6 de fevereiro de 2015

«ÉRADES BOA PARA REI!»

Homilia na Missa de sufrágio por El-Rei D. Carlos I e pelo Príncipe Real
(Lisboa, Mosteiro de São Vicente de Fora, 1-II-2015)

1. Introdução. 
«Ficaram todos tão admirados que perguntavam uns aos outros: ‘Que vem a ser isto? Uma nova doutrina, com tal autoridade, que até manda os espíritos impuros e eles obedecem-Lhe!’ E logo a fama de Jesus se divulgou por toda a parte, em toda a região da Galileia» (Mc 1, 27-28). Poder-se-ia dizer, sem exagerar, que este espanto perdura, dois mil anos decorridos sobre estes acontecimentos. Se, por um lado, nos continua a maravilhar a doutrina, cheia de autoridade, do divino Mestre, bem como o seu poder, expressão da sua divina omnipotência, também nos espanta esta aguerrida oposição que Lhe é movida, desde então, pelos espíritos impuros que, embora confessando que Jesus de Nazaré é «o Santo de Deus» (Mc 1, 24), contudo a Ele se opõem através dos seres humanos que, por extrema infelicidade, por eles se deixam possuir. 

A história da humanidade se resume neste combate entre o bem e o mal, aquele presente no Senhor do universo e naqueles que O seguem pelos caminhos do mundo, enquanto o mal se manifesta por aqueles espíritos que, excluídos da celestial bem-aventurança por inapelável determinação do Juiz divino, tentam seduzir os homens, afastando-os do caminho da vida eterna, com enganadoras promessas de ilusória felicidade.

2. Aniversário do regicídio. 
A presente celebração eucarística rememora o regicídio que vitimou Sua Majestade el-Rei D. Carlos I e Sua Alteza Real o Príncipe D. Luís Filipe, no dia 1 de Fevereiro de 1908. É uma antiga tradição e devota praxe da Família Real, em que muitos patriotas, de todas as condições, têm por bem participar. 

É sempre com espanto que se evoca uma tão funesta página da História nacional, porque nela se adivinha, por intermédio da acção dos regicidas, a furiosa intervenção do poder do mal. Só aquele que é «homicida desde o princípio» (Jo 8, 44) pode explicar um acontecimento que, na realidade, parece ultrapassar a mera maldade humana. 

Estariam possessos os assassinos que atentaram cobardemente contra El-Rei D. Carlos e o Príncipe Real? Só Deus o sabe, mas um tão criminoso acto não exclui uma diabólica intervenção, que a cumplicidade dos regicidas fez possível. Esta aziaga hipótese obriga-nos a rezar pelas almas das vítimas inocentes, mas sem esquecer as que o juízo humano considera culpadas. Mesmo nestes casos desesperados, assiste-nos a esperança de que, na derradeira hora, aqueles desgraçados homens tenham acolhido a graça do arrependimento e do perdão, que Deus a todos liberalmente concede na iminência do trânsito para a vida eterna, tal como ocorreu com o bom ladrão (cfr. Lc 23, 39-43). A tanto nos obriga, com efeito, o mandamento novo da nossa santa religião (cfr. Jo 13, 34-35), que ensina a todos perdoar, sem esquecer os inimigos defuntos, cujas almas podem também, eventualmente, lucrar com os nossos sufrágios.

A esta evocação de Sua Majestade, el-Rei D. Carlos, e do Príncipe Real, Dom Luís Filipe, cumpre associar a memória de el-Rei D. Manuel II, bem como a de Sua Majestade a Rainha D. Amélia e os demais membros da Família Real já falecidos. Assim sendo, depois de celebrada esta solene Eucaristia dominical, seguir-se-á uma singela romagem ao panteão da Casa de Bragança, anexo a esta Igreja de São Vicente de Fora. 

3. Cumprimentos vários. 
Cumprimento, em primeiro lugar, Suas Altezas Reais os Senhores Duques de Bragança e restantes membros da Família Real aqui presentes, na sua qualidade de representantes de el-Rei D. Carlos I e do Príncipe Real, bem como de todos os augustos soberanos de Portugal. Na certeza das minhas orações e fidelidade à tradição que tão dignamente representam, faço votos de que sejam sempre fiéis continuadores da arreigada devoção cristã que, desde os primórdios da história nacional, é apanágio da Casa Real portuguesa. 

Nestes tempos de tão intensas mutações sociais, mais necessário é que a Família Real, sobretudo pela exemplaridade da sua vivência cristã, seja um modelo, não apenas para os que se revêem no ideal monárquico, mas para todos os portugueses, quaisquer que sejam as suas tendências políticas ou opções religiosas. A condição de representantes dos Reis de Portugal, que só em Vossas Altezas Reais se realiza, ultrapassa os particularismos ideológicos ou político-partidários, porque se confunde com a identidade da Pátria que, graças a Deus e à Família Real, hoje somos.

Saúdo também, com especial gratidão, o Senhor Presidente da Causa Real, o Senhor Presidente da Real Associação de Lisboa, que muito amavelmente me convidou para presidir a esta celebração, o Senhor Presidente do Instituto da Nobreza Portuguesa, o Senhor Presidente da Associação da Nobreza Histórica de Portugal, o Senhor Presidente da Juventude Monárquica, os dignitários das Ordens dinásticas de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa e de Santa Isabel, e ainda os meus muito estimados confrades na Ordem de Cavalaria do Santo Sepulcro de Jerusalém e na Soberana Ordem Militar de São João de Jerusalém, também dita de Malta. 

Uma palavra ainda de agradecimento ao Senhor Padre Tiago Ribeiro Pinto, que muito me honra ao concelebrar esta Eucaristia dominical, ao Senhor Reitor de São Vicente de Fora, pela sua fidalga hospitalidade, aos acólitos, leitores, cantores e a todos quantos participam mais activamente nesta Santa Missa. 

Aos restantes fiéis, quaisquer que sejam as suas circunstâncias pessoais, dirijo também uma muito fraternal saudação, com a promessa de uma especial lembrança nas minhas orações. A todos peço a esmola de uma prece para que, na fidelidade a Cristo e à sua Igreja, possa também eu contribuir, ainda que modestamente, para a glória de Deus, o bem das almas e o esplendor de Portugal.

4. A santidade no estado matrimonial. 
«Irmãos, não queria que andásseis preocupados. Quem não é casado preocupa-se com as coisas do Senhor, com o modo de agradar o Senhor. Mas aquele que se casou preocupa-se com as coisas do mundo, com a maneira de agradar à esposa, e encontra-se dividido» (1 Cor 7, 32-34), advertia São Paulo, no trecho da sua primeira carta aos coríntios, que antecedeu a proclamação do Santo Evangelho. 

Muito embora Saulo de Tarso enalteça a condição dos que, por amor do reino dos céus, permanecem célibes, não seria acertado concluir que os que contraem o santo sacramento do matrimónio ficam excluídos da bem-aventurança. Também entre os fiéis casados muitos há que alcançaram a perfeição da caridade, até de forma mais perfeita do que alguns dos que se consagraram a Deus na virgindade, ou no celibato apostólico. Com efeito, nenhum santo bispo, presbítero, monge ou religiosa, por muito excelsa que tenha sido a sua virtude, se compara com a santidade daquele casal que Deus escolheu para pais terrenos do seu Filho: Nossa Senhora e São José. Por isso, a devoção cristã atribuiu, desde tempos imemoriais, o título de Santíssima à Mãe de Jesus e, a São José, que, por felicíssima decisão do Papa Francisco é agora mencionado expressamente em todas as orações eucarísticas, confiou a guarda da Igreja. 

