quarta-feira, 18 de abril de 2018

Por favor, privem-se de dizer disparates

Foto de Nova Portugalidade.


Insistem alguns historiadores desonestos no argumento de um “racismo português” igual àquele praticado por ingleses, holandeses e outros europeus e que só a ascensão de Obama à presidência dos EUA constituíra a primeira grande demonstração de paridade de direitos. A ignorância tem destas coisas, pois lembraria aos mais afoitos mistificadores que Portugal teve no século XVI os primeiros bispos negros, no século XVII um grande diplomata e príncipe das letras que dava pelo nome de António Vieira - mestiço muito escuro - e no século XVIII o primeiro primeiro-ministro misto da Europa. Obama foi, assim, como produto promocional sem novidade, apenas tido como excepção para os ignorantes da história portuguesa. Lembro que Ronald Daus - historiador de grande fôlego infelizmente pouco conhecido do público português - estudou durante décadas a antropologia racial portuguesa dispersa pelos azimutes do planeta e chegou a conclusões espantosas; a saber, que o império português foi, durante séculos, mantido, regido e administrado por negros, indianos, chineses, mistos de todos os cruzamentos e até, pasmem-se os ouvidos pudibundos, por escravos. Foi esse o segredo da nossa longevidade. Ao quebrá-lo, em 1820, com a invenção da cidadania - e depois, com a criação das colónias e províncias ultramarinas, acto de estupidez a reboque o colonialismo europeu - perdemos essa grandeza que nos fazia detestados e temidos pelos inimigos de Portugal.

MCB

terça-feira, 17 de abril de 2018

Notícias sem destaque nos jornais

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Por ocasião dos 100 anos da batalha de La Lys, foram inaugurados há dias na Igreja de St. James, em Twickenham nos arredores de Londres, estes vitrais em memória de S.M.F. D. Manuel II e dos combatentes portugueses na I Grande Guerra que o nosso último rei, apesar de no exílio, foi incansável no apoio. Twickenham foi a morada de exílio de D. Manuel II depois da revolução de 5 de Outubro e St. James a igreja que frequentava. Os seus paroquianos nunca o esqueceram. 


João Távora


Fonte: Corta-fitas

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Portugal não tem fronteiras e confunde-se com o mundo



Para matar saudades da Portugalidade thai, uma pratada de Foi Thong, a sobremesa de eleição da gastronomia tailandesa. Ora, este Foi Thong foi introduzido no século XVII no Sião pelos portugueses e é nem mais que os nossos fios de ovos ("fios dourados"), também conhecido por Kanom Protuket (doce português). O mundo é sempre pequeno para nós, portugueses.


domingo, 15 de abril de 2018

Uma lei perigosa

Os suicídios de adultos que recorreram a tratamentos com hormonas do sexo oposto, ou se submeteram a cirurgias de mudanças de sexo, é 20 vezes superior ao normal.

Por uma unha negra – 109 votos contra 106 – o parlamento aprovou ontem a lei que permite a qualquer jovem de 16 anos determinar, sem necessidade de qualquer relatório médico, o seu género. Ou seja, mudar no registo civil o seu nome próprio – de masculino para feminino, ou vice-versa – e averbar como seu o sexo correspondente. Só quando for maior de idade, aos 18 anos, estará autorizado a requerer intervenções cirúrgicas e médicas que simulem o sexo com que se identifica; mas, na realidade, não muda de sexo, apenas altera a sua aparência anatómica.
Entende a ideologia de género que a identidade sexual é algo essencialmente subjectivo e não determinado física e biologicamente, e que a aparência sexual/morfotipo deve ser a que corresponda a essa identidade. O corpo humano é masculino ou feminino, mas o género admite mais de cinquenta modalidades: ‘gender fluid’, ‘gender variant’, ‘genderqueer’, ‘gender questioning’, ‘gender nonconforming’, ‘agender’, ‘bigender’, ‘cisgender’, ‘cisgender male’, ‘cisgender female’, etc. Não existindo nenhum fundamento objectivo do género, este depende apenas da decisão do próprio, que pode optar pela identidade sexual que entenda mais adequada à sua personalidade. Mais ainda: não só tem absoluta liberdade para determinar o seu género, como tem também o direito a ser tratado, para todos os efeitos sociais, como tal.
Mas, qual é a opinião dos especialistas na matéria? O Colégio Americano de Pediatras, através da sua presidente, Michelle A. Cretella, e da sua vice-presidente, Quentin Van Meter, realizou um estudo, exclusivamente científico, sobre transexualidade juvenil. As suas conclusões foram resumidas por Javier Fiz Pérez, em artigo publicado, no passado dia 1 de Março, no ‘site’ Aleteia, do grupo mediático europeu Media Participations:
  1. A sexualidade humana é um traço binário, biológico e objectivo. Os genes XX e XY são identificadores genéticos de um estado normal de saúde, não de um transtorno. O que é natural, no plano genético humano, é ser homem ou mulher. A sexualidade humana está projetada de maneira binária, com uma interconexão evidente com a reprodução e multiplicação da nossa espécie.
  2. Ninguém nasce com género. Todo ser humano nasce com sexo biológico. Ninguém nasce com a consciência de si mesmo como homem ou mulher. Essa consciência é desenvolvida com o tempo e, como todo processo de desenvolvimento, pode ser influenciada pelas percepções subjectivas da infância. As pessoas que se identificam com ‘a sensação de pertencerem ao sexo oposto’, ou ‘a algum ponto intermédio’, não formam um terceiro grupo sexual, porque continuam a ser, em termos biológicos, homens ou mulheres.
  3. Quando uma criança, biologicamente saudável, pensa que pertence ao sexo biológico oposto, padece um problema psicológico e não físico, uma disforia de género, reconhecida como um transtorno mental na mais recente edição do Manual de Diagnósticos e Estatísticas, da Associação Americana de Pediatria (DSM-V), uma entidade não confessional.
  4. O bloqueio das hormonas da puberdadeprovoca a ausência de puberdade, inibindo, assim, o crescimento e a fertilidade de uma criança que, antes de uma intervenção dessa natureza, era biologicamente saudável.
  5. A grande maioria dos jovens – 98% dos rapazes e 86% das raparigas – que, durante a infância e juventude, tiveram problemas de identificação com o seu sexo biológico, aceitam, depois da puberdade, o seu sexo biológico.  Os dados são do DSM-V, um guia clínico para psicólogos e psiquiatras.
  6. A utilização de hormonas sexuais do sexo oposto tem riscos para a saúde: altera a pressão arterial, causa a formação de coágulos no sangue, provoca AVC e cancro.
  7. Nos adultos que usaram hormonas do sexo oposto, ou se submeteram a uma cirurgia de mudança de sexo,as taxas de suicídio são 20 vezes maiores do que em pessoas que não se sujeitaram a esses tratamentos, nem fizeram essas operações.
  8. A suplantação do sexo biológico por cirurgias e produtos químicos não é normal, nem saudável, ao contrário do que se diz aos jovens com estes problemas.
Segundo as estatísticas, a identificação dos jovens com o sexo oposto é um transtorno da personalidade que, em 92% dos casos, é depois ultrapassado. Pergunta-se então: por que razão o parlamento português, sem nenhuma autoridade científica na matéria, quer facilitar que adolescentes, que ainda não chegaram à maturidade psíquica e sexual, nem à maioridade, que ainda não podem beber em público bebidas alcoólicas, nem sequer votar, possam precipitar uma decisão que tem gravíssimas repercussões na sua saúde física e mental?! Mais penoso é saber que os suicídios de adultos que recorreram a tratamentos com hormonas do sexo oposto, ou se submeteram a cirurgias de mudanças de sexo, é 20 vezes superior ao normal. Assim sendo, esta nova lei não é apenas temerária, mas potencialmente homicida.
A Igreja é particularmente sensível ao imenso sofrimento dos jovens que padecem disforia de género e das suas famílias. Prova disso são as inúmeras instituições católicas especialmente vocacionadas para o seu apoio. Mas também sabe que a complacência com essas disfunções não é o caminho que melhor serve essas pessoas, que devem ser ajudadas, psíquica, clínica e espiritualmente, a aceitarem a verdade sobre a sua identidade sexual e a amarem-se a si mesmas como realmente são, que é também como Deus as ama. A Igreja ensina que essa sua condição – como, aliás, qualquer orientação sexual – em nada diminui a sua dignidade, nem impede a sua realização humana e sobrenatural.
Apesar dos lamentáveis casos de pedofilia, felizmente já punidos com a merecida severidade e – espera-se! – definitivamente ultrapassados, a Igreja católica tem um especial apreço pelos jovens, que estes reconhecem e retribuem: as Jornadas Mundiais da Juventude são a maior concentração periódica mundial de gente nova. Este ano, o Papa Francisco convocou os jovens de todo o mundo para um sínodo a realizar em Roma e que será, decerto, mais uma jubilosa celebração da vida. Pelo contrário, por cá a extrema-esquerda parlamentar insiste no que São João Paulo II chamou a ‘cultura da morte’: se a lei que promove a interrupção voluntária da gravidez fomenta a morte das crianças ainda não nascidas, a eutanásia favorece o homicídio dos doentes e das pessoas de idade, e esta nova lei faz dos jovens potenciais vítimas.
Fonte: Observador

sábado, 14 de abril de 2018

Fazer História em cima da memória

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Já não é a primeira vez que o deputado socialista Ascenso Simões, um político cujas opiniões invulgarmente livres em tempos ganhavam letra de forma neste jornal, vem à praça pública para, ao mesmo tempo, piscar timidamente o olho à Monarquia e deplorar os monárquicos. Foi esta a difícil pirueta que Ascenso Simões ensaiou no Público de ontem, na sua “Carta Aberta a Dom Duarte Pio”. Curioso como articulista vê monárquicos atávicos e passadistas mas a sua oportuna miopia não lhe dá a conhecer republicanos de um jacobinismo fossilizado na sua própria casa. Da Carta, porém, aproveitam-se ideias interessantes sobre o papel da Família Real Portuguesa e do nosso Príncipe na “república” que temos, a quem cumpre, nas suas palavras “continuar a fazer História em cima da memória”. Essa ideia é aliás defendida por muitos de nós, os mais pragmáticos no movimento monárquico, para quem importa, dada a agenda política tão avessa à questão do regime, afirmar o Senhor Dom Duarte, indisputado Chefe da Casa Real Portuguesa, como “rei dos portugueses”, epíteto cuja aceitação geral diria muito mais de nós, enquanto povo, do que do Senhor Dom Duarte.

Ninguém ignora a discreta mas determinada e persistente intervenção do Duque de Bragança em vários aspectos da nossa vida colectiva. O Senhor Dom Duarte tem dedicado a sua vida, uma vida cheia, ao serviço, à representação nacional, calcorreando o mundo português de lés-a-lés, percorrendo a expensas suas o país inteiro, do mais cosmopolita centro urbano ao mais remoto município. É um homem que vence distâncias, rumando a latitudes longínquas, a paragens onde nenhum político português pôs os pés, para poder estar com as comunidades que falam português ou se sentem parte integrante do nosso mundo lusíada. Fá-lo por sentido de dever, sem esperar qualquer reconhecimento público ou atenção mediática. O Senhor Dom Duarte faz, sempre fez, o que sente ser seu dever, alheio a quaisquer calculismos conjunturais. Não deveríamos nós, portugueses, sempre lestos na crítica, reconhecer a sorte de termos alguém que tão livremente honra a nossa História e cimenta as relações ancestrais entre pessoas de todos os continentes? O Senhor Dom Duarte é rei dos portugueses em razão do seu serviço, por mérito próprio. Poderia ser Rei de Portugal se, nós, portugueses, o quiséssemos. Sê-lo-ia, por virtude nossa.

Como em tempos disse a Ascenso Simões, as Reais Associações em que assenta a Causa Real são grupos heterogéneos, política e socialmente transversais que espelham a diversidade de que é feito o nosso País. O movimento monárquico não se dirige a nenhuma facção ideológica, classe social ou elite cultural. Dirige-se a todos os portugueses que se interessem pelos destinos de Portugal e entendam que só pode “fazer-se história em cima da memória”.




sexta-feira, 13 de abril de 2018

Quando os asiáticos pediam tratados de amizade a Portugal

Foto de Nova Portugalidade.

Imagem: pintura mural existente no templo Wat Boromniwat, em Bangkok, representando a chegada de um vaso da armada portuguesa à capital do Sião.

Isidoro Francisco Guimarães, Governador de Macau, encabeçou em Fevereiro de 1859 uma missão ao Sião, investido nas funções de Enviado Extraordinário e Ministro Plenipotenciário para ali discutir e assinar um novo tratado entre Portugal e o Sião, correspondendo a desejo formulado pelo Rei Rama IV ao então Cônsul-Geral de Portugal no Sião, António Frederico Moor.

O Sião assinara recentemente tratados com a Grã-Bretanha, Estados Unidos e França e queria renovar a velha relação com Portugal, afeiçoada ao novo quadro das relações com as potências ocidentais.

"S.M. exprimiu a sua satisfação pela chegada do Embaixador d'El-Rei de Portugal, informou-se da saúde de S.M. e da Família Real, e depois [de] várias perguntas a Sua Exa [Isidoro Francisco Guimarães] sobre diversos objectos fez sinal para lhe ser entregue a carta d'El-Rei. Sua Exa tirou a caixa que continha a carta de dentro do vaso de oiro em que tinha sido conduzida, e subindo os degraus do trono a entregou a S.M., bem como o seu discurso. S.M. entregou a Sua Exa um documento em que declarava ter recebido a carta de S.M.F., com todas as honras devidas e na presença da sua Corte e Nobreza. Sua Exa voltou a sentar-se no seu lugar, e S.M. leu um longo discurso em siamês, em que fazia a história das relações dos portugueses com Siam desde o seu princípio, e exprimia a sua satisfação por vê-las estabelecidas de um modo mais formal e permanente durante o seu reinado".

MCB

quinta-feira, 12 de abril de 2018

‘Depois de Vós, Nós’ – Divisa D’El-Rei D. Manuel II de Portugal


O Rei tem um papel histórico: o de personificar o carácter nacional; porque o Monarca é o primeiro depositário da tradição dos antepassados dos homens e dos costumes da Nação. Além disso, a função Real é, de facto, um Serviço que é desempenhado com sentido de missão, pois constantemente sobre o escrutínio público o Rei procura exercer o melhor possível o seu Ofício dirigido no sentido do aperfeiçoamento constante e da defesa do bem comum.

Foto de Nova Portugalidade.

Por isso, mesmo empurrado para o exílio pela acção deletéria da revolução republicana do 5 de Outubro de 1910, Sua Majestade Fidelíssima El-Rei Dom Manuel II de Portugal desempenhou um papel muito cativo na Grande Guerra de 1914-18. Com Portugal impelido para o conflito pela república velha, o Monarca português exilado, em Inglaterra, colocou-se à disposição dos Aliados para combater. Não lho permitiram e, então, serviu o como oficial da Cruz Vermelha Britânica, o que fez com grande empenho e dedicação cooperando em conferências e na recolha de fundos, visitando hospitais e mesmo os feridos na frente, foi-Lhe muito gratificante. Todavia, a sua solicitude nem sempre foi reconhecida, equipando a sala de operações do Hospital Português, em Paris, e montando o departamento ortopédico do hospital de Sheperds Bush, Inglaterra, que por firmeza e generosidade do Monarca prolongou o funcionamento até 1925, dando assistência aos estropiados da guerra. Esta dedicação foi reconhecida com lugar cativo ao lado da Família Real Inglesa, na tribuna real, durante o Desfile da Vitória dos Aliados, em Julho de 1919, em Londres.



