quinta-feira, 30 de abril de 2026

Santíssimo Milagre de Santarém

No ano de 1247, vivia em Santarém uma pobre mulher, a quem o marido muito ofendia, andando desencaminhado com outra. Cansada de sofrer, foi pedir a uma bruxa judia que, com os seus feitiços, desse fim à sua sorte.

Prometeu-lhe esta remédio eficaz, para o que necessitava uma Hóstia Consagrada. Depois de naturais hesitações, consentiu no sacrilégio a pobre mulher; foi à Igreja de Santo Estêvão, confessou-se e pediu Comunhão. Recebida a Sagrada Partícula, com suma cautela a tirou da boca, embrulhando-a no véu. Saiu prestes, da Igreja, e encaminhou-se para a casa da feiticeira. Mas, então, sem que ela o notasse, do véu começou a escorrer Sangue, que, visto por várias pessoas, as levou a perguntar à infeliz que ferimentos tinha que tanto sangue jorravam. Confusa em extremo, corre logo para casa, e encerra a Hóstia Miraculosa numa das suas arcas.

Passou o dia, entretanto, e, à tarde, voltou o marido. Alta noite, acordam os dois, e vêem a casa toda resplandecente. Da arca saíam misteriosos raios de luz. Inteirado o homem do acto pecaminoso da mulher, de joelhos, passaram o resto da noite, em adoração.

Mal rompeu o dia, foi o pároco informado do prodígio sobrenatural. Espalhado o sucedido, meia Santarém acorreu pressurosa a contemplar o Milagre. A Sagrada Partícula foi então levada, processionalmente, para a Igreja de Santo Estêvão, onde ficou conservada dentro de uma espécie de custódia feita de cera. Mas, passado tempo, ao abrir-se o Sacrário para expor à adoração dos fiéis o Santo Milagre, como era costume, encontrou-se a cera feita em pedaços, e, com espanto, se viu estar a Sagrada Partícula encerrada numa âmbula de cristal, miraculosamente aparecida.

Esta pequena âmbula foi colocada numa custódia de prata dourada onde ainda hoje se encontra. No ano de 1997, por decisão do 1º Bispo de Santarém, D. António Francisco, a Igreja de Santo Estêvão foi elevada a Santuário do Santíssimo Milagre de Santarém.

in santissimomilagredesantarem.pt


quarta-feira, 29 de abril de 2026

Estado e Nação


O Estado caracteriza-se sempre por uma soberania política independente, se esta não existe, não há Estado. A Nação pode existir mesmo que subjugada por um poder estranho.

O Estado pode improvisar-se por uma revolução que emancipa uma colónia ou desanexa uma província. Uma Nação jamais se improvisa, constrói-se através dos séculos.

Para se formar um Estado chega a colaboração das armas e a sorte, uma Nação precisa de tempo para nascer. (…)
Uma Nação subsiste dividida em vários estados e mesmo que um só perca a independência subjugado por outro, subsiste. Por isso passa, da pluralidade política imposta pela força ou formada por pactos, ou pelas duas simultaneamente, de um Estado federativo a um Estado centralizador, sem que, nessas mudanças de soberania, nessas trocas e transmutações de Estados deixe de existir o todo moral e a unidade histórica que a forma. (…)
Sendo a Nação e o Estado coisas tão diferentes, deduz-se qual é a relação fundamental: O Estado depende da Nação e não a Nação do Estado. O Estado deve subordinar-se à Nação e não a Nação ao Estado. O espírito nacional deve imperar sobre a vontade do poder e não o poder sobre o espírito nacional. O Estado não pode mudar e modelar, consoante planos ideais, o carácter da Nação; o carácter da Nação é que tem o direito de ser refletido pelo Estado..."

