segunda-feira, 20 de julho de 2026

8 anos de traição aos Católicos Chineses

Há poucos dias celebrou‑se o oitavo aniversário do acordo secreto provisório entre a Santa Sé e o Partido Comunista Chinês (PCC) relativo à Associação Patriótica Católica Chinesa (APCC). Concebido pelo Secretário de Estado do Vaticano, o Cardeal Pietro Parolin, em 2018, com a bênção do Papa Francisco, o acordo reconhece a autoridade suprema do PCC para nomear bispos e suprimir e/ou estabelecer dioceses na China — o Bispo de Roma limita‑se a aprovar. Segundo se diz, pouco após a eleição do Papa Francisco, o novo pontífice encarregou o desonrado predador sexual Cardeal Theodore McCarrick de visitar a China com a tarefa de retomar as negociações com o PCC — após o Papa Bento XVI ter deixado de as promover — sobre a nomeação de bispos na China comunista. McCarrick fez, pelo menos, oito viagens à China e prestou informações sobre as suas negociações com o PCC tanto ao Papa Francisco como ao Cardeal Parolin.

Criada em 1957 sob a autoridade de Mao Zedong e gerida pelo Departamento do Trabalho da Frente Unida do PCC, a intenção era alinhar o catolicismo com a ideologia comunista. No início de 1958, Pequim designou ilicitamente o primeiro grupo de bispos sem consultar a Santa Sé. Em Junho desse mesmo ano, o Papa Pio XII publicou a sua encíclica Ad Apostolorum Principis, na qual denunciou a “igreja paralela” chinesa, recusando reconhecer quaisquer consagrações episcopais feitas pela APCC sem prévia aprovação do Vaticano.

Os católicos que permaneceram fiéis a Roma foram forçados a agir na clandestinidade. A partir desse momento, os fiéis de Roma passaram a actuar secretamente. Uma figura notável dessa época foi o finado Bispo católico romano de Xangai e Administrador Apostólico de Suzhou e Nankin, o Cardeal Ignatius Kung Pin‑Mei. Até ao presente mantêm‑se como uma Igreja “subterrânea”, a qual o Vaticano deixou de apoiar por causa do acordo provisório. Muitos padres, freiras e leigos continuam a sofrer prisão, tortura e, em alguns casos, mesmo execução pela recusa em conformar‑se com a igreja institucional do PCC.

Quando o Papa Leão XIV se dirigiu ao público, no dia 25 de Maio do ano passado, poucas semanas depois da sua eleição papal, recordou o Dia de Oração pela Igreja na China durante a sua alocução do Regina Caeli. Esse dia coincidia com o momento, em 2007, em que o Papa Bento XVI escreveu uma carta aos católicos chineses, reconhecendo a sua “fidelidade a Cristo Senhor e à Igreja — uma fidelidade que [eles] têm manifestado por vezes ao preço de graves sofrimentos.” Esperava‑se que isto sinalizasse uma espécie de renascimento para os católicos “subterrâneos” que se recusam a alinhar‑se com a Igreja Patriótica controlada pelo PCC.

O contrário sucedeu, quando o Vaticano anunciou, a 10 de Setembro, que o Papa Leão XIV, a pedido do Presidente chinês Xi Jinping, havia suprimido as duas históricas dioceses de Xiwanzi e Xuanhua — ambas criadas em 1946 pelo Papa Pio XII. Substituiu‑as por uma nova diocese católica na província setentrional de Hebei, com o mesmo nome — Zhangjiakou — de uma que fora criada décadas antes por Pequim sem aprovação do Vaticano. Foi nomeado Padre Joseph Wang Zhengui como Bispo de Zhangjiakou a pedido do PCC, tendo recebido a consagração episcopal no mesmo dia em que a nova diocese foi anunciada.

Presentemente, dois bispos subterrâneos, Augustine Cui Tai e Thaddeus Ma Daqin, encontram‑se detidos e em prisão domiciliária, com as suas funções ministeriais cerceadas por bispos nomeados pelo governo. O Bispo James Su Zhimin, com 94 anos, não é visto desde 2003. O Bispo Xin Wenzhi, de 63 anos, permanece desaparecido forçosamente. Além disso, os Bispos Vincent Guo Xijin e Peter Shao Zhumin, que se recusaram a registar‑se na APCC, estão em prisão domiciliária há mais de um ano. Padres que recusam juntar‑se à Igreja Patriótica continuam a ser presos e torturados, e os libertados da detenção suportam assédio contínuo, incluindo a perda das contas bancárias, passaportes e cartões SIM, o que lhes retira os meios de subsistência.

É bastante presunçoso que a Santa Sé tenha imposto a excomunhão aos bispos da SSPX apenas pelo seu desejo de continuar a administrar os Sacramentos da Confirmação e das Ordens Sagradas — depois de terem sido negadas em várias ocasiões audiências com o Papa Leão XIV para exporem a sua situação — porém o sucessor de São Pedro conforma‑se com um déspota ateu que lidera uma igreja paralela apoiada pelo comunismo.

O comunismo é fundamentalmente malévolo. Para além da sua defesa de uma doutrina ateísta, os regimes comunistas foram responsáveis por alguns dos acontecimentos mais mortíferos da história moderna, com estimativas que sugerem que cerca de 100 milhões de pessoas perderam a vida sob governos comunistas durante o século XX. Além disso, o legado da ideologia caracteriza‑se por estagnação económica, repressão sistemática de liberdades essenciais, catástrofes ambientais e a hipocrisia de uma elite governante que subverte os próprios princípios de uma sociedade sem classes.

Estas falhas não são eventos isolados ou simples erros de implementação. São observáveis em todos os continentes onde o comunismo foi tentado — desde a antiga União Soviética, à China, a Cuba, à Coreia do Norte, os regimes comunistas não se limitam a restringir a liberdade, mas consideram a autonomia individual uma ameaça à sobrevivência do sistema e procuram activamente eliminá‑la.

As liberdades de expressão, imprensa, reunião, movimento, religião e até o pensamento pessoal foram todas sujeitas ao controlo do Estado comunista. A justificação mantém‑se inalterada: o bem colectivo sobrepõe‑se a quaisquer direitos individuais. Na prática, “o bem colectivo” é definido pelo que o partido no poder decide que signifique.

A erradicação da propriedade privada, por exemplo, é um dos princípios fundamentais da ideologia comunista em vez de um mero resultado eventual. Os regimes iniciaram a apreensão de bens quase imediatamente após as respectivas revoluções, abolindo o direito de possuir terra em áreas urbanas e apropriando‑se de edifícios que excediam certos valores modestos. Karl Marx descreveu explicitamente o comunismo como “a expressão positiva da propriedade privada anulada”, indicando que tal não era uma táctica temporária de guerra, mas antes o objectivo último da ideologia.

Contudo, o actual papado aparentemente mantém que alguns resultados benéficos e favoráveis poderão advir do referido acordo provisório. Esta posição contrasta fortemente com as acções do Papa Santo João Paulo II. Eleito em 1978, denunciou a duplicidade dos regimes do Pacto de Varsóvia confrontando‑os directamente. Com o apoio do Presidente dos EUA Ronald Reagan, o Papa polaco apoiou financeiramente organizações anticomunistas, mais notavelmente a Solidariedade, que não só derrubou o regime comunista na Polónia em 1989 como também desencadeou uma reacção em cadeia que conduziu ao colapso de outros governos comunistas, incluindo a U.R.S.S.

No século XX, os regimes comunistas infiltraram‑se eficazmente na Igreja para a destruir a partir de dentro. É difícil acreditar que a China comunista tenha mudado de coração e deixe de se envolver em acções semelhantes. Como disse o Arcebispo Emérito de Hong Kong, Cardeal Joseph Zen, no início do pacto secreto com a China: “Estão a entregar o rebanho à boca dos lobos. É uma traição incrível."

Fr. Mario Alexis Portella in 'Crisis Magazine'


domingo, 19 de julho de 2026

CRITICA XXI . NÚMERO 15 . PRIMAVERA 2026

Este número 15 da Crítica XXI, referente à Primavera de 2026, abre com um artigo de Jaime Nogueira Pinto, “Os Iliberais de há 100 anos”,  que historia a vaga de movimentos e regimes iliberais que, nos anos vinte, surgiram na Europa em resposta à crise do parlamentarismo liberal e à ameaça comunista. Nele sublinha a importância de distinguir estes autoritarismos nacionais-conservadores do fascismo italiano e do nacional-socialismo alemão.

Também numa linha de História do pensamento e dos movimentos políticos, Miguel Morgado, em “O Fascismo nasceu na Sabóia? O pensamento político de Joseph de Maistre”,  argumentando contra Isaiah Berlin, que aponta De Maistre como “fascista”, esclarece a diferença abissal entre o anti-liberalismo e anti-democratismo de  Joseph de Maistre, – um católico contra-revolucionário e tradicionalista – e o pensamento e instituições do Fascismo, ideologia e movimento que pertence à chamada “direita revolucionária”.

Tu que  fumas” é um ensaio de Carlos Maria Bobone que, a propósito do “vício” do tabaco e da sua interdição e condenações globais, faz uma reflexão sobre as sociedades contemporâneas e a determinação ético-legal, dos seus interditos e das suas liberdades.

Em “Preste João das Índias — Entre a profecia e a geopolítica“, José Cortez de Lobão ocupa-se da resenha histórica e literária de um velho mito cristão europeu – o Preste João – muito familiar às narrativas da expansão portuguesa. Vinda das profundas da Idade Média, a narrativa sobre um Reino de um Rei cristão no Oriente, que resistira às forças do Islão e queria aliar-se com a Europa cristã contra os muçulmanos, é muito comum na história da Expansão Portuguesa. Nos tempos de D. João II e D. Manuel I, os extraordinários viajantes e nossos compatriotas, Afonso de Paiva e Pêro da Covilhã, para lá viajaram. E Covilhã lá ficou e morreu na corte da Etiópia.

Em “Churchill e os Socialismos”, Nuno Sanches de Baena Ennes aborda a figura de Winston Churchill na perspectiva dos seus anos de formação política e no papel que o confronto com “os socialismos” acabou por ter na formação dos seus valores de conservadorismo liberal. Foi na Índia, no seu serviço militar como jovem oficial, que Churchill se entusiasmou e dedicou à leitura e à cultura, desde a Origem das Espécies de Darwin que o familiarizou e entusiasmou pelo “darwinismo social”, até ao clássico inglês de Gibbon da História de Roma e da Decadência do Império Romano. Depois veio a paixão pela História de Inglaterra e a descoberta da harmonia do “mistério britânico”, a harmonia entre Tradição e Modernidade.

No centenário do 28 de Maio, evocando a revolução militar de há um século (piedosa e intencionalmente esquecida no presente), Rui Ramos parte em “ A Revolução do 28 de Maio de 1926 e as origens do Salazarismo” para uma análise do papel dos militares na origem e vigência do Estado Novo. E conclui que o sucesso da revolução de Maio esteve, paradoxalmente, no papel central dos militares na formação e no apoio ao Estado Novo e em se terem afastado do exercício directo do poder. Mas também em se terem mantido como os garantes – unidos e na sombra. E quando deixaram de o apoiar, o regime caiu.

Na habitual secção final de “Notas Críticas”, Eurico de Barros e Jaime Nogueira Pinto fazem a crítica de dois filmes políticos recentes: Projecto Global de Ivo M. Ferreira, sobre o terrorismo das FP-25 de Abril, e Lavagante, de Mário Barroso. O primeiro é uma obra política e moralmente ambígua sobre um grupo terrorista de extrema-esquerda, que existiu, contra a ideia de que só há terroristas na extrema-direita. Lavagante é uma história mais composta sobre o Estado Novo, com Pides “ feios, porcos e maus” e oposicionistas esclarecidos e bondosos.

Miguel Freitas da Costa faz uma recensão crítica ao livro de José Luís Andrade, Breve História do 28 de Maio e da Ditadura Militar, uma obra de síntese, muito interessante e  importante no centenário do movimento militar.

A finalizar, mais uma recensão  de Eurico de Barros, Fanfulla, de Hugo Pratt e Mino Milani) e outra de Miguel Freitas da Costa, Um Português na China, de André Macedo.

DIRECÇÃO JAIME NOGUEIRA PINTO E RUI RAMOS

 Fonte: Critica XXI

sábado, 18 de julho de 2026

Presidencialistas são republicanos monarquizados

Eu compreendo a relutância dos republicanos pelo presidencialismo.
Os republicanos, verdadeiramente, não podem ser presidencialistas, e por isso, faz bem o Sr. Afonso Costa, do fundo do seu exílio de Elvas, em protestar contra o presidencialismo, como o Sr. António José d'Almeida que não sabe o que seja isso, ou o Sr. Brito Camacho a quem o presidencialismo não convém. A República, ou é parlamentar, caminhando a passos largos para o anarquismo, ou é presidencialista e, então, deixa de ser autêntica república. Os presidencialistas não são republicanos puros, são republicanos monarquizados.

Alfredo Pimenta in «A Situação Política», 1918


Fonte: Veritatis

sexta-feira, 17 de julho de 2026

O Estado liberal


O Ocidente foi atingido por uma ruptura na sua unidade porque deixou de haver unidade religiosa, devido à protestantização de algumas Nações. O pensamento cartesiano substituiu o sistema aristotélico e o de S. Tomás de Aquino, para além do regresso dos costumes pagãos como o mercantilismo, a luxúria, a escravidão, o culto da vaidade, a deturpação das artes, os comportamentos sem regra e indisciplinados, o despotismo e a tirania dos réis que foram um terreno propício ao desenvolvimento do Iluminismo e culminaram com a Revolução Francesa.

O secularismo avançou até às novas correntes de pensamento – o laicismo, o naturalismo liberal, o socialismo, o fascismo – e contra esta nova ordem, pensada e concretizada pela maçonaria, como ela mesmo assumiu, combateu a Igreja Católica.

A razão deixou de ser um juízo equilibrado, para se tornar uma crítica ousada.

