quarta-feira, 7 de setembro de 2016

BANCO DE PORTUGAL CELEBRA DONA CATARINA DE BRAGANÇA COM MOEDA DE COLECÇÃO


Infanta portuguesa que se tornou Rainha de Inglaterra será imortalizada numa moeda de cinco euros a distribuir em Portugal através da rede de tesourarias do BdP e das instituições de crédito.

Para comemorar a vida da monarca, o Banco de Portugal anunciou hoje através do seu site oficial que "colocará em circulação, no dia de 13 de Setembro de 2016, uma moeda de colecção, em liga de cuproníquel, com o valor facial de 5 euros, designada 'Dona Catarina de Bragança', integrada na série 'Rainhas da Europa'". 
Na face, a moeda tem o valor facial, o escudo português e a representação de uma chávena de chá, símbolo da "introdução desta bebida na corte inglesa através da Rainha Dona Catarina de Bragança". 
No reverso, a moeda tem o busto da rainha, juntamente com o nome e a data de nascimento e morte. 
Como habitual, a distribuição será feita nas tesourarias do Banco de Portugal e através das instituições nacionais de crédito.



Publicada por: Família Real Portuguesa

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Grandes Portugueses - Afonso de Albuquerque

O herói que morreu magoado com os homens mas conciliado com Deus (1453-1515)

Afonso de Albuquerque

José Maria dos Santos

A epopeia portuguesa no Oriente nunca foi igualada. Com muito menos gente, os lusos venceram e conquistaram poderosos reinos como os de Ormuz, Goa e Malaca. Nessa epopeia, um homem ocupa a primazia como verdadeiro gigante: Afonso de Albuquerque, um dos maiores génios militares e administrativos, cujas façanhas se tornaram lendárias em todo o mundo de então.
Conta São Leonardo do Porto-Mauricio, no seu livro "As excelências da Santa Missa", este belo facto sucedido com Afonso de Albuquerque: "Achando-se com a sua frota em perigo de naufragar numa horrível tempestade, teve uma inspiração: tomou aos braços uma criança que viajava na sua nau e, elevando-a ao céu, exclamou: `Se todos somos pecadores, esta criaturinha é certamente sem mácula. Ah! Senhor, por amor deste inocente, compadecei-vos dos culpados! A vista dessa criança inocente agradou tanto a Deus, que Ele acalmou o mar e devolveu a alegria àqueles infelizes, gelados pelo terror da morte certa" (1).
Bondoso, esmoler, espírito justiceiro

Afonso de Albuquerque, visto pelos seus contemporâneos, era um "homem de estatura média, rosto comprido e corado, nariz um pouco grande"(2), "muito airoso e bem apessoado, expressão sentenciosa" (3). "Trazia sempre a barba mui comprida, [...] e como era alva, dava-lhe grande veneração" (4). Dotado de "um inquebrantável espírito de justiça" (5), era ainda, sempre segundo os seus contemporâneos, bondoso, muito esmoler, piedoso para com os pobres e muito paciente para suportar os sofrimentos que constantemente o assaltavam devido à inveja e incompreensão dos homens. Sofreu especialmente da parte de D. Manuel, rei de Portugal, que não se mostrou à altura do homem superior que governava.
"Inteiramente honesto, dedicado ao Rei e ao seu país, Albuquerque andou na Índia dedicado aos planos grandiosos que levara, sem jamais transigir um instante com a vida doce que todos apeteciam. Dele se pode dizer que foi, no seu tempo, o único capitão da Índia a quem os fumos da pimenta não toldaram o entendimento" (6).
"Nos seus seis anos de governo, sempre manietado pela falta de homens, de navios, de dinheiro, bem como pela estreiteza de vistas e pelas suspeitas do rei, Albuquerque fez sentir a sua influência desde a Arábia ate à China. Apossou-se das chaves do Oceano Índico. A Pérsia, o Sião e a Abissínia solicitavam a sua amizade, ao mesmo tempo em que uma dúzia de reis indianos, inquietos, se informavam dos seus desejos, por meio de embaixadas respeitosas" (7).

Ao lado de D. João II
Afonso de Albuquerque foi o terceiro filho de Gonçalo de Albuquerque, conselheiro do rei D. Afonso V e de D. Leonor de Meneses, filha do primeiro Conde de Atouguia. Nasceu no termo de Alhandra em 1453. Nada se sabe da sua infância, mas, pela cultura que depois demonstrou, sobretudo nas suas famosas cartas e ordenações, vê-se que aprendeu o latim e estudou os clássicos.
Albuquerque aparece pela primeira vez ao lado de D. João II, em 1476, na batalha de Toro, contra os castelhanos; depois, em Arzila, no Norte de África. Em 1480, D. Afonso V enviou-o em socorro do Rei de Nápoles contra os turcos, e no ano seguinte vemo-lo na guarda pessoal de D. João II. E, finalmente, na de D. Manuel.


Assombrosa carreira
Albuquerque entrou verdadeiramente para a História já bem maduro, em 1506, no comando de uma frota incorporada à do seu primo Tristão da Cunha. Já estivera na Índia com outro primo, Francisco de Albuquerque, na armada de 1503, mas nada de mais notável dele então chegou ao nosso conhecimento. Agora, a sua missão era a de vigiar a boca do Mar Vermelho, para impedir que dali saísse algum inimigo que molestasse as conquistas portuguesas na Índia.

Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição de Ormuz



















Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição de Ormuz
Ainda hoje destacada pela sua importância estratégica, a cidade de Ormuz não passou despercebida aos grandes planos de Albuquerque. Consquistada pela primeira vez em 1507, perdida em 1508 e depois retomada em 1515, acabou por ficar sob o domínio português durante mais de um século. A imponente fortaleza, iniciada em 1507 e erguida em condições excepcionalmente adversas, subsiste até hoje como testemunho da vontade de ferro, da coragem e da pertinácia de um dos mais geniais chefes militares portugueses.


