domingo, 10 de setembro de 2017

SERTÃ – Partilhe este apelo e, se puder, ajude. Bombeiros necessitam de água, alimentação e pomada para queimaduras



A Sertã está a ser fustigado com um incêndio muito violento. Há mais de 24 horas centenas de bombeiros estão a combater as chamas pelo que, nesta altura, são já visíveis sinais evidentes de fadiga, uma situação que só é debelada, de alguma forma, com um mínimo reforço alimentar e de hidratação. Por isso, está a circular um apelo de auxílio aos operacionais que se encontram no terreno, nomeadamente para a entrega de água, sumos com adição de açúcar, bolos, bolachas, frutas, pomadas para queimaduras e feridas (ex. Biafine, Bepanthene (Plus), etc.
O apelo foi feito pelos bombeiros voluntários da Sertã através da Rádio Condestável.
No local estão 816 operacionais, apoiados por 262 veículos e 3 meios aéreos.

Fonte: Rádio Hertz

sábado, 9 de setembro de 2017

Vós sois o sal da Terra



Vós, diz Cristo, Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da Terra; e chama-lhe sal da Terra, porque quer que façam na Terra o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção; mas quando a Terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a Terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina, ou porque a Terra se não deixa salgar, e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão, a não querem receber. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores dizem uma coisa e fazem outra, ou porque a Terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que eles dizem; ou é porque o sal não salga, e os pregadores se pregam a si e não a Cristo, ou porque a Terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites. Não é tudo isto verdade? Ainda mal.

Suposto pois que, ou o sal não salgue, ou a terra se não deixe salgar, que se há-de fazer a este sal e que se há-de fazer a esta terra? O que se há-de fazer ao sal que não salga, Cristo o disse logo: "E se o sal perder a sua força, com que outra coisa se há-de salgar? Para nenhuma coisa mais fica servindo senão para se lançar fora e ser pisado pelos homens" (Mateus V, 13). Se o sal perder a substância e a virtude, e o pregador faltar à doutrina e ao exemplo, o que se lhe há-de fazer é lançá-lo fora como inútil para que seja pisado de todos. Quem se atrevera a dizer tal coisa, se o mesmo Cristo a não pronunciara? Assim como não há quem seja mais digno de reverência e de ser posto sobre a cabeça que o pregador que ensina e faz o que deve, assim é merecedor de todo o desprezo e de ser metido debaixo dos pés o que com a palavra ou com a vida prega o contrário.


Pe. António Vieira in «Sermão de Santo António aos peixes», 1654.


Fonte: Veritatis

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Visita de Cortesia dos Duques de Bragança ao Concelho de Vila Franca do Campo

Foto de Câmara Municipal de Vila Franca do Campo.


O Senhor D. Duarte e sua mulher Senhora D. Isabel de Bragança, Duques de Bragança, foram recebidos pelo Sr. Presidente da Câmara, Dr. Ricardo Rodrigues, em visita de cortesia ao Concelho.

Na circunstância e nos Paços do Concelho o Senhor D. Duarte assinou o livro de honra e o Presidente da Câmara ofereceu uma bandeira do Espírito Santo, bordada pelas artesãs da Cooperativa Sra. da Paz desta Vila, bem como o livro "Vulcão Perfeito".

O casal teve ainda oportunidade de assistir à Missa solene na Matriz de Vila Franca do Campo, por ocasião das festas do Senhor Bom Jesus da Pedra.

Foto de Câmara Municipal de Vila Franca do Campo.

Foto de Câmara Municipal de Vila Franca do Campo.

Foto de Câmara Municipal de Vila Franca do Campo.

Foto de Câmara Municipal de Vila Franca do Campo.

Foto de Câmara Municipal de Vila Franca do Campo.

Foto de Câmara Municipal de Vila Franca do Campo.

Foto de Câmara Municipal de Vila Franca do Campo.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Dom João V: a propaganda e a verdade



As paixões que suscitam e animam as revoluções, e que por estas são renovadas e fortalecidas, degeneram invariavelmente no ódio sem trégua ao regime a que vieram pôr fim, aos seus representantes e aos seus símbolos. O ódio do passado ainda há pouco terminado, conjugado com a necessidade de legitimar as novas circunstâncias alcançadas, motivam, e aparentemente justificam, a propaganda que desenha com as linhas mais disformes o inimigo caído, que pinta com os mais vivos contrastes a miséria do sistema destruído e o brilho da revolução, que sublinha a virtude dos inovadores atribuindo todo o género de obras escabrosas e inclinações grotescas aos vencidos. Como da calúnia, especialmente se exercida com militância, algo sempre fica, a historiografia absorve frequentemente a propaganda concebida com intuitos políticos, compondo uma versão canónica dos factos muito distante da verdade histórica. A França revolucionária empenhou-se em perpetuar uma memória obscura da França do Antigo Regime; e Luís XVI e Maria Antonieta foram coimados com infâmias bem merecedoras da guilhotina, se realmente lhes coubesse a sua culpa.

