21 de agosto de 2017

Os jesuítas e São Fiel: a história de um colégio traído (e agora ardido)

A instituição fundada no século XIX, aos pés da Serra da Gardunha, ardeu esta semana num incêndio que não apaga o valor de um edifício histórico para os jesuítas e para o ensino em Portugal.

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O prenúncio está logo nas cartas de S. Francisco de Xavier. Ainda a Companhia de Jesus tem dentes de leite e já o missionário explica a Sto. Inácio que costuma ensinar o catecismo através de músicas e jogos de palavras fáceis de decorar. É a primeira relação pedagógica da Companhia, umas pequenas frases envergonhadas, se as compararmos com toda a produção pedagógica que se seguiu.
A inesperada vocação professoral dos Inácios marcou toda a História do Ocidente. Basta o nosso exemplo: só nos anos 30 do século passado é que voltou a haver igual número de alunos nas escolas ao que havia antes da expulsão Pombalina, foi no Colégio jesuítico de Santo Antão que funcionou por mais de um século a Aula da Esfera — viveiro matemático dos cálculos que tanto serviram e resultaram dos nossos descobrimentos — e foi nos seus colégios modernos, de Campolide ao S. João de Brito, que se educou uma boa parte dos protagonistas dos últimos séculos – dos Integralistas Pequito Rebelo ou Pinto Mesquita ao inesperado Pinto da Costa.
Todo o ensino da Europa se fez ao arrepio ou em concórdia com os métodos Jesuíticos. Numa actualização do método escolástico das questões de Quodlibet, que punham o centro do ensino na contestação das teses apresentadas, os Jesuítas trouxeram para a Era Moderna um método que divisava as classes em dois campos, Roma e Cartago, que se digladiavam em permanência, com cada grupo a farejar constantemente os erros opostos e a contestar as teses apresentadas. A exegese com o objectivo de encontrar a falha, espicaçada pela concorrência, procurava versar os alunos no pensamento crítico e no rigor (pois cada aluno sabia que teria sempre um adversário no encalço) que os adversários sempre negaram aos Jesuítas. O teor do ensino, que tem uma boa descrição na biografia que Edgar Prestage fez de D. Francisco Manuel de Melo ou na famosa História da Companhia de Jesus na Assistência de Portugal, de Francisco Rodrigues, moldou o cânone do pensamento moderno: de Pascal a Descartes, com o Colégio de la Flèche, até à geração de Teodoro de Almeida e Verney, a educação e a Cultura Jesuítica estiveram sempre no centro dos debates culturais.
Ora, é dessa altura que saem as mais fortes contestações ao ensino dos mestres da sotaina, e também dessa altura que nasce, indiretamente, grande parte do prestígio do Colégio de São Fiel.
Com o relaxar da perseguição religiosa que caracterizou o princípio do liberalismo, voltam a aparecer os colégios, reformatórios e orfanatos a cargo de padres e outros religiosos. Entre esses surge, graças à boa vontade de um Frei Agostinho da Anunciação, um orfanato singelo, insulado na encosta meridional da Serra da Gardunha, que o próprio fundador veio a entregar, contra a vontade dela, à Companhia de Jesus.
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A interpretação mais relaxada das leis liberais, que permitiam tomar como habilitado para ensinar, não quem tivesse a habilitação examinada pelo Estado, mas quem quer que o reitor julgasse habilitado na matéria, aliado à formalidade de passar a posse do Colégio para Jesuítas estrangeiro, já que às Ordens portuguesas não era permitido que possuíssem colégios, deu à Companhia um Colégio irmão ao de Campolide, em Lisboa.

