21 de fevereiro de 2018

Cardeal Zen “Sim, absolutamente, o Vaticano está vendendo a Igreja Católica na China”

“O governo comunista está produzindo novas e mais estritas regulações que restringem a liberdade religiosa. A partir de 1º de fevereiro de 2018, a reunião na missa da comunidade clandestina (fiel a Roma) não será mais tolerada. Há quem diga que todos os esforços para conseguir um acordo entre a China e a Santa Sé visam evitar um cisma eclesial. Isso é ridículo!
O Card. Joseph Zen, arcebispo emérito de Hong Kong, divulgou em carta de 29 de janeiro (2018) publicada por AsiaNews esclarecimentos sobre os dramáticos e inacreditáveis desdobramentos da conjunção da política vaticana com a repressão religiosa comunista na China.
Ele fez notar em primeiro lugar que os representantes vaticanos querem obrigar a bispos legítimos a entregar suas dioceses a bispos ilegítimos, um deles excomungado, todos eles bonecos do Partido Comunista.
O Cardeal escreveu: “reconheço que eu sou pessimista sobre a situação atual da Igreja na China, mas meu pessimismo se baseia na minha longa e direta experiência da Igreja na China.
“Tenho uma experiência direta da escravidão e humilhação a que estão submetidos nossos irmãos bispos. De acordo com a informação recente, não há razão para mudar essa visão pessimista.
O governo comunista está produzindo novas e mais estritas regulações que restringem a liberdade religiosa. A partir de 1º de fevereiro de 2018, a reunião na missa da comunidade clandestina (fiel a Roma) não será mais tolerada.
“Há quem diz que todos os esforços para conseguir um acordo entre a China e a Santa Sé visam evitar um cisma eclesial. Isso é ridículo!
O cisma já está ali com a Igreja independente [N.T.: de Roma, mas escrava do Partido Comunista].
“Os Papas evitaram usar palavra ‘cisma’ porque sabiam que muitos não estavam na comunidade oficial por livre e espontânea vontade, mas sob forte pressão.
“A proposta de ‘unificação’ forçará a qualquer um [para ingressar] nessa comunidade.
O Vaticano daria a bênção a uma nova Igreja cismática reforçada, lavando a má consciência daqueles voluntariamente renegados e outros que estão prontos para se unir a eles”.
Num outro ponto, o Cardeal Zen responde ao sofisma de que é bom encontrar um terreno comum para saldar a separação entre o Vaticano e a China.
E responde: “pode haver algo ‘comum’ com um regime totalitário? Ou você se rende ou aceita a perseguição. No ultimo caso você permanece fiel a você mesmo.
Pode-se imaginar um acordo entre São José e o Rei Herodes?
Abordando a pergunta crítica “acredita que o Vaticano está vendendo a Igreja Católica na China?”, responde:
“Sim, absolutamente, estão indo na direção que ficou obvia em tudo o que fizeram nos últimos meses e anos”.
Por fim, à pergunta: “És o maior obstáculo para o processo de acordo entre o Vaticano e a China?” respondeu: “Si esse acordo é ruim, estou mais do que feliz sendo um obstáculo”.
A sala de imprensa da Santa Sé reagiu em ação fora do comum, tentando desmentir as acusações do Cardeal Zen, o principal clérigo da China, segundo as quais o Vaticano estava “vendendo” os católicos chineses para agradar a Pequim, escreveu o Instituto Humanitas Unisinos reproduzindo matéria do britânico “The Tablet” de 30-01-2018.
Segundo o Cardeal chinês, o Papa Francisco lhe disse em audiência particular que não queria a “criação de outro caso Mindszenty”. 
O cardeal húngaro Jozef Mindszenty buscou asilo na representação dos EUA em Budapeste, em franca oposição ao governo comunista.
Por pressão do governo comunista, a Santa Sé impôs que ele saísse do país em 1971, e lhe tirou o título de primaz da Hungria.
Durante o papado de Paulo VI, o Vaticano adotou uma política de Ostpolitik, fazendo acordos com governos satélites da Rússia soviética convocando os católicos a coexistir com o regime inimigo da Igreja.
Nada na declaração vaticana nega que se tenha chegado a um acordo entre representantes do Vaticano na China e o governo de Pequim sobre a espúria imposição a bispos católicos para entregarem suas dioceses a bispos ilegítimos pro-comunistas.
O comunismo chinês quer nomear os bispos da China e o Vaticano estaria disposto a aceitar a imposição consagrando de fato a falsa igreja controlada pelo Estado, apelidada Associação Patriótica Católica Chinesa.
O cardeal Zen tem se pronunciado em nome dos católicos clandestinos – leais a Roma – que sofrem perseguição religiosa.
Fonte: IPCO

O “PAPA DITADOR” E OS CARDEAIS BURKE, BRANDMÜLLER E MÜLLER



O Papa ignorou uma petição de 870 mil assinaturas e não respondeu a uma carta assinada por mais de 50 estudiosos de nível internacional
Nas últimas semanas houve três entrevistas a alguns eminentes Cardeais. A primeira foi concedida em 28 de Outubro de 2017 pelo Cardeal Walter Brandmüller a Christian Geyer e Hannes Hintermeier, do Frankfurter Allgemeine Zeitung. A segunda foi dada em 14 de Novembro pelo Cardeal Raymond Leo Burke a Edward Pentin, do National Catholic Register. E a terceira, do Cardeal Gerhard Müller ao jornalista Massimo Franco, apareceu em 26 de Novembro nas colunas do Corriere della Sera.
O Cardeal Brandmüller manifestou a sua preocupação pela possibilidade de se abrir uma divisão na Igreja. «Levanta questões o simples facto de permanecer sem resposta uma petição com 870.000 assinaturas dirigidas ao Papa para lhe solicitar esclarecimentos e o facto de continuar sem responder a 50 estudiosos de nível internacional. É francamente difícil de entender.Apresentar “dubia” ao Papa, pedindo-lhe que esclareça questões duvidosas, foi sempre uma forma absolutamente normal de dissipar as ambiguidades. Simplificando, a questão é a seguinte: o que ontem era pecado pode hoje ser bom? Pergunta-se, por outro lado, se existem realmente actos – como sempre foi na doutrina constante da Igreja – que são sempre moralmente reprováveis em todas as circunstâncias? Como, por exemplo, o assassinato do inocente ou o adultério? Esta é a questão. Caso, de facto, se devesse responder à primeira pergunta com um ‘sim’ e com um ‘não’ à segunda, isso seria realmente uma heresia e, portanto, um cisma, uma divisão na Igreja.»

Há um perigo de cisma na Igreja e a responsabilidade disso cabe ao “círculo mágico” do Papa, que impede um debate aberto sobre os problemas doutrinários levantados pela “Amoris Laetitia”
O cardeal Burke, que declarou estar sempre em comunicação com o cardeal Brandmüller, formulou um novo alerta «sobre a gravidade de uma situação que nunca cessa de piorar» e reafirmou a necessidade de que todas as passagens heterodoxas da Amoris Laetitia sejam esclarecidas. Assistimos de facto a um processo que constitui «uma subversão das partes essenciais da Tradição. Para além do debate sobre a moral, está cada vez mais erodido na Igreja o sentido da prática sacramental, especialmente no que diz respeito à Penitência e à Eucaristia.»
O Cardeal dirige-se novamente ao Papa Francisco e a toda a Igreja, frisando «quão urgente é que o Papa, exercendo o ministério que recebeu do Senhor, possa confirmar os seus irmãos na fé, exprimindo claramente o ensinamento sobre a moral cristã e o significado da prática sacramental da Igreja».
O cardeal Müller, por sua vez, afirma existir o perigo de um cisma dentro da Igreja e diz que a responsabilidade da divisão não é dos Cardeais das dubia sobre a Amoris laetitia nem dos signatários da Correctio filialis ao Papa Francisco, mas do “círculo mágico” do Papa, que impede um debate aberto e equilibrado sobre os problemas doutrinários levantados por essas críticas:

Agora os católicos (e os não-católicos) são classificados conforme forem considerados “amigos” ou “inimigos” do Papa
«Atenção: se a Cúria Romana der a entender que se cometeu uma injustiça, poderia desencadear-se, quase por inércia, uma dinâmica cismática da qual seria depois difícil sair. Creio que seria importante escutar os Cardeais que expressaram as suas dúvidas sobre a Amoris Laetitia ou mesmo os 62 signatários de uma carta com críticas até excessivas ao Papa, em vez de qualificá-los de fariseus ou revoltosos. A única maneira de sair desta situação é um diálogo claro e franco. Pelo contrário, tenho a impressão de que no “círculo mágico” do Papa há quem se preocupe, acima de tudo, em espiar os seus presumíveis adversários, impedindo assim uma discussão aberta e equilibrada. O dano mais grave que eles causam à Igreja é o de classificar todos os católicos de acordo com as categorias “amigo” ou “inimigo” do Papa. Causa perplexidade que um conhecido jornalista ateu [Eugenio Scalfari, fundador do La Repubblicase gabe de ser amigo do Papa. E, inversamente, que um bispo e um cardeal católico como eu seja difamado e qualificado como adversário do Santo Padre. Não acho que essas pessoas possam dar-me lições de teologia sobre o primado do Romano Pontífice».

Tal como nos regimes comunistas, a denúncia anónima conquistou no Vaticano um poder decisivo nas destituições
Segundo o seu entrevistador, o cardeal Müller ainda não se recuperou do trauma causado pela exoneração de três dos seus colaboradores, exactamente antes de lhe ter sido negada a recondução ao cargo de Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, no passado mês de Junho. «Eram bons e competentes sacerdotes que trabalhavam para a Igreja com dedicação exemplar», segundo a sua opinião. «Não se pode destituir uma pessoa apenas por capricho, sem provas nem processo, só porque alguém denunciou anonimamente as suas vagas críticas ao Papa…».
«Qual é o regime em que as pessoas são tratadas desta maneira?», perguntou Damian Thompson em The Spectator no passado dia 17 de Julho.
E responde que a destituição dos colaboradores do Cardeal Müller «traz à mente alguns dos seus predecessores mais autoritários ou até mesmo algum ditador latino-americano que abraça as multidões e mostra um estilo de vida humilde enquanto os seus lugar-tenentes vivem no temor da sua cólera». Este aspecto do pontificado do Papa Francisco é agora tema de um livro que acaba de ser publicado com o significativo título O Papa ditador [“Il Papa Dittatore”]. O autor é um historiador formado em Oxford que se oculta sob o pseudónimo de “Marcantonio Colonna”. O estilo é sóbrio e documentado, e as acusações dirigidas ao papa Bergoglio são fundamentadas e abundantes.
Muitos dos elementos em que se baseia para formular as suas acusações já eram do conhecimento público. O que é novo é a acurada reconstrução de uma série de “quadros históricos”: [1] Os bastidores da eleição do Papa Bergoglio, dirigida pela “máfia de Saint Gallen”; [2] As andanças de Bergoglio na Argentina antes da sua eleição; [3] Os obstáculos encontrados pelo Cardeal Pell ao tentar fazer uma reforma financeira da Cúria; [4] As mudanças na Pontifícia Academia para a Vida; [5] A perseguição aos Franciscanos da Imaculada e a decapitação da Soberana Ordem Militar de Malta.

O medo é a nota dominante da Cúria sob a lei de Francisco
A comunicação social, sempre pronta a fustigar desdenhosamente qualquer caso de má governação e de corrupção, silencia-se diante desses escândalos. O principal mérito deste estudo histórico consiste em tê-los trazido à luz. «O medo é a nota dominante da Cúria sob a lei de Francisco, juntamente com a desconfiança mútua. Não se trata apenas de informadores que procuram vantagens relatando uma conversa privada, como constataram os três subordinados do Cardeal Müller. Numa organização onde as pessoas moralmente corruptas continuam a exercer os seus cargos e são até promovidas pelo Papa Francisco, há uma subtil chantagem na ordem do dia. Um sacerdote da Cúria ironizou assim: Costuma dizer-se que o importante não é o que sabes mas quem conheces. Assim é o Vaticano: O importante é o que sabes daqueles que conheces».
Em suma, o livro de Marcantonio Colonna confirma, aquilo que admite o Cardeal Müller na sua entrevista: a existência de um clima de espionagem e denúncia que o antigo Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé atribui a um “círculo mágico” que condiciona as decisões do Papa, enquanto o historiador de Oxford o imputa ao próprio modus gubernandi do Papa Francisco, que ele compara aos métodos autocráticos do ditador argentino Juan Domingo Perón, do qual o jovem Bergoglio era um partidário.
Poder-se-ia responder nihil sub sole novum (Eclesiastes 1:10). A Igreja teve muitos governos deficientes. Mas se este pontificado conduz realmente a uma divisão entre os fiéis, como sublinharam os três Cardeais, os motivos não podem limitar-se ao modo de governar de um Papa, mas devem ser procurados em algo absolutamente inédito na História da Igreja: o afastamento do Romano Pontífice da doutrina do Evangelho, que ele tem, por mandato divino, o dever de transmitir e guardar. Este é o cerne do problema religioso do nosso tempo.
Roberto de Mattei
Publicado por: Arautos d'El-Rei

20 de fevereiro de 2018

Somos nacionalistas ? Claro que não, somos da Portugalidade

Foto de Nova Portugalidade.


O nacionalismo é coisa nova em Portugal; nova e tardia, inventada em finais do século XVIII e exportada pela Europa oitocentista por uma verdadeira "internacional nacionalista" - o "cosmopolitismo nacionalista" a que aludia Anne-Marie Thiesse na sua incontornável Criação das Identidades Nacionais - que fez estragos, dividiu o que era uno e juntou o que nunca estivera unido.

