30 de maio de 2020

O Rinoceronte de Dom Manuel, o animal mais famoso da renascença

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Uma das gravuras mais famosas da renascença é a de um rinoceronte-indiano, desenhado pelo famoso alemão Albrecht Dürer em 1515, baseada numa descrição detalhada do animal exótico que se encontrava em Lisboa, já que Dürer nunca viu o rinoceronte em pessoa, e daí a existência de erros óbvios em relação ao aspeto de um verdadeiro rinoceronte, animal esse que não era visto na Europa desde os romanos. Esta xilogravura ficou conhecida como o Rinoceronte de Dürer, que imprimiu a imagem e vendeu exemplares por toda a Europa, podendo-se considerar uma das primeiras imagens a ser fabricada em massa, e logo se tornou num símbolo popular de arte europeia.

O rinoceronte foi uma oferta do sultão de Cambaia, Muzaffar Shah II, a Afonso de Albuquerque que logo tratou de enviar o animal como oferenda ao Rei D. Manuel I, juntamente com o seu tratador, partindo de Goa. O rinoceronte chegou a Lisboa em maio de 1515, e as notícias de uma estranha e bizarra criatura logo começaram-se a espalhar por Portugal e pela Europa.

O rinoceronte era mantido no Paço da Ribeira, longe de outros grandes animais do rei, relata-se no entanto uma batalha entre o rinoceronte e um jovem elefante também do monarca, batalha esta que nada mais foi que um frente a frente entre os dois animais, mas o elefante fugiu. Este evento deveu-se a uma ideia do naturalista romano Caio Plínio Segundo (o velho), que dizia que os dois animais eram inimigos, despertando a curiosidade das pessoas e do rei para verificar a veracidade da afirmação.

No final desse ano, D. Manuel I decide enviar o rinoceronte ao Papa Leão X como oferenda. O navio parte em dezembro de Lisboa a caminho de Roma, passa por Marselha, onde é visto pelo rei Francisco I de França, e após retornar a viagem, uma tempestade atinge o navio, e, infelizmente, o rinoceronte não sobrevive ao naufrágio, mas para sempre ficará imortalizado no imaginário português e europeu como símbolo do exótico e diferente, fruto de novos contactos que os descobrimentos e as grandes viagens possibilitaram e do espírito renascentista da época.

Martim Alvim

29 de maio de 2020

O papel dos partidos e do parlamento

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“Os partidos doutrinários e radicais saídos da Revolução Francesa apenas tiveram um programa: demolir toda a estrutura do edifício que com sublimes e seculares esforços levantaram as gerações católicas e monárquicas sobre um solo amassado com o seu sangue.
A cada empreendimento histórico opuseram uma catástrofe, a cada glória uma ignomínia, a cada direito uma licença, a cada virtude cívica uma corrupção e, por fim, à comunidade de crenças, de sentimentos, de instituições fundamentais, de tradições, de recordações e de aspirações comuns que constituíam o espírito nacional, aplicaram um só princípio: negar esse espírito; e uma só liberdade: a de romper essas unidades e de dissolver a Pátria.

Eliminar os partidos parlamentares não é cercear o ser da Pátria, é aliviá-la de um peso que a oprime, é libertar um cativo, é fazer renascer uma Nação desfalecida e humilhada.

Também o Parlamento não serve para governar, não serve para legislar, não serve para evitar desperdícios e é impotente para evitar revoluções. Então não serve para nada e quando uma instituição não tem qualquer utilidade, suprimi-la é responder sensatamente às questões mais rudimentares do senso comum.”

Retirado de "Vázquez de Mella e a educação nacional"

28 de maio de 2020

O Rei Não Tem Partido E Não Toma Partido


‘Concebido assim, nenhum Rei é obstáculo. A nenhum ideal político o Rei é oposto. A nenhum homem e a nenhuma ideia. Só ele é por si, um princípio de síntese, de integração histórica dos contrários no processo evolutivo da vida nacional. Só o rei, só o princípio real, contem a força política autónoma que o torna «indiferente». O Rei não precisa de partido porque não é votado; não precisa de propaganda porque não é efémero; não precisa de conquistar o poder porque está para além do poder.’

Francisco Sousa Tavares | Jornalista e Político Monárquico português in "Combate Desigual - Ensaios", 1960

27 de maio de 2020

Os 376 anos da Batalha do Montijo

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Em plena Guerra da Restauração, travada por Portugal em prol da sua independência da vizinha Espanha, ocorre a 26 de maio de 1644 a batalha do Montijo, na vila espanhola do mesmo nome.

