terça-feira, 12 de maio de 2015

Monárquicos assumidos. A defesa de um sistema de unidade nacional

Paulo Teixeira Pinto, Isabel Meireles, Augusto Ferreira do Amaral, Gonçalo Ribeiro Telles e José Adelino Maltez. Monárquicos assumidos.

Em espectros políticos diferentes, todos garantem que as repúblicas não são a solução para os novos desafios. As opiniões cruzam-se, mas mantêm uma convicção: D. Duarte seria a figura indicada para assumir a monarquia portuguesa.
O i fez-lhes as seguintes questões:
01 Como se define no que diz respeito à monarquia? 02 É necessário ter uma atitude pública reservada sobre o assunto? 03 O que seria diferente, eventualmente melhor, do que a actual República? 04 Qual seria a sua proposta para uma monarquia em Portugal?
Paulo Teixeira Pinto
jurista

01   Sou mais um português que reconhece e admira o vínculo entre um povo e a instituição que o representou na edificação daquele que é um dos poucos casos na história de verdadeiro e perfeito Estado-nação, ao que acresce ainda o facto de ser o mais antigo da Europa com as actuais fronteiras.

02   A circunstância de ser monárquico é inerente e integrante daquilo que sou como homem. E isso é em mim tão normal como público. Logo, não precisa de ser exibido nem escondido.

03   Porque Portugal foi, em grande parte, o resultado de uma construção régia. Nunca defendi que a monarquia fosse intrinsecamente, por definição e natureza, superior à república, em termos abstractos. Para mim, o critério mais relevante é o da melhor conformação da idiossincrasia do povo a um regime político. Ou seja, são os regimes que existem para os povos, e não os povos para os regimes. Um rei deve existir para reinar, não para governar. O rei representa a identidade de uma unidade. Não pode, portanto, ser uma parte do jogo político. No caso português, foi a República que derrubou a monarquia. Mas a ucronia, ou seja, o redesenho da história a partir de uma alteração do passado, nunca poderá ser provada. Posto isto, seria fácil dizer o que quer que fosse, porque tal jamais poderá ser comprovado. E o mesmo se diga para o seu contrário.

04   Obviamente que a restauração da monarquia em Portugal só será possível com a verificação cumulativa de dois requisitos, a saber: i) que tal resulte da vontade do povo, expressa sempre por via democrática e não revolucionária; ii) que o rei seja o duque de Bragança, único titular de tal legitimidade histórica.

Isabel Meireles
Advogada

01   Em pleno século XXI, a identidade dos países, face à mundialização, está cada vez mais diluída e a república não tem contribuído para a inversão do fenómeno nesta matéria. Com efeito, os chefes de Estado são eleitos por cinco anos e, após terem cumprido pouco mais de metade do seu mandato, só pensam na reeleição, recorrendo a manobras políticas e eventos que apenas visam marcar o calendário eleitoral. É verdade que a monarquia não está isenta de críticas, mas encarna a nação, representa a legitimidade histórica, a memória do país e a sua identidade. Os monarcas não são suspeitos de defenderem uma determinada posição partidária porque cumprem o seu dever, que é o de defender a causa de todos, e para o qual são preparados desde que nascem. Mesmo que esta atitude não resolva os problemas políticos, são um esteio de confiança e de refúgio que recolhe a estima da população em geral.

02   É verdade que quem defende a monarquia é, em tese, suspeito de ter algum interesse oculto na questão, ou então sofrer de demência arcaica de modelo governativo. 

03  Os países da Europa mais prósperos, como a Suécia, Dinamarca, Noruega, Holanda, Reino Unido, Bélgica, Luxemburgo, Espanha, Mónaco ou Liechtenstein, repousam num sistema monárquico que congrega harmoniosamente modernidade e tradição. Muitos soberanos, como Alberto II, então rei dos Belgas, que conseguiu gerir e evitar uma das maiores crises governativas e de secessão do seu país, são exemplo do papel que, de forma genericamente discreta, os monarcas têm exercido para manter a unidade nacional e a integridade do território.

04  Uma monarquia moderna e com visão que defendesse o interesse nacional, o qual não tem sido minimamente protegido por um Presidente da República que é eleito, por vezes, por menos de metade da população e que não é senão um político que apenas defende os interesses do seu partido, de maneira umas vezes mais subtil, mas quase sempre de forma muito explícita.

Augusto Ferreira do Amaral
Advogado

01   Sou monárquico no sentido em que, em Portugal, considero preferível que o chefe do Estado fosse um rei designado por sucessão numa dinastia histórica, um rei constitucional, à maneira das actuais monarquias europeias.

02   Não creio que a atitude sobre a monarquia deva ser reservada. Deve, sim, ser falada e debatida livremente pelos portugueses; cabe-lhes o direito de definirem com plena liberdade o seu regime político.

03   A monarquia constitucional, mormente num Estado como Portugal, com um grande e notável historial em regime monárquico, tem inúmeras vantagens. Pode ser uma instituição tão democrática como as demais, porque assente numa Constituição democraticamente aprovada e desde que nesta exista um mecanismo que permita, em qualquer momento, a abdicação do rei ou mesmo a abolição da monarquia por voto nesse sentido da maioria dos cidadãos. A pessoa que simboliza a nação não varia com frequência. Tem maior visibilidade externa e interna. Está ligada à história do país. A sua óptica é a de manter o que deve ser estável, sem afectar as necessárias mudanças requeridas pela alternância política. Tem mais naturalidade para o exercício do cargo. É representativa e harmonizadora de gerações, pois está integrada numa série delas. É independente dos partidos e dos interesses que se digladiam a cada instante. Facilita o funcionamento das instituições políticas e a livre e regular disputa do poder. Defende a Constituição melhor do que quem esteja envolvido nos jogos do poder. O rei é preparado desde pequeno para exercer tais funções: conhece as pessoas, está habituado às cerimónias e às formalidades, é experiente nos contactos com os dirigentes nacionais e internacionais. Não interfere nem perturba a democracia, pois não é um poder concorrente do parlamento e do governo. Não divide, mas sim une. Evita-se a dispersão de atenções, perturbações e gastos com a eleição periódica do chefe de Estado, perfeitamente dispensável em democracia representativa parlamentar. Sai muito mais barata aos contribuintes do que a república.