Desenvolve-se uma política sem Direito divino, uma religião sem mistério, uma moral sem dogmas.

A consciência europeia entra em crise, talvez a mais importante na história das ideias. À civilização alicerçada na ideia do dever – deveres para com Deus e com o Rei – a nova ordem contrapõe uma nova civilização construída na ideia do direito – direitos da consciência individual, direitos da crítica, direitos da razão, direitos do homem e do cidadão.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

A promessa de Nossa Senhora do Carmo

A ordem dos Carmelitas tem como modelo o profeta Elias e caracteriza-se por uma profunda devoção a Maria. A Sagrada Escritura fala da beleza do Monte Carmelo, onde o profeta Elias defendeu a fé do povo de Israel no Deus vivo e verdadeiro. Carmelo em hebraico significa "vinha do Senhor".

Ali Elias enfrentou os profetas de Baal. Segundo o Livro dos Reis, Elias teve uma visão em que a Virgem lhe apareceu sob a figura de uma pequena nuvem que saía da terra e se dirigia ao Carmelo.

Em 93, os monges construíram sobre o Monte Carmelo uma capela em honra à Virgem Maria. As gerações de monges sucederam-se através dos tempos. Em 1205, o patriarca de Jerusalém deu-lhe uma Regra baseada no trabalho, na meditação das Escrituras, na devoção a Nossa Senhora, na vida contemplativa e mística.

Entretanto, ainda no séc. XIII, os muçulmanos invadiram a Terra Santa. Os eremitas do Monte Carmelo fugiram para a Europa. Nesta época, tinham como superior geral São Simão Stock. Enquanto rezava, pedindo a Nossa Senhora que fosse a protectora da Ordem dos Carmelitas, recebeu das mãos de Nossa Senhora do Carmo o escapulário: «Eis o privilégio que te dou a ti e a todos os filhos do Carmelo: "todo o que for revestido desse hábito será salvo".

Clicar aqui para saber como receber e usar o Escapulário de Nossa Senhora do Carmo

in Evangelho Quotidiano


quarta-feira, 15 de julho de 2026

Origem dos Guardas Florestais

Guarda do Piquete de Fogos do Corpo da Guarda-Florestal, 1905

Foi nos bons tempos da Monarquia Portuguesa que surgiram os elementos dedicados à conservação do Pinhal do Rei e das florestas portuguesas. Inicialmente, tratavam-se de simples couteiros que com o passar do tempo viram as suas funções ampliadas, atingindo, em 1605, o número de 24.
Mas foi no reinado do bom Rei João VI de Portugal, cognominado ‘O Clemente’, que efectivamente foi criada a carreira de guarda-florestal, integrada no quadro da Administração Geral das Matas, e foi em 1856, no reinado do Bem-Amado e pragmático El-Rei Dom Pedro V, que começaram a usar o uniforme específico que duraria até 1905, data da sua substituição por novo fardamento.
De entre as funções dos guardas-florestais destacavam-se: evitar incêndios criminosos, deter pirómanos, observar as florestas para evitar incêndios ou a sua progressão, zelar pela não realização de queimadas, fiscalização do abate autorizado e da madeira que saía da mata, medições de lenhas e madeiras, assim como proceder a sementeiras das espécies arvoráceas, arbustivas, herbáceas e graminosas autóctones, limpezas, autos de marca e, tal-qualmente, algum trabalho administrativo.

Foram extintos, durante a república, pelo Decreto-Lei 22/2006 de 22 de Fevereiro!

Miguel Villas-Boas

Fonte: Plataforma de Cidadania Monárquica

terça-feira, 14 de julho de 2026

O Rei e o Tirano

Bastante se disse já sobre o que separa um Rei de um Tirano. É Rei o que obedece à inspiração divina, segue os ditames da recta razão, promove a justiça, reprime os crimes e as fraudes, observando em tudo a devida ordem e medida.
É Rei o que consegue impor-se a toda a Nação pelos merecimentos de suas virtudes; o que todos os perigos afronta para salvar a pátria; o que, aspirando à posse da eterna glória, chega a desprezar a morte para alcançar a imortalidade.
Será, pelo contrário, Tirano, aquele que não atender a Deus, enjeitar os ditames da razão, der guarida à impureza e ao prazer; o que violar as leis divinas e humanas, e recorrer ao dolo e à simulação.
Será Tirano quem trocar a verdadeira dignidade por uma falsa aparência de decoro; o que julgar ter-se desempenhado cabalmente da sua função quando, dominando pela força, tiver aterrado e pilhado todo o povo para aumentar seus cabedais, recorrendo a violências e fraudes. Portanto: como o protege Deus com a sua graça, como alicia os corações de todos com o fulgor das suas virtudes impolutas, o Rei assisado na sua administração, intrépido em repelir o inimigo, moderado em seu governo, constante em manter justa a lei, e feliz em seus empreendimentos. Sentindo-se ele próprio feliz, torna florescente e prendada a pátria inteira.
O Tirano torna-se odiado pela sua malvadez, pelas suas torpezas e embustes. Já nele não confiam os homens, que lhe são todos hostis. Tudo faz entre raivoso e ousado, entre indeciso e cobarde; já não o ajuda Deus com seu auxílio.
Donde, por força há-de ele corromper-se a si e aos que lhe são sujeitos, não se ficando que os não desgrace a todos.
Bem é de ver agora que tais males – todos quantos desfiámos – não os promove o verdadeiro Rei, mas o que falsamente o nome de Rei se arroga. Cumpre ele a sua missão mais à maneira de Tirano do que de beneficente e legítimo Rei.

