domingo, 30 de agosto de 2026

A IMPORTÂNCIA DO BEM COMUM


“(…) Desde que um agregado encontra uma linhagem que incarne no seu interesse privado, como interesse do conjunto, os interesses das partes componentes, só nessa altura pode considerar-se protegido contra as surpresas do futuro, sem receio que o enfraqueçam, ou os desvios da fortuna, ou as reticências da hesitação. Existe um fim, - não falta a certeza dos meios com que procurá-lo. É só correr-se em harmonia com as inclinações fundamentais e coordená-las em vista ao alvo desejado. A prosperidade e a saúde do novo ser social despontam sem tardança, com as promessas brilhantes da glória e o exercício superior dos dotes da vontade. É a ocasião em que se manifesta uma regra espiritual, simultaneamente coercitiva e arrebatadora, que conformando a mentalidade própria das circunstâncias, lhe concede aquela vocação mística que torna os povos senhores dos seus destinos e como que donos dos terrenos que pisam.

Eis porque a Cruz e a Espada são os admiráveis sustentáculos da nossa independência, alcançada a poder de tantíssimo sangue. Nós morreríamos nos torcicolos da longada, se o concurso dessas duas forças tradicionais não nos ajudasse a estabelecer o nosso lugarzinho ao sol, - se entregues apenas à espontaneidade do génio da Raça, nos não resguardassem de emboscadas e de inadvertências, dum lado, a ambição pessoal dos nossos Príncipes, do outro, os ditamos vindos de Trás-os-Montes, da claridade augustíssima de Roma.

A virtude primacial do Luso reside, pois, na sua predileção localista. O Concelho é assim a célula-mãe da Pátria. Mas a liberdade só se efectiva quando ponderada pela autoridade. Sem um valor de acentuado conteúdo concentrador, jamais se viabilizaria a perequação dos nossos diversos egoísmos institucionais, de cujo entrelaçamento os tecidos nervosos da nacionalidade se haviam fiado. (…)

Os municípios exprimiam as tendências ingénitas da Raça. Não caímos em erro se os classificarmos entre nós como formações absolutamente naturais. Por um processo associativo, frequentíssimo no mundo biológico, umas células pegaram a juntar-se às outras. E por força das circunstâncias do Meio e da Etnia. Portugal se constituiu como soma normal de tantas parcelas pequenas, em tudo idênticas e concordes.

Até o nome lhe adveio dum castro a cavaleiro do Douro, para que em nada padecesse dúvida a sua genealogia de terra livre.”

(António Sardinha, O Valor da Raça)


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