segunda-feira, 4 de maio de 2015

Por um símbolo maior

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Ao mesmo tempo que anda deslumbrada com as candidaturas presidenciais que se acotovelam na ilusão de representarem os portugueses, a nossa comunicação social republicana não resiste ao charme das monarquias desde que sejam longe e da realeza desde que seja estrangeira. Esta é a explicação que encontro para a larga cobertura dada este fim-de-semana ao nascimento da princesa filha dos duques de Cambridge, uma espécie de patriotismo do avesso.
A esse propósito convém relembrar que, no que diz respeito à perspectiva estritamente política, nunca é de mais relembrar que a chefia hereditária do Estado, que maioritariamente subsiste legitimada pela história nos países europeus mais desenvolvidos, é um factor de equilíbrio e de religação nacional, último reduto da unidade identitária e dos valores perenes do ideal comum, sempre ameaçados pela legítima mecânica democrática, cujo exercício por natureza exacerba a luta faccionaria que compele à desagregação. Um símbolo maior, espelho da comunidade de afectos que é Portugal. 

João Távora

Fonte: Corta-fitas

domingo, 3 de maio de 2015

Visita Guiada ao Palácio Nacional da Ajuda , em Lisboa - Portugal



O Palácio Nacional da Ajuda é único no mundo porque se conserva até hoje como testemunho intocado do que foi uma residência real europeia ao estilo Napoleão III. Todos os palácios congéneres, nomeadamente em Londres e Paris, foram sendo actualizados, ao contrário do da Ajuda, onde a implantação da República precipitou o exílio da sua última ocupante, a rainha mãe, D. Maria Pia, e o encerramento do Palácio durante décadas. Mas o Palácio da Ajuda é mais que o último exemplar de uma exigente moda de origem francesa, é também uma casa com um acervo fora-de-série de obras de arte e peças decorativas. O historiador, e director do Palácio Nacional da Ajuda, José Alberto Ribeiro é o nosso guia nesta visita.

Monarquia na origem de tudo quanto é institucionalmente contemporâneo


Os selos com efígie da rainha D. Maria II foram os primeiros selos postais portugueses. Foram emitidos em 1853, com cunho de Francisco de Borja Freire e impressos na Casa da Moeda.


sábado, 2 de maio de 2015

Real Representatividade



A postura única e atitude singular que um Rei desempenha na História e na simbologia devem-se sobretudo à particularidade da função do Monarca que é a encarnação da Nação.
‘Nas monarquias representativas o rei não é um indivíduo, é um princípio, é uma instituição encarnada no homem, cujos defeitos se corrigem, cujas paixões se eclipsam na impossibilidade de fazer mal; não sendo aliás um autómato no jogo das instituições, nem uma quantidade negativa no desenvolvimento do país; pois no desempenho do seu papel há suficientes ensanchas para mostrar e exercer amor para com seu povo, o amor sensato, discreto e sábio (…)’, escreveu Benedito Rui Barbosa in ‘Obras Completas de Rui Barbosa’ V. 2, t. 2, 1872-1874. p. 195, Salvador, Bahia.
De facto, o Rei como Chefe de Estado exerce um quarto poder que paira sobre os outros três moderando e regulando o seu funcionamento, sendo deste modo símbolo da unidade e mesmo garante da permanência de um Estado soberano e independente. O Rei será sempre um símbolo vivo do equilíbrio pelo exercício do seu Poder Moderador, mas também emblema do rigor e da honestidade – honeste vivere – no cume da estrutura política nacional. O próprio e fidedigno Eça de Queiroz dizia no século XIX ser o Rei «a única força que no País ainda vive e opera».
Ao contrário da república sempre imutável pode-se verificar que a Monarquia tem acompanhado sempre os tempos e procurado o melhor modelo adaptado a cada época. Não há na democracia europeia e japonesa, nos dias de hoje, Monarquias absolutas ou limitadas.
Como notou o historiador francês Jacques Bainville: «a Monarquia é o mais maleável dos regimes, o mais pronto a se renovar, aquele que tem menos medo das ideias e o que menos se encerra na rotina».
O Monarca é um Chefe de Estado que visa a prossecução do interesse público, do bem da coisa comum e do bem-estar comum, da verdadeira res publica, que põe em primeiríssimo lugar os interesses do próprio Povo e da Nação que tem por dever fundamental defender, pois enraíza-se na História da Nação que assumiu e jurou valer e garantir.
Um Rei é livre e não preside a um conclave de elites, não é um político que coloca à frente os seus interesses pessoais, conveniências partidárias, conveniências económico-sectoriais, ou mesmo pertinácias estrangeiras. Esse sectarismo não acontece com um Monarca, pois o Rei representa a Comunidade como um todo: é o Chefe da Nação!
Um Rei não é eleito na esfera das rotações partidárias, é aclamado pela mais significativa das aprovações: a Aclamação por todas as forças vivas da sociedade agregadas em Cortes! É Rei pelo Código do Direito Natural e pela Aclamação da Nação reunida: ‘Real! Real! Real! Pelo muito alto e muito poderoso e fidelíssimo Rei de Portugal!’ Pelo Mui Alto Rei… para bem de Portugal – acrescente-se!
Um chefe de Estado escolhido pela via biológica dentro de uma dinastia reinante, pela sucessão que ocorrerá através de primogenitura igualitária, de um príncipe/princesa herdeiro(a) ao Rei de cujus, asseguraria essa representatividade de todos e garantiria REAL LIBERDADE!
Miguel Villas-Boas

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Estação de Santa Apolónia, em Lisboa. 150 anos a ver passar os comboios


A Estação de Santa Apolónia faz 150 anos. O edifício lisboeta, foi inaugurado a 1 de Maio de 1865 no reinado de D. Luís I


A Estação de Santa Apolónia em Lisboa completa esta sexta-feira 150 anos. Aquela que foi a primeira estação de comboios portuguesa é hoje ponto de partida e de chegada de cerca de 150 comboios por dia, segundo dados da Refer.
Desta estação, inaugurada a 1 de Maio de 1865, no reinado de D. Luís I, “partem diariamente 75 comboios da CP (Alfa Pendular, Intercidades, Inter-regional, Regional e Urbanos) e chegam outros tantos”, realça a Rede Ferroviária Nacional (Refer), numa nota enviada à agência Lusa. É também na Estação de Santa Apolónia que têm início e fim os comboios internacionais Sud Expresso (ligação a Paris) e Lusitânia (ligação a Madrid). Segundo dados da Refer, o fluxo médio mensal em Santa Apolónia era de 236.449 passageiros em 2013, um número inferior ao registado em 2007, quando recebia, em média, 374.873 passageiros por mês.
O projecto para a construção de uma estação entre a Praia dos Algarves e a Rua Direita do Caes dos Soldados, aproveitando o antigo Convento de Santa Apolónia, para servir a ligação por caminho-de-ferro de Lisboa ao norte do país e a Espanha e França, foi aprovado em 1862.
Em 1856 tinha-se realizado a primeira viagem de comboio em Portugal, entre Lisboa (a partir de um cais improvisado perto da actual estação) e o Carregado, e havia projectos do ministro Fontes Pereira de Melo para expandir o caminho-de-ferro pelo país.
A autoria do projecto original da Estação do Caes dos Soldados, como então se lhe chamou, coube ao Engenheiro Angel Arribas Ugarte, ao Engenheiro Director João Evangelista Abreu e ao Engenheiro Chefe Lecrenier.
A construção coube à empresa do engenheiro francês C.A. Oppermann, diretor da publicação de engenharia “Nouvelles Annales de la Construction”, e foi dirigida pelo engenheiro Agnés, tendo as diferentes partes que compõem o edifício sido subcontratadas a diversos construtores. Custou na altura 255.164$000 réis, o equivalente a pouco mais de 255 escudos (1,27 euros).
O edifício, encomendado pela Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses, tinha “cocheira para 22 carruagens”, salas de espera de 1.ª, 2.ª e 3.ª classes, e salas do chefe de estação, “dos botequins e casa de pasto”, além de ser iluminado por 143 candeeiros a gás, de acordo com uma descrição no “Archivo Pittoresco Semanario Illustrado”, publicação lisboeta da época.
A estação – que é um lugar central no fim trágico do romance Os Maias, de Eça de Queirós – foi sofrendo alterações ao longo dos tempos.
“Ao edifício foi acrescentado um andar superior e construída a avenida Infante D. Henrique. Foram criados parques de estacionamento para automóveis particulares, táxis e paragens de eléctricos. (…) Os cais de embarque foram prolongados e alargados, procedeu-se à iluminação de toda a gare, dotou-se o edifício com o serviço de bar, salas de espera, depósito de volumes, vendas de jornais e um sistema de informação ao público”, destacou a Refer.
A partir de 1998 sofreu com a concorrência da nova Estação do Oriente, construída por ocasião da Expo’98, e a 19 de Dezembro de 2007 ganhou uma nova ligação à cidade de Lisboa, com a inauguração da interface com o Metropolitano da capital.
Mas sabe quem era Santa Apolónia? A santa, que deu o nome à estação, é conhecida como a padroeira dos dentistas ou daqueles que sofrem dores de dentes. Também chamada Apolónia de Alexandria era uma virgem mártir que morreu pelo cristianismo no ano 249 na cidade de Alexandria, no Egipto. Reza a lenda que antes da sua morte, foi torturada tendo todos os seus dentes sido arrancados ou quebrados. E foi esse mito foi o que lhe deu a alcunha popular.

