domingo, 19 de fevereiro de 2023

Estranhos números no estudo sobre abusos na Igreja em Portugal: 4800 vítimas ou apenas 34 depoimentos?

A 7 meses da chegada a Lisboa de centenas de milhares de jovens para as JMJ, incluindo menores de idade, na imprensa de todo o mundo multiplicaram-se manchetes que dizem: “Mais de 4800 menores sofreram abusos sexuais desde 1950 na parte da Igreja portuguesa”. Mas alguém encontrou essas 4800 vítimas? De onde vem esse número?


A fonte é o relatório de 500 páginas “Dar voz ao silêncio”, conduzido por uma equipa “independente” (mas nomeada pela Igreja). Lendo-o, descobrimos que os investigadores não "encontraram" 4800 vítimas neste país católico de 10 milhões de habitantes.

Esse número é um cálculo que fazem por extrapolação, com matemáticas mais ou menos criativas e mais ou menos duvidosas. Depoimentos de vítimas cara a cara encontraram 34. E cerca de 500 formulários anónimos, não verificáveis, recebidos pela Internet.

A investigação começou a 10 de Janeiro de 2022 e reuniu dados e testemunhos até 31 de Outubro de 2022. A equipa contactou todas as dioceses, visitou bispos, arquivos, congregações e a própria Igreja, através dos seus canais, divulgou o site, telefone (fácil de memorizar, não gravava chamadas), morada e e-mail da comissão. A imprensa portuguesa também divulgou os seus contactos pedindo depoimentos e garantindo o anonimato.

O que os pesquisadores realmente encontraram, pessoalmente, foram 34 pessoas (23 homens e 11 mulheres) com quem conversaram cara a cara ou via Zoom, que lhes contaram os abusos sexuais que sofreram quando jovens, nas mãos de clérigos ou pessoas a eles associadas, a entidades católicas (monitores dos escuteiros, professores, pessoal escolar). Outras 14 pessoas vieram contar-lhes, em pessoa, casos dos quais foram testemunhas, mas não vítimas. Depois, 9 pessoas escreveram cartas partilhando os seus testemunhos (de abusos sofridos).

A equipa de investigação incumbiu ainda um jornalista a procurar, durante 6 meses, casos de abusos eclesiásticos contra menores nos arquivos dos jornais portugueses dos últimos 70 anos. O jornalista analisou detalhadamente 27 jornais online. Em seguida, consultou os arquivos de papel de 4 grandes jornais. Entrou em contacto por telefone com os arquivistas de outros jornais. Este jornalista encontrou, no total, 19 casos de abuso. Vários foram recebidos pela equipa de pesquisa por outros meios.

É verdade que antes de 1974 a imprensa portuguesa não publicava histórias de abusos do clero. Mas também é verdade que em Fevereiro de 2019 toda uma equipa de jornalistas do jornal online “Observador” passou 3 meses à procura de casos de abuso de menores em ambientes católicos, para a sua reportagem “Em Silêncio”.

Insistimos: em 50 anos de democracia em Portugal, toda a imprensa do país, mesmo pesquisando muito, encontrou apenas 19 casos de abuso de crianças (quase sempre os que chegaram aos tribunais).

O resto do relatório depende dos 512 formulários longos e detalhados preenchidos anonimamente na Internet. Não há como garantir que esses formulários sejam verdadeiros. Uma única pessoa poderia ter preenchido vários formulários. Muitas delas poderiam ter sido preenchidas por inimigos da Igreja, militantes feministas, militantes de género, de outras religiões ou seitas, anticlericais em geral, etc... Não faltam inimigos à Igreja Católica!

O mesmo relatório, na página 138, admite-o: “Pode-se sempre discutir genericamente se o inquirido está ou não a dizer a verdade, ou se o que diz corresponde exactamente ao que viveu, sem construir o que se chama de ‘falsas memórias’. "

É quase certo que os 34 depoimentos ouvidos ao vivo são reais e sinceros. O trauma é perceptível nos olhos, na voz, nas mãos... Pode haver casos de falsas memórias, uma vítima pode enganar-se sobre quem foi o seu agressor (um terço das vítimas no relatório fala de uma única agressão), é possível confundir um clérigo com outro. Mas, em geral, a testemunha que relata uma experiência traumática como essa, a menos que seja um actor incrivelmente bom, não pode mentir sobre os sentimentos que vive, as suas memórias, as feridas que se abrem. Nessas 34 entrevistas pessoais, as histórias quase certamente reflectem o que foi vivido.

