todos os esforços se esvaem.

por Pedro Furtado Correia


Fonte: DN

25 de agosto de 2015

Boas-novas… Reais



Bilhete-postal do Tempo – ‘ah, bons velhos tempos!’ – em que não se partilhavam as notícias, mas antes se enviavam!
Que boa forma de receber novas sob os auspícios dos Reis de Portugal, mostrando que estava arreigada na iconografia popular a ideia de que com zelo cuidadoso os Monarcas olhavam pelo Seu Povo. Não se tratava de paternalismo, mas do reconhecimento de que o Rei é uma instituição que representa a Nação, verdadeiramente; que transporta consigo uma carga emblemática que faz todos sentirem-se parte de um todo, é isso:
O REI É A ENCARNAÇÃO DA NAÇÃO!
O Povo considera a Monarquia como sua! É um sentimento reflexo, entranhado, e, esse sim verdadeiro da Sociedade que é um corpo vivo, e não um agregado de indivíduos! Por isso só com a Restauração da Monarquia Portuguesa, só com o regresso do Reino de Portugal, só então tornará a haver representação verdadeira do Povo e da Nação!
Hoje é mínimo o número de votantes quando comparado com os eleitores inscritos o que revela esse distanciamento da maioria face à minoria que a domina, não por génio, mérito ou excelência intelectual, mas apenas porque se apropriou dos meios de poder e coerção. A história sempre confirmou isso: os mais pobres e os sem poder não têm como se afirmar quando não há aspirações materiais e espirituais comuns.
A Monarquia não provoca antagonismo inconciliável entre um Chefe de Estado e governo, assim como não empedra o Primeiro Cidadão como instrumento político de um governo da sua área ideológica. Numa república o chefe de Estado representa uma minoria, pois foi sufragado apenas por uma parte dos eleitores, pelo que não foi escolhido pelos que não votaram em si, pelos que se abstiveram – a maioria -, e pelos que anularam ou votaram em branco. Só um Rei representa realmente todos, sem sofisma da representação, pois o Monarca é o natural e, como tal, legítimo representante da Nação, da sua História, dos seus usos e costumes! No Rei a Nação se transfigura em Ser!
Há 110 anos, em 1905 – data do Postal – Reinava Sua Majestade Fidelíssima El-Rei Dom Carlos I de Portugal e a Rainha consorte era S.M. a Senhora Dona Amélia, o Anjo da Caridade!
Miguel Villas-Boas

24 de agosto de 2015

Há 600 anos, Ceuta. Há 500, Afonso de Albuquerque. Do Mediterrâneo para o Mundo


Há 600 anos, a 21 de agosto de 1415, D. João I tomou de assalto Ceuta. Cem anos depois, em 1515, morria Afonso de Albuquerque à vista de Goa. Entretanto Portugal abrira o Mundo à primeira globalização

No início do século XV, o mundo estava compartimentado e muitas civilizações viviam fechadas sobre si próprias com poucos contactos com o exterior. A conquista de Ceuta, em 1415, e a passagem do Cabo Bojador, em 1434, fizeram de Portugal o pioneiro da Expansão europeia e, consequentemente, da Globalização, um movimento que se tornou imparável e irreversível desde que Gil Eanes e os seus homens venceram o mito do Mar Tenebroso.

O tempo antes de se cruzarem os oceanos

A Eurásia constituía a área que tinha contactos mais globais, e muitos dos progressos dos Europeus resultaram da aprendizagem de invenções e criações asiáticas, como foi o caso do papel e das armas de fogo, inventados na China, ou dos algarismos, criados na Índia. No entanto, os povos da Europa desconheciam objectos como a porcelana, animais como o rinoceronte, e mesmo a religião budista, por exemplo, e tinham uma ideia muito imperfeita sobre a Índia, o seu território, as suas gentes e as suas crenças, apesar de consumirem intensamente as especiarias há mais de mil anos. Nessa época, o oceano Atlântico era um espaço por onde os homens não circulavam, salvo ao longo da costa europeia e no extremo noroeste africano. Além disso, nenhum ser humano sabia a configuração do planeta Terra, nem sequer o número de continentes ou de oceanos existentes.
Subsistiam dúvidas e acreditava-se em hipóteses fantásticas: a Terra era plana ou redonda? Tinha a maior parte da sua superfície coberta de água ou de terras emersas? Existiam seres fantásticos, como homens com quatro olhos, cara de cão ou só uma perna? E o mar nas zonas mais quentes fervia ou era habitado por monstros medonhos? Hipóteses que hoje nos parecem incríveis e disparatadas eram, afinal, a realidade do mundo exterior dos povos da Terra, independentemente do continente em que viviam.
A Europa beneficiava de se situar numa zona temperada e estimulante, num território menos sujeito a catástrofes naturais, e foi capaz de desenvolver uma sociedade global que, da Escandinávia ao Mediterrâneo e da Hispânia às terras da Moscóvia se organizava em sociedades assentes num sistema de três ordens (guerreiros, sacerdotes e trabalhadores), segundo a tradição indo-europeia; que partilhava uma religião comum, o Cristianismo, estruturada por uma instituição internacional hierarquizada, a Igreja; que dispunha de uma língua de comunicação falada por todas as elites, o latim, e um sistema de saber que circulava rapidamente e que estava estruturado em torno das universidades; e que desenvolvia um sistema comercial integrado ávido de metais preciosos e sedento de produtos que eram produzidos em mercados distantes, sobretudo as joias, os tecidos finos de seda e de algodão e as especiarias.