04  Uma monarquia em que o chefe de Estado – o rei - detém sobretudo funções representativas e mera magistratura de influência. A forma hereditária da sua designação, dentro da dinastia histórica portuguesa. A redução dos poderes actualmente atribuídos ao Presidente da República e a drástica redução do pessoal remunerado ao seu serviço. A fixação do orçamento do rei e família real pelo parlamento. A nomeação do executivo segundo as indicações dos actos eleitorais e da composição do parlamento. Pouca ou nenhuma capacidade para decidir por si a dissolução do parlamento e convocação de eleições antecipadas. A criação dum Conselho de Estado para decisões mais extremas, como o impedimento de um rei em exercício ou de um sucessor.

Gonçalo Ribeiro Telles
Arquitecto

01   Desde que nasci comecei a ler e a aprender história e acabei por ficar monárquico. Defendo um sistema que vigorou em Portugal em quase toda a sua história e o sistema republicano não encontra soluções para a maior parte dos problemas nacionais.
02   Qualquer pessoa pode ter atitudes políticas, desde que sejam minimamente razoáveis com a vida e o ser humano, com a postura de um homem civilizado. Todos têm direito a ter essas opiniões. Há liberdade para isso.
03   Nós temos na história as provas de que a república não veio trazer progresso nenhum, antes pelo contrário. Foi um retrocesso nas condições de vida. Se a monarquia não tivesse sido afastada, haveria um melhor relacionamento com o mundo. A república nunca foi referendada. Portugal perdeu muito da sua espinal medula e da sua orientação política no mundo com a queda da monarquia, em 1910. 
04   Através de um diálogo, se interessasse ao pensamento político do país. Evidentemente que a forma mais natural seria um referendo; não seria um golpe de Estado, seria sempre uma forma democrática. 
José Adelino Maltez
Advogado

01   É claro que, como tradicionalista, sou contra os reaccionários e, como conservador, sou contra os revolucionários e os contra-revolucionários, seus irmãos-inimigos… Logo, de mal com certa esquerda por ser monárquico e de mal com certa direita por ser liberal, julgo que, neste momento, é mais importante restaurar a República, para, em cortes, poder reeleger-se um rei… Assim, de mal com o situacionismo, por ser do contra, também sou contra as oposições que se iludem com a febre das revoluções, porque sou mesmo contra as revoluções que não sejam revoluções evitadas. Detesto a Lusitânia e a república de condes, com muitos bobos da Corte e outros tantos aristocretinos.

02   Liberal à antiga, publicamente assumido como activista da mais antiga associação democrática portuguesa, fundada em 1802, assumo o vintismo e o cartismo. Desembarcaria no Mindelo, defenderia o setembrismo e entraria na Patuleia como histórico, embora preferisse o Pacto da Granja com os reformistas… Logo, continuo disposto a militar no partido do Passos, de Sá da Bandeira, de José Estêvão, de Anselmo e Luís Magalhães. Por outras palavras, mantenho orgulhosamente a fidelidade azul e branca, dos liberdadeiros, aquela que, sem ser por acaso, também foi a bandeira da Europa e do projecto de Quinto Império do Padre Vieira... Menino e moço me assumi como tal, seguindo o exemplo cívico da oposicionista Comissão Eleitoral Monárquica de 1969, os que me ensinaram a detestar o despotismo ministerialista da salazarquia e que, depois, participaram no Congresso da Oposição Democrática de 1973. E com tais exemplos, continuei contra outros despotismos, mesmo os iluminados pela desculpa da ideologia, sempre em nome de pretensos amanhãs que cantam. Aliás, a salazarquia sempre foi aquilo que um dia disse Almada Negreiros: “Foi substituído Portugal pelo nacionalismo que apenas foi uma maneira de acabar com os partidos...”, e não me parece que consiga inventariar-se uma única movimentação da oposição democrática contra a ditadura sem a participação de azuis e brancos. E com tipos como o Luís Almeida Braga fui bebendo aquela profunda tradição regeneradora que nos deu o consensualismo anti-absolutista, coisa que, em inglês, se diz pluralismo e guildismo e que é o cimento fundamental das revoluções evitadas, daquela revolução atlântica que nos deu o presente demoliberalismo...
3.  Comungando no estoicismo de Herculano, era capaz de voltar a subscrever o Manifesto de Dezembro de 1820, da autoria de D. Francisco, o futuro Cardeal Saraiva, seguidor de Cádis e Martínez Marina, dessa bela aliança peninsular contra o usurpador, como praticámos na Restauração de 1808...
4. Procuraria retomar as teses expressas no Código de Direito Público de António Ribeiro dos Santos, seguido por Palmela, por Silvestre Pinheiro Ferreira e pelas tentativas constitucionais históricas e cartistas do governo de D. João VI...
Assumo a herança de Francisco Velasco Gouveia e de João Pinto Ribeiro e detesto as tentativas absolutistas de Pascoal e de Penalva. Assumo as chamadas Alegações de Direito de 1579, em favor Dona Catarina e, naturalmente, prefiro a síntese das Actas das Cortes de Lamego, positivadas pelas Cortes de 1641.
Porque na base está a Constituição política das Cortes de Coimbra de 1385, expressa por João das Regras e desenvolvida pelas teorias da Casa de Avis, principalmente no Livro da Virtuosa Benfeitoria do Infante Dom Pedro, duque de Coimbra
Claro que me entusiasmam os exemplos cívicos de Sá da Bandeira, contra os devoristas e os esclavagistas, e de Herculano, pela regeneração e pela descentralização, contra os cabrais. E iria para a Patuleia não deixando morrer em vão Luís da Silva Mousinho de Albuquerque...
Tal como resistiria por D. Manuel II, como Paiva Couceiro, o mesmo que foi um dos primeiros desterrados por Salazar, por denunciar a estúpida política do Acto Colonial, no que se irmanou com Norton de Matos...
Até estaria com Rolão Preto, Almeida Braga e Vieira de Almeida ao lado de Delgado, como estive com o neo-integralismo personalista de Henrique Barrilaro Ruas, o ecologismo de Gonçalo Ribeiro Teles, o anarco-comunalismo de João Camossa e a aliança do rei e dos sovietes de Rolão Preto, em defesa da democracia de Abril...
José Manuel Castro
Advogado
1. Defino-me pessoalmente como monárquico convicto, crente de que Portugal se reencontrará no seu destino quando tiver ao leme um Rei.
2. De modo nenhum. Sou frontalmente contra essa noção. Um Ideia politica só se divulga e impõe na sociedade com a assunção pelos seus defensores dos principíos que a norteiam.Sem ambiguidades.Esse principio aplica-se á Monarquia por maioria de razão. Representamos 8 séculos de Portugal.
3. A III República bateu no fundo.Com um ex.PM preso, altos funcionários do Estado idem, buscas policiais em Ministérios a serem rotina, dificilmente se pode conceber um regime descer mais baixo. Ao invés, a Monarquia e o Rei sempre se pautaram em 8 séculos, por uma elevação de princípios e conduta que nada tem a ver com a balbúrdia republicana. A existência do Poder Moderador do Rei foi e será a balança necessária ao encontro do equilíbrio no jogo politico democrático que evita que a sociedade resvale para o caos em que se encontra. O Poder Moderador é o freio necessário.
4.Portugal precisa de uma Monarquia Democrática que respeite a Constituição em vigor no regime monárquico, exercendo o Rei o Poder Moderador com total separação dos poderes legislativo, executivo e judicial entregues ao Parlamento, governo e tribunais, sendo o jogo politico da esfera dos partidos.

Manuel Beninger
Presidente da Associação Portuguesa dos Autarcas Monárquicos
1. Parlamentar.
2. Vivemos em liberdade, onde as ideias podem ser discutidas, logo não tenho uma atitude reservada quanto ao ser ou não ser monárquico e assumir-me como tal. Posso acrescentar, que em face ao descrédito actual do modelo republicano, assumir-se monárquico evidencia uma alternativa credível e respeitável, que nos transporta de imediato para um legado histórico, do qual só nos podemos orgulhar e não esconder.
3. Defendo a monarquia, como sistema político, como forma de imprimir uma nova maneira de sentirmos Portugal. Um Portugal restaurado na ética, no respeito pelo próximo e pelos nossos antepassados, que parece actualmente esquecido. O exercício da monarquia obriga à responsabilidade de servir e não servir-se, que parece ser o apanágio da República. A monarquia exerce-se pela verticalidade e horizontalidade da sociedade civil, enquanto a República fica pelo assumido papel de "tudo para todos", com direitos, esquecendo-se que existem igualmente deveres que deverão ser cumpridos, ou seja, fica-se pela horizontalidade, logo a monarquia é muito mais completa na sua génese.
4. Em larga medida, defendo uma monarquia muito idêntica à espanhola, com eleições para a constituição de governo, através de legislativas, com a introdução de 2 (duas) câmaras, que já existiram, uma com deputados, eleitos pelos portugueses, outra destinada a portugueses senadores que por mérito ou experiência pudessem igualmente contribuir para a democracia. Mas, acima de tudo, defendo uma monarquia, que só pode existir com democracia, e a democracia não é da esquerda nem da direita, é de todos e para todos, assim como o Rei, que prima pela isenção e imparcialidade.
João Távora
Presidente da Real Associação de Lisboa
1. Sou um monárquico militante, pois entendo que é um sinal de civilização uma nação Europeia  com quase novecentos anos como Portugal  preservar e estimar a sua centenária Casa Real.
Sou fascinado pela Política, e entendo que o objectivo último dessa dinâmica conflitual são os compromissos, alimento basilar para a civilização. É aí que tem lugar a instituição Real, o Príncipe, como primus inter pares, que encarna os desejos e expectativas de toda a comunidade que representa, legitimado pela História que procede e encarna. Estamos no domínio da meta-política, perspectiva que nos concede superar uma concepção meramente faccionária, administrativa ou aritmética da Coisa Pública. E repare-se como não ficamos obrigatoriamente amarrados a uma questão de Fé: para os não crentes numa ordem transcendente, a questão pode ser perspectivada no âmbito da simbologia, dimensão fundamental para a sustentação de um tácito contrato comunitário, a encarnação de uma realidade abstracta, a que se confere assim a harmonia necessária à adesão emotiva de todos.
2. Algumas figuras públicas parecem exibir um crescente embaraço relativamente *as suas convicções monárquicas à medida da sua ascensão política ao serviço da republica. Mas há outros casos em que o bom carácter prevalece.
3. Sabia que nenhuma monarquia europeia foi intervencionada pelo FMI? A estabilidade política é certamente uma vantagem das monarquias. Veja-se como na Grécia parlamentarista a eleição de um Presidente da República (instituição simbólica) conduz a uma crise política que derruba um parlamento legitimado pelo sufrágio e à consequente queda do governo. Ainda estamos para ver as consequências da ascensão do Syriza ao poder.
4. Uma monarquia em Portugal não sobreviveria sem uma profunda reforma do sistema político, que resgatasse e garantisse o prestigio das instituições garante duma democracia mais representativa, participada e transparente. Só neste panorama faz sentido instituir uma monarquia.
Fonte: Jornal I

Santa Joana Princesa



1 - Nascimento e infância

O Rei D. Afonso V e sua mulher D. Isabel andavam desolados porque os anos iam passando sem conseguirem ter um filho para lhes suceder no trono de Portugal.
Tendo tomado conhecimento que no cimo do Monte Fontelo, em Queimada, Armamar, havia uma capela dedicada a S. Domingos de Gusmão, centro de grande devoção popular, resolveram ir lá em peregrinação pedir a graça que desejavam. Foram ouvidos, pois em 16 de Fevereiro de 1452 nascia uma linda menina a quem puseram o nome de Joana. Aos oito dias foi solenemente baptizada com grande regozijo, e no paço real lhe foi religiosamente jurada fidelidade por todos os vassalos da pequenina herdeira ao trono de Portugal.
Daí a três anos, nascia um filho varão, o futuro D. João II, e Joana perdia assim o direito ao trono, a favor do seu irmão por ser filho varão.
Pouco tempo depois morre em Évora a rainha, e o rei D. Afonso procurou entre as damas da corte uma a quem pudesse entregar confiadamente os seus filhos para serem educados nas mais profundas virtudes humanas e cristãs.
Caiu a escolha em D. Beatriz, filha de D. Pedro de Meneses, senhora exemplar que formou estas duas crianças no temor de Deus e na atenção aos necessitados.
Joana sentia-se chamada a uma grande intimidade com Deus, e, por amor dele, por baixo dos seus trajes reais usava cilício para se mortificar e durante a noite passava horas a meditar na Paixão e Morte do Senhor; de tal modo era a sua devoção à Paixão de Cristo, que, quando o rei, seu pai, lhe pergunta qual o brasão que desejava introduzir no seu escudo, ela respondeu: «A Santa Coroa de Espinhos de Nosso Senhor Jesus Cristo»; e assim se fez, respeitando-se a sua vontade.
Na Quinta-Feira Santa o seu escudeiro e confidente introduzia secretamente no palácio doze mulheres a quem Joana lavava e beijava os pés, imitando o que o Senhor fez aos seus Apóstolos, e entregava-lhes avultados donativos.

