sexta-feira, 10 de maio de 2024

Dom Dinis, O Rei Poeta e Trovador

O Rei Dom Dinis de Portugal foi renomado poeta e patrono de trovadores e jograis, e por isso, também, foi apelidado de 'O Rei Poeta' ou 'O Rei Trovador' pelas cantigas que compôs e que o distinguiram como um dos mais famosos trovadores da lírica medieval galego-portuguesa.
Depois dos primeiros Reis da Dinastia Afonsina, com preocupações marcadamente geopolíticas de formação e manutenção do território, chega-se ao Reinado de Dom Dinis, que transforma Portugal num dos mais famosos focos da poesia europeia da Idade Média, e que ficou conhecido como o Período Trovadoresco ou Galego-Português. Neste período eram sobretudo o “Amor” e a “Amizade” os temas sobre o que os poetas escreviam e que os trovadores cantavam, mas não exclusivamente, debruçando-se ainda em temas políticos sobretudo feitos guerreiros e até mesmo assuntos satíricos.
Mas dominam sobretudo dois estilos de lirismo: as Cantigas d’Amor – de influência Provençal – e as Cantigas d’Amigo, completamente nativo português.
As primeiras, recatada e requintadamente platónicas, focam-se no enaltecimento das qualidades da mulher amada ou na expressão da saudade do ente amado.
D. Dinis, Trovador e Poeta, era um amante das artes e letras e compôs 137 poemas/cantigas distribuídas por diferentes gêneros: 73 Cantigas de Amor, 51 Cantigas de Amigo e 10 Cantigas de Escárnio e Maldizer. Assim a sua paixão pela poesia e seu apoio aos trovadores e jograis renderam-lhe o epíteto de 'O Trovador'. Foi, também, o primeiro monarca português verdadeiramente alfabetizado, pelo que foi o primeiro rei português a assinar os seus documentos com o nome completo.
Na sublimação da figura feminina participou el-Rei Dom Dinis com a sua mestria e indiscutível talento poéticos:
«Quer’ eu en maneira de poençal
Fazer agora un cantar d’amor
E querrei muit’ i loar mnha senhor’a,
A que prez nem fremusura non fal,
Nem bondade, e mais vos direi en:
Tanto a fez Deus comprida de bem
Que mais que todas las do mundo val.»
'O que vos Nunca Cuidei a Dizer' é uma cantiga de amor do rei D. Dinis, onde o eu lírico expressa seus sentimentos de amor e sofrimento, revelando que nunca havia falado sobre o quanto o amor do destinatário o afligia numa linguagem directa e emocional, revelando a intensidade dos sentimentos do trovador, onde todos os ímpares da cantiga são setessílabos graves, enquanto os pares são octossílabos agudos.
«O que vos nunca cuidei a dizer,
com gram coita, senhor, vo-lo direi,
porque me vejo já por vós morrer;
ca sabedes que nunca vos falei
de como me matava voss'amor;
ca sabe Deus bem que doutra senhor,
que eu nom havia, mi vos chamei.
E tod [o] aquesto mi fez fazer
o mui gram medo que eu de vós hei,
e des i por vos dar a entender
que por outra morria — de que hei,
bem sabedes, mui pequeno pavor;
e des oi mais, fremosa mha senhor,
se me matardes, bem vo-lo busquei.
E creede que averei prazer
de me matardes, pois eu certo sei
que esso pouco que ei de viver,
que nenhum prazer nunca veerei;
e porque sõo d' esto sabedor,
se mi quiserdes dar morte, senhor,
por gram mercee vo-lo [eu] terrei.»
Outra Cantiga de Amor muito conhecida é:
«A mia senhor, que eu por mal de mi
vi e por mal daquestes olhos meus,
