18 de outubro de 2017

Em novo dia de luto, a NP ajuda-o a perceber o drama dos incêndios

Foto de Nova Portugalidade.

Ao contrário de uma certa crença muito difundida, o processo de desarborização – a chamada crise florestal – não é um fenómeno recente, mas iniciou-se nos séculos XV e XVI com a destruição da economia rural medieval. Arroteamentos, alargamento do espaço destinado ao pastoreio extensivo e procura de madeira «grossa» destinada aos estaleiros navais de Lisboa, Porto, Aveiro, Viana e Lagos, provocaram a destruição das paleo-florestas.

No início do século XIX, quase todas as terras estavam nuas de arvoredo e os bosques das terras altas recebiam golpe sobre golpe num país onde a lenha rareava. Os quadros oferecidos pela literatura portuguesa de base provinciana são eloquentes desse país escalvado, poeirento e pedregoso.

Em 1867, o Relatório da Arborização, primeiro estudo sério produzido em Portugal, mostrava que apenas 7% do território era arborizado. Portugal era um imenso deserto. Com a criação do Regime Florestal (1901), o governo da monarquia apontou o rumo para a rearborização do território entre o Minho e o Tejo. Contudo, a implantação da república, a crise económica, a penúria crónica e a desorganização do Estado tornaram impossível responder à grave crise ambiental que assumia proporções de desastre. Teve de se esperar pelo advento do Estado Novo para que entrasse em execução o Plano de Povoamento Florestal (1938), inspirado nos programas então em voga nos EUA e Europa, o qual prolongou-se até 1972 e foi efectivamente cumprido.

Optou-se pela plantação extensiva do pinheiro bravo, a melhor solução para impedir a erosão dos solos, mas igualmente pela criação de uma polícia florestal e quadros técnicos do Estado com a incumbência de preservar o património florestal. Em 1965, 33% da superfície do país estava já coberta de matas. Os incêndios rareavam. A área de fogos nas décadas de 1950 e 1960 não excedia os 5000 hectares/ano. Veio a revolução, as estruturas entraram em colapso e só em 1975 arderam 80.000 hectares ou seja, o equivalente à soma de todos os incêndios verificados no país entre 1951 e 1974. A devastação continuou. Entre 1976 e 1981, a área anual de fogos foi de 40.000 hectares. O que restava da indústria das florestas entrou em colapso ao longo das décadas de 1980 e 1990. Desde então, verifica-se uma perda anual de 2% da superfície da mancha florestal.

A agravar o quadro de desastre, a indústria das celuloses entrou em força, implantando o famigerado eucalipto, espécie voraz que devastou os solos, a mata e a flora nativas, esgotando igualmente os lençóis freáticos. Ao longo das últimas duas décadas, tendo perdido competitividade, a indústria do papel entrou em recessão. Não sabendo o que fazer com o que restava das nossas florestas, o “poder autárquico” aproveitou-se da falta de autoridade do poder central e lançou mão à destruição do mínimo de racionalidade ainda existente. A absurda política de abertura de estradas para nenhures, as célebres “rotundas”, os loteamentos, os “parques industriais” que jamais passaram da fase de destruição dos bosques pré-existentes, os campos de golfe e “projectos de urbanização” que retiraram populações de cidades e vilas para a conurbação dos velhos centros urbanos, empurrando-as para áreas de bosque, deixaram-nos à beira do precipício. Ora, como as matas não dão votos, e como todo o regime vigora nesta criminosa inconsciência demagógica de “obras”, o que resta da floresta portuguesa está condenada à desaparição.

Não, a floresta europeia não está em regressão, mas em expansão. A excepção é Portugal. Porquê ?

Miguel Castelo-Branco


16 de outubro de 2017

O autoclismo

aaaaaa.jpg


 ...."Ir-me embora seria o caminho mais fácil, ia ter as férias que não tive".

Foi  isto o que o agarradinho e fedorento dejecto disse hoje. Haja quem urgentemente prima o autoclismo.


