15 de dezembro de 2017

A Armada portuguesa, a mais velha do mundo, faz anos. São 700 anos a defender Portugal

Foto de Nova Portugalidade.


Celebram-se hoje (12 de Dezembro) setecentos anos da fundação da Armada portuguesa. O simples facto de a marinha ser mais antiga que a larga maioria dos Estados evidencia, grita mesmo, verdade importante a respeito da natureza dos portugueses: somos um povo do mar. Por ditame da geografia e do espírito, foi nas grandes extensões oceânicas que Portugal se fez livre. Lisboa conquistou-se do mar, não podendo Afonso Henriques tomá-la sem a participação dos cruzados que, a caminho da Terra Santa, adentraram o Tejo para o golpe final sobre o ocupante mouro. A inserção de Portugal na economia europeia deu-se pelo mar. Durante a guerra da independência, a Lisboa que o Mestre de Avis defendia - e que era já a mais importante urbe do Reino - resistiu por uma nossa frota, vinda do Porto com mantimentos e mãos para a luta, ter rompido o bloqueio que Castela nos impunha no Tejo. O Infante encontrou no mar a receita da nossa liberdade, e o mar foi o alfa e o ómega da nossa existência enquanto povo da conquista de Ceuta, em 1415, até à recente integração de Portugal na Europa política.

O interesse recente pela natureza oceânica da nação portuguesa é, sem dúvida, muito bom e muito útil, mas parece pecar por miopia, redução e desconhecimento. Se falar em mar significar falar na expansão da Zona Económica Exclusiva, fazê-lo será, por muito que a ZEE nos interesse, bastante pouco. Um olhar renovado, mais ambicioso e mais amplo, deve reconciliar os portugueses com as ondas. Falar em mar deve ser falar em Portugalidade, na nossa civilização global e no direito dos portugueses a se reintegrarem nela; deve ser, sobretudo, ver nele oportunidade de libertação e certeza de potência política, económica e militar. O Atlântico Sul, durante tantas centúrias autêntico lago de bandeira e língua portuguesas, foi deixado com a nossa retirada sem ordenação e sem segurança. Não se percebe porquê, até porque a região continua a ser o que foi desde o século XVI: o interior de triângulo estratégico composto por Lisboa (Portugal), o Rio de Janeiro (Brasil) e Luanda (Brasil). O regresso dos povos lusíadas a essas águas tão habituadas à nossa presença é uma urgência que não mais pode ser retardada. Ora, bastaria que se fizesse uma força naval conjunta das portugalidades atlânticas para que esse regresso fosse consumado. Num tempo em que tanto se fala de cooperações em matéria de defesa, fica esta de sabor e tradição portuguesas. Para que tanto possa fazer-se, e para que o oceano e a Armada de novo possam ser ferramentas ao serviço de Portugal, muito haveria a fazer: apetrechar a frota, refazer a indústria naval, repensar a marinha como garantia de prestígio nacional, de relevância estratégica e de prosperidade económica.

Setecentos anos após a fundação da Armada por Manuel Pessanha, 1º Almirante-mor do Reino, e pelo Rei Dom Dinis, Portugal parece necessitado de refundá-la. Refundá-la, sim, em horizontes, em ideias de missão e serviço, no modo como a marinha é instrumento primeiro da grandeza do país e, para que ela possa ser-lhe útil, nos meios de que necessita e que hoje não possui. Precisamos de um novo Dom Dinis e de um novo Manuel Pessanha. Mas, enquanto eles não chegam, temos uma Armada que é a mais antiga do mundo, a obreira de tantos triunfos e a razão de muito orgulho. Parabéns, Armada de Portugal. Venham os próximos 700.


13 de dezembro de 2017

Homenagem Depois do Tempo a um Homem Antes do Tempo!

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Gonçalo Ribeiro Teles é um Homem do nosso tempo.

Depois de uma vida inteira dedicada à Causa Pública, Gonçalo Ribeiro Telles foi, finalmente, homenageado pelo Estado Português! Não sei se pela má consciência dos desastres ambientais de tão trágicas consequências para os Portugueses, se pelo frenesim com que o nosso Presidente da República agracia portugueses mais ou menos distintos?
Acho que este tardio e justíssimo reconhecimento do Estado foi felizmente precedido, de há muito tempo, por um alargado e sincero reconhecimento dos Portugueses. De todos os Partidos Políticos, de todas as sensibilidades socioculturais. Da Nação de que tantos não gostam, por puro preconceito, de falar.

Hoje, digo-o sem nenhuma satisfação, tem mais valor falar de “Sentido de Nação” – de gostar de ser português e de cumprir a seu dever de cidadania ao serviço dos portugueses, do que “Sentido de (um) Estado” que não temos a certeza se é “de bem” mas que temos comprovadamente a convicção de que não faz bem, em tantas áreas importantes da sua intervenção. E é por isso que entendo que Gonçalo Ribeiro Teles é um homem com Sentido de Nação! A tal que lhe deu o merecido e sincero reconhecimento, antes do próprio Estado.

Gonçalo Ribeiro Teles, enquanto político distinguiu-se sempre pelo que mais tem faltado hoje às classes dirigentes – o sentido de ética, de responsabilidade e de compromisso!