Ao separar-se de Tristão da Cunha, depois de dominarem Socotorá e outras cidades menores, começou a estupenda carreira de Afonso de Albuquerque, que contava nessa época com apenas seis barcos e 460 homens, dos quais uma parte enferma, e escassos mantimentos para 15 dias. Com ousadia e determinação, infundindo a sua têmpera nos subordinados, conquistou em acções fulminantes várias cidades das costas da África e da Ásia, inclusive a opulenta Ormuz, na entrada do Golfo Pérsico. Não foi desprezível tal conquista, pois Ormuz estava guarnecida com mais de 30 mil homens de combate, dos quais 4 mil eram arqueiros persas, com fama em todo o Oriente. Na baía havia mais de 400 barcos, dos quais 60 eram poderosas naus bem apetrechadas, e havia espalhadas ao longo do porto mais 80 peças de artilharia para a defesa da terra firme. Como um ciclone, Albuquerque e o seu pequeno número de portugueses desbaratou os navios e apossou-se da ilha, começando a edificar uma fortaleza. Mas a deserção de três dos seus capitães com as suas naus fez com que ele tivesse que adiar a consolidação daquela conquista para outra ocasião. O que de facto se realizou anos depois.

Goa e Malaca, fortemente guarnecidas, sujeitas aos lusos

Mapa de Goa
































Mais espectacular ainda foi a conquista do que se tornaria o mais sólido bastião de Portugal no Oriente, Goa, a Dourada. No início de 1510, saíra Albuquerque de Cochim para dirigir-se ao Mar Vermelho, quando foi informado por um pirata indiano, Timoja, das condições excelentes para se apoderar de Goa, rico entreposto comercial, cuja população hindu sofria com a opressão de governantes mouros.

Depois de tomar sem grande esforço a fortaleza de Pangim, Albuquerque entrou na cidade praticamente sem dar um tiro. Às suas portas, pôs-se de "joelhos, e, chorando muitas lágrimas, deu graças a Nosso Senhor por aquela mercê que lhe fizera, em lhe dar uma cidade tamanha, e tão poderosa, sem trabalho nem morte de ninguém" (8).
Mas mantê-la não seria assim tão simples. Dois meses depois teve de abandoná-la, após uma heróica luta contra os exércitos de Hidalcão, soberano destronado, que voltou para resgatar a sua cidade com 60 mil turcos, mouros e indianos, 5 mil a cavalo. Mas Albuquerque reapareceu no mês de Novembro seguinte com 20 velas, no dia 25, festa de Santa Catarina, a quem atribuiu depois a vitória. Entrou novamente na cidade, apesar de fortemente defendida, e após renhida luta esta voltou ao domínio dos portugueses, tornando-se, durante cinco séculos, uma das maiores glórias lusas no Ultramar.
Em Malaca, o mais rico centro comercial do Oriente, o génio de Albuquerque e o heroísmo dos seus comandados não foi menor. Cidade imensa, defendida por 30 mil homens, muita artilharia e elefantes amestrados para a guerra, foi atacada por apenas mil e quatrocentos portugueses. A luta durou 15 dias, até que finalmente esse punhado de heróis conquistou a localidade.


Administrador e homem de grande visão

Tanto em Goa quanto em Malaca, empreendeu uma obra administrativa admirável, sábia e eficiente, tornando-se um verdadeiro pai para a populado nativa, a quem defendia com a mais estrita justiça. Quis que cada grupo étnico fosse governado por um dos seus e que se observassem os seus costumes, desde que não fossem imorais. Reduziu os exorbitantes impostos instituídos pelos mouros e cunhou moeda para facilitar o comércio.
Em Goa, foi mais longe. Sabendo que deveria ser a capital de todas as possessões portuguesas no Oriente, estimulou os seus comandados que tinham algum ofício a estabelecer-se na terra, casando-se com mulheres brâmanes e mouras brancas cativas. Dava um dote ao casal, terreno, gado e toda a facilidade para começarem um novo lar. Obteve assim que 450 portugueses se fixassem em Goa, iniciando essa politica inter-racial que foi sempre muito benéfica para Portugal. Havia ainda a vantagem de que, por meio desses casamentos, ia-se propagando a fé de Cristo, pois implicava a conversão das noivas à religião católica.
O plano de Albuquerque, que coincidia com o do rei, era atacar o Egipto pelo Mediterrâneo e pelo Suez. Depois, ir por terra libertar a Palestina. Mas a falta de apoio dos monarcas cristãos fez gorar o plano. No entanto, Afonso de Albuquerque chegou a penetrar no Mar Vermelho e a planear a tomada de Meca com "todos os tesouros que havia nela, que eram muitos, e o corpo do seu mau profeta, para com ele se resgatar a Casa Santa de Jerusalém" (9).
A morte impediu-o de executar esse ousado plano.

Herói vitorioso mas incompreendido


Havia, na administração da Índia, funcionários que estavam directamente ligados ao rei, e que por isso não tinham que prestar contas ao governador. Estes tinham constantes rixas com Albuquerque, que desejava que as coisas fossem rectamente ordenadas. Em vista de tais rixas, os seus desafectos enviavam constantemente cartas ao rei, criticando o grande general. Infelizmente, o monarca acabou por dar ouvidos a esses descontentes. Enviou então um substituto para Albuquerque, que era o seu pior inimigo. E com ele vieram dois capitães que Albuquerque havia remetido ao reino, presos por insubordinação.
Esse facto ocorreu já no fim de 1515, quando Albuquerque se encontrava muito doente. Tal golpe tirou-lhe toda a vontade de viver. Pediu que o levassem para a barra de Goa, para ver mais uma vez a cidade amada, e exclamou:
-- "Mal com os homens por amor de El-Rei, e mal com El-Rei por amor aos homens! Bom é acabar! Acolhamo-nos à Igreja" (10).
Abraçado ao Crucifixo e rezando o salmo Miserere mei, esse gigante entregou a sua alma a Deus na madrugada do domingo, 16 de Dezembro de 1515.
Quando o seu cadáver desembarcou em Goa, sob o pranto geral da população, os gentios exclamavam "que não podia estar morto, senão porque Deus tinha necessidade dele para alguma guerra, que o mandava ir" (11).