e por que muitas vezes maldezi
mi e o mund'e muitas vezes Deus,
des que a nom vi, nom er vi pesar
d' al, ca nunca me d'al pudi nembrar.
A que mi faz querer mal mi medês
e quantos amigos soía haver
e de [s]asperar de Deus, que mi pês,
pero mi tod'este mal faz sofrer,
des que a nom vi, nom ar vi pesar
d'al, ca nunca me d'al pudi nembrar.
A por que mi quer este coraçom
sair de seu logar, e por que já
moir'e perdi o sem e a razom,
pero m'este mal fez e mais fará,
des que a nom vi, nom ar vi pesar
d'al, ca nunca me d'al pudi nembrar.»
Mas mais conhecidos e enaltecidos são os seus poemas no estilo de Cantigas d’ Amigo, e a mais célebre Cantiga d’ Amigo D’el-Rei Dom Dinis – escrito sobre a perspectiva de uma personagem feminina, como era comum à mestria da época - foi certamente o célebre: AI FLORES, AI FLORES DO VERDE PINO.
«Ai flores, ai flores do verde pino,
se sabedes novas do meu amigo!
Ai Deus, e u é?
Ai flores, ai flores do verde ramo,
se sabedes novas do meu amado!
Ai Deus, e u é?
Se sabedes novas do meu amigo,
aquel que mentiu do que pôs comigo!
Ai Deus, e u é?
Se sabedes novas do meu amado,
aquel que mentiu do qui mi á jurado!
Ai Deus, e u é?»
Neste poema, o eu lírico expressa a saudade e a busca por notícias do amigo e do amado. As flores do verde pino e do verde ramo simbolizam a natureza e a esperança, enquanto o apelo a Deus reflecte a angústia e a incerteza do eu lírico. A repetição das perguntas cria um ritmo melancólico e nostálgico, característico da poesia trovadoresca.
Já as 'Cantigas de Escárnio e Maldizer' eram veículos para críticas sociais e políticas. Enquanto as cantigas de escárnio apresentavam críticas subtis, as cantigas de maldizer eram vulgares, com o uso de palavrões e explícitas. Elas frequentemente serviam como armas de combate entre diferentes grupos e interesses sociais e políticos.
Uma das suas cantigas de escárnio e maldizer é intitulada “De Joam Bol’and’eu maravilhado”. Nela, D. Dinis expressa a sua surpresa diante das acções de João, criticando-o de maneira humorística:
«De Joam Bol'and'eu maravilhado
(u foi sem siso, d'home tam pastor)
e led' e ligeiro cavalgador,
que tragia rocim bel'e loução,
e disse-m'ora aqui um seu vilão
que o havia por mua cambiado.
E deste câmbio foi el enganado,
d'ir dar rocim [a]feit' e corredor
por ũa muacha revelador
10 que nom sei hoj'home que a tirasse
fora da vila, pero o provasse
- se x'el nom for, nom será tam ousado.
Mais nom foi esto senom seu pecado
que el mereceu a Nostro Senhor:
ir seu rocim, de que el gram sabor
havia, dar por mua mal manhada,
que nom queria, pero mi a doada
dessem, nem andar dela embargado.
Melhor fora dar o rocim dõado
ca por tal muacha remusgador,
que lh'home nom guardará se nom for
el, que x'a vai já quanto conhocendo;
mais se el fica, per quant'eu entendo,
sem cajom dela, est aventurado.
Mui mais queria, besta nom havendo,
ant' ir de pé, ca del'encavalgado.»
As Cantigas de Amor e de Amigo do rei D. Dinis são pois uma colecção de poesias líricas medievais que expressam os sentimentos e experiências das mulheres da época. Essas cantigas são caracterizadas por sua simplicidade, melodia e temas amorosos, tesouros da literatura medieval e que nos permitem vislumbrar as emoções e experiências das mulheres da época.