A estação ferroviária foi também o palco de alguns eventos históricos



A 17 de Novembro de 1873, foi inaugurada a chamada linha de “Americanos” com “carruagens de Nova Iorque, puxadas por mulas brasileiras” como terá dito Ramalho Ortigão. A linha ligava Santa Apolónia à actual Avenida 24 de Julho, anteriormente conhecida como o aterro da Boavista, passando por Santos. Os media terão elogiado as novas carruagens: “são muito espaçosas, com assentos para 22 pessoas, mas podem transportar em pé, aos lados do condutor e do cocheiro, mais 12 passageiros”.
No dia 19 de Maio de 1886 a princesa Maria Amélia de Orleães chegou pelas 17h00 à estação de Santa Apolónia vinda de Paris. Aquela que se iria tornar na Rainha D. Amélia de Portugal chegou acompanhada pela família e pelo numeroso séquito. Rumou a Lisboa para celebrar a boda de casamento com o príncipe D. Carlos de Bragança a 22 de Maio. Depois da chegada da princesa todos almoçaram na histórica estação.
Fonte: Observador

quinta-feira, 30 de abril de 2015

A propósito de reformas do sistema político

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A propósito deste interessante artigo de Manuel Vilaverde Cabral sobre a presidência da república e a reforma do sistema político em Portugal, e no que refere ao embaraço que representa o actual modelo de Chefia de Estado, convém ressalvar que, sendo a democracia pela sua natureza um sistema autofágico que vive do híper mediatizado e permanente conflito de facções e interesses, ela expõe as instituições nacionais a uma sistemática e perigosa erosão. Por isso requer este regime um órgão de soberania acima de todas as questiúnculas, capaz de, no topo da pirâmide, representar e congregar todas as partes da Nação. Uma instituição que, por ser hereditária, não tomou partido por qualquer facção nem depende de interesses políticos ou económicos. Essa instituição é o Rei, que tem a capacidade de consolidar o sistema, como o comprovam os exemplos dos países mais evoluídos e livres da Europa que são monarquias. De resto, Portugal tem o privilégio de uma Nação com quase 900 anos que possui uma incontestada Casa Real com comprovados pergaminhos no que respeita ao que é mais importante – o amor à Pátria.