Uma devoção científica

A letra da lei podia ser contornada facilmente e sem escândalo, já que até a generalidade dos políticos educava a prole nos Colégios religiosos; o espírito que a motivara, porém, era mais difícil de contrariar.
À acusação vinda dos tempos de Pombal, de que os Jesuítas coleavam entre os corredores do poder, moldando as consciências à seu bel-prazer, São Fiel seria fraca resposta: de facto, o colégio conseguiu, graças à reputação pedagógica de que os Jesuítas gozavam, concentrar grande parte da burguesia do país nas suas salas. Às acusações de obscurantismo e falso saber, porém, os Jesuítas fizeram questão de lhe negar todo o fundamento. Para não haver margem para acusações de inimizade às ciências e aos avanços científicos do tempo, a Companhia apostou com êxito no ensino experimental e científico.
Do que lhe deve na curiosidade intelectual e mesmo na direcção dos seus interesses, deu testemunho Egas Moniz; porém, mesmo o Professor Cabral de Moncada, mais prudente em relação às alegrias do seu tempo de Colégio e mais permeável à imagem pública dos Jesuítas, conta nas memórias as condições privilegiadas que tinham para o ensino experimental: a imensa serra que circundava o Colégio, as constantes actividades ao ar-livre e o espírito varonil bem canalizado levavam naturalmente ao interesse pela botânica, ou pela zoologia, que Cabral de Moncada não dissociava de uma certa liberdade rural e exigência física que o Colégio impunha.
Os testemunhos de um e outro, porém, não dão conta da dimensão científica que teve São Fiel. Seria raro, mesmo numa Universidade, que coabitassem no mesmo espaço, ensinando jovens no seu percurso escolar, tantas personalidades com tanto mérito científico. A plêiade científica dos professores, em primeiro lugar, fundou em 1902 aquela que se viria a tornar a centenária Revista Brotéria, desdobrada em várias vidas, da Brotéria de Divulgação Científica à Brotéria de Cultura, com outras muito mais especializadas – como a Brotéria de genética – pelo caminho. Aquilo que poderia ser apenas uma modesta revista de colégio, em virtude da cultura e produtividade dos seus articulistas, tornou-se logo uma revista importante no meio científico. Foi a primeira Revista jesuíta inteiramente dedicada a matérias científicas e, note-se, de produção original, não de artigos de divulgação. Estes vieram depois, numa série paralela, alimentada pelos mesmos autores para financiar a revista científica. Dedicada a Félix Avelar Brotero, o eminente naturalista, a revista – cuja importância pode ser avaliada a partir do livro Ciência, Prestígio e Devoção, de Francisco Malta Romeiras – caracterizou novas espécies botânicas, tratou com rigor temas em voga, como o Darwinismo, e, com notável variedade, debruçou-se sobre bioquímica ou genética molecular. Francisco Malta Romeiras ensina que, no tempo de vida da Brotéria Científica (a cultural ainda vive) se classificaram 1327 novas espécies zoológicas e 887 novas espécies botânicas.
O corpo de redactores – professores de São Fiel — era notável: de Joaquim da Silva Tavares, que foi reitor de São Fiel e sócio da Academia das Ciências, até António da Costa e Oliveira Pinto, pioneiro em Portugal nos estudos de radiologia, único português no 1º Congresso Internacional de Radiologia e que trabalhou no laboratório de Pierre e Marie Curie.
O interesse e o saber de tais professores passaria, naturalmente, para o Colégio. Não só a Gardunha foi palco de muitas das experiências e observações destes padres cientistas, como o próprio Colégio, dotado de um Herbário, de um Museu de História Natural e de um Observatório Astronómico, tinha condições científicas de excepção. A colecção de lepidópteros que Cândido Azevedo Mendes recolheu paulatinamente no Colégio, depois da nova expulsão dos Jesuítas, passou directamente para a Universidade de Coimbra; as observações astronómicas de São Fiel eram comentadas por Frederico Oom, director do Observatório Astronómico de Lisboa e vinham no relatório oficial do Observatório do Infante D. Luís.
O contributo do Colégio de São Fiel para a História da Ciência em Portugal é inestimável e não apenas pela qualidade dos professores. O zelo na educação científica era tal que Carlos Zimmermann introduzia, no princípio do século XX, o uso do microscópio nas suas aulas e, caso ainda mais singular, aquando do eclipse solar de 1905, os Jesuítas levaram alunos seus (de 13 e 16 anos!) a Burgos para, no meio de comissões de Astrónomos Internacionais, observarem os eclipses.
Ora, enquanto os Jesuítas introduziam os seus alunos nas experiências botânicas e astronómicas a que muitas vezes nem a Universidade os levaria, em Lisboa a loquela parlamentar continuava a discutir o obscurantismo Jesuítico, a inimizade da sotaina para com a ciência e a expulsão dos Jesuítas. As insistências de deputados republicanos pela extinção de São Fiel, o livro de Borges Grainha sobre o Colégio de Campolide ou o relatório de Sousa Refóios sobre São Fiel, que embora se rendesse à singularidade de existir no Colégio um laboratório de Química, considerava o ensino “reaccionário”, contribuíam para as acusações de fanatismo. Embora a estas acusações se contrapusesse com verdade que muitos dos delactores dos Jesuítas lhes confiavam a educação dos filhos, a verdade é que a opinião preconcebida de obscurantismo acabou, com a República, por vencer.

Os professores fugidos

As peripécias da nova expulsão conta-as Luís Gonzaga de Azevedo no seu livro Proscritos. Conta que após a implantação da República e a explosão de uma bomba no colégio de Campolide, a apreensão previsível tomou conta dos padres professores. As ameaças aos padres e ao Colégio começaram logo no dia 6 de Outubro, pelo que os Jesuítas tiveram de se refugiar em casas da região, protegidos pela boa-vontade local. As suspeitas de que os padres guardavam bombas e armamento, que já tinham motivado uma infrutífera busca a Campolide, justificaram as devassas dos pertences dos Inácios; os padres que não fugiram foram cercados no Colégio pela cavalaria a 13 de Outubro, enquanto aguardavam a prisão e as medições frenológicas a que depois foram sujeitos. Do colégio foram roubados livros, destruídas colecções zoológicas e científicas e vandalizado material enquanto se procurava o famoso e imaginário armamento.
Os jesuítas fugidos, cientes da vontade de tantos pais em submeter os filhos à sua educação, ainda organizaram, a partir dos restos do Colégio de Campolide, um novo colégio em Bruxelas. Este passou depois para a Galiza e, com uma vida um tanto atribulada, regresso anos depois a Portugal, com o nome oficial de Instituto Nun’Alvres e popular de Colégio das Caldinhas, em Santo Tirso. Das instalações, fez-se o campus da Universidade Nova de Lisboa. São Fiel, porém, não teve igual sorte. Os padres, desbaratados pelo mundo, chamados para o Instituto Nun’Alvres, fundado com grande dificuldade, não puderam continuar o colégio; o edifício teve uma vida intermitente e não desejada como reformatório, até cair no abandono.
Já seria uma perda para a região o esfumar daquela fachada sóbria e imponente, tão conhecida e simbólica para Louriçal do Campo e toda a Serra da Gardunha; também seria uma perda emocional a ruína de um colégio que guardava as memórias dos tempos de rapaz de tantos homens que marcaram, com mais ou menos distinção, o século passado. As memórias que Cabral de Moncada tem da “pedra grande” e que tantos terão da imensa paz que circunda a Serra. A perda de São Fiel, porém, não é apenas a perda de um Colégio. É a perda de um museu, com todos os restos de museus que ainda se encontravam lá dentro, cuja importância para a História da Ciência deve ser bem vincada.
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Carlos Maria Bobone
Fonte: Observador