2 - Casamento ou vida religiosa

Apenas atingiu os dezasseis anos, logo se começaram a fazer projectos para casar a princesa, que faria feliz o mais exigente admirador da beleza humana e espiritual, pois à graciosidade risonha e afável se juntava a sua beleza numa linda figura de loiras tranças e rosto fino onde brilhavam uns verdes olhos que irradiavam pureza e suavidade segundo o retrato deixado pelos seus contemporâneos.
Joana ia deixando falar, mas a sua atenção fixava-se no pretendente já por ela escolhido, Jesus Cristo.
Entre as damas mais queridas, Joana estimava particularmente D. Leonor de Meneses, por descobrir nela tendências muito semelhantes às suas. D. Leonor, que era mais livre que a princesa para agir, foi investigando quais eram as Comunidades religiosas mais fervorosas que havia no país e soube que tinha muita fama de vida religiosa o; convento das Dominicanas de Aveiro.
As duas decidiram ir para lá, mas como as dificuldades levantadas à partida de Joana eram cada vez maiores, seguiu D. Leonor para o convento de Aveiro, para onde viria mais tarde a princesa Joana, depois de vencer todos os obstáculos, que não foram poucos.
Entretanto, o rei, seu pai, que não a autorizou de maneira alguma a ir para um convento, sobretudo onde se vivia em pobreza e trabalhos, mas não querendo contrariar demasiado a sua tão amada filha, autorizou-a a viver, no; palácio, o género de vida que lhe aprouvesse. Foi o suficiente para Joana se ir desprendendo dos seus bens materiais, dispensando as suas damas a quem dotou liberalmente, foi-se esquivando para não comparecer nos saraus elegantes da corte e entregou-se inteiramente à oração e às obras de caridade.

3 - Entrada para o Convento

Aproveitando o regresso vitorioso de seu Pai, D. Afonso V, da conquista de Arzila e Tânger, a princesa Joana preparou-se e enfeitou-se para receber o rei vitorioso e aproveitou a ocasião para lembrar ao pai que, por tão grandes vitórias, o rei devia oferecer a Deus algum presente preciosa em que a vítima fosse apropriada à dignidade de tão grande rei, como era D. Afonso V. O rei, seu pai, achou que ela tinha razão: e perguntou que vítima entendia ela que devia oferecer-se, aro que Joana respondeu: «EU MESMA, SENHOR»!
Assim pediu licença para entrar em algum mosteiro do reino, pedida que o pai não foi capaz de recusar!
Algum tempo depois, Joana entrou no real convento de Odivelas, onde tinha uma tia que a criara de pequenina. Mas esta tia contrariava o projecto de clausura da sobrinha, pelo que Joana pediu ao pai que a deixasse seguir para lugar mais retirada e tranquilo. O próprio pai foi buscar a filha e levá-la ao Convento de Jesus, em Aveiro, na festa de S. Domingos em 1472.

4 - Alegrias e sofrimentos por amor à vocação

Como não há alegrias completas para quem quiser seguir a Cristo plenamente, o príncipe D. João, seu irmão, contrariava Joana o mais que podia e aproveitava todas as ocasiões para ser desagradável com a irmã, tentando dissuadi-la duma ideia que achava inconveniente para o reino. Queria a toda o custo ter a irmã livre para que a jurassem herdeira, no caso de ele não: ter descendência, ou para a casar como lhe aprouvesse.
Quando Joana tomou hábito, o príncipe desesperou e foi até Aveiro, levando consigo: O Bispo de Évora, D. Garcia de Meneses, que teve a fraqueza de lhe querer agradar mais do que a Deus e se dirigiu a Joana nestes termos:
«Senhora, este modo de vida que tomastes foi decerto mais apetite de menina que escolha de princesa; mas adverti o risco que tendes de desgastar um irmão que é príncipe e que, desabrido com a vossa inteireza, vos pode despir o hábito e desterrar do mosteiro».
Corou a princesa e respondeu com simplicidade, mas com aquela eloquência e discrição que lhe eram próprias:
«Sem dúvida, venerável Prelado, que a paixão vos faz esquecer quem sois. Tanto obedeceis aos interesses da terra que não reparais em ser infiel a um Deus só para lisonjear um príncipe? Mas tendo entendido que é esta causa tanto de Deus que Ele a tomará por sua conta, e assim também o vosso castigo; que Ele saberá favorecer o príncipe meu senhor, pacificar-lhe o povo e prosperar-lhe o reino, assim como conservar-me nesta santa casa e como, também, abrir os olhos à vossa cegueira».
Calou-se o Bispo, confuso, e fez-se luz no seu espírito quanto à vocação da princesa.
D. João é que se indignava cada vez mais e, tomando à sua conta o agravo, declarou à irmã que aos pedaços lhe tiraria o hábito!
A dada altura, porém, surgiu uma nova complicação e foi que a saúde se abalou perigosamente, pelo que os médicos declararam que lhe era impossível aguentar os rigores da regra.
O rei, seu pai, radiante com o pretexto que se lhe oferecia, ordenou à filha que deixasse o hábito dominicano e renunciasse a fazer profissão.
Os próprios Superiores da Ordem foram de opinião que era melhor a princesa não insistir, visto que provavelmente nunca teria forças para abraçar a regra, e Joana sentiu então a maior dor da sua vida, porque lhe parecia que o seu Divino Esposo a abandonava.
Foi uma cerimónia lancinante. Joana assinou um auto pelo qual renunciava a pronunciar os votos solenes, declarando ao mesmo tempo, contudo, que continuaria a habitar no convento de Jesus e a usar o hábito por devoção.
Depois, na linda igreja do convento, a princesa despojou-se do hábito, no meio de uma torrente de lágrimas, beijando com ternura o véu e o escapulário, e dizendo: «Visto que o meu Senhor Jesus Crista não quer por sua esposa uma escrava tão indigna e inútil, não deixarei de O servir em toda a escravidão da vontade».
Choravam as Irmãs e os próprios Superiores se maravilhavam com a profunda humildade da princesa que retomou os vestidos seculares como prova da sua sinceridade. Algum tempo depois, contudo, passou a usar o hábito novamente, por devoção.
D. Afonso, então, satisfeito com a submissão da filha e para marcar melhor que ela não era religiosa, doou-lhe uma quinta magnífica, com numerosos criados e capelães e fartos rendimentos. Joana aproveitou os bens e rendimentos que lhe foram doados para melhor socorrer os pobres e cuidar das alfaias e paramentos da Igreja.
Dedicava-se aos trabalhos mais humildes e, sabendo assegurada a sucessão do reino, fez de modo irrevogável o seu voto de castidade perpétua pelo qual sempre lutara.
Seu irmão D. João, depois de várias tentativas falhadas de lhe arranjar casamento, porque entretanto os pretendentes morriam, reconheceu a santidade da sua irmã e não voltou a importuná-la. Assim ela pôde dedicar-se inteiramente ao seu único Senhor a quem tinha entregue, há muito, todo o seu coração, dando às outras religiosas um exemplo de vida humilde e santa. Aquela que tinha sido concebida por intercessão de S. Domingos de Gusmão, aos seus filhos havia de pertencer até ao fim da sua vida, tornando-se uma das suas glórias de santidade.
Faleceu santamente aos 38 anos de idade no seu Mosteiro de Aveiro, em 1490, depois de uma vida humilde e penitente, como fica dito, pela conversão dos pecadores e resgate dos cristãos cativos dos mouros em África. O papa Inocêncio XII confirmou o seu culto imemorial em 31 de Dezembro de 1692.