João Távora

Fonte: Causa Real

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Reis e Soldados


Um dirigente diz: ‘Vão!’ Já, um Rei sempre bradou: ‘Vamos!’

‘Coragem!’, sim aquela era a luta de todos e por isso tão longe alcançaram. Assim se vai aos astros e não é com um rebanho servil. O trabalho era de equipa, não havia um mandante e mandados. Raça enorme, a dos nossos antigos Reis que ainda podemos sentir nas muralhas seculares dos nossos castelos! Sim, Portugal é um País quase milenar, construído a golpes de espada e heroicidade!
O Rei de Portugal ia combater em Pessoa, não mandava os soldados sozinhos, era o Comandante-em-Chefe e o primeiro a avançar. Adiantava-se mesmo, não ficava no conforto dos gabinetes, assarapantado em hesitações. Foi sempre assim, depois veio a ‘implantada’ e os soldados foram atirados, sozinhos, para uma guerra estrangeira, para morrer, na primeira linha – aquela que faz dos jovens mancebos carne para canhão.
Servir, sempre servir os interesses supremos da Nação, era esse o lema dos nossos tão amados quanto saudosos Reis, contanto não se pense que guerrear era um impulso básico, mas uma forma de manter a paz: si vis pacem, para bellum (lat) – se queres a paz, prepara a guerra. Gnoma ainda, hoje, seguido pelas nações, que procuram fortalecer-se a fim de evitar uma eventual agressão.
Todavia, mens sana in corpore sano (lat) – mente sã em corpo são. Frase de Juvenal, utilizada para demonstrar a necessidade de corpo sadio para serviços de ideais elevados. Os nossos Reis conciliavam a capacidade e a capacitação inerentes a um soldado apto para comandar um teatro de guerra, sem descurar as faculdades intelectuais, até porque o melhor dos generais é o mais inteligente dos homens. Nisso seguiam os exemplos clássicos de Alexandre e de César, os mais brilhantes generais e os mais ilustrados das respectivas épocas.
Muitas vezes, e não poucos, atribuem ao corajoso Rei Dom Sebastião a imaturidade na sua resolução na empresa de Alcácer-Quibir, ora que injustiça chamar irreflectido ao Rei-menino que com tão exemplar acto de bravura procurou manter o Império que herdara e que sofria as investidas das hordas mouriscas. A Coroa sempre serviu o Império português fosse em que parte fosse da sua dilatada extensão e que estivesse disso necessitada.
Porventura, ficou o Desejado, na penumbra de uma tenda de comando jogando xadrez com as suas peças de cavalaria ou com os seus peões?! Não, não ficou, avançou temerário! Não se conte o que sucedeu em seguida lançando o nome Sebastião no auto dos culpados, mas sim como o resultado de uma maquinação estrangeira para anexar o Portugal que havia perdido e cobiçava desde os tempos em que Aquele conde da Borgonha, ilustre descendente dos Reais Capetos, teve a intenção de formar a mais Augusta e Antiga Dinastia Peninsular. Caso único no Mundo é um facto que, desde Dom Afonso I Henriques, a Monarquia Portuguesa conheceu quatro Dinastias, todas elas pertencentes à mesma Família.
E não foi no Reinado de Dom Sebastião que se avançou pela África e foi fundada a cidade de Luanda, e não foi, também, no Seu Reinado que se consolidou o domínio da costa brasileira?! Pergunta retórica, pois, necessária resposta não é!
Mas porquê Reis-soldados já depois do Império conquistado e restabelecido, porquê aios, mestres de armas, esgrima, tiro ao alvo?! Porque um Rei deve estar sempre pronto para servir a Nação como e da forma que for necessária: se umas vezes o faz com as artes da ciência política moderando e gerindo os administradores do Seu Reino, se outras serve diplomaticamente luzindo o seu francês ou inglês perfeitos junto dos monarcas ou plenipotenciários estrangeiros, outras vezes há que quando acoitadas as suas fronteiras, perigado o Seu Povo, tem que vestir o uniforme de Generalíssimo e ir à guerra!
O Rei enquanto era o Comandante Supremo das Forças Armadas tinha a noção de que não era apenas uma figura de pompa nem o Seu cargo de circunstância, era efectivamente o General dos Generais, aquele que fazia a Guerra e decidia a Paz! Um Rei é para todos os momentos, sejam aqueles os mais prolixos e abundantes, ou os mais conturbados e de carestia. E para tudo deve estar preparado, habilitado.
