segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Um retrato cheio de história


O quadro que reproduzo neste artigo é um retrato a carvão de Dom Duarte Nuno de Bragança, desenhado pela minha bisavó, Valentina da Silva Leitão. Suponho que date do início dos anos 40, período marcado pelos intensos esforços dos monárquicos para superar a crise dinástica aberta com a imprevista morte de Dom Manuel II, em 1932. Tendo-me sido oferecido recentemente pela afilhada da autora, este desenho veio enriquecer o património familiar que nos liga, ao longo de várias gerações, à causa monárquica. É sobre o denso contexto histórico que rodeia esta peça que me pareceu pertinente partilhar algumas linhas.


Valentina da Silva Leitão (1888–1973), a “Avó Tina”, viveu na Avenida da Liberdade, no número 232, num andar inaugurado em 1892. Aquelas paredes testemunharam a angústia do regicídio, a revolução republicana e os combates na Rotunda. A sua memória era rica em relatos desse Portugal em transição. Curiosa é também a segunda fotografia que aqui partilho, de 1911, que retracta os meus bisavós, Valentina e José Joaquim (Condes de Castro), passeando na Granja com o meu avô e padrinho homónimo pela mão (e o seu pequeno basset), onde se haviam refugiado das impertinências que então fustigavam a capital.


É na sequência destes acontecimentos que é agendada a histórica viagem de D. Duarte Nuno ao Brasil, em 1942, meticulosamente planeada nos bastidores diplomáticos com o aval de Salazar. O objectivo central era o matrimónio que uniria os dois ramos dinásticos outrora desavindos. Realizada em plena Segunda Guerra Mundial, esta travessia civil de alto perfil envolveu um risco extremo devido à constante e real ameaça de submarinos alemães que patrulhavam as rotas navais do Atlântico. Para garantir a segurança e a discrição da jornada no teatro de guerra, organizou-se uma comitiva restrita que viajou no hidroavião Clipper. O grupo era composto pelo pretendente ao trono, pela sua irmã, a Infanta D. Filipa de Bragança, pelo já referido Conde de Castro (João António, de quem herdei o nome), pelo 4.º Conde de Almada, Lourenço de Almada, e pelo intelectual João do Amaral. A partida exigiu uma complexa articulação diplomática e uma paragem estratégica em Madrid, sob a protecção do embaixador Pedro Teotónio Pereira, para a obtenção dos vistos necessários.

Desta viagem resultou o anúncio oficial do noivado entre D. Duarte Nuno de Bragança e a princesa D. Maria Francisca de Orléans e Bragança, oficializado a 14 de Setembro de 1942, em Petrópolis. Este compromisso, seguido pelo casamento em Outubro do mesmo ano, selou a reconciliação definitiva entre o ramo miguelista de Portugal e o ramo imperial brasileiro de D. Pedro I. Politicamente, a união garantiu a continuidade dinástica da Casa Real e consolidou a liderança incontestada de D. Duarte Nuno. Além disso, o enlace reforçou os laços diplomáticos e culturais entre Portugal e o Brasil no complexo cenário da Guerra, abrindo caminho para a posterior revogação da Lei do Banimento e o regresso definitivo da família real a solo português, que veio a concretizar-se em 1952. 

O Senhor Dom Duarte Nuno, após uma sacrificada vida de serviço ao seu país e à sua Casa, faleceu a 24 de Dezembro de 1976, aos 69 anos. A sua morte encerrou um longo capítulo de transição dinástica, transferindo imediatamente a chefia e os direitos de representação da Casa Real para o seu filho primogénito, D. Duarte Pio de Bragança. Uma representação da qual se celebrarão cinquenta anos no próximo mês de Dezembro, e que por certo merecerá um sentido reconhecimento de todos os portugueses. 

In memoriam Valentina Leitão e João António Gomes de Castro.

João Távora

domingo, 30 de agosto de 2026

A IMPORTÂNCIA DO BEM COMUM


“(…) Desde que um agregado encontra uma linhagem que incarne no seu interesse privado, como interesse do conjunto, os interesses das partes componentes, só nessa altura pode considerar-se protegido contra as surpresas do futuro, sem receio que o enfraqueçam, ou os desvios da fortuna, ou as reticências da hesitação. Existe um fim, - não falta a certeza dos meios com que procurá-lo. É só correr-se em harmonia com as inclinações fundamentais e coordená-las em vista ao alvo desejado. A prosperidade e a saúde do novo ser social despontam sem tardança, com as promessas brilhantes da glória e o exercício superior dos dotes da vontade. É a ocasião em que se manifesta uma regra espiritual, simultaneamente coercitiva e arrebatadora, que conformando a mentalidade própria das circunstâncias, lhe concede aquela vocação mística que torna os povos senhores dos seus destinos e como que donos dos terrenos que pisam.

Eis porque a Cruz e a Espada são os admiráveis sustentáculos da nossa independência, alcançada a poder de tantíssimo sangue. Nós morreríamos nos torcicolos da longada, se o concurso dessas duas forças tradicionais não nos ajudasse a estabelecer o nosso lugarzinho ao sol, - se entregues apenas à espontaneidade do génio da Raça, nos não resguardassem de emboscadas e de inadvertências, dum lado, a ambição pessoal dos nossos Príncipes, do outro, os ditamos vindos de Trás-os-Montes, da claridade augustíssima de Roma.