Nuno Castelo-Branco


A Portugalidade acaba de ganhar trinta novos Santos

Destruir o mito da "boa colonização holandesa do Brasil": os massacres de Cunhaú e Uruaçu

Foto de Nova Portugalidade.

A Igreja brasileira - e, por isso, a Portugalidade - acaba de ganhar trinta novos santos. São os mártires de Cunhaú e Uruaçu, friamente assassinados pela Holanda, que invadira o Brasil e então lá se encontrava como potência ocupante, no século XVII. A ocasião permite - obriga, até - reflexão sobre a estranha deturpação que se vem fazendo do papel da Holanda no Brasil, programa que sabemos confundir-se com a difamação de Portugal por muita historiografia lusófoba e Portugal e no Brasil.
Filha de muitos anos de propaganda anti-portuguesa nas escolas do Brasil, essa peculiar leitura da História ataca os construtores portugueses do país e exalta como bons, decentes e avançados os invasores holandeses. É outro exemplo do auto-ódio que foi elevado à dignidade de verdade por quem - e assim é com tantos governos de países portugueses, e especialmente com o do Brasil - faz da mentira a sua profissão. Mas este é especialmente extraordinário, pois o que pede do brasileiro - e o brasileiro é o português, mas sul-americano e com o seu próprio Portugal independente do Portugal europeu - é que grite de júbilo pela invasão da sua terra por povo estranho, pela violação das suas mulheres, destruição das suas aldeias e por série temível de saques, torturas, latrocínios e massacres.
Das incontáveis brutalidades cometidas pela Holanda em terra brasileira, há poucas mais repelentes que as de Cunhaú e Uruaçu. A primeira deu-se a 16 de Julho de 1645. Uma coluna holandesa, comandada por um tal Jacob Rabi, juntou-se a número indeterminado de índios potiguares e desceu sobre o Engenho Cunhaú, em Canguaretama. O povo do engenho encontrava-se a ouvir missa do seu padre, um tal André de Soveral, quando a tropa ocupante por lá entrou. Os detalhes do que se terá passado depois são de difícil, porque dura, explicação. Como os outros do aldeamento, o padre Soveral foi torturado; depois, os potiguares aliados da Holanda e às ordens de Rabi arrancaram-lhe o coração pelas costas. Os mortos foram mais de 70. Em reconhecimento do seu martírio às mãos do invasor, o Padre André de Soveral foi beatificado em 5 de Março de 2000 pelo Papa São João Paulo II.
A três de Outubro de 1645, novo acto de horror, nova manifestação de ódio irrefreado, novo motivo de vergonha a quantos ousam hoje cantar as virtudes da conquista holandesa. Cunhaú causara compreensível temor entre a população luso-católica e esta, acossada, refugiara-se na costa. Rabi e seu bando seguiram-nos e, encontrando grupo de oitenta, tentaram forçá-los à conversão ao calvinismo. Se o fanatismo religioso teve origem em J. Rabi, um judeu holandês, é impossível saber; é de crer que o acompanhariam presbíteros calvinistas, e que teria partido deles a exigência de apostasia. O que sabemos é que a população, embora cercada, humilhada e aterrorizada, recusou apostatar. O sacerdote português, Padre Ambrósio Ferro, foi supliciado e forçado a assistir à chacina de todos os outros. A um deles, um camponês chamado Mateus Moreira, foi arrancado, como ao Padre Soveral de Cunhaú, o coração pelas costas. Moreira terá deixado o mundo com brado de coragem e fé: "Louvado seja o Santíssimo Sacramento!" foi o que exclamou no momento do fim. Hoje, como o Padre André de Soveral e 28 outros mártires, Moreira foi canonizado pelo Papa Francisco em Roma. São trinta novos santos portugueses, brasileiros e da Portugalidade.
A ocupação holandesa do Brasil terminou em 1654. É prova infeliz do estado da educação brasileira que tantos vejam neste período de expropriações, perseguições e massacres uma época de progresso para o Brasil. Mas dessa mentira falará a Nova Portugalidade futuramente.