É hoje sabido que o nacionalismo nasceu da invenção de um passado mítico, socorrendo-se as mais das vezes de manipulação de fontes literárias, invenção de textos e, até, invenção de línguas anteriormente quase inexistentes. Tudo começou com Macpherson, que literalmente inventou o celtismo. Depois, foi a vez de Herder, de Goethe e dos irmãos Grimm criarem uma identidade alemã, jamais comprovada, a partir de colecções de lendas, delas retirando um "volkstum" e um "volksgeist" (um espírito popular) que indiciava uma "essência nacional". Ora, se perguntassem a Mozart se era alemão ou austríaco, este responderia que não era nem uma coisa nem outra. Considerar-se-ia, apenas, súbdito do arcebispo-príncipe de Salzburgo e, por extensão, súbdito dos Habsburgos.

Grande parte dos "nacionalismos" nasceram de colagens, recortes e importações literárias. O "nacionalismo" sérvio foi inventado por Prosper Mérimée na célebre La Guzla, o "nacionalismo helénico" saiu das antologias de Claude Fauriel e o mito de uma Roménia latina foi urdido pelos irmãos Shott a partir de contos valáquios. Depois, coube aos nórdicos desenterrarem sagas a partir da oralidade (a oralidade não resiste a duas ou três gerações), pretendendo recriar o volkstum viking, preenchendo um hiato de mil anos obscuros.

Este movimento que sacudiu a Europa ao longo de Oitocentos - o nacionalismo - serviu para a engenharia da fabricação dos Estados contemporâneos e teve como instrumento de difusão a imprensa (o periodismo), a fixação de "línguas nacionais" através de dicionários e gramáticas, bem como a rede de ensino primário. Pode-se dizer, com propriedade, que o nacionalismo é (e foi), nesta acepção, uma invenção; em suma, uma ideologia.

Lembrando o sábio Popper, o nacionalismo constitui a "secularização da superstição religiosa" em sociedades onde o sagrado e o religioso pedem novas ligações e devoções.

Contudo, se há identidade que prescindia desse esforço de estandardização forçada, esse era Portugal. Portugal não precisava de importar o que quer que fosse pois erigira, ao longo de séculos, uma identidade compacta e homogénea - uma consciência nacional - com provas dadas desde a revolução de 1383-85: uma só língua, uma só religião, contornos geográficos estabilizados no século XIII e, depois, um sentido de comunidade que se exportou e incorporou outros "portugueses" pela simples exigência da fidelidade ao Rei de Portugal e ao catolicismo.
O "nacionalismo postiço" europeu de Oitocentos fez estragos que mataram a identidade portuguesa. O liberalismo, ao inventar o cidadão, privou de "cidadania identitária" todos aqueles que se consideravam "portugueses" desde o século XVI. Depois, o estúpido Acto Colonial, separou os habitantes do ainda vasto império remanescente em "colonizadores" e "colonizados". O patriotismo português fora um alicerce da capacidade de resistência e unidade. O "nacionalismo português", aqui chegado no comboio de Paris, empobreceu, reduziu e matou.

Dizia-me há dias um amigo que o "nacionalismo" é o bilhete de identidade de uma sã consciência do grupo. Respondi-lhe que não: esse nacionalismo não é nosso, é uma ideologia, uma simplificação, uma impostura. O verdadeiro esteio da unidade dos "portugueses" está no patriotismo, o mesmo que venceu no passado e uniu, em vez de separar. Os cronistas holandeses que escreveram sobre os Guararapes indignaram-se pelo facto dos seus exércitos - brancos, louros e calvinistas - haverem sido destroçados por um exército de escravos negros, mestiços esfarrapados e brancos papistas. Da Europa nem sempre chega boa mercadoria. O "internacionalismo nacionalista" terá sido, sem dúvida, da pior contrafacção.

MCB


SAR, D.Duarte de Bragança e Infante D.Dinis na Missa de Sufrágio dos 110 anos do Regicídio



No dia 1 de Fevereiro na Igreja de São Vicente de Fora, a Real Associação de Lisboa cumpriu uma vez mais o seu dever de memória, lembrando os mártires de 1 de Fevereiro, com a presença de S.A.R. o Duque de Bragança, de S.A. o Infante Dom Dinis, Duque do Porto e de cavaleiros das Ordens de Malta, Santo Sepulcro e Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa. No final o Infante Dom Dinis e João Távora, presidente da Real Associação de Lisboa depuseram uma coroa de flores nos túmulos do Rei D. Carlos e do Príncipe Real D. Luís Filipe. A celebração eucarística foi presidida pelo Revd. Padre Gonçalo Portocarrero de Almada.










