terça-feira, 30 de dezembro de 2025

CRITICA XXI - NÚMERO 13 . OUTONO 2025

Este número 13 da Crítica XXI, o primeiro do nosso quarto ano de publicação, abre com um texto de Jaime Nogueira Pinto, “Há 50 anos – o fim do Império Português”, em que se recorda a história e o significado, para Portugal, do Império ultramarino nas suas sucessivas fases – o Oriente, o Brasil e a África –, e a sua essencialidade para a massa crítica político-territorial face a Espanha e para a importância do país.

Em 24 de Novembro de 1925, há cem anos, nascia F. Buckley Jr., o mais importante intelectual da direita nacional-conservadora norte-americana no século XX. Além da sua obra de intelectual empenhado, remando contra a forte maré da Esquerda marxista, pós-marxista e liberal-chique, Buckley e a sua National Review marcaram o espaço da direita política pensante dos anos 50, e da derrota de Goldwater (1964) à vitória de Reagan em 1980. Como observa Gonçalo Nabeiro no seu artigo “Standing Athwart History – o centenário de William F. Bucley”, as ideias do vencido de 64 e do vencedor de 80 eram mais ou menos as mesmas. O que mudou foi o trabalho intelectual e os recursos para as divulgar.

São Tomás de Aquino nasceu há 800 anos, em 1225, e morreu em 1274. Nesse meio século de vida, produziu uma obra monumental que determinou muito do pensamento ocidental. No texto que dedica ao Doutor Angélico (“São Tomás de Aquino – o que lhe deve a Política”) Carlos Maria Bobone sustenta que é no conjunto da obra de São Tomás, e não nos seus escritos especificamente políticos, que temos de encontrar a essência do seu contributo para a Política.

Segue-se uma outra efeméride, os 80 anos do Julgamento de Nuremberg. Hitler e Goebbels já se tinham suicidado para evitar a humilhação da prisão; e dos dirigentes sobreviventes do III Reich que foram a julgamento muitos, a começar por Göring e Himmler, também aproveitaram para se suicidar. Em “O processo de Nuremberg ou a Terra Prometida”, Miguel Freitas da Costa historia o célebre processo político e o seu relato noticioso, os jornalistas acreditados, as personalidades presentes e ausentes, os livros e filmes que lhe foram dedicados.

Alexandr Dugin é um pensador russo que muitos consideram “o intelectual de Putin”. É capaz de não ser, até porque os políticos no activo raramente têm mentores vivos. Dugin é um nacionalista russo, talvez próximo do que os americanos chamam um paleo-conservador, e que tem teorizado, a contra-corrente, a novíssima ordem mundial da idade das grandes potências. É a partir de A Revolução Trump, a mais recente das suas obras, que Jorge Castela escreve o artigo “Trump e Putin vistos por Alexandr Dugin”.

Há uma polémica acerca do 25 de Novembro com episódios recentes. À direita sublinha-se que se não fosse essa data e o contragolpe dos Comandos e da Força Aérea corríamos o risco de ter uma ditadura esquerdista-comunista; à esquerda, desvaloriza-se, ou então valorizam-se como protagonistas o Grupo dos Nove e o Partido Socialista. Em “O 25 de Novembro sem mistérios” Rui Ramos repõe a História nesta história.

Por fim, nas Notas Críticas, Miguel Freitas da Costa escreve sobre a Lusitânia no Astérix a propósito do último número da série, Astérix na Lusitânia; Eurico de Barros  sobre Gérad Lauzier, a banda desenhada e o cinema à direita; e Jaime Nogueira Pinto sobre Camilo, José Vieira de Castro e José do Telhado no livro de Onofre dos Santos O último romance de Camilo; e ainda sobre a recente publicação de um colectivo de generais sobre o papel da Força Aérea no 25 de Novembro.

DIRECÇÃO JAIME NOGUEIRA PINTO E RUI RAMOS


Fonte: Critica XXI

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

O último santo do ano civil: São Silvestre, Papa e Confessor

São Silvestre encerra o ano civil. Encerra também, na História da Igreja, uma época importante e inicia uma nova era. Durante três séculos, a Igreja de Deus esteve exposta às mais cruéis perseguições.

O Império romano empregava todo o seu poder para aniquilar o Reino de Deus; o sangue corria em torrentes. Esforçavam-se em regra para inventar novos tormentos. Além disso, astúcia, lisonja, seduções, tudo quanto pode cegar os sentidos, tudo o que a arte e a ciência terrenas podem proporcionar, estava a serviço desta luta - e tudo debalde. 

A Igreja permaneceu ilesa, a despeito de todos os planos, afrontando tudo. Os seus membros morriam aqui e ali, mas a Igreja continuava a viver, e sempre novos elementos entravam, para preencher as lacunas. Por fim, o Império romano se curvou diante de Cristo, e colocou a Cruz sobre o seu diadema e o sinal de Cristo sobre a águia de suas legiões. Cristo tinha vencido na possante peleja, e o Papa Silvestre I viu como tudo mudava. Viu o suplício da cruz ser abolido. Viu cristãos confessarem livre e francamente a sua fé e erigirem casas de Deus. Viu o próprio imperador Constantino edificar o palácio (Lateranense) que durante muitos séculos foi a residência do Vigário de Cristo.

Segundo o testemunho de historiadores fidedignos, Silvestre nasceu em Roma, filho de pais cristãos, que bem cedo o confiaram aos cuidados do sacerdote Cirino, cujo preparo intelectual e exemplo de vida santa fizeram com que o discípulo adquirisse uma formação extraordinariamente sólida cristã. Estava ainda em preparação a última - isto é, a décima - e de todas as mais bárbaras das perseguições dioclecianas, quando Silvestre, das mãos do Papa Marcelino, recebeu as ordens sacerdotais. Teve, pois, ocasião de presenciar os horrores desta investida do inferno contra o Reino de Cristo. Foi testemunha ocular do heroísmo das pobres vítimas do furor desmedido do tirano coroado. Em 314, por voto unânime do povo e do clero, foi proposto para ocupar a cadeira de São Pedro, como sucessor do Papa Melquíades.

Com a vitória do Cristianismo e a conversão do imperador Constantino, viu-se o Papa diante da grande tarefa de, por meio das sábias leis, introduzir a Religião Cristã na vida dos povos, dando-lhe formação concreta e definitiva. A paz, infelizmente, não foi de longa duração. Duas terríveis heresias levantaram-se contra a Igreja, arrastando-a para uma luta gigantesca de quase um século de duração.

Uma foi a dos Donatistas, que tomou grande incremento na África. A Igreja, ensinavam eles, deve compor-se só de justos; no momento em que seu grémio tolera pecadores, deixa de ser a Igreja de Cristo. O baptismo administrado por um sacerdote que está em pecado mortal é inválido. Um bispo que esteja em pecado mortal não pode crismar nem ordenar sacerdotes validamente. 

Pior e mais perigosa foi a outra heresia, o Arianismo, heresia propalada pelo sacerdote Ário, da Igreja de Antioquia. Ensinava este heresiarca que a Jesus Cristo, Filho de Deus feito homem, faltavam as atribuições divinas; isto é, não era consubstancial ao Pai, portanto não era Deus, mas mera criatura, de essência diversa da do Pai e de natureza mutável.

Tanto contra a primeira como contra a segunda, o Papa Silvestre tomou enérgica atitude. A dos Donatistas foi condenada no Concílio de Arles. O arianismo teve sua condenação no célebre Concílio de Nicéia (325), ao qual compareceram 317 bispos. O Papa Silvestre, já muito idoso, não podendo comparecer na grande Assembleia, fez-se nela representar por dois sacerdotes de sua inteira confiança, que, em lugar do Papa presidiram as sessões. Estas terminaram com a soleníssima proclamação dogmática da fórmula: "O Filho é consubstancial ao Pai; é Deus de Deus; Deus verdadeiro de Deus Verdadeiro; gerado, não feito, da mesma substância com o Pai".

O Papa Silvestre assinou as resoluções do Concílio. Na presença de 272 bispos, foram as mesmas em Roma solenemente confirmadas. Esta cerimónia teve lugar diante da imagem de Nossa Senhora Alegria dos Cristãos, cujo altar, em sinal de gratidão à Maria Santíssima, o Papa mandara erigir logo que as perseguições tinham chegado ao seu termo.

Sobre o túmulo de São Pedro, o Papa, auxiliado pelo Imperador, construiu a magnífica basílica vaticana, com suas oitenta colunas de mármore, templo que durante 1100 anos viu chegar milhares e milhares de peregrinos provenientes de todas as partes do mundo, ansiosos de prestar homenagens à "Rocha" sobre a qual Cristo tinha edificado a Sua Igreja - até que deu lugar à actual grandiosa Basílica de São Pedro.

Durante o seu Pontificado, o Papa Silvestre governou a Igreja de Deus dando sobejas provas de prudência e sabedoria, glorificando-a com as virtudes de uma vida santa e apostólica.

in Página do Oriente


quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

O Natal descrito pelos Padres da Igreja

«Reconheçamos o verdadeiro dia e tornemo-nos dia! Éramos, na verdade, noite quando vivíamos sem a fé em Cristo. E uma vez que a falta de fé envolvia, como uma noite, o mundo inteiro, aumentando a fé a noite veio a diminuir. Por isso, com o dia de natal de Jesus nosso Senhor a noite começa a diminuir e o dia cresce. Por isso, irmãos, festejemos solenemente este dia; mas não como os pagãos que o festejam por causa do astro solar; mas festejemo-lo por causa daquele que criou este sol. Aquele que é o Verbo feito carne, para poder viver, em nosso benefício, sob este sol: sob este sol com o corpo, porque o seu poder continua a dominar o universo inteiro do qual criou também o sol. Por outro lado, Cristo com o seu corpo está acima deste sol que é adorado, pelos cegos de inteligência, no lugar de Deus que não conseguem ver o verdadeiro sol de justiça». 
Santo Agostinho

«Ele está deitado numa manjedoura, mas contém o universo inteiro; mama num seio materno, mas é o pão dos anjos; veio em pobres panos, mas reveste-nos de imortalidade; é amamentado, mas é também adorado; não encontrou lugar na estalagem, mas constrói para si um templo no coração dos seus fiéis. Tudo isto para que a fraqueza se tornasse forte e a prepotência se tornasse fraqueza. Por isso, não só não menosprezamos, mas mais admiramos o seu nascimento corporal e reconhecemos neste acontecimento quanto a sua imensa dignidade se humilhou por nós». 
Santo Agostinho

«Chama-se dia do Natal do Senhor a data em que a Sabedoria de Deus se manifestou como criança e a Palavra de Deus, sem palavras, imitou a voz da carne. A divindade oculta foi anunciada aos pastores pela voz dos anjos e indicada aos magos pelo testemunho do firmamento. Com esta festividade anual celebramos, pois, o dia em que se realizou a profecia: A verdade brotou da terra e a justiça desceu do céu (Sl 84,12)». 
Santo Agostinho

«Neste dia, o Verbo de Deus revestiu-se de carne e nasceu de Maria virgem. Nasceu de modo admirável... Donde veio Maria? De Adão. Donde veio Adão? Da terra. Se Adão veio da terra e Maria de Adão, também Maria é terra. E se Maria é terra, entendemos quando cantamos: a verdade brotou da terra». 
Santo Agostinho