Ambiciosos, individualistas, empreendedores, crentes na superioridade da sua civilização e tendo a sua religião por absolutamente verdadeira, os europeus tinham as condições ideais para provocarem o desencravamento do mundo fragmentado dos alvores do século XV. Já haviam tentado sair dos seus limites pelas Cruzadas dos séculos XII e XIII, e tinham estado de novo à beira de atacar o Islão no século XIV, a partir da Península Ibérica.

Foi precisamente entre 1341 e 1345 que D. Afonso IV (r. 1325-1357) definiu a doutrina expansionista da coroa lusa, ao obter uma bula de Cruzada que reconhecia o direito de Portugal à conquista do reino de Fez, e que reclamava o senhorio das ilhas Canárias, sob o argumento da proximidade geográfica. Em meados de Trezentos, o rei português compreendia que o rectângulo peninsular era insuficiente e que Portugal tinha de se projectar para o exterior de acordo com as suas próprias características de potência marítima. Não sabemos se o monarca estava em condições de iniciar uma efectiva política de expansão ultramarina, mas é certo que o curso da História lhe bloqueou qualquer ousadia. Com efeito, em 1348 eclodiu a Grande Peste e a Europa mergulhou numa crise profunda, agravada por conflitos longos como a Guerra dos Cem Anos e o Grande Cisma.
Portugal foi o primeiro país a libertar-se desta crise e no início do século XV, abriu um novo capítulo da sua História ao sair dos seus limites continentais com a conquista do porto de Ceuta e a ocupação dos arquipélagos da Madeira e dos Açores. Depois, um membro da família real, o infante D. Henrique (1394-1460), não se conformou com os limites milenares da Cristandade e quis descobrir as terras para lá do cabo Bojador, a última porção de terra conhecida da civilização euro-mediterrânica. Buscava aliados militares para combater o Islão e novos mercados com quem pudesse comerciar, além de desejar conhecer esses territórios inexplorados e de dilatar a religião cristã. No entanto, a passagem do cabo parecia ser uma viagem para a morte e durante doze anos as tripulações enviadas pelo Infante não se atreveram a tentar a passagem.
Em 1434, finalmente, Gil Eanes e os seus homens venceram o medo e abriram uma nova era para a humanidade. Os Descobrimentos prosseguiram lentamente, ao longo do século XV, mas sempre imparáveis. A porta aberta em 1434 nunca mais se fechou, e as explorações marítimas nunca mais pararam e as tripulações nunca mais recearam monstros marinhos ou águas ferventes. Como se vê pelo mapa de Martelus Germanus, desenhado em 1490, os primeiros 60 anos de explorações marítimas foram marcados pelo reconhecimento da costa ocidental africana e do oceano Atlântico. Depois, porém, as viagens de Cristóvão Colombo (1492), Vasco da Gama (1497-1499) e Pedro Álvares Cabral (1500-1501) abriram novos horizontes, como nos testemunha o mapa de Cantino, composto em 1502. O rei D. Manuel I de Portugal (r.1495-1521) foi, por isso, o primeiro soberano do mundo a ter oficiais às suas ordens em quatro continentes diferentes.
Os Descobrimentos correspondem, pois, a uma Revolução Geográfica, que alterou radicalmente a relação do Homem com o planeta. Os seres humanos apreenderam, finalmente, qual era a configuração da Terra e abriram novas vias de circulação. O Atlântico, que fora uma barreira até ao século XV, a partir de Quinhentos tornou-se no grande eixo das comunicações inter-continentais. E homens, animais, plantas, objectos e ideias cruzaram o mundo em todas as direcções. Hábitos localizados em áreas restritas do Globo foram-se generalizando, lenta mas irreversivelmente, como sucedeu, por exemplo, com o consumo do açúcar, da pimenta e da canela, do gengibre e do cravo, do tabaco, do café, do chocolate, do chá, do algodão e das porcelanas ou com a utilização de armas de fogo.
Os Portugueses foram os pioneiros deste movimento globalizador. Iniciaram-no e foram um dos seus actores principais nos séculos seguintes. Seguiu-se-lhes Castela, no final do século XV, e a partir do século XVII as potências do Norte da Europa criaram os seus próprios impérios coloniais.
De facto, o mundo nunca mais foi o mesmo desde que Gil Eanes passou o cabo Bojador, em 1434, mas Portugal começara a mover-se antes – há 600 anos com a tomada de Ceuta, a sua primeira conquista fora do seu rectângulo peninsular. E em 1515, estavam montados os alicerces de um império pluri-continental, de escala quase planetária, quando faleceu Afonso de Albuquerque, à vista de Goa – foi há 500 anos.
É sobre estas duas efemérides e a sua importância para a definição do Portugal contemporâneo que se debruça este texto.