Juan Vázquez de Mella. Obras Completas. “La Nación, la voluntad nacional y las tradiciones fundamentales”


segunda-feira, 27 de abril de 2026

25 de Abril de 1828: O povo pede a aclamação do infante D. Miguel como rei de Portugal

"(...) o senhor D. Miguel I o rei de Portugal, Algarves e seus domínios, à imitação do que se tem praticado em muitas outras cidades do mesmo reino de Portugal desde o dia 25 de Abril próximo passado: aconteceu que, achando-se já reunida a referida Câmara para entrar na mencionada deliberação, os povos que em grande número se achavam reunidos na praça pública, onde existe o edifício do mesmo senado unanimemente, e sem esperar tal deliberação rompeu nos mais inflamados vivas ao senhor D. Miguel I, rei de Portugal, Algarves e seus domínios, no que gostosamente apareceu conforme a mesma Câmara: a nobreza, clero e povo, que se achavam reunidos dentro no edifício, e que reconheceram ociosa semelhante deliberação tornando-se portanto este auto de vereação em um verdadeiro auto de aclamação do referido senhor, o Muito Alto e Poderoso D. Miguel I, Rei de Portugal, Algarves e seus domínios, pelo perfeito conhecimento que tem toda esta cidade, e jurisdição que ele é o nosso único e legítimo Rei natural, depois do falecimento d’el-rei o senhor D. João VI de gloriosa memória."
Aclamação do infante D. Miguel, como rei de Portugal, in "Anais da Ilha Terceira", por Francisco Ferreira Drummond

domingo, 26 de abril de 2026

SA D. Dinis de Bragança no jantar-conferência promovido pela Real Irmandade de Santa Cruz e Passos da Graça

S.A. o Infante D. Dinis, Duque do Porto, esteve presente no jantar-conferência promovido pela Real Irmandade de Santa Cruz e Passos da Graça, realizado no dia 17 de Abril, no Grémio Literário.

O evento contou com a intervenção de S.E. Reverendíssima D. Rui Valério, Patriarca de Lisboa e Aio do Senhor dos Passos, que proferiu uma reflexão subordinada ao tema “A paz desarmada e desarmante: critérios hermenêuticos para compreender o mundo de hoje”.

Entre os presentes estiveram também o Presidente do Grémio Literário, António Pinto Marques, e o Juiz da Irmandade de São Nicolau, Nuno Pinto de Magalhães, além de numerosos irmãos do Senhor dos Passos, que se associaram a este momento de reflexão e convívio.


sábado, 25 de abril de 2026

Dia de São Marcos, Apóstolo e Evangelista

São Marcos era filho de Maria de Jerusalém, em cuja casa São Pedro se refugiou depois de ser libertado do cárcere (cf. At 12, 12). Era primo de Barnabé. Acompanhou o São Paulo na sua primeira viagem a Roma (cf. Col 4, 10) e esteve próximo dele durante a sua prisão em Roma (Fm 24). 

Depois, tornou-se discípulo de São Pedro, de cuja pregação se fez intérprete no Evangelho que escreveu (cf. 1 Pe 5, 13). O seu Evangelho é comumente reconhecido como o mais antigo, utilizado e completado por São Mateus e por São Lucas. Parece que também os grandes discursos da primeira parte do Atos dos Apóstolos são uma retomada e desenvolvimento do Evangelho de São Marcos, a partir de Mc 1, 15. É-lhe atribuída a fundação da Igreja de Alexandria. 

São Marcos amava Nosso Senhor sem qualquer reserva; estava maduro para o Martírio. Os seus sucessos e os progressos da Fé exasperavam os pagãos, e em particular os sacerdotes de Serapis. Apoderaram-se dele durante a solenidade da Páscoa do ano 68. Fizeram-no sofrer durante dois dias um horrível suplício, arrastando-o com cordas por terrenos pedregosos dos subúrbios de Buroles; mas o amor é mais forte do que a morte, e o Santo bendizia a Nosso Senhor e dava-Lhe graças por ter sido julgado digno de sofrer por seu amor. 

Durante a noite que separou os dois dias de torturas, o Santo foi reconfortado por visitas celestes. Foi primeiro um Anjo, que lhe disse: "Marcos, servo de Deus e chefe dos ministros de Cristo, no Egipto, o vosso nome está escrito no livro da vida, e as Potências celestes virão em breve procurar-vos para vos conduzirem ao Céu". Depois, apareceu-lhe o próprio Nosso Senhor, como o tinha conhecido na Galileia: "A paz esteja convosco, Marcos Nosso evangelista", diz-lhe; depois desapareceu. Esta palavra de encorajamento bastava. São Marcos foi de novo arrastado e dilacerado pelas pedras, enquanto bendizia a Deus: "Meu Deus, nas vossas mãos entrego a minha alma". 

