segunda-feira, 20 de julho de 2026

8 anos de traição aos Católicos Chineses

Há poucos dias celebrou‑se o oitavo aniversário do acordo secreto provisório entre a Santa Sé e o Partido Comunista Chinês (PCC) relativo à Associação Patriótica Católica Chinesa (APCC). Concebido pelo Secretário de Estado do Vaticano, o Cardeal Pietro Parolin, em 2018, com a bênção do Papa Francisco, o acordo reconhece a autoridade suprema do PCC para nomear bispos e suprimir e/ou estabelecer dioceses na China — o Bispo de Roma limita‑se a aprovar. Segundo se diz, pouco após a eleição do Papa Francisco, o novo pontífice encarregou o desonrado predador sexual Cardeal Theodore McCarrick de visitar a China com a tarefa de retomar as negociações com o PCC — após o Papa Bento XVI ter deixado de as promover — sobre a nomeação de bispos na China comunista. McCarrick fez, pelo menos, oito viagens à China e prestou informações sobre as suas negociações com o PCC tanto ao Papa Francisco como ao Cardeal Parolin.

Criada em 1957 sob a autoridade de Mao Zedong e gerida pelo Departamento do Trabalho da Frente Unida do PCC, a intenção era alinhar o catolicismo com a ideologia comunista. No início de 1958, Pequim designou ilicitamente o primeiro grupo de bispos sem consultar a Santa Sé. Em Junho desse mesmo ano, o Papa Pio XII publicou a sua encíclica Ad Apostolorum Principis, na qual denunciou a “igreja paralela” chinesa, recusando reconhecer quaisquer consagrações episcopais feitas pela APCC sem prévia aprovação do Vaticano.

Os católicos que permaneceram fiéis a Roma foram forçados a agir na clandestinidade. A partir desse momento, os fiéis de Roma passaram a actuar secretamente. Uma figura notável dessa época foi o finado Bispo católico romano de Xangai e Administrador Apostólico de Suzhou e Nankin, o Cardeal Ignatius Kung Pin‑Mei. Até ao presente mantêm‑se como uma Igreja “subterrânea”, a qual o Vaticano deixou de apoiar por causa do acordo provisório. Muitos padres, freiras e leigos continuam a sofrer prisão, tortura e, em alguns casos, mesmo execução pela recusa em conformar‑se com a igreja institucional do PCC.

Quando o Papa Leão XIV se dirigiu ao público, no dia 25 de Maio do ano passado, poucas semanas depois da sua eleição papal, recordou o Dia de Oração pela Igreja na China durante a sua alocução do Regina Caeli. Esse dia coincidia com o momento, em 2007, em que o Papa Bento XVI escreveu uma carta aos católicos chineses, reconhecendo a sua “fidelidade a Cristo Senhor e à Igreja — uma fidelidade que [eles] têm manifestado por vezes ao preço de graves sofrimentos.” Esperava‑se que isto sinalizasse uma espécie de renascimento para os católicos “subterrâneos” que se recusam a alinhar‑se com a Igreja Patriótica controlada pelo PCC.

O contrário sucedeu, quando o Vaticano anunciou, a 10 de Setembro, que o Papa Leão XIV, a pedido do Presidente chinês Xi Jinping, havia suprimido as duas históricas dioceses de Xiwanzi e Xuanhua — ambas criadas em 1946 pelo Papa Pio XII. Substituiu‑as por uma nova diocese católica na província setentrional de Hebei, com o mesmo nome — Zhangjiakou — de uma que fora criada décadas antes por Pequim sem aprovação do Vaticano. Foi nomeado Padre Joseph Wang Zhengui como Bispo de Zhangjiakou a pedido do PCC, tendo recebido a consagração episcopal no mesmo dia em que a nova diocese foi anunciada.