Por isso nunca a formação militar foi descurada com Príncipes herdeiros e Infantes, mesmo depois dos primeiros reis da Primeira Dinastia Portuguesa com preocupações marcadamente políticas e com a formação e manutenção do território, mesmo depois de Aljubarrota, mesmo depois de Restaurada plenamente a Independência, mesmo depois da opressão da barbárie francesa, mesmo já em Monarquia Constitucional e Portugal, finalmente, ganhou a estabilidade necessária para o progresso material.
Enquanto infante, ainda longe de pensar vir a ser rei, Dom Luís (futuro Rei D. Luís I) serviu na Marinha e exerceu o seu primeiro comando naval em 1858, visitando as colónias africanas portuguesas. Seu irmão o Infante Dom Augusto serviu no exército, vindo mesmo a ser Condestável do Reino aquando do reinado do irmão.
Já, Dom Carlos nasceu na qualidade de príncipe herdeiro da coroa, pelo que recebeu desde cedo os títulos oficiais de Príncipe Real e Duque de Bragança. Ministradas as primeiras letras, passou a acumular a aprendizagem das mais variadas disciplinas em que se distinguia – sempre com ‘louvor’ – com a instrução militar para o que, El-Rei D. Luís nomeou o tenente-coronel de engenharia Gromicho Couceiro. Na equitação, Dom Carlos, recolheu ensinamento do general Vito Moreira. Em pouco tempo seria atribuído a D. Carlos o posto de comandante honorário do Colégio Militar. Aperfeiçoou a esgrima e ainda mais o tiro, no qual foi reconhecidamente, exímio. Em 28 de Setembro de 1879, D. Carlos é nomeado guarda-marinha e ainda alferes do Regimento de Lanceiros 2 da Rainha.
D. Carlos começou, então, a Sua preparação para Reinar e conheceu e privou com os Ministros. Várias vezes recolheu ensinamentos de estratégia militar do general de engenharia e Ministro da Guerra, o Conselheiro Caetano Sanches de Castro que fora membro da Comissão da Defesa de Lisboa e dos seus fortes, algumas das famosas linhas de Torres, membro da Comissão incumbida de apresentar o plano geral das obras de melhoramento da Capital – sendo-lhe confiada pessoalmente a apresentação do plano geral das obras de defesa do porto de Lisboa. Sanches de Castro serviria ainda o Rei D. Luís I como Conselheiro, fora Director-Geral das fortificações e Presidente da Comissão de Defesa e que formulou os projectos, considerados excepcionais, das baterias do Bom Sucesso, do Forte de São Julião da Barra e dos redutos de Sacavém e Alto do Duque. Essas conversas e alguns ensinamentos com o Ministro da Guerra Sanches de Castro haveriam de ser muitos importantes para Dom Carlos como se verá adiante.
Aos 21 anos, D. Carlos é promovido a capitão de Lanceiros 1, ficando no entanto a prestar serviço no Quartel da Calçada da Ajuda nos Lanceiros 2.
Passou, já casado com a Princesa Maria Amélia de Orleães e Bragança, a tenente-coronel e, em 1887, é nomeado presidente da Subcomissão de Defesa Marítima da Barra do Tejo e da Cidade de Lisboa, onde demonstrou de forma inequívoca os seus vastíssimos conhecimentos militares e inteligência estratégica e que culminaria na publicação da obra de referência: A Defesa do Porto de Lisboa e a Nossa Marinha de Guerra, e que haveria de ser aprovada unanimemente pela Comissão de Defesa. A Comissão Superior da Guerra entendeu ser obra de antologia e considerou-a comoAnteprojecto Geral da Organização da Defesa do Porto de Lisboa e que seria obra de referência para todos os vindouros estudos e projectos que concernente à defesa da barra do rio Tejo. O brio militar mereceu-lhe a promoção a coronel e a nomeação para membro da Comissão Superior da Guerra.
«O Rei está morto! Viv’ó Rei!» e o Duque de Bragança sobe ao trono como Dom Carlos I. Passa a usar, como é apanágio dos Reis, o uniforme e o posto de Marechal-General do Exército – continuamente o brio, sempre envergando o uniforme do serviço!
Já a descendência real, Dom Luís Filipe, Príncipe Real e Duque de Bragança e o Infante Dom Manuel, então, Duque de Beja, tiveram o tenente-coronel José de Castro como preceptor de balística, táctica e topografia, e, a equitação fazia, naturalmente, também, parte da educação dos Príncipes.