«Jesus é o novo sol que atravessa as paredes, invade os infernos, perscruta os corações. Ele é o novo sol que com os seus espíritos faz reviver o que está morto, restaura o que está velho, levanta o que está decadente e purifica ainda, com o seu calor, aquilo que é impuro, aquece o que está frio e consome o que o que não presta». «Preparemo-nos pois, irmãos, para acolher o natal do Senhor, adornemo-nos com vestes puras e elegantes! Falo, claro está, das vestes da alma, não do corpo… Adornemo-nos não com seda, mas com obras boas! Pois as vestes elegantes ornam o corpo, mas não podem adornar a consciência; pois seria muito vergonhoso trazer sob elegantes vestes elegantes, uma consciência contaminada. Procuremos acima de tudo embelezar os nossos afectos íntimos, e poderemos então vestir belas roupas; lavemos as manchas da alma para usarmos dignamente roupas elegantes! Não adianta dar nas vistas pelas vestes se estamos sujos em pecados, porque quanto a consciência está escura, todo o corpo fica nas trevas. Temos, porém, com que lavar as manchas da nossa consciência. Pois está escrito: Dai esmola e tudo será puro em vós (Lc 11,41). É importante este mandamento da esmola: graças a ele, ao operarmos com as mãos ficamos lavados no coração». 
São Máximo, bispo de Turim

«Nasceu hoje, irmãos, o nosso Salvador. Alegremo-nos! Não pode haver tristeza quando nasce a vida; a qual, destruindo o temor da morte, nos enche com a alegria da eternidade prometida. Ninguém está excluído da participação nesta alegria; a causa desta alegria é comum a todos, porque nossos Senhor, aquele que destrói o pecado e a morte, não tendo encontrado ninguém isento de pecado, a todos veio libertar. Exulte o santo porque está próxima a vitória; rejubile o pecador, porque é convidado ao perdão; reanime-se o pagão, porque é chamado à vida… Por isso é que, quando o Senhor nasceu, os anjos cantaram em alegria ‘glória a Deus nas alturas’ e anunciaram ‘paz na terra aos homens de boa vontade’. Porque vêem a Jerusalém celeste ser formada de todas as nações do mundo, obra inexprimível do amor divino, que, se dá tanto gozo aos anjos nas alturas do céu, que alegria não deverá dar aos homens cá na terra?». 
São Leão Magno

«Esta é a nossa festa, isto celebramos hoje: a vinda de Deus ao meio dos homens, para que, também nós cheguemos a Deus… celebremos, pois, a festa: não uma festa popular, mas uma festa de Deus, não como o mundo quer, mas como Deus quer; não celebremos as nossas coisas mas as coisas daquele que é nosso Senhor…». «Não embelezemos as portas das casas, não organizemos festas, nem adornemos as estradas, não demos banquetes em nosso proveito nem concertos para mero agrado dos ouvidos, não exageremos nos adornos nem nas comidas… e tudo isto enquanto outros padecem fome e necessidades, esses que nasceram do mesmo barro que nós». 
São Gregório de Nazianzo

 

Fonte: Senza Pagare

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Da Cristandade

Tempo houve em que a filosofia do Evangelho governava os Estados. Nessa época, a influência da sabedoria cristã e a sua virtude divina penetravam as leis, as instituições, os costumes dos povos, todas as categorias e todas as relações da sociedade civil. Então a Religião instituída por Jesus Cristo, solidamente estabelecida no grau de dignidade que lhe é devida, em toda a parte era florescente, graças ao favor dos Príncipes e à protecção legítima dos Magistrados. Então o Sacerdócio e o Império estavam ligados entre si por uma feliz concórdia e pela permuta amistosa de bons ofícios. Organizada assim, a sociedade civil deu frutos superiores a qualquer expectativa, cuja memória subsiste e subsistirá, consignada como está em inúmeros documentos que artifício algum dos adversários poderá corromper ou obscurecer.

Papa Leão XIII in encíclica «Immortale Dei», 1 de Novembro de 1885


Fonte: Veritatis

domingo, 21 de dezembro de 2025

Há 100 anos Nossa Senhora pediu à Irmã Lúcia a devoção dos primeiros Sábados

Há 100 anos, a 10 de Dezembro de 1925, Nossa Senhora apareceu à Irmã Lúcia em Pontevedra. A vidente tinha então 18 anos e vivia de maneira oculta, sob o nome de Maria das Dores, como postulante da Congregação de Santa Doroteia. Eis a aparição descrita pelas palavras da própria Irmã Lúcia:

«Em 10 de Dezembro de 1925, a Santíssima Virgem apareceu, tendo junto a Ela, levado por uma nuvem luminosa, o Menino Jesus. A Santíssima Virgem pôs a mão no seu ombro e mostrou, ao mesmo tempo, um Coração rodeado de espinhos que Ela segurava na outra mão. Nesse mesmo momento, o Menino disse: 

"Tem compaixão do Coração da tua Santíssima Mãe, coberto de espinhos com que homens ingratos O trespassam a todo o momento, sem que haja alguém que faça um acto de reparação para os tirar."

Então a Santíssima Virgem disse: "Olha, Minha filha, o Meu Coração, rodeado de espinhos com que homens ingratos O trespassam a todo o momento pelas suas blasfémias e ingratidões. Ao menos tu faz por Me consolar e anunciar em Meu nome que prometo assistir na hora da morte, com todas as graças necessárias para a salvação, a todos aqueles que, no primeiro Sábado de cinco meses seguidos, recebam o sacramento da Confissão, recebam a Sagrada Comunhão, rezem cinco dezenas do Rosário, e Me façam companhia durante quinze minutos, enquanto meditam nos quinze mistérios do Rosário, com a intenção de fazerem reparação ao Meu Imaculado Coração."»

Resumindo, as condições para ganhar o privilégio dos 5 primeiros Sábados são

1 - Confissão. Pode ser feita uma semana antes ou depois do primeiro Sábado, contanto que se esteja em estado de graça (sem pecados mortais) no momento da comunhão reparadora;
2 - A Comunhão reparadora na Missa do primeiro Sábado.
3 - Rezar o terço nesse dia.
4 - Meditação durante 15 minutos os 15 mistérios do Rosário nesse dia.
Em todas estas quatro práticas, deve estar presente a intenção de desagravar o Imaculado Coração de Maria.

sábado, 20 de dezembro de 2025

SS. AA. RR. Os Senhores Duques de Bragança nas solenidades de Santa Luzia, promovidas pela Ordem de Malta


SS.AA.RR. Os Duques de Bragança estiveram presentes no sábado passado, dia 13 de Dezembro, nas solenidades de Santa Luzia, promovidas pela Ordem de Malta, que se realizaram na Igreja de Santa Luzia. Estiveram presentes dezenas de cavaleiros e damas da Ordem de Malta, entre os quais o Senhor Dom Duarte, Bailio Grã-Cruz de Honra e Devoção.
No final da Eucaristia foi servido um almoço de Natal com todos os participantes.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

CONSIDERAÇÕES SOBRE A DATA DE 25 DE NOVEMBRO DE 1975: O PAÍS VISTO DO AR

INTRODUÇÃO

 “Fomos descobrir o mundo em caravelas e regressámos em traineiras. 

A fanfarronice de uns, a incapacidade de outros e a Irresponsabilidade de todos, deu este resultado: o fim sem a grandeza de uma grande aventura. 

Metade de Portugal a ser o remorso da outra metade.”     

Miguel Torga (sobre a Descolonização).

Começou a ser recorrente ouvir dizer que sem o 25 de Novembro, o 25 de Abril não seria possível (ou teria vingado). Mas quero chamar a atenção, outrossim, de que se não tivesse havido o 25 de Abril, não seria necessário ter ocorrido o 25 de Novembro…  

Quer isto dizer que os eventos ocorridos a 25 de Novembro de 75, decorreram do que aconteceu a 25 de Abril de 74. Mais propriamente a partir do dia 26…  

Vamos ter de fazer uma curta viagem no Metropolitano do tempo, para recordar o que se passou entre as duas datas.

ENQUADRAMENTO

 “O Segredo da Liberdade chama-se Coragem”

Péricles, 490 A.C. 

O Regime do “Estado Novo” caiu em menos de 24 horas, o mesmo tendo acontecido com a Monarquia, em 1910 e com a I República, em 1926, só para ficarmos por aqui.

Não vamos analisar as razões dessa queda, é outra história. 

No próprio dia 25 de Abril, as forças que promoveram o Golpe de Estado, rapidamente transformado em “Revolução”, perderam o controlo dos acontecimentos, por quatro ordens principais de razões:

 - Não haver unidade de comando;  

- Não se ter pensado minimamente o que fazer no dia seguinte; 

- Não se ter declarado o “Estado de Sítio”; 

- Os militares começaram a prender-se e a sanearem-se uns aos outros, sem culpa formada, o que levou à destruição da cadeia hierárquica, da disciplina e tudo o mais que mantém um Exército de pé. 

Deste modo o Poder caiu rapidamente na rua. Quem passou a dominar a rua foram o PCP e vários grupos de extrema-esquerda, como o MRPP e alguns que foram surgindo, como a UDP, o PCP- ML, o MES, e vários outros de todos os gostos e feitios.  

Quem, porém, mandava no PCP, único partido que permaneceu organizado e clandestino na oposição ao Estado Novo, era o PCUS, Partido Comunista da União Soviética. 

Em oposição a todos estes formaram-se em Espanha dois movimentos de cariz contrário, o ELP e o MDLP, a que tem que se juntar o Movimento Maria da Fonte. Estes movimentos foram responsáveis por cerca de 570 acções violentas, que se têm de se considerar como “reactivas” ao que se estava a passar.

Os campos extremaram-se, os eventos precipitaram-se de forma célere e caótica, de tal modo que o país chegou a ser apelidado de “manicómio em autogestão”. O que era verdade. 

Descrever tudo o que se passou levaria horas, pelo que, vou apontar apenas as datas principais e (algumas) consequências. 

No dia 15 de Maio de 74 tomou posse como Presidente da República o General Spínola; no dia anterior aprovou-se uma lista de passagem compulsiva à reserva de 42 oficiais generais, a que se deviam juntar outros 24, que já tinham sido saneados no dia 1 de Maio.

No dia 16 de Maio tomou posse o 1.º Governo Provisório, chefiado pelo Professor Palma Carlos. 

No dia 11 de Julho, menos de dois meses depois, cai o I Governo Provisório e tomou posse o 2.º Governo Provisório, chefiado pelo Coronel Vasco Gonçalves, que se veio a revelar um verdadeiro agente cripto comunista infiltrado no seio das Forças Armadas.

A 28 de Setembro, dá-se a contramanifestação à anunciada manifestação em apoio de Spínola (que não chegou a haver), onde pela primeira vez há bandos de civis armados a fazerem bloqueios, barricadas e controle de veículos e pessoas, sobretudo em Lisboa e arredores.  

Spínola demite-se e entra em cena um personagem digno de Maquiavel, que até então sempre influenciara os acontecimentos na sombra: o General – hoje Marechal do Exército Português - Costa Gomes. 

Toda a ala “spinolista”, é presa ou sai de cena e passa a conspirar. 

A 11 de Março, uma série de golpes e contragolpes, que se sucederam a uma preparação psicológica que culminou na armadilha da “Matança da Páscoa”, leva à fuga do General Spínola para Espanha e à anulação de todos os seus apoiantes e afastamento de toda a ala moderada – se assim se pode chamar – do MFA e membros das comissões coordenadoras dos Ramos. 

Entra-se num processo acelerado de comunização dos órgãos do Estado, da economia e da sociedade. Há perseguições e ocupação de propriedade por todo o lado. 

O processo de Descolonização descontrola-se totalmente, ou melhor, é conduzido exclusivamente para servir os interesses da URSS, potência inimiga de Portugal desde a sua formação, em 1922. 

As Forças Armadas entram em decomposição acelerada e transformam-se numa espécie de “bandos armados” – vergonha que nenhum tempo que passe, poderá apagar. 

A situação política, social, económica, financeira e de segurança degrada-se dia a dia. 

Em 7 de Agosto de 75, é publicado o “Documento dos Nove”, ou “Documento Melo Antunes”, que contestava o radicalismo da situação política em que se entrara, defendendo alguma moderação e equilíbrio.

A acção dos seus promotores leva a que na Assembleia do MFA realizada em Tancos, em 5 de Setembro, a linha mais radical sai enfraquecida levando à substituição de alguns Conselheiros da Revolução. 

No dia 27 de Setembro, manifestantes cercam a embaixada de Espanha, em Lisboa e acabam a invadi-la e incendiá-la – o que poderia ter levado a uma resposta militar por parte dos nossos vizinhos.

Na sequência cai o V Governo Provisório, chefiado por Vasco Gonçalves, que durara pouco mais de um mês e tinha dado origem às situações mais descabeladas. Sucedeu-lhe um novo governo, agora chefiado pelo Almirante Pinheiro de Azevedo. 

As forças mais esquerdistas, porém, não desarmavam, originando vários incidentes, por causa da Rádio Renascença, o que levou a uma ordem do Conselho da revolução para se destruir as suas antenas, na Buraca, em Lisboa, ordem que foi efectuada por uma força de 70 Páras, comandada pelo então Tenente Barroca Monteiro, no dia 7 de Novembro. 

A Igreja Católica começa a reagir e põe os fiéis na rua. As organizações ilegalizadas que se preparam fora do país, começam a fazer acções dentro do território nacional. Rebentam bombas e são atacadas sedes do PCP, sobretudo no centro e norte do País. 

Todos estes eventos levam a que na Base Escola das Tropas Páraquedistas, apoiantes esquerdistas, levassem a que muitos sargentos e praças pensassem que estariam a ser instrumentalizados para um golpe das “forças reaccionárias”, e por se constar que se queria acabar com o Regimento, o que levou a grande agitação e está na origem de 123 oficiais – dos 124 existentes – a abandonar a unidade, ficando esta a ser comandada pelo Major Pessoa, que passaram a contestar o CEMFA General graduado Morais e Silva. 

Face ao ocorrido o CEMFA decide desactivar as tropas pára-quedistas e ordenar a passagem á disponibilidade das praças e o regresso a Tancos das companhias destacadas na BA 6 e Monsanto, o que foi recusado pelos visados. No que eram apoiados por outras forças militares e grupos políticos de extrema-esquerda e pelo Copcon. 

Por alturas do 11 de Novembro, o mal estava consumado com a independência de Angola. O número de retornados (termo impróprio – que designou os portugueses fugidos da sua terra para a mesma terra, que se designava “Metrópole”) ocorria em catadupa.

No dia 12 de Novembro uma enorme manifestação cerca o Parlamento durante dois dias e, na sequência, a 20, o VI Governo suspende funções, isto, é, entrou em greve! 

No dia 21 ocorre, no RALIS, um “Juramento de Bandeira”, em que 170 recrutas juraram, de braço estendido mas de punho cerrado, fidelidade não à Bandeira Portuguesa, mas ao povo e à revolução socialista!

E assim se chegou às vésperas do 25 de Novembro em clima de pré guerra civil, restando dizer que as forças apelidadas de direita, ou reaccionárias, fascistas, etc., tinham nos meses anteriores efectuado cerca de 300 atentados em todo o País, contra alvos considerados esquerdistas. 

Este clima de guerra civil é ilustrado pela leitura de um “Manifesto dos oficiais revolucionários”, no dia 20 de Novembro – apenas cinco dias antes da data ora tratada – feita por um dos subscritores, falecido em Abril deste ano, num varandim do Palácio de Belém, a que assistiu o PR Costa Gomes, perante uma manifestação enorme, promovida pela “União dos Sindicatos da Cintura Industrial de Lisboa”.  

O manifesto terminava assim:  “Viva a revolução socialista; viva o Poder Popular Armado; Oficiais Revolucionários, com os soldados, os operários e os camponeses; unidos venceremos”. 

Aparentemente, a substituição de Otelo Saraiva de Carvalho no comando da Região Militar de Lisboa, por Vasco Lourenço, faz espoletar a acção. Mas não se sabe exactamente quem e como se deram as ordens, embora a versão mais consensual as dá como vindas da cúpula do COPCON.

Vejamos agora, sucintamente, como actuou a Força Aérea, ou o que restava dela. 

A ACÇÃO DA FORÇA AÉREA 

“Não há vento favorável para aquele que não sabe para onde vai.”

Séneca 

Ao contrário do que se possa pensar – dadas as narrativas que se costumam ouvir e ler, sobre o tema – a acção da FA não foi irrelevante, longe disso.  

E enquadrou-se numa tentativa de tomada de Poder por forças comunistas e anarquistas que estavam apoiadas por algumas unidades militares constituídas com infiltrados e que se tinham desvairado.  

O principal ponto da estratégia posta em prática pelas forças mais moderadas da contenda, foi defensiva, isto é, manter posições e deixar que quaisquer forças golpistas dessem o primeiro passo, a fim de se denunciarem, para depois fazerem contra-ataques cirúrgicos.

Enfim, alguma coisa se tinha aprendido relativamente ao que se tinha passado no 28 de Setembro e no 11 de Março…

*****  

A partir de Abril de 75 e por iniciativa do capitão Tomás Rosa e do tenente Costa Parente (ambos da FA) um grupo de militares daquele Ramo começou a reunir-se para discutir e colher informações sobre os diferentes aspectos do processo revolucionário (onde se destacam as reuniões efectuadas na Estalagem do Farol).  

Deste grupo faziam parte oficiais e sargentos das mais variadas patentes e especialidades bem como alguns oficiais do Exército e da Marinha e, como estavam colocados em diferentes unidades e serviços, cabia-lhes transmitir aos seus camaradas o que se passava nessas reuniões. Este facto acabaria, inevitavelmente, por criar um espírito de sintonia em relação aos problemas nacionais num número muito alargado de militares.  

Para estas reuniões eram convidadas personalidades civis de vários quadrantes políticos e de reconhecido mérito em diversas áreas. Assim para além de alguns que eram assíduos (Pedro Coelho, Hélder de Oliveira, Almerindo Marques, Raul Junqueiro, Daniel Amaral, Almeida Serra e Machado Rodrigues) anuíram a dar o seu contributo entidades como: Natália Correia, David Mourão Ferreira, Luís Coimbra, Vasco Vieira de Almeida, Sousa Gomes, Rui Vilar, Medeiros Ferreira, Arnaldo de Matos, Magalhães Mota, etc.

Entretanto foram destacadas duas Companhias de Páras, uma para o Monsanto e outra para a BA6. Com os acontecimentos na BETP a presença destes militares dentro da BA6 começou a levantar algumas suspeitas sobre uma hipotética ocupação da base e a inviabilização da sua actividade operacional (Fiat G-91, Helis e P-2V5). 

Estas preocupações foram apresentadas pelo comandante Tenente-coronel Vasquez ao general adjunto para as operações, o Brigadeiro graduado Corbal e ao General graduado Freire (COMRA1) bem como a sugestão da criação de um destacamento no AM1, em Ovar o que, pelo menos, iria garantir alguma operacionalidade à base. 

Tendo sido aceite essa sugestão o Brigadeiro Corbal, de acordo com o CEMFA, dá instruções no sentido de, discretamente, serem levados meios para Ovar. 

A partir de então os P-2V5, sob a capa de voos de treino, começaram a transportar armamento incluindo bombas, para Ovar. 

Mais tarde foram destacados dois Fiat e dois Helis (um deles com canhão), as respectivas tripulações, o pessoal de apoio de manutenção, de armamento e logístico. 

À medida que a situação político-militar se ia degradando, foi considerado conveniente desviar mais meios aéreos para o AM1. Para tal, aproveitavam-se os voos de treino em que descolava uma formação de aviões Fiat e um deles já não aterrava no Montijo, mas em Ovar. 

Toda esta movimentação na criação do destacamento no AM1 só acabaria por ser detectada quando houve necessidade de abastecer a Base de Ovar com elevadas quantidades de combustíveis. 

No dia 29 de Outubro de 1975 saiu nos jornais um comunicado dum dito “Comité de Vigilância Revolucionária da Força Aérea” que denunciava “uma grande operação que o sector reaccionário da Força Aérea vai desencadear” . 

Entretanto, criava-se na BA6, uma senha entre os pilotos e demais pessoal das esquadras de voo que, quando usada, significaria que se deviam dirigir de qualquer forma para o Destacamento em Ovar. 

A senha, criada pelo Major Afonso, era “Míscaros”. 

Dias antes do dia 25 de Novembro o Major Afonso e o Tenente Macário deslocaram-se à Escola de Fuzileiros onde, para além dum ambiente hostil à BA6, se aperceberam, pelas palavras do Comandante Albuquerque, que a tomada da base estava iminente.

Esta informação aliada à recusa da Companhia de Páras em regressar a Tancos e a outros sinais perturbadores como a oposição em aceitar a nomeação de Vasco Lourenço para Comandante da Região Militar de Lisboa, levou a que no dia 23 de Novembro mais três Fiat descolassem rumo a Ovar.  

No dia 23 de Novembro chega ao porto de Lisboa o navio Niassa, trazendo o General graduado Almendra e um Batalhão de Páras, comandado pelo tenente-coronel Ramos Gonçalves, que regressavam de Angola.   

Ainda antes de atracar uma delegação dos Páras amotinados tenta entrar a bordo o que foi recusado. Foi ainda entregue ao General Almendra uma carta e um despacho do CEMFA. Na carta eram-lhe dadas informações sobre o que se estava a passar no País e, no despacho, era nomeado Comandante da “Base Operacional de Tropas Pára-quedistas” sediada, provisoriamente, no AM1.  

Como a gare de desembarque estava repleta de Páras e civis tentando aliciar os Páras que estavam a bordo, o general Almendra recusa-se a desembarcar, e só o fará, mais tarde, com a gare vazia. De seguida o Batalhão bem como o armamento embarcam em viaturas pesadas mas, ao contrário do que se esperava, em vez de seguirem para Tancos, seguiram para a Ota (BA2).  

Na BA2 o já tenente-coronel Almendra apercebe-se, pelas informações facultadas pelo Comandante, Coronel Ramos Lopes, de que a unidade não era suficientemente segura para acautelar as muitas toneladas de armamento que trouxera de Angola. Assim, antes de dispensar todos os Páras por três dias, constitui uma força de escolta, comandada pelo capitão Figueiredo para, no dia 24NOV, esse armamento seguir para Ovar. Face a dificuldades de transporte a coluna só acabaria por sair da Unidade na noite de 24 para 25NOV.

O DIA 25 DE NOVEMBRO DE 75

 “ Quem o seu inimigo poupa, às mãos lhe morre”

Ditado popular

Pelas 06H00 o General Freire e o tenente-coronel Vasquez são acordados, por Páras, nos alojamentos de Monsanto e informados que o GDACI e a RA1, bem como a BA6 haviam sido tomados por eles, pelo que se deviam considerar detidos nos quartos.  

Como os telefones não foram cortados estes dois oficiais puderam contactar com o exterior.

 O General Freire, para além doutros, estabelece contactos com o CEMFA e a Presidência da República. 

O Tenente-coronel Vasquez contactou o Coronel Jaime Neves, o Tenente-coronel Eanes e o seu 2.º comandante, Tenente-coronel Ribeiro Cardoso. Entretanto chegou a Monsanto o tenente-coronel Jesus Bispo que, igualmente detido, fez, por telefone, todo o levantamento das unidades da FA. 

Estes dois oficiais acabariam por conseguir sair por volta da hora do almoço, num carro emprestado. Daqui foram a Belém onde contactaram com o CEMFA e estiveram em reunião com vários militares (Eanes, Rocha Vieira, Jaime Neves e outros). O PR por duas ou três vezes esteve presente, sem dar qualquer sinal do que se iria passar. Por fim já se “contavam espingardas” o que levava a crer que a confrontação militar era inevitável. Com esta convicção saíram de Belém em direcção ao AM1, onde chegaram já de noite. 

O 2.º Comandante da BA6 desencadeia a operação “Míscaros”. 