19 de agosto de 2017

Minhota Com D. Manuel II Ao Colo



Atestando a importância do Traje à Vianesa e das Festas da Senhora D’Agonia, neste cliché datado de 1890, uma rapariga vestida à lavradeira de Viana, segura ao colo o então Infante Dom Manuel de Bragança – na fotografia com apenas cinco meses de idade -, Duque de Beja e futuro e derradeiro Rei de Portugal.
A minhota Maria José Coelho de Castro Malheiro Villas-Boas, à altura, fazia parte da Casa Civil do Paço Real, e pertencia a algumas das mais distintas Famílias do Minho: Coelho Villas-Boas (Casa da Boa-Viagem), Malheiro Pereira, Pitta, Castro Araújo, São Miguel de Mogueimas, etc…
Este ano as Festas da Senhora D’Agonia , em Viana do Castelo, tradição já com 234 anos, decorrem de hoje até 20 de Agosto de 2017.
As já icónicas Festas da Senhora D’Agonia, em Viana do Castelo, tradição já com 233 anos, começam neste dia 18 de Agosto de 2017, com centenas de raparigas e senhoras desfilando no Cortejo da Mordomia vestidas com os trajes tradicionais de cada freguesia da capital minhota. Neste concorrido e emblemático desfile das mordomas na Romaria D’Agonia, progredindo pelas principais ruas do Centro Histórico de Viana do Castelo, as mulheres envergam os tradicionais e coloridos trajes à vianense de lavradeira, de mordoma, de noiva, de meia senhora ou com traje de festa, segurando na mão, envoltos num lenço de Viana, uma vela votiva ou um palmito e envergando ao peitilho os mais variados artefactos do chamado Ouro de Viana: gramalheiras, fios – alguns de três metros – com e sem pendente, colares de contas, peças, custódias, borboletas, cruzes de raios e de Malta, Corações de Viana em filigrana, brincos à Rainha, escravas, tudo em ouro e num valor que rondará os 14 milhões de euro
A Romaria d’Agonia, considerada a Rainha das Romarias, data de 1674 e refere-se à própria  história da igreja em honra da Padroeira dos pescadores. Nessa época, foi erigida uma capela em invocação ao Bom Jesus do Santo Sepulcro do Calvário e, um pouco acima, uma capelinha devota a Nossa Senhora da Conceição.
Hoje em dia, o nome da Senhora está associado à rainha das romarias e às inúmeras tradições da maior festa popular de Portugal: a romaria em honra de Nossa Senhora da Agonia, nascida em 1772 da devoção dos homens do mar vindos da Galiza e de todo o litoral português para as celebrações religiosas e pagãs, que ainda hoje são repetidas anualmente na semana do dia 20 de Agosto, feriado municipal em Viana do Castelo. Tradições seculares que enchem Portugal de orgulho!
‘Minho, o espectáculo prodigioso que faz amar Portugal!’,escreveu Camilo Castelo Branco.

Miguel Villas-Boas

18 de agosto de 2017

O rapto dos Pastorinhos de Fátima



À medida que se aproximava o 13 de Agosto de 1917, a notícia das aparições de Fátima espalhou-se por todo o país. A imprensa liberal-maçónica [e republicana] tomou um interesse especial no assunto, não descuidando qualquer oportunidade para o denunciar e espalhar falsidades sobre os três pastorinhos. Quando se tornou evidente que estas tácticas não conseguiam afastar as multidões de peregrinos, cuja fé os levava a viajar de longe para estarem presentes quando Nossa Senhora aparecesse, a imprensa declarou, à maneira anticlerical do costume, que o clero andava a enganar o povo para lhe extrair dinheiro. E apelava com vigor às autoridades para que actuassem.

A autoridade local de Fátima era Artur de Oliveira Santos, Administrador do Concelho de Vila Nova de Ourém e anticlerical fanático. Também conhecido pela alcunha de "Latoeiro", era um maçon a quem o seu cargo dava um poder considerável, e governava o seu Concelho de forma tirânica, impondo restrições às igrejas e às cerimónias religiosas ao seu mínimo capricho. O Latoeiro decidiu pôr um fim à piedade popular resultante das aparições de Fátima, usando os meios que entendesse serem necessários.

A 10 de Agosto, os pais dos três videntes de Fátima, Manuel Marto e António dos Santos, receberam ordem de se apresentarem no dia seguinte, com os seus filhos, em Vila Nova de Ourém. Era um percurso de quinze quilómetros, sem outro meio de transporte que não fosse ir de burro, ou então ir a pé. Manuel Marto recusou-se a obrigar os seus dois filhos pequenos a fazer essa viagem ou a aparecerem em tribunal, e decidiu ir sozinho. Por seu lado, António dos Santos queria que a sua filha Lúcia se explicasse por si própria. O Latoeiro ficou furioso com a ausência do Francisco e da Jacinta.

Sobre a sua experiência com o Latoeiro, Lúcia escreveu:
"Na sede da Administração, fui interrogada pelo Administrador, na presença do meu Pai, do meu Tio e de vários outros senhores que me eram estranhos. O Administrador estava decidido a forçar-me a revelar o Segredo e a prometer-lhe que não tornava a ir à Cova da Iria. Para alcançar este fim, não se poupou a fazer promessas, nem sequer ameaças. Vendo que não conseguia nada, mandou-me embora, mas protestou que havia de conseguir o que queria, mesmo que para isso tivesse de tirar-me a vida."

A 12 de Agosto, começaram a chegar multidões à Cova da Iria, preparando-se para a aparição esperada para o dia seguinte. Na manhã de 13 de Agosto, o Administrador chegou à casa dos Martos para ver as crianças. Convenceu os pais de que desejava "ver o milagre" com eles, e primeiro foram juntos falar com o pároco da freguesia. Depois de responder a umas perguntas, o Administrador fez os pastorinhos entrar para o seu carro. Este começou primeiro a andar em direcção à Cova da Iria, mas de repente deu meia-volta e seguiu para outra direcção. O Administrador tentou serenar os pastorinhos, dizendo-lhes que iam ver o pároco de Ourém. Para que os peregrinos a caminho da Cova da Iria não vissem os pastorinhos, cobriu-os com um cobertor. Finalmente chegou em triunfo a sua casa; acreditava que, se eles fossem impedidos de ir à Cova, não aconteceria nada de sobrenatural e o assunto das aparições chegaria ao fim.