Dom Luís Filipe assentou praça de tenra idade; El-Rei Dom Carlos I foi atribuindo, ainda, ao Príncipe Real e Duque de Bragança, postos do exército, como no Esquadrão de Lanceiros do Rei, Regimento de Cavalaria nº 2 e nomeou-o ainda Comandante honorário do Colégio Militar. Dom Luís Filipe ocupou os postos de oficial às ordens do Rei, alferes em 1902, tenente em 1906, capitão em 1907 e os Regimentos de Cavalaria n.º 8 e de Infantaria n.º 18 carregavam às ordens do Príncipe Real.
Aos treze anos do Príncipe Real, é nomeado Seu aio o herói Mouzinho de Albuquerque, e a sua instrução passou a ter uma componente ainda mais militar e a ser uma verdadeira preparação para reinar. Com a morte de Mouzinho é nomeado como aio do Príncipe Real o coronel Francisco da Costa.
Já o infante Dom Manuel, que aos seis anos já falava e escrevia em francês, estudou línguas, história e música com o professor Alexande Rey Colaço, e, em 1907, iniciou os seus estudos de preparação para ingresso na Escola Naval, preparando-se para seguir carreira na Marinha. Após uma estadia de alguns dias em Vila Viçosa, com toda a família, havia regressado mais cedo a Lisboa precisamente para se preparar para os exames da Escola Naval, tendo ido esperar os pais e o irmão ao Terreiro do Paço e eis que o destino de todos foi interrompido pelo terrível e terrorista Regicídio que a Dom Carlos I e a Dom Luís Filipe veio arrancar tão cedo à vida e a Dom Manuel baralhar e voltar a dar noutra direcção. Dom Manuel II viu-se alçado Rei.
No tocar de finados da Monarquia portuguesa, com o trágico resultado do regicídio, os republicanos do PRP lançaram-se na propaganda demagógica e na unidade maçónica que permitiu a formação de uma organização secreta conjurante, a Carbonária. A Carbonária Portuguesa, liderada por Luz de Almeida, a partir de 1909, apoiada pelo próprio grão-mestre do Grande Oriente Lusitano Unido, lançou-se no patrocínio das bombas dos anarquistas e no recrutamento de fidelidades nos quartéis. E, no lado da legitimidade, as forças militares fiéis à monarquia sofreram uma feroz estocada, quando no seguimento do regicídio, o governo afastou o ministro da guerra e o ministro da marinha que possuíam denodo, inteligência e um forte ascendente sobre as altas e médias patentes militares, para além de serem especialistas nas nomeações. Os governos que se sucederam, cegamente mediam a lealdade dos militares ao regime através de consecutivas e inócuas visitas a regimentos por El-Rei Dom Manuel II que era sucessivamente aclamado, pois o problema não era o benquisto Monarca – o problema não residia nas estrelas! Outro desacerto capital dos governos posteriores a 1908 foi a da mudança no Comando Militar de Lisboa.
Consumado o derrube da Monarquia Portuguesa que durante 771 anos fez a glória da Nação, Dom Manuel II no exílio não se eximiu das funções para as quais tinha sido preparado. Assim, com o dealbar da 1.ª Grande Guerra, o Monarca exilado, em Inglaterra, colocou-se à disposição dos aliados para servir como melhor pudesse. Inicialmente, tomou-o o desapontamento quando o colocaram como oficial da Cruz Vermelha Britânica, mas o empenho que mostrou no decorrer da guerra, cooperando em conferências e na recolha de fundos, visitando hospitais e mesmo os feridos na frente, acabou por ser-Lhe muito gratificante. Porém, o seu zelo nem sempre foi penhorado, e certa vez lamentou-se disso: “A sala de operações do Hospital Português, em Paris, durante a guerra, foi montada por mim. Sabe o que puseram na placa da fundação? ‘De um português de Londres‘.” El-Rei criou, ainda, o departamento ortopédico do hospital de Sheperds Bush, que por perseverança do Monarca continuou a funcionar até 1925, dando assistência aos mutilados de guerra. Uma prova de reconhecimento dos ingleses para D. Manuel II de Portugal foi quando o Rei britânico Jorge V – primo do Monarca português pelos laços da Casa de Saxe-Coburgo e Gotha – tê-Lo convidado e à Rainha Augusta Victória a ficar a seu lado na tribuna de honra durante o Desfile da Vitória, em 1919.
Servir, sempre servir! El-Rei Dom Manuel II tinha como divisa «Depois de Vós, Nós», premissa de que o Rei serve primeiro os interesses da Nação: País e Povo; pois aos monarcas sempre foi dado o status de “servidores”.
Miguel Villas-Boas