São Jerónimo in 'A vida de São Marcos Evangelista'

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Pio XII sobre a gesta portuguesa

A fé católica, como foi em certo modo a linfa vital, que alimentou a Nação portuguesa desde o berço, assim foi, se não a única, certamente a principal fonte de energia, que elevou a vossa Pátria ao apogeu da sua glória de nação civil e nação missionária, «dilatando a fé e o império». Refere-o a história e os factos o atestam.

Efectivamente, quando os filhos de D. João I lhe pediram, que autorizasse a primeira expedição ultramarina, que havia de levar à libertação de Ceuta, o grande e piedoso monarca, antes de mais nada, quis saber deles, se a empresa seria ou não útil ao serviço de Deus. Como esta, todas as empresas seguintes tiveram igualmente por fim principal a propagação da fé, daquela fé que animara «a Cruzada do Ocidente» e as Ordens militares na épica luta contra o domínio dos Mouros.

Nas caravelas que, arvorando o níveo pendão rubricado com a cruz de Cristo, levavam os intrépidos descobridores lusíadas às praias ocidentais da África e das Ilhas adjacentes, navegavam também os Missionários, «para atraírem as nações bárbaras ao jugo de Cristo», como se exprimia o grande pioneiro da expansão colonial e missionária portuguesa, o Infante D. Henrique, o Navegador.

O príncipe dos descobridores portugueses, Vasco da Gama, quando levantava âncoras para iniciar a sua venturosa viagem das Índias, levava consigo dois Padres Trinitários, um dos quais, depois de ter pregado o evangelho com zelo apostólico aos povos da Índia, havia de coroar o seu laborioso apostolado com o martírio. O sangue deste e doutros heróicos Missionários portugueses foi naquelas remotas paragens, como sempre e em toda a parte o sangue dos mártires, semente de cristãos; e os seus luminosos exemplos foram para todo o mundo católico, mas em primeiro lugar para seus generosos compatriotas chamamento e estímulo ao apostolado missionário.

Viu-se então, – precisamente quando urna série de funestos acontecimentos arrancava grande parte da Europa do grémio da Igreja, que com tanta sabedoria e carinho materno a tinha educado, – viu-se Portugal com a nação irmã, a Espanha, abrir à mística Esposa de Cristo imensas regiões desconhecidas, e trazer ao seu regaço materno, em compensação dos miseramente perdidos, filhos inumeráveis nos vastos continentes da África, Ásia e América. Dioceses e paróquias, seminários e conventos, hospitais e orfanotrófios surgiram e se multiplicaram naquelas terras, a demonstração da perene vitalidade da Igreja católica, pela qual o divino Fundador incessantemente intercede, e na qual o Espírito Paráclito opera incessantemente, mesmo nas horas mais trágicas.

Mas donde veio «que vós, por muito poucos que sejais, muito façais na santa cristandade»? Donde veio a Portugal a força para abraçar no seu domínio tantas plagas da África e da Ásia, e estendê-lo ainda às terras longínquas da América? Donde, se não daquela ardente fé do Povo Lusitano, cantada pelo seu maior poeta, e da sabedoria cristã dos seus governantes, que fizeram de Portugal um dócil e precioso instrumento nas mãos da Providência, para a realização de obras tão grandiosas e benéficas?

De facto, em quanto os Albuquerques, os Castros e outros varões igualmente assinalados, conscientes da própria responsabilidade, governam com rectidão e prudência as diversas colónias portuguesas, e prestam auxílio e protecção aos zelosos pregoeiros da fé, que grandes monarcas, como D. João III, se empenham em mandar aqueles países, então Portugal impõe-se à admiração do mundo inteiro pela potência do seu império e por sua gigantesca obra civilizadora.