Em ano de Sínodo sobre a família, a realizar no próximo mês de Outubro, em Roma, estas palavras do apóstolo das gentes ganham uma especial actualidade, porque têm o condão de recordar que todos e cada um dos membros da família cristã devem alcançar, no fiel desempenho das suas funções familiares, profissionais, religiosas e sociais, a santidade a que todos os fiéis, sem excepção, são chamados.

5. Evocação da Rainha Santa. 
Não são escassos os exemplos de egrégia virtude na gloriosa história da Família Real portuguesa, mas talvez nenhum se compare à nossa Rainha Santa Isabel. É certo que, por nascimento, era infanta aragonesa, mas bem cedo trocou a sua terra pela nossa Pátria, que amou com extraordinária devoção e que serviu de forma exemplar, como excepcional Rainha, extraordinária mulher e admirável mãe. Se são naturais de um reino aqueles que nele nascem, foi em Portugal que a Rainha Santa nasceu para o reino dos Céus, pelo que não será descabido agregá-la à plêiade dos bem-aventurados que aqui nasceram para o mundo e que, por esse motivo, são também nossos compatriotas e especiais intercessores.

Nascida em 1270, a Infanta de Aragão recebeu no baptismo o nome próprio de sua tia-avó, Santa Isabel da Hungria, irmã da Rainha D. Violante, que foi segunda mulher do Rei D. Jaime I, o Conquistador. 

Não se sabe se chegaram ao conhecimento da jovem Infanta Isabel de Aragão relatos da virtude da sua tia santa, mas é pouco provável, porque S. Isabel da Hungria morreu quatro anos antes do casamento de sua irmã com o Rei de Aragão que, por este motivo, também não chegou a conhecer esta sua bem-aventurada cunhada. Contudo, sabe-se que foi para homenagear a sua vida exemplar que a pequena infanta aragonesa recebeu o mesmo nome próprio daquela sua tia-avó santa, a quem também se atribui, com fundamento histórico, o milagre das rosas que, muito mais tarde, será incorporado na memória da Rainha Santa, como se de um milagre de família se tratasse …

Mas a santidade cristã não se herda, recebe-se de Deus como um dom, que depois importa pôr a render, com a ajuda da graça e a correspondência pessoal. Tudo leva a crer que, não obstante a sua normalidade, aquela jovem princesa estava dotada de uma personalidade tão amável que a ela se afeiçoou, muito em particular, seu belicoso avô paterno que, embora cognominado o Conquistador, foi conquistado pela invulgar bondade desta neta. Com efeito, atribui-se à então jovencíssima princesa de Aragão a reconciliação de seu avô paterno com seu pai, na altura o Infante D. Pedro, que viria depois a reinar, sendo o terceiro do seu nome na Casa de Aragão. Nesta sua capacidade de alcançar, com a sua oração e amabilidade, a paz familiar, se prenuncia um rasgo muito próprio da personalidade humana e sobrenatural da futura Rainha Santa.

6. Exemplo de santidade na vida matrimonial. 
Dona Isabel de Aragão casa, a 11-2-1281, em Barcelona, com El-Rei D. Diniz de Portugal, que para o efeito se fez representar. Só um ano e quatro meses depois, a 24 de Junho de 1282, os noivos se conheceram. Consta que a Infanta Isabel de Aragão era o melhor partido entre as Casas Reais peninsulares e que o filho e sucessor de D. Afonso III de Portugal a melhor aliança para os interesses da coroa aragonesa.

Não terá sido fácil para D. Isabel, mesmo trazendo consigo alguns servidores oriundos da sua terra natal, adaptar-se à nova realidade: não só passava a pertencer a uma nova Família Real, como também se tinha que habituar a uma língua diferente e lidar com o ambiente da corte, tão propício a intrigas e maledicências. Mais difícil terá sido, ainda, a sua vida conjugal com D. Dinis, o rei trovador a que se atribuem muitas aventuras românticas, que não honravam a aliança nupcial. 

Na evidência destas infidelidades conjugais, nunca a Rainha Santa deu ouvidos aos rumores palacianos sobre a vida amorosa do Rei, a quem continuou a estimar e honrar com heróica virtude. Às damas do seu séquito não consentia quaisquer murmurações sobre a vida privada do monarca, que preferia ignorar, nem outras conversas que não fossem para a edificação do espírito. Fontes coevas relatam que a Rainha Santa, dando nisto prova da sua grande dignidade, «calava o desgosto sem se queixar» (José Miguel Pero-Sanz, Santa Isabel, Rainha de Portugal, Alêtheia Editores, Coimbra 2014, pág. 65). Mais heróica foi, ainda, a sua atitude de providenciar o sustento e a educação dos filhos e filhas naturais de ‘o Lavrador’, pois ordenava que «viessem à sua presença, dava-lhes de vestir e de comer e criava-os. E outro tanto fazia com os seus aios» (Idem, pág. 66).

Talvez outra qualquer dama, em idênticas circunstâncias, se apartasse do seu infiel marido, lhe reprovasse os seus contínuos adultérios e vingasse, nessa geração bastarda, todo o furor do seu despeito e da sua ira. Não assim a Rainha Santa Isabel, que respondeu à ofensa com o perdão e com a caridade com que sempre amou o seu augusto marido, oferecendo, pela sua conversão, a própria dor que ele lhe infligia com as suas recorrentes aventuras extra-matrimoniais. Não em vão porque, segundo um cronista da época, D. Dinis, ante tão extraordinário exemplo de dignidade e de santidade da Rainha, «envergonhado das suas fraquezas e temendo a Deus, o castigo da Sua justiça, e também para limpar as manchas que tanto dano causavam à limpeza da sua dignidade real e singular condição, […] com grande serenidade se privou de todos esses defeitos e se pôs no caminho recto e verdadeiro que devia, e até à sua morte o seguiu e guardou» (Idem, pág. 70).

7. Obreira da paz familiar. 
Como já acontecera na Família Real aragonesa, quando se desavieram el-Rei D. Jaime I, o Conquistador, e seu filho primogénito e sucessor, que viria a ser o Rei D. Pedro III de Aragão, pai de Santa Isabel de Portugal, também ocorreram graves desentendimentos familiares na Coroa portuguesa. E a Rainha Santa que, ainda adolescente, tanto contribuiu para o apaziguamento das relações entre seus augustos pai e avô paterno, mais uma vez foi chamada a ser obreira da reconciliação e da paz entre seu marido, el-Rei D. Dinis, e o seu filho e sucessor, D. Afonso, que viria a ser o quarto deste nome, entre os Reis de Portugal.

Foi particularmente difícil a mediação da Rainha Santa neste grave conflito familiar que não só opôs pai e filho, como também provocou uma autêntica guerra civil. Santa Isabel, na delicada posição de cônjuge do monarca reinante e de mãe do pretendente, procurou serenar os exaltados ânimos do infante rebelde e do irrequieto soberano, mas com tanta infelicidade que acabou por ser mal vista por ambos. Com efeito, como junto de seu marido intercedia pelo infante, D. Dinis tinha-a por aliada de D. Afonso e, portanto, sua inimiga. Porque procurava reconduzir o herdeiro à obediência e fidelidade a seu pai e senhor, seu filho considerava-a como contrária às suas reivindicações e, em consequência, a desestimava.

A finais de 1323 as hostes dos dois partidos encontraram-se às portas de Lisboa, para um recontro que parecia fatal. Quando, no lugar de Alvalade, já voavam flechas e pedras entre os dois exércitos, a Rainha Santa, sem escolta nem palafreneiros, humildemente montada numa mula aparelhada, interpôs-se entre as duas forças beligerantes, obtendo desta forma a reconciliação familiar: «D. Afonso, com seis cavaleiros, apresentou-se a beijar a mão de D. Dinis, a quem prometeu a mais sincera obediência. A antiga Relação diz que o filho e o pai se separaram com amizade: D. Dinis para Lisboa e D. Afonso para Santarém» (Idem, pág. 150).