terça-feira, 28 de abril de 2015

SAR, D. Duarte de Bragança conversa sobre o Santo Condestável na Rádio Renascença


Clicar na imagem para ouvir 
(a partir do minuto 13)

Haverá uma maneira cristã de fazer a guerra? Seis anos depois da canonização de Nuno Álvares Pereira, e com a ajuda de D. Duarte Pio de Bragança, lembramos a figura do Condestável e o que fez de diferente para ser Santo. A reportagem da Renascença passou por Cernache do Bonjardim, terra natal de S. Nuno de Santa Maria, onde a romaria em sua honra terminou este fim-de-semana.

Fonte: RR

domingo, 26 de abril de 2015

Um Papa politicamente incorrecto

As desassombradas declarações do Papa Francisco sobre o genocídio dos arménios caíram mal em Ancara. Ainda bem.

Em boa hora o Papa Francisco, no passado dia 12 de Abril, denunciou o genocídio arménio, neste ano em que se cumpre o primeiro centenário deste crime contra a humanidade, que as autoridades turcas, contrariando a evidência histórica, insistem em negar. E fê-lo com frontalidade, sem falinhas mansas, chamando os bois pelos seus nomes: genocídio.

A morte de um milhão e meio de arménios, ou um milhão e setecentos mil, não é coisa de pouca monta, nem pode ser silenciada ou esquecida. Não deve ser minimizada, nem reduzida a uma insignificância histórica. Não é uma questão interna da moderna Turquia, enquanto sucessora do império otomano, nem respeita apenas à Ásia Menor. É um drama mundial que a todos importa, porque estão em causa os direitos humanos e é da sobrevivência de um povo e da sua cultura que se trata.

A Arménia, cujas fronteiras oficiais, no mapa-múndi dos países soberanos, não coincidem com a sua realidade étnica, é uma nação de uma riquíssima tradição cultural e religiosa. Já no ano 302, onze anos antes do édito que deu carta de cidadania à religião cristã nos domínios do império romano, a Arménia era um país oficialmente cristão, talvez o primeiro que assumiu essa identidade religiosa. Esta circunstância não terá sido alheia à tentativa do seu extermínio pelo império otomano, maioritariamente islâmico, como muçulmana é também a moderna Turquia, não obstante a sua constituição laica e o seu formal reconhecimento da liberdade religiosa.

Um dado significativo: entre 1915 e 1918, cinco bispos arménios foram mortos e outros três deportados, enquanto 129 sacerdotes, num total de 250, foram assassinados. Dada essa generalizada perseguição, muitos arménios viram-se obrigados a emigrar para a Europa – como foi o caso de Calouste Gulbenkian – e para os Estados Unidos da América, onde subsistem comunidades arménias que mantêm vivas as suas tradições.

A dimensão gigantesca do extermínio deste povo mártir levou o Papa Francisco a usar o termo genocídio, comparando-o ao holocausto dos judeus durante o regime nazi, às perseguições estalinistas, ao regime comunista do Camboja e às chacinas perpetradas, mais recentemente, no Burundi e na Bósnia. O mesmo poderia ter dito do actual massacre de cristãos na Nigéria, na Síria, no Paquistão, etc. Silenciar estes crimes contra a humanidade é trair a história e ser cúmplice, por omissão, destes atentados. Quem cala, consente.

O papa não é apenas um líder religioso, mas também a suprema autoridade moral mundial. Como máximo representante de Cristo, compete-lhe confirmar os cristãos na fé; e, como porta-voz da consciência ética internacional, tem o dever de denunciar publicamente todos os atentados contra os direitos humanos e a dignidade e independência dos povos e das suas culturas. Sem qualquer animosidade contra nenhuma nação ou facciosismo ideológico ou partidário, o sumo pontífice não pode deixar de ser politicamente incorrecto quando a verdade histórica, os direitos inalienáveis dos povos e, principalmente, a dignidade humana, é espezinhada.

As desassombradas declarações pontifícias caíram mal em Ancara, cujo governo pediu de imediato explicações ao núncio apostólico. Ainda bem. Quando a Santa Sé decidiu abrir o processo da eventual beatificação de Pio XII, que salvou a vida  a milhares de judeus, que acolheu no Vaticano, em Castel Gandolfo e em muitas instituições católicas, as autoridades israelitas também reagiram com desagrado. Mas a Santa Sé não se deixou intimidar. Mal andaria o sucessor de Pedro se se deixasse envolver por uma caluniosa campanha mundial contra o papa Pacelli. Ou se, no caso dos arménios, por respeitos humanos, recuasse no cumprimento do seu dever moral. Em algum caso, mais por via de excepção, pode ser imperioso o silêncio, se a denúncia pública puser em causa a vida de seres humanos inocentes, mas a omissão da obrigação humanitária de condenar a injustiça prepotente nunca se justifica por tacticismos políticos, conveniências de ocasião ou outros interesses mesquinhos.

É precisamente para exercer, com plena liberdade, este seu magistério universal, que convém que o vigário de Cristo não seja súbdito de nenhum governo nacional e tenha, formalmente, o estatuto de chefe de Estado. A criação do diminuto Estado da Cidade do Vaticano, por obra e graça dos tratados de Latrão, não obedece a uma lógica de poder, nem é um resquício do governo temporal dos anteriores bispos soberanos de Roma, mas uma condição necessária para que o romano pontífice possa exercer, no seio da comunidade das nações e sem quaisquer pressões, a sua missão de supremo guardião dos princípios morais.

Também Cristo foi politicamente incorrecto, sendo por isso condenado pela autoridades romanas, com a aquiescência do rei Herodes. A sua realeza é verdadeira, mas não é deste mundo: não é nenhum projecto de poder político, mas o testemunho libérrimo da verdade a que todos, sem excepção, temos direito. Porque só a verdade nos faz livres.