15 de outubro de 2017

O milagre do sol que não dançou…

Ante um acontecimento extraordinário, o céptico pura e simplesmente nega o facto, enquanto o fideísta – cujo lema seria a máxima ‘creio, porque é absurdo’ – não admite que o misterioso acontecimento possa ser racional. Entre estas duas atitudes extremas, que contrapõem a fé à razão, cabe uma posição intermédia, que é a católica: o milagre, não obstante o seu carácter extraordinário, pode ter uma explicação científica. A teologia, com efeito, reconhecendo a emergência do sobrenatural e a incompreensibilidade de Deus, não se abstém, contudo, de tentar uma justificação racional – como conhecimento científico que é – dos fenómenos de origem transcendente.
Que se pode dizer, científica e teologicamente, sobre o milagre do sol, acontecido na última aparição mariana, a 13 de Outubro de 1917? Há quem negue que tenha ocorrido algo extraordinário, não obstante o relato unânime de 50 a 70 mil testemunhas oculares, de todas as idades e condições. Alguns destes depoimentos, como ontem o Observador noticiou, foram agora publicados pelo Engº Bernardo Motta, no seu excelente trabalho sobre esta questão (O Milagre do Sol segundo as testemunhas oculares, Lucerna 2017). Também há quem pretenda que o sol bailou mesmo diante daquela multidão. Claro que, se assim tivesse sido, teria sido visto em todo o mundo em que, a essa hora, o sol era visível, pois o astro-rei não é uma exclusividade daquele lugar, província, país ou continente.
Se, na Cova da Iria, pareceu que o sol dançava, mas no resto do mundo não consta que se tivesse desviado da sua órbita natural, poder-se-ia admitir que se tratou de uma alucinação colectiva. Mas essa suposição não é crível, porque o fenómeno foi verificado também noutros lugares, nomeadamente em Minde, Alburitel, São Pedro de Moel – pelo poeta Afonso Lopes Vieira – e até Leiria.
Que toda aquela multidão tivesse tido uma visão simultânea, não obstante as suas diferentes atitudes – havia crentes, mas também incrédulos e ateus – e diversas localizações, também não parece razoável: fenómenos místicos desta natureza não são experimentáveis por uma tão ingente e variada multidão.
Resta a explicação científica deste fenómeno extraordinário. O Prof. Gonçalo Xavier de Almeida Garrett, testemunha ocular do milagre e professor catedrático da Universidade de Coimbra, foi o primeiro a propor uma interpretação meteorológica para ‘a dança do sol’. Mas foi o Prof. Diogo Pacheco de Amorim quem formulou a hipótese de aquele efeito óptico ter sido consequência de uma lente de ar. Este é também o parecer do cientista e teólogo Padre Stanley Jaki, doutorado em teologia sistemática pelo Instituto Pontifício de S. Anselmo, em Roma, e em física, pela Universidade de Fordham, em Nova Iorque; galardoado com os prémios Lecomte du Nouy, em 1970; e Templeton, em 1987. É autor de ‘God and the Sun at Fátima’ (Port Huron, Michigan 1999, Real View Books), uma extensa investigação de cerca de 400 páginas sobre o milagre do Sol; ‘The Sun’s miracle or of something else’ (Port Huron, Michigan 2000, Real View Books, 32 págs.); e ainda do artigo sobre o ‘Milagre do sol’, na notável ‘Enciclopédia de Fátima’ (Principia, Estoril 2007, págs. 355-358).
Segundo Jaki, “a explicação está no facto de duas correntes de vento que se encontrem num ângulo poderem fazer com que uma massa de ar entre em movimento rotativo. Caso haja uma inversão da temperatura, essa massa não só rodará como também será puxada para cima e para baixo, e muito provavelmente seguindo uma órbita elíptica. O tamanho de uma tal lente de ar pode variar entre poucos metros e 30 ou mais metros. Se, além disso, se encher de partículas de gelo, poderá fragmentar a luz do sol em várias, ou pelo menos algumas, cores do arco-íris, tal como foi observado em Fátima. Um fenómeno semelhante ocorre aquando da formação de tornados.”
Talvez alguns crentes fiquem decepcionados com esta explicação científica do que aconteceu na Cova da Iria no dia 13 de Outubro de 1917, mas pior seria se o milagre supusesse uma impossibilidade física, em cujo caso não seria possível a sua compreensão racional. Ora a fé, embora ultrapasse a razão, não a contradiz: nunca o sobrenatural é absurdo. Como dizia Chesterton, “o sobrenatural é natural”. “Se considerarmos que aquilo que foi observado naquele dia memorável na Cova da Iria – explica Jaki – foi uma lente de ar, teremos em mãos a possibilidade de encará-lo como um milagre físico sem nenhuma impossibilidade evidente. Entre as impossibilidades estaria uma mudança súbita da posição do sol, para já não falar na sua aproximação da superfície terrestre”.
Quer isto dizer que, afinal, não houve milagre nenhum na última aparição mariana na Cova da Iria?! Claro que houve, como pedira a Lúcia a 13 de Julho, para que todos acreditassem nas aparições, e a que a Senhora mais brilhante do que o sol se comprometeu para a sua última aparição. Como esclarece Jaki, um cientista que é também um homem de fé – dois atributos que não só não se contradizem como se completam – “o carácter milagroso dessa lente de ar deve ser procurado na formação que se criou por cima da Cova da Iria e na previsão do momento feita por Lúcia meses antes, bem como no facto de a lente de ar, sendo tão frágil, ter mantido a sua forma durante mais ou menos 15 minutos depois de descrever dois ou três percursos elípticos na direcção da terra. A explicação do acontecimento por meio de uma lente de ar dá conta, de forma satisfatória, de um complexo conjunto de ocorrências que são miraculosas na medida em que são imprevisíveis e muito raras”.
Em caso algum a vidente, ou qualquer outra pessoa, poderia produzir artificialmente aquele acontecimento, nem sequer prever, com noventa dias de antecedência, o dia e hora exactos em que tão raro e anómalo fenómeno meteorológico iria ocorrer, precisamente na Cova da Iria! Aliás, foi porque era público e notório que iria haver um milagre, que lá afluíram entre 50 e 70 mil pessoas! A mãe da Lúcia, temendo que nada de extraordinário acontecesse e a vida da sua filha perigasse, fez questão de a acompanhar. Que a vidente tenha previsto e anunciado, com três meses de antecipação, o que todos, crentes e incrédulos, viram, é, de facto, um grande milagre!
Deus, ao criar o mundo, dotou-o de leis, que são a partitura que explica, cientificamente, a harmonia universal. Mas, como não se esgotou a sua divina inspiração, de vez em quando surpreende-nos com um improviso que, sem contradizer as leis da natureza, desafia a nossa razão e interpela-nos. Não será isto, afinal, o milagre?
Fonte: Observador