Tudo começou com a conquista de Ceuta

A conquista de Ceuta, a 21 de Agosto de 1415, foi, sem dúvida, o acto fundacional da Expansão Portuguesa e deu origem a um secular império pluri-continental.
Nos anos seguintes a coroa incorporou definitivamente o arquipélago da Madeira nos seus domínios (1419-1425) e localizou de vez as ilhas dos Açores (1427), que logo ficaram sob a sua alçada política. Nenhum príncipe da cristandade, incluindo o rei de Castela, se opôs à tomada destes espaços insulares pelos Portugueses, o que evidencia uma percepção generalizada entre os Europeus de que Portugal era uma potência marítima, cujo espaço natural se estendia às águas adjacentes. Podemos dizer, assim, que Portugal se completou nos anos de 1415-1430, tendo então adquirido a configuração natural que perdurou até aos nossos dias. Só depois é que Gil Eanes venceu o cabo Bojador, e o país se estendeu para lá dos seus limites naturais e iniciou a aventura dos Descobrimentos.
Deste modo, o período que medeia entre 1415 e 1434, embora corresponda ao início da Expansão marítima – um ponto de partida, para uma nova fase da História de Portugal – também deve ser encarado como a fase de conclusão da definição territorial do próprio Portugal – o ponto de chegada do processo histórico iniciado por D. Afonso Henriques (r. 1143-1185) no longínquo século XII.
Quando Portugal ganhou a independência ao rei de Leão e Castela, o seu território era pequeno e estava confinado ao finisterra da cristandade. Só as terras a norte do Mondego estavam seguras e Leiria era um bastião fronteiriço em luta permanente com as hostes muçulmanas. O território do novo reino seria menos de metade da superfície do espaço peninsular contemporâneo. Além da sua pequenez, a monarquia lusa estava isolada entre o mar oceano, as lanças mouras e os apetites hegemónicos do vizinho leonês que sempre desejou reaver o antigo condado portucalense.
No século XII, era raríssima a navegação que passava ao largo da costa portuguesa, pois as cidades cristãs do Mediterrâneo não comunicavam por mar com as urbes do Norte da Europa, e as rotas mercantis islâmicas também eram predominantemente terrestres. O mar servia apenas pequenas comunidades piscatórias, mas a independência face a Leão criou desde logo uma nova necessidade, pois era fundamental abrir linhas de comunicação com os outros reinos e principados da cristandade, livres da interferência leonesa. Assim, o mar ganhou de imediato uma importância crucial para o jovem reino luso, e os príncipes do Norte europeu cedo se aperceberam que o Oeste peninsular tinha uma nova configuração política. A conquista de Lisboa, em 1147, contou com a ajuda de soldados do Norte que iam para a 2ª Cruzada, e nos anos seguintes, desenvolveram-se trocas comerciais, ainda que incipientemente, mas começaram a definir-se linhas estratégicas duradouras.
O reinado de D. Afonso Henriques foi marcado pelo avanço definitivo da linha de fronteira para o vale do Tejo e pela primeira ocupação de terras alentejanas; fracassada a tentativa de alargar os domínios lusos para oriente, em direcção à Andaluzia, como teria sucedido se depois da tomada de Trujillo, se tivesse conquistado Badajoz (1169), o rei Fundador, idoso e debilitado pelo acidente grave que sofreu, teve de conter o genro leonês ao mesmo tempo que enfrentava a reunificação do Al-andaluz pelos Almóadas. Ainda assim, o monarca também organizou as coisas do mar e a sua esquadra, comandada por D. Fuas Roupinho, terá andado pelo estreito de Gibraltar, ao mesmo tempo que a diplomacia lusa urdia as primeiras ligações com as potências do Canal da Mancha, o que levou mesmo ao casamento da infanta D. Teresa com Filipe da Alsácia, conde da Flandres.
Significa isto que Portugal se assumiu desde o início da sua existência como uma potência marítima, mesmo antes de a sua costa ser usada pela navegação mercantil europeia de longo curso. Não podemos saber, hoje, o que pensavam os reis e os seus conselheiros sobre esta matéria, mas podemos distinguir um modelo de diplomacia coerente ao longo de tempo que acabaria por desembocar na conquista de Ceuta e no início dos Descobrimentos. Na verdade, o Estreito de Gibraltar e o Canal da Mancha logo se mostraram como as fronteiras estratégicas de Portugal, ainda que as armas lusas só controlassem a costa desde a foz do rio Minho, até à foz do Guadiana, a partir de meados do século XIII, depois da conquista de Faro, em 1249.
E a cristandade também foi reconhecendo a importância estratégica de Portugal, como se percebe pela embaixada que o rei João de Inglaterra (r. 1199-1216) enviou a Coimbra, em 1199, tentando obter uma noiva portuguesa. D. Sancho I (r. 1185-1211) não atendeu ao pedido do monarca inglês, e no século XIII Portugal aproximou-se preferencialmente da França; embora nenhuma infanta portuguesa tenha casado com soberanos gauleses, os reis D. Sancho II (r. 1223-1248) e D. Afonso III (r. 1248-1279) eram primos co-irmãos do rei Luís IX de França (r. 1226-1270). Na primeira metade do século XIII infantas e infantes de Portugal casaram com vários titulares da Flandres e da costa francesa e duas portuguesas foram rainhas da Dinamarca.
A partir de meados do século XIII Portugal deixou de ter infantes sobejantes para enviar para o Atlântico norte, pois os monarcas tiveram poucos filhos, e estes foram necessários para a diplomacia peninsular, mas, entretanto, as relações marítimas de Portugal já se tinham aprofundado por outras vias. Com efeito, ao mesmo tempo que se fixava o território peninsular, entre 1249 e 1297, através de guerras e negociações com Castela, desenvolvia-se o comércio externo pelo mar, como forma de consolidar a independência do reino.
A via marítima assegurava o contacto directo com o resto da Cristandade e do mundo sem a interferência das monarquias hispânicas rivais. O avanço da Reconquista, que circunscreveu o Islão ibérico ao reino de Granada permitiu o desenvolvimento de novas rotas navais entre o Mediterrâneo e o Atlântico Norte e Lisboa ganhou um novo protagonismo como um dos portos preferenciais para o apoio a esses novos circuitos mercantis. Pela primeira vez, Lisboa e Portugal ganhavam uma centralidade no contexto europeu. No reinado de D. Dinis (r. 1279-1325) já eram muitas as comunidades de mercadores estrangeiros que estavam instaladas na cidade Lisboa, tanto de origem mediterrânica como vindas do Norte.

Sair dos limites da mais antiga fronteira do mundo

A celebração do Tratado de Alcanizes, em 1297, definiu de vez a fronteira luso-castelhana (que hoje é a mais antiga do mundo) e embora sobreviessem novas guerras com Castela, a configuração do território luso nunca esteve verdadeiramente em questão – foi a própria existência de Portugal que esteve em risco, principalmente no final da centúria. No entanto, a definição do rectângulo peninsular não sossegou a monarquia, pois pressentia-se que o país não estava ainda completado. Nestes anos de Trezentos, a ilha da Madeira começou a ser visitada regularmente e passou a ser correctamente localizada pelos cartógrafos europeus, mas no reinado dionisiano, as ilhas ainda não despertaram o interesse da coroa, pelo menos de forma visível.
No entanto, as pulsões expansionistas já se faziam sentir e o final do reinado de D. Dinis é marcado por uma série de decisões que potenciavam a intervenção dos Portugueses nos mares: ao criar a Ordem de Cristo para substituir a do Templo em Portugal, o rei estabeleceu a sua sede em Castro Marim, precisamente a localidade lusa mais próxima das terras dos mouros; além disso criou o almirantado e organizou uma esquadra de guerra permanente, e ainda obteve do papa uma bula de cruzada que lhe atribuía rendas eclesiásticas para organizar ataques de flagelação à costa africana. O monarca não manifestava um claro propósito de conquista ultramarina, mas dotava o reino de meios militares e de uma estratégia que reforçavam o papel de Portugal como potência marítima, e colocava os territórios muçulmanos na mira das armas lusas.
D. Afonso IV começou por enfrentar a última grande ameaça islâmica que ele próprio ajudou a travar na batalha do Salado, e a seguir o monarca definiu, como referi no início destas linhas, o que seriam, afinal, os grandes rumos da expansão ultramarina portuguesa. Perante o colosso castelhano, a obtenção de mais territórios e de mais riquezas teria que ser sempre pelo mar, e nunca poderia existir expansão marítima sem o domínio das ilhas adjacentes. Quer isto dizer que em meados de Trezentos, a coroa já estava consciente de que a posse dos espaços insulares vizinhos era fundamental para poder afirmar a sua dimensão marítima.
O facto de o reino ver reconhecido pela Santa Sé o direito de conquistar o reino de Fez mostra-nos que continuava a estender a sua fronteira estratégica até ao Estreito de Gibraltar. Portugal participava, assim, da geo-estratégia mediterrânica, apesar de ser banhado apenas pelas águas do Atlântico, o que definia já uma outra característica que se prolongou até aos nossos dias, pois ainda hoje o nosso país é membro de organizações internacionais de países mediterrânicos, apesar de continuar a não ter uma fronteira física com aquele mar. A expedição ao Estreito de Gibraltar, em 1415, acto fundador da Expansão Portuguesa, foi, pois, a realização de um objectivo previsto pela coroa lusa desde os tempos da sua fundação, e por isso, pode ser vista também como a conclusão de um processo secular.
As atenções de D. Afonso IV também estavam focadas para a fronteira marítima do Norte e foi durante o seu reinado que se iniciou uma mudança nas relações estratégicas com o Canal da Mancha. Enquanto a França consolidava a aliança com Castela, Portugal iniciava uma aproximação à Inglaterra, que esta também desejava. Chegou a negociar-se um consórcio entre as famílias reais dos dois reinos, mas embora este não se concretizasse, as duas monarquias continuaram a aproximar-se – dois reinos de vocação marítima viam com interesse a ajuda mútua face aos vizinhos. E o primeiro tratado anglo-luso tardou pouco, pois foi assinado dezasseis anos depois da morte de D. Afonso IV.
A peste negra e os múltiplos conflitos europeus perturbaram de sobremaneira a Cristandade na segunda metade do século XIV e Portugal foi ainda afectado pela crise castelhana que sobreveio com a tomada do poder pelos Trastâmaras, em 1369, e o envolvimento de Castela em conflitos com a Inglaterra. Sucederam-se as guerras e o reino de Portugal esteve à beira do colapso, após as campanhas fernandinas, mas mesmo nesse contexto de crise, os reis não descuraram a dimensão marítima da monarquia, pois continuaram a proclamar os seus direitos sobre as ilhas Canárias, em concorrência com Castela, e continuaram a obter bulas de Cruzada contra o reino de Fez.
Este esforço diplomático não foi em vão, pois muito contribuiu decerto para que D. João I tivesse ocupado Ceuta e a ilha da Madeira sem que nenhuma outra monarquia reclamasse, nem sequer Castela. Pelo contrário, a vitória de Ceuta foi festejada por toda a cristandade e Portugal ganhou maior reconhecimento pelo facto de ter uma nova frente de luta permanente contra os islamitas; o caso da Madeira foi visto por todos com naturalidade, ou mesmo indiferença e o mesmo se passou depois, quando se iniciou o povoamento dos Açores.
Quer isto dizer que, ao longo do século XIV, Portugal ganhou o reconhecimento europeu da sua condição de potência marítima, naturalmente aliada à Inglaterra e detentora do senhorio dos espaços insulares existentes no mar alto. Somente as Canárias, mais próximas da costa africana continuaram a ser disputadas com Castela, até que D. Afonso V (r. 1438-1481) cedeu a sua conquista aos castelhanos, quando o arquipélago já não era necessário e quando a coroa lusa dominava todo o Atlântico.
Por tudo isto, a expedição de Ceuta foi muito mais que um acto inaugural – em 1415 Portugal completava mais de dois séculos e meio de História, antes de se projectar para a aventura oceânica, que começaria dezanove anos mais tarde, fruto da pertinácia do infante D. Henrique e da coragem de Gil Eanes e os seus homens. Com a ocupação de Ceuta, D. João I completava igualmente o posicionamento geo-estratégico do seu reino. De facto, o monarca tinha consolidado a fronteira setentrional através da aliança com a Inglaterra, e agora estendia os domínios de Portugal até à sua fronteira natural, o Estreito de Gibraltar.
Ofuscada pelo brilho do processo expansionista, a historiografia tem visto o caso de Ceuta, como referi, sobretudo, como um acto fundacional e, por isso, relaciona a expedição com o sonho da coroa lusa de conquistar o reino de Fez. Embora esse desejo existisse indubitavelmente, tendo sido acarinhado por diversos monarcas portugueses, a verdade é que o feito de Ceuta não se esgota nesse espreitar do sertão marroquino. O cronista Gomes Eanes de Zurara deixou-nos uma expressão lapidar: “Ceuta é a chave do Mediterrâneo”; trata-se, em meu entender, de uma referência clara à verdadeira importância da cidade africana no contexto da estratégia lusa do início de Quatrocentos.
Com efeito, a ocupação de Ceuta tem de ser vista também como o reforço da presença portuguesa no comércio entre o Mediterrâneo e o Atlântico Norte, que começara a ganhar relevo uns 130 anos antes, quando Lisboa se tornara num porto de escala fundamental nas relações comerciais Norte/Sul da Cristandade. Assim, no primeiro avanço para lá dos seus limites continentais, Portugal afirmou-se como uma potência marítima no quadro tradicional do mundo euro-mediterrânico.