Os ventos de revolução que sopraram em Portugal em Vinte e em Trinta também foram pródigos em libelos acusatórios ao absolutismo e, com especial sanha, alvejaram D. João V. O rei frívolo, de piedade hipócrita, visitador de celibatárias nas suas celas, que delapidou o tesouro público, e a montanha de ouro escavada no Brasil, em fausto – é o retrato triunfante encomendado pela propaganda revolucionária. Uma vez mais, a propaganda substitui-se à história. Aquele retrato não poderia ser mais diferente do modelo. O estudo dos originais contemporâneos – primeiro labor do historiador – giza uma semelhança mais perfeita do homem e do rei.

Possuía uma energia infatigável, presidindo ininterruptamente, por muitas horas, a conselhos de estado. Numerosos são os relatos corroborando as renúncias do rei em prol do interesse nacional. Os testemunhos são unânimes em atestar a sua inteligência e sensatez. Muito culto, conhecia profundamente os idiomas Latino, Italiano, Francês e Espanhol. A sua política externa foi prudente, mas assertiva; preferiu manter a equidistância face às controvérsias europeias, salvando a paz no reino, adquirindo o prestígio que o alcandoraria a mediador entre beligerante europeus; mostrou muita energia, porém, sempre que foi necessário afirmar os direitos de Portugal. Foi uma época de brilho inigualável da nossa diplomacia. Os governos a quem Portugal exigia satisfações apressavam-se a dá-las; os Estados que se viam privados das relações diplomáticas com o reino afadigavam-se em buscar a reconciliação.

A fama de perdulário acompanha até este dia a memória de Dom João V. Mas não terá sido bem empregado o dinheiro com que se fez erguer o Aqueduto das Águas Livres? «Se Lisboa é grande, se é populosa – escreve Frei Cláudio da Conceição - «só a esta obra se deveu. Sem esta providência, Lisboa jamais passaria dos limites do bairro de Alfama…». O Convento de Mafra valeu a Portugal a admiração dos estrangeiros e é símbolo adequado da importância que o reino assumia nos assuntos da Europa ao tempo e do sentido de orgulho nacional de que o rei sempre foi garante. A Academia Real de História, à qual o Magnânimo devotou contínuo interesse, é uma das obras que realizou favorecendo as letras e as ciências. As bibliotecas de Mafra e de Coimbra são outras duas, que permanecem; e os diversos incentivos que fez a muitos estudos confirmam o cuidado do rei para com o ofício do saber.

A sorte das armas sorriu a Portugal no reinado de D. João V. Em 1716, atendeu à súplica do Papa Clemente XI e pôs a marinha portuguesa, que se ocupara em reorganizar e engrandecer, ao serviço da Cristandade, subjugando os corsários turcos na batalha de Matapão. Na Índia, sucumbem à força portuguesa sobre as ondas os reis de Canará e de Sunda. Lopo de Almeida arrasa, em 1717, a cidade de Porpatan e o Régulo de Cudale é derrotado por João de Saldanha, sendo conquistada Bicholim. O marquês de Castelo-Novo triunfa sobre Bonfulóes e recupera territórios do Estado de Goa que se julgariam irremediavelmente perdidos. Também na África foi este reinado venturoso na guerra. Em Angola, o príncipe de Conda rende-se a D. João Manuel de Noronha; Rafael Álvares da Silva vence em Moçambique o Princípe Changamira.

O reinado do Magnânimo corresponde a uma era verdadeiramente doirada do poder e do conceito de Portugal no estrangeiro. Nos assuntos internos, registou-se notável incremento da cultura, de que são vestígios as magníficas obras públicas; e o rei mereceu do povo o cognome que ilustra e preserva a memória da sua benignidade para com os pobres, que sempre beneficiaram da sua generosidade em todas as ocasiões de escassez e calamidade, e para com os artistas e intelectuais do reino, que no monarca encontraram um excepcional patrono e mecenas. A figura de D. João V procura ainda redenção junto dos nossos, para o que este texto pretende ser um modesto contributo. E outras muitas erratas teriam que ser apostas à história de Portugal como parte do esforço de reconstrução identidade nacional.

Hugo Dantas

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

proTEJO APELA À PARTICIPAÇÃO NA 3ª MANIFESTAÇÃO CONTRA A POLUIÇÃO DO RIO TEJO E SEUS AFLUENTES


3ª MANIFESTAÇÃO CONTRA A POLUIÇÃO DO RIO TEJO E SEUS AFLUENTES
14 de Outubro de 2017

Em Lisboa à beira Tejo
Do Cais do Sodré até ao Terreiro do Paço

O rio Tejo e seus afluentes têm vindo a sofrer uma contínua e crescente vaga de poluição que mata os peixes e envenena o ambiente e as pessoas.