Quando chegaram à casa do Latoeiro, os pastorinhos foram fechados numa sala e disseram-lhes que não sairiam dali até revelarem o Segredo. A bondosa mulher do Latoeiro deu-lhes o almoço, deixou-os brincar com os seus filhos e fez para que não lhes faltasse nada. No dia seguinte tiveram de passar por nove interrogatórios, mas os pastorinhos, fortificados por uma graça especial, não cederam.

O Latoeiro queria saber o Segredo, custasse o que custasse, mas não conseguiu obtê-lo nem confundir os pastorinhos para que se contradissessem uns aos outros. Até chamou um médico, para poder acusá-los de alucinações e histeria. As conclusões do médico nunca foram publicadas; e este facto é de grande importância, porque se o médico concluísse que as crianças estavam alucinadas, o Administrador não hesitaria em publicar-lhe o testemunho sem mais demoras.

Em seguida, o Latoeiro mandou os pastorinhos para a cadeia, que estava cheia de outros presos. Foram então interrogados separadamente, após o que o Latoeiro ameaçou mandá-los ferver em azeite se continuassem a recusar-se a contar-lhe o Segredo de Fátima. Na presença deles, mandou que pusessem a aquecer um caldeirão de azeite, e ameaçou-os que os punha no caldeirão se não colaborassem. Os pastorinhos acreditaram na ameaça do Latoeiro. Um homem que estava na cadeia tentou convencer a Jacinta a ceder, dizendo-lhe que bastava contar o Segredo para escapar a ser morta. A Jacinta respondeu: "Antes morrer!"

O Latoeiro levou primeiro a Jacinta. O Francisco e a Lúcia acreditaram que a levava para a morte. O Latoeiro regressou e disse-lhes que a Jacinta estava morta. Exigiu-lhes de novo que lhe revelassem o Segredo, ou também seriam fritos em azeite. O Francisco foi depois levado, aparentemente para a sua morte. Em seguida, o Latoeiro ameaçou a Lúcia com o mesmo destino se não colaborasse; mas a Lúcia manteve-se fiel, embora acreditasse que os seus primos tinham sido mortos. Porém, tal não sucedera; era só uma ameaça vã. Mas nem com esta derradeira ameaça o Latoeiro conseguiu obter o Segredo. Na manhã seguinte (15 de Agosto), a seguir a um interrogatório final, deixou os pastorinhos regressar a Fátima, sem ter conseguido nada deles.

Fonte: «A Associação de Fátima».
Publicado por: Veritatis

17 de agosto de 2017

A construção histórica do Brasil

Foto de Nova Portugalidade.


SAR, o Senhor Dom Duarte de Bragança, concedeu uma extensa entrevista a um prestigioso instituto brasileiro de reflexão política. Destina-se esta entrevista a um longo documentário que versará temas nodais da história da nação-irmã. Na deslocação a São Pedro de Sintra, residência do Chefe da Casa Real Portuguesa, a equipa brasileira foi acompanhada por responsáveis da Nova Portugalidade. Seguidamente, na soberba esplanada do Paço de Sintra, Rafael Pinto Borges, da NP, explanou longamente sobre a identidade luso-brasileira.


Foto de Nova Portugalidade.


Foto de Nova Portugalidade.


Foto de Nova Portugalidade.


16 de agosto de 2017

Uma fotografia republicana

A república portuguesa tal como a francesa ou a russa, para não ir mais longe, assentam no crime. Todas elas assassinaram o rei, um rei inocente, eleito pela história e pela tradição. A partir daí e para esconderem esse pecado original começaram a mentir. Começou a propaganda. Diga-se em abono da verdade e para sermos justos que dos três países visados, nem todos mentiram (ou mentem) da mesma maneira.

Enquanto a Rússia já pediu desculpa pelo acto e canonizou a família real martirizada pelos bolcheviques, a França prossegue impune na sua propaganda e celebra todos os anos, com pompa e circunstância, a data que simboliza a guerra civil e o crime. Portugal neste aspecto fica-se pelo ‘nim’! Nem assume o crime nem pede desculpa! Disfarça! E por conseguinte mente a dobrar! A provar o que afirmo basta tirar uma selfie ao país que temos hoje:

O governo é uma mentira, quem escolheu o primeiro-ministro foi o parlamento contrariando a vontade expressa nas urnas pelos portugueses. É constitucional?! É porque a constituição é também ela uma mentira, vai a caminho do socialismo… quando lhe convém.

O presidente da república se não é uma mentira é a quadratura do círculo! Filho de um ministro da ditadura, e afilhado do último primeiro-ministro da mesma, não lhe fica bem dizer mal da ditadura onde medrou nem da família que o educou. Mas disse.

A assembleia da república é uma Câmara Corporativa onde têm assento predominante os representantes do funcionalismo público. As chamadas profissões liberais, estão organizadas em matilhas, e trabalham para o estado que lhes encomenda tudo, incluindo as leis.
A actividade privada em Portugal é um mistério sendo difícil encontrar alguém que sobreviva sem uma ligação pecuniária ao mesmo estado.

Os tribunais normalmente não funcionam e quando funcionam é para protegerem a nomenclatura republicana.

Finalmente a população, o povo, atendendo ao que foi dito no capítulo da actividade privada, continua a viver como dantes: - ou emigra ou fica por cá, dependente, sem correr riscos, e com a única ambição de ser funcionário público. Se possível nascer já com um vínculo ao estado. Nesta perspectiva podemos dizer que é monárquico por natureza!