Os méritos de Santa Isabel não passaram desapercebidos, não só em Portugal, mas também no estrangeiro. O Papa João XXII, então reinante, tendo notícia de que, por intermédio da Rainha, se lograra a paz familiar e do reino, teve por bem felicitar a grande responsável por essa vitória, em termos que não são comuns na correspondência pontifícia: «À sua queridíssima filha Isabel, Rainha de Portugal: Com razão nos alegramos no Senhor, porque o Altíssimo fez-te ministra e cooperadora Sua para converter o teu filho primogénito ao coração do seu pai, e ao pai, o do seu filho. Como pedra angular uniste os que estavam perigosissimamente separados. Mas, como a recaída costuma ser pior do que a queda, exortamos a providência real, a fim de que te empenhes com solícita diligência, de modo que subsista o que Deus providencialmente fez com a tua cooperação» (Idem, pág. 148).

8. Santidade cristã na vida profissional e familiar. 
No imaginário popular, identifica-se a santidade com grandes milagres, curas extraordinárias, visões celestiais ou infernais lutas mas, na realidade, nada disto ocorreu na vida de Santa Isabel. Com efeito, até mesmo o milagre das rosas, que só no século XVI se lhe atribuiu, não tem fundamento histórico: segundo alguns dos seus mais abalizados biógrafos, esta lenda não corresponde à realidade factual da sua existência e ter-se-ia ficado a dever a uma compreensível confusão com a sua homónima tia-avó, protagonista deste facto extraordinário, que já ocorrera a uma outra princesa, Santa Cassilda (cfr. Idem, págs. 44-45). 

O verdadeiro sinónimo da santidade cristã não são as coisas extraordinárias, mas, pelo contrário, fazer extraordinariamente bem as coisas comuns. Também não se conhece nenhum milagre realizado, em vida, por Nossa Senhora, a quem, por ser Santíssima, muito justamente se atribui a santidade superlativa. No mesmo sentido, mas não no mesmo grau, também a Rainha Santa alcançou a perfeição da caridade cristã e é, por isso mesmo, um exemplo para todos os portugueses e para todos os cristãos. Não foi santa apesar de ser Rainha, casada e mãe, mas precisamente através dessas suas circunstâncias, que soube santificar. 

Os leigos cristãos estão também chamados à santificação do seu trabalho e do seu desempenho familiar, nomeadamente fazendo do seu ofício uma ocasião de oração a Deus e de serviço ao próximo e excedendo-se no cumprimento dos seus deveres familiares, quer honrando o seu compromisso matrimonial, quer assumindo com generosidade as exigências da maternidade e da paternidade.

9. Conclusão. 
«Jesus chegou a Cafarnaum e quando, no sábado seguinte, entrou na sinagoga e começou a ensinar, todos se maravilhavam com a sua doutrina, porque os ensinava com autoridade e não como os escribas» (Mc 1, 21-22). 

É a coerência de vida do Mestre que dá autoridade à sua palavra, como também é a vida santa de Santa Isabel de Portugal que dá fundamento à sua devoção. Seu augusto marido, numa inspirada trova da sua autoria, disse-o de forma particularmente bela e expressiva: «E pois sabedes entender, Sempre o melhor e bem escolher, Verdade vos quero dizer, -Senhor que sirvo e servirei: - Pois Deus assim o quis fazer, Érades boa para Rei!» (http://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=516&pv=sim; ob. cit., pág. 56).

Ao invocar, uma última vez, a egrégia memória de El-Rei D. Carlos I, certamente um dos melhores Reis de Portugal, e do Príncipe Real, que tão bem preparado estava para lhe suceder, queremos crer que não foi em vão que derramaram o seu sangue inocente. Como, seu augusto avoengo D. Dinis que, no dizer do poeta da Mensagem, foi «o plantador das naus a haver» (Fernando Pessoa, Mensagem, Lisboa 1934, pág. 25, verso 2), também as vítimas do regicídio foram a semente de que há-de nascer, assim o queira Deus, um novo Portugal! 

P. Gonçalo Portocarrero de Almada



5 de fevereiro de 2015

INDEPENDÊNCIA REAL



‘Nas monarquias representativas o rei não é um indivíduo, é um princípio, é uma instituição encarnada no homem, cujos defeitos se corrigem, cujas paixões se eclipsam na impossibilidade de fazer mal; não sendo aliás um autómato no jogo das instituições, nem uma quantidade negativa no desenvolvimento do país; pois no desempenho do seu papel há suficientes ensanchas para mostrar e exercer amor para com seu povo, o amor sensato, discreto e sábio (...)’, escreveu Benedito Rui Barbosa in ‘Obras Completas de Rui Barbosa’ V. 2, t. 2, 1872-1874. p. 195, Salvador, Bahia.
De facto, o Rei como Chefe de Estado exerce um quarto poder que paira sobre os outros três moderando e regulando o seu funcionamento, sendo deste modo símbolo da unidade e mesmo garante da permanência de um Estado soberano e independente.

É necessário um Chefe de Estado que vise a prossecução do interesse público, do bem da coisa comum, da verdadeira res publica, que ponha em primeiríssimo lugar os interesses do próprio Povo e da Nação que tem por dever fundamental defender, pois encarna a História de um Povo e de uma Nação que assumiu e jurou valer e garantir. Um Rei não é um político que coloca à frente os seus interesses pessoais, conveniências partidárias, os interesses de grupos económicos e sectoriais, e, mesmo agendas e obstinações estrangeiras.

Não pode existir um Estado particular que pertença a quem nesse momento domina o panorama político, mesmo tendo sido eleito, pois nesse caso estamos diante, não de uma res publica, mas de um res privata e que visa apenas a satisfação do interesse de uma oligarquia política, e de grupos privados que, constrangedoramente, a dominam. Assim o Povo é abandonado e desprezado, fingindo a elite que o ama em tempo de eleições, mas impedindo que essa grande massa progrida. Como escreveu o Professor Agostinho da Silva, ‘adoram o povo e combatem por ele mas pouco mais o julgam do que um meio; a meta a atingir é o domínio do mesmo povo por que parecem sacrificar-se; bate-lhes no peito um coração de altos senhores; se vieram parar a este lado da batalha foi porque os acidentes os repeliram das trincheiras opostas ou aqui viram maneira mais segura de satisfazer o vão desejo de mandar (…)’

Um Rei como Chefe de Estado é uma instituição que comporta uma carga simbólica que faz todos sentirem-se parte de um todo, e, o Rei não é uma figura distante, mas sente com o Povo, faz seus os problemas deste último e dá voz aos seus anelos, e, porque livre, garante a unidade dentro da diversidade do país. O Rei funciona assim como um símbolo de estabilidade, união e continuidade, independentemente das mudanças na política partidária.

‘A própria República de Platão é a imagem proverbial de um ideal vazio.’, escreveu Hegel, não o são menos as contemporâneas, acrescentamos.

Um Chefe de Estado, escolhido pelo sufrágio não encarna a Nação, pois, por muito que apregoe o contrário, nunca será o presidente de todos, mas presidente apenas daquela parte dos eleitores que votaram em si, deixando de parte todos os que não foram votar – e que pelos números da abstenção que cresce de acto em acto eleitoral são a maioria -, os que votaram em branco, os que optaram por anular o boletim e os que votaram nos outros candidatos. Feitas todas estas subtracções o presidente-eleito é representante e representativo de uma minoria. O presidente de uma república representa apenas uma facção do conjunto da Nação.