É a Padroeira principal da Diocese e da Cidade de Aveiro.
A sua festa celebra-se a 12 de Maio.


Fonte: Dominicanos

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Causa Real. Passar a mensagem da monarquia parlamentar

Luís Lavradio Defende a tradição familiar como uma pedra basilar.Luís Lavradio Defende a tradição familiar como uma pedra basilar.


Para o líder da Causa Real as tradições monárquicas garantem a independência e são um símbolo de união para os portugueses
Luís Maria d’ Almeida (Lavradio) assina Luís Lavradio e é a face visível da Causa Real, uma associação com quatro mil sócios que reúne as reais associações por todo o país. Os 48 anos de idade são o rosto da modernidade tradicionalista. Casado, cinco filhos, conde Avintes, viveu parte da sua infância em Londres e foi naquela cidade inglesa que pôs em prática o curso de economia tirado em Cambridge. O banco UBS, o grupo Rothschild e o Citigroup deram-lhe as bases para abrir em Portugal a sua própria empresa de consultadoria financeira. Na Rocbriedje esteve na linha da frente de processos de privatização como a PT, EDP, Cimpor, ANA e TAP. 

A monarquia está-lhe no sangue. A família, a convicção, a defesa da Casa Real. Recusa mitos e preconceitos e fala de uma monarquia moderna, lamentando que a mensagem não seja bem compreendida. Não esconde que os monárquicos são vistos “como uma espécie de bichos estranhos, saudosistas que querem voltar para os títulos e para as regalias, o que é completamente absurdo”. Garante que “que há imensos monárquicos” ligados a outros partidos, no CDS, no PSD, PS e até militantes do PCP: “O regime monárquico em si é um regime perfeitamente abrangente, o contrário seria aliás estranho.”

Lembra foram vetados pelo poder e dá um exemplo: “Há dois anos, o Presidente da República teve aquele infortúnio de içar a nossa bandeira ao contrário, o que achei uma vergonha. D. Duarte, no mesmo dia, fez um discurso absolutamente magnífico, um discurso de Estado. Estavam presentes vários jornalistas, a Lusa TV em representação de várias televisões e não saiu absolutamente nada. Julgo que o contraponto àquilo que o Presidente fez seria de tal maneira forte, que passou a ser perigoso.”

Luís Lavradio fala sobre as hipotéticas benesses da corte, dos detentores dos títulos nobiliárquicos. Para o presidente da Causa Real é dos tais preconceitos e mitos que existem sem qualquer sentido: “Há uma noção de obrigação e de espírito de serviço nestas famílias que é mais uma questão de educação. Acaba por nos responsabilizar também perante o país. Ou seja, sinto uma certa obrigação pelo cargo que tenho, pelo título que herdei e pela família que represento e que um dia virei a representar. Acho que isso é comum a grande parte da nobreza antiga”. 

Relativamente a uma hipotética corte, Lavradio garante que não é uma questão que se ponha. Para o dirigente, “passa por encontrar uma “alternativa” ao regime actual porque defendem que este não funciona. “Queremos um dramaticamente diferente: mais representativo, mais democrata e, que no cume desse regime, dessa estrutura política, esteja uma instituição que defende de uma forma independente e isenta, legitimada de uma forma diferente do próprio governo.” Com estas características só mesmo a instituição monárquica, defende. É o símbolo unitário da nação e que a representa de uma forma completamente diferente da posição de um chefe de Estado eleito: “A nossa posição monárquica nada tem a ver com cortes.” 

A base seria semelhante às monarquias parlamentares europeias, mas Lavradio considera que deveria existir um modelo português. Apesar de não ter esse molde concluído para apresentar, avança que “devia ser uma monarquia parlamentar, constitucional, mas com uma separação de poderes claríssima que não há actualmente em Portugal.” Um parlamento que funciona como órgão legislador, mas não como órgão executivo – eventualmente um parlamento bicameral parecido com algumas monarquias e com algumas repúblicas em que existe um conjunto de pessoas eleitas por círculos uninominais, reforçando a responsabilização dos políticos perante o seu eleitorado: “Tendo uma câmara uninominal acho que faz sentido uma segunda câmara com uma legitimidade revisória da legislação que é posta em prática nessa câmara baixa.”

D. Duarte nesse modelo teria, segundo o presidente da Causa Real, “um poder representativo, mas mais do que isso, teria um poder de influência”. Luís faz o paralelo com Inglaterra onde a rainha usa a representatividade e influência: “Lembro-me de Tony Blair dizer que as reuniões para as quais ele se preparava melhor e também as mais ricas eram as que tinha com a rainha de Inglaterra.” O que faz ela? Ouve, responde e faz perguntas e nada mais do que isso: “Mas o acervo é de tal maneira rico e advém não só da sua experiência dos últimos 60 anos, mas também da sua própria posição, que é politicamente isenta, falando tanto com trabalhistas, sociais-democratas, liberais. Não está por conta própria, não está para enriquecer, por carreirismo. Está pelo seu país e pelo seu povo”.