As tropas portuguesas, lideradas por Matias de Albuquerque, enfrentariam neste dia um exército espanhol comandado pelo Barão de Mollingen, destacado para tal posto pelo famoso Marquês de Torrecuso, que confrontava os portugueses após estes terem tomado sem enfrentar resistência a vila espanhola supramencionada.

O primeiro embate com as tropas filipinas revelou-se desastroso para os portugueses, pelo forte ataque da cavalaria castelhana sobre o seu flanco esquerdo, que levou a uma grande desorganização dos elementos que o integravam.

Sem se conformar com a infelicidade inicial, Matias de Albuquerque, ajudado pela artilharia liderada pelo conjurado D. João da Costa, terá conseguido reunir a infantaria lusitana e obrigado os soldados do Barão de Mollingen que ainda não tinham perecido a retirar-se para a outra margem do rio Guadiana.

Matias de Albuquerque seria posteriormente recebido em Portugal com grandes honras e a vitória portuguesa levou à elevação da moral das tropas e populações, causando regozijo em Lisboa e grande espanto nas cortes estrangeiras, perante a humilhação sofrida pelo exército de D. Filipe IV de Castela.

Miguel Louro

Na imagem, painel de azulejos representando a batalha no Museu Militar de Lisboa.

26 de maio de 2020

Sangue Português


Sangue de Portugal... Devemos honrá-lo, mas sem cair no mito do sangue e sem pretender divinizá-lo, como querem alguns por cá e fazem outros por lá. O Sangue Português deixaria de o ser, quando deixasse de ser cristão.

Não consigo nunca ler as Crónicas dos nossos reis, as Relações dos nossos descobridores, missionários e colonizadores, que não sinta em mim uns frémitos de entusiasmo, e ao mesmo tempo de admiração e de respeito. Verdadeiramente, não há palmo da terra que pisamos, não há onda em todos os mares, nem areia em todas as praias, nem floresta virgem em qualquer canto do mundo, nem montanha escalvada ou deserto sem água, que não tenha visto correr o sangue português!

Mas para quê tanto martírio, tanta dor, tanta canseira?... Sangue Português?... Fica aos que sobrevivem o dever de substituírem os que caem. Para que Portugal viva, é preciso que viva o sangue de Portugal; para que viva o sangue de Portugal – é preciso não o matar, não o envenenar. Mata-se ou envenena-se o sangue de Portugal, profanando-o, dispersando-lhe a vitalidade em prazeres de puro egoísmo, comprometendo assim as energias da raça e a sua fecundidade. Para transmitir aos vindouros seiva robusta, é preciso ser forte e não ter enxovalhado, nem ter posto em almoeda, o corpo ou o coração.

Sangue de mortos... Sangue de vivos...

Pe. Raúl Plus in «Diante da Vida», 1947

Fonte: Veritatis

25 de maio de 2020

AUSTERIDADE OU IMBECILIDADE MILITANTE?

“A Política passou de ser (se é que alguma vez foi) a “arte” de governar para ser a arte de mentir”.
Autor: espero ter sido eu.

Austeridade, do latim, “austeritas”, qualidade do que é austero (rigor, severo); o que aplicado à Economia significa “rigor teórico no controle dos gastos”. Uma política de austeridade é utilizada quando o nível do “deficit” é considerado insustentável e é implementada através do corte de despesas.

    Imbecil, do latim, “imbecillis”, fraco, sem carácter, humilde; quem demonstra fraca inteligência ou discernimento; idiota, parvo, tolo; o que manifesta imbecilidade. Em Psicopatologia representa um atraso mental equivalente a uma idade mental entre os três e os sete anos e um QI entre os 30 e os 50.

    Agora que estamos situados, vamos imaginar uma família que tenha um rendimento mensal de 9.000 euros. Se devido a uma doença, um acidente, um mau investimento, ou qualquer outra coisa que corra mal (em que a vida é fértil), perder um terço do seu rendimento, no mês seguinte tem apenas 6.000 euros para gastar.

    Daqui decorre uma coisa simples e que é esta, a família não pode viver do mesmo modo como vivia no mês anterior (isto é, manter o nível de vida). Vai ter de se adaptar. Vai ter de se tornar mais austera…

    Tal só não acontecerá se dispuser de reservas acumuladas (poupança) ou se tenha precavido com planos de contingência (seguros, aplicações financeiras, etc..).