A virtude primacial do Luso reside, pois, na sua predileção localista. O Concelho é assim a célula-mãe da Pátria. Mas a liberdade só se efectiva quando ponderada pela autoridade. Sem um valor de acentuado conteúdo concentrador, jamais se viabilizaria a perequação dos nossos diversos egoísmos institucionais, de cujo entrelaçamento os tecidos nervosos da nacionalidade se haviam fiado. (…)

Os municípios exprimiam as tendências ingénitas da Raça. Não caímos em erro se os classificarmos entre nós como formações absolutamente naturais. Por um processo associativo, frequentíssimo no mundo biológico, umas células pegaram a juntar-se às outras. E por força das circunstâncias do Meio e da Etnia. Portugal se constituiu como soma normal de tantas parcelas pequenas, em tudo idênticas e concordes.

Até o nome lhe adveio dum castro a cavaleiro do Douro, para que em nada padecesse dúvida a sua genealogia de terra livre.”

(António Sardinha, O Valor da Raça)


sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Santo Agostinho de Hipona, Doutor da Igreja

Origens

O seu nome era Aurélio Agostinho. Nasceu em Tagaste, uma cidade do Norte da África dominada pelos romanos (na região onde hoje fica a Argélia) no dia 13 de Novembro do ano 354. Filho primogénito, o seu pai, Patrício, era pagão e pequeno proprietário de terras. A sua mãe, pelo contrário, era cristã fervorosa, tanto que se tornou santa. Santa Mónica sempre tentou educar o filho na fé cristã. Agostinho, porém, por causa do exemplo do pai, não se importava com a fé.

Infância

Santa Mónica queria que seu filho se tornasse cristão, mas percebia que a hora de Deus ainda não tinha chegado. Tanto que adiou o seu baptismo, com receio de que ele profanasse o Sacramento. Aos 11 anos, Agostinho foi enviado para estudar em Madauro, perto de Tagaste. Lá, estudou literatura latina e algo que o distanciaria da fé cristã: as práticas e crenças do paganismo local e romano.

Juventude conturbada

Com 17 anos foi para Cartago estudar retórica. Embora tenha recebido formação cristã passou a seguir a doutrina maniqueísta, negada veementemente pelos cristãos. Além disso, tornou-se hedonista, ou seja, seguidor da filosofia que tem o prazer como fim absoluto da vida. Dois anos depois, passou a viver com uma mulher cartaginense, com a qual teve um filho chamado Adeodato. O relacionamento dos dois durou 13 anos. Durante todo esse tempo, Santa Mónica rezava pela conversão do filho.

Passagem por várias doutrinas

Agostinho tornou-se um professor de retórica reconhecido. Chegou a abrir uma escola em Roma e conseguiu o posto de professor na corte imperial situada em Milão. Decepcionado com as incoerências do maniqueísmo, aproximou-se do cepticismo. A sua mãe mudou-se para Milão e exerceu certa influência sobre o seu comportamento. Nesse tempo, também decepcionado com o cepticismo, Agostinho aproximou-se do Bispo de Milão (Santo Ambrósio). A princípio, queria apenas ouvir a retórica excelente do Bispo. Antes de se converter, Agostinho separou-se da sua companheira e ainda se envolveu com outras mulheres. Depois, foi-se convencendo da verdade sobre Jesus Cristo pelas pregações de Santo Ambrósio. A sua mãe, ao mesmo tempo, não cessava de orar por ele.

Conversão

Depois das buscas incessantes pela verdade e de vários casos amorosos, Agostinho finalmente rendeu-se à coerência da mensagem de Jesus Cristo. Encontrou em Jesus o que não encontrara em nenhuma outra filosofia, em nenhum outro mestre. Assim, ele e seu filho Adeodato, então com 15 anos, foram baptizados em Milão por Santo Ambrósio, durante uma vigília Pascal. A partir de então, passou a escrever contra o maniqueísmo, que ele conhecia muito bem. Escreveu obras tão importantes que fizeram com que fosse declarado Doutor da Igreja.

Sofrimentos

Agostinho dedicava grande atenção a Adeodato formando-o na fé e nas ciências humanas. De repente, porém, o seu filho veio a falecer. Foi um grande choque. Por causa disso, decidiu voltar para Tagaste. No caminho de volta a sua mãe também faleceu. Agostinho menciona nas suas “Confissões” a maravilha e o alimento espiritual que eram os diálogos que ele tinha com sua a mãe sobre a pessoa de Jesus Cristo e a beleza da fé cristã. Esses diálogos foram decisivos para a sua formação. 

De volta à terra natal

Depois de sepultar a sua mãe continuou decidido a voltar para a terra natal. Ele chegou a Tagaste no ano 288. Lá, optou pela vida religiosa. Junto com alguns amigos na fé, deu início a uma comunidade monástica cujas regras foram escritas por ele mesmo. Deste embrião nasceram várias ordens e congregações religiosas masculinas e femininas, todas seguindo as regras e a inspiração “Agostiniana”.