Presentemente, dois bispos subterrâneos, Augustine Cui Tai e Thaddeus Ma Daqin, encontram‑se detidos e em prisão domiciliária, com as suas funções ministeriais cerceadas por bispos nomeados pelo governo. O Bispo James Su Zhimin, com 94 anos, não é visto desde 2003. O Bispo Xin Wenzhi, de 63 anos, permanece desaparecido forçosamente. Além disso, os Bispos Vincent Guo Xijin e Peter Shao Zhumin, que se recusaram a registar‑se na APCC, estão em prisão domiciliária há mais de um ano. Padres que recusam juntar‑se à Igreja Patriótica continuam a ser presos e torturados, e os libertados da detenção suportam assédio contínuo, incluindo a perda das contas bancárias, passaportes e cartões SIM, o que lhes retira os meios de subsistência.

É bastante presunçoso que a Santa Sé tenha imposto a excomunhão aos bispos da SSPX apenas pelo seu desejo de continuar a administrar os Sacramentos da Confirmação e das Ordens Sagradas — depois de terem sido negadas em várias ocasiões audiências com o Papa Leão XIV para exporem a sua situação — porém o sucessor de São Pedro conforma‑se com um déspota ateu que lidera uma igreja paralela apoiada pelo comunismo.

O comunismo é fundamentalmente malévolo. Para além da sua defesa de uma doutrina ateísta, os regimes comunistas foram responsáveis por alguns dos acontecimentos mais mortíferos da história moderna, com estimativas que sugerem que cerca de 100 milhões de pessoas perderam a vida sob governos comunistas durante o século XX. Além disso, o legado da ideologia caracteriza‑se por estagnação económica, repressão sistemática de liberdades essenciais, catástrofes ambientais e a hipocrisia de uma elite governante que subverte os próprios princípios de uma sociedade sem classes.

Estas falhas não são eventos isolados ou simples erros de implementação. São observáveis em todos os continentes onde o comunismo foi tentado — desde a antiga União Soviética, à China, a Cuba, à Coreia do Norte, os regimes comunistas não se limitam a restringir a liberdade, mas consideram a autonomia individual uma ameaça à sobrevivência do sistema e procuram activamente eliminá‑la.

As liberdades de expressão, imprensa, reunião, movimento, religião e até o pensamento pessoal foram todas sujeitas ao controlo do Estado comunista. A justificação mantém‑se inalterada: o bem colectivo sobrepõe‑se a quaisquer direitos individuais. Na prática, “o bem colectivo” é definido pelo que o partido no poder decide que signifique.

A erradicação da propriedade privada, por exemplo, é um dos princípios fundamentais da ideologia comunista em vez de um mero resultado eventual. Os regimes iniciaram a apreensão de bens quase imediatamente após as respectivas revoluções, abolindo o direito de possuir terra em áreas urbanas e apropriando‑se de edifícios que excediam certos valores modestos. Karl Marx descreveu explicitamente o comunismo como “a expressão positiva da propriedade privada anulada”, indicando que tal não era uma táctica temporária de guerra, mas antes o objectivo último da ideologia.

Contudo, o actual papado aparentemente mantém que alguns resultados benéficos e favoráveis poderão advir do referido acordo provisório. Esta posição contrasta fortemente com as acções do Papa Santo João Paulo II. Eleito em 1978, denunciou a duplicidade dos regimes do Pacto de Varsóvia confrontando‑os directamente. Com o apoio do Presidente dos EUA Ronald Reagan, o Papa polaco apoiou financeiramente organizações anticomunistas, mais notavelmente a Solidariedade, que não só derrubou o regime comunista na Polónia em 1989 como também desencadeou uma reacção em cadeia que conduziu ao colapso de outros governos comunistas, incluindo a U.R.S.S.

No século XX, os regimes comunistas infiltraram‑se eficazmente na Igreja para a destruir a partir de dentro. É difícil acreditar que a China comunista tenha mudado de coração e deixe de se envolver em acções semelhantes. Como disse o Arcebispo Emérito de Hong Kong, Cardeal Joseph Zen, no início do pacto secreto com a China: “Estão a entregar o rebanho à boca dos lobos. É uma traição incrível."

Fr. Mario Alexis Portella in 'Crisis Magazine'


domingo, 19 de julho de 2026

CRITICA XXI . NÚMERO 15 . PRIMAVERA 2026

Este número 15 da Crítica XXI, referente à Primavera de 2026, abre com um artigo de Jaime Nogueira Pinto, “Os Iliberais de há 100 anos”,  que historia a vaga de movimentos e regimes iliberais que, nos anos vinte, surgiram na Europa em resposta à crise do parlamentarismo liberal e à ameaça comunista. Nele sublinha a importância de distinguir estes autoritarismos nacionais-conservadores do fascismo italiano e do nacional-socialismo alemão.