D. Jerónimo Osório in «Da Instituição Real e sua Disciplina», 1571


Fonte: Veritatis

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Canonista diz que excomunhão da FSSPX é uma "confusão canónica"

O Rev. Padre Gerald Murray, canonista da arquidiocese de Nova Iorque, qualificou a excomunhão da Fraternidade Sacerdotal São Pio X de «confusão canónica», numa entrevista a Raymond Arroyo.

Dois mecanismos canónicos
O Rev. Murray distingue as penas automáticas (latae sententiae) das penas impostas (ferendae sententiae), que exigem um processo judicial ou administrativo. O Cardeal Victor «Tucho» Fernández não impôs a excomunhão, mas declarou que já fora incorrida uma pena automática, uma vez que a consagração de bispos sem mandato papal acarreta a excomunhão segundo o direito canónico. 

O decreto excomunga apenas os seis bispos
A crítica central do Rev. Murray é a seguinte: o decreto nomeia apenas seis bispos, enquanto a nota explicativa se refere a sacerdotes e leigos. Porém, uma nota não pode alargar legalmente o âmbito de um decreto. A nota qualifica os sacerdotes de «cismáticos», mas o próprio decreto nunca os declara excomungados.

Como um decreto penal deve especificar quem cometeu qual infracção e quando, e tal foi omitido, o Rev. Murray conclui que os sacerdotes da FSSPX não foram legalmente excomungados. Poderão, teoricamente, ter incorrido numa pena automática, mas esta não foi juridicamente estabelecida.

Assistência dos leigos à Missa não basta para a excomunhão
A nota explicativa adverte contra a «adesão formal» ao cisma, mas o direito canónico exige um acto externo identificável, e não apenas uma atitude interior. O simples facto de assistir às Missas da FSSPX não estabelece adesão formal, e o decreto nunca define que conduta incorreria efectivamente na pena.

A nota explicativa não pode prevalecer sobre a lei vigente
O Padre Murray argumenta que uma nota não pode criar novas penas nem revogar legislação papal existente. O Papa Francisco concedeu aos sacerdotes da FSSPX as faculdades para ouvir confissões e assistir a casamentos. Apenas o Papa (ou autoridade equiparada) pode revogar essas faculdades. A nota não pode, portanto, invalidar as confissões nem os casamentos da FSSPX.

Ambiguidade sobre a «plena comunhão»
Por fim, o Padre Murray observa que os documentos pressupõem que muitos leigos já não se encontram em plena comunhão, mas, sem heresia, cisma ou pena canónica declarada, não se pode simplesmente presumir a perda da comunhão. Conclui que os documentos confundem a linguagem eclesiológica com o estatuto jurídico efectivo.

in gloria.tv


domingo, 12 de julho de 2026

“A democracia é uma crendice muito difundida, um abuso da estatística.”


Há vários sistemas políticos em que o homem pode viver, mas conformar-se com o "menos mau", como lhe chamam os defensores deste "status quo", é inaceitável.

Mas porque razão não é a democracia parlamentar representativa? Porque o parlamento falha como tal em dois níveis da sua existência:

- Na sua relação com o Estado como órgão representativo que nele se integra:

Como órgão do Estado, como "poder legislativo", desempenha funções que são alheias e incompatíveis com a função de representação. Esta implica um contexto relacional: representa-se alguém frente a alguém, diante de um poder independente. Quando este poder é o "executivo" que provém precisamente do "legislativo", é completamente impossível haver representação entre dois entes que não são independentes um do outro. Ao não haver, quando se elege, um vínculo de mandato imperativo, pelo qual os eleitores traçam uma linha de conduta que delimita a actuação do eleito e que este não poderá ultrapassar, tornando-se assim porta voz dos interesses de quem elegeu, o que sucede é que no momento da votação se torna independente dos eleitores. o mais "democrático" a que pode aspirar uma democracia parlamentar é ter uma certa transparência nas suas decisões.