Miguel Villas-Boas

quarta-feira, 8 de maio de 2024

Peregrinação de Pentecostes 2024

Inscrições: http://bit.ly/3JyFEu2

• Esta peregrinação é um dos capítulos Anjos da Guarda da peregrinação Paris-Chartres, à qual está unida em oração e organização
• Missa Solene com canto gregoriano
Aberta a todas as idades e condições físicas (cerca de 55 kms)
• Possibilidade de entrar no dia 17 (Sexta-Feira) à noite se não puder começar de manhã
• Custo: 65€ para adultos e 40€ para menores de 16 anos (quem não puder pagar fale com os organizadores)
• Vagas limitadas


sábado, 4 de maio de 2024

O roubo dos arquivos da PIDE e o seu envio para a URSS

Um dos episódios mais estranhos nas operações europeias do KGB, durante o meu mandato, ocorreu em meados da década de 1970, em Portugal, não muito depois da queda da ditadura salazarista. O Partido Comunista Português era o terceiro maior na Europa (a seguir aos de Itália e de França), e, em meados da década de 1970, o socialismo e o comunismo gozavam de amplo apoio em Portugal. Na verdade, nós tínhamos agentes infiltrados no serviço português de inteligência, e, no caos que se seguiu à revolução socialista que derrubou o salazarismo, os nossos agentes deram um golpe ousado. Uma noite, com a ajuda de infiltrados e simpatizantes dentro do aparelho de segurança, portugueses ao serviço do KGB conduziram um camião até à sede da PIDE e roubaram uma montanha de dados de informação confidencial, incluindo as listas de agentes da polícia secreta que trabalhavam para o regime salazarista. O camião, cheio de documentos, foi entregue na nossa embaixada em Lisboa e depois enviado de avião para Moscovo, onde os analistas passaram meses debruçados sobre os papéis. Portugal era membro da NATO e havia algum material de interesse limitado sobre as operações militares americanas na Europa. Mas o material realmente valioso foi a lista dos milhares de agentes e informadores que trabalharam para a ditadura salazarista. Mais tarde, os nossos oficiais usaram essas informações para coagir alguns desses agentes a trabalhar para o KGB. Na história dos golpes de espionagem da Guerra Fria, a operação portuguesa não foi uma conquista notável. Mas a audácia de fugir com um camião carregado de material directamente da sede da PIDE, não tinha exemplo. No início da década de 1990, viajei para Portugal, onde as autoridades portuguesas me trataram da forma mais cordial, levando-me a todo o país, entretendo-me abundantemente, incentivando-me a falar com diferentes grupos de pessoas. Fui entrevistado pelos principais meios de comunicação nacionais e não poupei nas palavras sobre o papel do Partido Comunista Português no apoio generoso às operações de espionagem soviética. Fui imediatamente denunciado por Álvaro Cunhal, líder do Partido, como mentiroso e traidor. Falando no dia seguinte em rede nacional, não respondi às acusações de Cunhal. Repeti o que já tinha dito várias vezes: "O Partido Comunista Português é o nosso melhor e mais leal aliado na Europa, e como cidadão e membro do Partido Comunista da ex-URSS, só lhes posso estar grato."

Oleg Kalugin in «Spymaster», 1994


Fonte: Veritatis

sexta-feira, 3 de maio de 2024

XXXIV Aniversário da Real Associação de Lisboa


No próximo dia 18 de Maio, a Real Associação de Lisboa irá celebrar o seu XXXIV Aniversário com o tradicional passeio convívio, que desta vez decorrerá em Atouguia da Baleia, tendo como ponto alto um almoço com as forças vivas locais.
Seremos honrados com a presença de SS.AA.RR. os Duques de Bragança que, a convite da edilidade, assinarão o livro de honra na Junta de Freguesia.
O programa destas celebrações foi uma sugestão do Núcleo do Oeste da Real Associação de Lisboa e este ano organiza-se em parceria com a Real Associação do Ribatejo que tem a jurisdição desse concelho.