    Mesmo alguns muito ricos, que vivem de especulação bolsista (ou bolseira?) podem cair de um dia para o outro…

    Ora a esmagadora maioria das famílias e empresas portuguesas, além de terem baixos rendimentos; guardarem pouquíssimas reservas (poupanças), ou estarem descapitalizadas, estão afogadas em dívidas, sem fim à vista.

    O Estado está exactamente na mesma posição. Arrasta-se em falência técnica permanente; vive de habilidades (a que chamam “engenharia financeira”); de alienação de património (às vezes para resolver problemas de tesouraria), aliena a Soberania a troco de “apoios” investimentos e “solidariedades” várias e prostitui a nacionalidade. E tudo isto sacando ao cidadão, uma quantia que já ultrapassa os 40% da sua riqueza, em carga fiscal (impostos directos e indirectos).

    A banca então nem se fala, há décadas que é um desastre inominável (mas nunca paga pelos erros…), está também descapitalizada; cheia de crédito mal parado; metendo-se amiúde em negócios especulativos ruinosos e “empréstimos duvidosos a amigos”, etc.. E foi esticando a corda tão inconscientemente (o termo correcto é outro) que, estou em crer que se 10% dos depositantes fosse levantar metade do que lá têm a maioria dos bancos colapsava em horas. Mas nunca se regateia dividendos aos administradores; eles nem admitem discussões sobre a sua ganância…

    Em síntese a banca em vez de investir dinheiro na economia, tem sobrevivido com o dinheiro que suga aos depositantes e com o dinheiro que o Estado (essa figura anónima de costas largas) lá mete, sacado dos impostos dos contribuintes. Desde os anos 80 calcula-se que o “saque” já vá em cerca de 50 mil milhões de euros, ninguém sabe ao certo. O que se sabe é que foi sempre a piorar e cada vez com menos pudor. Assaz educativo.

   O que tem acontecido debaixo do olhar vigilante de uma corte de supervisores, principescamente paga, cuja característica maior tem sido a de nunca dar conta, ter presente nem se lembrar de nada! É obra.

     Tudo isto vai passando sempre embrulhado em papel celofane com perfume rasca e mentiras q.b.. Perdão, “inverdades” pois é feio mentir!

    Estávamos nós neste preparo e doce remanso que a ampla liberdade para mentir não chegava já para esconder, quando nos cai em cima esta história mal contada do “Covid19”, o qual por obra e graça do confinamento profilático nos meteu em casa, fazendo a vida social e económica cair a pique.

    As estimativas projectadas a esmo vão variando, mas podemos fixar isto: as consequências económicas, financeiras e sociais vão ser muito, muito graves. E ainda só passaram dois meses.

    Preparam-se agora as “forças vivas” do país para encetar a volta à “normalidade” e o retomar da vida – tanto quanto possível - a que estávamos habituados - e bem seria útil aproveitarmos para reverter as más práticas, que são muitas.

    Eis senão quando, aparecem uns cómicos que dizem que tudo se tem que resolver sem a tal austeridade…

    Eu sei que a maioria dos políticos de que temos sido servidos erraram a “profissão” pois deviam ter ido para ilusionistas, mas irrita-me que queiram fazer de nós todos imbecis, ou reduzirem-nos à imbecilidade!

    A Economia não é uma ciência exacta e possui muitas variáveis. A única coisa que é exacta é a soma algébrica das operações, que é zero. Mas para ser zero há um fluxo de meios - o mais conhecido dos quais se chama dinheiro – que se movem de um lado para outros. E não é fácil saírem todos a ganhar.

    Muitos factores contribuem para isso, mas quando se actua num, tal vai replicar-se noutros. Sempre. E tudo tem consequências. Por isso a Economia não é apenas ciência também tem algo de “arte”. De que resulta ser difícil encontrar dois economistas a defender a mesma coisa…

    Como a Estratégia, que deriva de uma política a qual tem origem numa ideia. Ora quanto melhores forem a ideia, a política e a estratégia, melhor será a economia.

    Acontece, porém, que há muito que não existe uma Ideia para Portugal; a Política é medíocre e escreve-se com minúscula e a estratégia desprezada. Não é de estranhar que a economia e as finanças (e tudo o resto) se ressintam disso…

    Ou seja a Economia deve derivar de uma Política e ser instrumento de uma Estratégia e as Finanças devem servir a Economia e ambas terem preocupações sociais. Não devem apenas servir para engordar banqueiros, promover negociatas e corrupções ou ser objecto de influência de “lóbis” político/empresariais.

    Por este encadeamento simples de entender (ou falta dele), se pode perceber o descalabro das últimas décadas, do qual só saíremos com muitos sacrifícios e mudanças radicais de comportamento e organização política.