Notas:

1. As Excelências da Santa Missa, Editora Vozes, Petrópolis, 1952, p. 26.
2. Gaspar de Albuquerque, Comentários do Grande Afonso de Albuquerque, Coimbra, 1923, Parte I, p. 7, in Costa Brochado, Afonso de Albuquerque, Portugália Editora, Lisboa, 1943, p. 263.
3. Castanheda, História do Descobrimento e Conquista da Índia, Livro 3º, cap. 55, in Costa Brochado, op. cit., p. 263.
4. João de Barros, Décadas da Ásia, Lisboa, 1628, Década II, folha 238, in Costa Brochado, op. cit., p. 263.
5. Costa Brochado, op. cit., p. 265.
6. Id., p. 266.
7. Elaine Sanceau, O Sonho da Índia — Afonso de Albuquerque, Livraria Civilização, Porto, Introdução.
8. Brás de Albuquerque, Comentários Parte II, cap. 20, in Costa Brochado, op. cit., p. 325.
9. Idem, II, parte IV, cap. 7, in Brochado, op. cit., p. 447.
10. Gaspar Correia, Lendas da Índia, vol. 11, parte I, cap. 53, in Brochado, p. 470.
11. Brás de Albuquerque, Comentários, II, parte IV, cap. 46. in Brochado, op. cit., p. 475.

Fonte: "Tesouros da Fé" - Publicação da Associação Acção Família, Nº11, Out./Nov. 2014, Ano I.

Fonte: Arautos D'El-Rei

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

4 de Setembro de 1913 – Casamento D. Manuel II

Casamento Real


Casamento d’ El-Rei D. Manuel II – 4/9/1913.
A  4 de Setembro de 1913, após um curto noivado de 4 meses, Sua Majestade Fidelíssima El-Rei D. Manuel II de Portugal casava-se com a Princesa Augusta Victória von Hohenzollern-Sigmaringen, na capela do Castelo de Sigmaringen. A Princesa germânica era filha do Príncipe Guilherme de Hohenzollern-Sigmaringen (ramo católico dos Hohenzollern) e da Princesa Maria Teresa de Bourbon-Duas Sicílias. El-Rei havia ficado muito impressionado com a Princesa alemã havia um ano, num encontro orquestrado pela Infanta Dona Maria Antónia de Portugal, tia-avó do Rei e avó da Princesa. Assim, após uma pequena conversa a dois, em Abril de 1913, El-Rei pede a mão à Princesa, que aceita prontamente. Segue-se uma pequena comemoração entre noivos e Augustos Pais e, consequência do exílio, um rápido e singelo comunicado oficial: ‘É com a maior alegria que anúncio o ajuste do meu casamento com a Princesa D. Augusta Victória de Hohenzollern-Sigmaringen. Manuel Rei’.
Assim, com este matrimónio era cimentado meio século de aliança entre a Sereníssima Casa de Bragança e a Casa de Hohenzollern, que teve início com o casamento da Infanta Dona Maria Antónia de Bragança (irmã dos Reis D. Pedro V e D. Luís I) com o Príncipe Leopoldo de Hohenzollern-Sigmaringen.
À cerimónia religiosa assistiram cerca de 200 convidados, entre os quais a convalescente Rainha Dona Amélia, David, Príncipe de Gales e futuro Eduard VIII (Duque de Windsor após abdicação), a Duquesa de Aosta, os Príncipes Franz Joseph e Frederik Victor, irmãos da noiva, o Marquês de Soveral e várias senhoras da aristocracia e damas portuguesas e oficiais ingleses que faziam a guarda a El-Rei – por especial deferência do primo e Rei britânico, George V.
El-Rei Dom Manuel II fez questão de casar permanecendo de pé sobre um caixote carregado de terra portuguesa, e trajou casaca, complementada com o calção da Ordem da Jarreteira de que era simultaneamente o mais jovem cavaleiro de sempre e o último português a ser agraciado com a mais distinta das Ordens Honoríficas britânica e mundiais. No calção distinguia-se a liga azul-escuro com rebordo e letras a dourado colocada no joelho esquerdo com a divisa da Ordem, ‘Honni soit qui mal y pense’. Da mesma Ordem usava a Estrela, presa ao peito esquerdo, com uma representação colorida esmaltada do escudo heráldico da Cruz de São Jorge, rodeado da Ordem da Jarreteira, cercada por um emblema de prata de oito pontos. Ao pescoço, El-Rei usava a Ordem do Tosão de Ouro, e para além de mais Ordens usava aBanda com a Placa das Três Ordens Militares Portuguesas, colocada debaixo da casaca, para o lado da anca esquerda. Já Dona Augusta Victória usou um vestido de noiva matizado a azul e branco, prestigiando as cores da Bandeira do Reino de Portugal e da Monarquia Portuguesa. Na cabeça segurando o véu que fora usado pela sua avó a Infanta Dona Antónia de Bragança quando casara com o Príncipe Leopoldo de Hohenzollern-Sigmaringen, um diadema com motivos de flor-de-lis.
Casamento Real
Dona Augusta Vitória tornava-se Rainha consorte, mas não Rainha de Portugal, pois o Rei já se encontrava exilado. O casamento feliz durou até à trágica morte de Sua Majestade o Rei, em 1932.
Miguel Villas-Boas

domingo, 4 de setembro de 2016

Sanção e Dalila

Em Portugal, há uma ancestral cultura de irresponsabilidade política, talvez porque se pensa que as eleições são suficientes para punir quem não merece ser reeleito.