PROGRAMA:

10:00 - Partida de Lisboa, em autocarro, da Avenida Almirante Gago Coutinho (ao Areeiro), junto ao Parque de Estacionamento;
11:15 – Recepção no largo central de Atouguia da Baleia
11:30 - Visita à Igreja de Nossa Senhora da Conceição
12:00 - Visita à Igreja de S. Leonardo
12:30 - Assinatura SS AA RR do livro de Honra da Junta de Freguesia
13:00 - Deposição de um ramo de flores na estátua da Rainha Santa Isabel
13:30 - Almoço na Associação Casais Brancos
16:00 - Retorno a Lisboa

Preço por pessoa (transporte, entradas nos monumentos e almoço) – 35,00€
Preço por pessoa (para jovens até aos 25 anos) – 30,00 €

Para mais esclarecimentos e inscrições, contacte-nos através do endereço secretariado@reallisboa.pt, pelo telefone 213 428 115 ou presencialmente na nossa sede de 2ª a 6ª feira entre as 11:00hs e as 14:00hs.


quinta-feira, 2 de maio de 2024

El-Rei D. João II - O Criador dos Serviços Secretos

D. João II de Portugal nasceu, no Paço das Alcáçovas, no Castelo de São Jorge, em Lisboa, a 3 de Maio de 1455 e era o filho mais novo do Rei D. Afonso V de Portugal e da Rainha D. Isabel de Coimbra. O Príncipe Perfeito acompanhou o seu pai nas campanhas em África e foi armado cavaleiro na tomada de Arzila.

No início desse ano de 1471, a 22 de Janeiro, em Setúbal, desposou D. Leonor de Viseu, Infanta de Portugal, a princesa mais rica da Europa e sua prima direita, porque filha do Infante D. Fernando.

D. João II, conhecido como 'o Príncipe Perfeito', foi um dos monarcas mais importantes da história de Portugal, e, reinou entre 1455 e 1495. Durante o seu reinado, houve um grande impulso na expansão marítima ao longo da costa africana. Ele também preparou missões de exploração, incluindo a famosa viagem de Vasco da Gama à Índia.

Enquanto D. Afonso V se dedicava a combater os almorávidas e os castelhanos, Sua Alteza o Príncipe Herdeiro dirigia a expansão marítima portuguesa principiada pelos seus tios-avôs os Infantes D. Henrique e D. Pedro.

Em 1474, ainda não tinha vinte anos, assumiu a direcção da política da expansão atlântica, enquanto D. Afonso V travava luta com os castelhanos e, a 25 de Abril do ano seguinte, assumiu a regência do reino que, por ir socorrer o pai a Espanha, passara para o encargo de Leonor. Participou, a 2 de Março, na batalha de Toro.

Deve-se à si a criação do Mare Clausum. É na linha dessa instituição que assina o tratado de Toledo de 1480, em que D. João II aceita partilhar as terras do Atlântico pelo paralelo das Canárias, afasta a concorrência da Espanha em África e protege a mais tarde chamada rota do Cabo.

O 13° Rei de Portugal, foi Rei em dois períodos diferentes, primeiro durante quatro dias em Novembro de 1477 após a abdicação do pai, mas tendo-se este último arrependido regressou ao trono e logo D. João lhe devolveu o poder, e só se tornou de novo Rei após a morte do pai, em 1481.

Foi El-Rei Dom João II o pioneiro dos serviços secretos mundiais, pois foi ao Serviço de Sua Majestade Portuguesa que surgiu a primeira rede de espiões profissionais como instrumento à disposição da Coroa: os Lançados.