Também numa linha de História do pensamento e dos movimentos políticos, Miguel Morgado, em “O Fascismo nasceu na Sabóia? O pensamento político de Joseph de Maistre”,  argumentando contra Isaiah Berlin, que aponta De Maistre como “fascista”, esclarece a diferença abissal entre o anti-liberalismo e anti-democratismo de  Joseph de Maistre, – um católico contra-revolucionário e tradicionalista – e o pensamento e instituições do Fascismo, ideologia e movimento que pertence à chamada “direita revolucionária”.

Tu que  fumas” é um ensaio de Carlos Maria Bobone que, a propósito do “vício” do tabaco e da sua interdição e condenações globais, faz uma reflexão sobre as sociedades contemporâneas e a determinação ético-legal, dos seus interditos e das suas liberdades.

Em “Preste João das Índias — Entre a profecia e a geopolítica“, José Cortez de Lobão ocupa-se da resenha histórica e literária de um velho mito cristão europeu – o Preste João – muito familiar às narrativas da expansão portuguesa. Vinda das profundas da Idade Média, a narrativa sobre um Reino de um Rei cristão no Oriente, que resistira às forças do Islão e queria aliar-se com a Europa cristã contra os muçulmanos, é muito comum na história da Expansão Portuguesa. Nos tempos de D. João II e D. Manuel I, os extraordinários viajantes e nossos compatriotas, Afonso de Paiva e Pêro da Covilhã, para lá viajaram. E Covilhã lá ficou e morreu na corte da Etiópia.

Em “Churchill e os Socialismos”, Nuno Sanches de Baena Ennes aborda a figura de Winston Churchill na perspectiva dos seus anos de formação política e no papel que o confronto com “os socialismos” acabou por ter na formação dos seus valores de conservadorismo liberal. Foi na Índia, no seu serviço militar como jovem oficial, que Churchill se entusiasmou e dedicou à leitura e à cultura, desde a Origem das Espécies de Darwin que o familiarizou e entusiasmou pelo “darwinismo social”, até ao clássico inglês de Gibbon da História de Roma e da Decadência do Império Romano. Depois veio a paixão pela História de Inglaterra e a descoberta da harmonia do “mistério britânico”, a harmonia entre Tradição e Modernidade.

No centenário do 28 de Maio, evocando a revolução militar de há um século (piedosa e intencionalmente esquecida no presente), Rui Ramos parte em “ A Revolução do 28 de Maio de 1926 e as origens do Salazarismo” para uma análise do papel dos militares na origem e vigência do Estado Novo. E conclui que o sucesso da revolução de Maio esteve, paradoxalmente, no papel central dos militares na formação e no apoio ao Estado Novo e em se terem afastado do exercício directo do poder. Mas também em se terem mantido como os garantes – unidos e na sombra. E quando deixaram de o apoiar, o regime caiu.

Na habitual secção final de “Notas Críticas”, Eurico de Barros e Jaime Nogueira Pinto fazem a crítica de dois filmes políticos recentes: Projecto Global de Ivo M. Ferreira, sobre o terrorismo das FP-25 de Abril, e Lavagante, de Mário Barroso. O primeiro é uma obra política e moralmente ambígua sobre um grupo terrorista de extrema-esquerda, que existiu, contra a ideia de que só há terroristas na extrema-direita. Lavagante é uma história mais composta sobre o Estado Novo, com Pides “ feios, porcos e maus” e oposicionistas esclarecidos e bondosos.

Miguel Freitas da Costa faz uma recensão crítica ao livro de José Luís Andrade, Breve História do 28 de Maio e da Ditadura Militar, uma obra de síntese, muito interessante e  importante no centenário do movimento militar.

A finalizar, mais uma recensão  de Eurico de Barros, Fanfulla, de Hugo Pratt e Mino Milani) e outra de Miguel Freitas da Costa, Um Português na China, de André Macedo.

DIRECÇÃO JAIME NOGUEIRA PINTO E RUI RAMOS

 Fonte: Critica XXI

sábado, 18 de julho de 2026

Presidencialistas são republicanos monarquizados

Eu compreendo a relutância dos republicanos pelo presidencialismo.
Os republicanos, verdadeiramente, não podem ser presidencialistas, e por isso, faz bem o Sr. Afonso Costa, do fundo do seu exílio de Elvas, em protestar contra o presidencialismo, como o Sr. António José d'Almeida que não sabe o que seja isso, ou o Sr. Brito Camacho a quem o presidencialismo não convém. A República, ou é parlamentar, caminhando a passos largos para o anarquismo, ou é presidencialista e, então, deixa de ser autêntica república. Os presidencialistas não são republicanos puros, são republicanos monarquizados.

Alfredo Pimenta in «A Situação Política», 1918


Fonte: Veritatis

sexta-feira, 17 de julho de 2026

O Estado liberal


O Ocidente foi atingido por uma ruptura na sua unidade porque deixou de haver unidade religiosa, devido à protestantização de algumas Nações. O pensamento cartesiano substituiu o sistema aristotélico e o de S. Tomás de Aquino, para além do regresso dos costumes pagãos como o mercantilismo, a luxúria, a escravidão, o culto da vaidade, a deturpação das artes, os comportamentos sem regra e indisciplinados, o despotismo e a tirania dos réis que foram um terreno propício ao desenvolvimento do Iluminismo e culminaram com a Revolução Francesa.

O secularismo avançou até às novas correntes de pensamento – o laicismo, o naturalismo liberal, o socialismo, o fascismo – e contra esta nova ordem, pensada e concretizada pela maçonaria, como ela mesmo assumiu, combateu a Igreja Católica.

A razão deixou de ser um juízo equilibrado, para se tornar uma crítica ousada.

Desenvolve-se uma política sem Direito divino, uma religião sem mistério, uma moral sem dogmas.

A consciência europeia entra em crise, talvez a mais importante na história das ideias. À civilização alicerçada na ideia do dever – deveres para com Deus e com o Rei – a nova ordem contrapõe uma nova civilização construída na ideia do direito – direitos da consciência individual, direitos da crítica, direitos da razão, direitos do homem e do cidadão.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

A promessa de Nossa Senhora do Carmo

A ordem dos Carmelitas tem como modelo o profeta Elias e caracteriza-se por uma profunda devoção a Maria. A Sagrada Escritura fala da beleza do Monte Carmelo, onde o profeta Elias defendeu a fé do povo de Israel no Deus vivo e verdadeiro. Carmelo em hebraico significa "vinha do Senhor".

Ali Elias enfrentou os profetas de Baal. Segundo o Livro dos Reis, Elias teve uma visão em que a Virgem lhe apareceu sob a figura de uma pequena nuvem que saía da terra e se dirigia ao Carmelo.

Em 93, os monges construíram sobre o Monte Carmelo uma capela em honra à Virgem Maria. As gerações de monges sucederam-se através dos tempos. Em 1205, o patriarca de Jerusalém deu-lhe uma Regra baseada no trabalho, na meditação das Escrituras, na devoção a Nossa Senhora, na vida contemplativa e mística.

Entretanto, ainda no séc. XIII, os muçulmanos invadiram a Terra Santa. Os eremitas do Monte Carmelo fugiram para a Europa. Nesta época, tinham como superior geral São Simão Stock. Enquanto rezava, pedindo a Nossa Senhora que fosse a protectora da Ordem dos Carmelitas, recebeu das mãos de Nossa Senhora do Carmo o escapulário: «Eis o privilégio que te dou a ti e a todos os filhos do Carmelo: "todo o que for revestido desse hábito será salvo".