Uma das razões que leva as pessoas a criticar a monarquia é o facto de o rei não ser eleito. Luís Lavradio acredita que “se amanhã” a maioria da população no Reino Unido quisesse uma república, a rainha seria a primeira a aceitar. Por outro lado, a única forma de garantir a isenção de uma instituição, fundamental para o funcionamento de qualquer Estado, é não ser eleita: “A partir do momento em que é eleita, é por alguém: os partidos representam parte da população. Essa autofagia que temos na Constituição republicana é ainda pior porque o nosso chefe de Estado é eleito pelas mesmas pessoas que elegem o governo e, supostamente, devia ser um contraponto ao governo. Temos o caso de Cavaco Silva que é supostamente o Presidente de todos os portugueses, mas foi eleito por 23% do eleitorado. Ou seja, há 77% do eleitorado que não concorda. As eleições fazem sentido para elegermos o nosso governo, elegemos um executivo que vai dirigir o país”.

Luís Lavradio espera convencer os portugueses a aderirem à causa monárquica de forma a que os partidos políticos sejam um dia pressionados a considerarem essa opção que ainda assim “só existe na nossa mente e tem de existir no papel”.
Fonte: Jornal I

domingo, 10 de maio de 2015

SAR, O Senhor D. Duarte de Bragança. “O rei ou a rainha são os melhores defensores das suas repúblicas”

D. Duarte hoje pensa num referendo


Nasceu na Suíça num exílio forçado. Regressou para reclamar o título de chefe da Casa Real. 
Acredita que Portugal vai regressar um dia à monarquia?
Acredito que é possível, dependendo das circunstâncias. É preciso que a constituição seja alterada porque pela actual é proibido fazer-se um referendo em que os portugueses possam escolher. Os limites não são a própria democracia, ou a liberdade, mas o regime republicano. Como dizem, a forma republicana de governo. Hoje na Europa há um consenso geral que as monarquias actuais têm formas republicanas de governo mas com uma chefia de estado real. Os constitucionalistas portugueses estão divididos. O artigo 288, alínea b é o artigo mais antidemocrático da Constituição.
Gostaria de ver esse artigo alterado? E um referendo?
A bem da democracia, esse assunto deveria ser abertamente abordado até porque muitos republicanos referem que não haveria mal nenhum que Portugal tivesse um rei na chefia do Estado. Os partidos socialistas sueco e holandês já declararam que consideram que os dois países são repúblicas e o rei ou a rainha são os melhores defensores das suas repúblicas.
Quando tomou consciência que era o pretendente ao trono português, também teve a noção que poderia nunca vir a assumir esse cargo?
O meu pai sempre nos educou no sentido de estar à disposição de Portugal, seja que cargo for. Temos que servir como militar, civil ou como rei, mas também temos que estar preparados para o exílio. Aos meus filhos não falo na hipótese de exílio porque não acredito que em Portugal volte a haver essa loucura. Mas transmito a ideia que têm que servir Portugal e estar preparados.
Há monárquicos militantes de vários partidos. Mas um caso paradigmático é o de Fernando Nobre, candidato a Presidente da República e, ao mesmo tempo, monárquico. Não lhe parece estranho, ou sui generis?
Somos muito amigos há muitos anos. Tenho trabalhado com ele em várias ocasiões e admiro a sua obra. É uma pessoa com capacidade, mérito e com serviços prestados ao país. Falou comigo e referiu que ofereceu os seus serviços a um cargo político de chefia de Estado. Pessoalmente não vejo inconveniente. Há pessoas que ficam incomodadas com dirigentes de um partido aparecerem em governos de outro partido. Estou a pensar em Freitas do Amaral, fundador do CDS, foi ministro de um governo socialista. Não vejo nenhum inconveniente. Creio que é dar uma importância excessiva aos partidos. O interesse do país está em primeiro lugar
Se há tantos simpatizantes em vários partidos, por que razão essa expressão não se traduz em força política? Num movimento que promovesse um referendo, por exemplo?
Porque para além da alternativa monarquia república, há muitas outras opções políticas. Uns são mais liberais, outros socialistas, ou ainda mais à esquerda. Há outras alternativas que se colocam que no imediato, e no curto prazo, parecem mais importantes que a questão da chefia de Estado.
Simpatizantes de todos os partidos, até do PCP?
Os presidentes das câmaras comunistas têm sido aqueles que mais me convidam com cerimónias de carácter oficial. Explicam sempre que são republicanos, mas respeitam a história de Portugal e consideram a minha actividade social e política meritória e por isso têm gosto em convidar-me. Uma vez por outra tenho ido à Intersindical convidado para encontros.
Que modelo de monarquia defenderia para Portugal?
Estou convencido que entre as monarquias do norte da Europa e a Espanha, haveria fórmulas aproveitadas por vários países europeus.
Alguma que lhe sirva de modelo?
Acho interessante o sistema do Luxemburgo que aliás é o país como mais sucesso económico da Europa. Mais de 20 por cento da população que trabalha é portuguesa ou de origem portuguesa. Curiosamente, Henri, o grão-duque reinante, é nosso primo próximo. Descendente do rei D. Miguel. A avó era prima direita do meu pai.
Que tipo de relações mantém com as monarquias europeias. Há mais famílias reais com ligações à sua família?
A bisavó do actual rei da Bélgica, Filipe, era também prima direita do meu pai. O príncipe reinante do Liechtenstein e uma data de famílias reais não reinantes, são descendentes do rei D. Miguel. Todos eles têm tido um comportamento exemplar e prestado um serviço fantástico aos seus países sem os problemas que às vezes vemos noutros sítios. Pessoalmente tenho uma grande admiração pelo príncipe Carlos de Inglaterra. Dou-me muito bem com a família real da Suécia, a rainha Sílvia é muito amiga da minha mulher. Temos boas relações com a família real da Holanda e da Dinamarca. Na Noruega não temos, infelizmente, muitas relações. Fora da Europa a família imperial do Japão que são muito amigos.
Para fazer essas viagens tem passaporte diplomático?
Tenho passaporte diplomático timorense que me foi dado o ano passado por iniciativa do Parlamento timorense, sugerido por Ramos Horta. Tenho um passaporte português, mas uso o passaporte timorense que tem a vantagem de poder ir para todos os países sem visto e não só: por exemplo, vim agora dos Estados Unidos e as pessoas que foram comigo demoraram duas horas a passar o controlo em Newark. Com o passaporte diplomático demorei cinco minutos.
O Rei Balduíno da Bélgica abdicou um dia para não ter que ratificar a lei do aborto. Como reagiria se lhe passasse pelas mãos uma lei que fosse contra os seus princípios?
Faria o mesmo. Ou então o que fez o grão-duque do Luxemburgo que pediu ao Parlamento para alterar a Constituição que, em caso de objecção de consciência, não necessite de assinar. A lei passaria sempre porque são países democráticos e os representantes do Povo quiseram. O problema é que se nós aceitamos que a evolução dos costumes é mais importante como fonte de legitimidade do que os valores morais e éticos, então isto não tem limites.
Os títulos nobiliárquicos dão algum tipo de direito em monarquia?
Não dá direito nenhum, a não ser a um reconhecimento social. Por exemplo, nos partidos da extrema-esquerda portuguesa estavam muito contentes por ter o marquês de Fronteira com eles (Fernando Mascarenhas). Sempre acompanhou as actividades da extrema-esquerda e era muito apreciado por toda a gente. Era considerado uma figura de prestígio nas actividades em que se envolvia, por ter um titulo ilustre. E isso é património histórico-cultural do país.
Por vezes representa o Estado português. Tem algum tipo de suporte financeiro?
Nunca tive nenhum. As viagens que faço em serviço diplomático em colaboração com o Estado português, como foi o caso de Timor, Indonésia, paguei sempre tudo no meu bolso. E viajo sempre em turística. O Estado português tirou-nos as nossas propriedades de família. Quando o meu pai estava no exílio (ainda não era nascido), na morte do rei D. Manuel II o governo do Salazar nacionalizou os bens do rei, da Casa dos Duques de Bragança – A 1ª República não tinha tocado nos bens privados.
Hoje em dia o D. Duarte vive em casa da família?
Não, foi comprada por mim, foi a minha “conquista revolucionária”. Em Abril de 74 havia casas boas e eu comprei uma em Sintra por um preço justo e razoável. A casa de família é esta aqui (Fundação D. Manuel II), vem do testamento da minha madrinha rainha Dona Amélia que me deixou as suas casas do Chiado.
Qual é a sua fonte de rendimento?
Actualmente são estas casas. Durante anos os rendimentos eram baixos, e as rendas antiquíssimas. Os inquilinos pagavam rendas de 10 euros, 5 euros a favor da rainha D Amélia. E hoje paga-se 20 euros por óptimos apartamentos. A minha mulher, que é uma óptima gestora, tem conseguido negociar essa situação, restaurar estes imóveis, e já se tornou auto-sustentável.
Fonte: Jornal I