O Tenente-coronel Cardoso segue de Boeing 707 para o Porto indo apresentar-se com o comandante do avião, Major Quintanilha, no Quartel-General da RMN, onde fez ao Brigadeiro Pires Veloso e ao Coronel graduado Gabriel Teixeira o relato do que se estava a passar e aí se manteve, coordenando os assuntos relacionados com a FA, até à chegada do Brigadeiro Lemos Ferreira a quem passou a assessorar.  

Entretanto, os Majores Afonso e Nico, bem como o outro pessoal da BA6 seguiam para o AM1 num DC-6. 

Pelas 10H00, já se tinha algumas informações sobre o que se passava nas Bases ocupadas (BA2, BA3, Ba5 e BA6): - que os Comandantes estavam detidos, mas que a grande maioria dos oficiais, sargentos e praças, não obstante os apelos e os “comícios” dos Páras, não aderiram e sempre afirmaram reconhecer e obedecer aos seus Comandantes legítimos. 

No AM1 o Comandante, Major Alves Pereira, bem como o Major Costa Joaquim, Comandante do Destacamento da BA6, recebem, pelas 07H00, um telefonema do Brigadeiro Pires Veloso a perguntar se estava tudo bem e ia enviar um Esquadrão de Cavalaria para proteger a Unidade. 

Ao mesmo tempo os oficiais Páras, do “grupo dos 123”, que se haviam apresentado na véspera tomam medidas para assegurar a segurança da Unidade. 

Pelas 09H30 a unidade é sobrevoada a baixa altitude por um Boeing da Força Aérea e meia hora mais tarde um DC-6 pede instruções para aterrar. Após o diálogo entre o tenente Macário, que estava na torre, e o comandante do avião, as suspeitas de que este estivesse sob coacção desvaneceram-se pelo que a pista foi desobstruída e o avião aterrou, desembarcando o pessoal do Montijo. 

O Major Afonso assumiu o comando do Destacamento e pouco depois foi de helicóptero ao QG da RMN encontrar-se com o Brigadeiro Pires Veloso. 

Entretanto, outro Boeing 707 aterra no AM1, onde desembarcam muitos militares, entre eles o Tenente-coronel Almendra.  

As unidades não ocupadas, actuando como atrás foi referido, fizeram descolar todos os seus meios aéreos disponíveis para o Norte. Assim para o AB1 acabaram por descolar dois Boeing 707 e todos os DC-6, bem como “kits” de manutenção e de sobressalentes que foram preparados pelos sargentos e oficiais da Unidade sob a coordenação do Major Cortesão. Da BA1, comandada pelo Coronel Tello Pacheco, descolam por volta do meio-dia, dois T-37, seguindo a bordo os pilotos Damásio, Lindner Costa e Pessoa, levando cartas de navegação e capacetes de voo destinados ao Destacamento. 

No fim da manhã o Brigadeiro Lemos Ferreira chega ao Quartel-General da RMN de onde passa a coordenar toda a actividade da FA, tendo-se criado um verdadeiro centro de operações. Aqui foi decidido que seria importante fazer ver à população em geral e aos amotinados e seus apoiantes que a FA não estava paralisada e estava comandada e mantinha a sua operacionalidade. 

Foram decididas duas operações aéreas, uma orientada para a população e outra para as tropas amotinadas.  

A primeira consistiu em fazer uma autêntica parada aérea, sobre as cidades a norte de Rio Maior, constituída por cerca de 40 aviões, T-6 da Base de S. Jacinto, os dois T-37 e outros. Esta “parada” teve grande impacto junto das pessoas até porque foi muito publicitada pelas emissoras de rádio do Norte. 

A segunda operação consistia em sobrevoar as Bases Aéreas ocupadas com os Fiat G-91 armados com bombas e foguetes. 

Constituiu-se uma formação de sete Fiat cujos pilotos eram Afonso, comandante da formação, Costa Joaquim, Reis, Macário, Letras, Tavares e Faro. 

Após a descolagem, no princípio da tarde, fazem um voo rasante junto à Torre de Controlo e do edifício do Comando da BA5, sobrevoando a seguir as Bases do Montijo, da Ota e de Tancos. Depois do Montijo sobrevoam a margem norte do Tejo muito próximo do RALIS. Quando regressavam ao AM1 foram alertados pela Estação de Radar, “Batina” (Unidade da FA localizada em Montejunto) de que dois jactos voavam próximo e a baixa altitude. Eram dois T37 que se dirigiam para Ovar.

Entretanto, tem-se conhecimento do comunicado (pelas 13H35) do Estado-Maior-General das Forças Armadas considerando a acção dos Páras como uma sublevação. Posteriormente, o PR declara o “Estado de Sítio em Lisboa. 

Ao fim da tarde e atendendo que o Major Jaime Neves considerava essencial o efeito dissuasor do sobrevoo do Monsanto, antes da operação de desocupação por parte da tropa comando, saiu, primeiro uma parelha de T-37, comandada pelo Capitão Damásio, que sobrevoou o Regimento de Comandos e Monsanto e depois outra parelha de aviões Fiat pilotados por Costa Joaquim e Reis que sobrevoaram Lisboa. 

A actividade operacional da Força Aérea no dia 25NOV75 terminara.

CONCLUSÕES

“Quando aqueles que comandam perderam a vergonha, os que obedecem perdem o respeito.” 

Cardeal de Retz 

Ao contrário do que se poderá deduzir através dos inúmeros relatos sobre os acontecimentos, a FAP não só desempenhou um papel importante, como foi decisiva , no balanço das forças em presença. Não se remeteu a ser ocupada e, bem pelo contrário, desenvolveu um conjunto de acções que, nesse dia, retirou toda a credibilidade aos órgãos de informação que apregoavam que os Páras haviam neutralizado os meios aéreos.  

Neste aspecto, uma palavra para o AM1. Esta unidade desactivada e com parcos recursos humanos e materiais conseguiu, em poucas horas, transformar-se na verdadeira plataforma operacional da FA. O Comandante, Major Alves Pereira, e o seu pessoal souberam estar à altura da situação graças a muita dedicação e grande sentido de missão.  

Por outro lado, não será difícil admitir que essa acção teve uma influência grande, até determinante, quer no desenrolar dos acontecimentos militares quer na área política. Eis uma questão que aqui se levanta para quem, um dia, queira fazer o integral levantamento histórico da época. Então talvez se conheçam, na sua verdadeira dimensão, as razões porque unidades, como o RALIS ou os Fuzileiros, não saíram ou recuaram ou porque o PCP que, inicialmente, apoiou a acção dos Páras e o apelo às massas, mais tarde, retrocedeu. 

Nos dias seguintes a FA, em especial no dia 26, continuou com a sua actividade.

- De manhã cedo dois AL III descolaram de Ovar e foram aterrar no Regimento de Comandos, a fim de apoiar as operações, tendo efectuado várias missões (Capitão José Queiroga e Tenente Luís Araújo). 

- De manhã uma parelha de Fiat, em espera a norte de Lisboa para apoiar os Comandos no Regimento da Polícia Militar;  

- Voos rasantes sobre o Forte de Almada, Alfeite e Setúbal; 

Finalmente, pode afirmar-se que a Força Aérea era uma instituição que, se conseguiu manter minimamente comandada e disciplinada, num período extremamente difícil, em que boa parte dos Comandos estavam ou detidos ou limitados na sua acção pelos Páras, a FA conseguiu manter alguma unidade de Acção. 

De toda a acção desenvolvida, resultaram três mortos (militares), mas podia ter havido um banho de sangue e uma guerra civil, que é a mais gravosa de todas as guerras. A acção dissuasora da Força Aérea, em muito contribuiu para que tal não tivesse ocorrido.

FECHO

   “Justiça é o interesse do mais forte Convertido em Direito”.

Sócrates (c. 460-399 AC).

 Assim terminou o chamado “PREC” – Processo Revolucionário em Curso” – que passa por ser um dos períodos mais catastróficos, senão o mais catastrófico, de toda a História de Portugal.            

É isso, pelas piores razões, que dá relevância histórica aos acontecimentos ocorridos, a 25 de Novembro de 75 e, por isso, deve ser lembrado - não comemorado, pois trata-se de uma data, que não devia ter tido justificação para ocorrer.            

Mas dele não se retiraram as devidas ilações, nem se actuou, posteriormente, na direcção mais adequada. Ninguém foi julgado. Poucas coisas ficaram devidamente arrumadas e disso ainda estamos a sofrer hoje.            

Acabou por ser (mais uma) data falhada.            

Mas isso já são outros quelhos

NOTA.

É ainda recorrente ouvir-se dizer que o 25 de Novembro foi apenas um enfrentamento, ou ajuste de contas, entre facções militares diferentes. Tratou-se da tentativa de conquista do Poder por parte do PCP, de modo a transformar Portugal numa espécie de colónia soviética, neste lado do oceano (uma espécie de Cuba).             

Quem olhar para estes eventos pode ter tendência para apenas se focar nos eventos internos. Nada de mais errado. Portugal não está nem nunca esteve, encerrado numa espécie de cápsula do tempo e tudo o que se passa nos espaços geopolíticos onde se movimenta (e não só), o afectam.            

Em síntese, em 1974/5, vivia-se o último pico da Guerra - Fria. Os EUA e seus aliados ocidentais, não esperavam (e creio que ninguém esperava), que o golpe de Estado em Lisboa, a 25/4/74, degenerasse numa anarquia social, que apenas o PCP, a custo, influenciava e dominava.            

O principal objectivo da URSS era que as parcelas ultramarinas portuguesas, sobretudo Angola, caíssem na sua órbita (sendo interesse de todas as potências, que os portugueses abandonassem politicamente o Ultramar, mas isso já entra noutros domínios…), o que ficou consumado a 11 de Novembro. Deste modo os soviéticos iam ter acesso ao Índico e Atlântico central e sul, só para ficarmos por aqui.             

É curioso notar, que a declaração de independência, unilateral, de Timor, feita pela FRETILIN, a 28 de Novembro, apenas três dias depois do desfecho do 25/11, será que estavam com medo de perder o comboio? E assim sucedeu mais uma tentativa de criar outra Cuba, nas barbas da Indonésia, cujo governo saíra de uma guerra civil com o respectivo partido comunista, de onde resultara cerca de um milhão de mortos…            

Se a Metrópole fosse também tomada pelos sovietes, além de irem conseguir obter o que lhes tinha sido negado durante a guerra civil espanhola, de 36-39, iriam privar a OTAN de uma das principais “testas – de - ponte” para o reforço rápido da Europa por parte dos americanos e canadenses.             

Por isso a tentação era grande. Além disso, a tomada de poder em Lisboa seria o culminar de toda uma vida, para Álvaro Cunhal.             

Os americanos andaram algum tempo à deriva: Acabaram por pôr aqui como embaixador, um tal de Carluci, com ampla experiência na CIA. Mas quem mandava na diplomacia americana chamava-se uma velha raposa da política e da geopolítica mundial, o senhor Kissinger, que pensou ensaiar várias ideias que variavam entre resolver o “problema” de Portugal com 5.000 marines, e fazer de Portugal uma vacina contra o comunismo na Europa. Lá se resolveram em apoiar o PS que divisaram como a melhor aposta para se opor ao PCP, além disso a maioria dos dirigentes do PS pertencia ou era simpatizante da Maçonaria, o que não era despiciendo.             

Só que, entretanto, surgiu a Conferência de Helsínquia – onde esteve presente Costa Gomes – e a assinatura do seu acto final, em 2/8/75, assentou as bases da chamada “Détende”, que ira vigorar entre os dois principais Pactos a nível mundial. Ora a nomenclatura soviética estava muito interessada neste “statuos quo”, provavelmente para ganharem tempo para tentar reformar a sua caótica economia e vivência social.             

Costa Gomes (sempre ele) visita oficialmente Moscovo em 1 de Outubro de 75 – na 1ª visita alguma vez feita por um político português à URSS - e encontra-se com Brejnev, durante quatro horas. Caramba, quatro horas!             