Depois de Ceuta, espreitar o desconhecido

O senhorio de Ceuta beneficiou muito a navegação cristã de longo curso, até porque nesta época o reino de Granada ainda dominava Gibraltar. A crise de 1437, provocada pelo fracasso da expedição do infante D. Henrique e o cativeiro do infante D. Fernando revelou de forma clara a importância da cidade africana como porto de mar. Como é sabido, a hoste portuguesa foi cercada pelos mouros à vista de Tânger e só pôde regressar aos navios com a promessa de que Ceuta seria devolvida ao reino de Fez, tendo o infante D. Fernando ficado por refém até que o acordo se concretizasse. A maior parte das forças sócio-políticas do reino manifestaram-se contra a entrega da cidade, assim como os principais agentes económicos, nomeadamente os grandes mercadores de Lisboa e do Porto. Além disso, as outras potências do Mediterrâneo Ocidental também tentaram evitar que os Portugueses largassem Ceuta.
Em 1441, D. Pedro, então regente da coroa, enviou uma armada para tratar da entrega da cidade e do resgate do irmão, mas os navios foram atacados por uma armada genovesa, que só se afastou depois do embaixador português ter perecido em combate. D. Pedro chegara à regência com o apoio da cidade de Lisboa, e depois deste incidente não voltou a tentar trocar Ceuta por D. Fernando, e Portugal nunca mais guerreou com Gènova, tal como nunca o fizera antes. Portugal só conquistou uma segunda posição marroquina em 1458, quarenta e três anos depois da expedição de Ceuta, mas esta cidade não era uma peça perdida numa conquista interrompida, mas antes a escápula que muito beneficiava toda a navegação cristã.
Com a ocupação de Ceuta, a navegação portuguesa aumentou de intensidade e a circulação pelas águas a sul do reino tornou-se mais frequente, e as ilhas ganharam um novo interesse, tanto para a coroa como para os seus súbditos. Assim, depois de concretizar a sua dimensão mediterrânica, Portugal completou a sua dimensão atlântica ao iniciar o povoamento das ilhas da Madeira e do Porto Santo. E enquanto as ilhas começavam a ser incorporadas nos domínios d’el-rei, o infante D. Henrique já espreitava o desconhecido.
É esta, em meu entender, a importância da conquista de Ceuta – um momento chave que fecha e abre simultaneamente diferentes dinâmicas da História de Portugal. O país ficou mais definido e, a seguir, projectou-se para o mundo.
Fonte: Observador

22 de agosto de 2015

Ceuta 1415 - 6. Nasce o Portugal de além-mar

Ceuta_Conquista_5.jpg
O batel de João Fogaça foi o primeiro a rumar à praia, para onde Rui Gonçalves saltou sem delongas. Começou a combater os mouros com tal bravura que os fez recuar, abrindo espaço para o desembarque dos outros batéis onde vinha o Infante D. Henrique. Eram cerca de cento e cinquenta portugueses que se iam progressivamente superiorizando aos mouros, empurrando-os na direcção da porta da muralha. O Infante apercebeu-se então da presença entre os combatentes do seu irmão D. Duarte, que não aguantara a espera e se escapara da companhia de El-Rei para se juntar aos homens da frente. No meio da peleja, um mouro de robusta compleição levantou uma grande pedra e lançou-a à cabeça de Vasco Martins Albergaria, fazendo lhe saltar o bacinete. Logo de raiva, o português trespassou o infiel com uma lança. Vendo isto, os outros mouros bateram em retirada para dentro da muralha com os entusiasmados cristãos no seu encalce. Acabou por ser o próprio Albergaria a conseguir aquilo que todos ambicionavam: Entrar em primeiro na porta de Almina. “Já vai o de Albergaria” – gritava ele orgulhoso do seu feito. Pouco depois entravam também os infantes , o conde de Barcelos e, com eles, cerca de quinhentos homens.

Salah ben Salah tardava a reagir e quando deu ordem para encerrarem todas as portas foi informado de que havia já centenas de cristãos espalhados pela cidade. Sabia que dificilmente lhes poderia resistir.
Ceuta_conquista4.jpgO grosso da armada, que ainda aguardava nos navios a ordem de desembarque, não resistiu à impaciência, dirigiram-se para terra, desembarcaram e subiram praia acima em direcção à porta de Almina, já tomada. Vasco Fernandes de Ataíde foi com alguns outros por fora tentar derribar uma outra porta. A missão era arriscada porque enquanto os portugueses indefesos partiam as tábuas, os mouros disparavam as bestas e arremessavam pedras de cima da muralha, resultando alguns mortos entre os cristãos. Lá dentro, os infantes decidiram separar o grupo: O conde, a bandeira de D. Henrique e Martim Afonso de Melo seguiram cada um por seu lado, enquanto D. Duarte e D. Henrique foram tomar todas as elevações daquela parte de Almina. O sol, já alto e a temperatura a subir (estavam no norte de África em pleno verão) levaram D. Duarte a desfazer-se de parte da sua armadura, ficando apenas com a cota de malha. D. Henrique, que ficara um pouco para trás acabou por fazer o mesmo e dirigiu-se à rua Direita - uma rua estreita que descia da alfandega até ao Castelo. Aí chegado, viu um grupo de cristãos que fugia rua acima perseguido pelos mouros. O Infante encarou os infiéis e começou a lutar com ímpeto tal que os fez “virar as espáduas para onde antes traziam os rostos”. Acompanhado dos portugueses que antes fugiam, foi descendo a rua até encurralar os mouros junto ao Castelo. Aí a luta aumentou de intensidade, tendo caído ferido Fernando Chamorro.

El-Rei, o infante D. Pedro e a restante armada tinham já desembarcado. D. João I, ferido numa perna ficou a comandar as operações perto da porta de Almina. Enquanto muitos dos homens combatiam com bravura, alguns outros dedicavam-se ao esbulho entrando nas casas da moirama e saqueando quanto podiam. Entretanto, a combater os mouros encurralados ao fundo da rua Direita já só estava D. Henrique com quatro homens. Os restantes não tinham resistido ao cansaço e ao muito calor e procuravam os poços da cidade para matar a sede. Os mouros decidiram então sair por uma porta do Castelo com um estreito corredor que lhes dava acesso à vila de fora. Temerariamente, o Infante e os quatro que o acompanhavam seguiram atrás deles com o objectivo de os empurrar para fora da cidade. Correram grande risco porque, por cima deles, as muralhas do castelo estavam apejadas de mouros que disparavam as suas armas e arremessavam grandes pedras. D. Henrique continuou a combater energicamente e os mouros acabaram por fugir para a vila de fora, permitindo aos cristãos fechar aquela porta da cidade. Entre os portugueses, espalhava-se a notícia de que o Infante já estaria morto, pois entrara há mais de duas horas pela porta do Castelo de onde não tornara a sair. Mais ninguém ali ousava entrar até que Garcia Moniz foi em busca do seu senhor. Convenceu-o a regressar ao centro da cidade onde D. Henrique, incansável, se envolveu em mais umas quantas pelejas. Desafortunado foi Vasco Fernandes de Ataíde que, informado do desaparecimento do Infante, dirigiu-se corajosamente para dentro da porta do Castelo para o resgatar, ali perdendo a vida.

D. João I estava já na mesquita principal – que mais tarde viria a ser a catedral – e mandou chamar o Infante, aliviado por saber que o seu filho estava vivo. Dispos-se a arma-lo cavaleiro logo ali mas D. Henrique, revelando o seu elevado carácter, respondeu que preferia faze-lo conjuntamente com os seus irmãos e respeitando a ordem de nascimento. Começava o dia a chegar ao fim e já não restavam mouros dentro da cidade. Faltava todavia tomar o Castelo, batalha que ficava para o dia seguinte. Nisto, um dos sentinelas que ali estavam reparou que nas ameias da muralha iam posando muitos pássaros, sinal de que dificilmente lá poderia estar alguém. El-Rei, encarregou então João Vaz de Almada de colocar a bandeira de S. Vicente na torre do Castelo (permanece em Ceuta ainda hoje). Quando se preparavam para deitar a porta abaixo, dois mercadores anunciaram, de cima do muro, que o castelo estava já vazio. Todos os mouros tinham fugido para o sertão, incluindo Salah ben Salah. Abriram-lhes depois a porta e os portugueses ocuparam imediatamente todo o castelo, apoderando-se das sua muitas e valiosas riquezas. A cidade de Ceuta estava totalmente conquistada com o cair da noite de 21 de Agosto de 1415. Faz hoje 600 anos.

Ceuta_Conquista_6.jpg
No dia seguinte, depois de enviar um mensageiro com as novidades da conquista ao rei Fernando de Aragão, que fora também o regente em Castela, realizou-se a cerimónia de investidura dos novos cavaleiros. El-Rei investiu os infantes, D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique que, por sua vez, foram armar cavaleiros todos os outros. A preocupação era agora a dificílima defesa da praça de Ceuta dos previsíveis ataques lançados pelo reino de Fez. Para primeiro capitão da cidade foi designado D. Pedro de Meneses que viria a conduzir a sua árdua missão de forma exemplar, tendo sido agraciado com o título de conde de Vila Real. Aqueles que heroicamente ficaram em Ceuta viram o restante da armada partir de regresso a 2 de Setembro. Chegados a Tavira, D. João I fez mercê a seus filhos dos títulos de duque de Coimbra a D. Pedro e de duque de Viseu e senhor da Covilhã a D. Henrique. Para D. Duarte, grandeza maior não poderia haver do que a herança dos Reinos de Portugal e do Algarve, a partir de então, acrescida do senhorio de Ceuta.