Não termino sem uma palavrinha sobre o futebol, fundamental para a propaganda do regime, e para dizer que está práticamente nacionalizado. Os clubes estão em falência técnica e só não acabam porque os bancos entretanto nacionalizados não deixam.

Há aí alguém que não esteja na fotografia?! Respostas a este apartado.


Saudações monárquicas

JSM

Fonte: Interregno

15 de agosto de 2017

Assunção da Virgem Maria

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Hoje, solenemente, celebramos o facto ocorrido na vida de Maria de Nazaré, proclamado como dogma de fé, ou seja, uma verdade doutrinal, pois tem tudo a ver com o mistério da nossa salvação. Assim definiu pelo Papa Pio XII em 1950 através da Constituição Apostólica Munificentissimus Deus: “A Imaculada Mãe de Deus, a sempre Virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre foi assunta em corpo e alma à glória celestial.”
Antes, esta celebração, tanto para a Igreja do Oriente como para o Ocidente, chamava-se “Dormição”, porque foi sonho de amor. Até que se chegou ao de “Assunção de Nossa Senhora ao Céu”, isto significa que o Senhor reconheceu e recompensou com antecipada glorificação todos os méritos da Mãe, principalmente alcançados em meio às aceitações e oferecimentos das dores.
Maria contava com 50 anos quando Jesus subiu ao Céu. Tinha sofrido muito: as dúvidas do seu esposo, o abandono e pobreza de Belém, o desterro do Egipto, a perda prematura do Filho, a separação no princípio do ministério público de Jesus, o ódio e perseguição das autoridades, a Paixão, o Calvário, a morte do Filho e, embora tanto sofrimento, São Bernardo e São Francisco de Sales é quem nos aponta o amor pelo Filho que havia partido como motivo de sua morte.
É probabilíssima, e hoje bastante comum, a crença de a Santíssima Virgem ter morrido antes que se realizasse a dispersão dos Apóstolos e a perseguição de Herodes Agripa, no ano 42 ou 44. Teria então uns 60 anos de idade. A tradição antiga, tanto escrita como arqueológica, localiza a sua morte no Monte Sião, na mesma casa em que seu Filho celebrara os mistérios da Eucaristia e, em seguida, tinha descido o Espírito Santo sobre os Apóstolos.
Esta a fé universal na Igreja desde tempos remotíssimos. A Virgem Maria ressuscitou, como Jesus, pois sua alma imortal uniu-se ao corpo antes da corrupção tocar naquela carne virginal, que nunca tinha experimentado o pecado. Ressuscitou, mas não ficou na terra e sim imediatamente foi levantada ou tomada pelos anjos e colocada no palácio real da glória. Não subiu ao Céu, como fez Jesus, com a sua própria virtude e poder, mas foi erguida por graça e privilégio, que Deus lhe concedeu como a Virgem antes do parto, no parto e depois do parto, como a Mãe de Deus.
Nossa Senhora da Assunção, rogai por nós!

14 de agosto de 2017

Batalha de Aljubarrota – 14 de Agosto de 1385

Aljubarrota


Falecido D. Fernando I de Portugal, iniciou-se a Crise de 1383-85, pois os filhos varões do Rei, com D. Leonor Telles de Menezes, haviam morrido; e D. Beatriz (1372 – 1410), Infanta de Portugal, havia casado com D. João I, Rei de Castela, pelo que, sob pena de anexação de Portugal pelo Reino de Leão e Castela, a fidalguia portuguesa pretendia mantê-la afastada da sucessão. E era fortíssima a ameaça da união – que soava a integração – de Portugal com Castela e Leão, resultado do Tratado de Salvaterra de Magos, de 1383. Também, a burguesia mostrava-se desagradada com a regência da Rainha D. Leonor Telles e do seu amante, o Conde D’Andeiro e com a ordem da sucessão.

Estava por essa altura o país fragmentado em três facções que reclamavam a legitimidade à sucessão:
De um lado estava o partido legitimista, fiel a Castela, que defendia a causa da Infanta D. Beatriz, mulher do rei de Castela, a quem consideravam a única herdeira legítima do Rei de cujus, e entendiam vigorar plenamente o Tratado de Salvaterra de Magos, uma escritura antenupcial que defendia, a união dos dois reinos ibéricos, e ainda a regência da Rainha-viúva D. Leonor Telles, consorte do rei decesso.

Outro partido era o legitimista-nacionalista, a quem repugnava a ideia da perda da independência nacional – o que excluía D. Beatriz – e que era constituído pelos irmãos de D. Inês de Castro, D. Álvaro Pires de Castro e D. Fernando de Castro, e que defendiam a legitimidade da pretensão dos seus sobrinhos, o Infante D. João e o Infante D. Diniz, filhos do Rei D. Pedro I e D. Inês, e que portanto eram meios-irmãos do finado el-rei D. Fernando, e que o rei Cru, havia legitimado por casamento clandestino.

O terceiro partido, estritamente nacionalista, pugnava por um Rei português e colocava a supremacia e independência nacional acima de qualquer legitimidade, o que excluía a Infanta D. Beatriz, rainha de Castela e os filhos de D. Inês de Castro que viviam em Castela e, inclusive, já haviam combatido por esse Reino. Para estes últimos partidários, nos quais se incluíam o fervoroso D. Nuno Álvares Pereira, não restava então outra solução do que esquecer as habituais regras de sucessão e considerar o trono vago, como forma de salvaguardar a soberania nacional, elegendo como Rex Portucalensis D. João, Mestre de Avis, ainda que filho bastardo de D. Pedro.