Clicar aqui para saber como receber e usar o Escapulário de Nossa Senhora do Carmo

in Evangelho Quotidiano


quarta-feira, 15 de julho de 2026

Origem dos Guardas Florestais

Guarda do Piquete de Fogos do Corpo da Guarda-Florestal, 1905

Foi nos bons tempos da Monarquia Portuguesa que surgiram os elementos dedicados à conservação do Pinhal do Rei e das florestas portuguesas. Inicialmente, tratavam-se de simples couteiros que com o passar do tempo viram as suas funções ampliadas, atingindo, em 1605, o número de 24.
Mas foi no reinado do bom Rei João VI de Portugal, cognominado ‘O Clemente’, que efectivamente foi criada a carreira de guarda-florestal, integrada no quadro da Administração Geral das Matas, e foi em 1856, no reinado do Bem-Amado e pragmático El-Rei Dom Pedro V, que começaram a usar o uniforme específico que duraria até 1905, data da sua substituição por novo fardamento.
De entre as funções dos guardas-florestais destacavam-se: evitar incêndios criminosos, deter pirómanos, observar as florestas para evitar incêndios ou a sua progressão, zelar pela não realização de queimadas, fiscalização do abate autorizado e da madeira que saía da mata, medições de lenhas e madeiras, assim como proceder a sementeiras das espécies arvoráceas, arbustivas, herbáceas e graminosas autóctones, limpezas, autos de marca e, tal-qualmente, algum trabalho administrativo.

Foram extintos, durante a república, pelo Decreto-Lei 22/2006 de 22 de Fevereiro!

Miguel Villas-Boas

Fonte: Plataforma de Cidadania Monárquica

terça-feira, 14 de julho de 2026

O Rei e o Tirano

Bastante se disse já sobre o que separa um Rei de um Tirano. É Rei o que obedece à inspiração divina, segue os ditames da recta razão, promove a justiça, reprime os crimes e as fraudes, observando em tudo a devida ordem e medida.
É Rei o que consegue impor-se a toda a Nação pelos merecimentos de suas virtudes; o que todos os perigos afronta para salvar a pátria; o que, aspirando à posse da eterna glória, chega a desprezar a morte para alcançar a imortalidade.
Será, pelo contrário, Tirano, aquele que não atender a Deus, enjeitar os ditames da razão, der guarida à impureza e ao prazer; o que violar as leis divinas e humanas, e recorrer ao dolo e à simulação.
Será Tirano quem trocar a verdadeira dignidade por uma falsa aparência de decoro; o que julgar ter-se desempenhado cabalmente da sua função quando, dominando pela força, tiver aterrado e pilhado todo o povo para aumentar seus cabedais, recorrendo a violências e fraudes. Portanto: como o protege Deus com a sua graça, como alicia os corações de todos com o fulgor das suas virtudes impolutas, o Rei assisado na sua administração, intrépido em repelir o inimigo, moderado em seu governo, constante em manter justa a lei, e feliz em seus empreendimentos. Sentindo-se ele próprio feliz, torna florescente e prendada a pátria inteira.
O Tirano torna-se odiado pela sua malvadez, pelas suas torpezas e embustes. Já nele não confiam os homens, que lhe são todos hostis. Tudo faz entre raivoso e ousado, entre indeciso e cobarde; já não o ajuda Deus com seu auxílio.
Donde, por força há-de ele corromper-se a si e aos que lhe são sujeitos, não se ficando que os não desgrace a todos.
Bem é de ver agora que tais males – todos quantos desfiámos – não os promove o verdadeiro Rei, mas o que falsamente o nome de Rei se arroga. Cumpre ele a sua missão mais à maneira de Tirano do que de beneficente e legítimo Rei.

D. Jerónimo Osório in «Da Instituição Real e sua Disciplina», 1571


Fonte: Veritatis

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Canonista diz que excomunhão da FSSPX é uma "confusão canónica"

O Rev. Padre Gerald Murray, canonista da arquidiocese de Nova Iorque, qualificou a excomunhão da Fraternidade Sacerdotal São Pio X de «confusão canónica», numa entrevista a Raymond Arroyo.

Dois mecanismos canónicos
O Rev. Murray distingue as penas automáticas (latae sententiae) das penas impostas (ferendae sententiae), que exigem um processo judicial ou administrativo. O Cardeal Victor «Tucho» Fernández não impôs a excomunhão, mas declarou que já fora incorrida uma pena automática, uma vez que a consagração de bispos sem mandato papal acarreta a excomunhão segundo o direito canónico. 