Não, não é gralha: eu sei que o nome da lendária figura bíblica, seduzida e derrotada por Dalila, é Sansão e que sanção, segundo o dicionário da Academia das Ciências de Lisboa, não é nenhum nome próprio, mas uma “medida repressiva infligida por uma autoridade para condenar um acto”. Mas também sei que Portugal, quando esteve na iminência de ser exemplarmente castigado pelas autoridades europeias, viveu uma das mais trágicas comédias da sua história contemporânea. A tempestade já passou e, felizmente, tudo não foi além de um grande susto, mas o espectro dessa ameaça perdura na lembrança de todos, bem como nos cartazes que ainda expressam a indignação patriótica pela eventualidade do castigo, que só in extremis a diplomacia portuguesa conseguiu evitar.
Ultrapassado o incidente, é hora de retirar algumas ilações éticas do acontecimento, não já sob a nociva influência das paixões, mas por via de uma mais serena ponderação da razão, até porque é possível, mas não desejável, que a situação se repita, num futuro mais ou menos próximo.
Em primeiro lugar, tudo leva a crer que as instâncias europeias, agindo de forma hesitante quanto à aplicação, ou não, de coimas a Portugal, fomentaram um clima de grande insegurança. O princípio da legalidade exige regras claras, porque questões desta natureza não podem ser deixadas à arbitrariedade dos políticos ou, pior ainda, dos tecnocratas de turno. Se são as instituições europeias que hesitam, na interpretação ou na aplicação das suas próprias normas, privilegiando, por exemplo, os Estados mais fortes, é a União Europeia que perde credibilidade e fomenta a indignação dos países discriminados, que os partidos extremistas da direita e da esquerda capitalizam em seu proveito.
Para bem do ideal europeu – que, para alguns dos fundadores da União, é essencialmente cristão – a aplicação das normas comunitárias não pode ficar à mercê de contingências ou de compadrios, como foi, ao que parece, o que aconteceu. Quem não se lembra da novela?! Um dia, era o Presidente francês que intercedia pelos coitadinhos dos portugueses; depois, um ministro alemão arreganhava os dentes contra os governantes lusos; mais tarde, reagia o melindrado governo, com voz grossa, retaliando com o eventual recurso às instâncias judiciais; para acabar tudo numa paradoxal e paternalista sugestão de ‘sanção zero’ …
Embora não tenha nenhuma afinidade partidária, como exige a minha condição sacerdotal, confesso que, como qualquer outro cidadão português, muito me incomodou essa humilhação nacional. Mas também me desagradou o culto da irresponsabilidade pelos que, reconhecendo o incumprimento das metas orçamentais, pretenderam depois, de forma muito portuguesinha, que se desse um “jeito”, que se tivesse uma “atençãozinha” e não se levasse a mal o despiste financeiro…
Alguém disse que, a par da gigantesca estátua da liberdade, em Nova Iorque, dever-se-ia erguer uma não menor estátua à responsabilidade, porque uma liberdade não responsável de nada vale. Em Portugal, há uma ancestral cultura de irresponsabilidade política, talvez porque se pensa que as eleições são suficientes para punir quem não merece ser reeleito, apesar de o processo eleitoral beneficiar, por vezes, os mais espertos que, por desgraça, nem sempre são os mais honestos, nem os mais competentes…
Se um qualquer autarca endivida o município com a construção de uma piscina olímpica, num lugarejo onde apenas vivem três jovens de mais de oitenta anos, é certo e sabido que fica impune e, se calhar, até ganha a reeleição, à conta da ‘obra feita’… Umas pontes ou estradas derrapam para o dobro do custo orçamentado? Não importa, porque de certeza que ninguém será responsabilizado. Uns membros do governo viajam à borla, a convite de empresas sob a sua alçada, comprometendo assim a sua isenção e acção governativa?! Não há crise: nem eles se demitem, nem ninguém os demite e, uns meses depois, já ninguém fala do assunto e fica tudo na mesma…
A pérfida Dalila foi a desgraça de Sansão porque, depois de o ter seduzido com os seus encantos femininos, cortou-lhe as tranças, que eram a razão da sua descomunal força. A Dalila que enfraquece a nossa democracia e a União Europeia tem um nome: irresponsabilidade.
Mesmo que, segundo a normativa comunitária, fosse justa a sanção ao nosso país, teria sido certamente lamentável porque, mais uma vez, iria sobrecarregar os que mais sofreram com a austeridade. Mas a questão que, novamente, ficou sem resposta, foi a de saber de quem foi a responsabilidade por ter havido um défice excessivo. Seria uma pena que, apesar do susto, nada se tivesse aprendido e a culpa política, em Portugal, de novo morresse solteira.
Fonte: Observador

sábado, 3 de setembro de 2016

180 Anos de Remo


Autor: Carlos Manuel Gomes Henriques

A prática do Remo em Portugal, enquanto desporto organizado, terá começado em 1828 com a fundação do Arrow Club por Abel Power Dagge, os irmãos Pinto Basto e alguns elementos da colónia britânica residente na metrópole, segundo documentos inéditos que nos foram recentemente facultados pela família Dagge.

Do referido acervo documental constavam as actas de fundação de várias associações náuticas, a sua correspondência e deliberações das Assembleias Gerais, assim como memórias de Abel Power Dagge, membro fundador da Real Associação Naval e do Clube Naval de Lisboa, quiçá o primeiro desportista náutico a existir em Portugal.

Segundo José Pontes, no seu livro “Quasi um século de desporto”, a primeira regata de desportistas amadores oficialmente realizada em Portugal foi de Remo, corria o ano de 1849, e foi promovida por Abel Power Dagge.