Fonte: Blogue Real

19 de fevereiro de 2018

Preferia Ser Súbdito


É preferível ser Súbdito numa Monarquia, do que Vassalo numa República!
Hoje nas Monarquias já não existem propriamente súbditos, mas cidadãos de pleno direito, iguais perante a Lei e que são muito estimados pelo Seu Rei/ Rainha e que vê essa estima retribuída e gratificada pelo Povo, que entende ter no Monarca o bem mais precioso da Nação. O Rei assume-se como um funcionário da Nação e do Povo acautelando por cumprir qualquer dos imperativos intrínsecos à Função Real, encarando-a como serviço e assim reinando rectamente.
A ideia de que numa Monarquia o Povo se teria de desfazer em obséquios perante o Rei e diante de uma nobreza a pairar sobre os demais, é completamente errada e mesmo absurda, e só pode resultar de 107 anos em que os escribas do regime republicano, com camada sobre camada de ‘entulho’, reescreveram a História, formatando o Povo orientando-o para próximo do pensamento único, tornando a república um oratório (quase) indiscutível.
Até porque, e desfaça-se a atoarda, já nos inícios do século XX, El-Rei Dom Manuel II de Portugal, apesar de por simpatia ser condescendente com o tradicional acto protocolar do gesto do Beija-mão dispensado aos Reis – reminiscência da adoratio dedicada aos Césares -, Sua Majestade Fidelíssima, não o apreciava, tendo mesmo sido o primeiro Rei de Portugal e no Mundo a abdicar do Cerimonial do Beija-mão ao não dar a mão a beijar na cerimónia de apresentação de cumprimentos após a Sua Aclamação.
Primorosamente educado, nunca fazia sentir aos quantos d’Ele se acercavam que era o Rei’, escreveu Costa Cabral, in “Memórias II”. Efetivamente, El-Rei Dom Manuel II de Portugal foi o primeiro Monarca no mundo a introduzir uma forma de relacionamento moderno com os súbditos, sendo mesmo, Sua Majestade Fidelíssima, o primeiro Chefe de Estado mundial a estabelecer uma relação de proximidade pública com o Povo, pois esse relacionamento ia ao encontro do que pretendia: informar as vantagens da Monarquia e unir a Coroa com os Portugueses.
Também, Seu Augusto irmão foi exemplo da mais genuína simpatia e bem-querer ao Povo português. In ‘Carta do Tenente-Coronel Joaquim Mouzinho de Albuquerque ao Príncipe Real D. Luís Filipe’ pode-se bem constatar que reinar, longe de ser um privilégio, é um ofício de serviço em prol da Comunidade: ‘Ninguém como o Rei tem de se esquecer de si para pensar em todos, ninguém como ele tem que levar a abnegação ao maior extremo, ninguém como ele precisa de ser soldado na acepção mais lata e sublime desta palavra. O Rei é uma sentinela permanente que não tem folga. Enquanto vive, tem o Rei de conservar os olhos sempre bem abertos, vendo tudo, olhando por todos. Nele reside o amparo dos desprotegidos, o descanso dos velhos, a esperança dos novos. O Rei tem de se esquecer de si para pensar em todos.’ E, continua, Mouzinho de Albuquerque in ‘Carta…’ a SAR O Senhor Dom Luís Filipe de Bragança, (21/03/1887 – 01/02/1908), 5.º Príncipe Real de Portugal (jurado herdeiro do Trono, em Maio de 1901), 4.º Príncipe da Beira e 22.º Duque de Bragança, um Rei a Ser, que viu a Sua jovem vida, ainda nos primeiros capítulos, ceifada aos 20 anos, – juntamente com a D’El-Rei Dom Carlos I de Portugal, Seu Pai – a 1 de Fevereiro de 1908 pelo terror republicano dos facínoras da organização Carbonária, no assassinato que ficou tristemente conhecido na nossa História como ‘O Regicídio’, e que, com estas mortes, num período tão abundante de esperanças, acontece o primeiro sinal das mais trágicas desilusões: ‘Enquanto vive tem o Rei de conservar os olhos sempre bem abertos, vendo tudo, olhando por todos. Nele reside o amparo dos desprotegidos, o descanso dos velhos, a esperança dos novos; dele fiam os ricos a sua fazenda, os pobres o seu pão e todos nós a honra do país em que nascemos, que é a honra de todos nós!’ Ainda de tenra idade, com apenas cinco anos, Dom Luís Filipe deu prova dessa bondade para com os outros, quando uma humilde mulher se aproximou do seu Príncipe Real e se ajoelhou a seus pés para em seguida lhe agarrar e beijar as mãos uma após a outra, ao que D. Luís Filipe retorquiu: ‘ Levante-se, eu não sou Deus!’
Era um grande futuro que estava a ser preparado para Portugal, com um Príncipe assim, que havia de levar novamente o País à cumeada da Glória e aprontar para este tão grande Povo mais grandes feitos. ‘Viana do Castelo acarinhou-o. As mais formosas raparigas o saudaram, com seus trajos garridos, seus sorrisos e encantos; abriram-se para ele todas as graças da lindíssima cidade e no seu hotel, já familiarizado, conversou, riu, fez perguntas ao Coronel Lacueva, comandante militar, e a quantos se lhe aproximaram. O alto Minho chamava-o; Ponte da Barca, Monção, Caminha, disputavam-no e como nessas encantadas regiões tivesse sido mais familiar, pois os políticos andavam desviados de seus passos, ao contrário do sucedido no Porto’Rocha Martins in D. Carlos, pp. 409 – 412.
Em termos culturais, foi durante os reinados da Dinastia de Avis que se verificou a maior aculturação dos Príncipes e reflexamente a de Portugal. O gosto pelos autores clássicos, pelas letras, resultado da esmerada educação dos Príncipes da Dinastia de Avis, propiciou a difusão dos textos clássicos. Era a introdução da mentalidade Humanista do Renascimento em Portugal. É com o início da Dinastia de Avis que, de facto, a sociedade portuguesa sofre a sua maior metamorfose. Para começar a língua portuguesa toma a sua característica e inconfundível fisionomia que é enriquecida com os neologismos que advém do contacto com as obras clássicas.
A Dinastia de Bragança foi berço de Reis preclaros e profundamente criativos: Dom João IV, de acordo com Joaquim Veríssimo Serrão, ‘para além do monarca e do restaurador, impõe-se considerar nele o artista e o letrado, o amador de música que, no seu tempo, esteve à altura dos maiores de Portugal.’ De facto, deve-se a El-Rei Dom João IV, a autoria do Hino Natalício, Adeste Fidelis. Do ponto de vista cultural o reinado de Dom João V é profícuo, com Dom José I dá-se a refundação da Universidade em 1772 e a instituição de uma Biblioteca Pública. Já Dom Luís I traduzia Shakespeare, pintava, compunha música e executava com mestria o Violoncelo e organizou uma Galeria de Pintura aberta ao público na Ajuda, El-Rei Dom Carlos I foi um dos melhores aguarelistas da Sua época e o melhor pintor a pastel português da Sua era, pois a pintura com esta técnica não admite correcções, e as telas do monarca até se assemelham a óleos que poderiam ombrear com os mais renomados pintores mundiais do Seu tempo. Porque será que hoje, em República, a Cultura tem para os responsáveis políticos um papel tão irrelevante?!
Quanto à Rainha de Portugal foi sempre a Primeira Senhora do País e como tal a mais alta representante da Mulher Portuguesa; ora na república tentam converter esse papel de símbolo máximo da identidade da mulher portuguesa num sucedâneo que é o de primeira-dama, só que a mulher de um presidente da república não pode assumir esse atributo uma vez é apenas uma cidadã comum que não têm qualquer incarnação histórica da Nação e das suas mulheres, nem pode representá-los uma vez que não recebeu qualquer mandato, carecendo mesmo, como é o caso de Portugal, de consagração constitucional – e muito menos uma ex-consorte presidencial. Assim sendo, a titularia de primeira-dama é uma tentativa das repúblicas em suprir a falta de uma Rainha que, realmente, representa as naturais do País e as famílias.