Ora, esse sectarismo não acontece com um Monarca, pois o Rei representa a Nação como um todo. Um chefe de Estado escolhido pela via biológica dentro de uma dinastia reinante, pela sucessão que ocorrerá através de primogenitura igualitária, de um príncipe/princesa herdeiro(a) ao Rei ‘de cujus’, asseguraria essa representatividade de todos e garantiria a verdadeira e REAL INDEPENDÊNCIA!

Miguel Villas-Boas

Fonte: Plataforma de Cidadania Monárquica

4 de fevereiro de 2015

SAR, D. Duarte de Bragança classifica «Casa dos Segredos» como um “bordel”

Chefe da Casa Real Portuguesa considera que programas como a 'Casa dos Segredos' não são benéficos para a população.


D. Duarte de Bragança manifestou a sua opinião contra alguns conteúdos televisivos como a «Casa dos Segredos» e as novelas brasileiras.
O chefe da Casa Real Portuguesa apelidou estes formatos como“excessos televisivos”. D. Duarte sobe o tom das críticas e manifesta o seu desagrado: “Trata-se de programas degradantes do ponto de vista ético e cultural. A Casa dos Segredos é um bordel e uma porcaria”.
D. Duarte explica também que os reality-show não contribuem para a cultura da nação: “esses e outros programas, tal como telenovelas brasileiras, constituem uma forma de estupidificação para o nosso povo”O herdeiro da coroa vai mais longe e defende a imposição de limites para este conteúdos televisivos: “um limite legal a esse tipo de programas, pelo Estado, quando emite licenças de televisão (…) a TV, hoje em dia, é aquilo que mais influencia o modo de pensar da população e, por isso, deveria ser mais educativa”.

3 de fevereiro de 2015

CONSIDERAÇÕES À VOLTA DO REGICÍDIO, pelo Ten. Cor. João José Brandão Ferreira

“Nos liberi sumus, Rex noster liber est, Manus nostrae nos liberverunt”. (Nós somos livres, nosso Rei é livre, nossas mãos nos libertaram”)

Grito de Almacave
Pronunciado pelos povos representados nas míticas Cortes de Lamego clamado desde a Revolução de 1640 como o “grito da liberdade portuguesa” (adoptado pelo Integralismo Lusitano)


I. INTRODUÇÃO 

O bárbaro assassinato do Rei D. Carlos I e do seu primogénito e herdeiro do trono, o muito promissor Príncipe D. Luís Filipe de Bragança, no dia 1 de Fevereiro de 1908, e que deu origem à tumulária que agora evocamos, constitui um dos mais tristes, lamentáveis e funestos episódios da nossa antiga, rica, dramática e, por vezes, gloriosa História, que percorremos juntos há quase nove séculos. 
Foi um episódio que nos envergonha como povo, que não passa pela cabeça de ninguém comemorar, mas que não devemos esquecer. Ocorreu na sequência do pior século da nossa existência como Nação, o século XIX.
Matar Reis ou pessoas das Casas Reais, bem como quaisquer outros governantes, não é uma coisa comum na História de Portugal – ao contrário do que se passou com outros povos. 

Temos que recuar ao reinado de D. João II para nos confrontarmos com a primeira tentativa séria para eliminar a figura de um Rei. Estamos a referir-nos às duas conspirações chefiadas pelos chefes das duas principais casas ducais do País, o  3º Duque de Bragança, D. Fernando, e o 3º Duque de Viseu, D. Diogo, que perderam a vida em consequência. 
É bom não esquecer, ter-se tratado de dois actos de traição de elementos da alta nobreza contra o seu legítimo Rei, com a agravante de estarem mancomunados com a Coroa de Castela. 
O Príncipe Perfeito veio a morrer de doença, em 1495, suspeitando-se que tenha sido envenenado.

Depois disso só há a registar as várias tentativas de assassinato do Prior do Crato a mando de Filipe I – o que entendemos perfeitamente; bem como o atentado contra a vida de D. João IV, em 29 de Agosto de 1641, por alguns traidores à causa portuguesa, donde se destaca o Marquês de Vila Real.

Durante os tristes eventos que levaram à deposição do infeliz Rei D. Afonso VI, por incapacidade, nunca esteve em causa tirar-lhe a vida.

Já o suposto atentado contra a vida de D. José I, quando este regressava de uma das suas aventuras amorosas, representa um dos mais indecorosos processos da justiça portuguesa, onde se mistura uma dose elevada de manipulação política. 
As atrocidades cometidas no cadafalso, dignas de Tamerlão, eram perfeitamente deslocadas em quem se dizia viver no século das luzes. 
Aparenta representar uma vingança de simbolismo maçónico e, até, um ajuste de contas final com a Casa de Avis, configurada na figura do Duque de Aveiro, D. José de Mascarenhas… 

Já tudo aponta, porém, para que o infeliz monarca que foi D. João VI, cuja figura foi tão injustamente tratada e ridicularizada por liberais e republicanos, tenha sido vítima também de envenenamento, com arsénio. Assim o provam os estudos efectuados por uma equipa alargada de investigadores, nos anos 90 do século passado.
A quem aproveitou a morte do Rei? Eis uma questão que, até hoje, não foi dilucidada! 

Chegamos assim ao atentado a D. Carlos I. 
E uma questão levanta-se acima de qualquer outra: existia alguma razão, fosse ela política ou outra, que justificasse a eliminação física de um dos mais notáveis estadistas da História Pátria? 
É sobre isto que é mister gastar mais uns minutos. 


II. ANTECEDENTES I

“Acervo de teorias irrealizáveis, se teorias se podiam chamar, de instituições talvez impossíveis sempre, mas de certo modo impossíveis numa sociedade como a nossa e na época em que tais instituições se iam assim exumar do cemitério dos desacertos humanos”

Alexandre Herculano 
(sobre a Constituição de 1822)


Podemos dizer que o Regicídio e a queda da Monarquia tiveram o seu antecedente remoto na Revolta Liberal, vitoriosa, de 1820, a qual vinha antecedida da conspiração frustrada de 1817, encabeçada pelo General Gomes Freire de Andrade – o que representou a primeira intervenção política por parte dos militares, na vida política nacional. 
Ambas as tentativas, para além de configurarem um golpe de inspiração maçónica para acabar com a velha ordem absolutista do “Antigo Regime”, tiveram como acicate justificativo, retirar o poder a Beresford e o controlo do Exército Português aos oficiais britânicos e fazer regressar a Família Real, a Lisboa, a qual vivia no Rio de Janeiro, desde 1808. 
As consequências de tudo isto ainda se fazem sentir hoje; muitos dos problemas, então originados, não estão resolvidos e as feridas saradas. 

O Rei regressou, de facto, em 1821, a tempo de jurar a nova Constituição do ano seguinte – coisa que a Rainha D. Carlota Joaquina sempre se recusou a fazer. 
Deixou, sem embargo, a fermentar, a independência do Brasil – onde, entretanto, se tinha invertido a situação de Metrópole e Colónia – consumada com a pouca esclarecida atitude de um Príncipe Real, primeiro com o célebre “Fico!” e depois com o “Grito do Ipiranga” o que não deixa, também, de configurar um crime de lesa-Pátria.