O decreto excomunga apenas os seis bispos
A crítica central do Rev. Murray é a seguinte: o decreto nomeia apenas seis bispos, enquanto a nota explicativa se refere a sacerdotes e leigos. Porém, uma nota não pode alargar legalmente o âmbito de um decreto. A nota qualifica os sacerdotes de «cismáticos», mas o próprio decreto nunca os declara excomungados.

Como um decreto penal deve especificar quem cometeu qual infracção e quando, e tal foi omitido, o Rev. Murray conclui que os sacerdotes da FSSPX não foram legalmente excomungados. Poderão, teoricamente, ter incorrido numa pena automática, mas esta não foi juridicamente estabelecida.

Assistência dos leigos à Missa não basta para a excomunhão
A nota explicativa adverte contra a «adesão formal» ao cisma, mas o direito canónico exige um acto externo identificável, e não apenas uma atitude interior. O simples facto de assistir às Missas da FSSPX não estabelece adesão formal, e o decreto nunca define que conduta incorreria efectivamente na pena.

A nota explicativa não pode prevalecer sobre a lei vigente
O Padre Murray argumenta que uma nota não pode criar novas penas nem revogar legislação papal existente. O Papa Francisco concedeu aos sacerdotes da FSSPX as faculdades para ouvir confissões e assistir a casamentos. Apenas o Papa (ou autoridade equiparada) pode revogar essas faculdades. A nota não pode, portanto, invalidar as confissões nem os casamentos da FSSPX.

Ambiguidade sobre a «plena comunhão»
Por fim, o Padre Murray observa que os documentos pressupõem que muitos leigos já não se encontram em plena comunhão, mas, sem heresia, cisma ou pena canónica declarada, não se pode simplesmente presumir a perda da comunhão. Conclui que os documentos confundem a linguagem eclesiológica com o estatuto jurídico efectivo.

in gloria.tv


domingo, 12 de julho de 2026

“A democracia é uma crendice muito difundida, um abuso da estatística.”


Há vários sistemas políticos em que o homem pode viver, mas conformar-se com o "menos mau", como lhe chamam os defensores deste "status quo", é inaceitável.

Mas porque razão não é a democracia parlamentar representativa? Porque o parlamento falha como tal em dois níveis da sua existência:

- Na sua relação com o Estado como órgão representativo que nele se integra:

Como órgão do Estado, como "poder legislativo", desempenha funções que são alheias e incompatíveis com a função de representação. Esta implica um contexto relacional: representa-se alguém frente a alguém, diante de um poder independente. Quando este poder é o "executivo" que provém precisamente do "legislativo", é completamente impossível haver representação entre dois entes que não são independentes um do outro. Ao não haver, quando se elege, um vínculo de mandato imperativo, pelo qual os eleitores traçam uma linha de conduta que delimita a actuação do eleito e que este não poderá ultrapassar, tornando-se assim porta voz dos interesses de quem elegeu, o que sucede é que no momento da votação se torna independente dos eleitores. o mais "democrático" a que pode aspirar uma democracia parlamentar é ter uma certa transparência nas suas decisões.

- Na sua relação com o homem, com a pessoa que diz representar:

Na relação do votante com o deputado o parlamento falha como representativo da sociedade ao tomar em consideração o homem individualizado, abstracto, desprovido de todos os atributos e circunstâncias naturais que o configuram como pessoa. Na prática actual, fica evidente que o homem não pode fazer-se representar por um deputado, pois a figura do partido político coloca-se como intermediário, de tal forma que apenas se elege uma cor, uma tendência ideológica, mas a ideologia só supõe uma pequena parte da circunstância vital do homem que é a que menos interessa ao Estado. Assim esquece-se de o fazer ouvir como trabalhador, como vizinho, como membro de uma família, sob a ilusão de que tudo está abrangido pela tendência política. Mas nem sequer é possível a representação na mais pura teoria liberal, sem modificações do constitucionalismo, pois não existe o mandato imperativo que mantém o vínculo entre o representado e o representante que garante que este último leve avante as tarefas que lhe foram encomendadas.
 

Fonte: Causa Tradicionalista