Baseado nos relatos da “Crónica da Tomada de Ceuta por El Rei D. João I”. Gomes Eanes de Zurara terminou a sua magnífica obra em Silves, a 25 de Março de 1450, 35 anos depois do grandioso feito português.
Lusíadas _IV.jpg
João Ferreira do Amaral, em 21.08.15

Fonte: 31 da Armada

21 de agosto de 2015

Visita Guiada (IV) à Torre do Tombo



Em 1415, há exactamente 600 anos, Portugal conquistava Ceuta. Foi o início da Expansão Marítima que haveria de transformar a História. Uma pequena nação, entalada entre um velho inimigo e o imenso Atlântico, fez-se ao mar mais perigoso e desconhecido do planeta e abriu novos mundos ao mundo.

Silvestre Lacerda, o guardião-mor da nossa memória colectiva, abre-nos, excepcionalmente, as portas da Torre do Tombo e guia-nos pelo cofre-forte de documentos-testemunhos que mobilizam investigadores dos quatro cantos do mundo. O historiador João Paulo Oliveira e Costa, ancorado na emocionante presença de alguns desses tesouros maiores, como a "Crónica da Tomada de Ceuta", o "Tratado de Tordesilhas" e a "Carta de Pêro Vaz de Caminha", guia-nos pelo alucinante Séc. XV português.

"Ceuta deu o sinal de que seria no mar que Portugal encontraria alternativas"


Foi a 21 de Agosto de 1415 que as hostes portuguesas entraram em Ceuta. Fácil de conquistar, foi difícil de manter. João Gouveia Monteiro, autor do livro 1415 - A Conquista de Ceuta, relembra epopeia.

Ceuta foi conquistada em 1415 e essa data é tida como o ponto de partida do Império Português. Mas parece muito mais prolongamento da Reconquista na Península Ibérica do que primórdio da expansão marítima. Concorda?
Acho que foi as duas coisas. Enquanto operação que visava legitimar uma nova dinastia e saciar a avidez de glória da jovem nobreza, assim como alargar o território para um espaço controlado pelos muçulmanos (sem com isso afrontar Castela), é irresistível encará-la como um prolongamento da Reconquista. Mas Ceuta foi também o ponto de partida simbólico da expansão portuguesa, deu o primeiro sinal de que seria no mar que Portugal encontraria alternativas para as graves dificuldades, por exemplo financeiras, que assolavam o reino.

Como historiador, foi arriscado ficcionar, assumindo a entidade de Gomes Eanes de Zurara, a tomada da praça magrebina? Preferiu chegar melhor ao grande público mesmo ficado sujeito a críticas de colegas da academia mais conservadores?
Foi um "risco sustentado" [risos] de quem escreve para o grande público. Foi o factor surpresa que pode entusiasmar o leitor de uma obra de história. E foi ainda uma homenagem aos nossos cronistas. Sem Fernão Lopes e Zurara, o nosso conhecimento da história medieval seria muitíssimo mais pobre. E, além de grandes historiadores, eles foram excelentes escritores. O desafio da Manuscrito passava também por fazer um livro diferente, e eu e o António Martins Costa respondemos assim, sem prejuízo algum do rigor da investigação.

Conta vários episódios do cerco mouro a Ceuta. Era caro defendê-la e difícil encontrar gente para a habitar, certo?
Foi muito difícil manter a cidade, que foi cercada logo nos dias seguintes. A maior parte dos 2500 homens que formaram a primeira guarnição ficou em Ceuta com o coração apertado. A Coroa teve de recorrer a cobranças excepcionais e à mobilização de criminosos a quem seria reduzida a pena se servissem em África. Ceuta foi uma "escola de guerra", e o esforço organizativo para defender este enclave durante 43 anos (até Alcácer-Ceguer) ajudou a forjar o sucesso da expansão portuguesa.

No fim de contas, Ceuta foi uma aventura menor da nossa história ou é abusivo dizer isso?
A conquista de Ceuta foi a maior e mais longamente preparada expedição militar da história medieval portuguesa. O assalto, em si, resolveu-se num único dia, porque a resistência da cidade foi fraca. No entanto, a complexidade da operação foi enorme, e isso reflectiu-se nas hesitações e contradições que precederam o ataque, e que se prolongaram na discussão sobre manter ou não a praça e acerca da escolha do seu primeiro governador (o notável conde D. Pedro de Meneses).

Hoje, Ceuta é espanhola porque a população em 1640 preferiu os Filipes a D. João IV, caso único no Império. Existe uma explicação fácil para essa recusa de Portugal? Foi porque Espanha defenderia melhor a praça e não a abandonaria como Portugal fez nos séculos XVII e XVIII em relação às outras praças e possessões marroquinas?
Não sou especialista na época, mas julgo que isso terá resultado de uma conjugação de factores. Desde logo, a vizinhança territorial de Espanha e a presença de muitos colonos e soldados espanhóis no final do período filipino, o que facilitou a nomeação do marquês de Aranda como governador. Em 1668, ano do tratado de Lisboa, a estratégia ultramarina portuguesa também estava já muito mais orientada para o Brasil do que para África ou para o Oriente.

Fonte: DN

19 de agosto de 2015

Como devolver a dignidade à Chefia de Estado?