As águas que afluem de Espanha vêm já com um elevado grau de contaminação com origem nos fertilizantes utilizados na agricultura intensiva, na eutrofização gerada pela sua estagnação nas barragens da Estremadura, na descarga de águas residuais urbanas das vilas e cidades espanholas sem o adequado tratamento e na contaminação radiológica com origem na Central Nuclear de Almaraz.

A gravidade desta poluição das águas do rio Tejo acentua-se devido aos caudais cada vez mais reduzidos que afluem de Espanha, diminuindo a capacidade de depuração natural do rio Tejo.

A poluição, em território nacional, provém da agricultura, indústria, suinicultura, águas residuais urbanas e outras descargas de efluentes não tratados, com total desrespeito pelas leis em vigor, e sem a competente ação de vigilância e controlo pelas autoridades responsáveis, valendo a ação de denúncia das organizações ecologistas e dos cidadãos, por diversas formas, nomeadamente, através das redes sociais e da comunicação social.

Esta catastrófica situação do rio Tejo e seus afluentes tem graves implicações na qualidade das águas para as regas dos campos, para a pesca, para a saúde das pessoas e impede o aproveitamento do potencial da região ribeirinha para práticas de lazer, de turismo fluvial e desportos náuticos, respeitando a natureza e a saúde ambiental da bacia hidrográfica do Tejo.

Nunca o rio Tejo e seus afluentes registaram tão elevado grau de poluição, de abandono e falta de respeito, por parte de uma minoria que tudo destrói, perante a complacência das autoridades.

Não estão em causa, de modo nenhum, as atividades realizadas por empresas e outras organizações na bacia hidrográfica do Tejo, o que se saúda e deseja, porém tal deve ocorrer de acordo com as práticas adequadas à salvaguarda do bem comum que o rio Tejo e seus afluentes constituem para os seus ecossistemas aquáticos e para as populações ribeirinhas.

O protejo – Movimento pelo Tejo realizou, em 26 de setembro de 2015 e em 4 de março de 2017 duas manifestações contra a poluição no rio Tejo face ao significativo número de episódios de poluição que o rio Tejo vinha sofrendo, visíveis a olho nu e registados por diversos cidadãos que integram a rede de vigilância do rio Tejo deste movimento.

Em consequência dos protestos realizados constatou-se que o Ministério do Ambiente aumentou a sua ação no terreno através da intervenção da Inspeção-geral da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território (IGAMAOT) e em resultado disso registou-se de fato uma diminuição nas ocorrências de poluição ainda durante o ano de 2016.

Recentemente, o Ministério do Ambiente publicou o Relatório da Comissão de Acompanhamento Sobre Poluição no Rio Tejo e um Plano Anual de Ação Integrado de Fiscalização e Inspeção para a bacia do rio Tejo.

Após a manifestação de 4 de Março de 2017 constatou-se que a qualidade da água melhorou significativamente, mas desde junho passado a poluição visível no rio Tejo tem vindo novamente a aumentar constatando-se atualmente um aumento do número das ocorrências e um significativo nível de poluição cuja principal origem na zona de Vila Velha de Ródão foi reconhecida no referido Relatório da Comissão de Acompanhamento Sobre Poluição no Rio Tejo e que se documenta nos vídeos listados no final desta comunicação.

Apesar da ação meritória da definição de um Plano Anual de Ação Integrado de Fiscalização e Inspeção para a bacia do rio Tejo, o proTEJO considera que a ação das autoridades competentes tem fracassado quanto à contenção das práticas poluentes das empresas na bacia do Tejo, em especial na zona de Vila Velha de Ródão, entre as quais se evidencia a empresa Celtejo que tem uma licença de emissão de efluentes com cargas poluentes que consideramos além do aceitável para se prosseguir no objetivo de alcançar o bom estado ecológico das águas do Tejo, previsto no Plano de Gestão da Região Hidrográfica do Tejo, e que pressupomos que estará neste momento a contribuir para o significativo nível de poluição constatado quer na zona de Vila Velha de Ródão quer nos concelhos e povoações ribeirinhas situados a jusante no curso do Tejo até Lisboa.

Portanto, apelamos ao Senhor Ministro do Ambiente que intervenha no sentido de que sejam tomadas medidas para a contenção das descargas poluentes no rio Tejo, nomeadamente, para garantir que as emissões de efluentes da Celtejo para o rio Tejo estejam dentro de parâmetros que garantam o objetivo de alcançar o bom estado ecológico das suas massas de águas ao longo de todo o seu curso em território português, seja pela maior fiscalização, seja pela revisão ou suspensão das licenças de emissão de efluentes.

Assim, requeremos a atenção do Senhor Ministro do Ambiente para que os instrumentos de defesa do rio Tejo e seus afluentes que criou se traduzam em reais e rápidas melhorias do estado ecológico das águas da bacia do Tejo.

Assim, o proTEJO – Movimento pelo Tejo convida os cidadãos e as populações ribeirinhas a unirem-se e a participarem na 3ª MANIFESTAÇÃO CONTRA A POLUIÇÃO DO RIO TEJO E SEUS AFLUENTES, que se irá realizar dia 14 de Outubro de 2017 pelas 15 horas, em Lisboa à beira Tejo, com desfile desde a Praça Duque da Terceira no Caís do Sodré até ao Terreiro do Paço - Praça do Comércio.

O Tejo merece!

Fonte: proTEJO

terça-feira, 5 de setembro de 2017

SS. AA. RR., Os Senhores Duques de Bragança estiveram em São Miguel



Pela altura do fim de semana passado, D. Duarte Pio de Bragança e D. Isabel de Bragança viajaram até à ilha açoriana e tiveram uma recepção calorosa e agitada durante os dias que por cá permaneceram. Os herdeiros do reino de Portugal foram incorporados e agraciados num grande programa social.
Deste modo, foram convidados para uma recepção à Casa Cabral de Mello, na Salga em Nordeste, visitaram a Sinagoga de Ponta Delgada e o Santuário da Esperança. Um dos seus jantares decorreu no Veleiro Vespúcio, que esteve atracado na cidade micaelense.
No domingo foram recebidos pelo presidente da Câmara da Câmara Municipal de Vila Franca do Campo, numa visita de cortesia ao concelho. D. Duarte, nos Paços do Concelho, assinou o livro de honra e foi oferecida uma bandeira do Espírito Santo, bordada pelas artesãs da Cooperativa Sra. da Paz, bem como o livro “Vulcão Perfeito”. O casal teve ainda oportunidade de assistir à missa solene na Matriz de Vila Franca do Campo, por ocasião das festas do Senhor Bom Jesus da Pedra.
Mas os eventos e recepções não ficaram por aqui… Foram a mais um almoço, organizado pelo Dr. Paulo Gusmão na Casa de São Domingos e ainda outro pelo Conde de Albuquerque no Palácio José do Canto, onde também visitaram o seu jardim emblemático.
Várias personalidades açorianas aproveitaram esta oportunidade para conviver com os Duques de Bragança, oferecendo livros, entre outras lembranças, sempre com cunho regional.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Um reino de piratas portugueses no Oriente: Sundiva (1609-1616)

Foto de Nova Portugalidade.


A ilha de Sandwip (Sundiva em português) situa-se ao largo da costa leste do actual Bangladesh. Acode de quando em vez aos noticiários pelos desastres naturais que repetidamente a assolam - não há década em que ciclones e tornados ali não cobrem mortandades imensas, deixando-a devastada.

Contudo, pela sua localização privilegiada, quem a dominar pode exercer controlo sobre as rotas comerciais provenientes e destinadas às fozes do Bramaputra, do Ganges e do Meghna, rios que desaguam no Golfo de Bengala e são escoadouro das riquezas do norte da Índia, do planalto tibetano, do Nepal e da Birmânia. A sua posse assegurava a hegemonia comercial, pelo que quantos a possuíssem podiam reclamar pagamento de tributo aos ricos mercadores indianos, malaios e chineses envolvidos no comércio de longa distância ligando o Índico ao estreito de Malaca, Golfo do Sião e Mar da China Meridional. A ilha tem sido desde há milénios importante centro de pirataria e banditismo organizado, estando para a região como a Ilha de Tortuga foi durante os séculos XVII e XVIII para as Caraíbas, pelo que, ali, as potências que a dominaram ao longo da história procuraram manter fortes guarnições militares assistidas por meios navais.

Até 1609, Sundiva esteve sob a autoridade de Fateh Khan, representante local do Império Mogol que então dominava praticamente todo o subcontinente indiano. Fateh, afegão de nascimento, era um fervoroso sunita e fez inscrever no seu pavilhão de combate a divisa "Fateh Khan, pela graça de Alá senhor de Sundiva, derramador de sangue cristão e destruidor da nação portuguesa".

Não esperava tal dirigente tão cheio de si que o seu destino se cruzasse com o de um português obstinado e ambicioso, violento a extremos e sem grandes princípios chamado Sebastião Gonçalves Tibau (também grafado Tibao), o típico "português à solta" que então enxameava os mares e portos da Ásia. Supostamente nascido em S. António do Tojal, chegado à Índia como soldado numa das armadas, o jovem de dezanove anos de idade abandonou o seu posto, desertou e de pronto se dedicou ao comércio do sal, rumando a Sundiva para ali se abastecer do produto que então era muito reclamado pelo mercado indiano e do Arracão - região do extremo-ocidental da Birmânia, então um reino independente que há muito mantinha relações com os portugueses.

Familiarizado com as usanças da região, acercou-se do reinete de Bacala (Bakla, no Bangladesh), aliciando-o para um magno projecto de assalto e conquista de Sundiva a troco da partilha do saque. Tibau recrutou na região quatrocentos aventureiros portugueses e com o auxílio da flotilha de Bacala caiu sobre a frota de Fateh Khan, desembarcou na ilha e liquidou a totalidade da guarnição. Porém, na hora da vitória, não cumpriu o acordo com Bacala e reclamou para si a totalidade do espólio.

A notícia da tomada de Sundiva por aventureiros portugueses chegou a Goa. Sebastião dizia querer alargar a sua influência e tomar outras ilhas, mas envolveu-se numa intrincada embrulhada política e militar ao dar apoio a uma das facções em luta pelo trono de Arracão, precisamente aquela que se opunha ao Rei do Arracão que era aliado dos portugueses do Estado da Índia. O pretendente rebelde selou uma aliança com Tibau, oferecendo-lhe a irmã como mulher e estabeleceu-se em Sundiva. Ocorreu então uma misteriosa morte, a somar-se a tantas outras. O pretendente aliado de Tibau morreu envenenado. O facto de Tibau se ter apossado de toda a fortuna do seu aliado e cunhado pesa contra si na legítima pretensão de imaginar quem foi o autor da morte do príncipe arracanês. Seguidamente - ou antes, previsivelmente - Tibau fez as pazes com o Rei de Arracão e selaram uma aliança. O inimigo de véspera era agora um aliado.

Um aventureiro como Tibau não podia ser apoiado directamente por Portugal, mas as autoridades de Goa não o hostilizaram, posto que Tibau se mostrava um encarniçado inimigo dos holandeses e do comércio muçulmano sem cartaz (i.e. aquele sem autorização portuguesa). Entre 1609 e 1614, Sebastião exerceu um poder arbitrário, atraindo aventureiros, constituindo um exército que chegou a reunir mil portugueses, dois mil nativos, parque de artilharia, cavalaria e uma frota de oitenta embarcações. Passou a dedicar-se ao comércio de escravos, à pirataria, à captura e pedido de resgates, a raides e saque de cidades costeiras.

Deslumbrado pela eficácia do seu método, não se deu conta de que tanta habilidade e falta de palavra o estavam a empurrar para o isolamento. Em 1615, temendo que o Grão-Mogol se apossasse da costa do actual Bangladesh, Tibau propôs ao Rei do Arracão que ambas as forças - portuguesas de Sundiva e do Arracão - se apossassem da região da foz do Meghna. Contudo, no início da expedição, enquanto os exércitos de Arracão se internavam em território inimigo, Tibau, ao invés de os auxiliar como prometido, atacou a costa do Arracão, arrasando aldeias e fortes, acumulando grande espólio de templos e capturando centenas de arracaneses para, logo, os vender como escravos. Tamanha traição marcou a sua sorte.

Em 1616, o Rei de Arracão atacou Sundiva e tomou-a após dura refrega. Tibau conseguiu escapar e estabeleceu-se costa de Bengala onde, abandonado por todos. Em 1618, por intervenção do clero de Goa, Filipe II concedeu-lhe o hábito de Cristo, mas a honra não chegou ao seu destinatário. Tibau morrera um ano antes.

MCB

Fontes:
Benjamim Videira Pires, Taprobana e mais além: presenças de Portugal na Ásia. Macau: Instituto Cultural, 1995.
Maria Ana Marques Guedes, Interferência e integração dos portugueses na Birmânia: ca. 1580-1630. [Lisboa]: Fundação Oriente, 1994.
Saturnino Monteiro, Batalhas e combates da Marinha Portuguesa: 1604-1625, vol. V. Lisboa: Sá da Costa, 1994.


domingo, 3 de setembro de 2017

O medo e a coragem

Faz sentido, aqui e agora, temer os assassinos que, em nome da sua religião, semeiam o terror por toda a Europa e não só.