sábado, 9 de maio de 2015

A Última Aclamação De Um Rei De Portugal



O último Rei de Portugal, Sua Majestade Fidelíssima El-Rei Dom Manuel II foi solenemente aclamado Rei na Assembleia de Cortes em 6 de Maio de 1908, perante os deputados da Nação e os pares do Reino, jurando cumprir a Carta Constitucional.
No caso particular de Portugal, e sempre tal aconteceu desde o próprio Rei Fundador Dom Afonso Henriques, o Rei é Aclamado e nunca imposto! Ou seja, apesar do Príncipe herdeiro suceder ao Rei falecido existe uma participação popular que ratifica essa sucessão sendo que esse passo é o acto jurídico que verdadeiramente faz o Novo Rei.
Nos 771 anos da Monarquia Portuguesa o Rei sempre reinou por delegação da comunidade portuguesa, que aos primeiros Monarcas ‘alevantava’ mesmo o Rei entronizado, reunida em Cortes que o Aclama e faz Rei.
Da mesma forma o Rei de Portugal não era Coroado, aliás, desde Dom João IV que não havia imposição formal da Coroa, pois coube ao Restaurador a derradeira vez em que a Coroa dos Reis de Portugal foi colocada, pois o Monarca haveria de oferecer a Coroa de Portugal a Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, pela protecção concedida durante a Restauração, coroando-a Rainha de Portugal – nas coroações de outros monarcas que haveriam de se seguir, durante a Cerimónia de Coroação a Coroa Real seria sempre acomodada numa almofada vermelha (cor real) ao lado do novo Rei, como símbolo real, e não na cabeça do monarca.
Mas mais símbolos faziam parte da solenidade da Aclamação. Assim depois do Juramento o Rei recebeu o ceptro – símbolo da Justiça – das mãos do camareiro-mor e proferiu a Fala do Trono. De seguida, Dom Manuel II foi o primeiro Rei português a prescindir do beija-mão que se seguia, mostrando o ensejo de renovação. E finalmente, a Bandeira Real transportada recolhida pelo Alferes-mor, o conde de São Lourenço, foi desfraldada na varanda do Palácio de São Bento e o mesmo Alferes-mor soltou diante do Povo o pregão conhecido como Brado de Aclamação: ’Real! Real! Real! Pelo Muito Alto e Muito Poderoso e Fidelíssimo Rei de Portugal, Dom Manuel II.’ E o Povo aclamou entusiasticamente o novo Rei. Só assim ficava completa a cerimónia, com a aquiescência do Povo de Portugal!
Miguel Villas-Boas

sexta-feira, 8 de maio de 2015

FOTOGRAFIAS DO JANTAR DA REAL ASSOCIAÇÃO DE NOVA JÉRSIA E NOVA IORQUE














Momento em que o Presidente do Sport Club Português de Newark, Nuno Ferreira, entregava o livro de autoria do escritor Baldomiro Soares, ao Senhor Dom Duarte na festa que, como Presidente da Associação Real de New Jersey tive o prazer de organizar




Foi uma honra enorme recebermos o Senhor Dom Duarte e o Senhor Bispo de São Tomé e Príncipe no jantar Real organizado pelas Associações Reais de New Jersey e Nova York. E obrigada pelas sábias mensagens que nos deixou!