São célebres, pelo menos a partir de 1852, por ocasião dos festejos anuais de Paço de Arcos, as Regatas em barcos à vela e a remos, promovidas pelo Conde das Alcáçovas, por um grupo de aristocratas, alguns deles ligados à Casa Real, e por elementos da colónia inglesa. A regata de 1853, foi presidida pelo infante D. Luiz que se fez conduzir a bordo do vapor da Marinha de Guerra Portuguesa Conde de Tojal. Aproveitando a estadia do barco de guerra inglês Odin, fundeado na Baia de Paço Arcos, realizou-se uma corrida de remos entre marinheiros portugueses e ingleses. Do programa de 1854, constava a participação de duas guigas de 4 remos, tripuladas por “curiosos”.
Na sequência destes eventos, foi fundada em 1855 a Real Associação Naval, a mais antiga agremiação desportiva da Península Ibérica e uma das mais antigas do mundo.

O interesse despertado pelo «divertimento das regatas», associado ao “gosto e predilecção” da Família Real pelos passeios a remos no Tejo, deram lugar em 1861, à formação de dois grupos de remadores. O primeiro grupo era composto na sua maioria por ingleses mesclado dealguns portugueses e, o segundo, era constituído exclusivamente por indivíduos da colónia alemã. Estes dois grupos de amadores remavam também em guigas de 8 remos, construídas propositadamente para esse fim pelos construtores Luís Silvério de Faria e I. C. Dangebau, que se denominavam respectivamente Lusitânia e Germânia. A guiga Lusitânia, construída em 1862, tinha 12,80 m de comprimento e 1,83 m de largura, tendo custado 201,600 reis. Segundo os nossos registos, esta guiga deverá ter sido a primeira embarcação desportiva de remo construída em Portugal e por um mestre português. Destes acalorados desafios resulta então a fundação, em Lisboa, do Tagus Rowing Club e do Club dos Remeiros Lusitano, dois dos primeiros clubes de remo instituídos em Portugal.

Numa época em que o remo desportivo era a modalidade de eleição praticada pela elite inglesa residente na região norte é fundado, em 20 de Junho de 1866 o Oporto Boat Club, em 1868 o Clube Naval Portuense e em 1876, o Club Fluvial Portuense, fundado num antigo café da Ribeira, o Café de Santo Amaro, resultante do entusiasmo de um grupo de portuenses pelos desportos náuticos. Este último, ainda em actividade trata-se da colectividade desportiva mais antiga do Norte de Portugal. O Oporto Boat Club era apenas constituído por ingleses, possuindo tripulações de muita qualidade e na altura consideradas invencíveis. Segundo as nossas consultas a sua primeira derrota foi em 1907, sobre a qual tratamos mais à frente. Na segunda metade do Séc. XIX, a Figueira da Foz era o local de ferias durante os meses de Agosto a Outubro das elites portuguesas, aparecendo a veranear também alguns espanhóis. Neste contexto formam-se na Figueira a Associação Naval Figueirense, com estatutos de 1866 e o Clube Moderno cujos estatutos datam de 1881. A 14 de Outubro de 1880 funda-se em Setúbal a Associação Fluvial Setubalense, mostrando-nos que o gosto pelos desportos náuticos em Setúbal também é muito antigo. Em 1884, ainda por iniciativa de Abel Power Dagge, foi criado o primeiro Campeonato que se realizou em Portugal. As regatas foram efectuadas no Tejo durante três anos seguidos, em skiff, como competidores estiveram os ingleses Hickei e Mitchel e o futuro Barão de Almeirim, Manuel Braamcamp, que venceu os ingleses e conquistou o Titulo de Campeão do Tejo, ganhando uma medalha de ouro que usava com orgulho na corrente do seu relógio. É durante este ano, 1884, que as regatas passam a ser sempre em linha recta na distância de uma milha aproximadamente. Anteriormente eram normalmente efectuadas entre duas bóias com ida e volta. Em 27 de Janeiro de 1892, são aprovados os estatutos do Club Naval de Lisboa, já em actividade desde Novembro de 1891. Com o aparecimento do Clube Naval de Lisboa os desportos náuticos e o Remo em particular, ganham um notável incremento porque o recém-criado Clube imprime um grande dinamismo na prática desportiva. No dia 1 de Maio de 1893 é fundada na Figueira da Foz, a Associação Naval 1º de Maio, a primeira colectividade de cariz eminentemente popular instituída em Portugal, nascendo segundo Maria Alice Guimarães, como continuidade da Associação Naval Figueirense. Nesse mesmo ano, a Real Associação Naval e o Real Gimnásium Club Português criam as suas secções de Remo. Na cidade de Aveiro, em 1894, o Ginásio Clube Aveirense organiza uma secção de Remo, que mais tarde viria a chamar-se Clube Mário Duarte. Logo a seguir a 1 de Janeiro de 1895 é fundado o Ginásio Clube Figueirense, como Clube Gimnastico Velocipedico Figueirense, porventura a continuação do Clube Ginástico, fundado anteriormente nesta cidade em 1889. Em 1896, D. Carlos e D. Amélia passearam-se num escaler de 8 remos durante a Regata de Cascais organizada pela Real Associação Naval na qual competiram nove provas de Remo e seis de Vela. Aquela regata, destacou-se pela grande adesão do público que acorreu à margem para assistir àquele que foi um dos maiores eventos desportivos realizados em Portugal. Nesse dia a vila recebeu seis mil visitantes. Para comemorar os aniversários do Rei D. Carlos e da Rainha Dª Amélia, o Real Club Naval de Lisboa decide realizar as Regatas de Cascais em 29 de Setembro de 1901, a que se seguiram nos anos seguintes, na mesma data, regatas idênticas que se celebrizaram pelo seu esplendor. Podemos ler no Livro de actas da Comissão de Regatas do Real Club Naval de Lisboa que nesta regata existiram provas disputadas por senhoras da sociedade constituindo, provavelmente, uma das primeiras manifestações de desporto feminino em Portugal. Aproveitando o apoio e beneplácito do seu Comodoro, Sua Majestade El Rei D. Carlos, o Clube Naval de Lisboa cresceu e difundiu os Desportos Náuticos pelo País abrindo secções e Postos Náuticos em Azambuja, Cascais, Trafaria, Luanda, Lourenço Marques, Portimão, Lagos, Pedrouços e Funchal. Estas delegações evoluíram mais tarde para os actuais clubes existentes nestas localidades. No alvorecer do século XX despertava grande interesse as regatas em guigas de quatro e de seis remos. No entanto, a falta de uniformidade nas características das embarcações, a que se juntava uma deficiente regulamentação, suscitavam frequentes conflitos que, em alguns casos, conduziam à quebra de relações entre as principais agremiações náuticas. Em 1898, no Centenário da Índia devido a um empate numa regata de Remo os atletas da Real Associação Naval e do Real Clube Naval envolveram-se numa zaragata que destruiu a Cervejaria Jansen, no Cais do Sodré, com prejuízos no valor de 400.000 réis (O Infante D. Afonso quis inteirar-se pessoalmente do ocorrido) e em 1906 houve mesmo um duelo à espada, em Cascais, entre Alberto Totta do CNL e Carlos Sá Pereira da ANL, devido a uma regata da Taça Lisboa.

