quinta-feira, 10 de agosto de 2017

APONTAMENTO RÁPIDO SOBRE FOGOS



“O Mal não deve ser imputado apenas àqueles que o praticam 
mas também àqueles que poderiam tê-lo evitado e não o fizeram”.
                                                             Tucídides (460 – 396 AC).


Relembremos: só há fogo se houver uma conjunção de três coisas, conhecidas pelo “triângulo do fogo”, a saber: um comburente, uma matéria combustível e uma fonte de ignição (ou calor).[1]
    Presumo que, por esta altura, autoridades politicas, policiais, bombeiros, até mesmo juízes, etc., já tenham noção disto.
    Ora o oxigénio (que actua como comburente) é um elemento contra o qual não se deve actuar; o combustível (neste caso a floresta, as casas, as pessoas, etc.) é justamente, o que se quer preservar e a acção que gera a ignição é o que se quer evitar.
    Desta equação simples de enunciar, mas complexa de resolver (embora também não convenha complica-la) se deve partir para a resolução do problema.
    Ora a conjugação simultânea das três variáveis do dito triângulo é extremamente difícil de ocorrer naturalmente (experimentem colocar umas folhas secas na varanda cobertas com um fundo de garrafa, ou uma lente, e esperem por uma ignição espontânea, para terem uma ideia da coisa) restando, deste modo, a mão humana para originar as catástrofes que nos causticam e castigam desde sempre, mas com especial fervor nas últimas quatro décadas!
    Dado que precisamos todos – animais e plantas – do oxigénio para a vida, convém preservá-lo a não ser quando, pontualmente, o suprimimos em espaço e tempo confinados, num ataque químico a um fogo, resta-nos actuar sobre a matéria combustível e as possíveis acções que geram a ignição.
    Para o “combustível” é apropriada a prevenção; para a ignição é conveniente o ataque apropriado e à bruta.
    Expliquemo-nos.
    Na questão da prevenção têm sido apontadas “paletes” de acções e soluções, por um conjunto alargado de especialistas. Mas como este âmbito custa dinheiro, trabalho pouco visível, nenhumas honrarias, ou oportunidades de negócio (e não rende votos), não tem havido a menor vontade política em as pôr em prática.
    Entre elas estão a repovoação do interior do País (esperemos que não com migrantes…); a escolha adequada das espécies vegetais a plantar; a limpeza da floresta; a construção de aceiros e áreas de segurança; vigilância q.b., leis apropriadas, etc..
    Pouco se tem feito neste âmbito o que, convenhamos, é de suspeitar…
    Finalmente existe a questão da ignição.
Ora já vimos que a ignição é difícil em termos naturais – e que dizer dos fogos durante a noite? - pelo que, para a sua origem, resta a mãozinha humana.[2]Mesmo tendo em conta a pressurosa ajuda do Director da Polícia Judiciária…
    Estas causas podem ser englobadas em dois âmbitos: no do descuido, descaso ou acidente – como é o caso de erros nas queimadas, negligência social quanto a beatas e fogueiras, etc. - e em motivação dolosa.
    A alienação mental tem sido o bode expiatório para desculpar uns e outros…
    Ora tem de haver maneira de detectar e prender os autores que estão na origem dos incêndios e julgá-los munidos de um “edifício” legal adequado e duro. Muito duro.
    A razão é simples: enquanto não se cortar a mão ao incendiário (e à mão que eventualmente esteja por detrás) o problema – que tem consequências catastróficas – não se resolve, mesmo fazendo a melhor prevenção do mundo![3]
    É preciso pois, investigar (até preventivamente) todas as pessoas/entidades a quem possa interessar esta calamidade pública, que não deixa de ser também uma forma de terrorismo.
    É que mesmo tendo fechado o hospital Júlio de Matos, não deve haver assim tantos malucos à solta…
    Resta a questão do ataque aos fogos.
    Dizem que há poucos meios; diria que talvez haja até demais. E estou convicto de que quanto mais dinheiro o Governo prometa que vai verter neste poço sem fundo, mais incêndios vai haver…
    Creio até que seria melhor pensar na adequação dos meios e nas entidades que os operam e refundar de alto abaixo o Serviço Nacional de Protecção Civil e seus componentes.
    Verão que ainda poupam meios, gastam menos e obtêm melhores resultados, embora seguramente, se tenha que deixar de fora alguns negócios para os amigos e se percam muitos lugares para a rapaziada dos Partidos…
    E, bem entendido, é necessário parar o massacre que a comunicação social, sobretudo as televisões, faz sobre este drama e restante acção deletéria.
    No fundo toda a gente opina, grita, discute – normalmente à frente de uma boa refeição, ou no intervalo da praia – mas quem verdadeiramente tem que decidir sobre estes assuntos e estabelecer uma estratégia com cabeça tronco e membros e continuada no tempo, aos costumes diz nada.
    A não ser palavras de circunstância repetidas ano após ano.
   Não há autoridade para nada e estão, ao que parece, democraticamente inibidos.
    O que será que os inibe?
    Porque se rendem à magnitude da tarefa?
    Porque não querem mexer em interesses instalados?
    Porque depois da Ministra Constança ter informado que já contabilizara 7795 (!) fogos desde o início do ano, isso ainda não lhes parece suficiente?
    Será que depois de ano após ano se prenderem cada vez mais incendiários (o que lhes acontece?), a PJ e a PGR serão tão incompetentes que nunca conseguiram estabelecer elos de relação causa/efeito?
    Até o Presidente da República – esse novo bombeiro voluntário dos afectos para todo o tipo de fogos - não encontrou nada melhor para afirmar, na visita que fez a Mação, do que “em ditadura lembro-me há 50 anos, era possível haver tragédias e nunca ninguém percebia bem quais eram os contornos das tragédias porque não havia um MP autónomo, juízes independentes e comunicação social livre. Em Democracia há tudo isto”.
    Ou seja agora, felizmente sabe-se tudo e percebe-se tudo. Como se tem visto.
    Vão ver que a culpa dos 64 mortos (?) de Pedrógão Grande ainda vai ser atribuída ao Professor Salazar.


                         João José Brandão Ferreira
                               Oficial Piloto Aviador


[1] Recorda-se que combustível é tudo o que é susceptível de entrar em combustão; comburente, é todo o elemento que associado quimicamente ao combustível o faz entrar em combustão; calor é a temperatura de ignição (a temperatura acima da qual um combustível pode queimar).
[2] Não estamos a falar de excepções como são o enxofre e os metais alcalinos (ex. o potássio, o cálcio, o magnésio, etc.) que se inflamam directamente no estado sólido…
[3] Estivemos há pouco num país do Magreb, onde como se sabe, faz um calor dos diabos. Neste país existem extensas zonas de floresta em zonas montanhosas de difícil acesso. Não me parece que a prevenção seja grande coisa; há lixo por todo o lado; a população é socialmente bastante mais indisciplinada do que a nossa (e também fuma e faz picnics) e os meios de combate a incêndios são seguramente mais fracos que os nossos. Não há fogos? Há, mas consegui percorrer centenas de quilómetros e não me lembro de ter visto nenhuma área ardida.


Fonte: Adamastor

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