    Ora não se tem encontrado um filho d’Algo interessado e na disposição de o fazer. E também jamais haverá enquanto não se vislumbrar nos altos cargos do Poder pessoas dispostas a dar o exemplo. Vai-se fugindo para a frente…

    E, deste modo, a “liberdade” mais utilizada na sociedade seja a do livre arbítrio de mentir. Mentir muito e impunemente (a que alguns se atrevem a chamar de “certezas ideológicas”).

    Por isso a “tanga” da austeridade ou falta dela, vai continuar com as "nuances" necessárias a prepararem a opinião pública para mudarem de agulha quando necessário. E tal vai acontecer quando finalmente, a nível da UE, se tiver acordado (ou não) no pacote de ajudas para fazer face à débacle. E independentemente daquelas que surgirem haverá aí sempre, campo de manobra a ser usado como desculpa…

    Não há, todavia, alternativa para Portugal, que não seja o tal rigor prático no controlo dos gastos!

     A preocupação deveria ser então, procurar distribuir os custos e danos que tal vai acarretar de um modo equitativo por toda a Nação, com os órgãos do Estado a darem o exemplo…

    Em conclusão já vimos que não temos reservas de nada (nem de divisas – o que resta do ouro não se pode tocar pois está “hipotecado” ao BCE – de cereais; de outros alimentos (a não ser algum vinho e azeite); de metais e outras matérias primas; até de água, etc..). Dispomos apenas de três meses de reservas de crude, mas a maioria está guardada na Alemanha… E alguma capacidade recente para guardar gaz natural por via das cavernas construídas na zona de Pombal, cujo montante desconheço.

    O Estado está sempre em fio de bancarrota, e os bancos não têm dinheiro para emprestar.

    A Economia (partindo do princípio que a balança comercial seria positiva) não tem capacidade de nos retirar só por si do fundo do poço onde nos encontramos.

    Ainda se consegue financiamento externo, mas tal já não será ao preço baixo a que nos habituámos últimamente, mas deitar mão dessa ferramenta é absolutamente desaconselhável, pelo gravíssimo endividamento em que já estamos e ao estado de escravatura a que nos sujeitamos; e vender património é a mesma coisa por outra via… Mas parece que ainda se aventa a hipótese de despejar na TAP centenas de milhões de euros, depois de se andar a fazer asneiras grossas com ela desde… 1974!

    De facto só resta o dinheiro da UE, mas mesmo esse é uma ilusão de óptica. Ninguém dá nada a ninguém…

    Mas de onde sairá o dinheiro?

    Do orçamento comunitário? Mas esse pertence a todos os países.

    Serão os países ricos que disponham de “superavit” a emprestar aos mais necessitados? Mas isso implica juros; seria a fundo perdido? Mas como justificar tal medida? As formigas vão dar dinheiro sempre que as cigarras precisem?

    Portanto o dinheiro só pode vir do BCE, mas o bolo lá guardado também é de todos (os que aderiram à moeda única – e há que resolver também o problemas dos outros) além de que tem accionistas privados, algo que é por norma escamoteado.

    Há sempre a solução de produzir moeda – a maioria em circulação é já escritural há muito tempo (ou seja é algo fictícia pois não tem nenhum “bem” a sustentá - la) e é baseada numa coisa a que chamam “confiança” - que ninguém sabe definir muito bem - mas tal iria depreciar o valor da moeda, incorrer em inflação e afectar a concorrência das exportações e o preço das importações.

    E, mais uma vez neste âmbito, para o valor final ser zero há uns que perdem e outros que ganham.

    Como qualquer agricultor sabe, por mais humilde que seja, não se pode ter sol na eira e chuva no nabal ao mesmo tempo, que é o que os espertos da política – querendo fazer dos outros cidadãos, imbecis (não é por acaso que se tem assistido à imbecilização da sociedade) - andam a tentar fazer há muito. Democraticamente é claro.

     Não era pois necessário o governo ter-se dado ao trabalho de declarar o “estado de calamidade” no país. Há mais de quatro décadas que ele existe.


João José Brandão Ferreira
Oficial Piloto Aviador (Ref.)