Tudo isto favorecido pela abertura dos portos brasileiros ao comércio inglês – acordo leonino que nos foi imposto pelos nossos dilectos aliados –; a acção da maçonaria e o apoio dos EUA que pretendiam eliminar no continente americano qualquer presença política europeia. 
O golpe foi tremendo na já destroçada economia portuguesa cujo território e população estavam esfacelados por cinco invasões francesas – não três, mas cinco …. 
Aliás, em boa verdade os franceses nunca foram expulsos, pois deixaram por cá as sementes dessa trilogia jacobina e mentirosa conhecida por “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, ao mesmo tempo que a Inglaterra se apoderou de quase toda a economia. 
Ou seja, o país ficou colonizado culturalmente pelos franceses e economicamente pelos ingleses, situação de que só recuperámos devido à acção política esclarecida do Professor António de Oliveira Salazar… 
Ingleses e Franceses deixaram-nos ainda um lastro maçónico de duas obediências diferentes que passaram a marcar (e a digladiar) para o bem e para o mal – diria que muito mais para o mal – toda a vida nacional.

A ala afrancesada veio a confluir em Manuel Inácio Martins Pamplona Corte Real, 1º Conde de Subserra, grande militar e político; na ala inglesa veio a prontificar D. Pedro de Sousa Holstein, 1º Duque do Faial e 1º Duque de Palmela, herói das guerras liberais e diplomata ilustre. 

Do anterior já tinha havido António de Araújo e Azevedo, 1º Conde da Barca, pelos franceses e D. Rodrigo de Sousa Coutinho, 1º Conde de Linhares, pelos ingleses.

Isto para não recuarmos ao Marquês de Pombal, conhecido pelo “Maçon de Viena” e que realizava o paradoxo de servir o liberalismo nascente através do mais sombrio absolutismo da nossa história.  
Estes homens deixaram, por assim dizer, dinastias de simpatizantes e “descendentes”, que se foram alternando no Poder, até à Segunda República. 
Compreenderão que em tão curta missiva não possa dilucidar todo esse período!


III. ANTECEDENTES II

“Foram eles e suas absurdas e falsas reformas que nos trouxeram a este estado. Foram eles que desmoralizaram todo o País, que o deslocaram e revolucionaram. Reformadores ignorantes, não souberam dizer senão como os energúmenos de Barras e Robespierre: abaixo! Assim se reformou esta desgraçada terra a machado! Mais 10 anos de barões e de regime da matéria e, infalivelmente, nos foge deste corpo agonizante de Portugal o derradeiro suspiro do espírito.
 … Não contentes de revolver até aos fundamentos a desgraçada pátria com inovações incoerentes, repugnantes umas às outras, e em quase tudo absurdas, sem consultar nossos usos, nossas práticas, nenhuma razão de conveniência, foram ainda atirar com todo este montão de absurdos para além-mar…” 
Almeida Garrett 
(sobre a implantação do Liberalismo em Portugal)


 Implantado o Liberalismo, em 24 de Agosto de 1820, logo os liberais se dividiram entre moderados e adeptos da Democracia da Direita. 
A nova Constituição aprovada, em 23/9/1822, era uma cópia servil da Constituição Francesa e da de Cádis de 1812, perfeitamente inadequada à Nação Portuguesa, visando-se objectivamente o Trono e o Altar. 
A reacção do país real não se fez esperar. Esta reacção confluiu na figura do Infante D. Miguel o qual, à frente da esmagadora maioria do Exército, se dirigiu a Vila- Franca, recebendo adesões de todo o país. Acabou aí a Constituição de 1822 e o Soberano Congresso autodissolveu-se. 
A Monarquia tradicional foi restaurada. 
Preparou-se uma nova constituição mais moderada, mas afastados os democratas de 1820, os monárquicos dividiram-se em liberais e tradicionalistas cujo desentendimento acabou na Abrilada de 1824 e no exílio de D. Miguel. 
Com a morte de D. João VI, em 1826 abriu-se uma crise política que só haveria de terminar no fim da pior guerra civil que em Portugal já houve. Os acontecimentos precipitaram-se: 
D. Pedro IV, que seria o legítimo herdeiro, deixou-se aclamar Imperador do Brasil, perdendo o direito ao trono.

Estando a sua irmã mais velha Isabel Maria, regente em Portugal, ainda confirmou essa regência, tomou o partido dos liberais, outorgou a nova Carta de 1826 e abdicou do trono, a 2 de Maio desse ano, a favor de sua filha D. Maria da Glória. 
Visando o futuro entendimento entre as correntes maioritárias, propôs-se o casamento da Infanta com seu tio D. Miguel, o que este aceitou, regressando ao reino e ficando regente, na menoridade da sua futura esposa. 
D. Miguel regressou em 1828, encontrando o Partido Tradicionalista muito fortalecido e todos desagradados com a nova Constituição. Acabou dissolvendo a Câmara dos Deputados e convocando Cortes Gerais do Reino ao estilo antigo, o que ocorreu em Julho de 1828, sendo aclamado Rei pelos três braços do Reino. 
Tal decisão deu início à guerra civil.

Com excepção da Ilha Terceira todo o país se proclamou Miguelista. Foi pois naquela ilha que confluíram os próceres liberais. 
A instância destes, D. Pedro acedeu a abandonar o Brasil – onde havia sido destronado - e vir chefiá-los. 
Com um exército de 7.000 homens, muitos dos quais recrutados entre a escória dos portos europeus – conseguiu estabelecer-se no Porto, em 1832. 
Ao cabo de dois anos de guerra, estas minguadas forças conseguem bater os 80.000 homens do exército de D. Miguel e a maioria da população que o apoiava. 
Mistérios que só encontram explicação na qualidade dos generais liberais, Saldanha, Terceira e Sá da Bandeira e no almirante Napier, e na traição comprovada de vários generais miguelistas. 
A Convenção de Évora – Monte, de 26/5/1834, selou a sorte da contenda e o exílio de D. Miguel e seus seguidores. 

Mais uma vez os liberais se dividiram entre moderados e adeptos do “Vintismo”, tendo estes últimos, encabeçados por Passos Manuel, implantado uma ditadura, em 9 de Setembro de 1836, que permitiu a Mouzinho da Silveira efectuar uma reforma legislativa que mudou o país radicalmente, demolindo tudo o que éramos! 
D. Pedro IV, esse, não resistiu a um mês de parlamento. Enxovalhado e doente, morreu, roído de vergonha e remorsos, a 24/9/1834. 
A anarquia campeava. 
A nova Constituição, de 1838, nada resolveu tendo Costa Cabral através de mais um golpe de estado, em 1842, restaurado a Carta. 
Os antagonismos continuaram e acabaram na revolta de Maria da Fonte, contra Costa Cabral, em 1846. 
Saldanha que, entretanto, virara moderado entendeu opor-se aos radicais, o que resultou numa nova guerra civil, a Patuleia, a qual apenas teve fim com uma vergonhosíssima intervenção militar estrangeira, conjunta, calcule-se, de ingleses, franceses e espanhóis!

Foi este vexame, uma das principais razões que esteve por detrás da “Regeneração”.