Não se coloca uma lâmpada debaixo da mesa

O Bispo de Hipona, ao perceber a forte inspiração que Deus colocara na alma de Agostinho, convidou-o para ir juntamente com ele nas missões e pregações. O Bispo, já idoso e enfraquecido, vendo confirmada a sabedoria de Agostinho, ordenou-o como sacerdote, o que foi aceite com grande alegria pelos fiéis. E, depois, em 397, logo após a morte do bispo, o povo, em uma só voz, aclamou Santo Agostinho como Bispo de Hipona. Ele ocupou o cargo durante 34 anos, derramando toda a sua sabedoria nas pregações, nos livros, na caridade para com os pobres, na espiritualidade profunda. Combateu heresias, tornou-se um dos mais importantes teólogos e filósofos da Igreja, influenciando pensadores até o presente. Foi aclamado Doutor da Igreja e um dos “Padres da Igreja” por causa do seu ministério iluminador. Entre os livros de maior destaque nas suas obras, estão “Confissões” e “Cidade de Deus”.

Morte

Santo Agostinho faleceu feliz pela força da Igreja de Hipona, mas, ao mesmo tempo, triste, por causa da invasão bárbara em Hipona, motivo de grandes perseguições contra os fiéis. A sua morte ocorreu a 28 de Agosto do ano 430. Mais tarde, no ano 725, os seus restos mortais foram exumados e trasladados para a cidade de Pavia, em Itália, onde são venerados na igreja de São Pedro do Céu de Ouro. A igreja fica perto do local onde ocorreu a sua conversão.

Oração a Santo Agostinho

Gloriosíssimo Pai Santo Agostinho, que por divina providência fostes chamado das trevas da gentilidade e dos caminhos do erro e da culpa a admirável luz do Evangelho e aos rectíssimos caminhos da graça e da justificação para ser ante os homens vaso de predilecção divina e brilhar em dias calamitosos para a Igreja, como estrela da manhã entre as trevas da noite: alcançai-nos do Deus de toda consolação e misericórdia o sermos chamados e predestinados, como Vós o fostes, a vida da graça e a graça da eterna vida, onde juntamente convosco cantemos as misericórdias do Senhor e gozemos a sorte dos eleitos pelos séculos dos séculos. Amém.

in cruzterrasanta.com.br


quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Santa Mónica


"Deixai este corpo em qualquer lado e não vos preocupeis com ele. Apenas vos peço uma coisa: que vos lembrais de mim no altar do Senhor, onde estejais."


quarta-feira, 26 de agosto de 2026

SAR Dom Duarte de Bragança: ‘Uso relógio, até para não perder os transportes’

Visitar familiares no estrangeiro e reencontrar amigos são duas tradições que procura não falhar nas suas férias grandes. Já quanto a amores de verão, se os teve, não confessa. ‘Não me convém responder’, diz com humor. E não gosta de bolas de Berlim.

Qual é o seu maior vício em férias?

Ler livros ou documentários interessantes.

Qual a tradição em férias de que nunca prescinde?

Visitar a Família no estrangeiro e encontrar amigos que já não vejo há um ano.

Qual foi a viagem da sua vida? Com quem?

De comboio transsiberiano até Irkutsk, parando em várias povoações muitos interessantes. Fiquei em casa do antigo ministro das religiões e do ambiente, Elias Rasputin, ao lado do lago Baical.

Se tivesse possibilidades financeiras, para onde levaria a família e os amigos mais próximos para passarem umas férias juntos?

Para a lua.

Qual foi a pior experiência que teve?

Houve várias. Em particular, ser roubado ou a mala da viagem não chegar ao destino.

O que acha dos amores de verão? Viveu algum?

Não me convém responder…

Férias ‘casam’ bem com alguns excessos alcoólicos?
Não

Usa relógio durante as férias? Preocupa-se com os horários?
Sim, até para não perder os transportes!

Tem mau acordar?
Acho que não, mas a resposta correta não serei eu que posso dar.

Qual a maior loucura que cometeu em férias?
Ter feito uma volta ao Brasil de carro, começando na fronteira com a Venezuela e acabando no Rio de Janeiro, depois de ter passado pela maior parte dos estados no Brasil.

Que local do mundo escolheria para viver?
O problema é que há vários locais onde gostaria de viver para além do melhor de todos, onde vivo agora – em Sintra. Mas também gostaria de viver em Timor.

Já se sentiu envergonhado por ser português?
Às vezes, quando há outros portugueses que se portam mal.

Qual a praia da sua vida?
Gosto muito da Praia de Baucau, em Timor, mas também da praia de Ferragudo no outono.

De quem fugiria se colocasse o chapéu de sol ao seu lado?
De alguém que estivesse a assar sardinhas.

Vai seguir as suas séries da Netflix e da HBO?
Não conheço esses canais.

Que livro vai levar para ler nas férias?
Normalmente levo vários que eu não conheço e começo por ver se são interessantes, lendo a sinopse, o índice e a informação sobre o autor. Depois, então, inicio a leitura. Recomendo para pessoas interessadas em História e em regiões geograficamente interessantes a leitura dos livros da Isabel Alçada, Uma Aventura em…

Que jogos leva para férias para jogar com a família e amigos?
Os meus filhos costumam levar vários, de modo que não me preocupo com isso.

Qual o marisco que mais lhe agrada nesta época?
Ameijoas.

Qual é a melhor bola de Berlim?
Não gosto de nenhuma.

