25 de abril de 2016

Quando a arrogante desfaçatez é ilimitada

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Uma das primeiras medidas do governo Costa (Afonso), foi a do confisco das propriedades da Casa de Bragança, incluindo estes os bens pessoais de D. Manuel II, de D. Amélia, de D. Maria Pia e do infante D. Afonso Henriques e os patrimoniais que faziam parte do único morgadio existente e constitucionalmente consagrado no país. 

Os ingleses ficaram furiosos e enviaram uma seca mensagem ao governo do dito Costa (Afonso), avisando-o de que não aceitariam tal coisa, não se ralando minimamente em esticar o tempo e à inglesa deixar o "novo regime" empastelar meses a fio sem o urgente reconhecimento internacional. Há que não esquecer que naquela época Portugal não estava reduzido à sua actual e mais ínfima dimensão, contando com um Ultramar que seria facilmente ocupado pelas potências com quem tínhamos relações. Como seria normal, não sendo a república reconhecida por um único Estado, os navios portugueses eram obrigados a deixar os portos nacionais com a flâmula inspirada no pano da carbonária - o que ainda temos como bandeira nacional - e passadas as águas territoriais, logo hasteavam a bandeira azul e branca, impedindo assim serem considerados navios piratas ou algo do género. Muito mais tarde, na Paris mergulhada na Primeira Guerra Mundial, em 1916 João Chagas veria com choque e espanto a antiga bandeira esvoaçando nos principais hotéis da capital francesa, prova de que para a maioria dos estrangeiros, a república era uma existência simbolicamente ignorada e na prática assim permaneceu mesmo até depois do fim da guerra. Os postais alegóricos demonstram-no.

Entretanto, ainda nos finais de 1910, em Lisboa e por intermédio dos seus correligionários a quem foram concedidos pelouros de decisão governamental, o Costa (Afonso) ia fazendo calmamente o seu programa que ia muito para além da declaração de guerra à Igreja, o ataque e saque de conventos, espancamento ou assassinato de adversários reais ou imaginários, destruição de jornais, adulteração e cerceamento dos cadernos eleitorais. Colocou bens pessoais da realeza deposta em hasta pública, algo que segundo as felizmente existentes más-línguas do costume, terá beneficiado muita gente que lhe era próxima. 

Como se vê, os actuais maus hábitos têm antecedentes. Sai o titular do cargo de gerência de bens roubados e logo é substituído a título provisório por um regente

Na 1ª república desapareceram jóias, móveis, quadros, roupa das rainhas e sabe-se lá mais o quê. Inicialmente chegaram ao ponto de pensar em tornar a Ajuda no palácio presidencial, mas a opinião pública não era de fiar, ainda por cima já entusiasmada pelo presidente que segundo se dizia em voz embargada de emoção e em bucólicos lirismos à medida da Ilustração Portuguesa, "era tão sério, tão sério, tão sério e tão modesto que ia de eléctrico para Belém, pagava renda pelo uso do Palácio e correspondentes contas de electricidade." Quanto à água para os hipotéticos banhos ao fim de semana, disso não rezam as croniquetas. Curioso seria sabermos hoje quanto simbolicamente terá desembolsado por todos esses exotismos: 1$00? 2 ou 3 Escudos?

Sabe-se o que sucedeu. O novo regime esteve longos meses sem o reconhecimento internacional e a França foi, uma vez mais por sugestão inglesa, o primeiro Estado a fazê-lo. Tal ocorreria após a formal devolução ao rei D. Manuel II, daquilo que hoje em mais reduzida parte forma a Fundação da Casa de Bragança. Mas este caso de gula estrangulada não ficou esquecido. 

Estiveram os bens da C de B na legalidade até ao passamento do monarca, em 1932. Salazar viu então uma oportunidade para liquidar de vez esta questão, apossando-se "o Estado" do apetitoso bolo que pelos ingleses lhe fora negado duas décadas antes. 

Assim tem permanecido este descarado roubo desde então, servindo de coio para todo o tipo de amigos das várias trambiqueirices que se vão sucedendo umas às outras. 

Aqui como em todos os labirintos do querer é poder, também a segunda república deixou descendentes na terceira que enjeita a mãe e a avó. 

E isto não mudará, quanto a factos consumados não tenhamos ilusões.

Nuno Castelo-Branco

Fonte:  Estado Sentido

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