A necessidade de regulamentação das regatas de Remo mereceu alguma reflexão no “Congresso Marítimo Nacional”, promovido pela Liga Naval Portuguesa, em 1902, sem que contudo daí resultasse alguma alteração tendo, no entanto, sido aprovada a tese “Impulsionamento do rowing nacional. Sua utilização possível na educação física do povo português”, da autoria de Joaquim Leotte dirigente do Clube Naval de Lisboa e o grande responsável pela instituição da Taça Lisboa a prova mais importante do Remo Português.

É neste contexto que em 1904, a pedido de Joaquim Leotte, a Associação Naval de Lisboa, o Clube Naval de Lisboa, o Clube de Aspirantes de Marinha e o extinto Clube Naval Madeirense instituíram a Taça Lisboa em Remo como Campeonato de Portugal, Taça ainda hoje em competição, constituindo a prova desportiva mais antiga do nosso país. Assim nasceu a Taça Lisboa e a Convenção que se lhe seguiu assinada pelos mesmos clubes, a 20 de Abril de 1904. A primeira regata da taça foi realizada a 29 de Maio, ao longo da muralha da Junqueira, entre as docas de Santo Amaro e do Bom Sucesso. A Convenção, o primeiro regulamento de regatas de Remo, estabelece as bases para a regulamentação “das corridas de embarcações de Remo e tinha como fim último promover “o desenvolvimento do rowing portuguez”, a ela se devendo orápido desenvolvimento que o Remo atingiu nos anos que se lhe seguiram.

Nos Jogos Olímpicos de 1908, Henry Bucknall, o voga da tripulação de Shell 8 de Inglaterra, que venceu a medalha de ouro, foi remador do Clube Naval de Lisboa. Filho do seu Comodoro Bucknall, tendo associado a si e a seu pai uma história de desforra entre o CNL e uns ingleses do Porto, como já tínhamos descrito anteriormente. Em 1907 depois de várias derrotas e humilhações dos remadores portugueses contra as tripulações invencíveis dos ingleses do Porto, o Comodoro Bucknall, agarrou no seu filho e meia dúzia de atletas do CNL e levou-os para estágio para uma propriedade que possuía em Sarilhos. Dos treinos bastante puxados apenas resistiram o seu filho e mais três jovens que desafiaram e venceram os ingleses numa regata em Cascais, era a primeira vez que alguém lhes ganhava. Deverá ter sido, também, o primeiro estágio de “competição” efectuado no nosso Pais.  

Logo a seguir uma tripulação da Real Associação Naval consegue um feito idêntico e acaba-se o mito dos ingleses do Porto. Em 1908 o Dr. António Rainha oferece ao Ginásio Figueirense a Taça Mondego para ser disputada em inriggers de 4 remos na distância de uma milha, por todas as tripulações nacionais existentes, sempre no rio Mondego. Em 1911 Francisco Bento Pinto oferece à Associação Naval 1º de Maio a Taça Alzira, disputada no mesmo tipo de embarcação mas como Campeonato Regional. Segundo o grande dirigente figueirense Severo Biscaia: “A disputa da Taça Alzira constituía um grande alvoroço e assunto de todas as conversas, atiravam-se pedras de cima da ponte à passagem das embarcações, e ouviam-se muitos insultos mútuos pois os do Ginásio eram finitos que só comiam bifes e bebiam água das pedras e os da Naval uma data de carroceiros que se alimentavam a vinho tinto e sardinha.” A proclamação da República teve repercussões nos Desportos Náuticos, sobretudo na Vela com o desaparecimento dos Yachts Reais. Consequentemente, os clubes apadrinhados pela Família Real sofreram um duro revés, foi necessário mudar de nome e de pavilhão.

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quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Relembrar a Infanta D. Maria Adelaide

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No próximo dia 10 de Setembro pelas 15,00hs a Real Associação de Lisboa, através do seu Núcleo Sul do Tejo promove uma homenagem a S. A. a Senhora Infanta D. Maria Adelaide que decorrerá na Fragata “D. Fernando II e Glória”, na Doca de Cacilhas. Esta evocação contará com a presença de SS AA RR os Senhores Duques de Bragança, com um depoimento de Raquel Ochoa, autora do livro “A Infanta Rebelde” e com os importantes testemunhos vivos dos seus familiares e amigos próximos.
D. Maria Adelaide de Bragança van Uden (1912-2012), neta de D. Miguel I de Portugal, é um exemplo de cidadania e serviço ao próximo, desde os dias da resistência ao III Reich até à obra social da Fundação D. Nuno Álvares Pereira por si criada.
Para mais esclarecimentos e inscrições contacte-nos através do endereço secretariado@reallisboa.pt, pelo telefone 21 342 8115 ou presencialmente na nossa Sede – a partir de 5ª feira dia 1 de Setembro.

Contamos com a sua presença!

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Celebração dos 125 anos da chegada do comboio à Covilhã e da visita da Família Real

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Com o objectivo de assinalar os 125 anos da chegada do comboio à Covilhã, a autarquia em parceria com as Infraestruturas de Portugal, CP, Fundação do Museu Nacional Ferroviário e várias associações locais, elaborou um programa de actividades que incluem exposições, publicações e recriações históricas.

Entre 6 e 31 de Setembro, estará patente ao público, na Estação de caminhos-de-ferro, da Covilhã, a exposição “Na Linha desde 1891”. O momento alto destas comemorações terá lugar no dia 6 de Setembro, dia do 125º aniversário da chegada do comboio à cidade, com uma recriação histórica, também na Estação de CP, a partir das 18 horas, que contará com largas dezenas de figurantes. Este evento pretende recrear o programa da visita dos reis D. Carlos e D. Amélia à Covilhã nos dias 6 e 7 de Setembro de 1891. Neste dia será ainda distribuída uma edição fac-similada do jornal publicado há 125 anos por Pedroso dos Santos, Presidente da Câmara da Covilhã e Governador Civil de Castelo Branco, intitulada “ 6 de Setembro de 1891”


Fonte: Jornal do Fundão

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

SENHORES DUQUES DE BRAGANÇA PRESENTES NO COCKTAIL DO DIA NACIONAL DE LUXEMBURGO





MALA DIPLOMÁTICA - Dia Nacional do Luxemburgo Foi num fim de tarde soalheiro que decorreu o cocktail comemorativo do Dia Nacional do Luxemburgo, nos jardins da Embaixada, na Rua das Janelas Verdes em Lisboa. 

O Dia Nacional do Grão-Ducado comemora-se tradicionalmente no aniversário do nascimento do Grão-Duque, sendo que a data escolhida originalmente era 23 de Janeiro, dia em que, no ano de 1896, nasceu a Grã-Duquesa Carlota (Charlotte), que reinou naquele país entre 1919 e 1964. 

Por razões climatéricas, a comemoração passou, desde 1961, a fazer-se a 23 de Junho, data estival que se mantém até hoje. 

A festa acabou por ser simultaneamente a ocasião para o Embaixador Paul Schmit fazer as suas despedidas antecipadas, já que o seu mandato termina no próximo mês de Agosto.


Revista Diplomática de 01-07-2016


domingo, 28 de agosto de 2016

Cristianismo e Jogos Olímpicos

Se é à revolução francesa que se deve a restauração do olimpismo, como explicar que os Jogos Olímpicos só tenham recomeçado “moderna e definitivamente em 1896”, ou seja … mais de cem anos depois?!


No Público de 19 de Agosto passado, o historiador Rui Tavares, que também é fundador do Livre, escreveu: “o que acabou com os Jogos Olímpicos antigos foi a chegada ao poder do cristianismo. Teodósio, o primeiro imperador cristão a governar sobre o Império Romano (Constantino foi o primeiro a converter-se ao cristianismo, mas já perto da sua morte), emitiu uma série de decretos abolindo todo o tipo de cultos aos deuses pagãos, e foi assim que os Jogos Olímpicos, que eram tanto uma festa religiosa quanto desportiva, se extinguiram por mais de mil e quatrocentos anos. Teodósio era orgulhosamente intolerante contra os rituais, as imagens e a sensualidade do paganismo”.
É curioso que este historiador, embora reconheça que Constantino foi o primeiro imperador romano cristão, não o considere como tal, para efeitos dos Jogos Olímpicos. Porquê? Porque morreu cedo, o homem. A verdadeira razão, contudo, parece ser outra: como dava jeito que o primeiro imperador cristão pudesse ser apresentado como um fundamentalista inimigo do olimpismo, o fundador do Livre achou por bem suprimir Constantino para, falseando a história, apresentar Teodósio como “o primeiro imperador cristão a governar sobre o Império Romano”. Esclarecedor, não é?
Também omite – esquecimento, ignorância ou simples má-fé? – que Teodósio, na fase inicial do seu reinado, foi tolerante com os pagãos e favorável à conservação dos seus templos e estátuas, embora tenha reiterado, em 381, a proibição de Constantino em relação aos sacrifícios, interditando, dez anos mais tarde, os sacrifícios de sangue. Apesar de o fundador do Livre afirmar que o cristão Teodósio era “orgulhosamente intolerante”, a verdade é que, por exemplo, quando em 388 alguns cristãos incendiaram a sinagoga de Calínico, na Mesopotâmia, Teodósio ordenou ao bispo local que reconstruísse a sinagoga, disponibilizando os necessários recursos, e que punisse os incendiários. Para “intolerante”, convenhamos que não está nada mal!
Mas, Teodósio seria de facto orgulhoso? No ano 390, Santo Ambrósio de Milão excomungou este imperador, por ele ter ordenado o massacre de Salónica, como represália pelo assassinato do governador militar dessa cidade. Só depois de Teodósio ter humildemente manifestado o seu arrependimento e feito, durante vários meses, penitência pública, foi levantada a excomunhão e o imperador, que os ortodoxos veneram como santo, foi readmitido na Igreja. A este propósito, Teodósio diria mais tarde: “Sem dúvida, Ambrósio fez-me compreender pela primeira vez o que deve ser um bispo”. Um todo-poderoso imperador romano que se humilha a este ponto, ante um indefeso bispo católico, seria assim tão orgulhoso?!
Mais surpreendente é, contudo, a originalíssima tese deste historiador em relação ao renascimento da prática olímpica: “Após Teodósio, só se voltou a falar do restabelecimento dos Jogos Olímpicos com a Revolução Francesa” (com maiúsculas no seu texto, ao contrário de Cristianismo, que escreve sempre com minúscula, vá-se lá saber porquê …). Portanto, segundo este cronista, durante um milénio ninguém sequer falou dos Jogos Olímpicos!
Mas, se é à revolução francesa que se deve a restauração do olimpismo, como explicar que, como o dito historiador reconhece, os Jogos Olímpicos só tenham recomeçado “moderna e definitivamente em 1896”, ou seja … mais de cem anos depois?!
Aliás, é curioso que se omita a obrigatória referência a Pierre de Frédy, que foi, de facto, o restaurador das Olimpíadas e que, por sinal, não só não tinha nada a ver com a revolução francesa, como era, pelo contrário, um aristocrata, que foi baptizado na Igreja católica, estudou num colégio jesuíta, pediu e obteve, para o olimpismo moderno, a bênção do Papa São Pio X e era amigo do padre dominicano Henri Didon, que foi o autor do lema olímpico. Se o dito fosse revolucionário e ateu, decerto que teria tido direito, por parte deste historiador, a uma menção honrosa, mas sendo barão de Coubertin e, ainda pior, cristão, nada feito!
Também não se referem os Jogos Olímpicos de Berlim, quando Hitler aproveitou esse acontecimento desportivo mundial para exaltar a raça ariana e fazer propaganda do regime nazi. Se um chefe de Estado então recusasse a participação do seu país nesses Jogos, o fundador do Livre também o condenaria por ser “orgulhosamente intolerante”?! Não é verdade que, se algum estadista o tivesse feito, para não colaborar com o nazismo, teria merecido o respeito e a admiração de todos os verdadeiros humanistas e democratas?
Igualmente se omitem outras diversões da antiguidade greco-romana a que os imperadores romanos cristãos também puseram termo, como os combates circenses, em que tantos cristãos foram barbaramente assassinados. É verdade que a revolução francesa não restaurou esses degradantes espectáculos pagãos, mas retomou as perseguições de morte aos cristãos, a que o comunismo, por sua vez, tem dado, desde 1917 até à actualidade (China, Coreia do Norte, etc.), generosa continuidade.
Este cronista do «Público», para além de historiador, foi também fundador do Livre. É, de facto – honra lhe seja feita! – um historiador livre, não dos antiquíssimos preconceitos marxistas e anticristãos, mas da realidade dos factos. Afinal de contas, quem é que é “orgulhosamente intolerante”?!
Fonte: Observador