IV. ANTECEDENTES III

“Toda a Nação mais ou menos ardentemente, desejava ver terminado o intermezzo da Carta Constitucional, e no Trono, em vez de um papel, um homem.” 
Oliveira Martins 
(sobre a Carta Constitucional, de 1826)


Cansados da guerra civil e da destruição que tinham provocado, na sequência de mais um golpe de estado, em 1851, chamaram ao governo outro maçon, Rodrigo da Fonseca Magalhães, o que deu origem ao que ficou conhecido por Regeneração. 
O Governo concedeu então aos extremistas, algumas vantagens doutrinárias, através de um acto adicional à Carta Constitucional em troca do compromisso daqueles em transferirem as reivindicações ideológicas do campo revolucionário para o campo eleitoral. 
Tal facto vai resultar e degenerar, segundo Oliveira Martins, numa oligarquia de facto, que se apoiava em três vértices: democracia, riqueza e exército. 
A “elite” deixou as preocupações religiosas, o carácter revolucionário e voltou-se para o materialismo- herdeiro do “Positivismo”-, que encontrou no “Fontismo” a sua expressão mais acabada. 
Eis a essência do novo “Cartismo”: “Ao esquadro e ao compasso maçónico – ainda segundo Oliveira Martins – veio juntar-se a aritmética economista”. 
A podridão política em que se caiu levou ao Pacto da Granja, de 1865, uma trégua entre partidos, que haviam de se fundir em 1876 em dois: um mais à direita, o Regenerador e outro, mais à esquerda, o Progressista, que se vieram a alternar no governo, dando origem ao “Rotativismo”, ora governando um, ora outro, sem que ninguém se apercebesse da diferença, a não ser pelo cunho pessoal dos líderes que se alternavam no governo. 
No fundo tratava-se de duas oligarquias económicas que se revezavam no poder, sem fé nem ideal, mas em luta permanente. 
 Ofereço um doce a quem encontrar alguma diferença para o que se passa actualmente entre nós!... 
A atmosfera política e social, sobretudo em Lisboa e Porto, estava agora a ficar madura para o aparecimento das ideias democrata/republicanas através do Partido Republicano, fundado em 1876. Este Partido que exercia a sua actividade com toda a liberdade e em pé de igualdade com os partidos monárquicos – coisa que impediram a estes, após o 5 de Outubro de 1910 – logo aproveitaram o ultimato inglês de 1890 – ao qual realisticamente não se podia fazer frente - para desencadearem uma campanha contra o governo e o jovem Rei (cujo reinado se iniciara há poucos meses) e provocando a primeira revolução republicana, a 31 de Janeiro do ano seguinte, no Porto.

Nova crise financeira colocou o país à beira da bancarrota. 
Exorbitava-se do abuso da liberdade, de expressão e de imprensa e fizeram-se os ataques mais soezes ao Monarca e à Família Real. 
Os Partidos Monárquicos nada aprenderam, continuando a sua luta estéril, incompetente, corrupta e antipatriótica. 

No fim, já no início do século XX, dividiram-se em tendências. As mais célebres foram a de João Franco, que fundou o Centro Regenerador Liberal, em 14/5/1901, e a tendência liberal progressiva de José Maria de Alpoim – personagem cuja actuação representa, provavelmente, o pior exemplo de canalhice moral e política de toda a nossa história parlamentar.

Esta última dissidência ocorrida em 1 de Maio de 1905, a pretexto da “questão dos Tabacos”, marca o ponto de partida para o regicídio e o fim da monarquia em Portugal. Foram 33 meses para decapitar o trono e outros 33 para o deitar por terra. 


V. ANTECEDENTES IV

“Os diferentes partidos não são mais do que escolas de imoralidade, e portanto companhias de comércio ilícito, onde as diferentes lutas, que promovem, não são mais do que o modo de realizarem o escambo de consciências, o sacrifício dos amigos, e o bem do País, e por conseguinte o modo de realizarem o fruto do peculato, depois de postos em almoeda as opiniões”. 
“A classe dos malfeitores é a que mais tem ganho com as garantias constitucionais” 
Luz Soriano 
(sobre a política do seu tempo)


Vamos correr, no “metropolitano da história”, os principais eventos que antecederam a tragédia. 
Em Abril de 1906, amotinaram-se o Cruzador D. Carlos e o Couraçado Vasco da Gama; no mês seguinte João Franco forma governo pondo fim a 30 anos de rotativismo. 
A Rainha D. Amélia é vaiada no Campo Pequeno; D. Luís Filipe assiste em Madrid ao atentado falhado contra o Rei Afonso XIII; em Novembro rebenta o “escândalo” dos adiantamentos à Família Real – onde esta, de resto, tinha toda a razão – tendo Afonso Costa gritado no Parlamento “Por menos do que fez o Sr. D. Carlos, rolou no cadafalso a cabeça de Luís XVI”! 
Em Março de 1907, Magalhães Lima é eleito Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano Unido e inicia os contactos internacionais, nomeadamente com a Maçonaria inglesa e escocesa, para a implantação da República em Portugal; Luz de Almeida organiza a Carbonaria Portuguesa e torna-se seu Grão-Mestre (já em 1899, Heliodoro Salgado tinha activado a Carbonaria Lusitana).

Esta organização tenebrosa constituíu-se como o braço armado da Maçonaria e do Partido Republicano. 
Em Maio, João Franco depois de perder o apoio parlamentar e com o apoio do Rei, passa a governar em “ditadura administrativa” depois do Parlamento ter sido dissolvido. 
Os progressistas dissidentes aliam-se aos republicanos, constituindo um comité revolucionário, em que participam o Visconde da Ribeira Brava, José de Alpoim, Afonso Costa e Alexandre Braga. Em Julho juntar-se-lhes-ia Egas Moniz, França Borges, Marinha de Campos e outros. Há comícios republicanos por todo o país e rebentam bombas. 
Em Agosto de 1907, numa reunião do Conselho de Estado, Júlio de Vilhena vaticinará: “isto termina e fatalmente, por um crime ou por uma revolução”. 
Em Dezembro dois políticos portugueses reúnem-se com revolucionários franceses no Hotel Brébant, em Paris, combinando a eliminação de João Franco e de D. Carlos; a embaixada portuguesa sabe do evento e avisa o governo de Lisboa. 
 Para variar, ninguém acredita em nada e ninguém faz nada!... 
Trinta membros de um grupo especial da Carbonária, “a coruja”, reúne-se numa casa na Costa do Castelo para tomarem conhecimento de um plano concreto para assassinar o Rei. Os republicanos compram armamento para a revolução. 
No dia 1 de Janeiro de 1908, à cerimónia de cumprimentos, no Paço, faltam os representantes do Partido Progressista e apenas quatro regeneradores comparecem. 
João Chagas e Ribeira Brava preparam a revolução; no dia 13 chega aos escaparates o escandaloso livro “O Marquês de Bacalhoa” e é descoberta uma carta de Alfredo Costa para Manuel Buíça – os dois principais executores do atentado – em que se refere um possível atentado à vida do Rei, para o dia 20.
Em meados do mês Ribeira Brava levanta da loja do armeiro Heitor seis carabinas Winchester e um lote de pistolas Browning 7.65. A 20 a polícia descobre o complôt e apreende as armas à excepção das carabinas. No dia seguinte são presos vários conspiradores, entre eles, João Chagas, Luz de Almeida e António José de Almeida.

No dia 22 Afonso Costa assume a chefia da conspiração e chama José de Alpoim e Ribeira Brava para o coadjuvar. Dia 27, aprova-se a ordem de operações de que consta a eliminação de João Franco. No dia 28 dá-se a “intentona do elevador da biblioteca” que falha ocorrendo a prisão de inúmeros conspiradores. Alpoim escapa para Espanha, depois de ter estado escondido em casa de Teixeira de Sousa, que viria a ser o último chefe de governo da Monarquia… 
No dia 30 sabe-se que João Franco prepara um decreto repressivo. 
Um grupo de 18 carbonários reúne-se em Xabregas, chefiado por Alfredo Costa e assenta no plano para matar João Franco e o Rei. Buíça recebe a carabina com que matará D. Carlos.

No dia 31 o Rei assina em Vila Viçosa o decreto repressivo, que incluía o desterro dos principais chefes republicanos. 
E tem a premonição de que estava a assinar a sua sentença de morte… 
No dia 1 de Fevereiro a Família Real regressa a Lisboa. Os 18 assassinos dividem-se em três grupos de seis. O primeiro fica no Terreiro do Paço, o 2º à entrada da Calçada de Santos e o 3º em Alcântara. Um destes grupos tenta emboscar, pelas 14:00 horas, o chefe do governo, na rua onde morava, mas não o encontram. 
Pelas 17:00 a Família Real desembarca no Terreiro do Paço onde os espera D. Manuel e a Corte. Não foram tomadas quaisquer medidas de segurança especiais, para não mostrar medo e fingir que está tudo normal. Acresce que João Franco nunca acreditou que se pudesse realizar um atentado ao Rei. Ele seria o único alvo a abater…

Às 17:20 inicia-se o percurso. O desfecho é conhecido.

O processo judicial não ficou concluído no reinado de D. Manuel II, tendo prosseguido na República. Desapareceu misteriosamente dos cofres do Ministério da Justiça. 
Uma segunda cópia, na posse de D. Manuel II, foi roubada da sua residência em Inglaterra, em 1932, pouco antes da sua morte. 
Após o atentado o campo monárquico entrou na maior desorientação e cobardia. Mereceram, por isso, perder e até hoje nunca se soube reagir adequadamente. 


VI. CONCLUSÕES

“Não vejo senão uma solução simplista – uma tirania. É necessário um sabre, tendo ao lado um pensamento”. 
Eça de Queiroz, 1890


 É mister responder às perguntas que colocámos no início: havia alguma justificação para matar o Rei, melhor dizendo, a Família Real, mesmo pondo de lado o 5º mandamento da Lei de Deus, “não matarás”? 
À luz das “leis dos homens” poderia haver justificações em termos políticos e em termos humanos? Os primeiros poderiam escorar-se, caso tivéssemos um regime despótico, opressor, repressivo, traidor aos interesses nacionais, cerceador das antigas leis, costumes e tradições do reino, ofensivo da moral e da religião do país e do seu povo. 
Por outro lado a figura do Rei, ou dos membros da sua família, era odiosa, por ser um mau carácter, sanguinário, injusto, de maus fígados, atrasado mental ou qualquer outra característica que tornasse intolerável a sua pessoa?

Ora nem um nem outro dos cenários tinha qualquer réstia de verdade ou verossemelhança. O regime era liberal, demasiado liberal, até; havia liberdade política e social; liberdade de imprensa; estavam garantidos os direitos fundamentais; os foros e privilégios dos povos; a justiça funcionava, bem como todas as restantes instituições. 
É verdade que os Partidos Políticos não prestavam, o rotativismo estava esgotado, havia fraudes eleitorais e o país estava em bancarrota quase permanente. 
Mas a culpa disso não era do monarca, nem da monarquia, que tinha deixado de governar e apenas reinava, dadas as lutas políticas das décadas anteriores. 
A I República, por sua vez, além de não resolver nenhum destes problemas agravou-os todos!... 

Em termos humanos, D. Carlos – e o mesmo se antevia no seu herdeiro – era um homem de qualidades invulgares, corajoso, de rara cultura, interesses elevados, tendo vindo a revelar-se um diplomata e um estadista de rara igualha. 
Nem D. Carlos nem qualquer membro da sua família, alguma vez deixaram mal a Nação Portuguesa. Nem sequer algumas facadas matrimoniais que terá dado puseram em causa a figura do Rei, nem da Rainha, não só pela discrição em que ocorreram, como pela bonomia com que foram encaradas. Antes pelo contrário, o Rei resolveu agir para tentar salvar o país da situação caótica em que se encontrava. E foi isso que foi considerado intolerável e leva à decisão final de o eliminar e a toda a sua família numa antecipação grotesca daquilo que os bolcheviques viriam a fazer com toda a família real russa, em 1917!

Em síntese, não havia uma única razão que justificasse tão bárbaro acto que apenas encontra razões no enviesamento moral dos seus autores; no ódio vesgo, no mais negregado extremismo político e na maldade estúpida, alimentada por mentiras compulsivas. 
Assim se viu a Nação maculada no seu todo por um acto vil, condenado por todas as leis morais e religiosas e se fundou um novo regime, que vigora ainda hoje – para castigo de todos nós – baseado num crime de regicídio, que ficou impune; alimentado na mentira política, social e moral; imposto a tiro e à bomba, à revelia da lei vigente. 
 Finalmente uma República que promoveu romarias aos túmulos dos regicidas; que mantém o nome de safados na toponímica de vilas e cidades e chegou ao ponto de meter um regicida (no mínimo seu colaborador), na vergonhosa obra de Santa Engrácia, que dá pelo nome de Panteão Nacional! 
 E, para cúmulo, a actual Constituição proíbe, antidemocraticamente, poder ela própria, ser revista a não ser na forma republicana de governo! 
Lembro ainda que este regime que nasceu indecoroso, nunca foi legitimado em nenhum referendo popular, a não ser nas condições especialíssimas do plebiscito que aprovou a Constituição de 1933! 


VII. SÍNTESE FINAL 

“Ao cabo de longos e porfiados esforços, os monárquicos acabaram de implantar a República em Portugal” 
(Noticia enviada por Eduardo Schwalbach, à Gazeta de Noticias, do Rio de Janeiro, em 6/10/1910) 


O desastre dos 90 anos de liberalismo monárquico, que durou entre 1820 e 1910, foi feito de lutas partidárias e demolições constantes que desarticularam por completo a Nação Portuguesa.

Para ilustrar este desastre diremos que durante a sua vigência existiram seis monarcas (dois assassinados) e três regências, ou seja uma chefia de estado em cada década; 142 governos - o que dá uma média de governo e meio por ano; 42 Parlamentos, dos quais 35 foram dissolvidos violentamente; 31 ditaduras - o que significa que o Liberalismo viveu um terço da sua existência fora da normalidade; e 51 revoluções, pronunciamentos, golpes de estado, sedições, etc. 
Este foi o passivo que a República democrática herdou em 1910. 
 Por seu lado nos 16 pavorosos anos que durou a I República, contam-se: oito chefes de estado, dos quais um barbaramente assassinado (mais um chefe de governo), dois foram exilados, um resignou, dois renunciaram e outro foi destituído; 52 governos, ou sejam mais de três governos em média por ano (houve um que só durou umas horas…); oito Parlamentos, dos quais cinco foram dissolvidos violentamente e 11 ditaduras, significando que dos 16 anos de regime democrático-parlamentar, só cinco conseguiram arrastar-se dentro da Constituição! 
Pois, senhoras e senhores, é a esta catástrofe inominável que, ainda hoje, uma parte considerável dos homens públicos e livros oficiais, tecem as mais despudoradas loas! 
Escaparam a esta debacle, os 41 anos do Estado Novo, antecedidos por três ditaduras entre 1926 e 1933, uma militar; uma financeira e uma política, que se revelaram fundamentais para colocar ordem no caos reinante – o tal sabre acompanhado de um pensamento, de que falava o Eça!... 
Aliás, estou em crer que a II República sobreviveu, por se assemelhar muito mais a uma Monarquia do que a uma República. Deixo-os esta provocação para meditação… 
Estamos hoje, novamente metidos, como País, num buraco incomensurável – enfim, só faltam as bombas nas ruas - cuja grandiosidade do sinistro vai requerer todas as nossas energias, capacidades e sacrifícios para lhe sobrevivermos, como pessoas e como País. 
Ter hoje novamente um Rei não é andar para trás na História; é, simplesmente, retomar a via tradicional, ultrapassar o tempo perdido, corrigir uma injustiça e uma iniquidade. 
Pode e deve o herdeiro da Coroa Portuguesa, com a autoridade que a sua linhagem e nobreza de carácter lhe conferem, denunciar o grave momento da Nação e indicar caminhos para a reabilitação da Pátria e da Monarquia. 
É o que todo o povo monárquico espera e todos os portugueses merecem.