14 de outubro de 2017

Livro: “Nas Teias de Salazar D. Duarte Nuno, entre a Esperança e a Desilusão” de Paulo Drumond Braga

teias-de-salazar


Uma biografia escrita numa perspectiva mais pessoal, que denuncia as relações entre o Estado Novo, o Presidente do Conselho e o Chefe da Casa de Bragança, S.A.R. Dom Duarte Nuno.
O livro recorre a testemunhos da família, incluindo os dois filhos do biografado sobreviventes, SAR D. Duarte Pio e SA D. Miguel.
Contém caderno com imagens e testemunhos do filho do biografado, o actual duque de Bragança.

13 de outubro de 2017

Desfazer as mentiras: percebamos a brutalidade portuguesa no Índico



A historiografia recente, concentrada que vem andando na constante perseguição e vilificação do passado português, usa frequentemente relatos de violências perpetradas por Portugal no Índico para a sua crítica do império. Episódios comummente citados são o bombardeamento de Calecute por Pedro Álvares Cabral após a chegada à Ásia da segunda Armada da Índia, ou o brutal ataque de Vasco da Gama, em 1502, ao grande navio árabe "Miri". No primeiro caso, Álvares Cabral ordenou o bombardeamento intenso do grande porto indiano de Calecute e a destruição das muitas embarcações de comércio ali fundeadas. Os portugueses terão feito fogo de um dia inteiro sobre a cidade, cuja população foi forçada a fuga desordenada; terão, ainda, tomado, apresado e destruído todos os navios mercantes que encontraram no porto. Pela contabilização de Roger Crowley, historiador britânico especializado em assuntos navais, a armada portuguesa teria feito, só na investida contra os navios de comércio no porto, para cima de seiscentos mortos.

O caso do navio árabe "Miri" (em persa, "Comandante", "Governador"), atribuído por Gaspar Correia e grande número de outras fontes a Vasco da Gama, é especialmente chocante. Tratava-se de grande navio muçulmano. Transportava coisa de trezentas pessoas de todas as condições, assim como rica carga, e devia dirigir-se a Meca ou ao Egipto quando Vasco da Gama o localizou e atacou. O navio rendeu-se prontamente e terá oferecido farto resgate a Gama. Este recusou-o repetidamente, mesmo quando as ofertas muçulmanas se tornaram desmedidamente generosas; depois, abandonou o Miri, a que fora para negociar, e ordenou que se fizesse fogo sobre a nave. A tripulação daquela pôde controlar os muitos fogos que nela deflagraram, seguindo-se depois batalha de vários dias. O Miri resistiu até ao limite das suas forças acabando por afundar-se apenas após terrível perseguição. A morte intencional, lenta e pelo fogo de centenas de civis corajosos chocou a tripulação portuguesa, abundando desta os relatos críticos da actuação do almirante. Um deles, e talvez o mais relevante, é o do próprio Correia em "Lendas da Índia".

Sendo inquestionável que um e outro casos demonstram razoável dose de brutalidade, a sua análise racional convida-nos a conhecer a circunstância em que foram praticados. Portugal não chegara à Índia com o propósito inicial de fazer a guerra. A sua política fora, num primeiro momento, de comércio e aliança com aquilo que Lisboa esperava serem as potências cristãs da Índia. A estratégia portuguesa era de desviar o comércio oriental das mãos dos muçulmanos do Mediterrâneo; o que pretendiam era secar os cofres e do Islão, roubar-lhe a riqueza que usava para pagar o seu poder, abrir a Portugal as portas da Terra Santa e, assim fazendo, defender a Cristandade e engrandecer a monarquia. Com efeito, a primeira e terceiras armadas da Índia - a de Gama, que lá chegou em 1498, e a de Cabral, que chegou à costa indiana em 1501 - tinham tido ambas o objectivo de fazer do Samorim de Calecute um aliado. Gama, julgando então tratar-se o rei asiático de monarca cristão, levou-lhe presentes; Cabral, conhecendo o desinteresse do Samorim pela medíocre oferenda de Gama, embarcou em Lisboa prendas formidáveis com o intuito de conquistar a amizade daquele rei asiático. Os portugueses começaram, pois, por apresentar-se como amigos potenciais do Samorim, intenção que a escolha de Cabral, um diplomata sem especial experiência naval ou militar, como almirante sublinha.

Os planos portugueses para o Oriente alteraram-se rapidamente e, quase sempre, por motivos alheios ao seu controlo. O momento inaugurador da discórdia ocorreu em Calecute e na presença de Álvares Cabral. Aquele comandante, como vimos, fora enviado à Índia com a missão de fazer do Samorim amigo dos portugueses. Esse propósito saiu plenamente gorado. Manipulado, provavelmente, pela rica classe mercantil muçulmana residente naquele grande porto indiano, o Samorim dificultou o embarque da especiaria desejada por Cabral. Pior, os mercadores islâmicos terão, ao que parece, engendrado o ataque de multidão hindu à feitoria portuguesa existente na cidade desde a viagem de Vasco da Gama. A feitoria foi cercada e incendiada; uns setenta portugueses, entre os quais se incluiu o feitor, Aires Correia, acabaram brutalmente abatidos. O primeiro homem a fazer chegar a Lisboa notícia do Brasil, Pêro Vaz de Caminha, foi igualmente atacado e retalhado pela multidão enfurecida. O bombardeamento de Calecute, de que resultou a demolição de parte da cidade e a morte, só no porto, dos referidos seiscentos homens, foi resposta à agressão indiana - não constituiu, como vemos, acto de agressão.

A derrocada das relações entre Portugal e o primeiro potentado indiano que conheceu aprofundar-se-ia nas décadas seguintes. Desfeitos pelo massacre da feitoria portuguesa, a que Cabral replicou brutalmente ao destruir a fogo de canhão parte da cidade, os laços viram-se ainda mais danificados pela decisão do Samorim em perseguir os portugueses após a saída destes de Calecute. Nada conseguiram, pois a artilharia potente, melhores navios e tripulações experimentadas de Portugal impuseram, no recontro que se seguiu, respeito à armada do Samorim. Mas o ataque a Calecute, a que sucedeu, na segunda viagem de Gama ao Oriente, a carnificina no Miri, devem ser compreendidos como resposta indesejada a uma provocação que, em rigor, Portugal não pediu ou pretendeu. O Miri era propriedade de um tal Al Fanqi, rico mercador de Meca e feitor muçulmano de Calecute. O afundamento do navio foi represália pela investida do ano anterior à feitoria portuguesa na cidade indiana, recontro em que haviam caído Vaz de Caminha e setenta outros soldados de Portugal. Gama conhecia Al Fanqi, sabia-o um dos causadores da tragédia, dispôs-se a vingar-se e, com isso,a refazer a reputação de Portugal no Oriente. Se, pois, houve inversão de política - e se Lisboa passou, do plano comercial, a esboçar para a Índia verdadeiro projecto de conquista militar e assentamento imperial - tal deve-se muito mais a hostilidade local atiçada por mercadores islâmicos que à agressividade gratuita dos portugueses.

RPB


12 de outubro de 2017

Os Távora e Marialva - Roteiros Reais


Os Roteiros Reais da Real Associação de Lisboa estão de volta no próximo dia 14 de Outubro às 14:30, em que recuperamos uma visita cancelada em Abril passado, um passeio no Bairro Alto, entre a Igreja de São Pedro de Alcântara e o Convento dos Cardaes com o nosso associado Joel Moedas Miguel para nos falar das famílias Távora e Marialva.

O custo é de 15,00 eur por pessoa e o ponto de encontro é no Miradouro de São Pedro de Alcântara.

No século XVII, após a Restauração da Independência, duas das mais poderosas e influentes famílias da época, Távora e Marialva, vão mandar construir dois conventos numa área da cidade que então começa a ganhar um novo dinamismo: o Bairro Alto. São Pedro de Alcântara e Cardaes para além de duas casas dedicadas a Deus, vão ser duas construções de afirmação social e política. Venha descobrir estas e outras histórias destas famílias que serviram Portugal e a Coroa, destes conventos e desta área de Lisboa e apreciar a sua enorme beleza artística.

Para mais esclarecimentos e inscrições contacte-nos através do endereço secretariado@reallisboa.pt, pelo telefone 21 342 81 15 ou presencialmente na nossa Sede nos horários habituais.

11 de outubro de 2017

Posição de SAR D Duarte de Bragança sobre o referendo de independência da Catalunha

Durante o Programa de televisão de 5 de Outubro de 2017  “5 para a meia noite”, a apresentadora Filomena Cautela questiona D Duarte sobre a sua posição relativamente aos recentes acontecimentos na Catalunha .




“várias pessoas pediram-me para não falar nesse assunto, mas eu acho que é interessante falar sobre esse assunto ”

” primeira coisa é que o Rei Filipe fez aquilo que tinha a fazer ,que é o papel dele que é defender a unidade de Espanha”
“por outro lado talvez a atitude do Governo não foi tão feliz, porque se realmente a eleição era considerada ilegal, por não corresponder à Constituição espanhola ,porquê impedir a votação? acho que a votação devia ter acontecido livremente para saber a opinião da população e depois, uma vez que o Parlamento reconhecesse a opinião da população da Catalunha então poderia decidir de que maneira iria resolver o problema”
“A minha proposta [para a possível resolução do problema ] é que a Catalunha devia ser um Reino unido com Espanha , um pouco como é a Escócia com a Inglaterra…há várias formulas de Reino Unido hoje no Mundo e a Catalunha podia ter o estatuto de Nação, Reino Unido mas com o mesmo Chefe de Estado (o mesmo Rei), as mesmas forças armadas e ai era realmente uma evolução que não seria traumática para ninguém (…) por outro lado se formos a ver esta votação , menos de 50% é que votaram , como os que eram contra a independência não votaram”
Eu creio que não teria feito mal conhecer verdadeiramente a opinião dos catalães sobre esse assunto e depois é preciso ver que se a Constituição espanhola diz que a Espanha é indivisível (e toda a gente votou esta Constituição, foi aprovada por referendo em Espanha) não faria sentido violar a Constituição, ou o Parlamento espanhol muda a Constituição ou então não pode haver separação territorial”

10 de outubro de 2017

EFEMÉRIDES “ALGO” DIFERENTES



  “Nós somos livres, nosso Rei é livre,
   nossas mãos nos libertaram”.
   Grito da Liberdade Portuguesa
   (Das míticas Cortes de Lamego – Almacave)[1]


Comemorou-se a cinco de Outubro, os 874 anos do Tratado de Zamora (de 1143), em que nesta cidade do então Reino de Leão, estando presente o Rei D. Afonso Henriques, o Rei Afonso VII e um delegado do Papa, Cardeal Guido de Vico, foi reconhecido a passagem do Condado Portucalense, a Reino e confirmado o título de “rei” ao filho de Henrique da Borgonha.         
É também comemorada a implantação do regime republicano em Portugal, evento ocorrido há 107 anos (1910).
O primeiro é evocado apenas em Coimbra, na Igreja de S. Cruz, onde repousam os restos mortais do fundador da nacionalidade portuguesa e do seu filho D. Sancho I.
E a iniciativa de tais comemorações é da Real Associação de Coimbra a que, por norma, se associam as suas congéneres de Aveiro e Viseu.
Em boa hora o fazem.
O resto do país ignora o evento, salvo uma ou outra iniciativa académica ou patriótica.
A evocação da República é feita um pouco por todos os 90.000 km2 que nos restam, mas apenas pelas autoridades do Estado, e de alguns autarcas, mais por dever de ofício e cumprimento de calendário, do que por qualquer tipo de convicção ou doutrina.
Até a Maçonaria deixou, há muito, a coisa perder o viço…
Aliás a comparação do que se passou lado a lado em Coimbra – já que a Câmara Municipal se situa adjacente ao vetusto templo que serve de “Panteão Nacional” aos dois primeiros monarcas – ilustra bem o ponto em que estamos.
A cerimónia republicana durou uns 20 minutos onde se hasteou a bandeira do regime ao som de “A Portuguesa”, hino patriótico contra a humilhação do ultimato de 1890 e logo aproveitado para hino da República, quando devia ser apenas “Nacional”, e finalizou com mais duas marchas. Por todo, não juntaram 50 pessoas, mesmo tendo em conta os mais de 20 elementos da banda filarmónica contratada para abrilhantar a cerimónia, transeuntes e turistas de ocasião.
Ao menos a Igreja estava composta com cerca de 200 pessoas, missa evocativa, bandeiras, coral, palavras sentidas, deposição de flores.
Foi simples, mas teve elevação; deu-se preferência ao espiritual, à bem-aventurança e à perenidade da Pátria.                
Como convém à verdadeira Aristocracia do Espírito.
Ao contrário do momento republicano, laico – apesar da Nação não o ser – efémero, sem alma.
De um lado o enlevo espiritual da independência – a soberania é a questão mais séria de qualquer povo – o apelo à coesão da individualidade e a identidade portuguesa e a continuidade da sublimação pátria.
Do outro, comemora-se a divisão dos portugueses, a luta ideológica fratricida, o apelo ao nada.
E cujo substrato se baseia numa revolta armada ilegal, que nada justificava, antecipada de um crime de regicídio e que nunca teve sequer a coragem de se referendar.
A Monarquia teve sempre em conta a “Res pública” – (do latim “coisa do povo” ou “coisa pública), ou seja o governo da cidade, enquanto a “República”, além de ter traços antinaturais, representa a perturbação permanente no governo da cidade. É o granel institucionalizado.
Não é seguramente por acaso que às casas onde grupos de estudantes, da Universidade de Coimbra, resolvem viver juntos, se dá o nome de “Repúblicas”…
Apenas uns comentários finais sobre a data do Tratado de Zamora, que pensamos dever continuar a ser comemorado, mas não com o carácter de dia da independência de Portugal, já que nunca se chegou a nenhum consenso sobre tal. Daí o dia de Portugal ser a 10 de Junho, mas também aí não se comemora bem a independência.
A questão não é pacífica e podemos ilustrá-la do seguinte modo:
A independência, “de facto”, ocorreu no dia 24 de Junho de 1128, no fim do combate de S. Mamede, onde os interesses do Condado Portucalense, se individualizaram, face ao Rei de Leão (que incluía a Galiza), e ao Conde Fernão Peres de Trava, que pretendia assumir o controlo do Condado, tendo em conta a vitória obtida.
Muitos outros combates foram necessários para a completar. Mas essa tarde, pode, e deve, ser considerada a primeira tarde portuguesa!
Poderíamos ainda considerar o dia 25 de Julho (de 1139), como data a considerar, já que no fim da batalha de Ourique os guerreiros da hoste portuguesa elevaram Afonso Henriques a Rei, à maneira visigótica (ele até essa data intitulava-se “infante” ou “príncipe”); ou algures em 1140, ano do primeiro documento em que Afonso Henriques aparece já como Rei (o que foi aproveitado para se comemorar o duplo centenário da Fundação e da Restauração, em 1940), ou até o 14 de Maio de 1179, data em que, finalmente, o Papa Alexandre III (a fonte do Direito Internacional, na altura), através da Bula “Manifestis Probatum”, reconhece a soberania do Reino de Portugal, apesar do nosso Rei nunca ter pago a quantia acordada em onças de ouro…
Temos assim, que o Tratado de Zamora configura “apenas” um reconhecimento “de jure”, digamos a nível regional, mas mantinha uma vassalagem de Afonso Henriques a Afonso VII, já que este se intitulava “Imperador de toda a Hispânia”. E não estamos com isto a retirar importância ao tratado.
Deste modo parece-me que a data mais consentânea para se assumir como a da independência nacional, seja a de 24 de Junho, pois essa data é que deu início e permitiu tudo o resto, e só se reconhecer “de jure”, algo que já existe “de facto”!
Tendo-se ainda em conta o gesto de Afonso Henriques ao armar-se cavaleiro a si próprio, em 1125, (também em Zamora) e não se ter conhecimento certo da data das míticas Cortes de Lamego – Almacave, que terão proclamado a independência e liberdade do Reino, por não haver prova documental de que se tenham realizado.
E enquanto não houver uma decisão abalizada – já não direi consensual – sobre o assunto, e ao fim de tantos séculos não acredito que vá haver, nem tão pouco se vislumbra qualquer órgão do Estado, ou instituição, que queira discutir o assunto, pois que se continue a comemorar o Tratado de Zamora, para não nos esquecermos de quem somos e de onde viemos.
Fazê-lo, mesmo sem o querer, e não sendo esse o objectivo, em contraponto a uma data funesta, em que ocorreu uma revolução que melhor seria não ter existido, também não parece de somenos.
Afonso Henriques, meu velho “pai”, repousa lá no céu eternamente, e faz com que a tua Espada, Valentia e Saber, continue a proteger a doce terra Lusitana.

João José Brandão Ferreira
              Oficial Piloto Aviador 


[1] Ressurgido no início da Restauração, em 1640; adaptado pelo Integralismo Lusitano.


Fonte: O Adamastor