Tudo leva a crer que lhe tenha lido a cartilha, sendo que a primeira coisa que fez quando chegou a Lisboa foi a de convocar as principais figuras do Poder de então; e não deve ter sido para lhes contar o segredo das “matrioskas”.              

A partir daqui é fácil de verificar que se Portugal caísse na orbita soviética, o equilíbrio demarcado em Helsínquia, seria rompido.              

Mas a tentação era grande e a situação estava devidamente trabalhada, podia não haver outra oportunidade. E quando o equilíbrio das forças se rompeu, sobretudo por causa da Força Aérea, o recuo foi inevitável. Não se sabe o que foi dito de Moscovo, mas o desespero foi real em Cunhal.

*****

O PCP tem um “P” a mais, o “p” de Português, pois não pode ser considerado um partido português, da nossa terra; pela simples razão de que foi sempre uma espécie de correia de transmissão do PCUS, Partido Comunista da União Soviética, potência que foi sempre inimiga do nosso País.          

Não é por acaso que o PC (P) foi sempre perseguido desde a sua fundação, em 1921; e não, não foi só perseguido pelo Estado Novo. Foi também perseguido pela 1ª República e pela Ditadura Militar. “Curiosamente” foi salvo pelo gongo, por parte das forças que prepararam as operações vitoriosas no 25/11/75, corporizada pela declaração televisiva do “ideólogo” Melo Antunes (cujo pai pertencera aos serviços secretos da Legião Portuguesa e o conhecia bem), como sendo – imagine-se – fundamentais à Democracia portuguesa…O que terão eventualmente negociado ainda não se sabe, mas um dia há-de saber-se.          

Deixaram de pôr bombas, é certo, mas passaram a infernizar o País desde então, com greves organizadas com precisão militar, e tentar sabotar (e tem-no conseguido escorados no texto enviesado da Constituição em vigor) qualquer tentativa de pôr esta desvalida Nação a funcionar minimamente.         

Convém alguma vez chamar os bois pelos nomes e não andar a dormir na forma.

João José Brandão Ferreira (Oficial Piloto Aviador (Ref.)

Fonte: O Adamastor

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

SAR D. Afonso de Bragança e S.A. D. Dinis de Bragança no Concerto de Natal da Real Orquestra do Porto

13 de Dezembro de 2025:

S.A.R. o Príncipe da Beira e o seu irmão, S.A. o Duque do Porto, foram ontem recebidos na Real Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários do Porto, pela Direcção, Comandante, Operacionais e Cadetes, onde lhes foram oferecidas medalhas comemorativas dos 150 anos da Associação e onde assinaram o Livro de Honra.
De seguida assistiram ao Concerto de Natal da Real Orquestra do Porto (projecto cultural da Real Associação do Porto do qual é padrinho o Senhor Dom Afonso) com o Orfeão dos Antigos Alunos da Universidade do Porto.
O dia terminou com um Jantar de Beneficência no Lar de Nossa Senhora do Livramento, projecto social apoiado pela Real Associação do Porto com o patrocínio do Senhor Dom Dinis. O Príncipe da Beira assinou o livro de honra, onde consta assinatura de S.M. o Rei Dom Manuel e também, no ano passado, do Senhor Dom Dinis, Duque do Porto.


quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Novena de Natal

Textos da Novena escritos por Santo Afonso Maria de Ligório, Doutor da Igreja

1º Dia – 16 de Dezembro. Jesus Menino consente em ser nosso Redentor

Muitos cristãos costumam neste tempo armar um presépio como representação do Nascimento de Jesus Cristo; mas bem poucos lembram de preparar, com actos de amor, o seu coração afim de que o divino Menino nele possa repousar. Do número destes também nós queremos ser. Por isso, afim de excitar-nos, desde o primeiro dia da Novena, a pagar com o nosso amor o amor de Jesus Cristo, consideremos o amor que nos mostrou, incumbindo-se, desde o primeiro instante da sua conceição, de satisfazer por nós à divina justiça.

I. Considera como o Pai Eterno disse a Jesus Menino, no instante da sua Encarnação, estas palavras: Dedi te in lucem gentium, ut sis salus mea (1) – Eu estabeleci-te para luz das gentes, afim de salvá-las. Meu Filho, eu te dei ao mundo para luz e vida das nações, afim de que lhes alcances a salvação, que eu estimo tanto como se fosse a minha própria. Mister é, pois, que te consumas todo inteiro, para o bem dos homens – Totus illi datus, totus in suos usus impenderis (2). Mister é que desde o nascer sofras extrema pobreza, afim de que o homem se faça rico. Mister é que sejas vendido como um escravo, para impetrares ao homem a sua liberdade; que, como um escravo, sejas açoitado e crucificado, afim de pagares à minha justiça o que o homem lhe deve; mister é que dês o teu sangue e a tua vida, afim de livrares o homem da morte eterna. Em uma palavra, sabe que não te pertences mais a ti mesmo, senão aos homens. assim, meu dilecto Filho, o homem render-se-á ao meu amor; será todo meu, vendo que eu lhe dei o meu Unigénito, sem reserva alguma, e que nada mais me resta para lhe dar. Sic Deus dilexit mundum, ut Filium suum unigenitum daret (3) Ó amor infinito, digno unicamente de um Deus infinito!

A semelhante proposta Jesus Menino não se entristece; antes, nela se compraz, aceita-a com amor e exulta: Exultavit ul gigas ad currendam viam (4) – Deu passos como gigante para correr o caminho. Desde o primeiro instante da sua Encarnação Jesus se dá todo ao homem, e abraça com alegria todas as dores e ignomínias que na terra teria de sofrer por amor dos homens.

Pondera aqui o Pai celestial, que manda o Seu Filho para ser nosso Redentor e medianeiro entre Deus e os homens, se obrigou, por assim dizer, a perdoar-nos e a amar-nos, visto que prometeu receber-nos em sua graça, contanto que o Filho satisfizesse por nós à justiça divina. Por outra parte o Verbo divino, tendo aceitado a incumbência do Pai, que no-lo deu enviando-o para nossa redenção, obrigou-se também a amar-nos, não em vista dos nossos merecimentos, mas para obedecer à vontade misericordiosa do Pai.

II. Meu amado Jesus, se é verdade, conforme reza a lei, que a doação faz adquirir o domínio, Vós sois meu, visto que vosso Pai Vos deu a mim; por mim é que nascestes, a mim é que fostes dado. Posso dizer, pois, com verdade: Iesus meus et omnia – Meu Jesus e meu tudo! Já que sois meu, é meu também tudo quanto é vosso. Assim m’o garante o vosso Apóstolo: Quomodo non etiam cum illo omnia nobis donavit? (5) – Como não nos deu também com ele todas as coisas? É meu o vosso sangue, são, meus os vossos merecimentos, são minhas as vossas graças, é meu o vosso paraíso. Se sois meu, quem jamais poderá separar-me de Vós? Assim dizia jubiloso Santo Antão Abade. Assim também quero dizer para o futuro. Somente por culpa minha posso perder-Vos e separar-me de Vós. Mas, ó meu Jesus, se antigamente Vos deixei e perdi, agora pesa-me de toda a minha alma e estou resolvido a antes perder a vida e tudo, do que a perder-Vos, ó Bem infinito e único Amor da minha alma.

Graças Vos dou, Pai Eterno, por me haverdes dado vosso Filho, me dou todo a Vós. Por amor desse mesmo Filho, aceita-me e prendei-me com laços de amor ao meu Redentor; mas prendei-me de tal maneira que eu também possa dizer: Quis me separabit a caritate Christi? (6) – Quem me separará do amor de Cristo? Que bem terrestre será ainda capaz de separar-me do meu Jesus? E Vós, meu Salvador, se sois todo meu, sabei que eu também sou todo vosso. Disponde de mim, e de tudo o que é meu, como quiserdes. Será possível que eu recuse alguma coisa a um Deus que não me recusou seu sangue e sua vida?

Maria, minha Mãe, guardai-me debaixo da vossa protecção. Não quero mais ser meu, quero ser todo do meu Senhor. Cuidai em fazer-me fiel; em vós confio.

Referências:
(1) Is 49, 6
(2) São Bernardo
(3) Jo 3, 16
(4) Sl 18, 6
(5) Rm 8, 32
(6) Rm 8, 35


2º Dia – 17 de Dezembro. Tristeza do Coração de Jesus no seio da Virgem Maria

Sumário. Tudo quanto Jesus Cristo padeceu no correr da sua vida, foi-lhe posto diante dos olhos quando ainda se achava no seio de sua Mãe; e Jesus aceitou tudo por nosso amor. Porém, naquela aceitação e na repressão da repugnância natural, ó Deus, que aflição devia experimentar o seu Coração! Se Jesus, embora inocente, desde princípio da vida começou a sofrer por nós, não é justo que nós, que somos pecadores, padeçamos alguma coisa por seu amor e em desconto dos nossos pecados?

I. Considera a grande amargura de que o coração de Jesus Menino devia sentir-se atormentado e oprimido no seio de Maria, quando no primeiro instante da encarnação o Pai Eterno lhe mostrou toda a série de desprezos, de dores e de angústias que no correr da sua vida deveria sofrer, afim de livrar os homens do seu estado de miséria – Eis o que ele falou pela boca do profeta Isaías: Mane erigit mihi aurem – Pela manhã (o Senhor) levanta-me o ouvido. Isto é: no primeiro instante da minha encarnação, o meu Pai fez-Me conhecer a Sua vontade, que eu levasse uma vida de sofrimentos para ser finalmente sacrificado na Cruz. Ego autem non contradico; corpus meum dedi percutientibus (1) – Eu não contradigo; entreguei o meu corpo aos que me feriam. Ó almas, aceitei tudo pela vossa salvação e desde então entreguei o meu corpo para receber os açoites, os pregos e a morte.

Pondera que tudo o que Jesus Cristo sofreu no correr da sua vida, e na sua Paixão, foi-lhe posto diante dos olhos quando ainda se achava no seio de sua Mãe. Jesus aceitou tudo com amor. Mas naquela aceitação, e na repressão de sua repugnância natural, ó Deus, que angústias e que aflição não devia experimentar o Coração inocente de Jesus! Desde então compreenderia bem quanto teria de sofrer, primeiro nascendo numa gruta fria, pousada de animais; em seguida, tendo de morar trinta anos desconhecido na loja de um simples oficial. Já então viu que os homens haviam de tratá-lo de ignorante, de escravo, de sedutor, de réu de morte, digno da mais infamante e dolorosa morte destinada aos celerados. Tudo isso o nosso amante Redentor aceitou-o cada instante, mas cada vez que renovava a aceitação, tornava a sofrer juntas todas as penas e todas as humilhações que depois deveria sofrer até à morte. E para quê? Para salvar-nos da morte eterna, a nós, miseráveis pecadores.

II. Ó meu amado Redentor, quanto Vos custou, desde a vossa primeira entrada neste mundo, tirar-me da miséria que tinha atraído sobre mim pelos meus pecados! Para me livrardes da escravidão do demónio, a quem de livre vontade me tinha vendido, Vós sujeitastes a ser tratado como o mais vil de todos os escravos. E eu, sabedor disso, tive ânimo de amargurar tantas vezes o vosso amabilíssimo Coração, que tanto me amou! Mas, já que Vós, que sois inocente e sois o meu Deus, aceitastes por meu amor uma vida e uma morte tão penosas, aceito, por vosso amor, ó Jesus meu, toda a pena que me vier das vossas mãos. Aceito-a e abraço-a por vir daquelas mãos que um dia foram trespassadas, afim de livrar-me do inferno tantas vezes merecido pelos meus pecados. Ó meu Redentor, o amor que mostrastes em oferecer-Vos a sofrer tanto por mim, constrange-me demais a aceitar por vosso amor toda a pena, todo o desprezo. Ó meu Senhor, pelos vossos merecimentos dai-me o vosso santo amor; este tornar-me-á suaves e amáveis todas as dores e todas as ignomínias. Amo-Vos sobre todas as coisas, amo-Vos de todo o meu coração, amo-Vos mais que a mim mesmo.