- Na sua relação com o homem, com a pessoa que diz representar:

Na relação do votante com o deputado o parlamento falha como representativo da sociedade ao tomar em consideração o homem individualizado, abstracto, desprovido de todos os atributos e circunstâncias naturais que o configuram como pessoa. Na prática actual, fica evidente que o homem não pode fazer-se representar por um deputado, pois a figura do partido político coloca-se como intermediário, de tal forma que apenas se elege uma cor, uma tendência ideológica, mas a ideologia só supõe uma pequena parte da circunstância vital do homem que é a que menos interessa ao Estado. Assim esquece-se de o fazer ouvir como trabalhador, como vizinho, como membro de uma família, sob a ilusão de que tudo está abrangido pela tendência política. Mas nem sequer é possível a representação na mais pura teoria liberal, sem modificações do constitucionalismo, pois não existe o mandato imperativo que mantém o vínculo entre o representado e o representante que garante que este último leve avante as tarefas que lhe foram encomendadas.
 

Fonte: Causa Tradicionalista

sexta-feira, 10 de julho de 2026

FSSPX responde ao Decreto de Excomunhão

“Entre vós, se um filho pedir pão ao pai, dar-lhe-á uma pedra? Ou, se lhe pedir um peixe, dar-lhe-á uma serpente em vez de um peixe? Ou, se lhe pedir um ovo, dar-lhe-á um escorpião? Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais o vosso Pai celestial dará o Espírito Santo aos que lho pedirem?” (Lc XI, 11-13)

Santíssimo Padre,

Chegou até nós a notificação da decisão tomada pela Santa Sé a respeito da Fraternidade Sacerdotal de São Pio X, assinada por Sua Eminência o Cardeal Fernández, que é já do conhecimento público.

Parece-nos que esta decisão traz novamente à luz o contexto profundamente trágico em que a Igreja universal se encontra. O que a Fraternidade Sacerdotal de São Pio X fez e continuará a fazer não é senão uma iniciativa extraordinária para a salvação das almas, no meio da confusão doutrinal e moral em que a Igreja se vê mergulhada. De modo nenhum pretendemos substituir-nos à Igreja, e não temos outra ambição senão a de permanecermos fiéis a Ela.

Em consciência, não julgámos poder esquivar-nos ao dever moral que devemos às almas, como já explicámos, tanto em privado como em público, a Vossa Santidade.

Pedimos pão, isto é, uma medida de compreensão para um caso sincero de consciência — um acto de paternidade dirigido não tanto à Sociedade São Pio X como às almas, prometendo-Vos formá-las em verdadeiros filhos da Igreja romana; infelizmente, recebemos uma pedra.

Pedimos um peixe, isto é, a possibilidade de obter temporariamente os meios necessários para continuar a formar bons sacerdotes, a fim de que possam prosseguir na sua missão de dar a conhecer Nosso Senhor às almas; infelizmente, recebemos uma serpente.

Pedimos um ovo, prometendo devolvê-lo assim que possível. Com efeito, a santa Tradição que preservamos nas almas pertence à Igreja, nossa Mãe — e não à Fraternidade São Pio X —, e estamos certos de que um dia um Papa desejará empregá-la para o bem da Igreja universal; infelizmente, recebemos um escorpião.

Pedimos que nos instruíssem e confirmassem na fé de todos os tempos; em vez disso, fomos declarados cismáticos pela segunda vez.

Apesar das sanções que contra nós foram decretadas, a Fraternidade de  São Pio X renova sinceramente a promessa já expressa a Vossa Santidade. Permiti-me, a este respeito, reiterar livremente o que anteriormente afirmei:

«A Sociedade promete-Vos […] consagrar todas as suas energias à preservação da Tradição e a colocá-la ao serviço da Igreja. Ao fazê-lo, a Sociedade São Pio X não se limita a manter costumes antigos; fomenta e preserva vocações sacerdotais, vocações religiosas e famílias numerosas e profundamente cristãs — numa palavra, tudo o que manifesta a vitalidade da Igreja, da graça e da fé católica. A nossa intenção não é oferecer à Igreja um museu de antiguidades, mas sim o conjunto da Tradição: fecunda, fonte de vida espiritual, encarnada e vivida nas almas.

[…] Estou certo de que um dia Vós mesmo, ou um dos Vossos sucessores, poderá e quererá utilizar este serviço, cuja oferta, no seio da Igreja e para a Igreja, constitui a única razão de ser da Sociedade.» (Carta pessoal dirigida a Sua Santidade em 21 de Novembro de 2025)

Mas, sobretudo, a Sociedade São Pio X promete-Vos hoje que não acolherá estas novas sanções — objectivamente injustas e inválidas — com amargura ou revolta.

Estas recentes condenações, como as do passado, ferem o que mais caro nos é: o nosso apego à nossa Mãe, a Igreja romana. No entanto, mesmo nesta provação, todas as coisas devem concorrer para o bem das almas e da própria Igreja. Por isso, estas condenações obrigam-nos a amar ainda mais a Santa Igreja e a prover às suas necessidades com todas as nossas forças, agora mais do que nunca. É precisamente por esta razão que a Fraternidade de  São Pio X oferece de bom grado o sofrimento causado por estas novas sanções pelo bem da Igreja universal e de Vossa Santidade.

Estamos certos de que um dia Vós mesmo, ou um dos Vossos sucessores, desejará adoptar o programa de São Pio X: «Restaurar todas as coisas em Cristo», Instaurare omnia in Christo. Nesse dia, o Santo Padre descobrirá na Sociedade São Pio X não um ninho de serpentes e escorpiões, mas um pequeno exército de filhos leais, prontos a tudo para O sustentar na restauração de todas as coisas em Nosso Senhor e para reivindicar perante toda a humanidade os direitos imprescriptíveis de Cristo Rei sobre todas as almas e sobre todas as nações.

Nesse dia, o Santo Padre descobrirá, com grande alegria e profundo consolo, almas autenticamente católicas cujo vínculo com a Igreja nunca se fundou sobre as areias movediças de um diálogo ambíguo, mas sobre a rocha da fé de Pedro.

Pedimos à Santíssima Virgem Maria que apresse o despontar desse dia e rezamos, sobretudo, para que Vossa Santidade possa experimentar esta alegria e este consolo o mais brevemente possível.

Entretanto, se puderdes, apesar da Vossa recente decisão, abençoai-nos como Vossos filhos. Para nós, nada mudou e nada mudará jamais.

Confiante na Divina Providência, de quem nada se esconde e que lê no mais profundo do coração de cada homem,

Permaneço, Santíssimo Padre, o vosso devotadíssimo filho no Senhor.

Padre Davide Pagliarani


Fonte: Senza Pagare

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Vivemos numa sociedade plutocrata


"(...) Enganam-se os humildes se nas promessas falaciosas do erro democrático supõem encontrar a realização das suas reivindicações justíssimas! Um século inteiro de experiências dolorosas mostra-nos que nunca a sorte das classes pobres pode ser tratada e minorada pelos governos saídos do voto que são estruturalmente governos sujeitos, por defeito de origem, à venalidade e à corrupção. (…)

Os desaforos do cambismo, envolvendo e universalizando a sociedade por meio da judiaria argentária, empurram-nos fatalmente para a dissolução do conceito supremo da Pátria. Impossibilitam por outro lado o operário de se hierarquizar como uma energia positiva e autónoma.

As democracias resultam daqui, agora e sempre, como as formas de governo mais aptas à supremacia da alta finança. São «Le pays de cocâgne rêvê par des financiers sans scrupules» como Georges Sorel as define.

A instabilidade do poder nos governos electivos e a sua conquista pela corrupção eleitoral torna-os por natureza regimes abertos, como nenhuns outros, às imposições do Plutocratismo."

António Sardinha em "Durante a Fogueira"