Muito se tem falado recentemente do medo e da coragem. Barcelona, numa massiva reacção ao atentado em que morreram mais de uma dúzia de pessoas, entre as quais duas portuguesas, fez gala em dizer ao mundo que não tem medo. Entre nós, um membro do governo assumiu publicamente a sua homossexualidade e, como costuma acontecer nestes casos, logo surgiram vozes a enaltecer a sua coragem.
Eu tenho medo, graças a Deus. Não de que o céu me caia em cima da cabeça, como os irredutíveis gauleses, mas de ser morto ou ferido num atentado terrorista ou, pior ainda, que isso aconteça a pessoas da minha família, ou minhas amigas. Tenho medo pelas pessoas do meu país e de todos os países, pelos pobres e necessitados e pelos ricos e abastados, pelas crianças, pelos jovens, pelos adultos e pelos idosos.
Tenho medo do terrorismo islâmico, o único que verdadeiramente ameaça agora a Europa, por mais que os ingénuos do costume nos queiram prevenir contra o perigo da islamofobia. Talvez, no princípio do século passado, se devesse ter medo da carbonária; ou, nos anos 70 e 80, dos revolucionários do Baader Meinhof, dos guerrilheiros do IRA, dos separatistas da ETA, dos bombistas das FP-25 e dos comunistas das Brigadas Vermelhas. Na actualidade, nenhum desses grupos terroristas representa uma ameaça real para o nosso país, ou para o mundo. Mas faz sentido, aqui e agora, temer os assassinos que, em nome da sua religião, semeiam o terror por toda a Europa e não só. Se são, ou não, islâmicos, é problema deles e das respectivas autoridades religiosas, não meu.
O medo é como a dor: um sinal vital de um perigo real. As piores doenças não são as que causam um grande sofrimento, mas as que não se sentem, porque ninguém se tratará de uma doença que não sabe que tem. O medo é a reacção natural ante um perigo iminente: só os inconscientes o não têm. É bom ter medo. Ser valente não é sinónimo de não ter medo, mas saber reagir ao perigo de forma razoável, sem ser cobarde nem temerário.
Infelizmente, a presidente da câmara de Barcelona não teve medo e, por isso, não se precaveu contra a possibilidade de um atentado terrorista como o que já tinha ocorrido no sul de França. Se tivesse tido medo, talvez tivesse impedido a matança de mais de uma dúzia de seres humanos. A sua falta de medo foi muito útil para os terroristas, que tanto lucraram com a sua negligência, porventura passível de responsabilidade criminal.
Se em Espanha, pelos vistos, falta o medo, em Portugal temos excesso de coragem. Com efeito, uma destemida secretária de Estado, qual Joana d’Arc das causas fracturantes, veio a terreiro afirmar a sua homossexualidade. Logo inúmeras vozes saudaram o corajoso gesto, tanto mais meritório quanto inédito entre os nossos políticos, muito amigos destas causas, mas muito reservados quanto às suas preferências pessoais. Há quem ache uma hipocrisia que um deputado, ou ministro, não revele publicamente a sua tendência sexual, mas eu sou dos que defendem que uma tal descrição revela um louvável pudor, alguma decência e q.b. sentido de Estado.
Salva a liberdade de expressão de todas as pessoas, nem tudo pode ser feito, ou dito, por quem tem responsabilidades governativas. Era óbvio que um ministro que, em plena sessão parlamentar, fez um gesto grosseiro a um deputado, não tinha condições para continuar no desempenho das suas funções. Os secretários de Estado que aceitaram favores que comprometeram a sua isenção, agiram igualmente de forma eticamente inadequada às suas responsabilidades governativas. Também não é suposto que um membro do governo faça confidências públicas sobre a sua orientação sexual, seja ela qual for. É razoável exigir aos membros do governo o decoro e a dignidade próprias das funções que desempenham, também quando falam sobre a sua vida particular, até porque a transparência e escrutínio a que está obrigado, num regime democrático, um governante, não inclui segredos de alcova.
Sem pôr em causa a honorabilidade da pessoa em questão, a verdade é que é ridículo louvar a ‘coragem’ de uma tal declaração. Coragem de quê?! Será que, quem a fez, pôs em risco a sua carreira política?! É óbvio que não! Poderá, por esse motivo, perder o cargo?! De modo algum! Por ter dito o que disse, vai para a prisão?! Talvez na Tchetchénia, ou na Arábia Saudita, mas não neste país de brandos costumes, onde a comunicação social incensa quem recorre a estes meios para alcançar algum mediatismo. Onde está a ‘coragem’ de ser membro do governo, com todas as correspondentes mordomias, viver com uma amiga e gabar-se disso?!
Corajosas são as mulheres que, pressionadas para abortar, o não fazem. Corajosas são as que têm a generosidade de criar e educar uma família numerosa, à custa de todo o tipo de privações e incompreensões. Corajosas são as que acolhem como próprias as crianças que os pais enjeitaram. Corajosas são as que aceitam e cuidam de um filho deficiente. Corajosas são as que, abandonadas sem culpa pelo cônjuge, ou vice-versa, permanecem fiéis ao seu compromisso matrimonial. Corajosas são as que não desistem dos filhos toxicodependentes. Corajosas são as que, numa sociedade pagã e hedonista, não vivem segundo as suas egoísticas apetências, mais ou menos extravagantes, mas de acordo com as exigências altruístas da moral cristã. Corajosas são as que não abandonam os pais idosos num lar da terceira idade, porque deles cuidam até ao fim. Corajosas são as que não têm medo à morte, nem a cobardia da eutanásia. Corajosas são as que, como Santa Teresa de Calcutá e tantas outras santas mulheres cristãs, solteiras ou casadas, consagradas ou leigas, esquecendo-se de si próprias, amam e generosamente se entregam ao serviço dos outros. Apesar de tudo.
Fonte: Observador

sábado, 2 de setembro de 2017

Madeira recebe a 10ª Conferência Regional EMAS em Setembro

Além dos portugueses, entre os quais o duque de Bragança, marcam presença no evento representantes de mais 18 países


