INTRODUÇÃO
“Fomos descobrir o mundo em caravelas e regressámos em traineiras.
A fanfarronice de uns, a incapacidade de outros e a Irresponsabilidade de todos, deu este resultado: o fim sem a grandeza de uma grande aventura.
Metade de Portugal a ser o remorso da outra metade.”
Miguel Torga (sobre a Descolonização).
Começou a ser recorrente ouvir dizer que sem o 25 de Novembro, o 25 de Abril não seria possível (ou teria vingado). Mas quero chamar a atenção, outrossim, de que se não tivesse havido o 25 de Abril, não seria necessário ter ocorrido o 25 de Novembro…
Quer isto dizer que os eventos ocorridos a 25 de Novembro de 75, decorreram do que aconteceu a 25 de Abril de 74. Mais propriamente a partir do dia 26…
Vamos ter de fazer uma curta viagem no Metropolitano do tempo, para recordar o que se passou entre as duas datas.
ENQUADRAMENTO
“O Segredo da Liberdade chama-se Coragem”
Péricles, 490 A.C.
O Regime do “Estado Novo” caiu em menos de 24 horas, o mesmo tendo acontecido com a Monarquia, em 1910 e com a I República, em 1926, só para ficarmos por aqui.
Não vamos analisar as razões dessa queda, é outra história.
No próprio dia 25 de Abril, as forças que promoveram o Golpe de Estado, rapidamente transformado em “Revolução”, perderam o controlo dos acontecimentos, por quatro ordens principais de razões:
- Não haver unidade de comando;
- Não se ter pensado minimamente o que fazer no dia seguinte;
- Não se ter declarado o “Estado de Sítio”;
- Os militares começaram a prender-se e a sanearem-se uns aos outros, sem culpa formada, o que levou à destruição da cadeia hierárquica, da disciplina e tudo o mais que mantém um Exército de pé.
Deste modo o Poder caiu rapidamente na rua. Quem passou a dominar a rua foram o PCP e vários grupos de extrema-esquerda, como o MRPP e alguns que foram surgindo, como a UDP, o PCP- ML, o MES, e vários outros de todos os gostos e feitios.
Quem, porém, mandava no PCP, único partido que permaneceu organizado e clandestino na oposição ao Estado Novo, era o PCUS, Partido Comunista da União Soviética.
Em oposição a todos estes formaram-se em Espanha dois movimentos de cariz contrário, o ELP e o MDLP, a que tem que se juntar o Movimento Maria da Fonte. Estes movimentos foram responsáveis por cerca de 570 acções violentas, que se têm de se considerar como “reactivas” ao que se estava a passar.
Os campos extremaram-se, os eventos precipitaram-se de forma célere e caótica, de tal modo que o país chegou a ser apelidado de “manicómio em autogestão”. O que era verdade.
Descrever tudo o que se passou levaria horas, pelo que, vou apontar apenas as datas principais e (algumas) consequências.
No dia 15 de Maio de 74 tomou posse como Presidente da República o General Spínola; no dia anterior aprovou-se uma lista de passagem compulsiva à reserva de 42 oficiais generais, a que se deviam juntar outros 24, que já tinham sido saneados no dia 1 de Maio.
No dia 16 de Maio tomou posse o 1.º Governo Provisório, chefiado pelo Professor Palma Carlos.
No dia 11 de Julho, menos de dois meses depois, cai o I Governo Provisório e tomou posse o 2.º Governo Provisório, chefiado pelo Coronel Vasco Gonçalves, que se veio a revelar um verdadeiro agente cripto comunista infiltrado no seio das Forças Armadas.
A 28 de Setembro, dá-se a contramanifestação à anunciada manifestação em apoio de Spínola (que não chegou a haver), onde pela primeira vez há bandos de civis armados a fazerem bloqueios, barricadas e controle de veículos e pessoas, sobretudo em Lisboa e arredores.
Spínola demite-se e entra em cena um personagem digno de Maquiavel, que até então sempre influenciara os acontecimentos na sombra: o General – hoje Marechal do Exército Português - Costa Gomes.
Toda a ala “spinolista”, é presa ou sai de cena e passa a conspirar.
A 11 de Março, uma série de golpes e contragolpes, que se sucederam a uma preparação psicológica que culminou na armadilha da “Matança da Páscoa”, leva à fuga do General Spínola para Espanha e à anulação de todos os seus apoiantes e afastamento de toda a ala moderada – se assim se pode chamar – do MFA e membros das comissões coordenadoras dos Ramos.
Entra-se num processo acelerado de comunização dos órgãos do Estado, da economia e da sociedade. Há perseguições e ocupação de propriedade por todo o lado.
O processo de Descolonização descontrola-se totalmente, ou melhor, é conduzido exclusivamente para servir os interesses da URSS, potência inimiga de Portugal desde a sua formação, em 1922.
As Forças Armadas entram em decomposição acelerada e transformam-se numa espécie de “bandos armados” – vergonha que nenhum tempo que passe, poderá apagar.
A situação política, social, económica, financeira e de segurança degrada-se dia a dia.
Em 7 de Agosto de 75, é publicado o “Documento dos Nove”, ou “Documento Melo Antunes”, que contestava o radicalismo da situação política em que se entrara, defendendo alguma moderação e equilíbrio.
A acção dos seus promotores leva a que na Assembleia do MFA realizada em Tancos, em 5 de Setembro, a linha mais radical sai enfraquecida levando à substituição de alguns Conselheiros da Revolução.
No dia 27 de Setembro, manifestantes cercam a embaixada de Espanha, em Lisboa e acabam a invadi-la e incendiá-la – o que poderia ter levado a uma resposta militar por parte dos nossos vizinhos.
Na sequência cai o V Governo Provisório, chefiado por Vasco Gonçalves, que durara pouco mais de um mês e tinha dado origem às situações mais descabeladas. Sucedeu-lhe um novo governo, agora chefiado pelo Almirante Pinheiro de Azevedo.
As forças mais esquerdistas, porém, não desarmavam, originando vários incidentes, por causa da Rádio Renascença, o que levou a uma ordem do Conselho da revolução para se destruir as suas antenas, na Buraca, em Lisboa, ordem que foi efectuada por uma força de 70 Páras, comandada pelo então Tenente Barroca Monteiro, no dia 7 de Novembro.
A Igreja Católica começa a reagir e põe os fiéis na rua. As organizações ilegalizadas que se preparam fora do país, começam a fazer acções dentro do território nacional. Rebentam bombas e são atacadas sedes do PCP, sobretudo no centro e norte do País.
Todos estes eventos levam a que na Base Escola das Tropas Páraquedistas, apoiantes esquerdistas, levassem a que muitos sargentos e praças pensassem que estariam a ser instrumentalizados para um golpe das “forças reaccionárias”, e por se constar que se queria acabar com o Regimento, o que levou a grande agitação e está na origem de 123 oficiais – dos 124 existentes – a abandonar a unidade, ficando esta a ser comandada pelo Major Pessoa, que passaram a contestar o CEMFA General graduado Morais e Silva.
Face ao ocorrido o CEMFA decide desactivar as tropas pára-quedistas e ordenar a passagem á disponibilidade das praças e o regresso a Tancos das companhias destacadas na BA 6 e Monsanto, o que foi recusado pelos visados. No que eram apoiados por outras forças militares e grupos políticos de extrema-esquerda e pelo Copcon.
Por alturas do 11 de Novembro, o mal estava consumado com a independência de Angola. O número de retornados (termo impróprio – que designou os portugueses fugidos da sua terra para a mesma terra, que se designava “Metrópole”) ocorria em catadupa.
No dia 12 de Novembro uma enorme manifestação cerca o Parlamento durante dois dias e, na sequência, a 20, o VI Governo suspende funções, isto, é, entrou em greve!
No dia 21 ocorre, no RALIS, um “Juramento de Bandeira”, em que 170 recrutas juraram, de braço estendido mas de punho cerrado, fidelidade não à Bandeira Portuguesa, mas ao povo e à revolução socialista!
E assim se chegou às vésperas do 25 de Novembro em clima de pré guerra civil, restando dizer que as forças apelidadas de direita, ou reaccionárias, fascistas, etc., tinham nos meses anteriores efectuado cerca de 300 atentados em todo o País, contra alvos considerados esquerdistas.
Este clima de guerra civil é ilustrado pela leitura de um “Manifesto dos oficiais revolucionários”, no dia 20 de Novembro – apenas cinco dias antes da data ora tratada – feita por um dos subscritores, falecido em Abril deste ano, num varandim do Palácio de Belém, a que assistiu o PR Costa Gomes, perante uma manifestação enorme, promovida pela “União dos Sindicatos da Cintura Industrial de Lisboa”.
O manifesto terminava assim: “Viva a revolução socialista; viva o Poder Popular Armado; Oficiais Revolucionários, com os soldados, os operários e os camponeses; unidos venceremos”.
Aparentemente, a substituição de Otelo Saraiva de Carvalho no comando da Região Militar de Lisboa, por Vasco Lourenço, faz espoletar a acção. Mas não se sabe exactamente quem e como se deram as ordens, embora a versão mais consensual as dá como vindas da cúpula do COPCON.
Vejamos agora, sucintamente, como actuou a Força Aérea, ou o que restava dela.
A ACÇÃO DA FORÇA AÉREA
“Não há vento favorável para aquele que não sabe para onde vai.”
Séneca
Ao contrário do que se possa pensar – dadas as narrativas que se costumam ouvir e ler, sobre o tema – a acção da FA não foi irrelevante, longe disso.
E enquadrou-se numa tentativa de tomada de Poder por forças comunistas e anarquistas que estavam apoiadas por algumas unidades militares constituídas com infiltrados e que se tinham desvairado.
O principal ponto da estratégia posta em prática pelas forças mais moderadas da contenda, foi defensiva, isto é, manter posições e deixar que quaisquer forças golpistas dessem o primeiro passo, a fim de se denunciarem, para depois fazerem contra-ataques cirúrgicos.
Enfim, alguma coisa se tinha aprendido relativamente ao que se tinha passado no 28 de Setembro e no 11 de Março…
*****
A partir de Abril de 75 e por iniciativa do capitão Tomás Rosa e do tenente Costa Parente (ambos da FA) um grupo de militares daquele Ramo começou a reunir-se para discutir e colher informações sobre os diferentes aspectos do processo revolucionário (onde se destacam as reuniões efectuadas na Estalagem do Farol).
Deste grupo faziam parte oficiais e sargentos das mais variadas patentes e especialidades bem como alguns oficiais do Exército e da Marinha e, como estavam colocados em diferentes unidades e serviços, cabia-lhes transmitir aos seus camaradas o que se passava nessas reuniões. Este facto acabaria, inevitavelmente, por criar um espírito de sintonia em relação aos problemas nacionais num número muito alargado de militares.
Para estas reuniões eram convidadas personalidades civis de vários quadrantes políticos e de reconhecido mérito em diversas áreas. Assim para além de alguns que eram assíduos (Pedro Coelho, Hélder de Oliveira, Almerindo Marques, Raul Junqueiro, Daniel Amaral, Almeida Serra e Machado Rodrigues) anuíram a dar o seu contributo entidades como: Natália Correia, David Mourão Ferreira, Luís Coimbra, Vasco Vieira de Almeida, Sousa Gomes, Rui Vilar, Medeiros Ferreira, Arnaldo de Matos, Magalhães Mota, etc.
Entretanto foram destacadas duas Companhias de Páras, uma para o Monsanto e outra para a BA6. Com os acontecimentos na BETP a presença destes militares dentro da BA6 começou a levantar algumas suspeitas sobre uma hipotética ocupação da base e a inviabilização da sua actividade operacional (Fiat G-91, Helis e P-2V5).
Estas preocupações foram apresentadas pelo comandante Tenente-coronel Vasquez ao general adjunto para as operações, o Brigadeiro graduado Corbal e ao General graduado Freire (COMRA1) bem como a sugestão da criação de um destacamento no AM1, em Ovar o que, pelo menos, iria garantir alguma operacionalidade à base.
Tendo sido aceite essa sugestão o Brigadeiro Corbal, de acordo com o CEMFA, dá instruções no sentido de, discretamente, serem levados meios para Ovar.
A partir de então os P-2V5, sob a capa de voos de treino, começaram a transportar armamento incluindo bombas, para Ovar.
Mais tarde foram destacados dois Fiat e dois Helis (um deles com canhão), as respectivas tripulações, o pessoal de apoio de manutenção, de armamento e logístico.
À medida que a situação político-militar se ia degradando, foi considerado conveniente desviar mais meios aéreos para o AM1. Para tal, aproveitavam-se os voos de treino em que descolava uma formação de aviões Fiat e um deles já não aterrava no Montijo, mas em Ovar.
Toda esta movimentação na criação do destacamento no AM1 só acabaria por ser detectada quando houve necessidade de abastecer a Base de Ovar com elevadas quantidades de combustíveis.
No dia 29 de Outubro de 1975 saiu nos jornais um comunicado dum dito “Comité de Vigilância Revolucionária da Força Aérea” que denunciava “uma grande operação que o sector reaccionário da Força Aérea vai desencadear” .
Entretanto, criava-se na BA6, uma senha entre os pilotos e demais pessoal das esquadras de voo que, quando usada, significaria que se deviam dirigir de qualquer forma para o Destacamento em Ovar.
A senha, criada pelo Major Afonso, era “Míscaros”.
Dias antes do dia 25 de Novembro o Major Afonso e o Tenente Macário deslocaram-se à Escola de Fuzileiros onde, para além dum ambiente hostil à BA6, se aperceberam, pelas palavras do Comandante Albuquerque, que a tomada da base estava iminente.
Esta informação aliada à recusa da Companhia de Páras em regressar a Tancos e a outros sinais perturbadores como a oposição em aceitar a nomeação de Vasco Lourenço para Comandante da Região Militar de Lisboa, levou a que no dia 23 de Novembro mais três Fiat descolassem rumo a Ovar.
No dia 23 de Novembro chega ao porto de Lisboa o navio Niassa, trazendo o General graduado Almendra e um Batalhão de Páras, comandado pelo tenente-coronel Ramos Gonçalves, que regressavam de Angola.
Ainda antes de atracar uma delegação dos Páras amotinados tenta entrar a bordo o que foi recusado. Foi ainda entregue ao General Almendra uma carta e um despacho do CEMFA. Na carta eram-lhe dadas informações sobre o que se estava a passar no País e, no despacho, era nomeado Comandante da “Base Operacional de Tropas Pára-quedistas” sediada, provisoriamente, no AM1.
Como a gare de desembarque estava repleta de Páras e civis tentando aliciar os Páras que estavam a bordo, o general Almendra recusa-se a desembarcar, e só o fará, mais tarde, com a gare vazia. De seguida o Batalhão bem como o armamento embarcam em viaturas pesadas mas, ao contrário do que se esperava, em vez de seguirem para Tancos, seguiram para a Ota (BA2).
Na BA2 o já tenente-coronel Almendra apercebe-se, pelas informações facultadas pelo Comandante, Coronel Ramos Lopes, de que a unidade não era suficientemente segura para acautelar as muitas toneladas de armamento que trouxera de Angola. Assim, antes de dispensar todos os Páras por três dias, constitui uma força de escolta, comandada pelo capitão Figueiredo para, no dia 24NOV, esse armamento seguir para Ovar. Face a dificuldades de transporte a coluna só acabaria por sair da Unidade na noite de 24 para 25NOV.
O DIA 25 DE NOVEMBRO DE 75
“ Quem o seu inimigo poupa, às mãos lhe morre”
Ditado popular
Pelas 06H00 o General Freire e o tenente-coronel Vasquez são acordados, por Páras, nos alojamentos de Monsanto e informados que o GDACI e a RA1, bem como a BA6 haviam sido tomados por eles, pelo que se deviam considerar detidos nos quartos.
Como os telefones não foram cortados estes dois oficiais puderam contactar com o exterior.
O General Freire, para além doutros, estabelece contactos com o CEMFA e a Presidência da República.
O Tenente-coronel Vasquez contactou o Coronel Jaime Neves, o Tenente-coronel Eanes e o seu 2.º comandante, Tenente-coronel Ribeiro Cardoso. Entretanto chegou a Monsanto o tenente-coronel Jesus Bispo que, igualmente detido, fez, por telefone, todo o levantamento das unidades da FA.
Estes dois oficiais acabariam por conseguir sair por volta da hora do almoço, num carro emprestado. Daqui foram a Belém onde contactaram com o CEMFA e estiveram em reunião com vários militares (Eanes, Rocha Vieira, Jaime Neves e outros). O PR por duas ou três vezes esteve presente, sem dar qualquer sinal do que se iria passar. Por fim já se “contavam espingardas” o que levava a crer que a confrontação militar era inevitável. Com esta convicção saíram de Belém em direcção ao AM1, onde chegaram já de noite.
O 2.º Comandante da BA6 desencadeia a operação “Míscaros”.
O Tenente-coronel Cardoso segue de Boeing 707 para o Porto indo apresentar-se com o comandante do avião, Major Quintanilha, no Quartel-General da RMN, onde fez ao Brigadeiro Pires Veloso e ao Coronel graduado Gabriel Teixeira o relato do que se estava a passar e aí se manteve, coordenando os assuntos relacionados com a FA, até à chegada do Brigadeiro Lemos Ferreira a quem passou a assessorar.
Entretanto, os Majores Afonso e Nico, bem como o outro pessoal da BA6 seguiam para o AM1 num DC-6.
Pelas 10H00, já se tinha algumas informações sobre o que se passava nas Bases ocupadas (BA2, BA3, Ba5 e BA6): - que os Comandantes estavam detidos, mas que a grande maioria dos oficiais, sargentos e praças, não obstante os apelos e os “comícios” dos Páras, não aderiram e sempre afirmaram reconhecer e obedecer aos seus Comandantes legítimos.
No AM1 o Comandante, Major Alves Pereira, bem como o Major Costa Joaquim, Comandante do Destacamento da BA6, recebem, pelas 07H00, um telefonema do Brigadeiro Pires Veloso a perguntar se estava tudo bem e ia enviar um Esquadrão de Cavalaria para proteger a Unidade.
Ao mesmo tempo os oficiais Páras, do “grupo dos 123”, que se haviam apresentado na véspera tomam medidas para assegurar a segurança da Unidade.
Pelas 09H30 a unidade é sobrevoada a baixa altitude por um Boeing da Força Aérea e meia hora mais tarde um DC-6 pede instruções para aterrar. Após o diálogo entre o tenente Macário, que estava na torre, e o comandante do avião, as suspeitas de que este estivesse sob coacção desvaneceram-se pelo que a pista foi desobstruída e o avião aterrou, desembarcando o pessoal do Montijo.
O Major Afonso assumiu o comando do Destacamento e pouco depois foi de helicóptero ao QG da RMN encontrar-se com o Brigadeiro Pires Veloso.
Entretanto, outro Boeing 707 aterra no AM1, onde desembarcam muitos militares, entre eles o Tenente-coronel Almendra.
As unidades não ocupadas, actuando como atrás foi referido, fizeram descolar todos os seus meios aéreos disponíveis para o Norte. Assim para o AB1 acabaram por descolar dois Boeing 707 e todos os DC-6, bem como “kits” de manutenção e de sobressalentes que foram preparados pelos sargentos e oficiais da Unidade sob a coordenação do Major Cortesão. Da BA1, comandada pelo Coronel Tello Pacheco, descolam por volta do meio-dia, dois T-37, seguindo a bordo os pilotos Damásio, Lindner Costa e Pessoa, levando cartas de navegação e capacetes de voo destinados ao Destacamento.
No fim da manhã o Brigadeiro Lemos Ferreira chega ao Quartel-General da RMN de onde passa a coordenar toda a actividade da FA, tendo-se criado um verdadeiro centro de operações. Aqui foi decidido que seria importante fazer ver à população em geral e aos amotinados e seus apoiantes que a FA não estava paralisada e estava comandada e mantinha a sua operacionalidade.
Foram decididas duas operações aéreas, uma orientada para a população e outra para as tropas amotinadas.
A primeira consistiu em fazer uma autêntica parada aérea, sobre as cidades a norte de Rio Maior, constituída por cerca de 40 aviões, T-6 da Base de S. Jacinto, os dois T-37 e outros. Esta “parada” teve grande impacto junto das pessoas até porque foi muito publicitada pelas emissoras de rádio do Norte.
A segunda operação consistia em sobrevoar as Bases Aéreas ocupadas com os Fiat G-91 armados com bombas e foguetes.
Constituiu-se uma formação de sete Fiat cujos pilotos eram Afonso, comandante da formação, Costa Joaquim, Reis, Macário, Letras, Tavares e Faro.
Após a descolagem, no princípio da tarde, fazem um voo rasante junto à Torre de Controlo e do edifício do Comando da BA5, sobrevoando a seguir as Bases do Montijo, da Ota e de Tancos. Depois do Montijo sobrevoam a margem norte do Tejo muito próximo do RALIS. Quando regressavam ao AM1 foram alertados pela Estação de Radar, “Batina” (Unidade da FA localizada em Montejunto) de que dois jactos voavam próximo e a baixa altitude. Eram dois T37 que se dirigiam para Ovar.
Entretanto, tem-se conhecimento do comunicado (pelas 13H35) do Estado-Maior-General das Forças Armadas considerando a acção dos Páras como uma sublevação. Posteriormente, o PR declara o “Estado de Sítio em Lisboa.
Ao fim da tarde e atendendo que o Major Jaime Neves considerava essencial o efeito dissuasor do sobrevoo do Monsanto, antes da operação de desocupação por parte da tropa comando, saiu, primeiro uma parelha de T-37, comandada pelo Capitão Damásio, que sobrevoou o Regimento de Comandos e Monsanto e depois outra parelha de aviões Fiat pilotados por Costa Joaquim e Reis que sobrevoaram Lisboa.
A actividade operacional da Força Aérea no dia 25NOV75 terminara.
CONCLUSÕES
“Quando aqueles que comandam perderam a vergonha, os que obedecem perdem o respeito.”
Cardeal de Retz
Ao contrário do que se poderá deduzir através dos inúmeros relatos sobre os acontecimentos, a FAP não só desempenhou um papel importante, como foi decisiva , no balanço das forças em presença. Não se remeteu a ser ocupada e, bem pelo contrário, desenvolveu um conjunto de acções que, nesse dia, retirou toda a credibilidade aos órgãos de informação que apregoavam que os Páras haviam neutralizado os meios aéreos.
Neste aspecto, uma palavra para o AM1. Esta unidade desactivada e com parcos recursos humanos e materiais conseguiu, em poucas horas, transformar-se na verdadeira plataforma operacional da FA. O Comandante, Major Alves Pereira, e o seu pessoal souberam estar à altura da situação graças a muita dedicação e grande sentido de missão.
Por outro lado, não será difícil admitir que essa acção teve uma influência grande, até determinante, quer no desenrolar dos acontecimentos militares quer na área política. Eis uma questão que aqui se levanta para quem, um dia, queira fazer o integral levantamento histórico da época. Então talvez se conheçam, na sua verdadeira dimensão, as razões porque unidades, como o RALIS ou os Fuzileiros, não saíram ou recuaram ou porque o PCP que, inicialmente, apoiou a acção dos Páras e o apelo às massas, mais tarde, retrocedeu.
Nos dias seguintes a FA, em especial no dia 26, continuou com a sua actividade.
- De manhã cedo dois AL III descolaram de Ovar e foram aterrar no Regimento de Comandos, a fim de apoiar as operações, tendo efectuado várias missões (Capitão José Queiroga e Tenente Luís Araújo).
- De manhã uma parelha de Fiat, em espera a norte de Lisboa para apoiar os Comandos no Regimento da Polícia Militar;
- Voos rasantes sobre o Forte de Almada, Alfeite e Setúbal;
Finalmente, pode afirmar-se que a Força Aérea era uma instituição que, se conseguiu manter minimamente comandada e disciplinada, num período extremamente difícil, em que boa parte dos Comandos estavam ou detidos ou limitados na sua acção pelos Páras, a FA conseguiu manter alguma unidade de Acção.
De toda a acção desenvolvida, resultaram três mortos (militares), mas podia ter havido um banho de sangue e uma guerra civil, que é a mais gravosa de todas as guerras. A acção dissuasora da Força Aérea, em muito contribuiu para que tal não tivesse ocorrido.
FECHO
“Justiça é o interesse do mais forte Convertido em Direito”.
Sócrates (c. 460-399 AC).
Assim terminou o chamado “PREC” – Processo Revolucionário em Curso” – que passa por ser um dos períodos mais catastróficos, senão o mais catastrófico, de toda a História de Portugal.
É isso, pelas piores razões, que dá relevância histórica aos acontecimentos ocorridos, a 25 de Novembro de 75 e, por isso, deve ser lembrado - não comemorado, pois trata-se de uma data, que não devia ter tido justificação para ocorrer.
Mas dele não se retiraram as devidas ilações, nem se actuou, posteriormente, na direcção mais adequada. Ninguém foi julgado. Poucas coisas ficaram devidamente arrumadas e disso ainda estamos a sofrer hoje.
Acabou por ser (mais uma) data falhada.
Mas isso já são outros quelhos
NOTA.
É ainda recorrente ouvir-se dizer que o 25 de Novembro foi apenas um enfrentamento, ou ajuste de contas, entre facções militares diferentes. Tratou-se da tentativa de conquista do Poder por parte do PCP, de modo a transformar Portugal numa espécie de colónia soviética, neste lado do oceano (uma espécie de Cuba).
Quem olhar para estes eventos pode ter tendência para apenas se focar nos eventos internos. Nada de mais errado. Portugal não está nem nunca esteve, encerrado numa espécie de cápsula do tempo e tudo o que se passa nos espaços geopolíticos onde se movimenta (e não só), o afectam.
Em síntese, em 1974/5, vivia-se o último pico da Guerra - Fria. Os EUA e seus aliados ocidentais, não esperavam (e creio que ninguém esperava), que o golpe de Estado em Lisboa, a 25/4/74, degenerasse numa anarquia social, que apenas o PCP, a custo, influenciava e dominava.
O principal objectivo da URSS era que as parcelas ultramarinas portuguesas, sobretudo Angola, caíssem na sua órbita (sendo interesse de todas as potências, que os portugueses abandonassem politicamente o Ultramar, mas isso já entra noutros domínios…), o que ficou consumado a 11 de Novembro. Deste modo os soviéticos iam ter acesso ao Índico e Atlântico central e sul, só para ficarmos por aqui.
É curioso notar, que a declaração de independência, unilateral, de Timor, feita pela FRETILIN, a 28 de Novembro, apenas três dias depois do desfecho do 25/11, será que estavam com medo de perder o comboio? E assim sucedeu mais uma tentativa de criar outra Cuba, nas barbas da Indonésia, cujo governo saíra de uma guerra civil com o respectivo partido comunista, de onde resultara cerca de um milhão de mortos…
Se a Metrópole fosse também tomada pelos sovietes, além de irem conseguir obter o que lhes tinha sido negado durante a guerra civil espanhola, de 36-39, iriam privar a OTAN de uma das principais “testas – de - ponte” para o reforço rápido da Europa por parte dos americanos e canadenses.
Por isso a tentação era grande. Além disso, a tomada de poder em Lisboa seria o culminar de toda uma vida, para Álvaro Cunhal.
Os americanos andaram algum tempo à deriva: Acabaram por pôr aqui como embaixador, um tal de Carluci, com ampla experiência na CIA. Mas quem mandava na diplomacia americana chamava-se uma velha raposa da política e da geopolítica mundial, o senhor Kissinger, que pensou ensaiar várias ideias que variavam entre resolver o “problema” de Portugal com 5.000 marines, e fazer de Portugal uma vacina contra o comunismo na Europa. Lá se resolveram em apoiar o PS que divisaram como a melhor aposta para se opor ao PCP, além disso a maioria dos dirigentes do PS pertencia ou era simpatizante da Maçonaria, o que não era despiciendo.
Só que, entretanto, surgiu a Conferência de Helsínquia – onde esteve presente Costa Gomes – e a assinatura do seu acto final, em 2/8/75, assentou as bases da chamada “Détende”, que ira vigorar entre os dois principais Pactos a nível mundial. Ora a nomenclatura soviética estava muito interessada neste “statuos quo”, provavelmente para ganharem tempo para tentar reformar a sua caótica economia e vivência social.
Costa Gomes (sempre ele) visita oficialmente Moscovo em 1 de Outubro de 75 – na 1ª visita alguma vez feita por um político português à URSS - e encontra-se com Brejnev, durante quatro horas. Caramba, quatro horas!
Tudo leva a crer que lhe tenha lido a cartilha, sendo que a primeira coisa que fez quando chegou a Lisboa foi a de convocar as principais figuras do Poder de então; e não deve ter sido para lhes contar o segredo das “matrioskas”.
A partir daqui é fácil de verificar que se Portugal caísse na orbita soviética, o equilíbrio demarcado em Helsínquia, seria rompido.
Mas a tentação era grande e a situação estava devidamente trabalhada, podia não haver outra oportunidade. E quando o equilíbrio das forças se rompeu, sobretudo por causa da Força Aérea, o recuo foi inevitável. Não se sabe o que foi dito de Moscovo, mas o desespero foi real em Cunhal.
*****
O PCP tem um “P” a mais, o “p” de Português, pois não pode ser considerado um partido português, da nossa terra; pela simples razão de que foi sempre uma espécie de correia de transmissão do PCUS, Partido Comunista da União Soviética, potência que foi sempre inimiga do nosso País.
Não é por acaso que o PC (P) foi sempre perseguido desde a sua fundação, em 1921; e não, não foi só perseguido pelo Estado Novo. Foi também perseguido pela 1ª República e pela Ditadura Militar. “Curiosamente” foi salvo pelo gongo, por parte das forças que prepararam as operações vitoriosas no 25/11/75, corporizada pela declaração televisiva do “ideólogo” Melo Antunes (cujo pai pertencera aos serviços secretos da Legião Portuguesa e o conhecia bem), como sendo – imagine-se – fundamentais à Democracia portuguesa…O que terão eventualmente negociado ainda não se sabe, mas um dia há-de saber-se.
Deixaram de pôr bombas, é certo, mas passaram a infernizar o País desde então, com greves organizadas com precisão militar, e tentar sabotar (e tem-no conseguido escorados no texto enviesado da Constituição em vigor) qualquer tentativa de pôr esta desvalida Nação a funcionar minimamente.
Convém alguma vez chamar os bois pelos nomes e não andar a dormir na forma.
João José Brandão Ferreira (Oficial Piloto Aviador (Ref.)
Fonte: O Adamastor
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