Se estiver numa cidade, em férias, como ocupa o seu tempo?
A visitar os locais interessantes da cidade.

Qual foi o melhor jogador do mundo da história do futebol?
Eusébio.

Fonte: Sol

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Festas Religiosas

Festas Religiosas. A palavra festa quer dizer dia feliz, dia agradável, ou dia de assembleia solene. O fim das festas religiosas é recordar todos os anos os acontecimentos memoráveis da Religião. Reúnem-se os fiéis junto do Senhor de todos; cimentam entre eles a paz e a fraternidade; despertam a lembrança dos mistérios da Religião, da vida de Nosso Senhor ou dos Santos, e dos benefícios de Deus; levam os homens à gratidão para com Deus; tornam o homem melhor, mais moral, mais espiritual.
Nas festas religiosas são reprovados os arraiais, as danças e espectáculos no adro ou junto da igreja, assim como os leilões, quermesses ou rifas (C. P.) – Não podem admitir-se nas funções sagradas músicas formadas de homens e de mulheres (C. P.). Ao Bispo pertence a aplicação dos saldos das Festas (C. P.).

Pe. José Lourenço in «Dicionário da Doutrina Católica», 1945


Fonte: Veritatis

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

SAR D. Afonso e SA D. Dinis no casamento do 6.º Marquês da Graciosa em Anadia

O histórico Paço da Graciosa, em Anadia, foi palco, no passado sábado, dia 15 de Agosto, do casamento do 6.º Marquês da Graciosa, Fernando Afonso de Andrade Santos e Pereira de Figueiredo, com Maria do Rosário de Noronha e Corte-Real da Cunha Coutinho, filha mais nova dos Barões de Nossa Senhora da Oliveira.

A cerimónia religiosa decorreu na Capela do Paço da Graciosa, seguindo-se a recepção aos convidados e as celebrações nos jardins da propriedade.

Entre os convidados estiveram SAR D. Afonso de Bragança, Príncipe da Beira, e o irmão, SA D. Dinis de Bragança, Duque do Porto.

Fonte: Monarquia Portuguesa

domingo, 23 de agosto de 2026

Os heróis


"Todos os heróis admirados e propostos como modelos à juventude eram homens e mulheres capazes de grandes sacrifícios, de generosas renúncias, de heroicos sofrimentos por uma causa, por um ideal que se identificava sempre com a verdade e o bem e nunca com a autossatisfação hedonista ou o interesse egoísta.

Este era o comum denominador dos grandes personagens bíblicos…, dos heróis pagãos… e dos heróis cristãos, quer se tratasse de mártires, de virgens enamoradas de Deus, de grandes servidores dos pobres; quer de modelos de cavaleiro cristão…, ou os heróis lendários… e o louco e genial Dom Quixote de la Mancha.

O espelho da grandeza era a virtude. E a virtude não só tolerava, mas exigia o sofrimento heroico, paciente e o sacrifício desinteressado, até chegar à entrega, sem um arrepio da própria vida."

Padre Francisco Faus, em “A sabedoria da Cruz”


sábado, 22 de agosto de 2026

Ladainha ao Imaculado Coração de Maria


Senhor, tende piedade de nós 
Cristo, tende piedade de nós 
Senhor, tende piedade de nós
 
Cristo, olhai-nos. 
Cristo, escutai-nos
 
Pai do Céu, que sois Deus, tende misericórdia de nós. 
Filho Redentor do mundo, que sois Deus, tende misericórdia de nós. 
Espírito Santo, que sois Deus, tende misericórdia de nós. 
Santa Trindade que sois um só Deus, tende misericórdia de nós. 
 
Santa Maria, Coração Imaculado de Maria, rogai por nós 
Coração de Maria, cheio de graça, rogai por nós 
Coração de Maria, vaso do amor mais puro, rogai por nós 
Coração de Maria, consagrado íntegro a Deus, rogai por nós 
 
Coração de Maria, preservado de todo pecado, rogai por nós 
Coração de Maria, morada da Santíssima Trindade, rogai por nós 
Coração de Maria, delícia do Pai na Criação, rogai por nós 
Coração de Maria, instrumento do Filho na Redenção, rogai por nós 
 
Coração de Maria, a esposa do Espírito Santo, rogai por nós 
Coração de Maria, abismo e prodígio de humildade, rogai por nós 
Coração de Maria, medianeiro de todas as graças, rogai por nós 
Coração de Maria, batendo em uníssono com o Coração de Jesus, rogai por nós 
 
Coração de Maria, gozando sempre da visão beatífica, rogai por nós 
Coração de Maria, holocausto do amor divino, rogai por nós 
Coração de Maria, advogado ante a justiça divina, rogai por nós 
Coração de Maria, transpassado por uma espada, rogai por nós 
 
Coração de Maria, Coroado de espinhos por nossos pecados, rogai por nós 
Coração de Maria, agonizando na paixão de teu Filho, rogai por nós 
Coração de Maria, exultando na Ressurreição de teu Filho, rogai por nós 
Coração de Maria, triunfando eternamente com Jesus, rogai por nós 
 
Coração de Maria, fortaleza dos cristãos, rogai por nós 
Coração de Maria, refúgio dos perseguidos, rogai por nós 
Coração de Maria, esperança dos pecadores, rogai por nós 
Coração de Maria, consolo dos moribundos, rogai por nós 
 
Coração de Maria, alívio dos que sofrem, rogai por nós 
Coração de Maria, laço de união com Cristo, rogai por nós 
Coração de Maria, caminho seguro ao Céu, rogai por nós 
Coração de Maria, prenda de paz e santidade, rogai por nós 
 
Coração de Maria, vencedora das heresias, rogai por nós 
Coração de Maria, da Rainha dos Céus e Terra, rogai por nós 
Coração de Maria, da Mãe de Deus e da Igreja, rogai por nós 
Coração de Maria, que por fim triunfarás, rogai por nós 
 
Cordeiro de Deus que tiras o pecado do mundo, Perdoai-nos Senhor 
Cordeiro de Deus que tiras o pecado do mundo, Escutai-nos Senhor 
Cordeiro de Deus que tiras o pecado do mundo, Tem misericórdia de nós. 
 
V. Rogai por nós Santa Mãe de Deus 
R. Para que sejamos dignos de alcançar as promessas de Nosso Senhor Jesus Cristo
 
Oremos
Vós que nos tens preparado no Coração Imaculado de Maria uma digna morada do teu Filho Jesus Cristo, concedei-nos a graça de viver sempre conforme a sua vontade e de cumprir os seus desejos. 
Por Cristo teu Filho, Nosso Senhor.
Ámen

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Ressentimento e inveja


"O igualitarismo crasso dos movimentos políticos contemporâneos, integrante das heresias comunista e liberal, não é mais que uma transposição aos bens terrenos da heresia de Joviano, condenada pelo Concílio de Florença em virtude deste artigo: "De si um homem pode ser mais bem-aventurado do que outro"; heresia renovada depois por Lutero, o avô indiscutível de toda a heterodoxia moderna. Max Scheler, depois de Nietzsche, mostrou como este obcecado igualitarismo obsessivo procede do afecto ulceroso chamado Ressentimento... Falando simplesmente, é o pecado capital da inveja num de seus graus avançados. O ressentido social sofre da superioridade alheia até querer que o outro seja igualado a ele por baixo. Isto torna-se tão enfermiço de modo que se chega a amar o abjecto como abjecto, negando primeiro o valor que não tem e depois alterando intelectualmente inclusive a escala natural de valores. Este efeito engendra o prurido de destruir e decapitar, que caracteriza as revoluções de massas. Também cria o tipo do ambicioso, aquele que apenas comparando-se com o outro e vendo-se mais do que ele pode perceber o próprio bem; de onde entra o continuo desejo de subir por subir."

Padre. Leonardo Castellani em "Comentarios en la Suma de Teología de Santo Tomás", tomo V

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

São Bernardo aconselha: Em caso de dificuldade invoca Maria

E o nome da Virgem era Maria (Lc. 1, 27). Falemos um pouco deste nome que significa, segundo se diz, Estrela do Mar, e que convém maravilhosamente à Virgem Mãe. .... Ela é verdadeiramente esta esplêndida estrela que devia se levantar sobre a imensidade do mar, toda brilhante por seus méritos, radiante por seus exemplos.

Ó tu, quem quer que sejas, que te sentes longe da terra firme, arrastado pelas ondas deste mundo, no meio das borrascas e tempestades, se não queres soçobrar, não tires os olhos da luz desta estrela.

Se o vento das tentações se levanta, se o escolho das tribulações se interpõe em teu caminho, olha a estrela, invoca Maria.

Se és balouçado pelas vagas do orgulho, da ambição, da maledicência, da inveja, olha a estrela, invoca Maria.

Se a cólera, a avareza, os desejos impuros sacodem a frágil embarcação de tua alma, levanta os olhos para Maria.

Se, perturbado pela lembrança da enormidade de teus crimes, confuso à vista das torpezas de tua consciência, aterrorizado pelo medo do Juízo, começas a te deixar arrastar pelo turbilhão da tristeza, a despenhar no abismo do desespero, pensa em Maria.

Nos perigos, nas angústias, nas dúvidas, pensa em Maria, invoca Maria.

Que seu nome nunca se afaste de teus lábios, jamais abandone teu coração; e para alcançar o socorro da intercessão d'Ela, não negligencies os exemplos de sua vida.

Seguindo-A, não te transviarás; rezando a Ela, não desesperarás; pensando n'Ela, evitarás todo erro.

Se Ela te sustenta, não cairás; se Ela te protege, nada terás a temer; se Ela te conduz, não te cansarás; se Ela te é favorável, alcançarás o fim.

E assim verificarás, por tua própria experiência, com quanta razão foi dito: "E o nome da Virgem era Maria."

São Bernardo de Claraval in 'Louvores da Virgem Maria' - Super missus, 2ª homilia

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Monte Pio contra a usura judaica

A exemplo dos grandes e dos Santos Franciscanos e dos séculos idos, esmaguemos a injustiça, designadamente os empréstimos usurários que os bancos judeus têm liberalizado em todos os tempos para abater as nações cristãs.
O Beato Barnabé de Terni fundou, em Perugia, o primeiro Monte Pio para furtar o povo às iníquas usuras dos judeus; depois dele, S. Bernardino de Siena, S. Tiago da Marca, os Beatos Marco de Montegallo, Marco de Bolonha, Ângelo de Chivasso, Querubim de Spoleto, e mil outros multiplicaram pelas cidades estas caridosas instituições. Enfim, o Beato Bernardino de Feltre defronta-se cara-a-cara, sem medo de morrer, com os déspotas da pecúnia e derrama por quase toda a Itália montes de piedade.

Fonte: «Voz de S. António: Revista Mensal Ilustrada», 3º Ano, Nº 11, Novembro de 1897.

§

A usura sempre foi proibida aos cristãos, por ser imoral. Mas durante a Idade Média, tal como hoje, os judeus mantinham casas de empréstimo bancário, pelos quais cobravam juros elevados, levando à ruína muitas famílias cristãs. Foi nestas circunstâncias que, no século XV, o Beato Frei Barnabé fez um peditório geral pela cidade de Perugia, cuja receita seria destinada ao socorro de pobres e necessitados. A ele afluíram prontamente bons cristãos com abundância de ouro, prata, jóias, e cereais, permitindo assim criar o primeiro Monte de Piedade, que, abraçado por frades franciscanos, rapidamente se espalhou por toda a Itália, libertando os pobres cristãos da usura judaica.
A piedosa instituição recebeu aprovação papal de Pio II, Sisto IV, Inocêncio VIII, Alexandre VI e Leão X.

Fonte: Veritatis

terça-feira, 18 de agosto de 2026

SS. AA. RR. Os Duques de Bragança na nova coroação de Nossa Senhora Aparecida, em Balugães

SS.AA.RR. os Duques de Bragança participaram no dia 15 de Agosto, e o Senhor Dom Duarte foi protagonista, na nova coroação de Nossa Senhora Aparecida, em Balugães, Barcelos.

Conta a lenda que João Mudo voltou a falar após lhe ter aparecido Nossa Senhora, em Balugães, onde pastoreava gado. Dom Pedro II, impressionado com o milagre, ofereceu a Nossa Senhora Aparecida um Coroa de prata, coroa esta que foi roubada em 1986 e recuperada apenas em 2025.

Hoje, S.A.R. o Duque de Bragança entregou ao Arcebispo de Braga a Coroa que volta a coroar Nossa Senhora Aparecida.

A cerimónia contou ainda com Direcção da Real Associação do Porto, as 40 paróquias do arcebispado de Braga e da diocese de Viana do Castelo, bem como com a Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, a Ordem de Malta e a Ordem do Santo Sepulcro, e milhares de peregrinos e crentes em Nossa Senhora Aparecida.


segunda-feira, 17 de agosto de 2026

A Cruz e o Rei


Sempre fomos um povo religioso e monárquico, em cada uma das nossas grandes glórias está gravada uma cruz e há um Rei.

Desde os que se levantaram em Ourique, passando pelos que lutaram em Aljubarrota, até aos que caíram em Asseiceira e foram obrigados a assinar a Convenção de Evoramonte, sempre os nossos levaram consigo a cruz e a sombra do estandarte dos nossos reis.
Como se pode esquecer e condenar estas recordações do nosso legado?

Lembremo-nos que a vida terrena é um momento e que muito em breve enfrentaremos uma inexorável realidade: hoje existimos, amanhã desaparecemos!

Desaparecidos da vista, longe da lembrança, levemos a vida e conduzamos toda a nossa acção e pensamento, como se hoje fosse o nosso último dia.
Só assim poderemos entrar na galeria dos que ficam para a posteridade.

sábado, 15 de agosto de 2026

Assumpta est Maria in Caelum

 Imagens da proclamação do dogma da Assunção de Nossa Senhora aos Céus, pelo Papa Pio XII na Praça de São Pedro, no Vaticano:


"...declaramus et definimus divinitus revelatum dogma esse : Immaculatam Deiparam semper Virginem Mariam, expleto terrestris vitae cursu, fuisse corpore et anima ad caelestem gloriam assumptam."

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Batalha de Aljubarrota – 14 de Agosto de 1385

Falecido D. Fernando I de Portugal, iniciou-se a Crise de 1383-85, pois os filhos varões do Rei, com D. Leonor Telles de Menezes, haviam morrido; e D. Beatriz (1372 – 1410), Infanta de Portugal, havia casado com D. João I, Rei de Castela, pelo que, sob pena de anexação de Portugal pelo Reino de Leão e Castela, a fidalguia portuguesa pretendia mantê-la afastada da sucessão. E era fortíssima a ameaça da união – que soava a integração – de Portugal com Castela e Leão, resultado do Tratado de Salvaterra de Magos, de 1383. Também, a burguesia mostrava-se desagradada com a regência da Rainha D. Leonor Telles e do seu amante, o Conde D’Andeiro e com a ordem da sucessão.

Estava por essa altura o país fragmentado em três facções que reclamavam a legitimidade à sucessão:

De um lado estava o partido legitimista, fiel a Castela, que defendia a causa da Infanta D. Beatriz, mulher do rei de Castela, a quem consideravam a única herdeira legítima do Rei de cujus, e entendiam vigorar plenamente o Tratado de Salvaterra de Magos, uma escritura antenupcial que defendia, a união dos dois reinos ibéricos, e ainda a regência da Rainha-viúva D. Leonor Telles, consorte do rei decesso.

Outro partido era o legitimista-nacionalista, a quem repugnava a ideia da perda da independência nacional – o que excluía D. Beatriz – e que era constituído pelos irmãos de D. Inês de Castro, D. Álvaro Pires de Castro e D. Fernando de Castro, e que defendiam a legitimidade da pretensão dos seus sobrinhos, o Infante D. João e o Infante D. Diniz, filhos do Rei D. Pedro I e D. Inês, e que portanto eram meios-irmãos do finado el-rei D. Fernando, e que o rei Cru, havia legitimado por casamento clandestino.

O terceiro partido, estritamente nacionalista, pugnava por um Rei português e colocava a supremacia e independência nacional acima de qualquer legitimidade, o que excluía a Infanta D. Beatriz, rainha de Castela e os filhos de D. Inês de Castro que viviam em Castela e, inclusive, já haviam combatido por esse Reino. Para estes últimos partidários, nos quais se incluíam o fervoroso D. Nuno Álvares Pereira, não restava então outra solução do que esquecer as habituais regras de sucessão e considerar o trono vago, como forma de salvaguardar a soberania nacional, elegendo como Rex Portucalensis D. João, Mestre de Avis, ainda que filho bastardo de D. Pedro.

O exercício de retórica para convencer a elite de Portugal congregada nos Três Estados, reunidos nas Cortes em Coimbra, a 06 de Abril de 1385, coube a João das Regras, que demonstrou que quer D. Beatriz quer os Infantes não eram filhos legítimos, a primeira porque o casamento entre D. Fernando e D. Leonor Telles de Menezes era inválido uma vez que o 1.º casamento da rainha não havia sido dissolvido legalmente, e que quanto ao filhos de Pedro e Inês o rei e os seus cortesãos havia prestado falsas declarações no que ao concerne ao casamento secreto de D. Pedro e D. Inês, embuste com a qual pretendeu legitimar os filhos. Todos os ali reunidos renderam-se ao exercício de oratória empolada de João das Regras e D. João foi eleito e Aclamado Rei pelas Cortes. Rei de Portugal, não por “direito próprio”, mas por eleição unânime e instado pelos Três Estados o que de acordo pela Lei medieval correspondia a um sinal da vontade Divina. D. João I consolidou definitivamente a sua posição e a de Portugal ao ser proclamado Rei de Portugal pelas Cortes reunidas em Coimbra.

Apesar das sucessivas derrotas militares, como em Lisboa e nos Atoleiros, o rei D. João I de Castela não desistira da coroa de Portugal, que entendia advir-lhe ius uxoris pelo casamento e opondo-se a tal resolução, responde invadindo Portugal, pela Beira-Alta, em Junho de 1385, e desta vez à frente da totalidade do seu exército e auxiliado por um forte contingente de cavalaria francesa. Quando as notícias da invasão chegaram, João I encontrava-se em Tomar na companhia de D. Nuno Álvares Pereira, o condestável do reino, e do seu exército, e mais uma vez, o chicote de Portugal, D. Nuno Álvares Pereira resolve tomar rédeas à situação e sitia as cidades que entretanto se converteram fiéis a Castela. Avança e a decisão tomada foi a de enfrentar os castelhanos antes que pudessem levantar novo cerco a Lisboa. Com os aliados ingleses, o exército português interceptou os invasores perto de Leiria. Dada a lentidão com que os castelhanos avançavam, D. Nuno Álvares Pereira teve tempo para escolher o terreno favorável para a batalha e a 14 de Agosto de 1385 tem a oportunidade de exibir toda a sua mestria e génio militar em Batalha.

A opção para a Batalha recaiu sobre uma pequena colina de topo plano rodeada por ribeiros, no Campo de São Jorge, Calvaria de Cima, nas imediações da vila de Aljubarrota, entre Leiria e Alcobaça. Contudo o exército Português não se apresentou ao Castelhano nesse sítio, inicialmente formou as suas linhas noutra vertente da colina, tendo depois, já em presença das hostes castelhanas mudado para o sítio predefinido, isto provocou bastante confusão nas tropas de Castela. Assim pelas dez horas da manhã do dia 14 de Agosto, o exército português e os aliados ingleses comandados por El-Rei de Portugal D. João I e o Condestável do Reino tomaram a sua posição na vertente norte desta colina, de frente para a estrada por onde o exército castelhano e seus aliados franceses liderados por D. Juan I de Castela e Leão, eram esperados.