Papa Pio XII in encíclica «Saeculo exeunte octavo», 13 de Junho do ano 1940


Fonte: Veritatis

quinta-feira, 23 de abril de 2026

O Estado Tradicional é orgânico e não totalitário


É diferenciado, articulado e admite zonas de autonomia parcial. Coordena e faz participar na unidade superior forças a que reconhece liberdade. Precisamente porque é forte, não tem necessidade de recorrer à centralização mecânica: esta só é reclamada se for preciso controlar uma massa informe e atómica de indivíduos e de vontades, o que, no entanto, faz com que a desordem não possa ser verdadeiramente eliminada, mas contida provisoriamente.

Segundo Walter Heinrich, o Estado autêntico é "omnia potens", não "omnia facens", pois detém no centro um poder absoluto que pode e deve fazer valer sem entraves em caso de necessidade ou de decisões últimas e que vai além do fetichismo do chamado “Estado de direito”. Não intervém em tudo, não impõe a vida de caserna (no sentido negativo), nem conformismo nivelador em lugar de reconhecimento livre e lealdade, como não procede a intervenções impertinentes e imbecis do domínio público ou estatal no domínio privado. A imagem tradicional corresponde à gravitação natural de sectores e unidades parciais em redor de um centro que governa sem constrangimentos que actua por prestígio de uma autoridade que certamente pode recorrer à força, mas da qual se abstém o mais possível. A prova da força efectiva do Estado é dada pela margem concedida à descentralização parcial e racional. A ingerência sistemática do Estado não pode ser um princípio, a não ser que se trate de socialismo de Estado tecnocrático e materialista.

Por contraste, a missão essencial do Estado autêntico é criar um determinado clima geral, em certo sentido imaterial, como foi próprio a todos os regimes da época precedente. É a condição necessária para que tal sistema, onde a liberdade é sempre o factor fundamental, tome forma de modo praticamente espontâneo e funcione de maneira justa, com um mínimo de intervenções rectificadoras.

terça-feira, 21 de abril de 2026

CRITICA XXI . NÚMERO 14 . INVERNO 2026


Neste número 14 da Crítica XXI, referente ao Inverno de 2026, Jaime Nogueira Pinto, em “De que falamos quando falamos de valores europeus?”, faz uma pré-publicação do livro Valores Europeus: Uma Longa História, a lançar pela Dom Quixote no fim de Maio. Nele procura, numa perspectiva de História das Ideias, identificar e avaliar os valores que fizeram e vão fazendo a Europa.

José Maria Cortes em “O que Prometeu não cumpriu” fala dos limites antropológicos do político e da dificuldade de concretização entre “bens sociais” conflituantes.

Em “Patrimonialismo Positivo”, Orlando Lima procura identificar a “cultura estratégica da nação brasileira” para concluir, citando Raymundo Faoro, que “o Brasil é, na sua essência, um país patrimonialista”. Uma realidade que às vezes as instituições não querem reconhecer.

H.P. Lovecraft é um escritor muito especial: João Vaz discute as ideias políticas do autor de The Strange Affair of Charles Dexter Ward, identificando no mestre do mistério e do terror um “conservadorismo estético” que entronca em autores como Edmund Burke e Roger Scruton, acabando numa clara nostalgia e reinvenção do passado.

Em “A ONU, o uso da força e o Direito Internacional” Manuel Almeida Ribeiro analisa o momento actual da sociedade internacional, entre uma “ordem internacional liberal” em crise e uma nova ordem de grandes poderes que ainda não se consolidou.

Carlos Maria Bobone em “O Negro” faz uma análise histórica e político-cultural daquilo que habitualmente se designa como “cultura negra”. Para o autor do ensaio, tema da capa desta edição de Crítica XXI, é falsa a “grelha de esquerda que inseriu a cultura negra no ciclo dos oprimidos”, transformando-a numa “versão mais colorida da luta de classes”.

Continuando com a história das instituições portuguesas, Rui Ramos escreve sobre Manuel de Arriaga, o “fidalgo de democracia que inventou a Presidência da República”, desmistificando as narrativas incensatórias da Primeira República e revelando a resistência de Arriaga ao autoritarismo jacobino de Afonso Costa.

Este número conta ainda com duas notas críticas de Miguel Freitas da Costa (O Plano de David Graham e Para lá do Muro de Katja Hoyer) e uma de Jaime Nogueira Pinto (Tudo Sobre Deus de José Eduardo Agualusa); Jorge Costa Braga escreve sobre “Os Três séculos d’O Leopardo” analisando o livro de Lampedusa, o filme de Visconti, e a nova minissérie da Netflix.