Fonte: O Adamastor

24 de maio de 2020

SAR D.Duarte, Duque de Bragança participou na celebração de um importante Protocolo com a DGPC

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No Dia Internacional dos Museus a Fundação Histórico - Cultural Oureana anuncia que teve lugar no Palácio Nacional da Ajuda, a celebração de um importante Protocolo com a DGPC. Igual Protocolo foi celebrado com a Fundação D. Manuel II a primeira parceira protocolar da Fundação Oureana.
Dom Duarte de Bragança, Presidente da Fundação D. Manuel II considera "importante o estudo e a preservação da memória dos seus antepassados que muito contribuíram para o enriquecimento cultural da nação e do espólio que deixaram a Portugal."
O Protocolo foi assinado pelo Director do Palácio Dr. José Alberto Ribeiro e pelos Presidentes das Fundações Oureana e D. Manuel II devidamente mandatados para o efeito e foi depois ratificado pela DGPC.
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23 de maio de 2020

Um milagre chamado Portugal


Como é possível que vós, embora sendo poucos, tenham feito tanto na santa cristandade? Onde Portugal encontrou forças para acolher tantos territórios da África e da Ásia sob o seu domínio, e estendê-lo até às mais distantes terras americanas? Onde, senão naquela ardente fé do povo português, cantada pelo seu maior poeta, e na sabedoria cristã dos seus governantes, que fizeram de Portugal um dócil e precioso instrumento nas mãos da Providência, para a realização de obras tão grandiosas e benéficas?

Papa Pio XII in encíclica «Saeculo Exeunte Octavo», 1940


Fonte: Veritatis

22 de maio de 2020

O primeiro tratado de equitação europeu

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Como temos vindo a explanar em publicações anteriores, a bibliografia eduardina é repleta de surpresas e dotada de categórica originalidade. Se já se falou que o Leal Conselheiro foi escrito apenas para um círculo restrito, o monarca quis compor, para além desta, outra obra absolutamente inovadora que pensava vir a atingir maior divulgação. Infelizmente a sua morte inesperada, com quarenta e seis anos, não o permitiu terminar. Porém, um frade, ou alguém que conseguiu obter o manuscrito, copiou-o e finalizou-o com o tradicional “Deo gracias”, como se a obra estivesse acabada. Não sendo, ao que se sabe, mais copiada, andou como perdida até ao século XIX, restando dela apenas uma vaga memória; considerando-a mesmo perdida, Barbosa Machado no século XVIII, na sua monumental Biblioteca Lusitana, escreveu que o Rei teria escrito um livro sobre “domar cavalos”, que desconhecia. Tratava-se portanto de o Livro da Ensinança de bem Cavalgar Toda a Sela.

Desenhado para ser composto por dezasseis partes, ficou apenas com sete redigidas. Não obstante uma obra inacabada, é muito mais que um tratado puramente técnico, pois a há nitidamente uma promoção das capacidades tanto físicas como emocionais. Desenvolve temas como a vontade humana para cavalgar, o poder do corpo, os requisitos materiais para a aprendizagem da arte equestre, princípios elementares da técnica de montar, formas como saber lidar com o medo, a segurança no cavalo, a elegância ou os preceitos do torneio. Estamos diante de “o nosso primeiro tratado completo, perfeito, científico, de pedagogia desportiva”, escreveu Joseph Peil, responsável pela excelente edição da obra. Mais, Rodrigues Lapa acrescentou ser um tratado de equitação escrito por um psicólogo. O zelo da sua actividade física e a paixão pelos cavalos, a sua fervorosa vida religiosa - própria de alguém conhecedor do psicológico pela ultrapassagem de uma depressão, e daí saber do que lhe valia a sua dimensão espiritual -, foram os condimentos para esta obra, que começou a escrever apaixonado, logo quando ainda era infante. “Insisto numa ideia: o Livro de Cavalgar, como o Leal Conselheiro, foram terminados pela mesma altura, remetem constantemente de um para o outro, de forma explícita, reproduzindo capítulos ou passagens, ou indirecta, e comungam das mesmas preocupações, dos mesmos gostos, dos mesmos objetivos.” O pensamento é de Luís Miguel Duarte, que biografou este Rei.

Escarneceu com refinado talento os fidalgos que se arrastavam obesos e inúteis, preocupados com jogos e intrigas palacianas, com o vestir e com o calçar, quando deveriam cavalgar, caçar javalis pelos montados, exercitar o físico e respirar ar puro. Lembra o seu saudoso pai, apresentando-o como paradigma, que com setenta anos ainda subia para a sela do cavalo sem qualquer tipo de ajuda, exercício que muitos homens de cinquenta anos já não era capazes de fazer.

Peça da nossa literatura, jóia da cultura medieval europeia, seja o pioneiro Livro da Ensinança de bem Cavalgar Toda a Sela, exemplo da essência dos homens que construíram este Portugal.

Tomás Pinto Bravo