Estes agentes, os Lançados, eram desembarcados na costa oriental de África e depois seguiam para o interior recolhendo informação que facilitasse a expansão portuguesa no continente que se começava a explorar, e sobretudo sobre o então lendário Reino de Preste João. Eram homens de uma enorme coragem lançados no desconhecido e que por isso lhes deram o nome indígena de Tangomaos, sendo que tangomao significa: ‘aquele que morre ausente ou desterrado da pátria’. Um deles foi Afonso de Paiva que empreendeu uma jornada que hoje se poderá considerar épica, e que se destinou a preparar a viagem do navegador Vasco da Gama à Índia. Porém, o mais famoso destes lançados foi, certamente, Pêro da Covilhã, senhor de um carisma de fazer sombra a um certo espião nada secreto ao serviço de outra Majestade, e que corresponde à visão heróica contemporânea de um agente secreto: mestre na arte de manejar armas – neste caso a espada e o arco e flecha - e senhor de recursos atléticos e intelectuais notáveis – dominava diversas línguas e dialectos – o temerário nascido na Serra da Estrela, confirmou no terreno e por actos a proverbial coragem dos beirões dos Montes Hermínios. Por ordem directa d’El-Rei Dom João II deslocou-se à Abissínia e à Índia sondando pela localização do reino de Preste João. No Cairo foi o primeiro europeu a contrair a Febre do Nilo, que quase lhe tirava a vida, mas que venceu para logo atravessar o deserto do Sinai e passando por Medina e Meca, desembocar na Etiópia. Daí embarcou numa nau que o levou a Calecut, Goa e ao Golfo de Ormuz, sempre recolhendo informações sobre a navegação até à Índia e sobre a possibilidade da circundação de África, por mar, para chegar à Índia, a famosa viagem que viria a ser empreendida com sucesso por Vasco da Gama e que terminaria em 1498, e, que sem dúvida, não seria possível sem a ‘intel’ recolhida por Pêro da Covilhã e que compilaria no relatório que enviou ao Rei de Portugal sob o título de ‘Verdadeira Informação das Terras de Preste João das Índias’. O espião-aventureiro haveria de falecer na Etiópia, reino onde uma vez que se entrasse já não se podia sair, mas mantendo-se sempre ao serviço de Sua Majestade o Rei de Portugal.

Mas a afirmação de que Dom João II criou um verdadeiro serviço secreto de informações na percepção que hoje se tem desses serviços, deve-se não só a esses labores dos espiões, ainda não românticos, mas com forte sentido de honra, mas também à criação de uma rede que tinha não só a incumbência de recolher ‘intelligencia’, mas, também, a missão da produção de contra-informação e a prevenção de actos que pela sua natureza pudessem perigar os intentos descobridores da Coroa Portuguesa, atentar contra a vida do Monarca e por em risco a soberania nacional.

Assim, Dom João II ganhou o cognome de Príncipe Perfeito, pois em tudo o que fazia ou deliberava punha um cunho de perfeição, e para o sucesso das suas decisões em termos de política externa e geoestratégia contava sem dúvida as decisões que tomava em função da informação privilegiada que os seus serviços secretos recolhiam e que o tornavam no mais esclarecido dos monarcas europeus da época.

Prova do seu indelével talento governativo, e expoente máximo da sua política, é o Tratado de Tordesilhas, assinado, em 1494, pelo Rei de Portugal e pelos Reis Católicos, D. Isabel de Rainha de Castela e Leão e D. Fernando II, Rei de Aragão e das Coroas Aragonesas, e como Fernando V, Rei de Castela e Leão, entre 1475 e 1504, em direito de sua esposa (ius uxoris) a Rainha Isabel I , e que pela união matrimonial e das Coroas reinavam sobre a Coroa de Castela.

É muitas vezes apontada a tese de que a Descoberta do Brasil, apesar de ter ocorrido oficialmente em 1500, por Pedro Álvares Cabral ao serviço d’El-Rei Dom Manuel I de Portugal, já havia sido achado nas misteriosas viagens do capitão Duarte Pacheco Pereira para oeste de Cabo Verde e que um lançado de nome João Fernandes ‘Lavrador’ terá mesmo feito uma pequeníssima exploração do território. Então, sabendo disso, Dom João II nas negociações do Tratado de Tordesilhas tudo fez para que o acordo fosse gizado daquela forma, incluindo a ainda por descobrir Terra de Vera Cruz.