sábado, 27 de agosto de 2016

ALJUBARROTA VIVE?



EFEMÉRIDE
ALJUBARROTA VIVE?

14/08/16

“Aljubarrota, Exmº Senhor não é um acto isolado na história de Portugal e pode repetir-se sempre que haja um governo consciente da sua missão e saiba pôr acima dos interesses particulares o interesse nacional e não faça da cobardia uma virtude cívica.”
General Gomes da Costa, 15 de Agosto de 1925.


Passam hoje 631 anos, que o Exército Português, pequeno em meios, mas grande na alma, esmagou o poderoso exército castelhano e gascão, na luminosa tarde desse longínquo 14 de Agosto.

Conseguiu-o com a graça de Deus e o valor dos seus soldados e chefes.

Comandava a hoste aquele que viria a ficar na História como o Rei de “Boa Memória”, e o seu talentoso Condestável, o “grande” D. Nuno Álvares Pereira, canonizado em 2009, com o nome de São Nuno de Santa Maria.

A escolha do ponto de expectativa estratégica, onde se concentraram as tropas, Abrantes – um verdadeiro ”umbigo” do País – permitiu a melhor vigilância do teatro de operações e dos objectivos possíveis e, por isso, constituiu a melhor opção para a tomada de decisões.

Mas foi a audácia e determinação do jovem Nuno, que decidiu a contenda ao forçar a dar combate e cortar o passo ao Rei de Castela que, naturalmente, se dirigia a Lisboa, e à sua competência técnica e táctica, na escolha e organização do local onde se travaria a batalha e, com isso, ter anulado a vantagem numérica do inimigo.

Em cerca de 30 minutos tudo estava resolvido e os castelhanos e gascões estavam em debandada, tendo muitos deixado lá os ossos e muitos mais provado o sangue, o suor e o pó do combate!

Foram-se em luto e em vergonha, mas depois disso e até hoje, tentaram voltar muitas mais vezes.

E não só pela força das armas, como é demonstrado pelas acções capciosas da economia, cultura e, sobretudo, financeiras, contemporâneas.

Aljubarrota foi importante?

Não, foi decisiva.

Não fora a vitória nessa, para sempre gloriosa, jornada, e hoje seriamos completamente diferentes do que somos. E não seriamos melhores.

Como afirmou Fernando Pessoa, “os espanhóis, nossos absolutos contrários”…

O magnífico mosteiro de Santa Maria da Vitória – vulgo Batalha – aí está para eternizar o evento, já que a juventude portuguesa deixou de saber o que se passou e seu significado.

Os pais e professores (já nem falo na cáfila política) deixaram de lhes ensinar seja o que for sobre a História de seus avós. É uma coisa terrível.

Até o Exército deixou de comemorar condignamente a data, apesar da mesma representar o “Dia da Infantaria Portuguesa” e o seu imorredoiro Patrono, que sendo um nobre cavaleiro, apeou para combater, pois tal melhor se coadunava com as características do terreno e da ordem de batalha.

Estimo que a infantaria portuguesa (enfim, o que resta dela) nunca perca de vista os exemplos daqueles que lhes servem de modelo, para que se possa sempre cobrir da glória de bem - fazer, e nunca de opróbrio.

Aos heróis de Aljubarrota:

APRESENTAR ARMAS!


João José Brandão Ferreira
Oficial Piloto Aviador

Fonte: O Adamastor