A verdade é que Gonçalo Ribeiro Teles foi mais do que um grande dirigente político e um grande cidadão. Foi o Precursor das mais importantes políticas agro-ambientais aplicadas em Portugal e foi teimosamente pioneiro, no permanente alerta às autoridades públicas dos muitos erros cometidos por tantos Governos na preservação, ordenamento, desenvolvimento e qualificação do Território no sentido pleno da palavra!
Gonçalo Ribeiro Teles foi o primeiro “Verde”, por consciência e cidadania, antes de existirem sequer os Verdes por oportunidade política!
E não foi um pioneiro por qualquer arte de adivinhação ou por uma cultura do pessimismo fatalmente portuguesa. Mas antes por ser um dos maiores conhecedores mundiais desta tão importante área do saber – o conhecimento desse extraordinário Mundo Vivo onde todos queremos estar bem!
Foi um Ecologista inteiro – da Terra onde vivemos, da Humanidade que somos e do que é necessário fazer para que estas duas realidades se harmonizem.
Gonçalo Ribeiro Teles foi talvez o primeiro “Ecologista Politico” que sempre soube da urgência permanente de aproximar a “Ecologia da Terra” da “Ecologia Humana”.

Também na defesa da Instituição Real e da forma Monárquica de regime foi um dos primeiros pioneiros da nossa Democracia. Porque antecipou, antes de quase todos, que seriam as Monarquias os regimes que melhor defenderiam as Democracias do futuro. Vejam simplesmente quais são na actualidade as grandes Democracias as grandes Ditaduras do Mundo e terão uma amostra aproximada do que Ele, também aqui, antecipou!

É assim um Apóstolo da Modernidade – de uma modernidade que nos deve fazer pensar, apesar de, como Ele, corrermos o risco de termos razão antes do tempo!
A minha homenagem a este Apóstolo da Modernidade que tão justamente recebe, por feliz coincidência (?) a Ordem do Infante Dom Henrique, outro dos mais célebres precursores da História de Portugal. Aquele de quem Fernando Pessoa dizia ter sido primeiro grande “Globalizador”, o primeiro homem no Mundo que juntou Continentes depois da Glaciação!
Ao Apóstolo da Modernidade - Gonçalo Ribeiro Teles com quem tanto aprendi, o meu modesto, sincero e eterno obrigado!  