O exercício de retórica para convencer a elite de Portugal congregada nos Três Estados, reunidos nas Cortes em Coimbra, a 06 de Abril de 1385, coube a João das Regras, que demonstrou que quer D. Beatriz quer os Infantes não eram filhos legítimos, a primeira porque o casamento entre D. Fernando e D. Leonor Telles de Menezes era inválido uma vez que o 1.º casamento da rainha não havia sido dissolvido legalmente, e que quanto ao filhos de Pedro e Inês o rei e os seus cortesãos havia prestado falsas declarações no que ao concerne ao casamento secreto de D. Pedro e D. Inês, embuste com a qual pretendeu legitimar os filhos. Todos os ali reunidos renderam-se ao exercício de oratória empolada de João das Regras e D. João foi eleito e Aclamado Rei pelas Cortes. Rei de Portugal, não por “direito próprio”, mas por eleição unânime e instado pelos Três Estados o que de acordo pela Lei medieval correspondia a um sinal da vontade Divina. D. João I consolidou definitivamente a sua posição e a de Portugal ao ser proclamado Rei de Portugal pelas Cortes reunidas em Coimbra.

Apesar das sucessivas derrotas militares, como em Lisboa e nos Atoleiros, o rei D. João I de Castela não desistira da coroa de Portugal, que entendia advir-lhe ius uxoris pelo casamento e opondo-se a tal resolução, responde invadindo Portugal, pela Beira-Alta, em Junho de 1385, e desta vez à frente da totalidade do seu exército e auxiliado por um forte contingente de cavalaria francesa. Quando as notícias da invasão chegaram, João I encontrava-se em Tomar na companhia de D. Nuno Álvares Pereira, o condestável do reino, e do seu exército, e mais uma vez, o chicote de Portugal, D. Nuno Álvares Pereira resolve tomar rédeas à situação e sitia as cidades que entretanto se converteram fiéis a Castela. Avança e a decisão tomada foi a de enfrentar os castelhanos antes que pudessem levantar novo cerco a Lisboa. Com os aliados ingleses, o exército português interceptou os invasores perto de Leiria. Dada a lentidão com que os castelhanos avançavam, D. Nuno Álvares Pereira teve tempo para escolher o terreno favorável para a batalha e a 14 de Agosto de 1385 tem a oportunidade de exibir toda a sua mestria e génio militar em Batalha.

A opção para a Batalha recaiu sobre uma pequena colina de topo plano rodeada por ribeiros, no Campo de São Jorge, Calvaria de Cima, nas imediações da vila de Aljubarrota, entre Leiria e Alcobaça. Contudo o exército Português não se apresentou ao Castelhano nesse sítio, inicialmente formou as suas linhas noutra vertente da colina, tendo depois, já em presença das hostes castelhanas mudado para o sítio predefinido, isto provocou bastante confusão nas tropas de Castela. Assim pelas dez horas da manhã do dia 14 de Agosto, o exército português e os aliados ingleses comandados por El-Rei de Portugal D. João I e o Condestável do Reino tomaram a sua posição na vertente norte desta colina, de frente para a estrada por onde o exército castelhano e seus aliados franceses liderados por D. Juan I de Castela e Leão, eram esperados.

A disposição portuguesa era a seguinte: infantaria no centro da linha, uma vanguarda de besteiros com os 200 archeiros ingleses, 2 alas nos flancos, com mais besteiros, cavalaria e infantaria. Na retaguarda, aguardavam os reforços e a cavalaria comandados por D. João I de Portugal em pessoa. Desta posição altamente defensiva, os portugueses observaram a chegada do exército castelhano protegidos pela vertente da colina. A vanguarda do exército de Castela chegou ao teatro da batalha pela hora do almoço, sob o sol escaldante de Agosto. Ao ver a posição defensiva ocupada por aquilo que considerava os rebeldes, o Rei de Castela tomou a esperada decisão de evitar o combate nestes termos. Lentamente, devido aos 30.000 soldados que constituíam o seu efectivo, o exército castelhano começou a contornar a colina pela estrada a nascente. A vertente sul da colina tinha um desnível mais suave e era por aí que, como D. Nuno Álvares previra, pretendiam atacar. O exército português inverteu então a sua disposição e dirigiu-se à vertente sul da colina, onde o terreno tinha sido preparado previamente. Uma vez que era muito menos numeroso e tinha um percurso mais pequeno pela frente, o contingente português atingiu a sua posição final muito antes do exército castelhano se ter posicionado. D. Nuno Álvares Pereira havia ordenado a construção de um conjunto de paliçadas e outras defesas em frente à linha de infantaria, protegendo esta e os besteiros. Este tipo de táctica defensiva, muito típica das legiões romanas, ressurgia na Europa nessa altura. Pelas seis da tarde, os castelhanos ainda não completamente instalados decidem, precipitadamente, ou temendo ter de combater de noite, começar o ataque. É discutível se de facto houve a tão famosa táctica do “quadrado” ou se simplesmente esta é uma visão imaginativa de Fernão Lopes de umas alas reforçadas. No entanto tradicionalmente foi assim que a Batalha acabou por seguir para a história. O ataque começou com uma carga da cavalaria francesa a toda a brida e em força, de forma a romper a linha de infantaria adversária. Contudo as linhas defensivas portuguesas repeliram o ataque. A pequena largura do campo de batalha, que dificultava a manobra da cavalaria, as paliçadas (feitas com troncos erguidos na vertical separados entre si apenas pela distancia necessária à passagem de um homem, o que não permitia a passagem de cavalos) e a chuva de virotes lançada pelos besteiros (auxiliados por 2 centenas de arqueiros ingleses) fizeram com que, muito antes de entrar em contacto com a infantaria portuguesa, já a cavalaria se encontrar desorganizada e confusa. As baixas da cavalaria foram pesadas e o efeito do ataque nulo. Ainda não perfilada no terreno, a retaguarda castelhana demorou a prestar auxílio e, em consequência, os cavaleiros que não morreram foram feitos prisioneiros pelos portugueses. Depois deste revés, a restante e mais substancial parte do exército castelhano atacou entraram em confronto com a infantaria portuguesa: “Castyla! Sant’iago!” ao que os portugueses replicaram bradando “Portugal! São Jorge!”. A linha castelhana era bastante extensa, pelo elevado número de soldados. Ao avançar em direcção aos portugueses, os castelhanos foram forçados a apertar-se (o que desorganizou as suas fileiras) de modo a caber no espaço situado entre os ribeiros. Enquanto os castelhanos se desorganizavam, os portugueses predispuseram as suas forças dividindo a vanguarda de D. Nuno em dois sectores, de modo a enfrentar a nova ameaça e onde se destacou com especial bravura a famosa Ala dos Namorados.

