24 de março de 2018

O kilt "escocês" é português

Foto de Nova Portugalidade.



Se há trajo masculino europeu que qualquer um reconhece sem dificuldade como peça de vestuário inseparável de um povo, esse é o saio escocês. Porém, abundantes testemunhos iconográficos insertos nas iluminuras medievais produzidas pelo fino engenho artístico de gerações de ilustradores do século XI ao século XIV descartam a possibilidade desse trajo ser de origem escocesa. Durante a chamada Idade Média Clássica - ou seja, entre o ano 1000 e 1200 - e durante a Idade Média Final (séculos XIII e XIV), os escoceses vestiam-se como quaisquer outros europeus dos climas frios do norte: ou uma túnica comprida em lã, no inverno, e no verão umas calças (hosen) que davam pelo joelho e se cingiam à cintura. Não há, pois, qualquer vestígio de saios e dos tartans coloridos e axadrezados que só no século XVIII passaram a identificar o "trajo escocês". O trajo popular português então predominante era o saio, peça única que se enfiava pela cabeça e cobria o tronco e os braços, descendo até meio da perna, ajustando na cintura com um cordão.

Se bem que Portugal nunca igualasse a produção lanígera da Flandres, de Castela e da Inglaterra, os panos de burel e outros tecidos de lã portugueses conheceram importante surto desde o século XIV, com pisões de norte a sul do país, indústria que envolvia muitos tecelões e tecedeiras. Havendo referências ao comércio de panos de lã portugueses destinados à Escócia desde o século XIV, a introdução do saio português naquela região setentrional poderia ter ocorrido por essa época, sendo então usado como peça de vestuário popular nessas terras altas e pobres. A subsequente construção de uma identidade escocesa, acirrada pela lenta subordinação à coroa inglesa, levou a que os escoceses optassem por um trajo absolutamente diferente do inglês. A opção pelo saio, e depois pelo kilt com decoração geométrica, foi um acrescento certamente destinado a enobrecer tal peça e permitir que povo e nobreza o pudessem usar indistintamente como símbolo de orgulho nacional e organização social de tipo clãnico que a todo o custo queriam preservar. Por essa altura, já o saio português caíra em desuso no trajar quotidiano, preservado apenas como peça de roupa usado por militares, sobretudo cavaleiros, como no-lo demonstra o retrato de corpo inteiro de D. Afonso VI de Portugal.

MCB

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