Madeira recebe a 10ª Conferência Regional EMAS em Setembro


Entre 10 e 13 de Setembro, a Madeira recebe a 10ª Conferência Regional EMAS (Europa, Mediterrâneo e Países Árabes) do ‘The Duke of Edinburgh’s International Award’ (DofE).
A cerimónia de abertura – que contará com a presença do Duque de Bragança (Fundador e Patrono do Programa, Prémio Infante D. Henrique, em Portugal), de Miguel Horta e Costa (Presidente da Direcção do Prémio Infante D. Henrique), de John May, Secretário-geral do Programa Mundial ‘The Duke of Edinburgh’s International Award’, e do Presidente do Governo Regional da Madeira, Miguel Albuquerque – terá lugar a 11 de Setembro, pelas 9 horas, no Hotel Pestana Casino Park, no Funchal.
Para além de Portugal, país anfitrião, estão confirmados representantes de 18 países: Alemanha, Bulgária, Eslovénia, Finlândia, Irlanda, Israel, Gibraltar, Holanda, Irlanda, Jordânia, Letónia, Lituânia, Luxemburgo, Malta, República Checa, Reino Unido, Roménia e Turquia.
É a segunda vez que a Conferência Regional EMAS do DofE se realiza em Portugal. A primeira teve lugar, em 2008, no Estoril.
Sobre o Prémio Infante D. Henrique
O Prémio Infante D. Henrique é a versão portuguesa do ‘The Duke of Edinburgh’s International Award’, fundado em 1956 pelo Duque de Edinburgo. Em 1988, no Porto, Dom Duarte, Duque de Bragança, fundou a versão portuguesa, que adoptou o nome Prémio Infante D. Henrique.
O Programa subjacente ao Prémio visa o desenvolvimento pessoal e social de actividades voluntárias e não competitivas, destinado a jovens entre os 14 e os 25 anos, encorajando-os a desenvolverem-se como cidadãos activos, participativos, com uma contribuição positiva na sociedade e preparando-os com experiências de vida para marcar a diferença com eles próprios, as suas comunidades, e o mundo.
É um programa nacional e internacional que reconhece os jovens por aquilo que fazem: participando num serviço à comunidade e aprendendo a prestar um serviço, os jovens são incentivados a apoiar o próximo; praticando um desporto, adquirem um desenvolvimento físico e hábitos desportivos; passando pela secção de talentos, descobrem novas facetas em si ou simplesmente adquirem experiência profissional tão necessária nos dias de hoje; e na secção aventura, considerado um teste à sobrevivência, realizada em grupo e onde se destacam as qualidades de liderança, responsabilidade e maturidade.
O programa promove a aquisição de competências sociais e pessoais, nos jovens, a mobilidade dos mesmos nos 140 países onde o programa existe, é reconhecido no acesso às Universidades Internacionais e mestrados e é ainda reconhecido pelo mundo empresarial a nível internacional.
Por outro lado, o programa promove a internacionalização das Universidades e Politécnicos, via Educação não formal, uma vez que se encontra disponível na rede de estabelecimentos de ensino espalhados por mais de 140 países em todos os Continentes.
Sendo um Prémio de candidatura livre, os alunos candidatos deverão, contudo, frequentar uma escola certificada para tal. Para que estas se possam candidatar, são desenvolvidas acções de formação, podendo as Escolas interessadas e os seus Professores, inscreverem-se na próxima formação, directamente para a Associação do Prémio Infante D. Henrique.

Fonte: DN

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

28 de Agosto de 1542: cai pela liberdade da Etiópia cristã Dom Cristóvão da Gama

Foto de Nova Portugalidade.


Sir Richard Burton, glória dos orientalistas, chamou a Cristóvão da Gama "the most chivalrous soldier of a chivalrous age". De que são palavras belas, não há dúvida; de que não encerram exagero, será igualmente claro. Filho de Vasco da Gama, Cristóvão chegou à Índia que o seu pai descobrira em 1532, tinha apenas dezasseis anos. Aos 25, já comandava no Índico um dos navios com que Portugal impunha o seu domínio, oferecia repetidas provas de brilho militar, desbaratava as frotas do Turco, forçava-o ao respeito. Era, sem dúvida, jovem para mandar, mas este era um tempo em que a juventude - e a vida - passavam rápido, e em que muito se exigia de homens na flor da idade. Foi ainda moço, pois, que Dom Cristóvão subiu o Mar Vermelho para, em 1541, tentar submeter a grave revés a armada otomana que se encontrava fundeada no Suez. O raide foi um falhanço, mas a frota portuguesa escapou dele incólume. Do Suez seguiram os navios de Portugal para Massawa, porto que a Etiópia, nossa aliada na guerra contra os turcos, nos cedera.

