1 de julho de 2018

O cardeal de Fátima: a tradição já não é o que era

Portugal rejubila com a elevação ao cardinalato de D. António Marto, mas o que todos os fiéis devem pretender é a perfeição da caridade, ou seja, a santidade.

Com a nomeação cardinalícia de D. António Marto, bispo de Leiria-Fátima, Portugal passa a ter quatro representantes no sacro colégio, muito embora só dois sejam eleitores num próximo conclave. Com efeito, D. Manuel Monteiro de Castro, ex-núncio apostólico em Madrid, e D. José Saraiva Martins, prefeito emérito da congregação para as causas dos santos, não participarão num próximo conclave, por já terem completado os oitenta anos. Mas D. Manuel Clemente, cardeal-patriarca de Lisboa e actual presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, bem como o recém-criado membro do colégio cardinalício, serão, em princípio, eleitores do próximo papa.
Se, até para o próprio D. António Marto, foi uma enorme surpresa a sua nomeação como cardeal, maior o foi para todos os católicos portugueses, não porque houvesse qualquer dúvida quanto às qualidades que concorrem na pessoa do actual bispo de Leiria-Fátima, mas porque nunca, até à data, o titular desta sede episcopal tinha sido honrado com uma tal distinção. Por outro lado, sabendo que é vontade do Papa Francisco internacionalizar o colégio cardinalício, nomeadamente diminuindo a percentagem dos cardeais europeus, nada fazia supor que Portugal, que já tem, na pessoa do patriarca de Lisboa, um cardeal eleitor, viesse a ter mais um membro no sacro colégio. Por último, do ponto de vista da hierarquia eclesiástica, seria mais lógico que essa honra distinguisse uma sede metropolitana, como Braga ou Évora, cujos titulares são, por esse motivo, arcebispos. Ou então que fosse elevado à condição cardinalícia o bispo da segunda maior cidade do país, o recentemente nomeado bispo do Porto.
A nomeação de D. António Marto obedece a uma intenção dos últimos pontífices e a que o Papa Francisco tem sido particularmente sensível: adaptar o colégio cardinalício à realidade e às necessidades da Igreja universal, não só por via de uma maior representatividade do episcopado mundial, mas também pela nomeação de individualidades mais marcantes na vida e actividade eclesial. Para este efeito, algumas antigas tradições têm vindo a ser sucessivamente desrespeitadas, em benefício de uma maior liberdade pontifícia na nomeação de novos membros do sacro colégio.
Uma tradição, que vigorou até meados do século XX, foi a de que o núncio apostólico em Portugal, ao terminar a sua missão diplomática no nosso país, fosse elevado à dignidade cardinalícia. O chefe de Estado português, primeiramente o rei e depois o presidente da República, tinha o privilégio de impor, ao núncio cessante, o barrete cardinalício, muito embora a sua nomeação, como é óbvio, fosse pontifícia. Também era da tradição que algumas sedes episcopais tivessem anexa a dignidade cardinalícia, muito embora, em Portugal, apenas o patriarcado de Lisboa tivesse essa honra.
Em Itália, por exemplo, era tradição que os bispos de Milão, Génova, Palermo, Bolonha, Turim, Florença, Nápoles e Veneza, entre outros, fossem nomeados cardeais. Contudo, uma tal tradição implicava um excessivo número de membros do episcopado italiano no conclave e, por isso, o Papa Francisco nem sempre respeitou essa tradição. Um caso clamoroso é o do patriarca de Veneza – os dois únicos patriarcados católicos ocidentais são o de Lisboa e o de Veneza – que, não obstante todos os seus antecessores terem sido cardeais, não foi ainda elevado a essa dignidade, não sendo já provável que o venha a ser. O próprio patriarca de Lisboa que, segundo a tradição, deveria ter sido feito cardeal no primeiro consistório depois da sua tomada de posse como arcebispo e patriarca de Lisboa, não o foi, sendo-o apenas num momento posterior. Portanto, como alguém dizia de forma certamente irónica e paradoxal, a tradição já não é o que era…
A recente nomeação de D. António Marto não pode ser explicada por outra razão que não seja a pessoal: o Santo Padre quis conceder a este bispo de Leiria-Fátima o título de seu especial conselheiro e provável membro do colégio que, em seu dia, deverá eleger o seu sucessor.
Quer isto dizer que está para breve o fim deste pontificado?! Francisco admitiu a possibilidade de vir a renunciar ao múnus petrino, como fez o agora papa emérito, Bento XVI. De todos os modos, a existência, em simultâneo, de três papas, um em exercício e dois eméritos, seria certamente desaconselhável. Com efeito, a tradição sempre foi a de que o pontificado romano é exercido até à morte do titular, como aconteceu com São João Paulo II e todos os seus imediatos antecessores. Mas, como se disse, a tradição já não é o que era e Francisco é o papa das surpresas …
Ainda uma nota de carácter histórico: durante os primeiros séculos do Cristianismo, os bispos diocesanos eram eleitos pelas respectivas comunidades eclesiais, embora a sua ordenação episcopal não se pudesse fazer sem mandato pontifício. Foi assim que Santo Ambrósio, que na altura nem sequer era sacerdote, foi eleito arcebispo de Milão. Assim acontecia também com os bispos de Roma, aos quais compete, como sucessores do apóstolo Pedro, presidir à Igreja universal. Como eram os bispos, presbíteros e diáconos de Roma que elegiam o seu bispo, quando se internacionalizou o colégio eleitoral, procurou-se respeitar esta tradição, outorgando aos novos cardeais a titularidade de uma diocese, paróquia ou diaconia romana. Por esta razão, os cardeais católicos, embora sejam todos, por regra, bispos, estão divididos em três ordens honoríficas: a dos cardeais-bispos, cardeais-presbíteros e cardeais-diáconos e todos têm, em Roma, uma igreja própria. Por este motivo, as fachadas das igrejas romanas ostentam dois escudos: o do Papa, enquanto bispo de Roma, e o do cardeal titular dessa igreja, que o é, contudo, apenas em termos formais, até porque a maioria dos purpurados não vive habitualmente na capital italiana.
É uma grande honra para Portugal a elevação ao cardinalato de D. António Marto, bispo de Leiria-Fátima, bem como a próxima ordenação episcopal de D. Tolentino Mendonça e a nomeação, como arcebispo de Évora, de D. Francisco Senra Coelho, actualmente bispo auxiliar de Braga. Mas a principal dignidade que devem pretender, não só os bispos como também os sacerdotes e todos os fiéis, é a perfeição na caridade, ou seja, a santidade. Jesus Cristo ensinou que essa é a única honra que verdadeiramente interessa porque, no reino dos Céus, “muitos dos primeiros serão os últimos, e muitos dos últimos serão os primeiros” (Mt 19, 30). Sic transit gloria mundi!
Fonte: Observador

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