Como disse o grande Mouzinho de Albuquerque - possivelmente o único homem que, se fosse vivo, poderia ter evitado o regicídio - na sua carta ao Príncipe D. Luís Filipe: 
“Nasceu Vossa Alteza numa época bem desgraçada para este país. Foi talvez um favor de Deus porque mais na desventura que na felicidade se prova a força do carácter”. E acrescentava, “Convença-se bem V. Alteza de que os Príncipes não têm biografia, a sua história, é, tem de ser, a do seu povo”. 

João José Brandão Ferreira

Fonte: O Adamastor

2 de fevereiro de 2015

Visita Guiada - Paço Ducal de Vila Viçosa

Foi neste palácio que o Rei D.Carlos dormiu na sua última noite, antes de ser assassinado em Lisboa. Casa-mãe dos Duques de Bragança, muito antes ainda de subirem ao trono de Portugal, o Paço Ducal de Vila Viçosa é, a todos os títulos, uma peça magnífica. Mas os retratos de Domenico Duprà que forram o tecto da Sala dos Tudescos, encomenda de D.João V, constituem um conjunto único no mundo. O historiador de arte António Pimentel explica-nos porquê.


Clique na imagem para ver o vídeo (RTP2)

1 de fevereiro de 2015

107º Aniversário do Regicídio





DOM CARLOS I – O Enaltecimento D’El-Rei



Muitas das personalidades da cultura e da política contemporâneas da época em que viveu Sua Majestade, o Rei Dom Carlos I de Portugal, foram unânimes em reconhecer os seus enormes méritos e talentos fosse como Rei, fosse como homem ou mesmo como artista, não raras vezes se empenhando como enaltecedores do prodigioso monarca supliciado juntamente com o seu augusto filho primogénito no Regicídio de 1 de Fevereiro de 1908.
Dr. Luís Vieira de Castro, in “D. Carlos I”, p. 287: «D. Carlos rejeitou desde o início do seu governo todas as sugestões ambíguas que pudessem vir a comprometer a Nação e propôs-se, sem detença, restaurar a amizade entre Portugal e Inglaterra. (…) D. Carlos viu restabelecidas as antigas relações com a Grã-Bretanha e ocupados, na sua maior parte, os territórios ultramarinos e conquistou, além disso, pelas suas qualidades pessoais, uma posição de verdadeiro prestígio na Europa do seu tempo, em cujo equilíbrio cooperou com talento e êxito.»
João Franco Castello-Branco, in Cartas D’El-Rei Dom Carlos I a João Franco Castello-Branco, Seu Último Presidente do Conselho, Lisboa, 1924: «Com uma instrução geral que o não deixava encontrar hóspede em qualquer assunto de conversação; conhecedor e possuidor de línguas, especialmente do francês e do inglês, por forma que delas se servia como de sua própria; dado ao gosto e cultura das Belas-Artes, em uma das quais, a Pintura, foi distintíssimo; habituado nos sports e, como atirador, excepcionalmente forte – reunia a tudo isso ser o homem mais bem-criado do seu País, dotado de um humor sempre igual, sem descair nunca na vulgaridade, nem deixar perceber de si, em qualquer circunstância, sinal de contrariedade, despeito ou irritação.»
Raul Brandão, in “Memórias”, 1.º Volume, Renascença Portuguesa, Porto, 1919, p. 289: «Porque foi, por exemplo, morto D. Carlos? (…) E no entanto já hoje se pode afirmar sem erro que D. Carlos não foi morto pelos seus defeitos, mas pelas suas qualidades. Respirou-se! Respirou-se! – o que não impede que, a cada ano que passa, esta figura cresça, a ponto de me parecer um dos maiores reis da sua dinastia. Já redobra de proporções e não se tira do horizonte da nossa consciência. (…) Não foram os seus defeitos que o mataram, foram as suas qualidades. Só o assassinaram quando ele tomou a sério o seu papel de reinar, e quando, João Franco, quis realizar dentro da monarquia o sonho de Portugal Maior. Foi esse o momento em que, talvez pela primeira vez na história, os monárquicos aplaudiram um crime que os deixava sem chefe, e se abriram de para em par as portas das prisões, congraçando-se todos os políticos sobre os corpos ainda mornos dos dois desventurados.»
Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão, in “As Farpas”, 1872: «… Nós temos por el-rei a mais sincera simpatia, e consagramos a sua majestade a rainha o respeito mais profundo. Se a nossa palavra não basta, e se a esta homenagem dos nossos sentimentos é preciso acrescentar o sacrifício das nossas vidas – tenham a bondade de as mandar buscar. Desculpem o incómodo que vão ter, mas enfim, por mais acrisolado que seja o nosso amor aos príncipes, não parecerá certamente estranho que tratando-se das nossas vidas – hesitemos um momento em as mandar pela posta!»; e «É El-Rei a única força que no País ainda vive e opera.»
Júlio de Sousa e Costa, republicano, “O Rei Dom Carlos I (1863/1908) in “Factos Inéditos do Seu Tempo, Lisboa, 1943, p.8: «Tratar do Rei D. Carlos I e dos casos do seu infeliz reinado tão cheio de amarguras, e deixar no silêncio os chefes das facções políticas, não faria sentido. Ao narrador sincero compete, dentro do quadro da maior correcção e imparcialidade, analisar e comentar factos em que tiveram responsabilidades Rei e Ministros, analisando, sem paixão, a sua mística governativa.
D. Carlos I teve culpas, e algumas muito graves, na verdade!... Todavia as maiores recaem sobre alguns dos seus Ministros que o aconselhavam muito mal, o que tornou possível o advento da República, em 1910. E tão infeliz foi o Monarca, que no próprio Paço Real foi traído por indivíduos que ele sentava à sua mesa…
Acabou por ser a primeira vítima dos “erros que de longe vinham”, como ele próprio escreveu na carta histórica, dirigida ao Conselheiro Hintze Ribeiro, datada de 16 de Maio do ano de 1906, erros que depois foram continuados».
Homem Cristo escreveu in “Monarchicos e Republicanos”, Porto, ed. Livraria Escolar Progrédior, 1928, p. 274: «Mas no meio dos seus defeitos foi o político mais inteligente do seu tempo e o único, de todos, que tinha carácter».
F.A. Oliveira Martins, “El-Rei D. Carlos I” in “Semana de Lisboa”, 1/1/1893: «Foi uma coroa de espinhos a que o moço rei teve para colocar sobre a cabeça, e nem o brio da juventude lhe permitiu um instante o gozo da vaidade, a que se chama fortuna. (…) E antes, depois e sempre, em todo o decurso deste já longo terramoto, cujo fim não vimos ainda, o moço rei, sozinho, desajudado de homens prestigiosos que lhe amparassem o trono, com partidos desconjunturados que na hora do perigo se demitem, confessando meritoriamente a sua impotência, ouvia estalar os tiros sediciosos do Porto e crescer a vozearia, confundindo os erros da sociedade com a responsabilidade da Coroa, esperando a salvação da queda da monarquia.
Como se, no jogo mais ou menos imperfeito das instituições vigentes, houvesse alguma espécie de tirania! Como se o homem, que ontem se sentou no trono, pudesse ser responsável pelos erros acumulados em dezenas, em centenas de anos! Como se a desesperança, a apatia, o abandono com que a sociedade portuguesa se submete à oligarquia das clientelas e cabalas que a exploram, fossem filhas da acção perniciosa da Coroa! Como se, pelo contrário, não pudesse o rei queixar-se de tantos que desertam o seu posto…»

Recolha por Miguel Villas-Boas