Mas os 512 formulários na Internet podem perfeitamente ser falsos. Nem todos, mas indivíduos com motivações anticlericais, bem organizados, poderiam preencher 20, 30, 60, 80 formulários com histórias falsas. Para torná-los credíveis, poderiam adequá-los ao que já foi publicado no Relatório Sauvé, em França, ou ao que foi publicado noutros países.

A equipa de pesquisa diz que de 563 formulários preenchidos, 51 foram rejeitados, não por estratégias elaboradas para verificar a verdade, mas por casos muito óbvios:

- depoimentos em que admitiram ter sofrido abuso quando tinham 18 anos ou mais (não eram menores de idade, não fazem parte deste estudo);
- depoimentos com números extremamente exageradas ("eles abusaram de pelo menos mil crianças naquele seminário naquele ano", num seminário que acomodava 200, diz o relatório);
- os factos não ocorreram em Portugal (caso de uma vítima portuguesa agredida numa escola católica de Madrid);
- as datas e locais têm muitas inconsistências, claramente falsas.

Detectar esses casos tão óbvios não implica que a equipa tenha capacidade de detectar depoimentos inventados melhor trabalhados e elaborados.

O relatório também admite um viés ideológico de género alheio à ciência e aos ambientes católicos e que talvez tenha distanciado valiosos testemunhos. Por exemplo, na página 129, diz que os formulários e questionários usam palavras como "género" para evitar a associação "directa a categorias binárias". Quantas pessoas preencheram o formulário online alegando ser de outro "género"? Exactamente duas.

Ao, supostamente, "acolher" esses dois depoimentos, muitas outras pessoas contrárias à ideologia de género podem ter decidido, ao ver o vocabulário ideológico, não preencher o relatório, suspeitando que haveria militantes hostis à Igreja por trás dele, não interessados genuinamente em melhorar a protecção das crianças. O relatório estabelece que 1 em cada 4 é actualmente um católico praticante.

Justamente, o sexo declarado nos questionários (não há como verificar se é real, pois não se sabe quem realmente está por trás desses questionários online anónimos), contrasta com o que encontramos em estudos sobre abusos eclesiásticos noutros países.

O que outros estudos mostram há décadas é que o abuso de menores em ambientes católicos tende a ser maioritariamente homossexual: geralmente são homens adultos que procuram adolescentes muito vulneráveis, pré-adolescentes, manipuláveis, entre 10 e 12 anos, ou já adolescentes (meninos, 15 e 16 anos).

Quando se analisam abusos mais recentes, depois dos anos 90, há mais alguns casos de meninas agredidas em acampamentos, jornadas e convívios. Mas o abuso dentro da igreja é principalmente algo que homens que procuram sexo homossexual fazem a jovens rapazes.

Assim, o estudo português cita que estudos dos Estados Unidos (2008), Holanda (2011), Alemanha (2014), Áustria (2015), Austrália (2017) e França (2021) detectam que os agredidos são homens em 64 a 82% dos casos (dois em três, ou quatro em cinco), enquanto as vítimas femininas, em ambientes eclesiais, variam entre 17 e 34%.

Por outro lado, nesta investigação portuguesa, dos 512 testemunhos aceites, apenas 57% são homens e 42% mulheres. O relatório espanta-se com esta taxa feminina extraordinariamente alta e tenta justificar dizendo que a mulher portuguesa é muito emancipada e fala com muita liberdade mas... mais do que a francesa ou a norte-americana?