Durante toda a vossa vida me tendes dado provas demasiadamente grandes do vosso afecto para comigo. Eu, ingrato, já tenho vivido tantos anos nesta terra e quais são as provas de amor que Vos mostrei? Fazei, ó meu Deus, que ao menos nos anos de vida que me restam, Vos dê alguma prova de meu amor. Não tenho coragem de comparecer na vossa presença, quando vierdes a julgar-me, tão pobre como agora me acho, sem ter feito alguma coisa por vosso amor. Mas, que posso fazer sem a vossa graça? Nada senão pedir-Vos que me socorrais, e este mesmo pedido ainda é uma graça da vossa parte. Jesus meu, socorrei-me pelos merecimentos de vossas penas e do sangue que por mim derramastes.

Maria Santíssima, recomendai-me a vosso Filho, peço-o pelo amor que lhe tendes. Lembrai-vos que sou uma daquelas ovelhas pelas quais o vosso Filho morreu.

Referências:
(1) Is 50, 4-6


3º Dia – 18 de Dezembro. Expectação do Parto da Virgem Maria

Sumário. Foi tão grande o desejo de Maria de ver em breve nascido o seu divino Filho, que em comparação com ele os suspiros mais ardentes dos Patriarcas e dos Profetas pareciam frios. Todavia Jesus não quis antecipar o seu nascimento; quis ser semelhante aos outros e ficar oculto no seio materno em recolhimento e em preparação da sua entrada no mundo. Oh! Que bela lição para nós, se a soubermos aproveitar.

I. Muito embora a divina Mãe reconhecesse perfeitamente a grande honra que lhe advinha por trazer um Deus no seu seio, e os grandes tesouros de graças que ia merecendo, dando abrigo ao seu Senhor, todavia foram tão grandes e tão veementes os seus desejos de ver o Salvador nascido, que em comparação deles pareciam frios os ardentes desejos dos Patriarcas e dos Profetas, que durante quatro mil anos fizeram violência ao Céu dizendo: Mitte quem missurus es (1) – Envia aquele que deves enviar. Esses desejos nasciam na Santíssima Virgem de um amor duplo. Em primeiro lugar amava com terníssimo afecto o seu divino Filho, e por isso desejava dar à luz para vê-lo, abraçá-lo e provar-lhe o seu amor, prestando-lhe toda a sorte de serviços. Demais, o coração da Virgem estava possuído de amor ardente para com o próximo. Por esta razão, apesar de prever o modo inumano de que os homens haviam de acolher e tratar Jesus Cristo, anelava pelo momento de manifestar ao mundo o seu Salvador, e de enriquecer o universo com aquele Bem supremo e com as graças infinitas que ele queria comunicar às nossas almas.

Ó divina Mãe, graças vos sejam dadas por terdes desejado tanto dar-nos o vosso Jesus! Por piedade dai-mo também a mim; fazei que, assim como nasceu corporalmente das vossas puríssimas entranhas, assim renasça espiritualmente pela graça em meu coração. Fazei que a minha alma abrasada no amor divino, procure comunicá-lo também ao próximo.

II. Mais ardente do que o desejo de Maria foi o de Jesus. Achando-se ainda no seio de Maria ansiava pela hora de seu nascimento, afim de realizar a obra da Redenção do género humano e cumprir a sua missão conforme à vontade do seu Pai celestial. Parece, por assim dizer, que desde então exclamou o que depois de crescido, falando da sua Paixão, disse aos discípulos: Ah! Como sofro, enquanto não vir realizado na cruz o baptismo de sangue com que devo ser baptizado. – Mas, apesar disso, não quis nascer antes do tempo, para assemelhar-se a todos os outros mortais.

Conservou-se ali escondido, como que em recolhimento e preparação para a sua futura entrada no mundo, empregando todos aqueles momentos preciosos em oração e contemplação. – Desta sorte quis ensinar-nos, que nos preparemos bem para o recebermos, que nos recolhamos frequentes vezes em nós mesmos em silêncio e recolhimento, longe dos tumultos mundanos, antes de tratarmos com os homens, e entregarmo-nos aos trabalhos do ministério. Aproveitemo-nos de tão belas lições que o divino Salvador nos dá desde de o vermos em breve nascido, aos dos Patriarcas, de São José, da Santíssima Virgem e da Igreja Católica.

O Adonai… veni ad redimendum nos in brachio extento (2) – Ó Adonai, Deus, vinde para nos remir pelo poder de vosso braço. Ó Deus, protector fortíssimo e guia fiel de vosso povo, vinde remir o género humano com o vosso supremo poder! Vinde livrai-nos de tantas misérias nossas e subjugar com o vosso braço todo-poderoso os poderes das trevas, que demasiado reinaram sobre nós, e arruinaram as almas. “E Vós, ó Pai Eterno, que quisestes mediante a embaixada do Anjo, que o vosso Verbo tomasse carne no seio da Bem-aventurada Virgem Maria, dai que, venerando-a como verdadeira Mãe de Deus, possamos, pela sua intercessão, obter o vosso auxílio. Fazei-o pelo amor do mesmo Jesus Cristo (3).

Referências:
(1) Ex 4, 13
(2) Antif. mai. fer.
(3) Or. festi.


4º Dia – 19 de Dezembro. A Paixão de Jesus Cristo durou todo o tempo da sua vida

Sumário. Desde o instante em que foi criada a alma de Jesus Cristo e unida com seu pequenino corpo, viu diante de si todos os padecimentos que teria de sofrer para a redenção dos homens. Por isso Jesus começou desde o primeiro instante da sua vida a sofrer por nosso amor a tristeza mortal que depois padeceu no horto de Getsemani. E como temos nós correspondido a tão grande amor? Talvez com frieza e ingratidão.

I. Considera como, no mesmo instante em que foi criada a alma de Jesus e unida com o seu pequenino corpo no seio de Maria, o Pai Eterno manifestou ao seu Filho a sua vontade que morresse para a redenção do mundo. No mesmo tempo pôs-lhe diante dos olhos a vista triste de todos os sofrimentos que deveria sofrer até à morte afim de remir o género humano. Mostrou-lhe então todos os trabalhos, desprezos e pobreza que deveria suportar em toda a sua vida, tanto em Belém como no Egipto e em Nazaré. Mostrou-lhe em seguida todas as dores e ignomínias da sua Paixão: os açoites, os espinhos, os cravos e a cruz; todos os desgostos, tristezas, agonias e abandono em que havia de terminar a sua vida no Calvário.

Quando Abraão levava o seu filho à morte, não quis contristá-lo comunicando-lhe a sorte com antecedência, nem no pouco de tempo de que precisavam para chegarem ao monte. Mas o Pai Eterno quis que o seu Filho encarnado, destinado a ser vítima da divina justiça pelos nossos pecados, sofresse já então todas as penas, às quais depois deveria submeter-se na vida e na morte – Por esta razão, desde o instante em que baixou ao seio da sua Mãe, Jesus sofreu sem interrupção a tristeza que o acabrunhou no horto, e que era suficiente para tirar-lhe a vida, assim como Ele mesmo disse: Tristis est anima mea usque ad mortem (1) – A minha alma está triste até à morte. De sorte que desde então ele sentiu vivamente e sofreu o peso todo de todos os tormentos e opróbrios que o esperavam.

Toda a vida, portanto, e todos os anos do Redentor foram vida e anos de dores e de lágrimas: Defecit in dolore vita mea, et anni mei in gemitibus (2) – A minha vida tem desfalecido com a dor, e os meus anos com os gemidos. O seu divino Coração não teve um instante livre de padecimento. – Quer vigiasse, quer dormisse, sempre tinha diante dos olhos aquela triste representação que o atormentou por todos os seus suplícios. Os mártires padeceram, mas, ajudados com a graça, padeceram com alegria e ardor: Jesus, ao contrário, padeceu sempre com o Coração cheio de desgosto e tristeza, e aceitou tudo por nosso amor.

II. Ó doce, ó amável, ó amante Coração de Jesus! É, pois, verdade que desde menino estivestes repleto de amargura, e que no seio de Maria padecestes um agonia sem consolação, sem testemunha, sem ao menos ter quem Vos aliviasse e de Vós se compadecesse. Tudo isso, ó meu Jesus, sofrestes afim de satisfazer pelas penas eternas e pela agonia sem fim que deviam ser a minha sorte no inferno por causa dos meus pecados. Padecestes privado de todo alívio, afim de me salvar a mim que tive a audácia de abandonar o meu Deus e de virar-lhe as costas para satisfazer a meus miseráveis apetites. Graças Vos dou e compadeço-me de Vós, mormente por ver que, ao passo que Vós padecestes tanto por amor dos homens, estes nem sequer de Vós se compadecem. Ó amor de Deus! Ó ingratidão dos homens! – Ó homens, ó homens, vede esse Cordeirinho inocente que está em agonia por Vós, para dar à divina justiça satisfação pelas injúrias que Vós lhe tendes feito. Vede como ele está orando e intercedendo por Vós junto do Eterno Pai: contemplai-o e amai-o.

Ah, meu redentor, quão pouco são os que pensam nas vossas dores e no vosso amor! Ó Deus! Quão poucos são os que Vos amam! Mas ai de mim! Eu também tenho vivido muitos anos esquecido de Vós! Vós tanto padecestes para ser de mim amado, e não Vos amei. Perdoai-me, ó Jesus meu, perdoai-me; quero emendar-me e amar-Vos. Desgraçado de mim, Senhor, se ainda resistisse à vossa graça, e com a minha resistência me condenasse! As grandes misericórdias de que tendes usado comigo, e especialmente a vossa doce voz que agora me chama ao vosso amor, seriam o meu maior castigo no inferno. Meu amado Jesus, tende piedade de mim, não permitais que para o futuro eu viva ingrato ao vosso amor. Dai-me luz e dai-me força para vencer tudo afim de cumprir a vossa santa vontade. Atendei-me, Vo-lo peço, pelos merecimentos da vossa Paixão. É nesta que confio, bem como na vossa intercessão, ó Maria.

Minha querida Mãe, socorrei-me; vós me impetrastes todas as graças que tenho recebido de Deus; eu vo-lo agradeço; mas se não continuardes a socorrer-me, eu continuarei a ser infiel, assim como o tenho sido nos anos passados.

Referências:
(1) Mt 26, 38
(2) Sl 30, 11


5º Dia – 20 de Dezembro. Jesus Menino oferece-se à justiça divina como nossa vitima

Sumário. Todos os sacrifícios oferecidos a Deus no correr de quarenta séculos, não foram bastante eficazes para remir o homem. Por isso, o Verbo divino, apenas feito homem, ofereceu-se a si mesmo para vítima da divina justiça, e por nosso amor aceitou a morte com todos os padecimentos que a deviam acompanhar. Fê-lo o divino Menino logo na sua primeira entrada no mundo. E nós, já chegados ao uso da razão, que temos feito por seu amor? Talvez que desde então tenhamos começado a ofendê-lo.

I. O Verbo divino, no primeiro instante em que se fez homem e criança, no seio de Maria, ofereceu-se a si mesmo, sem reserva, aos sofrimentos e à morte, para o resgate do mundo. Sabia que todos os sacrifícios de ovelhas e de bois, oferecidos antigamente a Deus, não puderam resgatar as culpas dos homens. Era preciso que uma pessoa divina pagasse em lugar dos homens o preço do resgate. Por isso disse Ele, conforme nos ensina o Apóstolo: Hostiam et oblationem noluisti (1) – Não quiseste hóstia nem oblação. Meu Pai, todas as vítimas que Vos foram oferecidas até hoje, não foram suficientes, nem puderam sê-lo, para satisfazer à vossa justiça. Vós me preparastes este corpo passível, afim de que eu possa aplacar-Vos e salvar os homens com o preço do meu sangue. Ecce venio – eis que venho. Eis-me aqui disposto a aceitar tudo e a submeter-me inteiramente à vossa vontade. – Relutava a parte inferior da alma que naturalmente tinha horror de uma vida e morte tão cheias de padecimentos e de opróbrios. Mas venceu a parte racional da alma, que, inteiramente submissa à vontade do Pai, aceitou tudo, de sorte que desde aquele instante Jesus começou a padecer todas as angústias e dores que devia sofrer nos anos da sua vida terrestre.