quarta-feira, 8 de julho de 2026

A Soberania do Povo

De que na antiguidade sagrada, ou profana, por mais que se busque, não aparecem vestígios, antes pelo contrário, quanto mais perto da origem da sociedade chegam os trabalhos e exames históricos, vai-se parar constantemente em algum Rei ou Juiz ou Magistrado Supremo... o que é tão certo, que o ditado vulgar – Haja um que nos governe... já o era mil anos antes que Jesus Cristo viesse ao mundo...
Foi a Soberania do povo quem levou ao Cadafalso o Rei Carlos I de Inglaterra e em nossos dias o malfadado Luís XVI, e acabaria infalivelmente por fazer a todos a mesma gracinha, se lhe não forem a mão, e cortarem os herpes mui radicalmente de maneira, que nunca mais pegue tal doutrina, quer seja de sementeira, quer de enxertia, quer de estaca... Assentemos por uma vez que nunca o povo se diz soberano para outro fim mais do que para cair toda a Soberania nas mãos de um punhado de aventureiros, que desta arte lhe fazem a boca doce, enquanto mui a salvo, e a despeito da moral cristã, e dos princípios mais vulgares de decência, vão enchendo a bolsa, e por certo que não há coisa melhor nesta vida...
Se pegou a lábia ficaremos verdadeiramente Soberanos, e o povo terá de obedecer a muitos que só curam de esmagá-lo e saqueá-lo, em lugar de um só que nenhum interesse tinha de o vexar e de o oprimir. Se o tiro falhou e não acerta no alvo, não falharão as louras que vão na algibeira e que darão para comer e viver folgadamente em qualquer parte do mundo. São pois os heróis deste jaez inimigos do povo a quem esbulham de todo fruto dos seus suores e fadigas; são inimigos dos Reis cuja autoridade aviltam a ponto de fazerem sensível pela experiência de alguns anos, que um Rei é traste supérfluo, e que se todas as suas funções se devem reduzir a assinar de cruz em todos os papéis que lhe arrumarem, será melhor que o não haja... pois um Rei assim que custa um conto de reis por dia, sai mui caro à Nação (1). Ora tem saído a lume refutações sem conto desses Puritanos, liberais, Pedreiros, carbonários, etc., etc., etc. mas quem deu chiste foi o autor de Hudibras.
Ainda que o restabelecimento de Carlos II no trono do Inglaterra sufocou os partidos, e restituiu a paz e a tranquilidade ao próprio Reino, que nessa parte mais feliz do que acaba de ser o nosso, não fora roubado sob a Protecção de Cromwell e que à primeira voz que soltou o General Monck (mais feliz do que o nosso ínclito Silveira) gritou em altas vozes pela Monarquia; nem por isso deixou de haver uma chusma de descontentes, que sem embargo de que todas as classes tinham aceitado cordialmente a mudança de governo, mordiam-se de raiva, e não perdiam de todo a esperança de tornarem a subir...
Apareceu o Hudibras, ficaram todos metidos num chinelo, e nunca mais ninguém piou, e o que não chegaria a fazer toda a severidade de um rei, que desagravava o trono de seu desgraçado Pai, conseguiu-o a pena de um escritor, que sem nomear pessoas, ainda que designando-as mui claramente pelas suas artes, prendas e manhas, triunfou daquela emperrada teima de reformar a torto e a direito, e por certo mais esforçado que Alcides livrou a sua ditosa pátria destes verdadeiros leões de Nemeia... Apareça entre nós um Hudibras – e sem pão nem pedra daremos cabo dos Pedreirinhos, que conseguirem escapar ao desterro e à morte, e a qualquer outra pena que lhes infligir a justa severidade das Leis.

(1) Expressão de um ilustre deputado às Cortes Ordinárias, que decerto não podiam ser mais ordinárias.

D. Fr. Fortunato de S. Boaventura in «O Punhal dos Corcundas», Nº1, 1823


Fonte: Veritatis

terça-feira, 7 de julho de 2026

Família Real Portuguesa na Missa da Real Ordem de Santa Isabel

Suas Altezas Reais os Duques de Bragança, Sua Alteza o Duque do Porto, Sua Alteza a Duquesa de Coimbra e o Senhor Duque de Coimbra assinalaram no dia 4 de Julho, a festa da Rainha Santa Isabel, Padroeira da Cidade de Coimbra.

Durante a tarde, no Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, foi celebrada a Missa da Real Ordem de Santa Isabel, ordem dinástica feminina da Casa Real Portuguesa, da qual Sua Alteza a Senhora Dona Isabel de Bragança é a Grã-Mestra.

Na fotografia, Suas Altezas encontram-se acompanhadas pelo Doutor Francisco Relvas Pereira, membro da Direcção da Confraria da Rainha Santa Isabel. 


segunda-feira, 6 de julho de 2026

O Circo


Ainda só passaram três meses da tomada de posse do actual presidente e já conta no seu currículo, sete viagens de Estado, uma delas para assistir a um inútil jogo de bola onde, para gáudio de multidão alucinada e cretinizada, sobressaem os novos heróis nacionais, o que comprova a sua admiração pelo Sr Rebelo de Sousa.

Já tinhamos assistido estupefactos as exibições do que, como alguns lhe chamam, o único e queira Deus o último, “presidente monárquico” desta república.

Na altura cantou vivamente, de perna traçada, “A nossa alegre casinha”, num lugar mítico para a república, a Bela Vista, eterno símbolo do Portugal republicano e da sua curta História.

O populismo quase primário destes presidentes, leva-os a saltitar de estádios de futebol, a algumas Casas Brancas e destas a concertos, num agoniante miserabilismo.

Outro enorme presidente desta sedenta republica, o principal promotor do alcatrão, declara agora que Portugal não precisa de mais auto-estradas, ou estádios de futebol mas de crianças…

Estas são as novas com que nos brindam na intensa e diária orgia jornalística.

Mas é isto que queremos para Portugal?

Claro que não.

O que nos separa deste miserável regime liberal em que vivemos é o dar a possibilidade de atribuir a dignidade que o trabalho deve merecer.

É o dizer que as famílias, através da sua intervenção orgânica, decidam o que é melhor para si em cada Município.

É que um Rei, aquele que verdadeiramente detém a Soberania terrena, governe.

As verdadeiras soluções sempre foram simples, alegres e derrubam facilmente os pretensos e intencionalmente eternos problemas, a que eles gostam de chamar estruturais.

A solução tem três palavras.

Deus, Pátria e Rei.

Valentim Rodrigues