O conceito de Povo, do qual todos somos parte, não tem qualquer depreciação nem se distingue com concepções aristocráticas de outras classes, distingue-se sim da multidão, da turbamulta, pois ‘o Povo não é uma multidão unida de qualquer maneira mas antes como uma multidão unida pelo consenso do direito e pela utilidade comum.’, como o descreveu Cícero. Isto é, o Povo é usualmente concebido como um conjunto de indivíduos, que num dado momento histórico constitui a Nação. POVO E NÃO POPULAÇÃO! Pois não se trata apenas de um conjunto de pessoas que residem habitualmente num determinado território.
A Nação é uma comunidade estável constituída, historicamente, com base num território, numa língua, e com aspirações materiais e espirituais comuns. A Nação é pois o agregado de indivíduos constituído por vontade própria e não reunido de uma forma acidental. Por isso o Povo não pode ser apenas a margem de manobra dos políticos republicanos.
O que falta, então, para que Nação e Povo recuperem a sua expressão ampla?!
Falta o Rei de Sua Nação e do Seu Povo, independente e livre de estranhas tutelas!
Recorde-se a divisa d’ El-Rei D. João II, Pola Ley e pola Grey – Pela Lei e pelo Povo’, figurada depois num Pelicano, alimentando as crias com o seu próprio sangue, isto porque o pelicano é um animal muito devoto à sua prole, que perfura o seu próprio peito e alimenta as suas crias com o seu sangue. Assim numa Monarquia o Povo é ele uma pessoa jurídica, e no Reino de Portugal, utilizou-se, como equipolente, a noção de Grei, do grego grege – grupo -, pelo que, assim, o Povo aparece na divisa de D. João II ‘Pola ley e pola grey‘, não como uma classe ou a camada mais baixa da população, mas como a totalidade da Comunidade. É por isso que, D. Francisco de Almeida definiu o Povo ou a Grei como a ’congregação de nossos parentes, amigos compatriotas, a que chamamos república’, pelo que a isso não é alheio a visão voluntarista de Reinar, de dever perante o Povo que os Reis de Portugal sempre tiveram: Reinar em prol do Bem Comum; até porque a Monarquia Portuguesa era uma verdadeira Monarquia Popular, em que a Coroa, o Poder Real, a Graça de Reinar era transmitida por intermédio da Comunidade, sendo a Aclamação Popular o passo jurídico que verdadeiramente fazia o novo Rei, um Rei Eleito pelo Povo e para o Povo, ou seja, para reinar para o bem do Povo, para o bem da Comunidade, da Grei, da Res Publica. O Rei traduzia a vontade nacional, sentindo com o Seu Povo, fazendo seus os problemas deste e transmitindo as suas ânsias aos políticos. O Rei tinha de pôr em primeiríssimo lugar os interesses do próprio Povo e da Nação tendo por dever fundamental reinar ’em prol do comum e aproveitança da terra’.
O Rei, o Supremo Magistrado da Nação que, acima de tramas partidárias, independente de um calendário político, dispõe da equidistância e da legitimidade para actuar como moderador entre as várias facções políticas ou demais grupos da sociedade civil evitando más políticas, más leis, e mesmo conflitos e efervescência social. Como estatuía o Artigo 71.º da Carta Constitucional de 1826: ‘O Poder Moderador é a chave de toda a organização política e compete privativamente ao Rei, como Chefe supremo da Nação, para que incessantemente vele sobre a manutenção da independência, equilíbrio e harmonia dos mais Poderes Políticos.’ Este Poder competia privatisticamente ao Rei, mas não era um poder pessoal, mas para arbitrar, digamos que uma fonte de imparcialidade, uma possibilidade de travão e contrapeso contra políticos eleitos e suas disposições que poderiam procurar obter poderes maiores aos atribuídos pela Constituição, e assim, em último caso, até mesmo uma cautela contra a ditadura.
Mas mesmo que ainda existissem súbditos no sentido lato da palavra, mais valia ser súbdito numa Monarquia do que um lacaio encarneirado, contribuintes dispostos em fila indiana, uma multidão amorfa, uma massa ignara, que os políticos que sobraçam o poder pretendem que, os cidadãos de uma república hodierna, sejam.
A generalidade das repúblicas nem são democracias – sim pasme-se: república não é sinónimo de democracia -, até porque das 135 repúblicas que estão contabilizadas apenas o somítico número de 53 são verdadeiras democracias. Antes, a generalidade das repúblicas, mesmo as que não se confundem com ditaduras, estão presas a um sistema que não é mais do que o poder pessoal organizado. Nesse Estado das Coisas republicano, ao esquadro e compasso maçónicos, junta-se a aritmética economista liberal e o poder pessoal de corporações, famílias, facções que se assenhoraram das repúblicas transformando a Comunidade numa soma bruta de indivíduos e o governo da liberdade ficou sendo a tirania das minorias, que têm como propósito garantir aos seus detentores e sequazes os melhores cargos, os melhores negócios à sombra da qual se fabricam, sem decoro, fortunas, essa sim uma verdadeira Corte, mas de oligarcas. Hoje é mínimo o número de votantes quando comparado com os eleitores escritos o que revela esse distanciamento da maioria face à minoria que a domina não por génio ou superioridade intelectual, mas apenas porque se apropriou dos meios de poder, coacção e opressão. A história sempre confirmou isso: os mais pobres e os sem poder não têm como se afirmar!
Mas se na Idade Média os mais pobres não reclamavam do destino para o qual haviam nascido – que parecia ser inevitável – e comiam raízes e bolotas, vivendo dos bodos comunitários e da caridade da Igreja, hoje a maioria não pode ser tomada por ignara, nem em carne para holocausto ou epidemias.
Não pode ser coincidência que os Países mais democráticos sejam Monarquias, que os Países Mais desenvolvidos são Monarquias, que os Povos Mais Felizes vivem em Monarquias, que os Países Menos Corruptos são Monarquias, que os Países com Maior Liberdade de Imprensa são Monarquias, que os Países com os Salários Mais Elevados são Monarquia, que…, que…, que….
O Povo não pode ser apenas a margem de manobra dos políticos republicanos. Recordemos a violenta crítica do método demoliberal que J. Pedro de Oliveira Martins deu à estampa no século XIX, em As Eleições‘As eleições liberais individualistas são o sofisma da representação; não por vício dos homens, embora os homens sejam viciosos, mas por essência do errado princípio que os dirige: só quando, outra vez, se compreender (e agora conscientemente) que a Sociedade é um corpo vivo, e não um agregado de indivíduos, só então tornará a haver representação verdadeira e ordem na democracia.’
É, POIS, UM REI QUE QUEREMOS!, pois só um Rei traduz a vontade nacional, sentindo com o Seu Povo e a Sua Nação. O Povo não é uma amálgama de indivíduos, mas um conjunto de entes que num dado momento histórico constitui a Nação, uma comunidade estável constituída por vontade própria, historicamente, com base num território, numa LÍNGUA, e com aspirações materiais e espirituais comuns. Ora se a Nação estiver constituída em Reino, e uma vez que Monarquia é uma instituição que contém um peso emblemático, todos se sentirão parte de um Todo.
Ser Rei é ser Pai duma Nação, que dá olhos à Lei cega, que obriga a pôr certas as contas que andam tortas, que ouça tanto júbilos como queixumes; ou seja, uma Mão Justa auxiliada pelas forças vivas da Comunidade.
Um Rei nunca olhará convenientemente para o lado, nunca se enclausurará, mas desempenhará a Sua função de Monarca com brio, sem cair no desvario, no excesso, sem se deixar embriagar de poder e deslumbrar pelos aplausos! E defenderá a Sua cultura, a Sua Língua e a Nação, que encarna historicamente, como mais ninguém o poderá fazer.
Por isto tudo: MAIS VALE SER SÚBDITO NUMA MONARQUIA DO QUE LACAIO NUMA REPÚBLICA!

