1 de março de 2018

Félix da Rocha, mapeador do Turquestão e da Tartária

Foto de Nova Portugalidade.


Félix da Rocha, missionário preparado em Macau “nos mistérios das muitas Chinas”, foi um dos pioneiros da região actualmente conhecida como Mongólia Interior.

Nascido em Lisboa a 31 de Agosto de 1713, optou pela missão da China após oito anos de estudos – quatro de filosofia e quatro de teologia. Entrou no continente em 1735, após ter frequentado o seminário de Macau, tendo ingressado posteriormente na corte de Pequim, em 1738, onde foi astrónomo. Cedo caiu nas boas graças do imperador que via nele um homem de muita ciência e virtude. Em 1753 é nomeado, por Qianlong, assessor do Tribunal das Matemáticas e passa a dirigir o Observatório Astronómico de Pequim.

Em 1755, como recompensa por ter, com a ajuda do padre Pedro Espinha, mapeado as regiões do Turquestão (actual província chinesa do Xinjiang) e da Tartária, “habitadas por elutos e torgutes”, aquando uma das campanhas de “pacificação” imperiais, Qianlong nomeia-o mandarim de segunda ordem.
O padre Félix da Rocha regressaria, com Espinha, desafiando perigos sem conta, a esta inóspita região para terminar o seu trabalho: observar a latitude, deduzir a longitude, as curvas orográficas e as distâncias. No total foram determinadas quarenta e três posições geográficas. Foram os dois primeiros europeus a percorrer tais paragens, desde que nela andara, século e meio antes, Bento de Góis na demanda do Cataio.
Por duas ocasiões, em 20 de Agosto de 1774 e em Março de 1777, Félix da Rocha seria enviado ao pequeno Tibete, Tibete Oriental, recentemente anexado ao império chinês, com o objectivo de traçar o mapa de toda aquela região.

Os mapas de Félix da Rocha e de Pedro Espinha serviriam de base aos estudos e mapas sobre a Ásia Central, hoje mundialmente conhecidos, efectuados por Klaproth, Ritter e Alex de Humboldt. Que, como sempre acontece nestas coisas, ficaram com todos os louros, relegando para o esquecimento os pioneiros portugueses.
Em 1770, o jesuíta Cibot escrevia, a propósito, o seguinte: “Acabam de ser publicadas mapas e notícias sobre regiões recentemente conquistadas, sem que sejam mencionados os nomes dos nossos padres portugueses que, por ordem imperial, recolheram os dados e as coordenadas desses mesmos locais”.

No ano de 1750, em carta enviada a D. Policarpo de Sousa, bispo de Pequim – que aportara a Macau, vindo de Portugal, em 1726 –, Félix da Rocha desabafava: “eu sou o da Vice Província o mais velho na missão dos que se acham em Pequim, porque todos os padres que aqui achei, excepto sua Exa., já lá vão para outra vida e nenhum desde que cá estou, tem servido mais por neves, frios, perigos e consumições do que eu, mas como tudo é por Deus, só dele terei o prémio, como espero na Sua Divina Bondade...”
O padre Rocha ocupou o cargo de procurador da missão portuguesa em Pequim, e de vice provincial em 1754–1757 e de 1762 a 1766, e a sua intervenção foi preponderante para que os prisioneiros portugueses em Nanquim – padres Araújo, Viegas, Pires, Dinis Ferreira e José da Silva – fossem libertados e pudessem regressar a Macau.
Félix da Rocha morreu em Pequim, a 22 de Maio de 1781.

Joaquim Magalhães de Castro


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