segunda-feira, 18 de maio de 2026

A SOBERANIA DA FOME


“Algumas reflexões nos merecem ainda os sucessos destes dias trágicos encarados pelo nosso ponto de vista doutrinário. As dificuldades que as classes pobres conhecem, embora seja alta a tabela dos salários para certas profissões e indústrias, reflectem em si um mal já antigo, - o mal congénito do liberalismo económico.

Tais são as virtudes da afamada “livre-concorrência”, que deixa o humilde, desprotegido na sua insignificante resistência ao custo de vida enquanto favorece o desenvolvimento de monopólios omnipotentes, a cuja voracidade nada farta no alastramento crescente das suas bastas tentaculares. Entre outros defeitos graves, porque representam defeitos de constituição, as democracias manifestam-se sempre de natureza plutocrática. (…)

E eu poderia demonstrar que o proletário moderno é filho da Revolução Francesa e que ao longo da história, tanto na antiguidade romana como na própria idade contemporânea, somente as monarquias se nos apresentam aptas a resolver com duração os problemas difíceis da economia do pobre.(…)

Os pelourinhos, símbolos da jurisdição municipal, evocam-nos as penas que os magistrados concelhios aplicavam aos que, contra a ordenação régia ou contra a postura da terra, falseavam o preço do pão e da carne.(…) Era uma instituição destinada ao bem-comum, que subsistiu vantajosamente através dos séculos para morrer com o advento da Liberdade no aportar dos Imortais-Princípios às areias infortunadas de Portugal.

Bastante havia que contar igualmente da acção dos nossos reis nas fomes bíblicas que ameaçaram por vezes devastar-lhes o reino. Do caluniado D. João V sei eu, por exemplo, que na esterilidade de 1745, em que nem a semente se tirou da colheita, mandou distribuir pelos lavradores do Alentejo sete mil moios de trigo. Jà na epidemia de 1723 que assolara Lisboa em 1723 o soberano despendera grossas somas em roupas e em subsistências para a pobreza da capital. O tesouro dos reis foi sempre a caixa económica dos pobres. Hoje o tesouro do estado é o tesouro que conhecemos. Mas enfim, desaparecem as roupetas e as coroas, inimigas do progresso e da ventura da sociedade.

A fraternidade é que reina, embora empoçada em sangue, embora seguida dum cortejo sinistro de mortes e prisões.

A fraternidade! A fraternidade! Já lá dizia há cem anos o príncipe Metternich que, com tal descrédito da palavra, se tivesse um irmão lhe chamaria primo!"

António Sardinha, A Prol do Comum

Por Deus, Pátria e Rei


Sem comentários: