domingo, 16 de agosto de 2015

God Save The King… D. Carlos I



‘A recepção que nos foi feita ontem em Londres passou absolutamente tudo quanto possas imaginar. Nunca em Londres se fez a um soberano estrangeiro coisa que de longe se parecesse com isto. Nem eu mesmo esperei que isto fosse assim, apesar de saber quanto em Inglaterra eu sou querido e estimado. É uma grande coisa para o nosso País’, escreveu El-Rei Dom Carlos I ao presidente do Ministério José Luciano de Castro, dando conta da recepção calorosa que o Monarca Português teve na capital britânica.
Ultrapassada a crise gerada pelo Ultimato na Velha Aliança – já datada de 1386 em que pelo Tratado de Windsor se celebrou o laço diplomático mais antigo entre duas Nações -, e depois da visita a Portugal de Sua Majestade o Rei Eduardo VII do Reino Unido, reconhecendo definitivamente a importância de Portugal no Mapa Europeu e Mundial, foi a vez de Suas Majestades Fidelíssimas, os Reis de Portugal Dom Carlos I e Dona Amélia, serem convidados pelo Monarca britânico a visitar o Reino Unido, a Monarquia mais poderosa do Mundo, não só hoje, mas até mais na altura, em que o Império Britânico se dilatava soberano pelos Continentes.
Assim, em Novembro de 1904, a convite do Monarca inglês, D. Carlos e D. Amélia aportam em Inglaterra e instalam-se, com a sua entourage, primeiro no Castelo de Windsor e depois no Palácio de Buckingham.
Nas ruas de Londres, sinos a repicar alegremente, foguetes a estalar nos céus, povo britânico nas ruas, nas rotundas e às janelas, bandeiras dos dois Reinos a engalanar, faixas nas árvores e multidões compactas, entusiasticamente, gritando ‘Hip, Hip, Hurrah!’ e ‘God Save The King!’. Todos acolhiam o Rei cujos predicados de diplomata, de cientista, de artista, de atirador, faziam as parangonas dos jornais ingleses. E ele ali privava com o maior Rei da Terra, mas mostrava-se português em tudo, e assim não se fazia rogado em estender a mão e a Sua palavra fácil e amistosa, também, ao Povo que à Sua passagem evocava com o equivalente ao nosso grito pátrio ‘VIV’Ó REI!’, também, a História da Nação Portuguesa.
A culminar a recepção, ‘a cereja em cima do bolo!’: os Monarcas portugueses são brindados com uma sessão de fogo-de-artifício, que termina em apoteose com os rostos dos Reis de Portugal, Carlos e Amélia, gizados por efeito pirotécnico! God Save The King… D. Carlos I de Portugal!
Miguel Villas-Boas

sábado, 15 de agosto de 2015

Ceuta 1415 - 5. Um rei determinado e experiente*

(*) Comemoram-se hoje precisamente 630 anos da grande vitória de D. João I em Aljubarrota.

Em Algeciras era baixo o moral das tropas. Sentia-se o amargo sabor do provável regresso ao Reino sem combater e sem os despojos, depois de tanto investimento feito. Os homens murmuravam entre si apontando o dedo à pouco cuidada preparação. Alguns punham mesmo em dúvida a missão exploratória, supostamente realizada pelo Prior do Hospital. Este fora enviado por El-Rei uns tempos antes com o propósito de estudar o assalto à cidade. Neste ambiente, o infante D. Henrique partia uma vez mais em busca de D. Pedro e das naus dispersas. Encontrou-as ao fim de algum tempo mas, em resultado de uma colisão, uma delas apresentava um rombo que a impedia de içar as velas sem que a força do vento lhe abrisse o casco ao meio. Remediou-se o dano com recurso a uns cabos e a nau pode seguir a reboque até Algeciras, conjuntamente com todas as outras.

El-Rei quis então ter conselho acerca da melhor decisão a tomar. Os primeiros a falar foram os seus filhos. Os três infantes e o conde de Barcelos, secundados por outros, mantinham intacta a vontade de ir sobre Ceuta e concretizar aquilo que antes não tinham conseguido: Entrar na cidade e conquista-la aos mouros. Um outro grupo propunha que se optasse alternativamente por tomar Gibraltar, mesmo ali ao lado e muito mais fácil de submeter. Finalmente, outros havia que defendiam o regresso imediato ao Reino, considerando o já longo tempo de ausência e os muitos obstáculos surgidos. Ouvido o conselho, D. João I, que nunca hesitara mas pretendia assim conhecer o ânimo dos seus homens, afirmou que estava ali com o firme objectivo de conquistar Ceuta e não encontrava motivos para desistir. No dia 19, ordenou que a frota se deslocasse até à Ponta do Carneiro, na extremidade poente da baía de Algeciras e mandou os capitães irem ter consigo a terra para ali discutirem a táctica de desembarque e de assalto à cidade.

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Propunham os capitães que se desembarcasse do lado do sertão, atacando Ceuta de poente para nascente e encurralando o inimigo no promontório de Almina. Mas a experiência militar de D. João I fê-lo optar pelo caminho exactamente oposto: Desembarcar na praia a nascente e empurrar o inimigo para o interior. Deste modo não haveria preocupação com a rectaguarda e os infiéis teriam sempre a opção de fugir em lugar de combater. O plano era o seguinte: O grosso da frota comandada por D. João I estacionava em frente da cidade, para lá atraindo o maior número possível de mouros. Enquanto isso e da forma mais discreta possível, alguns homens (1) desembarcavam na praia do lado de Almina para onde, depois de controlada a porta de entrada na muralha, todos os outros avançariam em desembarque ordenado (2). Para comandar o grupo da frente escolheu El-Rei o seu filho D. Henrique, recordando-lhe o pedido que o próprio Infante lhe fizera, ainda muito antes da partida, de vir a estar entre os primeiros a pisar terra e a combater. Com o ânimo próprio de um jovem de 21 anos nascido para ser guerreiro, D. Henrique não cabia em si de satisfeito.

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Partiram no dia seguinte rumo à baía de Ceuta onde chegaram já de noite. Desta vez as naus navegavam protegidas pelos outros navios que as impediam de se dispersarem. Surpreendidos por verem os portugueses regressar, os mouros acenderam todas as lanternas que tinham em suas casas, procurando criar a ilusão de serem muitos mais do que na realidade eram. Estava angustiado Salah ben Salah, pois bem sabia que diante dos muros da cidade estava um grande príncipe da cristandade, um guerreiro invicto que, com estes mesmos homens, tinha conseguido impor-se ao poderoso reino de Castela. O que faria agora o mouro sem poder sequer contar com a ajuda atempada de Fez e das cidades vizinhas? Na frota, também à luz das lanternas, os soldados cuidavam dos últimos preparativos para o grande combate do dia seguinte: Espadas, escudos, bacinetes, cotas de malha, armaduras, tudo teria de estar em perfeitas condições. Difícil foi pregar olho durante a noite com a ansiedade do que os esperava na alvorada. Muitos aproveitavam a falta de sono para implorar a protecção do Altíssimo, a cujo serviço iriam agora dedicar tudo o que tinham. Chegava finalmente a aurora do grande dia.

Zurara menciona os nomes de cem capitães da expedição. Aqui ficam os de maior importância:
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 João Ferreira do Amaral, em 14.08.15

Fonte: 31 da Armada

Assunção da Virgem Maria

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

O Condestável do Reino



O posto de Condestável de Portugal, é para além dos títulos reais, o mais emblemático na titularia do Reino de Portugal (1139-1910). Inspirado na figura do Condestabre, que por sua vez derivava doComes Stabuli romano, o Condestável de Portugal ou Condestável do Reino foi um cargo criado por El-Rei Fernando I de Portugal, em 1382, para assumir as funções militares do anterior cargo de Alferes-Mor do Reino e designava o Comandante-Supremo do Exército. O Condestável era a segunda personagem da hierarquia militar nacional, imediatamente a seguir ao próprio Rei de Portugal e tinha como responsabilidades, inicialmente, comandar uma campanha militar na ausência do Rei e manter a disciplina do exército. Porém, o Condestável participava nas batalhas ao lado do Rei. Era, portanto, perante o Condestável que passavam todas as sindicâncias e os inquéritos disciplinares militares.
Álvaro Pires de Castro, ainda em 1382, foi nomeado o 1.º Condestável de Portugal e, além desse título, ‘pela sua presteza e fidalguia’ foi-lhe atribuído por El-Rei D. Fernando I, o título nobiliárquico de 1.º Conde de Arraiolos, que conservou até à morte em Lisboa, a 11 de Junho de 1384, passando este para D. Fernão Álvares Pereira, irmão de D. Nuno Álvares Pereira. Outro dos títulos com que foi agraciado foi o de Conde de Viana da Foz do Lima. Há quem atribua às suas ambições pessoais o facto que terá levado D. Inês de Castro, sua irmã, à perdição, pois terá conspirado contra o Infante D. Fernando, Príncipe Real e futuro rei, a fim de ver os seus sobrinhos no trono, o que, Inês morta, se revelou infundado. Em 1320 casou com D. Maria Ponce de Leon e do matrimónio nasceram 5 filhos, sendo o primogénito D. Pedro de Castro, Senhor do Cadaval (1340) o primeiro da Ilustre Casa que por parentes mais chegados à Casa de Bragança são, em Portugal, apenas abaixo da Família Real.
O 2.º Condestável foi D. Nuno (de Santa Maria) Álvares Pereira que nasceu no Crato, Flor de Rosa, Bonjardim, em 24 de Junho de 1360 e faleceu em Lisboa, Convento do Carmo em 01 de Novembro de 1431. D. Nuno Álvares Pereira, também conhecido como o Santo Condestável, São Nuno de Santa Maria, ou simplesmente Nun’Álvares desempenhou um papel fundamental na Crise de 1383-85.
Cresceu em casa de seu pai, D. Álvaro Gonçalves Pereira, até aos 13 anos de idade, idade com que foi viver para a Corte, era então rei de Portugal D. Fernando I. Foi no Paço que o rei o armou cavaleiro, com a armadura emprestada, do meio-irmão do Rei, D. João, Mestre de Avis – iniciando-se assim uma relação de colaboração, estima e mesmo amizade, que perduraria, e se tornaria um valor acrescentado para o Reino. Já por essa altura D. Nuno sentia o apelo da temperança pretendendo conservar-se casto, no entanto, aos 16 anos de idade, por imposição de seu pai, não pode manter-se celibatário e foi compelido a contrair matrimónio com D. Leonor Alvim. Casaram, em 1376, em Vila Nova da Rainha, freguesia e concelho da Azambuja, e depois foram viver para uma propriedade de D. Leonor, sita em Pedraça, Cabeceiras de Basto, no Minho. Falecido D. Fernando I de Portugal, iniciou-se a supracitada Crise. D. Nuno foi dos primeiros fidalgos da Corte a apoiar as pretensões ao trono de D. João, Mestre de Avis, irmão do falecido rei, uma vez que era filho ilegítimo de D. Pedro I com Teresa Lourenço (1330).
Os filhos varões do Rei D. Fernando, o Belo, com D. Leonor Telles de Menezes (1340 – 1386), Pedro e Afonso haviam morrido respectivamente nos anos de nascença: 1380 e 1386; e D. Beatriz (1372 – 1410), Infanta de Portugal, havia casado com D. João I, Rei de Castela, pelo que, sob pena de anexação de Portugal pelo Reino de Leão e Castela, a fidalguia portuguesa pretendia mantê-la afastada da sucessão. E era fortíssima a ameaça da união – que soava a integração – de Portugal com Castela e Leão, resultado do Tratado de Salvaterra de Magos, de 1383. Também, a burguesia mostrava-se desagradada com a regência da Rainha D. Leonor Telles de Menezes e do seu amante, o Conde D’Andeiro e com a ordem da sucessão, uma vez que isso significaria anexação de Portugal por Castela, pelo que a escritura matrimonial provocou levantamentos populares em Lisboa, Santarém, Elvas, onde por exemplo às palavras do Alcaide Álvaro Pereira: “Arraial, arraial, pela rainha D. Beatriz”, Gil Fernandes à frente de toda a Elvas, o prendeu gritando “Arraial, arraial, por Portugal”. Em Lisboa o chanceler-mor de D. Pedro I e D. Fernando, Álvaro Paes, fez soar pela cidade de Lisboa que matavam D. João, Mestre de Avis: “Acorram ao Mestre, amigos! Acorramos ao Mestre, que o matam sem porquê!” e as hostes populares interrogavam-se sobre “quem matou o Mestre?”, outrosrespondiam-lhes “que o matava o Conde João Fernandes, por mandado da Rainha [D. Leonor Telles]”. Após a morte de Andeiro, no Mosteiro de São Domingos o povo miúdo aclama o Mestre de Avis como Regedor e Defensor dos reinos e na Câmara de Lisboa outorgaram aquela decisão da arraia-miúda e até a burguesia indecisa aderiu ao partido do Mestre. Dois dos filhos de D. Inês de Castro e do rei D. Pedro I, D. João e D. Dinis, uma vez que haviam sido legitimado com a revelação do casamento em segredo entre os pais, e a ulterior proclamação de D. Inês como rainha de Portugal, coadjuvado pelos seus tios Álvaro (Conde de Arraiolos e de Viana da Foz do Lima) e Fernando, manteve também aspiração ao trono, mas nunca reuniram apoios suficientes. Depois do outorgamento, D. João, Mestre de Avis, formou o seu Conselho do qual fizeram parte: João das Regras (Chanceler-mor), D. Lourenço (Cardeal-Patriarca de Lisboa), o arcebispo de Braga D. Martim Afonso, Lourenço Estevens, o Moço, João Gil e Martins da Maia e ordenou ainda a formação da Casa dos 24.
Em dois dias chegou D. Nuno Álvares Pereira, a Lisboa, e logo foi fazer penhor da sua lealdade e apoio ao Mestre de Avis. De acordo com a Crónica d’El-Rei D. João I, D. Nuno ter-lhe-á dito: “- Senhor, grandes dias há que eu muito desejei e desejo de vos servir, e não foi minha ventura de o até este tempo o poder fazer. E porque ora vós sois em tal ponto e estado que cuido poderei cobrar o que tanto desejava, eu vos ofereço mim e meu prove serviço com mui boa vontade; e vos peço por mercê que daqui em diante me hajais por todo vosso quite servindo-vos de mim em todas as cousas, como de homem que pêra elo serei mui prestes”. O mestre aceitou a sua lealdade e agradeceu-lhe o préstimo em o servir e à sua causa. Tornou-o um dos seus homens de confiança pelo que o fez membro do seu Conselho, como já tinha feito os acima indicados.
Porém, salvo estas raras, e de si não menos importantes, excepções, a base de apoio do Mestre era essencialmente popular, porque a alta e média nobreza apoiava e engrossava o partido de Castela. Intitulavam, jocosamente, o Mestre de “o Messias de Lisboa”. O povo, esse, revoltou-se e tomou os castelos à fidalguia, que se pôs em fuga para as vilas afectas a Castela. Perante a revolta da população portuguesa em vários pontos e cidades do Reino de Portugal, quem não gostou de ver a mulher e consequentemente a si próprio, preteridos, foi o Rei de Leão e Castela que decidiu invadir Portugal. Assim, o Rei de Castela, em 1384, decide entrar em Portugal. Entre Fevereiro e Outubro deste ano montou um cerco a Lisboa, por terra e por mar. Uma frota portuguesa vinda do Porto enfrentou, a 18 de Julho de 1384, à entrada de Lisboa, a frota castelhana, na batalha do Tejo. Os portugueses perderam três naus e sofreram vários prisioneiros e mortos, no entanto, a frota portuguesa conseguiu furar a frota castelhana, que era muito superior, e descarregar no porto de Lisboa os mantimentos que trazia. Esta ajuda alimentar veio-se a revelar muito importante para a população que defendia Lisboa. O cerco de Lisboa pelas tropas castelhanas acabou por não resultar, devido à determinação das forças portuguesas em resistir ao cerco, ao facto de Lisboa estar bem fortificada e defendida, ao auxílio dos alimentos transportados do Porto e também por causa da epidemia de peste negra que devastou as forças castelhanas estacionadas no exterior das muralhas. D. João I de Castela decidiu então enviar uma flotilha que cercou Lisboa, mas que sofreu tal-qualmente a carestia de bens alimentares, estratégia com a qual pretendia vencer os nacionalistas portugueses. Chegavam a morrer aos 150 castelhanos por dia até que o rei de Castela, instigado pelos seus conselheiros fez a frota retornar a Castela.
Mas houve ainda lugar a batalha em terra e, aí, coube a D. Nuno comandar o exército português e foi por esta altura que D. Nuno Álvares Pereira realizou a sua famosa expedição pelo Alentejo acompanhado de 40 dos melhores escudeiros da altura, e foi engrossando as fileiras com a boa gente dessa região, até que chegou a Atoleiros, a meia légua da fronteira com Castela, que se preparava para acometer. Aí D. Nuno começou por inovar: foi nos Atoleiros que pela primeira vez se combateu a pé em Portugal, e D. Nuno utilizou a famosa técnica da formação do exército em quadrado: distribuiu os seus homens armados e os besteiros pelas alas e o povo no meio. Os castelhanos ao verem os portugueses apeados, e para mais em minoria, acharam que ia ser fácil vencê-los pelo que se lançaram a cavalo sobre o exército lusitano aos gritos de “Castyla! Sant’iago!” ao que os portugueses responderam berrando “Portugal! São Jorge!” e D. Nuno ordenou aos seus soldados que como ele fizessem uma genuflexão com o joelho direito no chão e a outra perna a fazer finca-pé e depois levantar as lanças num ângulo agudo, apoia-las no chão e os cavalos castelhanos se foram espetar nelas. Os Castelhanos feridos e no chão eram então bombardeados por dardos e virotões, e cercados por todos os lados pelos portugueses o que impedia que os primeiros escapassem. Assim os portugueses saíram vitoriosos sobre os castelhanos, na Batalha dos Atoleiros, em 1384. D. Nuno Álvares Pereira foi então nomeado o 2.º Condestável de Portugal – título criado após o fim do Império Romano com a grafia latina deComes stabilis que substituiu o imperium proconsulare maius e o ulterior Dux -, honra com que foi agraciado por D. João, Mestre de Avis, e ainda recompensado com o título de 3.º Conde de Ourém. Foi então hora de reunir as Cortes em Coimbra, onde, finalmente a 06 de Abril de 1385, D. João seria aclamado Rei pelas Cortes.
A batalha de Aljubarrota, na qual se deve a maior quota-parte da vitória às tácticas de D. Nuno Álvares Pereira, viria a ser decisiva no fim da instabilidade política de 1383-1385 e na consolidação da independência portuguesa. Do seu casamento com D. Leonor de Alvim (1360), o Condestável teve três filhos, mas apenas uma filha teve descendência, D. Beatriz Pereira de Alvim que contraiu matrimónio com o 1.º Duque de Bragança, D. Afonso (I) – filho natural que D. João, Mestre de Avis, ainda solteiro e antes de ser Rei tivera com uma rapariga solteira de nome Inês Pires -, dando origem à Casa de Bragança que viria a reinar em Portugal três séculos mais tarde, solidificando toda a aura que já o seguia.
A partir do reinado de D. João IV, o título deixou de ter conotações militares ou administrativas, para ser exclusivamente honorífico. O último Condestável de Portugal foi o Infante Dom Afonso de Bragança, Duque do Porto, nos reinados do irmão o Rei Dom Carlos I e do sobrinho o Rei Dom Manuel II.
Miguel Villas-Boas