Outras teorias poderiam ser apresentadas. Por exemplo, se activistas feministas anticlericais quisessem denegrir a Igreja para enfraquecê-la, podiam preencher questionários online anónimos com falsos testemunhos, mas com histórias de mulheres, em parte porque é mais fácil para elas e em parte para apresentar a Igreja como opressora das mulheres. Alguns questionários como estes seriam suficientes para distorcer os dados. Assim que as falsificadoras analisassem o Relatório Sauvé (França, 2021), poderiam fabricar factos que se adequassem a esse relatório (como mais abuso de meninas nas últimas décadas, por exemplo).

O pico de vítimas ocorre no sexo masculino entre 11 e 15 anos; os abusadores são homens adultos que atacam adolescentes e meninos que estão a entrar na adolescência.

O mesmo estudo português aponta que a profissão que quem preenche estes formulários mais declara é a de "especialistas em áreas científicas e intelectuais", e que no próprio estudo é admitido "o carácter desequilibrado da amostra".

Quanto à regularidade do abuso, os questionários online mostram que 32% sofreram abuso "regularmente" enquanto um terço (33%) sofreu abuso apenas uma vez (39% das meninas afirmaram que foi apenas uma vez; também 29% dos meninos declaram ter sido vítimas de um ataque único).

Quanto ao tipo de abuso, teriam ocorrido 30 casos de "cópula consumada", 50 de "sexo anal" e 100 de "sexo oral".

É horrível, mas temos que contextualizar os números: estamos a falar de um país de 10 milhões de habitantes, quase todos católicos e de cultura católica, incluindo anos de governo autoritário, porque o estudo reuniu dados ao longo de 70 anos (desde 1950).

Os abusos, como em França e em outros países, eram mais frequentes quando se combinavam duas épocas: uma de tradicional confiança no clero e na instituição dos seminários e internatos e, ao mesmo tempo, a difusão da mentalidade da Revolução Sexual marcada por 1968 e o caos dos anos 70.

Os números elevados do clero também têm a sua importância, embora seja um tanto difícil de medir, como aponta o relatório. De qualquer forma, o número de clérigos caiu rapidamente: em 1975 havia quase 5000 padres diocesanos em Portugal; em 2015 eram metade.

Sacerdotes diocesanos por ano:

1975: 4954;
1986: 4099;
1991: 3431;
2001: 3267;
2015: 2502.

Sacerdotes religiosos por ano:

1994: 1.024;
2002: 931;
2016: 848.

Vale destacar que, entre os que enviaram os seus questionários anónimos online, quase 26% se declararam católicos praticantes, 27% católicos não praticantes e 35% dizem não ser católicos. 12% não responderam à questão.

Ainda há muito trabalho a ser feito em matéria de investigação dos arquivos das congregações, associações e dioceses, porque o Relatório diz que eles foram abertos muito tarde, em Outubro, quando faltava pouco para concluir o trabalho. Pode haver alguns dados interessantes, mas dificilmente números muito grandes.

Por exemplo, ao investigar congregações religiosas masculinas por conta própria, a Comissão Independente encontrou 62 vítimas e 60 agressores (muito longe dos 4800 relatados nas manchetes). Mas revendo os arquivos das congregações, encontraram 8 clérigos considerados culpados... e não são eles que a Comissão Independente encontrou por outros meios.

Sem sombra de dúvidas, o abuso em contexto eclesial é um flagelo que deve ser debelado e há muitas maneiras de preveni-lo, melhorar a detecção de agressores e proteger os menores.

Neste momento, a Comissão Independente anunciou que enviou às autoridades os nomes de 25 suspeitos de abuso que podem ser julgados porque o seu caso não prescreveu. Embora não forneçam o número total de suspeitos “detectados” (ou mencionados), somando os que constam nas listas por dioceses e congregações, são quase 500 suspeitos ao longo de 7 décadas, dos quais 414 são sacerdotes. Muitos, ou a maioria, já podem estar mortos.

Mas não parece equilibrado espalhar manchetes que falam de cerca de 4.800 supostos abusos (extrapolados, não detectados) quando o que eles encontraram são basicamente 34 depoimentos presenciais, 9 por carta, 19 na imprensa ao longo de 70 anos e 8 casos nos arquivos de 20 congregações missionárias e educativas, num país católico de 10 milhões de habitantes.

Por Pablo J. Ginés in Religion en Libertad


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