14 de março de 2018

E se mais mundo houvera, lá chegara: António Tenreiro, um Vasco da Gama da terra

Foto de Nova Portugalidade.

Pouco se sabe da vida de António Tenreiro, o primeiro europeu a viajar da Índia à Europa por terra e sem estar integrado numa caravana. Diogo do Couto, guarda-mor da Torre do Tombo e grande escrivão das aventuras asiáticas dos portugueses, deu-o por nascido em Coimbra, versão que Gaspar Correia secunda. Quando chegou à Índia, não sabemos. Certo é que terá feito a vida em Ormuz, fortaleza iraniana então na posse de Portugal, durante coisa de seis anos, e que empreendeu duas viagens extraordinárias: uma primeira, em 1524, como membro da embaixada de Baltasar Pessoa ao imperador persa - e nosso aliado - Ismail Xá, e outra, em 1528, que lhe deu a distinta honra de ser o primeiro europeu a ligar a Índia à Europa por terra e viajando só.

A embaixada de Baltasar Pessoa ao Irão, enviada pelo Vice-rei Dom Duarte de Meneses, inscrevia-se na necessidade, que ambos os potentados conheciam, de manter a aliança entre o cristão Estado da Índia e o Irão muçulmano-xiíta contra o Turco. Tenreiro descreveria mais tarde, já regressado à terra-mãe, as motivações e acontecimentos daquela viagem em "Itinerário de António Tenreiro, que da Índia veio por terra a este Reyno de Portugal, em que se contêm a viagem e jornada, que fez no dito caminho, e outras muitas terras, e Cidades, onde esteve antes de fazer esta jornada, e os trabalhos que em esta peregrinação passou o anno de 1529". Título longo para trabalho fascinante, pois Tenreiro oferece ao historiador uma das mais completas e pormenorizadas fontes de conhecimento sobre o Irão e o Médio Oriente deste tempo. Da Ormuz portuguesa, aliás, faz extraordinário relato: "Os moradores de Ormuz têm a lei de Mafamede [Maomé]. São persianos e arábios; falam árabe e persa. Os árabios são baços, e os persianos alvos e bem apessoados; e são todos dados a deleitações, assim em o comer como em outros apetites carnais, principalmente em a luxúria; são tão grandes cavalgadores que jogam a choca a cavalo [o hóquei]. (...) São muito ciosos das mulheres, e com razão, porque são elas muito formosas e muito dadas à sensualidade. Saem de casa poucas vezes e, quando vão fora, vão todas cobertas com um pano grande como lençol com buracos por onde vêem [o nicabe]."

A embaixada portuguesa saiu de Ormuz, pois, penetrando os domínios do Xá em Setembro de 1524. A viagem para norte seria atribulada, falando Tenreiro da ameaça colocada por leões e outras criaturas bestiais, assim como do perigo sempre presente dos bandidos turcomanos. Visitaram Lar e Xiraz, onde adoeceram todos os portugueses e morreram alguns e, depois, para Espaião [Esfahan], Caixão [Kashan], Sabá [Saveh], Angão [Aghkand] e, finalmente, para a capital imperial, em Tabriz. Detiveram-se nos arrabaldes da cidade, ainda muito danificada pelos assédios recentes dos turcos, por dez ou doze dias. Logo, prosseguiram caminho. O Grande Rei encontrava-se fora das muralhas, provavelmente em excursão de caça, e só recebeu os portugueses ao fim daqueles dias. Presenteou-os então com faustoso banquete que Tenreiro descreve no seu "Itinerário" com profundidade admirada. Em particular, parece ter-lhe surgido curioso o apetite da corte persa por vinho, produto proibido pelo Islão mas excepcionalmente apreciado pelo Imperador e seu séquito. Já as oferendas trazidas por Baltasar Pessoa não causaram, aparentemente, qualquer impressão a Ismail, muito embora os portugueses as considerassem muito ricas; o persa só se interessou pelas armas da tropa portuguesa que escoltava o embaixador e sua comitiva, talvez por pretender copiá-las e usá-las contra os otomanos. A sorte não lhe sorriria, contudo. Ainda não tinha a embaixada tomado o caminho de regresso quando Ismail, sabe-se lá por que motivo, morreu. Seguiu-se a turbulência da sucessão, a conquista do poder pelo príncipe Tamás [Tamasp] e, com a vaga de matanças e perigos que ela causou, motivação grande para que embaixada e embaixador se afastassem. Foi, pois, o que fizeram. Estava-se em Maio de 1524.

Não quis acompanhá-la Tenreiro, todavia. Este pretendia - justifica-se em "Itinerário" - "ver Jerusalém". E foi rumo à Cidade Santa que se colocou, sem ninguém que não um guia e junto a uns "cristãos arménios" que conhecera. Pela Arménia andou até ser preso pelos turcos, que, compreensivelmente, suspeitaram das intenções deste peculiar viajante. Levam-no para o Cairo, no Egipto, e passam de caminho por Damasco, na Síria, e a hoje capital jordana de Amã. No Cairo esteve preso por algum tempo, acabando em liberdade após duros interrogatórios. Novamente homem do seu destino, contudo, estava sem dinheiro e em terra estranha. Mas o destino era-lhe generoso: na judiaria do Cairo, conheceu um tal Francisco de Albuquerque, judeu egípcio que Afonso de Albuquerque, o grande governador da Índia portuguesa, convertera ao cristianismo. Este judeu tomara então o nome de Francisco de Albuquerque e rumara a Lisboa. Mas este Francisco não parecia cristão convicto: de Portugal passara-se a Veneza, que serviu, regressou ao Cairo, apostatou e retomou a religião original. Fosse como fosse, não era anti-português e disponibilizou-se a ajudar Tenreiro. Foi auxiliado por este que Tenreiro seguiu do Cairo para Alexandria, dali para Chipre e, por fim, do Chipre à Síria, ao Iraque e, finalmente, de novo a Ormuz. Estava terminada uma estranha peregrinação. A segunda das suas viagens, melhor sucedida mas menos atribulada, a faria em 1528. Pedir-lhe-a o capitão de Ormuz, Dom Cristóvão de Mendonça, que levasse ao Rei Dom João III, em Lisboa, mensagens muito importantes a respeito dos últimos desenvolvimentos geoestratégicos no Índico. Isso fez Tenreiro. De Ormuz, rumou a Baçorá, no Iraque, e dali para o Líbano. Continuou para a ilha de Chipre, Itália, Valência, já na península e dali continuou a pé para Portugal. Quando chegou ao Reino, trazia consigo a honra de ser o primeiro europeu a conseguir semelhante feito. O Rei recompensou-lhe os esforços: João III recebeu-o e concedeu-lhe uma tença e o manto da Ordem de Cristo.

RPB


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