Dom João II, logo que ascendeu ao trono, tomou uma série de medidas com vista a retirar poder à aristocracia e a concentrá-lo em si próprio e já em 1482, D. João II centralizou na coroa a exploração e comércio na costa da Mina e Golfo da Guiné.

Imediatamente, começaram as conspirações. Os seus agentes secretos, também, foram utilizados nos jogos de poder internos, mantendo a nobreza debaixo de olho, e foi deste modo que foi descoberta a conspiração de D. Fernando II, Duque de Bragança que trocou com os Reis Católicos de Espanha diversa correspondência. Essas cartas de reclamação e pedidos de intervenção foram descobertos pelos agentes ao serviço de Dom João II e tiveram papel fundamental na prova produzida no julgamento do Duque que seria condenado e executado por traição. Um ano mais tarde outra conspiração chegou aos ouvidos do monarca: desta feita o primo e cunhado de D. João II, D. Diogo, Duque de Viseu (irmão da rainha D. Leonor), concebeu um plano para apunhalar o soberano na praia, em Setúbal – o próprio Rei degolou o maquinador. Mais 80 membros da nobreza e mesmo do clero haveriam de conhecer igual destino, até que acabaram as tramas na Corte, pois depois destes acontecimentos, mais ninguém em Portugal ousou desafiar ou conspirar contra o rei, que não hesitava em fazer justiça pelas suas próprias mãos. D. João II podia agora governar o país sem que ninguém se lhe ousasse, como Monarca Absoluto.

Ainda, neste âmbito, do secretismo, o Rei Dom João II estabeleceu, ainda, o Segredo de Estado: a salvaguarda dos segredos e da tecnologia marítima de que Portugal foi pioneiro, com vista à supremacia da sua política de expansão marítima, proibindo a divulgação dos planos de construção e a venda de caravelas portuguesas. Criou o conceito de material classificado, organizando e limitando o acesso a esses segredos, que eram agora da Coroa e do Estado. Assim, passou a haver níveis de informação com diferentes graus de acesso que estava limitado a pessoas autorizadas para o fazer consoante a sua grandeza na cadeia de comando, peso estratégico e posição no Estado. Desta forma mapas, cartas de marear, livros de astronomia, roteiros de viagem, instrumentos de navegação ficavam apenas ao alcance de quem tivesse autorização régia para os usar, pois eram ‘classified & top secret’. Dom João II, proibiu ainda pilotos, mestres e marinheiros de servir nações e entidades estrangeiras adversárias. Para quem violasse estas regras instituídas pela Coroa, severas penas estavam reservadas, pois constituiriam acto de traição – tal como nos nossos dias.

A plenitude das descobertas portuguesas do reinado de Dom João II permanece desconhecida. Muita informação foi conservada em segredo de Estado por razões políticas e estratégicas e os arquivos do período foram destruídos no Terramoto de 1755. Ainda há teses de que Cristóvão Colombo não foi o primeiro a chegar à América. Para suportar esta hipótese são citados com frequência os cálculos mais precisos que os portugueses tinham do diâmetro da Terra. No fim do século XV, existia em Portugal uma escola de navegação, cartografia e matemática há mais de oitenta anos, onde os cientistas e sábios mais inteligentes e engenhosos se dedicavam à pesquisa e criação. Enquanto Colombo acreditava poder chegar à Índia seguindo para oeste, é provável que o Rei D. João II já soubesse da existência de um continente no meio.

Miguel Villas-Boas

quarta-feira, 1 de maio de 2024

Santarém Medieval de 9 a 12 de Maio

 


Tema "O Medo na Idade Média "
Recriação Histórica
Animação e Animação infantil
Torneios a cavalo
Exposição "A Tortura" - instrumentos de tortura usados na Idade Média

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