16 de maio de 2018

Arrogância mundialista e humildade da Portugalidade

A imagem pode conter: uma ou mais pessoas, céu, nuvem, atividades ao ar livre e água


Não há códigos sociais e institucionais universais. Só quem desconhece ou despreza os códigos dos outros se pode surpreender com coisas destas. O Ocidente tem de reaprender a viver com as diferenças civilizacionais e não ousar ensinar os outros a macaquear fórmulas nossas, importantes para nós, mas que para outros não passam de ofensas. Certamente que na aldeia global dos propagandistas da pseudoformose exigida pelos mundialistas - com bombas e corpos expedicionários, se necessário - um aperto de mão, um afago na cabeça de uma criança, umas patorras em cima de uma mesa, um beijo, uma conversa sobre doenças ou dinheiro; tudo isso faz parte da civilização. Ora, para os outros que não são como nós, coisas dessas são tidas como exibição de grosseria. Durante muito tempo - demasiado tempo - não nos preocupamos e eles fingiam, calavam ou disfarçavam o mal-estar. Agora, isso acabou.

Ao longo dos anos em que vivi na Ásia, apercebi-me que os europeus (pomposamente chamados expatriados, pois recusam a palavra imigrante) ali faziam tudo, sem nunca se preocuparem em abrir um vulgar dos and dont's. No fundo, esses insignificantes sátrapas julgam que estar num país é conhecer um outro mundo: o inglês que leva como prenda uma garrafa de vinho ao casal marroquino amigo, o "expatriado" que no Irão exige que os seus convidados comam a chouriçada na brasa, o europeu que obriga o chinês a comer o coelho à caçadora, ou aquele outro - vi com os olhos que a terra há-de comer - que insistia em falar sobre as intimidades da família real aos tailandeses; tudo isso faz parte do reportório infindo de patetices que acaba por sair caro à nossa imagem de ocidentais. Já nem falo, claro, da imposição dos horários e dos regimes laborais, do dia de descanso, do tipo de regime político, da exigência de leis sobre o divórcio, da contracepção, das regras de urbanismo, dos modelos de ensino, da ideia de natureza, da maioridade legal, do "trabalho infantil", da "idade legal para o casamento", dos prémios de produtividade e dos 13.º e 14.º vencimentos, dos "rendimentos mínimos garantidos", das objecções de consciência... uma lista que nos ocuparia em fastidioso elencar de diktats.

Num desses debates descabelados que bem podiam ser substituídos por uma hora de música clássica, um dos vociferadores terminou o estendal canoro falando dos "países civilizados", referindo-se à Europa e aos EUA, contraponto de "países bárbaros" como o Irão, a Índia, a China e, porque não, à Rússia. Esquecia-se o bípede que o Irão carrega 4000 anos de civilização às costas, a China 5000 e a Índia para mais de 8000.

Como foi diferente a construção da Portugalidade. O seu sucesso, plasmado neste sentimento de pertença ao mundo, mas profundamente vinculado a uma forma precisa de pensar e de agir, permitiu que esta civilização se fizesse com materiais diversos e que do Brasil a Goa, de Bombaim a Macau, homens e mulheres comuns, com percursos culturais e civilizacionais diferentes, construíssem algo de absolutamente novo que foi, e sê-lo-á cada vez mais no futuro, a solução mais inteligente e humana aos problemas do mundo.

MCB


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