19 de julho de 2017

Apóstola dos apóstolos



A 3 de Junho de 2016, Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, o Papa Francisco, através do seu prefeito para a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Cardeal Robert Sarah, decretou que a celebração litúrgica de Santa Maria Madalena passasse a ser festa, a realizar todos os anos no dia 22 de Julho, que era já o da sua memória.

“Na actualidade, quando a Igreja é chamada a reflectir mais profundamente sobre a dignidade da mulher, a nova evangelização e a grandeza do mistério da misericórdia divina – lê-se no respectivo decreto – pareceu conveniente que o exemplo de Santa Maria Madalena fosse também proposto aos fiéis de uma forma mais adequada. Com efeito, esta mulher conhecida por ter amado Cristo e por ter sido muito amada por Cristo, chamada por São Gregório Magno ‘testemunha da divina misericórdia’ e por São Tomás de Aquino ‘a apóstola dos apóstolos’, pode ser hoje proposta aos fiéis como paradigma do serviço das mulheres na Igreja”.

A este propósito, escreveu o arcebispo Arthur Roche, secretário da Congregação para o Culto Divino: “foi João Paulo II quem dedicou uma grande atenção, não só à importância das mulheres na missão do próprio Cristo e da Igreja, mas também, em particular, o especial papel de Maria de Magdala, como sendo a primeira testemunha que viu o Ressuscitado, e a primeira mensageira que anunciou a ressurreição do Senhor aos apóstolos (cfr. Mulieris dignitatem, n. 16)”.

Questão mais difícil é a de apurar a historicidade da tradição em relação a Santa Maria Madalena. No Ocidente, sobretudo depois de São Gregório Magno, identificou-se, como sendo a mesma pessoa, a Maria Madalena que, com outras discípulas, acompanhava o Mestre; a pecadora que, em casa de Simão, o fariseu, Jesus perdoou; e a irmã de Lázaro e de Marta.

A exegese actual não corrobora essa identificação das três eventuais personagens bíblicas numa só. A protagonista da unção em casa de Simão e que é apenas referida como sendo “pecadora naquela cidade” (Lc 7, 37), não parece ser Maria de Magdala, nem a homónima irmã de Lázaro e de Marta. Contudo, é provável que a confusão entre Maria Madalena e a tal mulher “pecadora naquela cidade” tenha originado a má fama que, desde então, persegue a apóstola dos apóstolos.

Maria Madalena foi uma grande santa, porque amou muito e foi também muito amada por Cristo Nosso Senhor. Não ao jeito que certos ignaros gostam agora de romancear, em novelas de cordel que talvez sejam best-sellers comerciais, mas que nada têm de verídico, nem de verosímil. Desmente-os a modesta reverência que a boa mulher de Magdala sempre dispensa ao seu Mestre e Senhor, a quem trata com indiscutível amor, mas também com a devoção devida pela criatura ao Criador. Por isso, quando finalmente descobre Jesus naquele que antes julgara ser o hortelão, não o trata familiarmente pelo nome próprio, como seria de esperar entre cônjuges ou amantes, mas com a deferência que a discípula deve ao seu Mestre. Também o famoso “noli me tangere” (Jo 20, 17) que Jesus opõe ao ímpeto da sua esfusiante alegria, quando por fim o reconhece, assinala, sem lugar para dúvidas, a distância sempre observada entre a humilde serva e o seu divino Senhor.

A santa de Magdala não esgota a sua fidelidade nas lágrimas choradas junto à Cruz de Jesus (cfr. Jo 19 25): a sua fé afirma-se sobretudo na gloriosa ressurreição do seu Mestre e Senhor, de que ela será constituída, por especialíssima graça, primeira testemunha, como agora se diz no hino das laudes da sua festa litúrgica.

Maria Madalena foi testemunha de Cristo ressuscitado e foi quem deu testemunho d’Ele aos apóstolos: a elevação a festa da sua comemoração litúrgica corresponde ao reconhecimento eclesial da sua qualidade de apóstola, pois também os Doze são desse modo celebrados pela liturgia eclesial. “Por isso – como escreveu o secretário da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos – é justo que a celebração litúrgica desta mulher adquira o mesmo grau de festa dado às celebrações dos apóstolos no Calendário Romano Geral e que se destaque a especial missão desta mulher, que é exemplo e modelo para todas as mulheres na Igreja”.

Se Maria Madalena, sem ter nunca recebido o sacramento da Ordem, em nenhum dos seus três graus, pôde ser e de facto foi apóstola, também todas as mulheres cristãs, sem necessidade de outros sacramentos que não os da iniciação cristã, podem e devem ser – sejam leigas ou consagradas, solteiras ou casadas – não só apóstolas mas, como Santa Maria Madalena, apóstolas de apóstolos!


P. GONÇALO PORTOCARRERO DE ALMADA

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