24 de agosto de 2014

Presidentes "de todos os portugueses"


Quando há pouco mais de um século a Monarquia foi violentamente derrubada, um dos argumentos mais pesados repetia à exaustão o escândalo da despesa que a manutenção da instituição representava. O rei, a rainha e restantes membros da Casa Real eram publicamente humilhados, sendo acusados de roubo e de condenarem centenas de milhar de portugueses à fome, à sobrevivência em alfurjas imundas e na melhor das hipóteses, à fuga para o Brasil. Sabemos o que depois sucedeu. Contas feitas, levantamento da questão dos Adiantamentos e os republicanos espantados por aquilo que encontraram. Afinal, a Coroa portuguesa era aquela cuja dotação era a mais reduzida de toda a Europa, ficando mesmo atrás das suas homólogas da Sérvia, Bulgária, Grécia e dos países nórdicos. Pior ainda, dos bens privados do monarca - o património da Casa de Bragança, cujo furto seria republicanamente legalizado por Salazar - saía uma boa parte do dinheiro que pagava as despesas de representação do Estado. Nunca nenhum dos bonzos republicanos por uma vez que fosse se atreveu a mostrar a este crédulo povo, o engano deliberado do comboio da propaganda que chegaria à estação final do assassínio em praça pública.

Num daqueles episódios que a tornaram estimada pelos portugueses, um dia a rainha Maria Pia impacientou-se com o dilúvio de críticas a respeito de gastos em aparatos. Naquele momento, o móbil era o grande retrato pintado por C. Duran, uma magnífica obra que se encontra na Ajuda. Diziam os críticos beneditinos que Sua Majestade apresentava-se despojada de qualquer jóia da Coroa, sendo isso um desleixado desrespeito para com a dignidade da instituição que também representava. Como era seu hábito, D. Maria Pia teve afiada réplica, dizendo-lhes  que ..."eu não preciso de usar jóias, eu sou a rainha". Por aquilo que o retrato ainda nos mostra, as cores nacionais bastavam-lhe para o efeito pretendido.

Ontem noticiou-se a contribuição da banca para as campanhas presidenciais, como se tal coisa fosse uma novidade. 

Todos sabíamos que os presidentes da república, sejam eles Mários, Jorges ou Aníbais, desde sempre contaram com o desinteressado financiamento de entidades que para todos os efeitos mandam em Portugal, os tais homens que são "donos disto tudo". Nada mais nada menos, senão maningues saguates para moleques de serviço. Pior ainda, a par de Robertos do teatro da finança, os presidentes são produtos que como Emídio Rangel gostosamente se gabava, eram susceptíveis de venda ao eleitorado ou de forma mais crua, sabão macaco impingido  como sucedâneo de banhos de leite de burra. Após o pecúlio vertido nos cofres dos candidatos e sendo um deles infalivelmente eleito, logo surgem compensações sob as capciosas fórmulas de embaixadas banqueiras capazes de dissolverem maiorias políticas, obrigarem os governos - com a assinatura ou silêncio presidencial - à extorsão de PPP e a uma miríade de contratos ruinosos, a clara imposição de uma política externa desastrosa e todo o tipo de encartes de camaradas em lugares estratégicos do poder.

É esta a verdadeira raiz da carcomida árvore da república. Como em relação a si próprio dizia o general Francisco Franco (y Bahamonde), eles têm isto "atado e bem atado".

* O sr. Guterres vai ficar sem emprego na ONU, mas já se coloca na fila para uma desinteresseira colaboração na solubilidade dos nossos males. 

Nuno Castelo-Branco

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