Foi assim que se houve Jesus desde a sua primeira entrada no mundo. Mas, ó Deus, como é que nos temos havido nós para com Jesus, desde que, chegados ao uso da razão, começamos a conhecer pela luz da fé os sagrados mistérios de nossa Redenção? Quais são os pensamentos, os projectos, os bens que foram objecto do nosso amor? Prazeres, passeios, desejos de grandeza, vinganças, sensualidades; eis os bens que nos prenderam o afecto do coração. Mas se ainda temos fé, é mister que mudemos afinal a nossa vida e os nossos afectos. Amemos um Deus que tanto tem padecido por nós.

II. Ó meu Senhor, quereis que Vos diga como me tenho havido para convosco durante a minha vida? Desde o despontar da razão comecei a desprezar a vossa graça e o vosso amor. Mas Vós o sabeis melhor do que eu mesmo; não obstante suportastes-me, porque ainda me quereis bem. Eu andava fugindo de Vós, e Vós viestes à minha procura chamando-me. Foi esse mesmo amor que Vos fez baixar do céu, afim de buscar as ovelhas perdidas, que Vos fez suportar-me e não me abandonar. Meu Jesus, agora Vós me buscais e eu Vos busco. Sinto que a vossa graça me auxilia; auxilia-me com o arrependimento dos meus pecados, que detesto mais que qualquer outro mal; auxilia-me inspirando-me um grande desejo de Vos amar e dar-Vos gosto. Sim, meu Senhor, quero amar-Vos e agradar-Vos quanto puder.

Mas o que me faz temer, é a minha fraqueza e insuficiência, consequência dos meus pecados. Maior todavia é a confiança que a vossa graça me inspira fazendo-me colocar a minha esperança nos vossos merecimentos, e dizer com toda a segurança: Omnia possum in eo qui me confortat (2) – Tudo posso naquele que me conforta. Se sou fraco, Vós me dareis força contra os inimigos; se sou enfermo, espero que o vosso sangue será o meu remédio; se sou pecador, espero que me fareis santo. Reconheço que outrora tenho cooperado para a minha perdição, porque nos perigos deixei de recorrer a Vós. Para o futuro, meu Jesus e minha Esperança, quero sempre recorrer a Vós e de Vós espero todo o auxílio, todo o bem. Amo-Vos sobre todas as cosias e não quero amar senão a Vós. Ajudai-me, Vo-lo suplico, pelo merecimento de tantos sofrimentos que desde menino suportastes por mim. Pai Eterno, pelo amor de Jesus Cristo, permiti que Vos ame. Se Vos tenho desprezado, abrandem-Vos as lágrimas de Jesus Menino que Vos roga por mim. Respice in faciem Christi tui (3) – Põe os olhos no rosto de teu Christo. Eu não mereço as graças, mas merece-as esse Filho inocente que Vos oferece uma vida de dores, afim de que useis de misericórdia comigo.

E vós, ó Mãe de misericórdia, Maria, não deixeis de interceder por mim. Sabeis quanto confio em vós, e bem sei que não desamparais quem recorre a vós.

Referências:
(1) Hb 10, 5
(2) Fl 4, 13
(3) Sl 83, 10


6º Dia – 21 de Dezembro. Dor do Jesus Menino pela previsão da ingratidão dos homens

Sumário. A ingratidão desagrada aos homens. Qual deve, pois, ter sido a tristeza de Jesus Menino, ao prever que os seus benefícios seriam pagos pelo mundo com injúrias, traições e tormentos! Mas ai de nós, que por ventura também até hoje temos respondido aos benefícios do Senhor de um modo tão desumano. Ou pelo menos temo-lo amado tão pouco, como se nenhum bem nos tivesse feito, nem sofrido coisa alguma por nós. Quereremos ser tão ingratos sempre?

I. Pelos dias do Santo Natal, São Francisco de Assis andava pelos caminhos e bosques chorando e suspirando com gemidos inconsoláveis. Perguntando pela razão de tanto sofrer respondeu:

Como não chorar, vendo que o amor não é amado? Vejo um Deus como que perdido de amor ao homem, e o homem tão ingrato para com esse Deus!

Ora, se a ingratidão dos homens afligia tanto o coração de São Francisco, quanto mais não terá afligido o Coração de Jesus Cristo?

Apenas concebido no seio de Maria, Jesus viu a ingratidão despiedada que receberia da parte dos homens. Baixara do céu para acender o fogo do divino amor; somente este desejo fizera-o descer sobre a terra para ali sofrer um abismo de dores e ignomínias: Ignem veni mittere in terram (1) – Eu vim trazer o fogo à terra. E em seguida viu um abismo de pecados que os homens haviam de cometer, depois de presenciarem tantos rasgos de seu amor. Foi isso, no pensar de São Bernardino de Sena, o que o fez sofrer dores infinitas: Et ideo infinite dolebat. Mesmo para nós é insuportável vermos uma pessoa tratada por outra com ingratidão, e muita vezes isto aflige muito mais a alma, do que qualquer dor aflige o corpo. Qual não deve, pois, ter sido a dor que nossa ingratidão causou a Jesus, nosso Deus, quando viu que os seus benefícios e o seu amor lhe seriam retribuídos por nós com desgostos e injúrias? Et posuerunt adversum me mala pro bonis, et odium pro dilectione (2) – Retribuíram-me o bem com o mal, e o meu amor com ódio.

Parece que também hoje em dia Jesus Cristo se queixa: Tamquam extraneus factus sum fratribus meis (3) – Fiquei como que um estranho aos meus irmãos. Porquanto vê que de muitos não é amado, nem conhecido, como se nenhum bem lhes tivesse feito, e nada por amor deles tivesse sofrido. Ó Deus, que caso fazem também presentemente tantos cristãos do amor de Jesus Cristo?

II. Apareceu certo dia o Redentor ao Bem-aventurado Henrique Suso, sob a forma de um peregrino que andava de porta em porta, a pedir pousada, mas todos o repeliam com injúrias e ultrajes. Ai! quantos homens se parecem com aqueles de que fala Jó, dizendo: Diziam a Deus: Retira-te de nós… sendo ele quem cumulou de bens as suas casas (4). Noutro tempo nós também nos temos unido àqueles ingratos; mas quereremos continuar do mesmo modo? Não, porque não merece tal o Menino amável que baixou do céu para padecer e morrer por nós, e assim fazer-se amar de nós.

Meu amado Jesus, será verdade que Vós baixastes do céu para Vos fazerdes amar de mim, que por meu amor viestes abraçar uma vida de trabalhos e a morte de cruz, afim de que eu Vos faça um bom acolhimento no meu coração, eu que tive a audácia de Vos repelir tantas vezes de mim, dizendo: Recede a me, Domine – Afasta-te de mim, Senhor; não Vos quero? Ó meu Deus, se não fosseis a bondade infinita e não tivésseis dado a vida para me perdoardes, não me animaria a pedir-Vos perdão. Mas ouço que vós mesmo me ofereceis a paz: Convertimini ad me, ait Dominus, et convertar ad vos (5) – Convertei-vos a mim, diz o Senhor, e eu me converterei a vós. Vós mesmo, ó Jesus, a quem tenho ofendido, quereis ser o meu advogado: Ipse est propitiatio pro peccatis nostris (6) – Ele é a propiciação pelos nossos pecados. Não Vos quero fazer nova injúria desconfiando da vossa misericórdia. Pesa-me de toda a minha alma de Vos ter desprezado, ó Bem supremo; pelo sangue que derramastes por mim, recebei-me em vossa graça.

Pater, non sum dignus vocari filius tuus (7) – Meu Pai e meu Redentor, não sou mais digno de ser vosso Filho, depois de ter renunciado tantas vezes ao vosso amor; mas fazei-me digno com os vossos merecimentos. Graças Vos dou, meu Pai, graças Vos dou e Vos amo. Ah, só a lembrança da paciência com que me tendes suportado tantos anos, e das graças que me tendes dispensado, depois de tantas injúrias que vos causei, deveria fazer-me viver sempre abrasado em vosso amor. Vinde, pois, meu Jesus, não quero mais repulsar-Vos, vinde morar em meu pobre coração. Amo-Vos e quero amar-Vos sempre. Abrasai-me sempre mais, lembrando-me o amor que me mostrastes.

Minha Rainha e Mãe, Maria, ajudai-me, rogai a Jesus por mim; fazei com que, no tempo de vida que ainda me resta, me mostre grato a Deus, que me amou tanto, ainda depois de eu o ter ofendido tão gravemente.

Referências:
(1) Lc 12, 49
(2) Sl 108, 5
(3) Sl 68, 9
(4) Jó 22, 17
(5) Zc 1, 3
(6) Jo 2, 2
(7) Lc 15, 21


7º Dia – 22 de Dezembro. Viagem de São José e Maria Santíssima a Belém

Sumário. Tendo Deus decretado que o seu Filho nascesse do modo mais pobre e mais penoso, numa estribaria, dispôs que César lançasse um decreto de recenseamento universal. Sabedor disso, perturbou-se São José na dúvida se levaria, ou não, Maria consigo. A Virgem, porém, animou-o, e com ele se pôs a caminho. Tomemos estes santos personagens como companheiros em nossa viagem para a eternidade.

I. Havia Deus decretado que o seu Filho nascesse, não na casa de José, senão numa gruta que servia de estrebaria, do modo mais pobre e mais penoso, por que uma criança pode nascer. Por isso dispôs que Cesar lançasse um édito por meio do qual cada um deveria alistar-se na cidade própria donde trazia a sua origem. Quando José teve conhecimento do mando, perturbou-se na dúvida se deveria deixar a Virgem Maria em casa ou levá-la consigo, visto que estava próxima a dar à luz.

“Minha esposa e senhora”, disse-lhe, “por um lado não queria deixar-vos só; por outro, se vos levo, aflige-me o triste pensamento que muito tereis de sofrer numa viagem tão longa, por um tempo tão rigoroso”.

Maria, porém, anima-o dizendo:

“José meu, não temais: eu vos acompanharei, e o Senhor nos ajudará”.

Por inspiração divina e pelo conhecimento da profecia de Miqueias, a Virgem sabia que o divino Infante devia nascer em Belém. Toma, pois, as faixas e os pobres paninhos já preparados e parte com José: Ascendit autem et Ioseph… ut profiteretur cum Maria – Subiu também José para se alistar com Maria.

Consideremos aqui as devotas e santas conversões que durante a viagem faziam entre si aqueles santos esposos acerca da misericórdia, da bondade e do amor do Verbo divino, que em breve ia nascer e fazer a sua entrada no mundo, pela salvação dos homens. Consideremos os actos de louvor, de bênção, de agradecimento, de humildade e de amor que aqueles excelsos viajantes praticavam no caminho. De certo sofreu muito a santa Virgem, próxima a dar à luz, tendo de fazer uma viagem tão longa; mas suportou tudo em paz e com amor. Ofereceu a Deus todas as suas penas, unindo-as com as penas de Jesus, que trazia no seio.

Ah! Na viagem de nossa vida unamo-nos a Maria e José e acompanhemo-nos deles, e agora façamos com eles companhia ao Rei do céu, que vai nascer numa gruta. Roguemos aos santos viajantes que pelos merecimentos das penas que então padeceram, nos acompanhem na viagem que estamos fazendo para a eternidade.

II. Meu caro Redentor, sei que nesta viagem Vos acompanham legiões de anjos do céu; mas quem Vos acompanha na terra? Ninguém senão José e Maria que Vos traz consigo. Permiti, ó meu Jesus, que eu também Vos acompanhe. Tenho sido um miserável ingrato, mas agora reconheço a injúria que tenho feito. Vós baixastes do Céu para fazer-Vos meu companheiro na Terra, e eu ingrato tantas vezes afastei-me de Vós pelos meus pecados. Ó meu Senhor, quando penso que tão repetidas me apartei de Vós para satisfazer os meus detestáveis apetites, renunciando assim à vossa amizade, quisera morrer de dor. Mas Vós viestes para me perdoar; perdoai-me sem demora, visto que me pesa de toda a minha alma de Vos ter abandonado e virado as costas tantas vezes. Proponho e com a vossa graça espero nunca mais Vos deixar e nunca mais me aparta de Vós, meu único amor.

A minha alma enamorou-se de Vós, ó meu amável Deus-Menino. Amo-Vos, meu doce Salvador, e já que viestes à terra para me salvar e dispensar-me as vossas graças, peço-Vos só esta graça: não permitais que em tempo algum me separe de Vós. Uni-me estreitamente convosco, prendendo-me com os doces laços de vosso santo amor. Meu Redentor e meu Deus, quem terá animo para Vos deixar, e viver sem Vós, privado da vossa santa graça.

Maria Santíssima, eis-me aqui para acompanhar-vos em vossa viagem; e vós, ó minha Mãe, não deixeis de me proteger na minha viagem para a eternidade. Assisti-me sempre, mormente quando chegar ao fim da minha vida, próximo do momento do qual dependerá, se estarei sempre convosco amando Jesus no paraíso, ou se estarei para sempre longe de vós odiando Jesus no inferno. Ó minha Rainha, salvai-me pela vossa intercessão. Seja a minha salvação amar-vos a vós e a Jesus Cristo para sempre, no tempo e na eternidade. Vós sois a minha esperança; de vós espero tudo.


8º Dia – 23 de Dezembro. José e Maria peregrinos em Belém sem abrigo

Sumário. A cidade de Belém, que recusa dar abrigo a Jesus Menino, foi figura daqueles muitos corações ingratos que dão acolhida a tantas miseráveis criaturas e não a Deus. Reflictamos, porém, no que a Virgem Maria disse a uma alma devota: Foi uma disposição divina que a mim e a meu Filho nos faltasse abrigo entre os homens, afim de que as almas, cativadas pelo amor de Jesus, se oferecessem a si próprias para o acolherem.

I. Quando um rei faz a primeira entrada numa cidade do seu reino, que manifestações de veneração se lhe preparam! Que pompas! Quantos arcos de triunfo! Prepara-te, pois, ó Belém venturosa, para receberes dignamente o Rei do céu; fica sabedoria que entre todas as cidades és tu a ditosa que ele escolheu para nela nascer em terra, afim de reinar depois no coração dos homens. Ex te enim egredietur qui sit dominator in Israel (1) – De ti sairá aquele que há de reinar em Israel.

Eis que já entram em Belém esses dois excelsos viajantes, José e Maria, que traz no seio o Salvador do mundo. Entram na cidade, dirigem-se para a casa do ministro imperial, afim de pagarem o tributo e serem alistados nos registros dos súbitos do Cesar. Mas quem os reconhece? Quem lhes vai ao encontro? Quem lhes oferece agasalho? In propria venit, et sui cum non recepernunt – Ele veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Eles são pobres, e como pobres são desprezados; são tratados ainda pior do que os outros pobres, e até repelidos.

Chegada a Belém, Maria entendeu que se aproximava a hora do seu parto. Avisou São José e este diligenciou de não ter de levar sua esposa à hospedaria, lugar pouco conveniente para uma tenra donzela. Ninguém quis atender-lhe o pedido, e é bem verossímil que da parte de alguns fosse taxado de insensato por trazer consigo a esposa próxima ao parto em tempo nocturno e de tanta afluência de povo. – Para não ficar durante a noite no meio da rua, viu-se afinal obrigado a levar a Virgem Maria à hospedaria pública, onde já muitos pobres se tinham alojado para a noite. Mas como? Também dali foram repelidos e foi-lhes respondido que não havia lugar para eles: Non era eis locus in diversorio (2) – Não havia lugar para eles na estalagem. Havia ali lugar para todos, também para os mais abjectos, mas não para Jesus Cristo. – Contemplemos quais devem ter sido os sentimentos de São José e de Maria Santíssima, vendo-se desprezados e repelidos de cada um.

II. A estalagem de Belém foi figura daqueles corações ingratos que dão acolhimento a tantas criaturas miseráveis e não a Deus. Quantos há que amam os parentes, os amigos, até os animais, mas não amam Jesus Cristo e nenhum caso fazem da sua graça e do seu amor. Maria Santíssima disse a uma alma devota: Foi uma disposição divina que a mim e ao meu Filho nos faltasse agasalho da parte dos homens, afim de que as almas cativadas pelo amor de Jesus se oferecessem a si próprias para o acolherem e o convidassem amorosamente a tomar morada nos seus corações.

Sim, meu Jesus, vinde nascer pela vossa graça no meu pobre coração! Eu não me animaria a pedir-Vos esta graça, se não soubesse que Vós mesmo me inspirais o pensamento de Vo-la rogar. Ó Senhor, eu sou aquele que com os meus pecados Vos tenho tantas vezes expulsado cruelmente da minha alma. Mas já que baixastes à Terra para perdoar aos pecadores arrependidos, perdoai-me, porque me pesa sobre todas as coisas de Vos ter desprezado, meu Salvador e meu Deus, que sois tão bom e me tendes tão grande amor. Nestes dias dispensais grandes graças a tantas almas; consolai também a minha. A graça que quero, é a de Vos amar para o futuro, de todo o meu coração; abrasai-me todo no vosso amor. Amo-Vos, meu Deus, feito Menino por meu amor. Ah, não permitais que eu Vos deixe de amar.

Ó Maria, minha Mãe, vós podeis tudo com as vossas súplicas; eis ai o que unicamente vos peço: rogai a Jesus por mim, e obtende-me a graça de amá-lo com todas as minhas forças, afim de desagravá-lo assim de tantas ofensas, que em outro tempo lhe tenho feito. Ó minha Mãe amantíssima, rogo-vos, exactamente pela vossa maternidade divina, tomai o meu coração e aconchegai-o ao vosso; aconchegai-o também ao de vosso divino Filho, e fazei que seja todo consumido nas belas chamas do amor a vós e a Jesus.

Referências:
(1) Mq 5, 2
(2) Lc 2, 7


9º Dia – 24 de Dezembro. A Gruta de Belém

Sumário. Que terão dito os anjos vendo a divina Mãe entrar na gruta de Belém, afim de dar à luz o Filho de Deus? Os filhos dos príncipes nascem em quartos adornados de ouro; e ao Rei do céu prepara-se para nascer uma estrebaria fria, para cobri-lo uns pobres paninhos, para cama um pouco de palha e para colocar uma vil manjedoura? Oh, ingratidão dos homens! Oh, confusão para nosso orgulho que sempre ambiciona comodidades e honras!

I. Continuemos hoje a meditar na história do nascimento de Jesus Cristo. Vendo-se repelidos de toda parte, São José e a Bem-aventurada Virgem saem da cidade afim de achar fora dela ao menos algum abrigo. Os pobres viandantes (viajantes) caminham na escuridão, errando e espreitando; afinal deparasse-lhes ao pé dos muros de Belém uma rocha escavada em forma de gruta, que servia de estábulo para os animais. Disse então Maria: José, meu Esposo, não precisamos ir mais longe; entremos nesta gruta e deixemo-nos ficar aqui. – Mas como? responde São José; não vês, minha Esposa, que esta gruta é tão fria e húmida que a água escorre em toda parte? Não vês que não é uma morada para homens, senão uma estribaria para animais? Como queres passar aqui a noite e dar à luz? – Contudo é verdade, tornou Maria, que este estábulo é o paço real onde quer nascer na terra o Filho eterno de Deus.

Ah! Que terão dito os anjos vendo a divina Mãe entrar naquela gruta para dar à luz! Os filhos dos príncipes nascem em quartos adornados de ouro; preparam-se-lhes berços incrustados com pedras preciosas, e mantilhas preciosas; e fazem-lhe cortejo os primeiros senhores do reino. E ao Rei do Céu prepara-se uma gruta fria e sem lume para nela nascer, uns pobres paninhos para cobri-lo, um pouco de palha para leito, e uma vil manjedoura para o colocar? Ubi aula, ubi thronus? Meu Deus, assim pergunta São Bernardo, onde está a corte, onde está o trono real deste Rei do céu, porquanto não vejo senão dois animais para lhe fazerem companhia, e uma manjedoura de irracionais, na qual deve ser posto?

Ó Gruta ditosa, que tiveste a ventura de ver o Verbo divino nascido dentro de ti! Ó presépio ditoso, que tiveste a honra de receber em ti o Senhor do céu! Ó palha ditosa, que serviste de leito àquele cujo trono é sustentado pelos serafins! Sim, fostes ditosos, ó Gruta, ó presépio, ó palha; mais ditosos, porém, são os corações que tenra e fervorosamente amam esse amabilíssimo Senhor, e que abrasados em amor o recebem na santa Comunhão. Oh, com que alegria e satisfação vai Jesus Cristo pousar no coração que o ama!

II. Um Deus que quer começar a sua infância num estábulo, confunde o nosso orgulho, e, segundo a reflexão de São Bernardo, já prega com exemplo o que mais tarde havia de pregar à viva voz: Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração. Eis porque ao contemplarmos o nascimento de Jesus Cristo e ao ouvirmos falar em gruta, em manjedoura, em palha, em leite, em vagidos, estas palavras deveriam ser para nós como que chamas de amor, e como que setas que nos ferissem os corações e nos fizessem amantes da santa humildade.

É verdade, ó meu Jesus, Vós, tão desprezado por nosso amor, com o vosso exemplo fizestes os desprezos excessivamente caros e amáveis aos que Vos amam. Mas como então é possível que eu, em vez de os abraçar, como Vós os abraçastes, ao receber algum desprezo da parte dos homens, me tenha mostrado tão orgulhoso, e tenha ainda chegado a ofender-Vos, ó Majestade infinita? Pecador e orgulhoso!

Ah, Senhor, já o compreendo: eu não soube aceitar com paciência as humilhações e as afrontas, porque não Vos soube amar. Se Vos tivera amor, ter-me-iam sido doces e amáveis. Mas visto que prometeis o perdão a quem se arrepende, de toda a minha alma arrependo-me de toda a minha vida desordenada, tão diferente da vossa. Quero emendar-me, e por isso Vos prometo que para o futuro aceitarei com paz todos os desprezos que me vierem, e que os sofrerei por vosso amor, ó Jesus meu, que por meu amor tendes sido tão desprezado. Compreendo que as humilhações são as minas preciosas por meio das quais quereis enriquecer as almas com tesouros eternos. Já sou digno de outras humilhações e de outros desprezos, porque desprezei a vossa graça. Mereço ser pisado aos pés do demónio. Mas os vossos merecimentos são a minha esperança. Quero mudar de vida; não quero mais causar-Vos desgosto; para o futuro não quero buscar senão a vossa vontade, e por isso Vos dou todo o meu coração. Possui-o, e possui-o para sempre, afim de que eu seja sempre vosso e todo vosso.

“E Vós, ó Pai Eterno, que cada ano nos alegais com a esperança de nossa Redenção, concedei-me que com confiança possa esperar a vinda do vosso Filho unigénito como Juiz, a quem agora recebo alegremente como Salvador (1)”. Fazei-o pelo amor do mesmo Jesus Cristo e de Maria Santíssima.

Referências:
(1) Or. fer. curr.

Santo Afonso Maria de Ligório in Meditações para todos os Dias e Festas do Ano (Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa)