quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Crítica XXI . NÚMERO 16 . VERÃO 2026

Este número 16 da Crítica XXI, com que completamos o quarto ano de publicação da revista, abre com “Ulisses, o eterno assediado”, um ensaio de Jaime Nogueira Pinto sobre o clássico herói de Homero que, ao longo dos tempos, tem vindo a suportar todas, ou quase todas, as leituras. Leituras que nos esclarecem também sobre o tempo e o modo do leitor, como a do recente filme de Christopher Nolan, A Odisseia, que transforma o “homem dos muitos caminhos, ardis e ofícios” num ex-combatente traumatizado pelas guerras que travou e pela “ordem internacional” que quebrou.

Em “O Macaco de Darwin”, José Maria Cortes escreve sobre a deriva gnóstica moderna. Seguindo uma pista de Eric Voegelin, Cortes faz notar que os gnósticos contemporâneos procuraram imputar a entidades ou causas do nosso tempo as funções do maligno Demiurgo dos pais-fundadores da seita herética. Também outros gnósticos enveredam pela moderna desconfiança em relação ao corpo e as suas funções, vistos como inferiores ou desviantes, ou como algo que nos escraviza e “bestializa”, quais “macacos de Darwin”.

Pedro Lomba, em “Religião e Tecnologia nas distopias do século XX”, passa um olhar crítico pelos grandes autores de futurologia e ficção científica do século XX – Huxley, Orwell, Jünger, Bradbury, Herbert, Philip K. Dick – em que as “maravilhas da técnica” confrontam e tentam resolver ou dispensar o mistério da Religião. Um exercício importante, nestes tempos de Inteligência Artificial.

Eduardo Paz Barroso faz uma evocação da vida e obra de Paulo Tunhas (1960-2023), que intitula “Acreditar e duvidar com Paulo Tunhas – Crónica, política e filosofia”. O autor de O Coração do Assunto deixa aqui uma comparação crítica entre Tunhas e Vasco Pulido Valente, sublinhando a liberdade que têm em comum, bem como a convergência de muitos temas e referências. De certo modo, ambos se popularizaram precisamente por essa independência crítica, livre de tutelas ideológicas e partidárias. O que é, infelizmente, singular no tempo e no modo da análise política local.

Em “Alternativa à Europa”, Nuno Cardoso da Silva insiste na necessidade de Portugal e de os portugueses procurarem uma alternativa a uma confederação político-económica em crise como é a Comunidade Europeia que, para sair da crise que ela própria criou, foge cada vez mais para a frente. Como muitos da sua geração que viveram e defenderam o projecto do país intercontinental que o 25 de Abril e a sua deriva esquerdista comprometeram, Cardoso da Silva sugere o aprofundamento das relações com a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, num triângulo Angola/Brasil/Portugal.

Alexandre Franco de Sá parte para uma análise actual da “crise da democracia” e respectivas instituições, num ensaio intitulado “O populismo e a crítica das instituições democráticas”. As crescentes denúncias do perigo de a “democracia liberal”, por derivas várias, se transformar em “democracia iliberal”, leva-o a analisar sucessivamente os “populismos” de esquerda e de direita. Pretendendo uma “tutela das ciências sociais como tutela da massa do povo e do seu senso comum, marcado sempre pelo conservadorismo de valores e princípios”, o populismo de esquerda legitima o alarme contra a onda de vitórias eleitorais da direita popular, vista como “iliberal”. Mas o conservadorismo popular – em formas de defesa da religião, da identidade nacional, da família tradicional – parece ser a resposta à democracia radical da Esquerda.

Carlos Maria Bobone formula uma pergunta – “Porque é que a Antiguidade ainda nos interessa?” É um tema perene da Filosofia e da História políticas, discussão de um “ponto de partida” sobre o que, simplificando, chamamos Direita e Esquerda. A Direita, considerando a continuidade da natureza humana e dos próprios princípios básicos de comunidade política; a Esquerda, admitindo a transformação individual e colectiva dos homens e das sociedades. Estes mesmos temas foram discutidos pelos autores gregos e romanos e retomados pelos clássicos que lhes sucederam, de Maquiavel a Kant. Por isso importam.

Continuando as suas reflexões, aqui na Crítica XXI, sobre a História contemporânea de Portugal, Rui Ramos trata da malograda revolta de 31 de Janeiro de 1891 em “O Verbo que encarnou mal – A revolta republicana do Porto, em Janeiro de 1891”. O Ultimato inglês de 1890 esteve na raiz dos primeiros êxitos do Partido Republicano Português, também porque os monárquicos “progressistas”, cujo governo caiu por causa da crise do Ultimato, apelaram discretamente ao voto nos republicanos contra os seus inimigos “regeneradores”.

O choque do Ultimato levou a uma radicalização entre os opositores, e o Porto centralizou essa oposição por via de um levantamento, inspirado por jornalistas republicanos, que acabou por ser um golpe militar localizado, de sargentos, com alguns episódios caricatos. Na manhã de 31 de Janeiro, os revoltosos, ao subirem pela rua de Santo António (hoje 31 de Janeiro), foram alvejados pela Guarda Municipal e fugiram ou renderam-se. A repressão não foi excessiva – 3 oficiais, 23 sargentos e uns 230 cabos e soldados. Dois anos depois, tirando os três oficiais, todos foram amnistiados.

As Notas Críticas incluem crónicas de Miguel Freitas da Costa sobre o filme “Batalha atrás de Batalha”, uma exaltação nostálgica da violência revolucionária na América e a crítica ao livro de Rémi Brague “O Reino do Homem”, por Jorge Costa Braga. Também, em “Setembro”, Miguel Freitas da Costa lembra os 25 anos do 11 de Setembro e o ataque macro-terrorista nos Estados Unidos. Numa nota final, Jaime Nogueira Pinto evoca Vítor Luís Rodrigues, um militante nacionalista que fez parte do núcleo fundacional do Futuro Presente e que morreu em Lisboa neste fim de Agosto de 2026.

DIRECÇÃO JAIME NOGUEIRA PINTO E RUI RAMOS

terça-feira, 3 de novembro de 2026

São Martinho de Porres


São Martinho de Porres nasceu em Lima, Peru em 9 de Dezembro de 1579. Era filho ilegítmo de João de Porres, nobre espanhol pertencente à Ordem de Alcântara e de Ana Velásquez, negra alforriada.

Ainda na infância foi reconhecido pelo pai, bem como a sua irmã Joana, tendo ambos siso levados para Guayaquil, onde ocupava um cargo na administração local. Quatro anos depois, foi o seu pai nomeado governador do Panamá, pelo que enviou o filho à mãe, em Lima (actual Peru), deixando a filha sob os cuidados de outros parentes.

Martinho de Porres tornou-se aprendiz de Mateo Pastor, que exercia o ofício de cirurgião, dentista e barbeiro. Foi ali que o jovem mestiço aprendeu os rudimentos de medicina, que depois lhe seriam tão úteis no convento.

Aos 15 anos, resolveu dedicar-se à vida religiosa, tentando entrar num convento da Ordem de São Domingos, o que não foi fácil dada a sua condição de pobre e mestiço. Foi no convento de Nossa Senhora do Rosário que Martinho quis entrar na qualidade de doado, isto é, quase escravo, aceitando servir, não como frade, mas como irmãos cooperador, o lugar mais baixo na hierarquia da Ordem. Comprometeu-se a servir toda a vida, sem nenhum vínculo com a comunidade, e com o único benefício de vestir o hábito religioso.

Após o primeiro ano de prova, recebeu o hábito de cooperador. Mas isso não agradou ao orgulhoso pai, de quem levava o sobrenome. Dom João pediu aos superiores dominicanos que recebessem Martinho, de tão ilustre estirpe pelo lado paterno, ao menos na qualidade de irmão leigo. Ora, isso era contra as constituições da época, que não permitiam receber na Ordem pessoas de cor. O Superior quis que o próprio Martinho decidisse. “Eu estou contente neste estado – respondeu ele – porque no serviço de Deus não há inferiores nem superiores, e é meu desejo imitar o mais possível a Nosso Senhor, que se fez servo por nós”. Tal atitude encerrou a questão.

A santidade estava impregnada nele, que além do talento especial para a medicina foi agraciado com dons místicos. Possuía muitos dons, como da profecia, da inteligência infusa, da cura, do poder sobre os animais e de estar em vários lugares ao mesmo tempo. Segundo a tradição, embora nunca tenha saído de Lima, há relatos de ter sido visto aconselhando e ajudando missionários na África, no Japão e até na China. Como são Francisco de Assis, dominava, influenciava e comandava os animais de todas as espécies, mesmo os ratos, que o seguiam a um simples chamado.

A fama de sua santidade ganhou tanta força que as pessoas passaram a interferir na calma do convento, por isso o superior teve de proibi-lo de patrocinar os prodígios. Mas logo voltou atrás, pois uma peste epidémica atingiu a comunidade e muitos padres caíram doentes. Então, Martinho associou às ervas a fé, e com o toque das mãos curou cada um deles.

Encarregado da enfermaria do convento, auxiliava todos quantos se lhe dirigiam, fossem seus irmãos da comunidade, fosse pessoas da cidade. Além de cuidar da enfermaria, varria todo o convento, cuidava da rouparia, cortava o cabelo dos duzentos frades, e era o sineiro, dispensando ainda de seis a oito horas por dia à oração.

Quando uma epidemia atingiu Lima, no convento do Rosário sessenta religiosos ficaram enfermos e muitos estavam numa seção fechada do convento. São Martinho teria passado a portas fechadas para cuidar deles, um fenómeno que encontraria residência. Martinho levava doentes para o convento, até que o Superior provincial, alarmado com o contágio, proibiu-o de continuar a fazê-lo. Sua irmã, que morava no país, ofereceu sua casa para alojar todos aqueles que a residência do religioso não poderia. Um dia ele encontrou na rua um pobre índio, sangrando até a morte por uma punhalada, e levou-o ao seu próprio quarto. O Superior, quando soube tudo isto, o repreendeu por desobediência. O Superior foi extremamente edificado pela sua resposta: “Perdoa meu erro, e por favor me instrui, porque eu não sabia que o preceito da obediência se sobrepõe ao da caridade.” Então o Superior deu-lhe liberdade para seguir as suas inspirações posteriormente no exercício da misericórdia.

Tinha uma horta na qual ele mesmo cultivava as plantas que utilizava para suas medicinas. Estando doente o Bispo de La Paz, de passagem por Lima mandou que chamassem Frei Martinho para que o curasse. O simples contacto da mão do doado em seu peito o livrou de grave moléstia que o levava ao túmulo. Foi um precioso amigo e colaborador de Santa Rosa de Lima e de Juan Macias, igualmente dominicanos.

Além de todas essas actividades, Martinho saía também do convento para pedir esmolas para os mais necessitados. Martinho, com o corpo gasto pelo excesso de trabalho, jejum contínuo e penitência, faleceu aos 60 anos de idade, em 1639. Martinho foi beatificado em 1837 pelo Papa Gregório XVI e canonizado pelo Papa João XXIII em 1962. A sua festa litúrgica celebra-se a 3 de Novembro.

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

História do Dia dos Fiéis Defuntos

A Igreja Católica celebra o “Dia dos Fiéis Defuntos” neste dia 2 de Novembro. Hoje as Missas são celebradas por intenção dos falecidos. É um dia propício para rezar pelos fiéis defuntos e também para meditar sobre os novíssimos do homem: Morte, Juízo, Inferno, Paraíso. 

O costume de rezar pelos mortos existe desde os primórdios do Cristianismo, e foi conservado pelas comunidades Cristãs. A criação da data deve-se a Santo Odilon, ou Odílio, abade do mosteiro beneditino de Cluny (França). Em 998 d.C., o monge supôs que, do mesmo modo que havia um dia para a celebração de "Todos os Santos" (1 de Novembro), deveria haver também um dia dedicado à celebração de todos os fiéis falecidos que não estavam colocados na lista dos Santos canonizados pela Igreja. Então, determinou que os monges rezassem por todos os mortos, conhecidos e desconhecidos, religiosos ou leigos, de todos os lugares e de todos os tempos. Três séculos depois o Papa adoptou o dia 2 de Novembro como o Dia dos Fiéis Defuntos.

A Igreja oficializou a celebração em 1311, e, em 1915, o Papa Bento XV estendeu a solenidade a toda a Igreja. Mas desde os primeiros séculos, os cristãos já visitavam os túmulos dos outros cristãos para rezar por eles e por todos aqueles que um dia fizeram parte da comunidade primitiva.

Santo Isidório de Sevilha chegou a afirmar que o facto de se oferecer sufrágios e orações pelos mortos é um costume tão antigo na Igreja que pode ter sido ensinado pelos Apóstolos. 

A Doutrina Católica evoca algumas passagens bíblicas que fundamentam a celebração (cf. Tobias 12,12; Job 1,18-20; Mt 12,32 e II Macabeus 12,43-46), e apoia-se numa prática de quase dois mil anos.

Dia dos Fiéis Defuntos e Purgatório.

O Purgatório faz parte da doutrina escatológica da Igreja e é a condição de purificação pela qual as almas devem passar para apresentarem-se sem mancha diante de Deus. Trata-se de uma intervenção da misericórdia de Deus. A doutrina do Purgatório veio definida no segundo Concílio de Lião, em 1274.

Mas, desde o primeiro século, os cristãos rezam pelos falecidos; costumavam visitar os túmulos dos Mártires nas Catacumbas para rezar pelos que morreram sem martírio. No século IV já encontramos a “Memória dos Mortos” na celebração da Missa (no Canon). Desde o século V a Igreja dedica um dia por ano para rezar por todos os mortos pelos quais ninguém rezava e dos quais ninguém se lembrava. Desde o século XI, os Papas Silvestre II (1009), João XVIII (1009) e Leão IX (1015) determinam que se deve dedicar um dia por ano aos mortos. 

O Dia de Todos os Santos celebra todos os que morreram em estado de graça e não foram canonizados. O Dia dos Fiéis Defuntos celebra todos os que morreram não estando em estado de graça total, mais precisamente os que se encontram em estado de purificação de suas faltas e, assim, necessitam de nossas orações.

O Dia dos Fiéis Defuntos, portanto, é o dia em que a Igreja celebra o cumprimento da missão das pessoas queridas que já faleceram, através da elevação de preces a Deus por seu descanso junto a Ele. Neste dia, as igrejas e os cemitérios são visitados, os túmulos são decorados com flores, e milhares de velas são acesas.

O que acontece segundo as Escrituras com os seres humanos na hora da morte?

No livro de Hebreus 9, 27 se lê que após a morte segue-se o juízo. E Jesus contou sobre a situação dos mortos Lc 16, 19-31. Nessa parte bíblica destacamos quatro ensinos de Jesus: a) que há consciência após a morte; b) existe sofrimento e existe bem estar; c) não existe comunicação de mortos com os vivos; d) a situação dos mortos não permite mudança. Cada qual ficará no lugar da sua escolha em vida. Os que morrem no Senhor gozarão de felicidade eterna (Ap 14, 13) e os que escolheram viver fora do propósito de Deus, que escolheram o caminho largo (Mt 7, 13-14) irão para o lugar de tormento consciente de onde jamais poderão sair. 

adaptado de Pale Ideas

domingo, 1 de novembro de 2026

Hoje é dia dos que viveram assim:

Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos Céus.
Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.
Bem-aventurados os humildes, porque possuirão a terra.

Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.

Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o reino dos Céus.

Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós. Alegrai-vos e exultai, porque é grande nos Céus a vossa recompensa. 


quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Casa Real anuncia a data do casamento do SA O Infante D. Dinis e da Condessa Anna Schaffgotsch


Os Duques de Bragança anunciaram que Sua Alteza o Infante D. Dinis, Duque do Porto, e a Senhora Condessa Anna Schaffgotsch von und zu Kynast und Greiffenstein, Baronesa de Trachenberg, vão celebrar o seu casamento no próximo dia 16 de Outubro de 2027, em Lisboa.