Em Massawa, decidiu-se o seu irmão Estêvão a fornecer ao Imperador da Etiópia um corpo expedicionário que fizesse em terra o que a armada garantia no mar. A comandá-la ficou Cristóvão, cuja capacidade de comando ficara garantida em enfrentamentos anteriores. A força era, considerando o pequeno - mas eficaz - contingente que Portugal tinha a defender o Estado da Índia, muito grande: quatrocentos homens de armas mais cem escravos, para cima de mil arcabuzes, algumas peças de artilharia de grande calibre. Juntou-se à expedição Dom João Bermudes, galego ao serviço de Portugal que era Patriarca da Etiópia e de Alexandria. Dirigiram-se da costa para o interior da Abissínia em tempo de chuva violenta; chegando a Debarwa, onde o vice-rei etíope estava instalado, Gama fez o contingente ocupar-se de tarefas de construção, de adestramento, de refinação da sua capacidade de combate. Dali, ainda, liderou o Gama numerosos ataques a aldeias fiéis a Ahmad al Ghazi, aliado dos turcos e invasor da Etiópia cristã.

Em Fevereiro de 1542, encontrou o contingente português a primeira força inimiga enviada para destruí-lo. À sua frente, liderando grupo quatro vezes mais numeroso que o de Gama, o próprio Al Ghazi. Ghazi, em árabe, significa "o vitorioso", mas vitória foi coisa que o caudilho muçulmano não teve naquele dia. Cristóvão da Gama derrotou-o pesadamente, e perdendo não mais que oito homens. Seguiram-se recontros vários de que Gama foi saindo sempre triunfante e, depois, uma cómica troca de missivas entre os dois chefes. Ghazi, diz-se, enviou a Gama carta exigindo-lhe que os portugueses abandonassem a Etiópia à sua sorte; com a carta, escrita em árabe, seguia o hábito de um frade cristão. Era uma provocação. Gama respondeu-lhe dizendo que ali estava "por ordem do Grande Leão do Mar" (Dom João III) e que se veria "proximamente o valor dos portugueses". Mandou-lhe, também, o seu próprio presente: um espelho e uma pinça, sugerindo que o muçulmano seria uma mulher ou, pelo menos, homem efeminado. Se aquilo fora tentativa de diplomacia, não há dúvida de que não tinha corrido bem.

Seguiram-se, até Agosto de 1542, várias batalhas de que Al Ghazi foi repetidamente perdedor. Mas a campanha portuguesa fora fundada numa mentira, e a missão de Cristóvão da Gama era absurda. Quando finalmente puderam os portugueses aproximar-se do exército do Imperador etíope Gelawdewos, que até ali haviam imaginado forte de dezenas de milhares de homens, descobriram que o Imperador não tinha consigo, afinal, mais de setenta. Os etíopes não contavam, pois, com um aliado; esperavam dos portugueses que travassem eles a guerra. Depois, piores notícias: Al Ghazi, alarmado com as derrotas sofridas às mãos dos portugueses, pedira apoio aos turcos - e estes tinham-lhe enviado três mil mosqueteiros, muitos mais que os portugueses, agora reduzidos a menos de trezentos. A 28 de Agosto de 1542, em Wofla, Ghazi apareceu frente aos portugueses com esses mosqueteiros e vários milhares de outros combatentes. Gama foi derrotado, e logo capturado. Dos 290 portugueses e 23 etíopes, caíram 160 dos primeiros e 8 dos segundos. Os restantes tiveram como recuar.

Gama foi depois humilhado e brutalmente assassinado. Ghazi exigiu-lhe que se convertesse ao Islão, o que o português recusou. Ghazi ordenou, então, que se arrancasse um a um os pêlos da barba do Gama; quando terminaram, e continuando este a negar a apostasia, foi decapitado. A sua cabeça foi atirada para uma fonte juntamente com a de um cão, animal tido como imundo pelo Islão.

Mas os portugueses sobreviventes dariam ainda má surpresa a Al Ghazi. Recuando até ao acampamento do Imperador, em Derasge, os 120 portugueses que restavam juntaram-se ao novo exército cristão que ali se formava. Em Fevereiro de 1543, portugueses e etíopes encontraram o exército de Ghazi em Wayna Daga. Os portugueses ocuparam a frente do exército conjunto, e terá sido um deles, João de Castilho, a disparar o tiro que matou o chefe muçulmano. Morto ele, dizem João Bermudes, Jerónimo Lobo e Gaspar Correia, fugiram amedrontados e em desordem os combatentes muçulmanos. Wayna Daga foi, com a vitória de Adwa sobre a Itália em 1896, o mais ilustre feito de armas da História etíope. A sua memória, assim como a dos portugueses que a fizeram possível e de Cristóvão da Gama, que por ela se sacrificou, não foi nunca esquecida pelos etíopes. No século XX, o Imperador Hailé Selassié fez-lhe tocante referência quando, contra a sua vontade e por pressão dos vizinhos africanos, foi obrigado a cortar relações diplomáticas com Lisboa.

RPB