Antonio de Souza-Cardoso
Presidente da Causa Real

12 de dezembro de 2017

Milagres, Ciência e Fé

Ante um facto extraordinário, cabem duas possíveis explicações: a da fé, que remete para a omnipotência divina; e a da razão, que tenta compreender cientificamente o fenómeno. O reconhecimento do carácter milagroso de um facto não impede contudo a sua explicação científica, como aconteceu com o milagre do sol, cujo centenário ocorreu no passado dia 13 de Outubro. O milagre, embora pressuponha uma intervenção extraordinária de Deus, não se contrapõe à ciência, nem à razão, antes as reconhece e confirma. A fé não é uma crença irracional, mas um conhecimento razoável, mesmo que o seu fundamento último não seja a evidência, mas a autoridade de Deus que se revela.
Ainda há quem entenda, como os positivistas, que Deus – que, nesse caso mais não seria, como pretende a maçonaria, do que o grande arquitecto do mundo – não intervém e, por isso, rejeitam tanto a revelação sobrenatural como os milagres. Mas também há crentes que negam que os milagres tenham explicação racional. Ora o milagre, embora exija uma intervenção divina excepcional, também admite uma explicação científica.
Nem tudo o que é de fé pode ser, contudo, demonstrado racionalmente. A teologia católica reconhece que há realidades que excedem a compreensão humana como, por exemplo, a própria entidade divina. A razão humana não logra compreender a Deus, embora dele tenha um conhecimento que, ainda que imperfeito, é verdadeiro. O mistério de Deus, uno e trino, transcende a razão, mas não é absurdo, nem irracional. A fé nunca contradiz ou nega a razão, embora por vezes a exceda, como acontece nos mistérios, nomeadamente o da Santíssima Trindade.
O que é logicamente contraditório, nem sequer a Deus é possível: não pode existir, em caso algum, um círculo quadrado ou, por absurda hipótese, um morto-vivo. Quer isto dizer que Deus não é todo-poderoso? De modo nenhum, apenas que a sua omnipotência o não pode contradizer, nem opor-se às leis que por, sua determinação, regem o universo. Outro exemplo: Deus é libérrimo, mas não pode não existir, nem prescindir de nenhum dos atributos que convêm necessariamente à sua essência.
O absurdo lógico, em termos epistemológicos, é o que o cientista Padre Stanley Jaki designa por ‘impossibilidade evidente’. A explicação científica de um milagre não pode nunca supor nenhuma ‘impossibilidade evidente’ porque, a contradição inerente a essa impossibilidade, provaria racionalmente a sua inexistência. Portanto, só pode haver um milagre físico onde também há, para a ciência, essa possibilidade.
Para além do absurdo lógico que, por ser contraditório, não é possível, também são impossíveis os absurdos naturais: fenómenos que, sendo possíveis do ponto de vista racional, contradizem a natureza, na medida em que não são congruentes com as leis por que se rege o universo, tal como foi criado por Deus e é conhecido pela ciência. Não seria impossível, em termos lógicos, uma árvore falante ou uma pedra andante; mas na ordem natural existente, tal como foi criada por Deus, não faz sentido uma árvore falante ou uma pedra andante, porque a fala e a mobilidade não são propriedades dos seres vegetais ou minerais, respectivamente.
Quando acontece um milagre, Deus não só não faz nada que seja logicamente contraditório – como uma recta curva – como também não contradiz as leis naturais. Se Deus desse visão a uma árvore, ou a uma pedra, um tal milagre seria antinatural, mas dar a vista a um cego é algo em si mesmo natural, porque a visão corresponde naturalmente aos seres humanos. Neste sentido, também é natural que um morto ressuscite, porque a vida é própria da condição humana. Mas, fazer que uma pedra veja, por hipótese, seria antinatural, e o que não é natural também não é racional, nem científico, porque a ciência é a razão da natureza.
Quando Deus faz um milagre, actua extraordinariamente, mas sem alterar a natureza dos entes sobre os quais intervém: a água pode converter-se em vinho, porque ambos são líquidos; um santo pode ter estigmas, porque o corpo humano é passível de ter chagas; o Criador pode multiplicar um pão em muitos outros, porque é uma questão de quantidade; Deus tem poder para suscitar um cardume no mar, que é onde os peixes naturalmente vivem; um morto pode ressuscitar, porque a vida é própria do ser humano; Jesus pôde fazer Pedro andar sobre as águas, porque o corpo de um ser humano pode, em certas circunstâncias, não se submergir, etc.
Quer isto dizer que, nestes casos e outros semelhantes, não houve milagres?! Claro que os houve e muito grandes até, não tanto por aquilo que aconteceu como pelo modo como aconteceu. Com efeito, esses factos só são explicáveis por uma extraordinária intervenção divina.
Aliás, o reconhecimento do carácter milagroso de um determinado fenómeno não é da competência teológica, mas científica. Ou seja, é à ciência que incumbe afirmar que aquele facto não tem, nem pode ter, uma explicação natural. Não apenas que não se sabe, agora, como se operou uma certa cura, mas que em caso algum a mesma poderá ser atribuída a uma causa natural, pelo que apenas resta, por exclusão de partes, a hipótese de uma intervenção sobrenatural.
Imagine-se, por exemplo, que alguém tem uma grande dor de cabeça, reza a Santo António e a dor desaparece. Foi milagre? Pode ter sido mas, como não se pode provar que a dor não teria desaparecido, mesmo que não se tivesse invocado o santo, é óbvio que um tal facto não constitui, nem para a ciência nem para a Igreja, um milagre. Se o mal já não for uma enxaqueca, mas um tumor maligno espalhado por todo o corpo e, depois de rezar ao santo, o tumor desaparecer instantaneamente, é evidente que houve milagre. É certo que há tumores, até malignos, de que há cura natural ou médica, mas se a mesma for total e instantânea, é evidente que se deveu a uma causa extraordinária, pois nenhum processo natural pode produzir esse efeito em tão pouco tempo.
Nem todos têm o mesmo apreço que a Igreja católica tem pela ciência. Com efeito, quando consta alguma cura eventualmente milagrosa, a autoridade eclesial considera-se incompetente para ajuizar cientificamente o facto e, por isso, são os cientistas, por vezes não-crentes e até agnósticos, que se pronunciam sobre o caso, em função das provas científicas existentes. Só se entenderem que o fenómeno não admite, nem pode admitir, nenhuma explicação natural é que a Igreja reconhece o milagre. Neste sentido, o milagre é uma constatação científica, que a Igreja se limita a registar.
A fé cristã não é cega. Não só não se opõe à ciência como a pressupõe e potencia: só assim se explica que tenha sido precisamente a Igreja católica a fundar as universidades, bem como inúmeras escolas e centros de estudo e de investigação científica. O pior inimigo da fé cristã não é, nem nunca foi, a sabedoria dos cientistas, mas a arrogância dos ignorantes. Era certamente a estes que Dostoiévski se referia quando dizia que algumas pessoas têm tanta ‘fé’ que até são ateus!
Fonte: Observador

11 de dezembro de 2017

SAR, D.Duarte de Bragança: “ALGUNS PRESIDENTES PERCEBERAM QUE O PAPEL QUE O PAÍS QUER DO CHEFE DE ESTADO É O DE REI”



Os incêndios, reordenamento do território, dívida Pública, Língua Portuguesa, o papel do chefe de Estado e o do representante da família real, o que fez e faz em Timor-Leste, pela diáspora na Ásia, na Síria e nos países africanos de expressão portuguesa, a questão catalã, as monarquias e as democracias. O Duque de Bragança anda pelo mundo e pelo país, é recebido em câmaras comunistas e conservadoras, e abriu a porta de uma casa para falar ao SAPO 24.

O S.A.R, Duque de Bragança Dom Duarte Pio recebeu o SAPO 24 no coração de Lisboa, em pleno Chiado, na Rua Duques de Bragança, num prédio a uns metros da Fundação Manuel II, uma instituição particular, sem fins lucrativos, de assistência social, educacional e cultural, com acções no território português, nos países lusófonos e nas comunidades portuguesas em todo o mundo.
Recebeu-nos a servir, ele mesmo, um chá honeybush, chá medicinal sul-africano. Bebemos antes de arrancar com uma conversa de cerca de duas horas, uma conversa que terminou com Dom Duarte Pio, de novo na cozinha, a fazer uma tosta de queijo (açoriano) e a servir um copo de vinho. A que se seguiu mais uma hora de conversa.
Se ao início, fomos apresentados a Dom Afonso Maria, filho mais velho, que nos abriu a porta, no final cumprimentámos Dom Dinis Maria, o filho mais novo. A filha Dona Maria Francisca esteve presente em relato sobre a sua presença no baile de debutantes em Paris em que foi apresentada à sociedade. A mulher, Dona Isabel de Bragança, veio à conversa quando se falou de carros elétricos ou não conduzisse ela mesmo um.
Numa sala com paredes decoradas de estantes com livros, pontificava ao centro, numa mesa, um pato embalsamado, que sobressai entre livros, conversou-se sobre dívida pública, incêndios, reordenamento do território, da questão catalã, Portugal, a preservação da língua portuguesa na diáspora e do papel que D. Duarte, passado e presente, de Timor a Angola, das monarquias e da República.
Muita da acção e intervenção de D. Duarte “mora” fora de Portugal. Exemplifica com Timor-Leste, Síria, África e Ásia. Suspira um lamento: não ter sido mais interventivo no seu próprio país.
No seu discurso do jantar dos Conjurados (jantar que antecede o dia 1 de Dezembro) tocou em vários assuntos.
... Falo todos os anos sempre de assuntos de interesse geral e de outros temas mais de interesse dos monárquicos. Tem a ver com uma certa cultura política que interessa aos monárquicos ou aos que manifestam interesse no tema e tem dúvida se são republicanos ou não.
Ainda há pessoas com essas dúvidas?
A maioria dos portugueses não tem uma opinião segura. A sondagem do centenário da República, 40% disse não se sentir republicano. Uma sondagem que custou 10 milhões de euros e nunca foi divulgada. A sondagem anterior, 29% eram favoráveis a um rei em vez de Presidente da República.
O papel do presidente da República é o que defende que deveria ser o do rei. Marcelo Rebelo de Sousa faz o que gostaria de fazer?
Faz. Como fez o general Ramalho Eanes. Alguns presidentes da República perceberam que o papel que o país quer do chefe de Estado é o papel de Rei. O público suspeita sempre que um presidente de origem partidária tenha simpatia com o seu partido. A independência política é posta em causa, com excepção de um militar, que não tem um partido por detrás. Marcelo tem feito um papel extraordinário, reconhecido pelo país todo.
No discurso falou dos incêndios e de ordenamento do território.
Gonçalo Ribeiro Telles antes de entrar para o governo [em 1976 com Mário Soares e entre 1981 e 1983 com Francisco Balsemão] explicava como deveria ser a política de desenvolvimento rural e política florestal. Na altura era uma utopia. Depois houve consenso sobre posições tomadas [reserva agrícola nacional e ecológica]. O pinhal de Leiria, com 700 anos, é do Estado e nunca tinha ardido, mostra algo de profundamente errado na nossa política florestal. Não se pode pedir aos proprietários, por norma gente sem recursos e idosa, que limpem as florestas quando não há compensação económica. Tem que haver uma gestão associativa da floresta com o Estado a ajudar nos custos de manutenção e actividades económicas rentáveis no Interior que atraiam populações.
Que actividades económicas. Agricultura e/ou indústria?
Ambas. Fixa populações. A indústria pelo país torna muitas vezes a agricultura como uma atividade complementar. Há concelhos em que a única actividade remunerada advém das câmaras municipais.
Ainda em relação aos incêndios...
Os bombeiros, gente muitíssimo dedicada que põe em risco a vida são indispensáveis. Agora, há qualquer coisa de muito errado na estratégia de combate aos incêndios. As Forças Armadas estavam proibidas de participar no combate porque, segundo a versão de governos anteriores, é uma concorrência desleal contra as empresas privadas de combate aos incêndios florestais... E depois as leis. Os nossos incendiários são considerados tontinhos. Poucos são presos. Noutros países são tão graves como os assassinos.
A questão financeira do país também foi abordada. Revisitando, como viu a intervenção do FMI. Teria feito diferente?
Foi lamentável que se tivesse chegado a essa situação. Não sei se havia alternativas para a irresponsabilidade de governos anteriores que levaram o país a essa situação de falência. Hoje estamos a ir pelo mesmo caminho com uma dívida pública de 130% em relação ao PIB. Em qualquer empresa seria uma falência. Há possibilidade de corrigir, mas não se pode gastar o que não se ganha e não se tem. Temos que aproveitar uma altura em que o país está um pouco melhor, em que há uma certa recuperação, para pagar a dívida e não aumentar.
Deveríamos aproveitar para pagar a dívida pública?
Na Fábula de La Fontaine, a formiga trabalhava e a cigarra cantava no verão e morria à fome no inverno. Somos um bocado a cigarra. É síndrome republicano. O que o que importa são os próximos 4 anos, eleitorado contente e ganhar eleições. Nas monarquias, mesmos aquelas em que aparentemente o rei não tem nada a dizer, têm uma grande influência junto dos políticos. O rei da Bélgica, Suécia, Dinamarca e Reino Unido, conversam com os políticos, ajudam a criar consensos e acordos e previnem contra a corrupção. Sobretudo estão preocupados que os netos herdam um país em condições. Os republicanos têm, normalmente, uma visão de curto prazo.
Falemos do D. Duarte. O que faz e por onde anda?
Em Portugal vou fazendo o que posso. As câmaras municipais convidam-me e à minha família para atividades culturais. Todas, desde o partido comunista ao CDS. Entre 50 a 60 convites por ano. Participo em várias organizações, desde assistência social, ambiental.
E fora de Portugal?
Nos países da CPLP, todos eles, no Brasil a minha importância advém de ser descendente da Rainha Isabel que foi quem libertou os escravos... tenho tido experiências interessantes. Desde governadores angolanos que me convidam porque a minha presença ajuda nas suas relações públicas porque há uma grande popularidade em Angola, Moçambique e Guiné em relação ao Rei de Portugal.
A sua relação a Timor é próxima. A que se deve?
O parlamento timorense deu-me a nacionalidade e o governo um passaporte diplomático. É muito prático quando vou, por exemplo, a Angola. Perguntam-se sempre: passaporte encarnado (risos)?
Mas é só para ter um passaporte?
Não. É uma grande satisfação participar na vida do país. Em 1974, no começo do 25 de Abril, fui pela primeira vez e fiquei impressionado com o sentido de tradição do povo e respeito pelos antepassados. Durante a ocupação Indonésia, com o Ramos-Horta criámos o movimento internacional de apoio a Timor com a ajuda do senador Kennedy e dos estudantes portugueses em Rhode Island. Em viagem à Indonésia, com o Bispo D. Ximenes Belo e o Mário Carrascalão, convencemos o governo indonésio que tinha de mudar de atitude. Não tinha aconselhado que fizessem o referendo. Fizeram e correu mal.
Falou das tradições do povo timorense. Não há em Portugal?
Não é tão profundo. Ainda hoje o timorense no interior se lhe perguntarem se são portugueses, dizem que sim, são portugueses. São timorenses, mas também portugueses. Foi um acordo tomado pelos seus antepassados com os reis de Portugal. É uma aliança de 500 anos.
Portugal republicano esqueceu essa diáspora na Ásia?
Naquela região há muita gente ligada a Portugal que não ligamos nenhuma. Na Birmânia, há cidades portuguesas. Na Tailândia, em Banguecoque, há quatro paróquias portuguesas. Há 10 mil católicos descendentes de portugueses. Em Ceilão é fortíssima a nossa presença. No ano passado, com o apoio da Fundação Manuel II e do governo timorense organizou-se, em Malaca, o primeiro Congresso dos lusodescendentes da Ásia. Para o ano será em Timor.
Está mais virado para a CPLP do que para Portugal?
A Fundação Manuel II colabora para a preservação da língua portuguesa no mundo e em programas de assistência rural em África. Somos aliados de uma das fundações observadoras da CPLP. E tenho tentado por o Brasil (com uma capacidade e conhecimento cientifico aproximado dos Trópicos) a colaborar com África e Timor. A Fundação Padre Anchieta, governo do Estado de S. Paulo, está a colaborar com o envio de filmes portugueses. Faltam programas em português na televisão timorense.
Mas o governo português não disponibiliza?
Disponibiliza através da RTP Internacional e RTP África. Mas a RTP Internacional está mais virada para a Europa e para as comunidades que aqui vivem e gostam mais de futebol (risos).
D. Duarte não gosta de futebol?
Gosto. Da festa e do público. Do jogo que é estimulante. Acho que o desporto devia ser amador, sei que é utópico... Os clubes profissionais, reconheço, possibilitam a prática desportiva. Mas o desporto profissional é uma contradição. Não deve ser um circo. Deve ser uma actividade de estímulo, em que todos deviam concorrer sim, mas seguindo o exemplo grego e o renascimento do espírito olímpico.
Mudando de assunto: A questão catalã.
A cultura tem para alguns povos mais importância que os factores económicos e políticos. A Escócia não tem interesse económico e político em abandonar o Reino Unido. No caso de Catalunha é sobretudo a questão cultural. A maioria aparentemente não é a favor da separação de Espanha. Mas a maioria não foi votar.
Que solução defende?
Tenho sugerido que a melhor solução seria a Catalunha ser um reino unido com a Espanha. Daria toda a vantagem cultural e espiritual de ser um reino e não criava os traumatismos de uma separação política com Espanha. Infelizmente os independentistas catalães são muito radicais e seguem aquela linha desastrosa da 1ª República catalã em que perseguiram padres e católicos. Esse radicalismo receio estar muito presente no movimento independentista catalão.
E o resto da Europa? Também assistimos a alguns movimentos...
Há movimentos culturais. Córsega, Bretanha, Itália do Norte, reinos de Nápoles, são uma revolta dos povos contra uma uniformização cultural que está a ser imposta. O país que dá o melhor modelo que deveria ser a União Europeia é a Suíça. A cultura de cada Cantão é muito respeitada. Há leis diferentes. E há Cantões em que se vota ainda por braço no ar. A Confederação Helvética não pertence à UE é porque consideram que põe em causa a própria identidade.
Há partidos europeus que defendem uma monarquia constitucional. É esse o seu modelo?
É o único que existe hoje. As monarquias europeias, ocidentais, asiáticas, como a Tailândia e Camboja, são monarquias democráticas. Marrocos é mais democrático que alguns países do Magrebe. Muitas são mais democráticas que as repúblicas na mesma zona. Não se pode continuar a fazer essa confusão entre república e democracia. O Dr. João Soares disse muitas vezes que a maior parte das monarquias são mais democráticas que a maioria das repúblicas.
O único aspecto em que uma república é mais democrática que uma monarquia é simbólico: ter um chefe de estado eleito. Só que antes é escolhido pelos partidos. Se não o for, não consegue.
Assiste-se hoje a uma renovação da própria monarquia. Os príncipes ingleses e espanhol não casaram com princesas?
É consequência do espírito das monarquias. Os reis tentaram ser o símbolo da sua época. Na Idade Média estavam na frente das batalhas, na Renascença eram os defensores do progresso, cultura e ciência. E hoje, o único valor da nossa época é a democracia. Por isso, os príncipes fazem casamentos democráticos.
O seu filho D. Afonso está preparado para a sucessão?
Está mentalizado que está ao serviço de Portugal. Todos eles estão. Para além de se governarem economicamente têm sempre que contar que o país pode precisar deles. Agora, como é que o país quer ou quererá, não sei. Pode ser como eu, fazendo diplomacia complementar à diplomacia do Estado, na divulgação da língua portuguesa. Ou pode ser que o povo português queira o meu filho como chefe de Estado.
Tal implicaria uma alteração constitucional?
É. A Constituição da República proíbe que se coloque em causa a forma republicana de governo. É uma frase mal colocada porque o que se põe em causa é uma forma republicana de chefia de estado. E em Portugal o presidente da República não governa. Os reis reinam, mas não governam. São necessários dois terços dos deputados para mudar.
Os deputados teriam de mudar o sistema em si. Acredita?
Poderá mudar no dia em que o nosso parlamento for verdadeiramente democrático e não tiver preconceitos ideológicos antimonárquicos. Um europeu ser antimonárquico é um insulto às melhores democracias europeias que são monarquias. Países nórdicos, Bélgica, Luxemburgo, Reino Unido. Não são menos democráticos que Portugal. São até mais porque não tiveram interrupções nas suas democracias. A única monarquia europeia que viveu um período pouco democrático foi a Itália de Mussolini.
Sente falta de um partido monárquico no Parlamento?
O PPM [Partido Popular Monárquico] foi um partido sério e útil com Ribeiro Telles e Henrique Ruas. Pela primeira vez debateu-se a nível nacional a questão monárquica e introduziu a ecologia. Hoje não faz muito sentido quando há monárquicos em todos os partidos. Não se pode contestar o direito de um partido ter no seu programa ideias monárquicas.
Teria que começar na Assembleia da República?
Por aí acho que não se vai lá porque quase todos os monárquicos têm outras opções importantes para eles. Por isso acham preferível apoiar outros partidos.
Olhando para trás arrepende-se de algo que fez ou que não fez?
Arrependi-me de algumas iniciativas políticas que podia ter tido e não tive, foram oportunidades perdidas. Podia ter sido mais interventivo.
E de que se orgulha de ter feito ou ter contribuído?
As grandes iniciativas políticas... as negociações em Timor. O acordo entre o movimento de libertação de Cabinda e o governo angolano. A negociação que lancei na Síria, embora não tenha corrido muito bem porque os movimentos mais radicais islâmicos não quiserem participar. Provavelmente os movimentos moderados e o governo sírio [de Bashar al-Assad[ vão seguir a proposta. Na altura concordaram com um governo de unidade nacional e em retirar os privilégios ao partido Baath. Não impor uma democracia totalmente livre, porque seria perigoso, mas sim de consensos.
Foi mais interventivo fora de Portugal. Lamenta?
Fui útil lá fora. Aqui os políticos não me ouvem muito. Não lamento. Recordo-me da minha proposta para o Ultramar em que propus uma espécie de Commonwealth. Organizei uma lista de candidatos para as eleições de 1972. O Marcelo Caetano expulsou-me de Angola, fui também expulso de São Tomé onde estava a organizar uma lista de candidatos à Assembleia Nacional. Marcelo Caetano tinha razões que eram muito pouco patrióticas. Já tinha negociado com os EUA e África do Sul para a independência de Angola. Não era aquilo que interessava aos angolanos. Em 1975 tentei aproveitar as liberdades democráticas, mas fui impedido. Em São Tomé fui expulso três vezes.

Fonte: Sapo24

10 de dezembro de 2017

Um príncipe preso, morto e esquecido pela liberdade dos portugueses

Foto de Nova Portugalidade.


Foi uma espécie de Dom Fernando, o príncipe de Portugal que morreu encarcerado em Tânger para que se não abrisse mão de Ceuta. Irmão de Dom João IV, Rei de Portugal após a revolução nacional de 1640, Dom Duarte de Bragança era Senhor de Vila do Conde e um dos mais importantes aristocratas do Reino. Era filho de Teodósio II, Duque de Bragança e, como o seu irmão restaurador, meio-castelhano de nascimento: a sua mãe era Ana de Velasco e Girón, filha, por sua vez, de Juan Fernández de Velasco y Tovar, importantíssimo nobre espanhol e 5.º Duque de Frias, 3.º Marquês de Berlangas, 7.º Conde de Haro e 11.º Condestável de Castela. Nasceu em 1605, em Vila Viçosa. Em 1634, pretendendo glória castrense e livre que era das obrigações do seu irmão, Duque desde 1630, Dom Duarte rumou à Alemanha. Passou a servir os exércitos do Imperador Fernando III, cunhado do Rei Filipe III & e IV de Portugal e Espanha.

Em 1638, encontrando-se Dom Duarte de visita a Portugal, foi-lhe sugerido pelos que já planeavam o vindouro levantamento anti-espanhol que ficasse em Lisboa e tomasse, chegada a revolução, o mando dos exércitos portugueses. O Senhor de Vila do Conde terá considerado esse caminho de acção, mas recusou-o em virtude dos seus deveres com o Imperador. Estes factos narra-os pena anónima em "Relação de tudo o que passou na felice Aclamação do mui Alto & mui Poderoso Rei D. JOÃO O QUARTO, nosso Senhor, cuja Monarquia prospere Deos por largos anos", obra publicada em 1641 e frequentemente atribuída ao Padre Nicolau da Maia e Azevedo. Quando sobreveio a Revolução, pois, e tomou a coroa portuguesa o Duque de Bragança, Dom Duarte achava-se na Alemanha para dar luta às forças protestantes da União Evangélica. Madrid, temendo que o experiente general português regressasse à península em defesa dos direitos do seu irmão, tramou a sua prisão e exigiu-a à Áustria, que a concretizou. Duarte, que estava na Alemanha como servidor de Fernando III, foi por ele feito prisioneiro e entregue às autoridades espanholas. Seguiu para Milão, onde o tiveram aprisionado até 1649. Morreu nesse ano, vítima de anos de clausura e privações de toda a estirpe.

O triste fim sofrido por este príncipe de Portugal causou abundante comoção entre os portugueses de então. A corte cobriu-se de negro ao conhecer a morte de Dom Duarte, e o seu destino trágico, traído que foi o português às mãos do imperador que tão fielmente servira, foi motivo de escândalo e exasperação. O seu corpo jamais foi devolvido a Portugal, e o túmulo que Dom João IV dedicou ao irmão em Vila Viçosa mais não é que um cenotáfio. Lêem-se lá estas palavras: "Neste túmulo deveriam recolher-se os despojos mortais do Infante Dom Duarte de Bragança, que pela Fé de Cristo sete anos batalhou nos exércitos do Imperador da Alemanha. Recompensados seus gloriosos feitos com vil traição, foi o Príncipe português levado agrilhoado para o Castelo de Milão depois de inumeráveis afrontas e ultrajes, lá morreu encarcerado em 1649, aos quarenta e quatro anos de idade. Não podendo cumprir-se o seu desejo de para sempre repousar nesta igreja, por se terem dispersado as cinzas do seu corpo, aqui seu nome se guardará para eterna memória de tão alto sacrifício pela Liberdade da Pátria."

RPB


9 de dezembro de 2017

Maria Francisca, uma infanta discreta mas cuja beleza está a dar nas vistas



No baile de debutantes, em Paris, a beleza da filha de D. Duarte Pio e D. Isabel de Bragança não passou despercebida a ninguém. Maria Francisca, de 20 anos, é considerada pela revista francesa 'Point de Vue', uma das solteiras mais cobiçadas do mundo.











Como a  família real portuguesa prima pela discrição, há muito tempo que não se viam os três filhos de D. Duarte Pio e D. Isabel de Bragança, em actos públicos. Aconteceu agora no 'Le Bal', um dos mais reputados bailes de debutantes do mundo inteiro, que se realiza em Paris. Este ano, foi no Hôtel The Peninsula Paris.

Uma das debutantes deste ano foi Maria Francisca de Herédia de Bragança, de 20 anos. A infanta de Portugal disse à revista francesa 'Point de Vue' [publicação que, em 2014, considerou a jovem portuguesa um dos melhores partidos do mundo] que acedeu em participar neste evento quando descobriu que três primas suas também iriam ser apresentadas à sociedade: Charlotte do Luxemburgo, Natasha d'Arenberg e Maria Pia de Jong.

A beleza e a elegância de Maria Francisca não deixou ninguém indiferente. Sofisticada e muito sorridente, a infanta usou um vestido assinado por Laurinda Farmhouse, a mesma estilista que desenhou o vestido de casamento da sua mãe, D. Isabel de Bragança.

Maria Francisca frequenta o curso de Comunicação da Universidade Católica, em Lisboa, vive durante a semana num apartamento na zona do Chiado e só regressa à casa de família, em Sintra, aos fins-de-semana. Contudo, neste momento a jovem infanta trocou Lisboa por Roma, cidade que escolheu para fazer Erasmus. 

Fonte: Flash!

8 de dezembro de 2017

Leitura: “Nossa Senhora e a história de Portugal – Alianças com Santa Maria”

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«Como se os anos portugueses fossem contas de um prolongado rosário. Como se cada dezena – gozosa, luminosa, dolorosa ou gloriosa – se tornasse numa época nacional»: é nestes termos que o cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, se refere ao livro “Nossa Senhora e a história de Portugal – Alianças com Santa Maria”, que será apresentado na próxima sexta-feira, em Braga.
Da autoria de D. Francisco José Senra Coelho, um dos dois bispos auxiliares de Braga, e editado pela Paulus, o volume, de que oferecemos um excerto, referente à Real Ordem de Nossa Senhora da Conceição, sublinha, nas palavras do autor, que «o que Maria foi é o que a Igreja é convidada a ser continuamente».
«Como se detalha nestas páginas, da fundação ao interregno, do interregno à restauração, da restauração ao oitocentismo e finalmente em Fátima, a nossa história, em geral, e muitas histórias, em particular, ganharam cor religiosa, porque referidas a Deus. E particularmente mariana, porque “protagonizadas” por Santa Maria, sua Mãe», acentua D. Manuel Clemente, também historiador.
«Israel, o povo das alianças» constitui o primeiro capítulo da obra, seguido pela descrição das sete alianças de Portugal com Nossa Senhora, cobrindo períodos históricos que vão desde os primeiros séculos do cristianismo até à actualidade.
D. Nuno Álvares Pereira, a vassalagem do rei D. João IV, o Liberalismo, as aparições de Fátima, o mosteiro dos Jerónimos, Vila Viçosa e o Sameiro são alguns dos temas abrangidos pelo livro, que se conclui com os textos das consagrações de Portugal à Virgem Maria pelos bispos portugueses, de 1931 a 2016.
A obra vai ser apresentada a 8 de Dezembro, dia da solenidade litúrgica da Imaculada Conceição, às 17h30, na cripta da basílica do santuário de Nossa Senhora do Sameiro, em Braga, pelo Cón. José Paulo Leite de Abreu, vigário-geral da arquidiocese de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica.
A Real Ordem de Nossa Senhora da Conceição
D. Francisco José Senra Coelho
In “Nossa Senhora e a história de Portugal – Alianças com Santa Maria”
Como começámos por referir, D. João VI instituiu no Brasil, no Rio de Janeiro (em 6 de Janeiro de 1818 – dia da sua aclamação), a Real Ordem de Nossa Senhora da Conceição. Por alvará datado do Rio de Janeiro aos 10 dias do mês de Setembro de 1819, ordenou D. João VI que, sendo muito frequentes os conhecidos benefícios que a nação portuguesa recebera sempre do patrocínio da Santíssima Virgem da Conceição em todas as épocas arriscadas da monarquia, de tal maneira que o rei D. João IV (1640-1656), por decreto de 24 e carta régia de 25 de Março de 1646, se lhe constituiu feudatário, e a fez Padroeira do reino, continuando com a mesma devoção do rei D. Pedro II (1683-1706), que em 1694 confirmou a Confraria dos Escravos de Nossa Senhora da Conceição, ereta na igreja de Vila Viçosa, e o rei D. João V (1706-1750), que por carta régia de 12 de Novembro de 1717 mandou celebrar a mesma festividade com toda a pompa; D. Pedro III engrandeceu a Real Capela da Conceição no Palácio da Bemposta, que tinha sido ereta pela rainha D. Catarina da Grã-Bretanha, quando se recolheu a Portugal; e a rainha D. Maria I que em 1751 se alistou na Confraria dos Escravos da Conceição, havendo-se, no ano 1769, igualmente alistado na mesma confraria o rei D. João VI, então príncipe. Este resolveu no dia da sua coroação, como já vimos acima, por decreto dado no Rio de Janeiro, com data de 6 de Fevereiro de 1818, criar a nova Ordem Militar da Conceição, cujos estatutos e desenhos das medalhas de condecoração se encontram juntas no citado alvará de 10 de setembro de 1819. A capital da nova Ordem era Vila Viçosa, e o deão da capela real desta vila era comendador nato da Ordem e, com ele, também os cónegos, prior e beneficiados desta Colegiada, e os da mesa da corporação dos Escravos seus cavaleiros natos.
O objectivo do rei como grão-mestre da nova Ordem era homenagear Nossa Senhora da Conceição como Rainha e Padroeira do reino, pelo facto de Portugal ter sobrevivido como país independente às guerras napoleónicas que tinham assolado o pais e a Europa e para distinguir aqueles que se esforçaram pela autonomia portuguesa.
Mais tarde, um decreto régio definiu que a Ordem deveria ser conferida como condecoração militar aqueles que serviam o rei, aos devotos católicos fiéis a Nossa Senhora e ao Papa.
A Ordem apresenta-se com os graus de Cavaleiro, Comendador e Grã-Cruz e pode atribuir ainda a Medalha de Mérito. O grau de Grã-Cruz era normalmente reservado aos membros de famílias reais e o de Comendador aos membros da alta nobreza que mantinham cargos na Corte junto ao rei, enquanto o grau de Cavaleiro conferia “nobreza menor” pessoal. Importa não perder do horizonte histórico a centralidade desta quinta aliança de Portugal com Nossa Senhora: entre 1807 e 1811, a França invadiu e humilhou gravemente Portugal por três vezes. D. João VI percebeu que a independência de Portugal subsistiu, apesar destes atentados, graças à lealdade e bravura de alguns portugueses fiéis à sua pátria e ao seu rei e à proteção da Padroeira nacional. Em ação de graças, o rei cria a Ordem da Padroeira para agradecer a Nossa Senhora a sua proteção, renovando a sua consagrara, e para, reconhecidamente, homenagear todos aqueles que foram fiéis à independência nacional e em solo pátrio permaneceram e lutaram contra todas as vicissitudes provocadas pelas invasões francesas.