Mas, vendo que o pior da investida castelhana ainda estava para chegar, o Rei de Portugal ordenou a retirada dos besteiros e archeiros ingleses e o avanço da retaguarda através do espaço aberto na linha da frente. Desorganizados, sem espaço de manobra e finalmente esmagados entre os flancos portugueses e a retaguarda avançada, os castelhanos pouco puderam fazer senão morrer.

Ao entardecer a batalha estava já perdida para Castela. Precipitadamente, D. João de Castela ordenou uma retirada geral sem organizar uma cobertura. Os castelhanos debandaram então desordenadamente do campo de batalha. A cavalaria Portuguesa lançou-se então em perseguição dos fugitivos, dizimando-os sem piedade. Alguns fugitivos procuraram esconder-se nas redondezas, apenas para acabarem mortos às mãos do povo. Surge aqui um mito português em torno da batalha: uma mulher, de seu nome Brites de Almeida, recordada como a Padeira de Aljubarrota, iludiu, emboscou e matou, pelas próprias mãos, alguns castelhanos em fuga. A história é por certo uma lenda da época! De qualquer forma, pouco depois, D. Nuno Álvares Pereira ordenou a suspensão da perseguição e deu trégua às tropas fugitivas. Ao amanhecer do dia seguinte, a catástrofe sofrida pelos castelhanos ficou bem à vista: os cadáveres eram tantos que chegaram para barrar o curso dos ribeiros que flanqueavam a colina e o barulho ensurdecedor do crocitar dos corvos contribuía para o cenário de terror. Para além de soldados de infantaria, morreram também muitos nobres castelhanos, o que causou luto em Castela.

A Batalha de Aljubarrota representa uma das raras grandes batalhas campais da Idade Média entre dois exércitos régios e um dos acontecimentos mais decisivos da História de Portugal. No campo militar significou a inovação de uma táctica, onde os homens de armas apeados foram capazes de vencer a poderosa cavalaria medieval. No campo diplomático, permitiu a aliança entre Portugal e a Inglaterra, que perdura até aos dias de hoje, pois no ano seguinte foi assinado o Tratado de Windsor, aliança consolidada em 1387 pelo casamento de D. João I com a Princesa Inglesa Dona Filipa de Lencastre (Lady Phillippa of Lancaster), filha de John Gant, Duque de Lancaster, e neta do então monarca inglês Eduardo III, de cujo consórcio matrimonial nasceria a Ínclita Geração. No aspecto político, resolveu a disputa que dividia o Reino de Portugal do Reino de Leão e Castela, permitindo a afirmação de Portugal como Reino Independente.



Miguel Villas-Boas

13 de agosto de 2017

O comunismo e o sarampo

O comunismo tem todas as características das doenças: tem sintomas específicos, provoca reacções alérgicas, costuma ser incurável, é geneticamente transmissível e terrivelmente mortal.