CR_11_Cartoon_José Abrantes.jpg


Como poderá Portugal voltar a emparceirar com a elite das nações europeias e evitar os tristes espectáculos dos protocandidatos com as suas clientelas e partidos acotovelando-se ávidos para a cadeira de Belém? Acontece que só a instituição real pode ambicionar representar a nossa identidade e unidade transgeracional como Nação, sem clientelas, para além e aquém dos calendários eleitorais. Acontece que Portugal, nação antiga de quase 900 anos de história, possui, como a maior parte dos Países mais civilizados da Europa, uma Casa Real que corporiza Coroa Portuguesa velha como a nossa História. Refirmo-me a S.A.R. Dom Duarte, Duque de Bragança, que em 2006 o Estado português validou como o único e legitimo herdeiro do trono da nossa Pátria ancestral. O que justifica nesta corrida tanto sectarismo, ganância e intriga?
Desenho José Abrantes

João Távora

Fonte: Real Associação de Lisboa

18 de agosto de 2015

Presidentes e presidentas!

É um rodopio, um carrossel, tem girafas, camelos, cavalicoques, burrinhos, caras de pau, andam à volta, o pessoal escolhe-os, monta-se neles, só mais uma voltinha, parece uma brincadeira mas não é.


É o árbitro, viva o árbitro, fora o árbitro, foi eleito pela maioria, vai apitar o jogo entre a maioria e a minoria! Quem irá ganhar?!


Ai, é muito boa pessoa, é católica, republicana e socialista. Só não é laica!


Três repúblicas, três orfandades, cada qual com o seu padrasto. A quem tudo é permitido. Na primeira reinou Afonso Costa, na segunda Salazar e nesta terceira reina ainda Mário Soares!


É uma reinação!



Saudações monárquicas

JSM


Fonte:  Interregno

17 de agosto de 2015

Adriano Moreira na SIC N

4890819_0Md3N.png


Numa entrevista transmitida pela SIC N, o Prof. Adriano Moreira referiu-se a temas da actualidade, entre estes a questão premente do vazio absoluto quanto à falta de estadistas, pecha que infelizmente tomou conta de todos os sistemas representativos, desde Lisboa a Varsóvia e de Londres a Sofia e porque não ousar dizê-lo?, a Atenas. De uma forma sumamente elegante, A.M.  arrasou o Sr. Hollande e a sua estapafúrdia pequena ideia brilhante de isolar a Alemanha, para isso recorrendo ao directório dos fundadores da CEE. Estejamos desde este momento descansados, a Alemanha não o permitirá. Se é disso mesmo que deveremos falar como incontornável manifestação da reserva mental do presidente francês, o que mais nos importa tratar é aquele horizonte próximo, o de 4 de Outubro e os dias que se lhe seguirão. A isto se limita a estreiteza de visão de quem alternadamente tem comandado este país.

Na situação em que a Europa se encontra, dois meses são uma eternidade, havendo obrigatoriamente a considerar algumas hipóteses que decerto todos conhecemos. Pouco interessará agora discutir ou não o caminho único ditado pelas evidências de uma conjuntura difícil. Num momento em que os acontecimentos no Médio Oriente vão acumulando atrocidades sobre a péssima política que a NATO insiste em impor nos últimos anos - Síria, Iraque, Líbia, Ucrânia, Cáucaso -, o Mediterrâneo surge como segunda frente, não podendo a Europa insistir em ignorar os boat people que quotidianamente chegam às praias do flanco sul da União Europeia. Isto, quando muito mais a norte, as entradas do túnel da Mancha já se encontram sob insuportável pressão de migrantes em busca daquilo que, gostem ou não os situacionistas de encarar como realidade, é o Estado Social. Bem vistos os factos, tudo se resume a este factor: o Estado Social, ou por palavras internacionalmente reconhecidas, o Welfare State.

Entretanto, em Portugal estamos entregues a esterilidades eleiçoeiras, como se os nossos problemas fossem imunes à situação geral que sem convite nos entra pela sala em cada telejornal. Segundo declara A. M., tanto Pedro Passos Coelho como António Costa estarão então na iminência da suprema prova de fogo que segundo todas as sondagens têm indicado, chegará na própria noite eleitoral. É a sua reacção perante os resultados, que informará o país - e a Europa - se temos ou não temos estadistas. A eles caberá a ingrata tarefa da conciliação do aparentemente inconciliável, de dar remédio a tudo o que neste preciso momento parece ser irremediável. Manifesto o meu profundo cepticismo, este regime é - como desde a sua génese sempre foi -  uma fedorenta mixórdia de interesses entrecruzados de ganância e total inépcia ditada por larvar ignorância.

Adriano Moreira voltou a referir aquela evidência que todos conhecemos, embora alguns insistam fingir ignorar: desde a fatídica tarde do 1º de Fevereiro de 1908, o país que ainda conhecemos por Portugal, deixou de poder contar com o decisivo Poder Moderador que a Carta atribuía ao Chefe do Estado, o Rei. Sublinhando ainda mais a mensagem, o antigo presidente do CDS mencionou o papel desempenhado por Isabel II, que teoricamente sem poderes reais, merece sempre aquele bem conhecido ...listen the Queen.

Infelizmente não podemos aconselhar os nossos sofríveis políticos a fazerem o mesmo, neste momento entretendo-se com mais um afiar de facas para mais um agora é que é!,difundindo esperanças sobre gente a quem falta qualquer padrão de idoneidade, quanto mais de representação de uma história quase milenar. Lembram-se dos excitados de há dez anos, quando enchiam resmas e resmas de páginas com sonhos de uma 4ª república, a presidencialista do Sr. Cavaco Silva? Onde isso já vai...

Adriano Moreira conta com 93 anos de idade e apesar de repetir-se numa meia dúzia de temas, há que colocar a questão: quando Salazar deixou S. Bento (1968), o que teria sucedido a Portugal se em vez do indeciso Marcelo, Américo Tomás tivesse escolhido A.M.?

Nuno Castelo-Branco