31 de janeiro de 2017

MISSA DE SUFRÁGIO PELAS ALMAS DE EL-REI D. CARLOS E DO PRÍNCIPE REAL D. LUÍS FILIPE - COIMBRA

 Rainha D. Amélia prostrada


Real Associação de Coimbra informa que no próximo dia 1 de Fevereiro (4ª feira), pelas 18h00 horas, será celebrada na Igreja da Rainha Santa Isabel (Mosteiro de Santa Clara-a-Nova), em Coimbra, uma Missa de Sufrágio por Sua Majestade El-Rei Dom Carlos e Sua Alteza o Príncipe Real Dom Luís Filipe, assassinados há 109 anos (1-2-1908).
(SUA MAJESTADE FIDELÍSSIMA, EL-REI DOM CARLOS I, FOI IRMÃO DA CONFRARIA DA RAINHA SANTA ISABEL)



Fonte: Arautos d'El-Rei

30 de janeiro de 2017

Por Que Assassinaram El-Rei?

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El-Rei Dom Carlos I sabia que a solução para a salvação de Portugal era um Poder Real forte, um Rei a governar segundo os princípios da Carta Constitucional, que sem abandonar o parlamentarismo, fosse o Monarca o chefe-executivo nominal, embora obrigado pela Constituição a actuar no conselho do Gabinete, orientasse e aconselhasse o ministério, zelando pelo cumprimento criterioso do bem da coisa comum pelo executivo. O Monarca exerceria o poder executivo de forma significativa, embora não absoluta. A Monarquia sob esse sistema de governo seria uma poderosa instituição política e social. Por outro lado, nas Monarquias cerimoniais, o monarca tinha pouco poder real ou influência política directa o que dava grande margem de manobra aos políticos para tornarem a política a fonte de todos os males.
‘É El-Rei a única força que no País ainda vive e opera.’, registou o insuspeito Eça de Queiroz, nesses fins de século XIX, sobre Sua Majestade o Rei Dom Carlos I de Portugal.
De facto, Dom Carlos, senhor de uma enorme e reconhecida inteligência via a situação política nacional com uma enorme clareza: o rotativismo partidário do parlamentarismo liberal era um rotundo fracasso e jamais resolveria os problemas do País. Isto posto, urgia pôr fim a essa permanente alternância no poder, cobiça de lugares, e ao ‘ora governas tu, ora governo eu’, embocada numa permanente luta entre partidos que eram uma mesma coisa e que visavam unicamente a satisfação das ambições pessoais, sem resultados práticos que melhorassem a sociedade e muito menos a política.
‘Considerando que as coisas aqui não iam bem, e vendo os exemplos de toda a Europa, onde não vão melhor, decidi fazer uma revolução completa em todos os procedimentos do governo daqui, uma revolução a partir de cima, fazendo um governo de liberdade e de honestidade, com ideias bem modernas, para que um dia não me façam uma revolução vinda de baixo, que seria certamente a ruína do meu país. (…) Até ao momento, tenho tido sucesso, e tudo vai bem, até melhor do que eu julgava possível. Mas para isso, preciso de estar constantemente na passerelle e não posso abandonar o comando um minuto que seja, porque conheço o meu mundo e se o espírito de sequência se perdesse por falta de direcção, tudo viria imediatamente para trás, e então seria pior do que ao princípio.’escreveu El-Rei D. Carlos I ao seu amigo e companheiro das lides oceanográficas, o Príncipe Alberto I do Mónaco, em Carta datada de Fevereiro de 1907.
Aproveitando essa desorganização política do rotativismo, com consequências sociais evidentes, começaram a medrar as organizações secretas republicanas – como a Carbonária – e o Partido Republicano Português que aproveitava a liberdade de imprensa para acções de propaganda cada vez mais arrojadas – dizia Brito Camacho: ‘quanto mais liberdades nos derem, mais delas usaremos contra eles’.
‘Como se, no jogo mais ou menos imperfeito das instituições vigentes, houvesse alguma espécie de tirania! Como se o homem, que ontem se sentou no trono, pudesse ser responsável pelos erros acumulados em dezenas, em centenas de anos! Como se a desesperança, a apatia, o abandono com que a sociedade portuguesa se submete à oligarquia das clientelas e cabalas que a exploram, fossem filhas da acção perniciosa da Coroa! Como se, pelo contrário, não pudesse o rei queixar-se de tantos que desertam o seu posto…’ constatou F.A. Oliveira Martins in “El-Rei D. Carlos I”, “Semana de Lisboa”, 1/1/1893.
A unidade na Maçonaria permitiu a formação de uma organização secreta sediciosa e armada, a Carbonária liderada por Luz de Almeida que alistava grupos de civis que treinava nas técnicas de combate urbano e anarquista e procedia ao recrutamento de fidelidades nos quartéis entre os soldados e os sargentos. Apoiada pelo próprio grão-mestre do Grande Oriente Lusitano Unido, lançou-se mesmo em atentados bombistas como os do anarquista João Borges.
A Carbonária foi uma organização terrorista secreta, oriunda de Itália, e que se instalou em Portugal em 1822. Era paralela da Maçonaria, embora sem vínculo orgânico à Maçonaria Portuguesa, não obstante utilizava algumas lojas do então Grande Oriente Lusitano Unido para aquartelar os seus órgãos superiores, os seus membros eram na maioria também maçons, e colaborou oficialmente com esta Obediência para a tentativa de revolução republicana falhada de 28 de Janeiro de 1908 – conspiração urdida pelos republicanos, pela Carbonária e pelos dissidentes progressistas -, para o Regicídio de 1 de Fevereiro de 1908, e, para a implantação da República, em 5 de Outubro de 1910. A Carbonária era uma organização política, mas de cariz armado, uma espécie de brigada de artilharia, inimiga da Monarquia, do clero e das congregações religiosas. A Carbonária impunha aos seus filiados que ‘possuíssem ocultamente uma arma com os competentes cartuchos’.
O órgão supremo da Carbonária Portuguesa era a Venda Jovem-Portugal, tão secreta que os seus membros não se conheciam uns aos outros e que apenas se reunia em caso de deliberações importantes. O seu Presidente honorário era o Grão-Mestre que era o único dos seus membros que comunicava com a Alta-Venda e que assistia a todas as sessões deste órgão. Continuando com a descrição do organigrama da organização, a Alta-Venda era composta pelo Grão-Mestre eleito na Venda Jovem-Portugal e mais quatro Bons Primos nomeados e escolhidos por este de entre os membros da Carbonária Portuguesa. Este era o órgão de gestão da Carbonária Portuguesa e o seu pólo dinamizador principal.
João Franco, o Presidente do Conselho (primeiro-ministro) anunciara no início de mandato o intento de governar à inglesa, ou seja, energicamente, mas com equidade, dentro do espírito das leis, com harmonia mas também com firmeza. Em 25 de Maio 1906, João Franco anuncia o seu programa de governo:  ‘tolerância e liberdade para o país compreender a monarquia’, tendo o Conselho de Estado amnistiado os crimes de imprensa. Aproveitando a onda de liberdade, a oposição desencadeia uma vaga de ataques a João Franco e ao Rei Dom Carlos – novamente, a falsa questão dos Adiantamentos. A questão dos adiantamentos, isto é, das supostas dívidas da Casa Real ao Estado, foi reavivada pelo próprio presidente do Ministério, que contrariando a intenção que antes manifestara de resolver o assunto no Parlamento, decide por Decreto de 30 de Agosto de 1907, tratar a questão sem ele.
Ora esta Questão era problema de longa data, porque nesta nossa boa Terra, dá-se grande atenção ao que não merece cuidado, ficando sempre o principal para segundo plano. Claro que não houve prodigalidade do Rei Dom Carlos I, que era Monarca bem frugal nos gastos, ou da Família Real que vivia modestamente, mas antes era um erro que vinha de longe, do tempo das Constituintes de 1821, que ao colocarem um terminus no Absolutismo, decretam a separação do Tesouro Público do Erário Régio, que até aí se confundiam.
Assim, para manutenção e subsistência da Família Real e despesas com a Chefia do Estado por parte do Rei criaram uma Dotaçãochamada de Lista Civil que haveria de se manter inalterada durante quase 90 anos, tornando definitiva uma situação que deveria ser temporária – conforme haviam acautelado as próprias Cortes Constituintes -, pois o parco montante fora fixado de acordo com as especiais circunstâncias que o País vivia: depauperado pelas Invasões Francesas e pela Guerra Civil.
Depois, a Carta Constitucional de 1826 estabeleceu que as Cortes deviam fixar no início de cada reinado a Dotação do novo Monarca, atendendo aos factores que poderiam contribuir para o aumento do custo de vida, mas, a disposição, mais uma vez, foi ignorada!
O Estado nos reinados de Dom Pedro V e Dom Luís I empreendeu as obras públicas estruturantes que modernizaram o País e, necessariamente, tudo isso degeneraria em inflação e em desvalorização da moeda tornando, porque quase irrisória, insuficiente a Dotação Real.
O pretexto de João Franco em trazer a Questão a jogo era válida para resolver a insuficiência da dotação real, e justa, em nome da transparência que anunciara no início do mandato de Presidente do Ministério, o problema é que escolheu mal o momento, pois os republicanos do PRP lançaram-se na propaganda demagógica contra o Rei e Brito Camacho profere a famosa frase que expõe, claramente, a agenda  republicana:  ’havemos de obrigá-los às transigências que rebaixam ou às violências que comprometem’.
Na sessão de 12 de Novembro de 1906, João Franco divulga no Parlamento os Adiantamentos feitos à Coroa. A oposição republicana que há muito aguardava o casus que lhe daria o motivo para atacar a Casa Real, clamou violentamente; Afonso Costa, surdo às admoestações do Presidente da Câmara Baixa, e já a merecer sabre da Guarda, como prenúncio do que estava a ser urdido, proferiu o ignóbil vitupério: ‘E mais ordena o Povo, solenemente, que logo que esteja tudo pago, diga o senhor Presidente do Conselho ao Rei: Retire-se Senhor, saia do País, para não ter de entrar numa prisão, em nome da lei. Por menos do que fez o Senhor D. Carlos I, rolou no cadafalso, em França, a cabeça de Luís XIV.’
Era o princípio do calvário que levaria ao trágico episódio do Magnicídio, atentado a que depois chamaram de Regicídio, no qual o Rei Dom Carlos I e o Príncipe Real Dom Luís Filipe tombariam, em serviço da Pátria e do Reino, às balas do terrorismo.

Miguel Villas-Boas

29 de janeiro de 2017

109º Aniversário do Regicídio - Missa de Sufrágio - LISBOA



A Real Associação de Lisboa como habitualmente manda celebrar Missa de Sufrágio pelas almas de Sua Majestade El-Rei Dom Carlos I e de Sua Alteza Real O Príncipe Real Dom Luiz Filipe, no próximo dia 1 de Fevereiro de 2017, pelas 19:00, na Igreja de São Vicente de Fora, com a celebração eucarística a cargo do Reverendo Padre Gonçalo Portocarrero de Almada.

Depois da celebração eucarística terá lugar a romagem ao Panteão Real, onde Suas Altezas Reais Os Senhores Duques de Bragança deporão uma coroa de flores junto aos túmulos reais.

28 de janeiro de 2017

MISSA POR ALMA DO REI DOM CARLOS - PORTO

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A Real Associação do Porto informa que será celebrada, no próximo dia 1 de Fevereiro, uma Missa, na Igreja de São José das Taipas, na Cordoaria, pelas 19 horas, em memória do Rei Dom Carlos e do Príncipe Real Dom Luís Filipe, a qual será presidida pelo Reverendo Pe. Jardim Moreira, convidando todos os associados e simpatizantes a nela participar.

27 de janeiro de 2017

SS.AA.RR., Dom Duarte e Dom Afonso de Bragança na antestreia do filme “Silêncio” de Martin Scorsese







O novo filme do norte-americano Martin Scorsese “Silêncio”, que o realizador esperou quase 20 anos para concretizar, acompanha os padres jesuítas portugueses perseguidos durante a missão no Japão, no século XVII.

Baseado no romance homónimo do japonês Shusaku Endo, publicado em 1966, o filme estreia a 19 de Janeiro em Portugal.




26 de janeiro de 2017

Lançamento do Livro Razões Reais

Foto de Real Associação de Lisboa.


No passado dia 21 de Janeiro foi feita a apresentação de uma edição evocativa do livro “Razões Reais” de Mário Saraiva no Auditório da Livraria Ferin que se revelou pequeno para o numeroso publico que afluiu. A apresentação foi feita por Nuno Pombo, seguida por um testemunho da vida e obra do autor pelo seu filho Jaime Saraiva. A sessão foi moderada pelo presidente da Real Associação de Lisboa João Távora e contou com a presença de S. A. R. o Senhor Dom Afonso, Príncipe da Beira.


Foto de Real Associação de Lisboa.


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24 de janeiro de 2017

O Desejado Rei D. Sebastião

O Desejado


A 20 de Janeiro de 1554 nascia Dom Sebastião de Portugal. Pelo facto, de ser o herdeiro tão esperado para dar continuidade à Dinastia de Avis foi cognominado O Desejado; mas é também recordado como O Encoberto, devido à lenda que prevê o seu regresso numa manhã de nevoeiro, para salvar a Nação Portuguesa.
Neto do Rei D. João III, torna-se herdeiro do trono depois da morte de D. João de Portugal, seu pai, apenas duas semanas antes do seu nascimento. Em 1557, com a morte do avô, ascende ao trono – Rei com apenas três anos. Na menoridade de Dom Sebastião a regência é assegurada pela avó D. Catarina da Áustria e depois pelo tio-avô Cardeal D. Henrique.
Aos 14 anos, Dom Sebastião I de Portugal é Coroado, Aclamado e Alevantado e assume os destinos e governação do Reino!
O Rei de Portugal ia combater em Pessoa, não mandava os soldados sozinhos, era o Comandante-em-Chefe e o primeiro a avançar. Adiantava-se mesmo, não ficava no conforto dos gabinetes, assarapantado em hesitações. De resto com quase todos os Reis foi assim, para sempre servir os interesses supremos da Nação. Por isso não se pense que guerrear era um impulso básico, mas uma forma de manter a paz: si vis pacem, para bellum(lat) – se queres a paz, prepara a guerra. Gnoma ainda, hoje, seguido pelas nações, que procuram fortalecer-se a fim de evitar uma eventual agressão.
Mens sana in corpore sano (lat) – mente sã em corpo são. Frase de Juvenal, utilizada para demonstrar a necessidade de corpo sadio para serviços de ideais elevados. Os nossos Reis conciliavam a capacidade e a capacitação inerentes a um soldado apto para comandar um teatro de guerra, sem descurar as faculdades intelectuais – a educação de Dom Sebastião fora entregue aos Jesuítas -, até porque o melhor dos generais é o mais inteligente dos homens. Nisso seguiam os exemplos clássicos de Alexandre e de César, os mais brilhantes generais e os mais ilustrados das respectivas épocas.
Muitas vezes, e não poucos, atribuem ao corajoso Rei Dom Sebastião I de Portugal a imaturidade na sua resolução na empresa de Alcácer-Quibir, ora que injustiça chamar irreflectido ao Rei-menino que com tão exemplar acto de bravura procurou manter o Império que herdara e que sofria as investidas das hordas mouriscas. A Coroa sempre serviu o Império português fosse em que parte fosse da sua dilatada extensão e que estivesse disso necessitada.
No Reinado de D. Sebastião os ataques dos piratas e corsários eram constantes na rota para o Brasil e a Índia, e os Almorávidas ameaçavam as possessões em Marrocos, pelo que investiu muito na protecção militar dos territórios construindo ou restaurando fortes e fortalezas ao longo do litoral, para proteger a marinha mercante.
Porventura, ficou o Desejado, na penumbra de uma tenda de comando jogando xadrez com as suas peças de cavalaria ou com os seus peões?! Não, não ficou, avançou temerário! Não se conte o que sucedeu em seguida lançando o nome Sebastião no auto dos arrebatados, mas sim como o resultado de uma maquinação estrangeira para anexar o Portugal que havia perdido e cobiçava desde os tempos em que Aquele Dom Afonso I Henriques Rei de Portugal, ilustre descendente dos Reais Capetos de França e dos Imperadores da Hispâbia, formou a mais Augusta e Antiga Dinastia Peninsular, pois caso único no Mundo é um facto que a Monarquia Portuguesa conheceu quatro Dinastias, mas todas elas pertencentes à mesma Família.
E não foi no Reinado de Dom Sebastião que se avançou pela África e foi fundada a cidade de Luanda, e não foi, também, no Seu Reinado que se consolidou o domínio da costa brasileira?! E se adquiriu Macau?! Pergunta retórica, pois, necessária resposta não é!
A História diz qu’El-Rei Dom Sebastião I morreu em combate juntamente com o escol da Nobreza portuguesa, na Batalha de Alcácer Quibir, em 1578, a Lenda diz que voltará numa manhã de nevoeiro para nos libertar do jugo verde-rubro!

Miguel Villas-Boas

23 de janeiro de 2017

Roteiros Reais - Visita ao Palácio Fronteira



Os nossos Roteiros Reais estão de volta no próximo Sábado dia 4 de Fevereiro às 10:00 com uma visita ao Palácio Fronteira com encontro marcado no Largo São Domingos de Benfica nº 1. Os Roteiros Reais são uma iniciativa da Real Associação de Lisboa que visa proporcionar aos seus associados acesso a lugares e monumentos de interesse histórico, arquitectónico e artístico pouco acessíveis ao público em geral.


Construído para ser residência de Campo e Pavilhão de Caça da Família Mascarenhas no Sec. XVII, este palácio depressa se tornou numa das mais notáveis residências da nobreza cortesã do séc. XVII e XVIII,  com a elevação do Conde da Torre, D. João de Mascarenhas a 1º Marquês de Fronteira, pelas suas vitórias nas Guerras da Restauração e no seu apoio incondicional à Casa de Bragança, como nova Casa Real.

O Palácio Fronteira destaca-se por vários motivos. Desde a data da sua construção até aos dias de hoje, com especial destaque para D. Fernando de Mascarenhas, criador da Fundação das Casas de Fronteira e Alorna, o palácio tem sido uma casa de promoção da vida artística portuguesa. Nela se destaca, a nível nacional e internacional, o excepcional conjunto azulejar dos séculos XVII e XVIII que só por si justificam uma visita a esta casa, como também os valiosos tectos e colecção de artes decorativas presentes nesta casa.

Esta visita que será guiada pelo nosso associado Joel Moedas Miguel está limitada a quarenta inscrições e excepcionalmente comportará um custo de € 15,00 por pessoa. 


Para mais esclarecimentos e inscrições contacte-nos através do endereço secretariado@reallisboa.pt, pelo telefone 21 342 81 15 ou presencialmente na nossa Sede nos horários habituais.

22 de janeiro de 2017

Professor Daniel Serrão



Há vidas cuja Luz irradia de tal forma em seu redor, que se tornam presentes em muitas circunstâncias. Dá gosto estar envolvido nessa “Luz”, nesse caminhar e entrega.

Professor Daniel Serrão foi, e continuará a ser, o homem cujo saber, ciência, Fé, amor e estima aos outros, é uma “Luz” na nossa Sociedade e nos nossos tempos.

O Prof. Daniel Serrão foi um Humanista no sentido mais Nobre do conceito. Sendo médico, teve sempre o cuidado de pôr ao serviço do Homem todo o seu saber. O Homem que ele definia como um “todo” desde a fusão dos gâmetas feminino e masculino até ao suspiro final, enchia o seu coração. Não há homens mais ou menos capazes, mais ou menos dignos, todos têm a mesma condição e dignidade.

O Prof. Daniel Serrão era estruturalmente cientista, médico que bem sabia dever ser a sua ciência ao serviço do Homem e nunca o Homem ao serviço da ciência. Esta inquietação constante levou-o a ser um dos “pais da Bioética” em Portugal.

Homem de grandes interrogações – como o vimos fazer em Roma, nos congressos da “Academia Pontifícia para a Vida” – honesto no discernimento científico e filosófico, não se quedava enquanto não obtivesse “a resposta”.

Por várias vezes, em Roma (onde nos encontrávamos mais do que em Portugal) acompanhamos essas suas inquietações que, não se escondendo em qualquer ditame ideológico ou dogmático, tinham sempre o objectivo de encontrar na Razão e nos factos a resposta adequada.

Nas suas funções de Conselheiro do Papa (nomeado por João Paulo II) era um espírito inconformado até encontrar a resposta que a razão, a verdadeira razão ditava, e que obviamente coincidia com a posição mais ortodoxa da Doutrina e da Fé. E aí também a sua lealdade se tornava evidente naquele meio da elevada Academia e do saber das coisas de Deus.

Num desses Congressos, a propósito do uso das células estaminais embrionárias cuja prática se mostrava inconsequente, para além de ser moral e eticamente inaceitável para todos nós, foram apresentados trabalhos médicos com células estaminais adultas, viáveis e que se apresentava como um caminho sério, científico e uma verdadeira aposta no futuro, sem qualquer limitação ética.

Comentado entre nós, os portugueses presentes, tamanha evidência e alegria pelas descobertas feitas, perguntávamos qual a razão pela qual não se parava com esta “maldade” de usar embriões humanos quando, se pode fazer melhor com células estaminais adultas. O Prof. Daniel Serrão apresentou-nos a seguinte explicação: – Tem de vir alguém de fora deste nosso círculo (referia-se à Igreja Católica) por exemplo, um Judeu ou um Oriental, para ser aceite esta evidência. Tem sido assim ao longo da História. Mas nós, vamos continuar o nosso trabalho. Tinha razão. Cerca de 7 anos depois foi Nobel da Medicina Shinya Yamanaka que publicamente disse que, após ter visto a ecografia do seu filho, com apenas algumas semanas de gestação, nunca mais trabalhou com embriões. Palavras que correram o mundo inteiro, e que estão a mudar a investigação científica. O Nobel da Medicina de 2012 é Japonês. Tinha razão o Prof. Daniel Serrão.

Com o Prof. Daniel Serrão Fé e razão caminhavam lado a lado. Tal como ouvimos do Papa João Paulo II na audiência privada em que nos recebeu - Tudo está lá desde a Criação, basta ao homem estudar, conhecer, procurar (referia-se às descobertas médicas feitas a partir das células estaminais adultas) com empenho e verdade”.

Obrigado Senhor Professor Daniel Serrão.


Isilda Pegado


20 de janeiro de 2017

Regicídio Descrito Por D. Manuel II

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«Há já uns poucos de dias que tinha a ideia de escrever para mim estas notas íntimas, desde o dia 1 de Fevereiro de 1908, dia do horroroso atentado no qual perdi barbaramente assassinados o meu querido Pai e o meu querido Irmão…No dia 1 de Fevereiro regressavam Suas Majestades El-Rei D. Carlos I a Rainha a senhora D. Amélia e Sua Alteza o Príncipe Real de Villa Viçosa onde ainda tinha ficado…
Meu Pai não tinha nenhuma vontade de voltar para Lisboa. Bem lembro que se estava para voltar para Lisboa 15 dias antes e que meu Pai quis ficar em Villa Viçosa: Minha Mãe pelo contrário queria forçosamente vir. Recordo-me perfeitamente desta frase que me disse na véspera ou no próprio dia que regressei a Lisboa depois de eu ter estado dois dias em Villa Viçosa. “Só se eu quebrar uma perna é que não volto para Lisboa no dia 1 de Fevereiro. Melhor teria sido que não tivessem voltado porque não tinha eu perdido dois entes tão queridos e não me achava hoje Rei! Enfim, seja feita a Vossa vontade Meu Deus! (…) houve uma pessoa minha amiga (que se não me engano foi o meu professor Abel Fontoura da Costa) que disse a um dos Ministros que eu gostava de saber um pouco o que se passava, porque isto estava num tal estado de excitação. O João Franco escreveu-me então uma carta que eu tenho a maior pena de ter rasgado, porque nessa carta dizia-me que tudo estava sossegado e que não havia nada a recear! Que cegueira!
Mas passemos agora ao fatal dia 1 de Fevereiro de 1908, sábado. De manhã tinha eu tido o Marquês Leitão e o King. Almocei tranquilamente com o Visconde d’Asseca e o Kerausch. Depois do almoço estive a tocar piano, muito contente porque naquele dia dava-se pela primeira vez “Tristão e Ysolda” de Wagner em S. Carlos…Um pouco depois das 4 horas saí do Paço das Necessidades num “landau” com o Visconde d’Asseca em direcção ao Terreiro do Paço para esperarmos Suas Magestades e Alteza. Fomos pela Pampulha, Janelas Verdes, Aterro e Rua do Arsenal. Chegámos ao Terreiro do Paço. Na estação estava muita gente da corte e mesmo sem ser. Conversei primeiro com o Ministro da Guerra Vasconcellos Porto, talvez o Ministro de quem eu mais gostava no Ministério do João Franco. Disse-me que tudo estava bem.
Esperamos muito tempo; finalmente chegou o barco em que vinham os meus Pais e o meu Irmão. Abracei-os e viemos seguindo até a porta onde entramos para a carruagem os quatro. No fundo a minha adorada Mãe dando a esquerda ao meu pobre Pae. O meu chorado Irmão deante do meu Pai e eu diante da minha mãe. Sobretudo o que agora vou escrever é que me custa mais: ao pensar no momento horroroso que passei confundem-se-me as ideias. Que tarde e que noite mais atroz! Ninguém n’este mundo pode calcular, não, sonhar o que foi. Creio que só a minha pobre e adorada Mãe e Eu podemos saber bem o que isto é! vou agora contar o que se passou n’aquella historica Praça.
Sahimos da estação bastante devagar. Minha mãe vinha-me a contar como se tinha passado o descarrilamento na Casa-Branca quando se ouviu o primeiro tiro no Terreiro do Paço, mas que eu não ouvi: era sem duvida um signal: signal para começar aquella monstruosidade infame, porque pode-se dizer e digo que foi o signal para começar a batida. Foi a mesma coisa do que se faz n’uma batida às feras: sabe-se que tem de passar por caminho certo: quando entra n’esse caminho dá-se o signal e começa o fogo! Infames! Eu estava olhando para o lado da estátua de D. José e vi um homem de barba preta , com um grande “gabão”. Vi esse homem abrir a capa e tirar uma carabina. Eu estava tão longe de pensar n’um horror d’estes que me disse para mim mesmo, sabendo o estado exaltação em que isto tudo estava “que má brincadeira”. O homem sahiu do passeio e veio se pôr atrás da carruagem e começou a fazer fogo…Quando vi o tal homem das barbas que tinha uma cara de meter medo, apontar sobre a carruagem percebi bem, infelizmente o que era. Meu Deus que horror. O que então se passou só Deus minha mãe e eu sabemos(…) porque mesmo o meu querido e chorado Irmão presenceou poucos segundos porque instantes depois também era varado pelas balas. Que saudades meu Deus! Dai-me a força Senhor para levar esta Cruz, bem pesada, ao Calvário! Só vós, Meu Deus sabeis o que tenho sofrido! Logo depois do Buíça ter feito fogo (que eu não sei se acertou) começou uma perfeita fuzilada, como numa batida às feras! Aquele Terreiro do Paço estava deserto nenhuma providência! Isso é que me custa mais a perdoar ao João Franco (…)
Imediatamente depois do Buíça começar a fazer fogo saiu de debaixo da Arcada do Ministério um outro homem que desfechou uns poucos de tiros à queima-roupa sobre o meu Pai; uma das balas entrou pelas costas e outra pela nuca, que O matou instantaneamente. Que infames! para completarem a sua atroz malvadez e sua medonha covardia fizeram fogo pelas costas. Depois disto não me lembro quase do resto: foi tão rápido! Lembra-me perfeitamente de ver a minha adorada e heróica Mãe de pé na carruagem com um ramo de flores na mão gritando àqueles malvados animais, porque aqueles não são gente«infames, infames».
A confusão era enorme. Lembra-me também e isso nunca poderei esquecer, quando na esquina do Terreiro do Paço para a Rua do Arsenal, vi o meu Irmão em pé dentro da carruagem com uma pistola na mão. Só digo d’Ele o que o Cónego Aires Pacheco disse nas exéquias nos Jerónimos: «Morreu como um herói ao lado do seu Rei»! Não há para mim frase mais bela e que exprima melhor todo o sentimento que possa ter…Quando de repente já na Rua do Arsenal olhei para o meu queridíssimo Irmão vi-O caído para o lado direito com uma ferida enorme na face esquerda de onde o sangue jorrava como de uma fonte! Tirei um lenço da algibeira para ver se lhe estancava o sangue: mas que podia eu fazer? O lenço ficou logo como uma esponja.
No meio daquela enorme confusão estava-se em dúvida para onde devia ir a carruagem: pensou-se no hospital da Estrela, mas achou-se melhor o Arsenal. Eu também, já na Rua do Arsenal fui ferido num braço por uma bala. Faz o efeito de uma pancada e um pouco uma chicotada: foi na parte superior do braço direito…Deus quis poupar-nos! Dou Graças a Deus de me ter deixado a minha Mãe que eu tanto adoro. Sempre foi a pessoa que eu mais gostei neste mundo e no meio destes horrores todos dou e darei sempre graças a Deus de me A ter conservado!
Quando a Minha adorada Mãe saiu da carruagem foi direita ao João Franco que ali estava e disse-lhe ou antes gritou-lhe com uma voz que fazia medo «Mataram El-Rei: Mataram o meu Filho». A minha pobre Mãe parecia doida. E na verdade não era para menos: Eu também não sei como não endoideci. O que então se passou naquelas horas no Arsenal ninguém pode sonhar! A primeira coisa foi que perdi completamente a noção do tempo. Agarrei a minha pobre e tão querida Mãe por um braço e não larguei e disse à Condessa de Figueiró para não a deixar.
De meu Pai e mesmo meu Irmão não tinha grandes esperanças que pudessem escapar. As feridas eram tão horrorosas que me parecia impossível que se salvassem. (…) já lá estava o Ministério todo menos o Ministro da Fazenda Martins de Carvalho…Preveniu-se para o Paço da Ajuda a minha pobre Avó para vir para o Arsenal. Eu não estava quando Ela chegou. Estavam-me a tratar o braço na sala do Inspector do Arsenal…A minha pobre e adorada Mãe andava comigo pelo Arsenal de um lado para o outro com diferentes pessoas: Conde de Sabugosa, Condes de Figueiró, Condes de Galveias e outros falando de sempre num estado de excitação indescritível mas fácil de compreender. De repente caiu no chão! Só Deus e eu sabemos o susto que eu tive! Depois do que tinha acontecido veio aquela reacção e eu nem quero dizer o que primeiro me passou pela cabeça…Minha Mãe levantou-se quase envergonhada de ter caído. É um verdadeiro herói. Quem dera a muitos homens terem a décima parte da coragem que a minha Mãe tem.
Pouco tempo depois de termos chegado ao Arsenal veio ainda o major Waddington dizendo que os Queridos Entes ainda estavam vivos; mas infelizmente pouco tempo depois voltou chorando muito. Perguntei-lhe «Então?» Não me respondeu. Disse-lhe que tinha força para ouvir tudo. respondeu-me então que já ambos tinham falecido! Dai-lhes Senhor o Eterno descanso e brilhe sobre Eles a Vossa Luz Eterna Ámen!
Pouco depois vi passar João Franco com o Aires de Ornelas (Ministro da Marinha) e talvez (disso não me lembro ao certo) com o Vasconcelos Porto, Ministro da Guerra, dirigindo-se para a Sala da Balança para telefonarem que se tomassem todas as previdências necessárias. São isto cenas, que viva eu cem anos, ficarão gravadas no meu coração. Agora já era noite o que ainda tornava tudo mais horroroso e sinistro: estava já então muita gente no Arsenal, e principiou-se a pensar no regresso para o Paço das Necessidades. No presente momento em que estou escrevendo estas linhas estou repassando com horror, tudo no meu pensamento! Entrámos então para o landau fechado, a minha Avó, minha Mãe e o Conde de Sabugosa e eu. Saímos do Arsenal pelo portão que deita para o Cais do Sodré onde estava um esquadrão da Guarda Municipal comandado pelo Tenente Paul: Na almofada ia o Coronel Alfredo de Albuquerque: à saída entregaram ao Conde de Sabugosa um revólver; minha Avó também queria um.
Viemos então a toda brida para o Paço das Necessidades. À entrada esperavam-nos a Duquesa de Palmela, Marquesa do Faial, Condessa de Sabugosa, Dr. Th. de Mello Breyner, Conde de Tattenbach, Ministro da Alemanha e a Condessa, e muitos criados da casa. Foi uma cena horrorosa! Todos choravam aflitivamente. Subimos muito vagarosamente a escada no meio dos prantos e choros de todos os presentes. Acompanhei a minha pobre e adorada Mãe até ao seu quarto e deixei a minha pobre Avó na sala.»
– Transcrição de Extractos das «Notas Absolutamente Íntimas»d’El-Rei Dom Manuel II de Portugal, 21 de Maio de 1908
Mataram o Rei de 44 anos, mataram o Príncipe Real de 20! O Rei morreu… duas vezes!!!
O Rei morreu! Viv’ó Rei!
Pelos mais altos decretos do destino e execráveis actos dos homens que colocaram, nesse infernal dia 1 de Fevereiro de 1908, extemporaneamente, fim às existências d’ El-Rei o Senhor Dom Carlos I e do Príncipe Real Dom Luís Filipe, Dom Manuel II era o novo Rei de Portugal.
A Sua Majestade El-Rei Dom Manuel II, obrigava-o o dever do trono e destino dos Reis: reinar sobre a morte de quem Lhe deu vida!