DIRECÇÃO JAIME NOGUEIRA PINTO E RUI RAMOS

domingo, 19 de abril de 2026

Como rezar o Regina Caeli

Durante o tempo pascal, que vai do Domingo de Páscoa até ao Pentecostes, em vez da Oração do Anjo (Angelus) reza-se o Regina Caeli, para sublinhar a alegria cristã pela ressurreição de Nosso Senhor.

Português:

V. Rainha do Céu, alegrai-vos, Aleluia!
R. Porque Aquele que merecestes trazer em Vosso ventre, Aleluia!
V. Ressuscitou como disse, Aleluia!
R. Rogai por nós a Deus, Aleluia!
V. Alegrai-vos e exultai, ó Virgem Maria, Aleluia!
R. Porque o Senhor ressuscitou verdadeiramente, Aleluia!

Oremos. Ó Deus, que Vos dignastes alegrar o mundo com a Ressurreição do vosso Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo, concedei-nos, Vos suplicamos, a graça de alcançarmos pela protecção da Virgem Maria, Sua Mãe, a glória da vida eterna. Pelo mesmo Cristo Nosso Senhor. Ámen.

Latim:

V. Regina caeli, laetare, alleluia.
R. Quia quem meruisti portare, alleluia.
V. Resurrexit, sicut dixit, alleluia.
R. Ora pro nobis Deum, alleluia.
V. Gaude et laetare, Virgo Maria, alleluia.
R. Quia surrexit Dominus vere, alleluia.


Oremus. Deus, qui per resurrectionem Filii tui, Domini nostri Iesu Christi, mundum laetificare dignatus es: praesta, quaesumus; ut per eius Genetricem Virginem Mariam, perpetuae capiamus gaudia vitae. Per eundem Christum Dominum nostrum. Amen.


sábado, 18 de abril de 2026

Uma mudança força sempre a novas alterações


Os que acreditam poder movimentar-se na máquina da mudança, não podem parar o seu curso porque, mesmo atirando-se para a frente, apenas conseguem esquivar-se e adiar o declínio catastrófico, pois o equilíbrio torna-se cada vez mais difícil.

O homem ao ignorar as leis do Universo e do seu Criador, desencadeou forças que não domina e, ao não ter uma consciência clara dos seus desígnios, proporcionou a catástrofe actual e está a preparar uma muito pior para o futuro.

Sob o pretexto de libertar o homem das suas velhas amarras, para o conseguir e à medida que lhe dá forma, o Estado absorve todas as instituições, tirando o poder às formas de vida prestáveis, impondo uma condição social em que todos os membros da ordem da estrutura fluem de cima para baixo, partindo do centro estatal.

Destruída a construção que vai de baixo para cima, desapareceram para o Estado as limitações que, desde baixo e conforme a ordem da natureza, lhe eram impostas pelas autonomias dos corpos sociais com as suas liberdades e franquias jurídico-políticas.

sexta-feira, 17 de abril de 2026

IV Prémio Marquês de Rio Maior para a Agricultura

A Real Associação do Ribatejo tem a honra de convidar V. Exas para estar presente na cerimónia de entrega do IV Prémio Marquês de Rio Maior para a Agricultura, que terá lugar no próximo dia 18 de abril de 2026 às 11.30h , no Salão Nobre da Câmara Municipal de Santarém, seguido de um almoço no Clube de Santarém.

Nesta edição, o prémio será atribuído ao Eng.º Luís Vasconcellos e Souza, em reconhecimento pelo seu notável contributo para o desenvolvimento e valorização da agricultura portuguesa.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

O homem do futuro


“A lei continua a ser, não importa o quanto vazia de conteúdo nem o quanto afastada do Direito Natural, o supremo árbitro... O Direito Natural é suspeito de origem religiosa e metafísica, inadequado para uma sociedade pragmática e pluralista...

Os conceitos de bem e mal estão deteriorados, os valores são decretados pela lei positiva. Um exemplo apelativo é-nos dado quando se legaliza o aborto e por isso é bem.

Somos testemunhas da clara vitória do legalismo sobre a ética. As raízes não estão no que é permanente, mas num suposto futuro onde, em breve, se espera que desponte um novo tipo humano. Um homem estandardizado que tenha assimilado completamente o direito positivo, objecto de manipulação sociológica, com todas as suas mudanças subsequentes”.

Thomas Molnar em “O Direito Natural e o Direito Positivo no Mundo Anglo-Saxão”. Conferência pronunciada na “II Jornadas Hispânicas de Direito Natural”, Córdoba, Set./1998
 

Fonte: Causa Tradicionalista

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Apresentação do livro “Coimbra Isabelina: Memórias da Rainha Santa Isabel"

No próximo dia 19 de Abril de 2026, pelas 17 horas, na Sala do Capítulo do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, será apresentada a obra “Compêndio Histórico –_Coimbra Isabelina: Memórias da Rainha Santa Isabel_", da autoria do Confrade Doutor Francisco Manuel Relva Pereira.

     A obra está prefaciada pela Confreira Doutora Carlota Miranda Urbano, Professora da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, que fará a respectiva apresentação.

     A Confraria da Rainha Santa Isabel e a Liga dos Amigos da Confraria da Rainha Santa Isabel associam-se ao lançamento desta obra sobre a Padroeira da cidade de Coimbra, obra que é da autoria de um Confrade desta Irmandade, convidando todos os Irmãos e Irmãs da Confraria, bem como todos os devotos da Rainha Santa Isabel a participarem nesta apresentação.

     A entrada é livre!

domingo, 12 de abril de 2026

A Páscoa das três Encíclicas


O título «A Páscoa das três encíclicas» pretende recordar três importantes documentos emanados pelo Papa Pio XI a poucos dias de distância uns dos outros, em Março de 1937. Três Encíclicas que se dirigiam a todos os católicos do mundo e que conservam ainda hoje a sua actualidade.
Pio XI, octogenário e convalescente depois de uma longa doença que o tinha imobilizado durante meses, enfrentava três graves desafios postos à Igreja pelas ideologias anticristãs do seu tempo: o neopaganismo da Alemanha hitleriana, com a Mit brennender Sorge; o comunismo da Rússia soviética, com a Divini Redemptoris; o anticristianismo do México laicista e maçónico, com a Firmissimam constantiam. A saída destas três encíclicas no espaço de duas semanas foi um facto único na história da Igreja.
A primeira encíclica, a Mit brennender Sorge, estava datada do Domingo da Paixão, 14 de Março de 1937. Pio XI afirmava: «Se é verdade que a raça ou o povo, se o Estado ou uma sua determinada forma, se os representantes do poder estatal ou outros elementos fundamentais da sociedade humana têm na ordem natural um lugar essencial e digno de respeito; todavia quem os destaca desta escala de valores terrenos, elevando-os a suprema norma de tudo, mesmo dos valores religiosos, e os diviniza com culto idolátrico, perverte e falsifica a ordem criada e imposta por Deus, está longe da verdadeira fé em Deus e de uma concepção da vida conforme a ela. (…)
Sobre a fé em Deus genuína e pura se funda a moralidade do género humano. Todas as tentativas de destacar a doutrina da ordem moral da base granítica da fé, para a reconstruir sobre a areia movediça de normas humanas, levam, cedo ou tarde, indivíduos e nações ao decaimento moral. O insensato que diz no seu coração: “não há Deus”, encaminhar-se-á para a corrupção moral. E estes insensatos, que presumem separar a moral da religião, tornaram-se hoje legião».
A segunda encíclica, a Divini Redemptoris, foi publicada a 19 de Março de 1937, festa de S. José, padroeiro da Igreja e dos trabalhadores cristãos. Denunciando o comunismo mundial e ateu que da Rússia se difundia pelo mundo, Pio XI dizia: «Pela primeira vez na história estamos a assistir a uma luta friamente querida e cuidadosamente preparada do homem contra “tudo aquilo que é divino” (…)
Procurai, Veneráveis Irmãos, que os fiéis não se deixem enganar! O comunismo é intrinsecamente perverso e não se pode admitir em nenhum campo a colaboração com ele da parte de quem quer que deseje salvar a civilização cristã. E se alguns iludidos cooperassem para a vitória do comunismo no seu país, cairão os primeiros como vítimas do seu erro, e quanto mais as regiões onde o comunismo consegue penetrar se distinguem pela antiguidade e grandeza da sua civilização cristã, tanto mais devastador aí se manifestará o ódio dos “sem Deus”».
Pio XI lançava um «apelo a quantos creem em Deus»: «Mas a esta luta travada pelo “poder das trevas” contra a própria ideia da Divindade, é-nos grato esperar que, além de todos quantos se gloriam do nome de Cristo, se oponham também validamente quantos (e são a grande maioria da humanidade) creem ainda em Deus e O adoram. Renovamos portanto o apelo que já lançámos há cinco anos na Nossa Encíclica Caritate Christi a fim de que eles também lealmente e cordialmente concorram da sua parte “para afastar da humanidade o grande perigo que ameaça todos”.
Pois – como então dizíamos – visto que “o crer em Deus é o fundamento inabalável de toda a ordem social e de toda a responsabilidade sobre a terra, por isso todos quantos não querem a anarquia e o terror devem energicamente esforçar-se para que os inimigos da religião não alcancem o fim por eles tão abertamente proclamado”».
O Papa acrescentava: «Onde o comunismo pôde afirmar-se e dominar – e aqui pensamos com singular afecto paternal nos povos da Rússia e do México –, aí se esforçou por todos os meios de destruir (e proclama-o abertamente) desde as suas bases a civilização e a religião cristã, extinguindo no coração dos homens, especialmente da juventude, toda a recordação. Bispos e sacerdotes foram banidos, condenados aos trabalhos forçados, fuzilados e mortos de maneira desumana; simples leigos, por terem defendido a religião, foram suspeitados, vexados, perseguidos e arrastados para as prisões e perante os tribunais».
Precisamente ao México era dedicada a terceira encíclica, Firmissimam constantiam, emanada no dia de Páscoa, 28 de Março de 1937. Nela o Papa afirmava que «quando as mais elementares liberdades religiosas e civis são atacadas, os cidadãos católicos não se resignem logo a renunciar a elas». Caso os poderes constituídos «se insurgissem contra a justiça e a verdade ao ponto de destruir os próprios fundamentos da autoridade, não se veria como dever condenar aqueles cidadãos que se unissem para defender com meios lícitos e adequados a si mesmos e a Nação, contra quem se serve do poder público para a arruinar».
Pio XI não convidava à rendição, mas recordava aos católicos mexicanos que tivessem «aquela visão sobrenatural da vida, aquela educação religiosa e moral e aquele zelo ardente pela dilatação do Reino de Cristo que a Acção Católica se propõe dar. Perante uma feliz coligação de consciências que não entendem renunciar à liberdade reivindicada por Cristo (Gal. 4, 31) qual poder ou força humana poderia subjugá-las ao pecado? Quais perigos, quais perseguições, quais provas poderiam separar almas assim temperadas da caridade de Cristo? (cf. Rm 8, 35)».
Os cristeros mexicanos tinham empunhado as armas em nome de Cristo Rei. Pio XI, dirigindo-se aos católicos mexicanos, recordava a sua encíclica Quas primas de 11 de Dezembro de 1925 na qual proclamava Cristo Rei do universo. Uma verdade que se opunha às ideologias anticristãs que, à vigília da Segunda Guerra Mundial, ameaçavam o mundo. Mas também nas horas mais sombrias a virtude da esperança alimenta a fé dos cristãos.
Assim, na Divini Redemptoris, Pio XI afirmava: «Com os olhos voltados para o alto, a nossa fé vê os “novos céus” e a “nova terra”, de que fala o nosso primeiro Antecessor, São Pedro (II Petr. III, 13). Enquanto as promessas dos falsos profetas nesta terra se extinguem no sangue e nas lágrimas, resplandece de beleza celestial a grande profecia apocalíptica do Redentor do mundo: Eis que Eu faço novas todas as coisas (Apoc. 21, 5)».
Roberto de Mattei in 'Corrispondenza Romana'

Fonte: Senza Pagare