A saúde é um estado precário que não pressagia nada de bom, porque se perde quando se adoece. O que seja uma doença não é fácil dizer e, por isso, a comunidade científica não é unânime sobre este particular. Alguns comportamentos, como ser canhoto, foram tidos por anormais e depois deixaram de o ser; houve doenças que, entretanto, se extinguiram, como parece ser o caso da peste bubónica; e outras patologias só foram diagnosticadas a finais do século XX, como a síndrome de Asperger.
Sem querer meter a foice (e nunca melhor dito!) em seara alheia, temo que o comunismo possa ser em breve reconhecido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como doença. Em plena silly season, a proposta pode parecer disparatada, mas a verdade é que o comunismo reúne todas as condições das maleitas: tem sintomas específicos, provoca reacções alérgicas, costuma ser incurável, é geneticamente transmissível e terrivelmente mortal.
Ao nível dos sintomas epidérmicos, esta grave deficiência parece-se muito ao sarampo: os que a padecem ficam também, como se costuma dizer, vermelhos!
Provoca, em geral, uma reacção alérgica às religiões, mórbidas expressões da alienação popular (afinal, que é uma beata senão uma toxicodependente do ‘ópio do povo’?!). Este doentio efeito só se consegue eliminar pela proibição das crenças, como acontece na Coreia do Norte e na China, onde os fiéis são perseguidos e exterminados.
Outra alergia provocada por esta nova doença é a homofobia, como se prova pela história e prática do Partido Comunista Português: alguns militantes foram, por este motivo, expulsos do partido e aos gays não foi, por esta sua condição, permitida a adesão ao partido. Como escreveu Paulo Gaião, “estão por estudar a fundo as circunstâncias da expulsão de Júlio Fogaça, que era homossexual, do PCP, onde se podem ter misturado questões políticas com questões homofóbicas. Também está por perceber a razão de o PCP lidar ainda hoje com visível incómodo com o tema da homossexualidade” (Expresso, 21-1-2013). Não se creia que é coisa ultrapassada porque muito recentemente o PCP, quando a Assembleia da República aprovou um voto de condenação pelas perseguições aos homossexuais na Chechénia, absteve-se (Expresso, 21-4-2017).
Por sinal, já em 2015, este semanário noticiou o que quase toda a imprensa muito pudicamente silenciou: dois homossexuais, em plena festa do Avante, foram enxovalhados, sovados e exemplarmente expulsos, à boa maneira estalinista. Assim sendo, ainda bem que, como reza a publicidade, não há outra festa como esta! Curiosamente, não consta que nenhuma organização de defesa dos direitos destas minorias se tenha manifestado na Atalaia, ou frente à sede do PCP…
Claro que, se o caso tivesse ocorrido numa instituição católica, numa procissão ou romaria religiosa, teria dado brado na imprensa, sempre tão atenta a tudo o que possa servir como arma de arremesso contra a Igreja. Mas, como foi no ‘solo sagrado’ do PCP – para usar a expressão de Henrique Raposo, um dos poucos cronistas que teve a coragem de condenar o incidente – tudo ficou no silêncio dos deuses.
Na sua forma mais virulenta, esta doença é incurável. Enquanto a miopia e outras enfermidades tendem a ser menos agressivas com a idade, o quadro clínico dos comunistas não melhora com o passar do tempo. Um caso público e que, por isso, pode ser referido sem quebra do princípio deontológico da confidencialidade médica, é o de Jerónimo, o grande chefe dos pele-vermelhas-que-o-não-são-por-causa-do-sarampo: não obstante a sua provecta idade, não dá sinais de regressão da doença que, há longos anos, padece horrivelmente.
Segundo estudos científicos acima de qualquer suspeita, é muito provável que se trate de uma doença geneticamente transmissível: tenha-se em conta a tão ‘queriducha’ dinastia Kim, na Coreia do Norte, que já vai na terceira gloriosa geração de queridos líderes e que é uma autêntica democracia, segundo um paciente que, depois de vários anos na Assembleia da República, está agora internado na Câmara Municipal de Loures. Também as manas bloquistas, rebentos de um extremoso pai revolucionário, corroboram, a nível nacional, que o comunismo é geneticamente transmissível. Mas a violência persecutória e repressiva de uma encarniçada deputada socialista permite supor que, também por outras causas, se pode verificar a mesma grave intolerância à liberdade de pensamento e de expressão.
O comunismo é uma doença terrivelmente letal. Segundo estatísticas a homologar pela OMS, já ‘limpou o sarampo’ a cem milhões de vítimas: é o cancro da democracia, a peste negra da modernidade! Mata à fome, à bala e por suicídio induzido, profilaxia aplicada, com êxito, aos dissidentes e até a muitos camaradas de Lenine e Estaline. Outros foram desterrados para a Sibéria, cujas baixas temperaturas são muito saudáveis, segundo o salutar princípio de que o frio, siberiano ou frigorífico, conserva.
O candidato do PSD à autarquia de Loures é racista e não tem perdão, mas os comunistas são inimputáveis: nunca têm culpa porque, afinal, são doentinhos. Esperemos que, os seus correligionários, deles não tenham, por via da eutanásia, uma compaixão assassina. E que, pela nossa rica saúde, não sejam nunca poder, em cujo caso o nosso sofrimento seria verdadeiramente terminal.
Moral desta história imoral: a razão pela qual políticos, médicos e psicólogos são insultados nas redes sociais, acossados pela imprensa e perseguidos pelas suas ordens profissionais, não são as suas declarações, mesmo quando são polémicas. A razão é outra: não são de esquerda e, por isso, não têm direito à impunidade, que é exclusiva da geringonça. Em Portugal, a liberdade de pensamento e de expressão é de facto um elixir a que só comunistas, bloquistas e socialistas mais vermelhuscos têm direito. Por razão, precisamente, desta doença. Antes o sarampo…
Fonte: Observador

12 de agosto de 2017

Em tempo de tensão internacional, precisamos mais que nunca da Portugalidade como intermediária do diálogo intercivilizacional

Foto de Nova Portugalidade.


A ordem internacional caminha rapidamente, tudo o indica, para o multipolarismo e até mesmo para um novo realinhamento em blocos. País atlântico, partilhando a língua e a memória histórica com um grande Estado em ascensão (Brasil), com a nascente potência angolana e até com o mais recente Estado asiático (Timor-Leste), à portugalidade poderá caber um papel na intermediação de conflitos, tensões e incompreensões que certamente adensarão as relações entre o Ocidente e as outras civilizações.

Se há uma universalidade possível, uma consciência que é apanágio do tempo presente – um homem que se diz civilizado não o pode ser se não aceitar o direito à participação e escolha dos homens, sem distinção de sexo, etnia e grupo social no governo da sua sociedade; como também não pode ser civilizado se não repudiar a escravidão, a tortura e a opressão dos fracos – essa terá de ser entendida apenas no pressuposto da permeabilidade das diversas matrizes à assunção da única gramática comum, aliás contida em todas as expressões do sagrado, dos textos sapienciais às religiões reveladas, das cosmogonias primitivas às filosofias. O não matar em vão e o não roubar são culturemas universalmente partilhados pela espécie humana que antecedem em milénios as solenes racionalizações do século XVIII.

A tentação de ver democracias e mercado espalhados pelo orbe, ao invés de permitir a criação de uma comunidade dos homens, mais importante do que a comunidade internacional dos Estados, pode provocar o caos e uma perigosa resposta a esse cruzadismo nascido em alguns think tanks do hemisfério norte. Forçar civilizações e culturas para as quais a democracia de feição ocidental, de ethos individualista, é sinónimo de destruição da comunidade, da hierarquia, da disciplina e de outras expressões do estatismo orgânico em que sempre viveram, pode redundar, não no triunfo da democracia, mas no triunfo de tiranias reactivas de magnitude por ora incalculável. Para o concerto entre as nações e o apaziguamento de vontades de imposição e aculturação violenta pode e deve a Portugalidade concorrer.

Miguel Castelo-Branco