Aljubarrota - 14 de Agosto de 1385



Assim, a luta decisiva viria a travar-se entre a unidade em quase constante formação de batalha e o aglomerado de forças joviais e por demais descuidosas; entre a ordem verdadeira e a ordem aparente que vale por desordem; defrontava-se a religiosa convicção e decisão de ganhar com a vaidosa ostentação de vitória certa; o espírito com o número; um rei-soldado de batalha com um rei inválido pela doença, ora indeciso, ora teimoso; um chefe iluminado e heróico, entre infantes e cavaleiros apeados, a vencer de lanças oblíquas, a melhor cavalaria da Europa.
Lição a relembrar, exemplo a seguir, levantemos o espírito em reconhecimento aos nossos antepassados que, no curto espaço de meia hora, pela independência da Pátria, morrendo ou vivendo, em Aljubarrota souberam vencer, para criar as condições e o destino da futura grandeza de Portugal.

Agosto de 1949


Hipólito Raposo em A lição de Aljubarrota, no livro Oferenda




quarta-feira, 12 de agosto de 2015

A Coragem Da Rainha D. Maria Pia



Neta e filha de herói do Piemonte, Dona Maria Pia, Princesa da Casa Real de Sabóia, Rainha consorte de Portugal, não deixava os créditos da Sua Real e destemida Linhagem por mãos alheias.
No período de vilegiatura do Verão de 1873, no sítio do Mexilhoeiro, em Cascais, a Rainha Maria Pia passeava com os seus filhos, o Príncipe Real D. Carlos e o Infante D. Afonso. Então, o Senhor Dom Carlos, o Duque de Bragança de ainda 10 anos de idade, foi apanhado por uma forte onda e escorregou no rochedo onde a Família Real passeava, mas Sua Majestade a Rainha Dona Maria Pia usando de força sobre-humana não largou por um instante que fosse a mão do augusto filho sem deixar, também, o Infante D. Afonso. O mar crespado e atiçado pelas nortadas próprias do fim de Verão teimava em arrastar o Rei a ser, mas a temerária Rainha e mãe não soçobrou e, mesmo com os três membros da Família Real já na água, evitou que o filho fosse levado para o mar agitado conseguindo aguentar o filho preso pela mão, até que o Visconde de Moçâmedes – camarista ao serviço da Rainha – resgatou o Príncipe à água e o faroleiro a Rainha e o Infante Dom Afonso, Duque do Porto. A Rainha Coragem evitou assim o afogamento do futuro Rei Dom Carlos I de Portugal.
Miguel Villas-Boas

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Ceuta 1415 - 4. Inesperadas e fortes contrariedades

Tendo zarpado de Faro a 7 de Agosto com vento favorável, a Armada chegou perto da zona do Estreito na tarde do dia seguinte. El-Rei ordenou então que se fizesse um compasso de espera com a frota a navegar em círculos, pois queria passar o Estreito a meio da noite, dando o menos possível nas vistas.

Pode-se imaginar o susto dos mouros de Gibraltar quando viram a gigantesca armada portuguesa fundear na baía de
Estreito2.jpgAlgeciras na tarde do dia 9. Pensavam naturalmente que a sua pequena cidade junto do rochedo era o objectivo militar de todo aquele aparato. A muito disputada Gibraltar estava há pouco tempo nas mãos do reino nasrída de Granada, que capturara a cidade a outro reino mouro, o da dinastia merínida de Fez. Já antes pertencera à cristandade, durante uma fugaz presença castelhana na primeira metade do séc. XIV. As autoridades da cidade apressaram-se a levar oferendas a D. João I, obtendo de El-Rei a garantia de que Gibraltar não seria atacada. Pelo sim, pelo não pediram autorização para trancar as portas da muralha, argumentando com a necessidade de se evitar escaramuças entre as partes. Surgiu de seguida Pedro Portocarreiro, enviado ali de perto pelo seu pai, Martim Fernandes Portocarreiro, o velho alcaide de Tarifa, fronteiro de Castela e natural do reino de Portugal, segundo o cronista. Pretendia indagar o objectivo da expedição e trouxe consigo uma quantidade apreciável de cabeças de gado para servir de abastecimento alimentar às tropas cristãs.

No dia 11 foi finalmente dada ordem de travessia do Estreito rumo a Ceuta mas os ventos e as fortíssimas correntes de poente que com frequência se fazem sentir naquelas águas desbarataram a frota: Enquanto as galés, as fustas e outras embarcações de menor porte conseguiram a muito custo ir fundear na baía de Ceuta, as naus foram quase todas empurradas Mediterrâneo adentro na direcção de Málaga.

Surpreendidos, os mouros não tardaram a perceber que a armada que os visitava nada tinha de amistosa. Enquanto uns fugiam a esconder-se nas suas casas, outros subiam as muralhas, dali disparando as bestas e os trons mas sem que os tiros pudessem alcançar os navios portugueses. Salah ben Salah, o governador mouro da cidade, enviou de imediato mensageiros ao interior do reino de Fez, pedindo reforços para o ajudarem na defesa. Alguns soldados portugueses, impacientes meteram-se inadvertidamente em batéis e remaram até à praia onde uns poucos mouros os desafiavam. Caíram mortos alguns muçulmanos enquanto os restantes fugiam e se trancavam dentro da muralha.

No dia 14, as condições atmosféricas adversas levaram El-Rei a optar por passar a frota ao outro lado mais abrigado
Ceuta10.jpgdo promontório, chamado Barbaçote. Ordenou entretanto a D. Henrique que partisse na sua galé em busca do irmão D. Pedro e dos outros navios tresmalhados. A habitual mestria do Infante permitiu novamente a reunião de toda a frota na baía de Barbaçote. Contudo, toda esta espera tinha dado tempo para a chegada de muitos mouros vindos das povoações vizinhas que se acumulavam agora naquele lado da cidade. Zurara fala em mais de cem mil. D. João I decidiu então ensaiar o desembarque junto de umas salinas. Alguns portugueses mais apressados saltaram logo para terra e do confronto desfavorável com os mouros resultaram algumas baixas do lado cristão, presenciadas por todos. Gerou-se um grande alvoroço a bordo e as tropas precipitaram-se num desembarque desordenado. O local escarpado, o vento que entretanto se levantara dificultando a manobra e a significativa inferioridade numérica em homens fizeram El-Rei pressentir a iminência de um desastre. Experiente, decidiu então abortar o desembarque. Ordenaou energicamente a travessia do Estreito e o regresso imediato a Algeciras. Porém, ao dobrar a ponta de Almina, novamente se dispersou a frota com as naus a serem arrastadas pela forte corrente na direcção de Málaga.

Nas muralhas de Ceuta, os mouros festejavam vitoriosos a debandada dos cristãos enquanto Salah ben Salah dispensava orgulhosamente os reforços que assim regressavam às suas povoações. Pensava ele ter debelado a ameaça cristã.

Caía já a noite de 17 de Agosto, 23º dia desde a partida de Lisboa. Depois de tanto esforço, após anos de tão cuidada preparação seria este o pouco edificante desfecho da grande expedição portuguesa?

 João Ferreira do Amaral, em 07.08.15

Fonte: 31 da Armada

domingo, 9 de agosto de 2015