A disposição portuguesa era a seguinte: infantaria no centro da linha, uma vanguarda de besteiros com os 200 archeiros ingleses, 2 alas nos flancos, com mais besteiros, cavalaria e infantaria. Na retaguarda, aguardavam os reforços e a cavalaria comandados por D. João I de Portugal em pessoa. Desta posição altamente defensiva, os portugueses observaram a chegada do exército castelhano protegidos pela vertente da colina. A vanguarda do exército de Castela chegou ao teatro da batalha pela hora do almoço, sob o sol escaldante de Agosto. Ao ver a posição defensiva ocupada por aquilo que considerava os rebeldes, o Rei de Castela tomou a esperada decisão de evitar o combate nestes termos. Lentamente, devido aos 30.000 soldados que constituíam o seu efectivo, o exército castelhano começou a contornar a colina pela estrada a nascente. A vertente sul da colina tinha um desnível mais suave e era por aí que, como D. Nuno Álvares previra, pretendiam atacar. O exército português inverteu então a sua disposição e dirigiu-se à vertente sul da colina, onde o terreno tinha sido preparado previamente. Uma vez que era muito menos numeroso e tinha um percurso mais pequeno pela frente, o contingente português atingiu a sua posição final muito antes do exército castelhano se ter posicionado. D. Nuno Álvares Pereira havia ordenado a construção de um conjunto de paliçadas e outras defesas em frente à linha de infantaria, protegendo esta e os besteiros. Este tipo de táctica defensiva, muito típica das legiões romanas, ressurgia na Europa nessa altura. Pelas seis da tarde, os castelhanos ainda não completamente instalados decidem, precipitadamente, ou temendo ter de combater de noite, começar o ataque. É discutível se de facto houve a tão famosa táctica do “quadrado” ou se simplesmente esta é uma visão imaginativa de Fernão Lopes de umas alas reforçadas. No entanto tradicionalmente foi assim que a Batalha acabou por seguir para a história. O ataque começou com uma carga da cavalaria francesa a toda a brida e em força, de forma a romper a linha de infantaria adversária. Contudo as linhas defensivas portuguesas repeliram o ataque. A pequena largura do campo de batalha, que dificultava a manobra da cavalaria, as paliçadas (feitas com troncos erguidos na vertical separados entre si apenas pela distancia necessária à passagem de um homem, o que não permitia a passagem de cavalos) e a chuva de virotes lançada pelos besteiros (auxiliados por 2 centenas de arqueiros ingleses) fizeram com que, muito antes de entrar em contacto com a infantaria portuguesa, já a cavalaria se encontrar desorganizada e confusa. As baixas da cavalaria foram pesadas e o efeito do ataque nulo. Ainda não perfilada no terreno, a retaguarda castelhana demorou a prestar auxílio e, em consequência, os cavaleiros que não morreram foram feitos prisioneiros pelos portugueses. Depois deste revés, a restante e mais substancial parte do exército castelhano atacou entraram em confronto com a infantaria portuguesa: “Castyla! Sant’iago!” ao que os portugueses replicaram bradando “Portugal! São Jorge!”. A linha castelhana era bastante extensa, pelo elevado número de soldados. Ao avançar em direcção aos portugueses, os castelhanos foram forçados a apertar-se (o que desorganizou as suas fileiras) de modo a caber no espaço situado entre os ribeiros. Enquanto os castelhanos se desorganizavam, os portugueses predispuseram as suas forças dividindo a vanguarda de D. Nuno em dois sectores, de modo a enfrentar a nova ameaça e onde se destacou com especial bravura a famosa Ala dos Namorados.

Mas, vendo que o pior da investida castelhana ainda estava para chegar, o Rei de Portugal ordenou a retirada dos besteiros e archeiros ingleses e o avanço da retaguarda através do espaço aberto na linha da frente. Desorganizados, sem espaço de manobra e finalmente esmagados entre os flancos portugueses e a retaguarda avançada, os castelhanos pouco puderam fazer senão morrer.

Ao entardecer a batalha estava já perdida para Castela. Precipitadamente, D. João de Castela ordenou uma retirada geral sem organizar uma cobertura. Os castelhanos debandaram então desordenadamente do campo de batalha. A cavalaria Portuguesa lançou-se então em perseguição dos fugitivos, dizimando-os sem piedade. Alguns fugitivos procuraram esconder-se nas redondezas, apenas para acabarem mortos às mãos do povo. Surge aqui um mito português em torno da batalha: uma mulher, de seu nome Brites de Almeida, recordada como a Padeira de Aljubarrota, iludiu, emboscou e matou, pelas próprias mãos, alguns castelhanos em fuga. A história é por certo uma lenda da época! De qualquer forma, pouco depois, D. Nuno Álvares Pereira ordenou a suspensão da perseguição e deu trégua às tropas fugitivas. Ao amanhecer do dia seguinte, a catástrofe sofrida pelos castelhanos ficou bem à vista: os cadáveres eram tantos que chegaram para barrar o curso dos ribeiros que flanqueavam a colina e o barulho ensurdecedor do crocitar dos corvos contribuía para o cenário de terror. Para além de soldados de infantaria, morreram também muitos nobres castelhanos, o que causou luto em Castela.

A Batalha de Aljubarrota representa uma das raras grandes batalhas campais da Idade Média entre dois exércitos régios e um dos acontecimentos mais decisivos da História de Portugal. No campo militar significou a inovação de uma táctica, onde os homens de armas apeados foram capazes de vencer a poderosa cavalaria medieval. No campo diplomático, permitiu a aliança entre Portugal e a Inglaterra, que perdura até aos dias de hoje, pois no ano seguinte foi assinado o Tratado de Windsor, aliança consolidada em 1387 pelo casamento de D. João I com a Princesa Inglesa Dona Filipa de Lencastre (Lady Phillippa of Lancaster), filha de John Gant, Duque de Lancaster, e neta do então monarca inglês Eduardo III, de cujo consórcio matrimonial nasceria a Ínclita Geração. No aspecto político, resolveu a disputa que dividia o Reino de Portugal do Reino de Leão e Castela, permitindo a afirmação de Portugal como Reino Independente.

Miguel Villas-Boas

Fonte: Plataforma de Cidadania Monárquica