Miguel Villas-Boas

18 de fevereiro de 2018

«Delírio em las Vedras!»

A abstinência sexual exigida pela lei de Cristo, não pode ser vista como uma mera proibição, mas como afirmação de um amor maior.

Embora não seja aficionado ao Carnaval, não posso deixar de reconhecer que é um tempo que me é muito proveitoso em termos profissionais. Com efeito, o meu negócio é o pecado – o pecado dos outros, entenda-se! – e não há dúvida de que o Carnaval é época alta para qualquer sacerdote que se preze. Este ano, as expectativas eram ainda melhores, porque o lema do Carnaval de Torres Vedras era muito promissor: ‘Delírio em las Vedras!’
Mas, para minha surpresa, ao folhear o Expresso de 10 de Fevereiro último, o delírio voltou a aparecer, desta feita nas palavras de Frei Bento Domingues: “É um acto da teologia das palavras cruzadas. Um delírio”. Referia-se o ilustre frade dominicano à nota pastoral do Cardeal-Patriarca de Lisboa sobre a aplicação da Exortação Apostólica Amoris Laetitia, e não, como algum incauto leitor poderia supor, ao Carnaval de Torres.
Se ainda o não disse, digo-o agora: sempre tive uma especial simpatia e gratidão pela Ordem dos Pregadores, por razões familiares e por ter estudado vários anos nos dois colégios dominicanos de Lisboa: o de São José, no Restelo, que ainda existe; e o Clenardo, na Rua do Salitre, que já fechou há uns anos. Aliás, foi no São José, onde fiz a infantil, que aprendi, com quatro ou cinco anos, a dura lição da ‘abstinência da carne’: uma vez mordi uma freira que me contrariou, mas foi tal o castigo que – remédio santo! – nunca mais mordi nenhuma religiosa, nem leiga sequer. Sou também um leitor atento das crónicas de Frei Bento Domingues, que nunca me deixam indiferente.
Mas, voltemos ao delírio. Não ao de Torres Vedras, mas ao do Frei Bento, que acha que não faz sentido pedir a um homem e a uma mulher que vivem juntos, mesmo não sendo verdadeiramente casados, que se abstenham dos actos próprios da vida conjugal. A abstinência seria não só antinatural como até impossível e, como é sabido, ninguém está obrigado ao que não é possível. A argumentação até faria algum sentido se todos os cristãos não estivessem obrigados à abstinência: não só os bispos, padres e religiosos, que até fizeram um voto nesse sentido; mas também os casados, excepto em relação ao seu legítimo cônjuge; e os solteiros, em relação a todas as pessoas, sem excepção.
Se fosse moralmente aceitável a relação extraconjugal, ter-se-ia de concluir que poderia ser lícita a violação da fidelidade matrimonial. Quantas vezes? A samaritana, que até não era má rapariga, já ia no sexto companheiro, o que a não impediu de se converter. Mas não consta que Jesus lhe tenha permitido manter aquela generosa colecção de ‘maridos’, nem o parceiro que então tinha e que, pelos vistos, nem isso era (Jo 4, 7-18). Se assim não fosse, o adultério deixaria de ser pecado, como há muito já não é crime.
Cristo, ao absolver a adúltera apanhada em flagrante, exigiu-lhe que não voltasse a pecar (Jo 8, 11). E, se para os judeus piedosos o adultério só se realizava quando havia união carnal entre duas pessoas não casadas legitimamente entre si, Jesus, que não veio abolir a lei mas dar-lhe pleno cumprimento (Mt 5, 17-18), acrescentou que também se pode cometer este pecado mortal por desejo, e até por mero pensamento, se advertido e consentido: “Ouvistes que foi dito: Não cometerás adultério. Eu, porém, digo-vos que todo aquele que olhar para uma mulher, desejando-a, já cometeu adultério com ela no seu coração” (Mt 5, 27-28).
Por outro lado, para além da sexual, outras muitas abstinências há, tanto ou mais importantes, a que estão igualmente obrigados os cristãos por razão da sua fé: a abstinência da mentira, do ódio, da soberba, da avareza, do roubo, da corrupção, do luxo, da inveja, da idolatria, da vingança, da exploração, da gula, da murmuração, etc. Mas, em todos estes casos, bem como no da abstinência sexual, quando exigida pela lei de Cristo, a renúncia não é uma mera proibição repressora, ou inibição castradora, mas afirmação de um amor maior. De forma análoga, uma pessoa apaixonada não entende a fidelidade prometida como um sacrifício, mas como uma consequência gozosa, mesmo que custosa, desse mesmo amor.
Frei Bento insiste em que, sobre a vida íntima conjugal, só o casal é que sabe: “É o casal que deve decidir a sua vida íntima. Nenhum padre, nenhum bispo, ninguém se pode intrometer. É ridículo!”. E um frade?! Se calhar pode …
Com certeza que, não só nesta matéria mas também em todas as outras, há que respeitar a liberdade das consciências e são sempre os próprios que devem decidir e arcar com a responsabilidade correspondente. Mas a Igreja, nomeadamente através do seu magistério e dos seus pastores, tem o dever de aconselhar os casais, para que estes possam, no expressivo dizer de São Paulo, “participar da liberdade gloriosa dos filhos de Deus” (Rm 8, 21). Também o doente deve ter toda a liberdade de seguir, ou não, as indicações médicas, mas certamente que as receberá com agradecimento, porque sabe que são para o seu bem. Ninguém é obrigado a ser católico, mas a todos se pede, sob pena de hipocrisia, coerência com a fé que livremente se quis professar.
Quando Jesus instituiu a lei da indissolubilidade matrimonial, alguns dos seus discípulos, cientes da dificuldade na sua observância, comentaram: “Se é essa a situação do homem perante a mulher, não é conveniente casar-se!” (Mt 19, 10). A verdade é que, alguns anos depois, já havia casais cristãos espalhados por todo o império romano, graças também às perseguições de que resultaram tantos mártires. Numa sociedade divorcista e promíscua como era a romana de então (Rm 1, 24-32), onde se consentia a mancebia e até a pedofilia estava bem vista em termos sociais, a fidelidade dos esposos cristãos chamava poderosamente a atenção, embora muitos a vissem como uma perigosa utopia, promovida por uma seita condenada a desaparecer. Foi o contrário que aconteceu: os usos e costumes dos infiéis foram desaparecendo, ante a beleza e a sublimidade moral dos ideais cristãos. Os pagãos diziam, com admiração, daqueles primeiros discípulos de Cristo: “Vede como se amam!” (Tertuliano, Apologeticum, 39, 7).
Também agora, a mensagem cristã é exigente e apenas compreensível e praticável para quem se atreve a viver um amor autêntico. Para os outros, na verdade, só lhes resta mesmo o delírio do Carnaval.
Fonte: Observador

São Teotónio - Fundador da Nova Ordem dos Cónegos Regulares

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Nascido em Ganfei, Portugal, no ano de 1082, São Teotónio recebeu uma óptima formação. Primeiramente, junto a um convento beneditino de Coimbra; depois, ao ser assumido por seu tio Crescêncio, Bispo de Coimbra, ele foi correspondendo à graça de Deus em sua vida. Com a morte do tio, dirigiu-se para Viseu, onde terminou seus estudos básicos e recebeu o dom da ordenação sacerdotal.

Homem de oração e penitência, centrado no mistério da Eucaristia, e peregrino, fez duas viagens à Terra Santa, que muito marcaram a sua história, até que os cónegos de Santo Agostinho pediram que ele ficasse ali como um dirigente, mas, em nome da obediência, ele não poderia fazê-lo, uma vez que já ocupava o cargo de prior da Sé de Viseu. No retorno, abriu mão deste serviço e se dedicou ainda mais à evangelização.

Ele já era conhecido e respeitado por muitas autoridades. Inclusive, o rei D. Afonso Henriques e a rainha, dona Mafalda, por motivos de guerra, acabaram retendo muitos cristãos e ele foi interceder em prol desses cristãos. Muitos foram liberados, mas o santo foi além. Como já tinha fundado, a pedido de amigos, a Nova Ordem dos Cónegos Regulares sob a luz da Santa Cruz, aos pés do Mosteiro, ele não só acolheu aqueles filhos de Deus, mas também pôde mantê-los como um verdadeiro pai. No mosteiro, ele era um pai, um prior não só por serviço e autoridade, mas um exemplo refletindo a misericórdia do mistério da cruz do Senhor, refletindo o seu amor apaixonado pelo mistério da Eucaristia.

Mariano e devoto dos Santos Anjos, ele despojou-se e se retirou em contemplação e intercessão. Foi assim que, em 18 de Fevereiro, esse grande santo português, em 1162, partiu para a glória.

Peçamos a intercessão de São Teotónio para que possamos glorificar a Deus pela obediência, sempre voltando-nos para os mais pequeninos.

São Teotónio, rogai por nós!


Fonte: Canção Nova

17 de fevereiro de 2018

Quando for velho, quero ser gato

Quererá a maioria de esquerda dizer, ao reprovar as propostas de protecção dos idosos e ao aprovar o reforço do estatuto dos animais de estimação, que estes têm prioridade face aos nossos mais velhos?

O envelhecimento da população é um dos principais desafios e uma das maiores ameaças para os países europeus e Portugal está muito longe de representar uma excepção. De acordo com um estudo do INE de Julho de 2015, cerca de 20% da população portuguesa tem mais de 65 anos. Comparativamente com os restantes Estados-Membros da União Europeia, Portugal tem um dos índices de velhice mais elevados, bem como um dos maiores aumentos da idade mediana da sua população. Por oposição, tem o terceiro menor índice de renovação da população activa. A estes alarmantes dados estatísticos, acresce um ainda mais preocupante: de acordo com a APAV, entre 2013 e 2016 os crimes praticados contra idosos aumentaram em 30%, sendo que diariamente existem três idosos vítimas de maus tratos.
Desta forma, não só pelas suas especiais necessidades de cuidados e protecção mas também pela expressão da sua representatividade – cada vez maior – da população portuguesa, os idosos deveriam ser privilegiados nas prioridades do legislador, que está legal e moralmente obrigado a promover e assegurar a sua defesa.
Recentemente, foi proposto pelo CDS-PP um pacote legislativo para protecção dos idosos. Esse pacote legislativo era composto por três projectos de lei e uma recomendação ao Governo. Os projetos de lei proponham que os sucessores condenados por crimes praticados contra idosos fossem deserdados; que o regime do testamento vital – previsto para situações de doença – fosse alargado de forma a incluir o planeamento da velhice; um agravamento das penas de crimes como a injúria, difamação, burla ou violação da obrigação de alimentos, praticados contra idosos bem como criar um crime especifico de ofensa a pessoa idosa. A recomendação propunha ao governo a criação de uma rede de cuidadores que dê resposta integrada e transversal a pessoas em situação de risco ou de vulnerabilidade.
À semelhança do que havia já acontecido em 2016, os três projectos de lei voltaram a ser chumbados pela maioria de esquerda, com base num argumentário de que isso seria uma forma de sancionar as famílias mais pobres que não têm condições para cuidar dos seus familiares idosos.
Ora, basta observar o objecto sobre o qual versam os projectos de lei reprovados para perceber que este argumento não tem qualquer cabimento. De que forma uma família ter menos condições económicas legitima a prática de crimes como a injúria, a difamação, a burla ou a ofensa à integridade física contra um idoso? Existe algum fundamento para que quem for condenado pela prática destes crimes, por mais pobre que seja, não seja deserdado?
O chumbo deste pacote legislativo de protecção aos idosos revela a total desconsideração e despreocupação dos partidos de esquerda pelos mais idosos e as suas mais elementares necessidades de cuidados e protecção, deixando à sua sorte os membros mais vulneráveis da sociedade e consequentemente aqueles que de maior protecção do estado carecem.
É interessante observar que aqueles que conduziram à rejeição deste pacote legislativo com vista à protecção dos idosos são igualmente os defensores da legalização da eutanásia, claro está, com vista a promover a maior dignidade dos destinatários dessa morte antecipada. Quererá isto dizer que para os partidos de esquerda, possibilitar a morte antecipada a um idoso lhe confere maior dignidade do que o mesmo puder planear e escolher o tipo de serviços e cuidados que pretende que lhe sejam prestados na velhice, por via do seu testamento vital, ou reforçar a tutela jurídica dos idosos vítimas de maus tratos através do agravamento das penas relativas a crimes praticados contra os mesmos? Quererá isto dizer que para os partidos de esquerda a única forma de o estado tutelar e proteger a dignidade de uma pessoa em final de vida é antecipando a sua morte? Quererá isto dizer que para os partidos de esquerda a reposta para a vida destas pessoas é a morte?
Note-se ainda que no mesmo dia em que o referido pacote legislativo foi reprovado, os mesmos partidos e deputados que o reprovaram, deliberaram aprovar a entrada de animais de estimação em restaurantes. Animais estes, que em 2017 haviam já visto – e bem – ser consagrada legalmente uma proibição relativa a maus tratos e abandono. Dúvidas não existem de que os animais de estimação devem ser protegidos mas não será ainda mais importante e urgente reforçar a protecção da pessoa humana, em particular dos idosos?
A crescente tendência legislativa que tem vindo a ser observada de proteger os animais tem sido sentida no sentido inverso no que diz respeito à pessoa humana, que viu serem reprovadas leis relativas a maus tratos de idosos, aprovada a legalização do aborto e assiste, actualmente, a uma tentativa de legalização da eutanásia, deixando sempre a vida humana numa posição de maior vulnerabilidade.
Como disse Vânia Dias da Silva, uma das preponentes do referido pacote legislativo de protecção dos idosos, “esta maioria não é efectivamente para os mais velhos”.
Fonte: Observador

Defesa da honra: ou o Bloco de Esquerda retorna à verdade, ou agiremos com o pleno vigor da Lei

Foto de Nova Portugalidade.