Fonte: Gloria Melo



Sua Alteza Real com Patrícia Da Palma Lourenço








 



quinta-feira, 7 de maio de 2015

SAR, O Senhor D. Duarte de Bragança esteve em Newark



O Duque de Bragança D. Duarte Pio jantou com a Real Associação de New Jersey e Nova Iorque, no Sport Club Português na passada quarta-feira. Várias dezenas de pessoas, na sua maioria apoiantes da causa monárquica, tiveram ocasião de trocar impressões com D. Duarte que, ao passar ocasionalmente por Newark, não quis deixar de se reunir com o grupo monárquico que, no decorrer dos anos o tem apoiado. “Conto sempre com estes amigos de New Jersey e Nova Iorque, desde que a Real Associação foi fundada,” referiu D. Duarte.



quarta-feira, 6 de maio de 2015

Semana i - Monárquicos. Nem só de brasões se fazem estas famílias

Tomás Caldeira Cabral

Hoje, as famílias monárquicas já não têm todas sobrenomes sonantes. E as que têm apelidos conhecidos já não são necessariamente abastadas.

Ricos e pobres, católicos e ateus, da esquerda à direita, há um pouco de tudo. A monarquia também se modernizou.
Ficou célebre a história do homem de negócios que, orgulhoso, ia mostrando às visitas os quadros onde figuravam os seus antepassados, entre duques, condes e viscondessas: “E aqui está o meu avô, marquês de…” E, antes de ter tempo de terminar, responde-lhe o outro: “Conheço muito bem. Sabe, por mais um lance, o avô não era seu, era meu.”
Hoje, o sobrenome continua a ter peso – um peso que pode até ter uma conotação negativa, dependendo da história que lhe está associada – e ainda existem círculos fechados, elitistas, mas também já se encontram muitas famílias monárquicas sem tradição, como os Pombo, os Teixeira ou os Silva. Da mesma forma que muitos nomes ligados à nobreza deixaram de se identificar com a monarquia.

Tomás Caldeira Cabral é monárquico. E reúne as duas coisas: nome e convicção política. “No meu caso é, além de uma escolha, consciente e militante, uma tradição que vem do meu pai e do meu avô, monárquicos militantes, mas para quem a liberdade de escolha e opinião foi sempre a linha dominante”, conta.

A prova está em que existem todas as opções políticas nesta família de quatro irmãos, três cunhados, sete sobrinhos, 12 tios direitos e respectivos consortes e 33 primos direitos. “Quase uma tribo, para os dias que correm”, brinca.
Entre os primos está Manuel Caldeira Cabral, um dos 12 economistas que António Costa convocou para preparar o documento “Uma Década para Portugal”, o relatório onde estão contidas as propostas orçamentais do Partido Socialista para os próximos anos.

Professor na Universidade do Minho, Manuel Caldeira Cabral é um socialista assumido e não tem qualquer convicção monárquica. Afinal, se alguma coisa não é hereditária, é o pensamento.

A tradição, claro, pode ajudar. O primo Tomás, consultor e formador na área dos vinhos, tem três filhos. “Procuro educá- -los com liberdade e respeito pelos valores essenciais e igualmente pelo amor ao nosso país, que é parte integrante da nossa própria identidade.” “Ser monárquico, hoje e em Portugal, é uma atitude ética e estética que tem o seu suporte na tradição acumulada desde tempos imemoriais, uma relação personalizada com a história e a materialização da pátria no seu melhor sentido de continuidade e genuinidade – conceitos plenamente representados pelo senhor D. Duarte Pio, duque de Bragança”, considera.

Mas como é, afinal, ser monárquico num tempo sem rei nem roque? Para Tomás Caldeira Cabral, é ter “consciência de que tem de se deixar um legado e criar uma alternativa”. E, na sua opinião, “o senhor D. Duarte dá o exemplo, ao estar disponível para apoiar, dentro das suas possibilidades, as causas que são imanentes ao país, independentes de políticas partidárias ou até de regimes, como o apoio às políticas do ambiente, património, imigrantes e emigrantes, a diáspora, a língua e a cultura portuguesa no mundo, a acção social e a sociedade civil nas suas múltiplas vertentes, desde as caixas de crédito aos bombeiros, passando pelo Refood ou as Misericórdias. E defendendo desinteressadamente causas justas e históricas, como Timor, Cabinda, Olivença e outras que, por estarem acima dos interesses do momento, precisam de uma voz livre, característica do rei”.

Isto não são contos de fadas. Tomás acredita e pratica cada palavra. E por isso defende “um regime que dê espaço e representação real às pessoas, às suas comunidades e regiões, que promova os valores e que seja mais do que uma comissão de gestão, um projecto que dê sentido ao nosso futuro”.

Para Tomás Caldeira Cabral, todos estes objectivos podiam materializar-se numa república, “mas a verdade é que estes exemplos, não apenas na história passada mas na actualidade, aparecem-nos com muito maior frequência e credibilidade nas monarquias”, afirma.

Conciliar convicções e realidade é uma tarefa “difícil de encaixar nas correntes actuais”, concorda. “Nem os políticos sabem bem a que tribos pertencer, quanto mais um simples cidadão. A ter de ter rótulo, procuro seguir a doutrina social da Igreja e contribuir para uma sociedade que promova a justiça, a beleza e a verdade.”

Por isso quisemos saber: vota? “Voto. Menos para a Presidência da República, por motivos óbvios. Procuro mais pessoas do que partidos, em que me revejo cada vez menos. Apesar disso, tenho votado, essencialmente no centro-direita.”

Milhares de famílias mantêm o vínculo emocional e de militância com a causa monárquica, e D. Duarte de Bragança e a sua família são recebidos de norte a sul do país e nas múltiplas comunidades lusófonas, desde os EUA ao Brasil, passando por África ou Timor.

Actualmente, os movimentos monárquicos vão muito além do Partido Popular Monárquico, constituído a 23 de Maio de 1974. Alguns bem recentes, como a APAM – Associação dos Autarcas Monárquicos, presidida por Manuel Beninger e que, com menos de um ano, já conta com cerca de 400 presidentes e ex-presidentes de câmara pertencentes a todos os partidos políticos.

Porque, como diz Tomás Caldeira Cabral, “a monarquia é essencialmente orgânica. Se parasse no tempo, deixava de nos pertencer e passava a ser apenas história. Mudou e adaptou-se”.
Fonte: Jornal I

terça-feira, 5 de maio de 2015