Recolha texto e conclusão: Miguel Villas-Boas

19 de janeiro de 2017

EXCERTOS DA HOMILIA DA SANTA MISSA DE SUFRÁGIO POR EL-REI DOM MIGUEL DE PORTUGAL



[…]
DOIS AMORES ERIGIRAM DUAS CIDADES


Caríssimos irmãos, o aniversário da morte de El-Rei Dom Miguel de Portugal, permite-nos evocar a personalidade singular deste Monarca ainda hoje tão incompreendido e injustamente banido da gratidão de boa parte do povo português.
Mas, mais importante que recordar virtudes pessoais ou, em debalde, elencar elogios fúnebres, seja-nos permitido trazer à nossa contemplação a realidade icónica de Dom Miguel de Portugal.
Sim, Dom Miguel não se representa simplesmente a si mesmo. Evocar El-Rei Dom Miguel em nossos dias, significa evocar um Portugal que fomos e que, Deo volente, havemos de tornar a ser. Significa evocar um Portugal fiel às suas raízes mais profundas, que bebem da fonte perene da Tradição, o respeito reverencial devido a Deus, à Pátria e ao Rei.
Com efeito, é possível traçar uma linha clara e distinta entre este Portugal tradicional hoje evocado, o Portugal das origens, diríamos a nossa Alma Mater e o novo Portugal, o Portugal liberal, um Portugal em conflito de identidade, amnésico de passado, absorvido pelo presente e prenhe de ilusões estrangeiradas a que chama de futuro.
Tal abismo entre estas duas realidades, encontra par e explicação naquela dicotomia que Santo Agostinho, na Cidade de Deus evidencia: “Dois amores erigiram duas cidades, Babilónia e Jerusalém: aquela é o amor de si até ao desprezo de Deus; esta, o amor de Deus até ao desprezo de si.” (Santo Agostinho, De Civitate Dei, 2, Lib. XIV, c. XXVIII).
O Santo Bispo de Hipona, haveria de explicar melhor cada uma destas cidades edificadas pelos homens: “são dois amores – diz Santo Agostinho – em que um é puro e o outro é impuro; um junta e o outro espalha; um quer o bem comum em vista da sociedade celeste, e o outro se vale do bem comum e submete-o ao seu domínio por orgulho e prevalência; um submete-se a Deus, e o outro tem-Lhe inveja; um é tranquilo, e o outro turbulento; um é pacífico, e o outro sedicioso; um prefere a verdade aos louvores dos aduladores e o outro é ávido de louvores, quaisquer sejam as suas fontes; um deseja ao próximo o bem que para si deseja, e o outro deseja submeter o próximo; um governa os homens para o bem do próximo; e o outro para seu proveito; esses dois amores, de que já se imbuíam os anjos, um nos bons e o outro nos maus, esses dois amores erigiram duas cidades, por entre os homens (Santo Agostinho, De Genesi ad litteram, Lib. XI, c. XV).
Como não entrever neste abismo entre as duas cidades apresentadas por Santo Agostinho, o extraordinário terramoto que sacudiu a nossa Pátria: a revolução liberal.
Hoje, como sublimemente constata o Senhor Cardeal Patriarca, D. Manuel Clemente, com justiça reconhecido como um dos maiores especialistas do catolicismo nesta época, continuamos credores desse momento fundador para a relação Igreja-Mundo que foi o advento do liberalismo: “o tipo de relação Igreja- Mundo que hoje vivemos tem as suas origens na sociedade subsequente à revolução liberal, acontecida em França no fim do século XVIII e sucessivamente ecoada em Portugal nas primeiras décadas do seguinte” (cf. Manuel Clemente, Igreja e Sociedade Portuguesa, ed. Assírio & Alvim, p.180).
Na verdade, se atendermos aos costumes da vida contemporânea, mas também aos princípios axiológicos e até aos códigos legislativos, hoje vigentes, e se examinarmos a sua génese, não sem razão podemos emitir o atestado de paternidade ao pensamento liberal, “a maior dificuldade” enfrentada pela Igreja Católica, “em toda a história portuguesa”, como indica o Eminentíssimo Patriarca.
Poderia parecer ao espírito de alguém, como uma comparação algo forçada, esta que elencámos entre as duas cidades apresentadas por Santo Agostinho – Jerusalém e Babilónia – e estas duas nações divididas pela revolução liberal. Mais a mais, adeptos que somos de uma equilibrada laicidade – ou como diria o Papa Pio XII, de veneranda memória, uma “sã e legítima” laicidade do Estado –, esta releitura religiosa poderia provocar até algum desconforto.
Contudo, se formos imparciais no julgamento dos factos, chegaremos à conclusão de que a “questão religiosa” não é um apêndice do movimento liberal: ela é, com efeito, central no processo revolucionário.
O pensamento liberal afirma o princípio da liberdade de consciência, e preterindo a verdade dogmática, entrega-se cegamente ao conhecimento cientificista. Engana-se quem pensa que nesta equação sobra pouco espaço à religião. Não. A religião transcendente é suplantada pela religião imanente, por uma religião política, que se constitui, na definição de um avisado historiador, num “sistema de crenças, mitos, rituais e símbolos que define e interpreta o sentido e o fim da existência humana através da subordinação do destino dos indivíduos e da colectividade a uma entidade suprema que não é Deus” (Emilio Gentile, La Religione della Politica, 2001). A política converter-se-ia ela mesma numa religião.
Era o que já preconizava Rousseau no seu “Contrato Social” com a definição de “religião civil” como garante da unidade do Estado. Segundo o Filósofo das Luzes, o cristianismo tinha cometido o pecado de separar a esfera do político da esfera do teológico (“dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”), dividindo assim a “devoção” da “cidadania” (cf. Rousseau, Contrato Social, IV, c. VIII). Seria, por isso, vital operar uma transferência de atributos divinos para o Estado, o que consubstanciava, mais do que numa separação da política e da religião, numa integração desta última na primeira.
O resultado deste turbilhão foi uma profunda secularização da sociedade, onde como afirma nos seus estudos, D. Manuel Clemente, o “nascer e o morrer, o contratar e o casar, estudar ou intervir na vida pública, nada teria de ser condicionado por qualquer sacralidade prévia, tudo se reduziria à simplicidade dos actos naturais” (op. cit.).
É sintomático o panorama descrito por Oliveira Martins, apenas três décadas após o termo da guerra civil: “a religião entre nós é uma conveniência social para os políticos; uma superstição elegante para as mulheres, um velho hábito banal para o povo, para o maior número. Um sentimento consciente, imperativo, fecundo, isso é que ela não é para ninguém. Oficialmente, nas estatísticas há quatro milhões de cristãos em Portugal. Realmente, nos corações há quatro milhões de indiferentes” (Oliveira Martins, 1870, in Páginas desconhecidas, Lisboa, Seara Nova, 1948, 23-24).
A esta luz se percebe que o movimento liberal tenha pretendido transformar a política em Portugal numa forma de salvação terrena, justificada pela crença no progresso, uma cidade construída sobre a areia do amor de si mesmo até ao desprezo de Deus, para me socorrer novamente do ensinamento agostiniano.

TESTEMUNHO DE RESISTÊNCIA


Mas sempre houve quem dissesse “Não!”.
Se a Igreja iria reagir tenazmente com a publicação das encíclicas Mirare Vos (1832), do Papa Gregório XVI, Quanta Cura e o Syllabus (1864) do Beato Pio IX, e pela Immortale Dei (1885) do Papa Leão XIII, muitos foram aqueles que diante da fúria avassaladora da revolução liberal, que manchou de sangue o nosso Portugal, heroicamente resistiram: por eles também rezamos em sufrágio nesta Santa Missa.
Apraz-me deter na eloquente recordação do intrépido Bispo de Coimbra – cidade que hoje acolhe a sede da Causa Tradicionalista – D. Frei Joaquim de Nossa Senhora da Nazaré.
Entre os vários bispos que tomaram posição pública em favor da causa miguelista, sobressai a voz do Bispo-Conde que a 7 de Maio de 1834 partia para Évora, com a missão de acompanhar o amigo próximo, El-Rei Dom Miguel.
Pouco tempo antes, publica uma Carta Pastoral aos seus diocesanos de Coimbra onde escreve: “ainda um pouco tempo, meus amados filhos, ainda um pouco tempo mais de sofrimento e de sacrifícios pela justa causa que defendemos; e nós seremos livres da opressão e da tirania dos nossos inimigos pela Divina Misericórdia. Quem poderia pensar, que uns homens, que tiveram a felicidade de nascer portugueses, e no grémio da Santa Igreja, que os fez cristãos, renunciado depois a todas as luzes da fé, da razão e da justiça, e alistando-se debaixo das bandeiras de uma seita infernal, que os tem perdido, se haviam de tornar os maiores inimigos que tem tido Portugal?”
A propósito da Carta, denuncia: “Uma Carta Constitucional que licencia as paixões dos homens… leis que aniquilam as ordens religiosas… declarações publicas que reprovam os sagrados cânones, finalmente o Cisma.”
Por fim, na mesma Carta Pastoral, o Bispo-Conde, D. Frei Joaquim de Nossa Senhora da Nazaré, partindo do exemplo dos Macabeus que tiveram a coragem de restaurar o reino de Israel, lutando heroicamente contra os opressores, compara: “E não vemos já, meus amados filhos, que o mesmo Deus, nos tem suscitado na Augusta Pessoa do nosso legítimo soberano, o Senhor Dom Miguel I, um Macabeu fortíssimo, tão zeloso da religião e da lei, e tão amante do seu povo?”
O seu regresso a este Reino […], a sua exaltação ao trono dos seus maiores, […] o grito geral do povo aclamando-o seu Rei legítimo […] o seu augusto nome que lhe foi dado no baptismo contra a expectação de todos e símbolo daquele que precipitou dos Céus a tantos anjos rebeldes […] é tudo isto uma espécie de prodígio, pelo qual Deus nos quer fazer persuadir que nos há-de defender e restaurar? Sim, filhos meus, assim o devemos acreditar.”
E voltando-se a referir aos Macabeus, o Bispo-Conde conclui assim a sua carta pastoral: “e da mesma sorte, que esses valorosos macabeus, auxiliados pelo socorro do Céu, puderam tirar o opróbrio de Israel, vendendo e destruindo os seus inimigos, restituindo Jerusalém e o Templo ao seu antigo esplendor, assim também, digam os contrários o que disserem, o nosso Augusto soberano, empenhado como todos o vemos, em salvar a Religião e a Pátria da opressão dos nossos inimigos, tendo o Senhor dos Exércitos por condutor das suas forças, há-de consumar um dia o que já tem começado, porque a Causa que defende é a mesma que defenderam os macabeus, idênticos os meios e idênticos os fins a que se tem proposto”.
Infelizmente tais esperanças não se concretizaram… Daí a dias, El- Rei Dom Miguel haveria de ser forçado a abdicar e do exílio, sinal de uma alma grande, ainda destinaria todos os seus bens à reconstrução do Portugal do pós guerra civil. O Bispo-Conde haveria de ser afastado de Coimbra e exilado para São Luís do Maranhão.
O terramoto de 1834 haveria de deitar por terra Jerusalém e os homens começaram a edificar Babilónia.

A HORA PRESENTE NOS CONVOCA


Quando se retira Deus do seu lugar, no coração do homem ou do centro de uma sociedade, sobra um montão de ruínas: “se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a constroem”, diz o Salmo 127 (Sl 127, 1).
Tal desiderato tem sido, ao longo dos últimos quinhentos anos, o fulcro de um movimento revolucionário que procura, malgrado os sucessivos infortúnios, edificar a sociedade humana sem o horizonte de Deus. Eis a questão de fundo: edificar um mundo, como se Deus não existisse.
O Servo de Deus, Papa Pio XII, soube intuir três fases históricas deste processo revolucionário (cf. Discurso Nel contemplare, 12.10.1952). Se o protestantismo se resume ao lema “Cristo sim, Igreja não!”, o deísmo proposto pelo pensamento liberal defendeu “Deus sim, Cristo não!”. Este processo gradativo, haveria de chegar à conclusão de que “Deus não existe!” própria do ateísmo marxista. Hoje, assistimos com assombro a uma quarta premissa desta equação. Se a negação marxista de Deus ainda dava um “sim” ao homem, hoje, os sinais de uma “cultura da morte” (São João Paulo II) vigente, pretendem esconder um lema aterrador: “o Homem não!”.
Caríssimos irmãos, a hora presente nos convoca!
As cicatrizes que vemos desfigurar o rosto belo do nosso Portugal, reclamam de nós uma acção. Sinal do Portugal de sempre, El-Rei Dom Miguel simboliza os antípodas do turbilhão revolucionário. Mais: ele soube de forma heróica, suportar até ao humanamente possível a força estertora do vendaval revolucionário. Por isso lhe devemos este acto de justiça e de gratidão.
Por isso, também, é hoje pedida a mesma resiliência aos filhos do Portugal de sempre!
Mas não basta resistir ao ímpeto revolucionário que varre o sistema educativo, corrompe os valores, destrói a Família e se divorcia da Tradição.
É necessária uma geração de portugueses cristãos com os pés na terra e o coração no céu, que restaure o nosso Portugal! Anima-nos saber que se o fizermos participamos misteriosamente da missão do Redentor: “a vontade do Pai que Me enviou é que não se perca nenhum daqueles que Me deu, mas que os ressuscite no último dia” (cf. Jo 6, 37-40) – escutávamos no santo Evangelho. Com efeito a lei suprema que há-de orientar a história de todas as nações e povos é esta: “é necessário que Jesus reine!” (cf. 1 Cor 15, 25).
Estamos na proximidade do centenário das aparições de Fátima – o acontecimento mais extraordinário da história portuguesa – em que a Virgem Maria estabelece uma aliança com a nossa e sua Terra, nos promete a perenidade do dogma da fé, e anuncia o triunfo do Seu Coração Imaculado. Connosco ou apesar de nós este triunfo virá!
Espontaneamente, brota do nosso coração português, a esperança que este triunfo de Maria seja penhor da restauração do nosso Portugal:
Nossa Senhora do Rosário de Fátima,
Nossa Rainha e Padroeira,
Salvai-nos e salvai Portugal!
Homilia proferida pelo Rev. Diácono Francisco Prior Claro, na Igreja do Mosteiro de São Vicente de Fora (Lisboa) a 19 de Novembro de 2016.

18 de janeiro de 2017

Dom Carlos I de Portugal, O Diplomata



‘D. Carlos rejeitou desde o início do seu governo todas as sugestões ambíguas que pudessem vir a comprometer a Nação e propôs-se, sem detença, restaurar a amizade entre Portugal e Inglaterra. (…) D. Carlos viu restabelecidas as antigas relações com a Grã-Bretanha e ocupados, na sua maior parte, os territórios ultramarinos e conquistou, além disso, pelas suas qualidades pessoais, uma posição de verdadeiro prestígio na Europa do seu tempo, em cujo equilíbrio cooperou com talento e êxito.’

- Dr. Luís Vieira de Castro, in “D. Carlos I”, p. 287


17 de janeiro de 2017

SS. AA. RR., Os Duques de Bragança presentes nas cerimónias de Natal da Ordem Soberana Militar de Malta



No passado dia 17 de Dezembro ocorreram as cerimónias de Natal da Assembleia Portuguesa da Ordem Soberana Militar de Malta. Foi celebrada a Santa Missa de Natal na Igreja de Santa Luzia e São Brás, em Lisboa, presidida por S.E.R. o Bispo de Portalegre-Castelo Branco, Dom Antonino Dias, Capelão Grã Cruz Conventual "Ad Honorem", e concelebrada por S.E.R. o Núncio Apostólico, Dom Rino Passigato, e outros Capelães Magistrais da Assembleia, estiveram também presentes Suas Altezas Reais os Duques de Bragança, S.A. o Duque de Viseu e S.E. o Embaixador da Ordem de Malta em Portugal.

Nesta ocasião fizeram a Promessa de Cavaleiros em Obediência os Confrades Exmo. Sr. Eduardo Augusto Rosa de Queiroz e o Confrade Exmo. Sr. Eng. José Manuel Soeiro do Nascimento Correia Alves.

À Cerimónia Religiosa seguiu-se um Cocktail de Natal no Turf Club em Lisboa.




16 de janeiro de 2017

A MENSAGEM DE ANO NOVO DO PR E A FLORESTA DE ENGANOS

   “O público, como todos os soberanos, como os
                         Reis, os povos e as mulheres, não gosta que se
                         lhes diga a verdade”.
                                                                       Alexandre Dumas


Não vamos falar do que o actual Presidente da República disse na sua mensagem de Ano Novo.

Esta mensagem representa um conjunto de vacuidades – “generalidades e culatras” como se diria na gíria militar – com fundo agradável e esperançoso apenas com um alerta para a economia (que tem as costas largas) e medianamente escrita, pois acreditamos que a azáfama algo adolescente do actual inquilino do Palácio de Belém, não lhe dá tempo para o esmeril literário.
                
Tal mensagem constituiria um discurso apropriado para um país e uma sociedade que se aproximasse do conceito de Paz, no dizer de Santo Agostinho: “a tranquilidade na ordem de todas as coisas”…
                
Ora estamos a anos-luz de atingir tal desiderato.
                
O que é importante realçar na peça breve, com que nos desejou um bom ano, não foi o que disse, mas sim o que omitiu.
                
Ora o Professor Marcelo Rebelo de Sousa como primeiro responsável político da Nação tem, não só o direito, mas sobretudo, tem o dever de informar, de alertar e de propor soluções, para a gravíssima situação em que o país se encontra.
                
Responsabilidade que deve ser partilhada pelo Governo e pelo Parlamento.
                
E não é com “afectos” que a coisa se resolve, por isso a fórmula, o “povo gosta, o povo quer, o povo tem”, pode parecer muito democrática, mas é apenas a antecâmara de um desastre qualquer.
                
O Dumas, aliás, percebeu isso muito bem.
            
Omitir elementos essenciais de informação é, não só uma forma de faltar à verdade, como representa um meio encapotado de mentir.
                
Mas é evidente para todos – e o PR seguramente não o vai desmentir – que o comentador político Marcelo conhece de cor e salteado, o “Príncipe” de Maquiavel, de trás para a frente…
                
E o que faltou dizer é que a Nação Portuguesa enfrenta uma das piores crises da sua História e que pode colocar um ponto final na sua existência.
            
Seria muito brutal?
                
Seria, mas vai ser a única forma de acordar a maioria da população do país e as suas diferentes instituições para a realidade, que tem que enfrentar (quer queira, quer não) em vez de simplesmente empurrar a população jovem a emigrar, (e a tentar substitui-los por migrantes que nada têm a ver connosco); correr com o que resta das comunidades que vivem no interior do país, para o litoral (desertificado ¾ daquele); vender todo o património – incluindo o próprio solo - ao desbarato (obviamente sem muitos se esquecerem de embolsar as respectivas comissões) e, sobretudo a pedir dinheiro emprestado, prática em que a classe política consegue bater qualquer profissional seja em que área for!
                
Actividade a que, num acto de suicídio recorrente, os responsáveis políticos se têm entregado alegremente, nas últimas quatro décadas.
                
O PR como Supremo Magistrado da Nação tem o dever de saber, e sabe, que o país está prisioneiro de um problema financeiro absolutamente catastrófico, baseado no estado não adjectivável em que se deixou cair a banca e o mercado de acções; cativo do BCE e de um pequeno estado dentro do estado, chamado Banco de Portugal; de uma descapitalização quase geral das famílias e das empresas; de uma soma insondável de crédito mal parado e de dinheiro colocado legal e ilegalmente em “offshores” (que todo o mundo condena, mas sobre o qual ninguém mexe um dedo) e sobretudo de uma dívida galopante que mesmo se fosse parada agora, seriam precisas 10 gerações de portugueses a trabalhar no duro (e não a aumentar dias de férias, fazer pontes e reduzir horas de trabalho) – as tais verdades que ninguém gosta de ouvir e que também não são acompanhadas por nenhum exemplo.
            
Curiosamente um dos principais responsáveis por toda esta débacle histórica foi agora a enterrar entre encómios, únicos audíveis!
                
Destarte sem se sanear as finanças e pô-las no bom caminho é impossível fazer reverter seja o que for, nem sequer o Estado tem meios quer nacional, quer internacionalmente, de exercer a sua autoridade. Não temos soberania, não contamos para nada, nem ninguém nos respeita.
            
O Ronaldo vai fazendo a sua parte, mas para os assuntos ora versados, pouco adianta…
                
Porém para sanear as finanças é necessário dar conta das causas da sua desgraça e estas são basicamente duas: um problema moral, cuja consequência para o que estamos a tratar, se chama corrupção, e um problema político, que também deriva daquele mas que se encontra plasmado em muitos erros do actual sistema político e sua estruturação, cuja peça base é um livrinho vermelho que dá pelo nome de Constituição.
                
Escusado será dizer que se as causas dos problemas, não forem atacadas, mas apenas os seus efeitos (às vezes nem esses), jamais resolveremos os problemas.
                
E o actual PR, que anda nisto há muito tempo e é até, um dos obreiros do tal livrinho, sabe tudo isto muito bem.
                
O PR sabe também, e como católico assumido, deve senti-lo ainda mais, que a sociedade portuguesa está contaminada e em grande parte subvertida, pelo cancro do “Relativismo Moral”, por ideologias subversivas oriundas de centros difusores da revolução permanente (por exemplo a Escola de Frankfurt) e pela influência de organizações de carácter “secreto” com antenas “discretas”, que tentam influenciar as alavancas do Poder e o comportamento social – isto para além de se construírem mancomunagens “fraternais” com sistemas de proteção e lealdades próprias.
                
Ora tudo isto representa ameaças permanentes à nação dos portugueses, a juntar a iberismos e federalismos serôdios.
                
O PR, como “Comandante-em-Chefe” das Forças Armadas, tem que andar atento às ameaças e deve colocar a Nação em guarda contra as mesmas.
                
E já deve ter adquirido a noção – e se não a tem é porque os chefes militares não estão a cumprir com o seu dever – de que o país está sem defesa pois não tem a menor possibilidade de sustentar qualquer tipo de conflito ou crise, sequer de baixa intensidade, por mais de duas ou três semanas.
                
E também como sabe, passando-se as coisas como as descrevo - e desafio seja quem for a desmentir-me – a opinião pública e publicada não as reflete entrando, porém, em quase histeria quando existe uma enchente de doentes nas urgências dos hospitais por causa de um pico de gripe; um craque do futebol chama nomes aos árbitros, um cantor rock morre de “overdose” ou um pederasta qualquer, é morto pelo “companheiro”!
                
Por isso, senhor Presidente, ao fazer o discurso que fez, apenas tentou iludir o amargo de boca permanente com um rebuçado momentâneo.
                
Não prestou um bom serviço ao país, mesmo que à esmagadora maioria da população possa ter agradado o gesto.
                
Limitou-se a repetir a velha história do rei que ia nú e a confundir ainda mais a generalidade dos portugueses (de quem se diz sentir tão próximo) com uma tão vasta floresta de enganos.


João José Brandão Ferreira
Oficial Piloto Aviador


Fonte: O Adamastor