No último dia 10 de Fevereiro, as páginas de Facebook afiliadas à Concelhia do Porto do Bloco de Esquerda, com os títulos, respectivamente, de «Bloco de Esquerda na Cidade do Porto» e «Bloco de Esquerda - Distrito do Porto», publicitaram um comunicado do Secretariado da Coordenadora Concelhia do Bloco de Esquerda do Porto que se refere à Nova Portugalidade como «grupo protofascista», que promove «valores e ideias fascistas», associando-a à «extrema-direita» e à promoção de valores «nacionalistas, colonialistas, racistas e xenófobos».
Estas declarações do Bloco de Esquerda aparecem como absurdas, risíveis até, a todos os que acompanham as publicações e toda a sorte de actividades da Nova Portugalidade. A qualquer pessoa que visite a sua página, que leia os textos que em seu nome se publicam e solicite o acesso aos seus estatutos e carta de princípios será evidente a falsidade e injustiça dessas acusações, pelo que não se requerem grandes esforços da Nova Portugalidade para provar que as asserções do Bloco de Esquerda são desprovidas de qualquer fundamento. A qualidade dadaísta do malfadado comunicado, porém, não o impede de causar danos à reputação da Nova Portugalidade perante o público que desconhece a natureza da associação e de configurar uma qualificação à qual podem competir as mais graves consequências.
Em particular, como o Bloco de Esquerda não o ignora, a afirmação de que certo grupo é um colectivo racista ou fascista é uma afirmação que em Portugal comporta um peso jurídico. Não só vigora preceito constitucional, intocado desde a redacção original, que proíbe organizações racistas ou que perfilhem a ideologia fascista, como a lei ordinária regula esse mesmo preceito, convertendo-o em enunciado normativo operável em sede das pertinentes instâncias judiciais. A Lei n.º 65/78, de 6 de Outubro, como o Bloco de Esquerda bem sabe, incrimina os dirigentes de organizações que perfilhem a ideologia fascista, punindo-os com penas de prisão de dois a oito anos, além de determinar que seja decretada pelo órgão judicial competente a extinção das ditas organizações, para não mencionar outras repercussões estabelecidas em distintos diplomas legais para aqueles indivíduos que se consorciem, de alguma forma, às suas acções. É-se levado a concluir, portanto, que a leviandade com que o Bloco de Esquerda proferiu as suas acusações não se coaduna com a gravidade que lhes confere o ordenamento jurídico português. Felizmente, o mencionado acto legislativo enuncia também os critérios pelos quais se pode ajuízar do carácter fascista de uma organização, nomeadamente, «adoptar, defender, pretender difundir ou difundir efectivamente os valores, os princípios, os expoentes, as instituições e os métodos característicos dos regimes fascistas que a História regista, nomeadamente o belicismo, a violência como forma de luta política, o colonialismo, o racismo, o corporativismo ou a exaltação das personalidades mais representativas daqueles regimes». Mais fácil dizê-lo do que justificá-lo. Não cremos que o Bloco de Esquerda tenha, para concluir esta tarefa, argumento algum, uma vez que se baseia em uma peça de exemplar mau jornalismo, publicada no jornal «i», a qual foi em devido prazo confutada pelo exercício de direito de resposta da Nova Portugalidade. A resposta então fornecida pela Nova Portugalidade ao jornal "I" poderá ela também, com gosto, fazer chegar ao Bloco de Esquerda.
Por outro lado, não pode subsistir qualquer dúvida de que a absurda qualificação da Nova Portugalidade como organização fascista e a possibilidade da partilha instantânea, susceptível de um indefinido número de replicações e por um meio acessível ao grande público de um texto que contém imputações tão gravosas resulta em sérios danos à sua honra, os quais se podem traduzir, com efeito, na perturbação das actividades e projectos da associação, afastando colaboradores, frustrando acordos de cooperação, criando reservas à cedência de plataformas por parte de outras entidades e suscitando resistências e hostilidade à operação da Nova Portugalidade e à sua mesma existência.
É entendimento da Comissão Executiva da Nova Portugalidade que as acusações do Bloco de Esquerda do Porto constituem um crime de difamação, previsto e punido pelo n.º 1 do artigo 180.º do Código Penal, com limites de pena agravados pela circunstância de a difamação ser exercida por meios que facilitam a sua divulgação, conforme dispõe a alínea a) do n.º 1 do artigo 183.º daquele mesmo Código. Estas considerações sobre os danos causados à associação em virtude de condutas que preenchem os referenciados tipos penais, estendem-se, com as devidas adaptações, aos seus dirigentes e, em especial, aos oradores da conferência, cujos nomes e imagens, constando do cartaz partilhado pelo Bloco de Esquerda juntamente com o seu comunicado, ficaram associadas ao seu teor difamatório.
Assim, tendo em conta todas estas razões e também que enquanto permanecer publicado o comunicado, sem retractação, perdurará o dano, exigimos publicamente ao Bloco de Esquerda e aos responsáveis das ditas páginas que retirem o comunicado e que façam uma retractação pública a propósito do seu conteúdo falso e prejudicial, até às vinte horas de amanhã, Sexta-feira. É uma oferta que esperamos ver aceite, a fim de resolver por acordo este diferendo e pôr cobro aos danos à Nova Portugalidade e aos seus dirigentes. Caso não seja aceite esta oferta, a Nova Portugalidade ver-se-á obrigada a recorrer aos tribunais para fazer valer os seus direitos e confrontar aquilo que entende serem crimes contra si cometidos.
A NP reitera, ainda, não dirigir qualquer mau ânimo à massa dos militantes e simpatizantes do partido político "Bloco de Esquerda", militantes e simpatizantes entre os quais se encontram igualmente alguns amigos e membros da própria Nova Portugalidade. Mais, nada fazemos por vanglória ou preocupação egoísta. As invectivas do Bloco, de tão imaginativas e manifestamente falsas, divertiram a Nova Portugalidade mais do que a inquietaram. A NP já não é, contudo, mera soma dos seus membros e responsáveis. Tem nome e direito a ele, pelo que não pode permitir chorrilhos de abuso, deturpação e má-fé como aquele a que há dias foi sujeita pelos órgãos portuenses do Bloco de Esquerda. Age, pois, por todos os portugueses e em defesa de todos os portugueses, na certeza de que o debate, sempre bom e fecundo, não pode sucumbir perante o insulto vil e a calúnia mais rasteira.

A Comissão Executiva da Nova Portugalidade

Lisboa, 15 de Fevereiro de 2018