11 de janeiro de 2017

Hora de reparação moral

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Findou o período de espera, foram desaparecendo os imaginados obstáculos à urgente e imprescindível reparação moral que o país merece. Merece-o pela sua história secular e merece-o pelo necessário cumprimento de todas as cartas humanitárias a que o Estado internacionalmente se comprometeu.

Existe um muito relevante sector da sociedade que em silêncio tem assistido ao desfiar de décadas e visto morrer os seus entes queridos. Subitamente, em alguns momentos que todos compreenderão, assomam fúrias, faz-se a catarse contra quem, para o bem e para o mal, julgou poder assumir as responsabilidades pela liquidação de um património que não era apenas material, mas sobretudo, de uma certa consciência nacional que não se compraz com passageiras ventanias ditadas pelos apetites vindos de fora e julgados como perfeitamente utilizáveis para o desfasado refazer identitário de um povo visceralmente orgulhoso em toda a sua reconhecida humildade e que se se encontra hoje espalhado por todos os continentes. Essa reparação moral é absolutamente devida a brancos, a negros e mestiços de vários cruzamentos, a indianos e chineses, a índios, a cristãos, muçulmanos, hindus, animistas e outros.

Muitos há que viram as suas famílias destroçadas e dispersas como folhas secas de outono. Os mais aventurados não conheceram ou assistiram à morte dos seus ceifados por catanas ou balas, por ébrios autos-da-fé avivados pelo combustível que faz mover praticamente todos os motores e interesses planetários.

Portugal recebeu os frutos de uma colossal limpeza étnica e não consta ter o mundo dado conta disso. Num ruidoso silêncio chegaram e logo permaneceram relativamente expectantes de qualquer coisa que inicialmente até poderia ter sido uma forma de compensação pelo abrupto roubo, confisco ou destruição daquilo que para a imensa maioria eram parcas posses obtidas através do trabalho quotidiano. Poucos eram exploradores e mais escassos ainda eram os nomes ligados a grandes empresas que a passagem de testemunho do regime deposto provisoriamente alijou da preponderância económica e financeira, logo, da política da condução do Estado.

Um ainda menor número retornou à terra que os viu nascer, a outrora Metrópole. Tal como em África e na Ásia, foram desde sempre leais a uma pátria ingrata e palidamente indiferente aos tormentos provocados de forma deliberada. Deliberada, pois a realização de um golpe de Estado que oportunamente foi baptizado como revolução, pressupunha a aceitação daquele sempre difícil dia seguinte, o da gestão de uma situação na qual todos colaboraram enquanto lhes foi conveniente.

Salvaram-se os que vieram, embora em boa parte reduzidos à mais confrangedora miséria material. Amontoaram-se naquele ..."demos-lhes tudo, até ficaram em hotéis de cinco estrelas, até no Ritz!" ou em roulottes emprestadas, acampados em tendas, patinhando décadas no lodaçal do Jamor, em pensões mais ou menos suspeitas, em casas degradadas. Quando puderam alimentar-se, comeram massa com massa, arroz com arroz, feijão quando havia e de vez em quando peixe, carne de frango e generosas rações de combate oferecidas pelo Real Exército da Suécia. Aturaram em silêncio todo o tipo de despautérios vindos de quem se julgava por cima. Mal vestidos e cabisbaixos, foram alvo da chacota geral, eram os tinhosos, tinhosos porque tinham isto e tinham aquilo e tudo perderam.

Este país muito beneficiou com estes refugiados nacionais que o coloriram de norte a sul, inventaram profissões até então desconhecidas ou deixadas ao acaso. Não vieram para impor o que fosse, organizar atentados, guerrilha urbana ou exigir o impossível. Foram o sangue novo e vital de um organismo enfraquecido pela secular imobilidade social, pelo preconceito, estreiteza de horizontes, pela sacra má-língua e denúncia quadrilheira.

Chegou a hora da imprescindível e incontornável reparação.

Exige-se que o Parlamento - à semelhança daquilo que ainda não há muito fez em relação aos judeus e cristãos-novos  que significaram afinal a grande maioria que jamais abandonou o país -, os três ramos das Forças Armadas que abandonaram muitas dezenas de milhar de seus camaradas de armas às mãos dos até há pouco inimigos, o governo e o próprio Chefe do Estado, apresentem em solene sessão um formal acto de reparação moral e a apresentação das devidas desculpas a todos aqueles, mesmo o que há muito se encontram no Além, foram ignominiosamente sacrificados à indiferença do oportunismo dos senhores que têm partilhado como casta, o poder.

É o mínimo. Não se pede a devolução de machambas, de uma imensidão de prédios, quintas, casas, fábricas, entrepostos, bancas de comércio e toda uma infindável quantidade de actividades que conformavam não apenas as vidas dos que tiveram a sorte de escapar para outros pontos do globo, mas também para aqueles que para sempre ficaram abandonados à miséria e prepotência que os noticiários batem com o ruído de tambores de guerra.

Exige-se, isso sim, aquele simples e muito mais difícil desculpem.

Sem isso, nada feito, será impossível tapar com uma pesada pedra o imenso buraco de desfaçatez legislativa impossível de esconder, os actos de extorsão quando não de roubo descarado, ainda mais agravados por terem sido perpetrados por quem devia ter antes de tudo defendido os civis. É este o funeral que agora interessa e finalmente libertará as consciências de toda e qualquer reserva mental. Não se trata de vingança sobre a história consumada, mas sim de justiça moral. Será o regime finalmente capaz de tal grandeza?

Testemos então a sinceridade de quem comanda, vejamos então quem é quem. 


Nuno Castelo-Branco


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