Uma prova de reconhecimento dos britânicos para com D. Manuel II de Portugal foi quando o Rei britânico Jorge V – primo do Monarca português pelos laços da Casa de Saxe-Coburgo e Gotha – o colocou, e à Rainha Augusta Vitória, a seu lado, da Rainha Mary, do Príncipe de Gales e da Rainha- mãe Alexandra, na tribuna real, durante o Desfile da Vitória

De facto, como mais ninguém, a figura do Rei exprime a virtude da dedicação ao bem da comunidade e tem uma superior consciência dos assuntos nacionais, representando da forma mais ética possível a Nação, a Comunidade confia no Rei e revê-se nele, e quererá seguir-lhe o exemplo o que vai fazer repercutir nas instituições democráticas essa ordem.
Na primeira fotografia, sem qualquer ressentimento para com os seus conterrâneos, Sua Majestade Fidelíssima El-Rei Dom Manuel II de Portugal, de uniforme de oficial da Cruz Vermelha Britânica, em 1918, confraternizando com um oficial e um soldado do Corpo Expedicionário Português para a Flandres, ou não fosse a divisa de Sua Majestade, ‘Depois de Vós, Nós’.
Miguel Villas-Boas

quarta-feira, 11 de abril de 2018

O "Cristo das trincheiras": uma História que vale a pena ver e contar!



Na Guerra de 14-18, no sector português da Flandres, entre as localidades de Lacouture e Neuve-Chapelle, encontrava-se um cruzeiro com um Cristo pregado numa cruz de madeira, que dominava a paisagem da planície envolvente.

A imagem deste Cristo não era, obviamente, portuguesa, mas encontrava-se na zona defendida pelo Corpo Expedicionário Português durante a ofensiva alemã que quase destruiu a 2ª Divisão de Infantaria.

No dia 9 de Abril de 1918, durante horas a fio, sobre aquela planície caiu uma tempestade de fogo de artilharia, que a metralhou, a incendiou e a revolveu.

Era a ofensiva da Primavera de 1918 do exército alemão.

A povoação de Neuve-Chapelle quase desapareceu do mapa, de tão transformada em escombros.
A área ficou juncada de cadáveres e, entre estes, jaziam 7.500 portugueses da 2ª Divisão do CEP, mortos ou agonizantes.

No final da luta apenas o Cristo se mantinha de pé, mas também mutilado: a batalha decepou-lhe as pernas, o braço direito e uma bala varou-lhe o peito.

Mas, no meio do caos, foi trazida pelos militares que conseguiram reagrupar-se e regressar às linhas aliadas.

É quase inimaginável que, debaixo das barragens de artilharia alemãs, que dizimaram grande parte do contingente português, a opção de alguns militares fosse a de trazer consigo a imagem de Cristo, severamente danificada, e a colocassem em local seguro onde pudesse ser novamente venerada.
Em 1958 o Governo Português fez saber ao Governo Francês o desejo de possuir aquele Cristo mutilado : tornara-se um símbolo da Fé e do Patriotismo nacional e passou a ser conhecido como o "Cristo das Trincheiras".

A imagem foi acompanhada desde França por uma delegação de portugueses, antigos combatentes da Grande Guerra, que residiam em França, e por uma delegação de deputados franceses, chefiada pelo Coronel Louis Christian.

Chegou a Lisboa de avião no dia 4 de abril de 1958, uma Sexta-feira Santa, e ficou em exposição e veneração na capela do edifício da Escola do Exército até 8 de Abril - as cerimónias foram apoteóticas, milhares de portugueses desfilaram perante a imagem em Lisboa.

No dia 8 de Abril a imagem foi transportada num carro militar para o Mosteiro da  Batalha, sem qualquer cerimonial especial, e aí ficou exposta na sala do refeitório do mosteiro para no dia seguinte, 9 de Abril, se efectuar a entrega oficial.

No dia 9 de Abril, pelas 11 horas, começaram a concentrar-se junto ao Mosteiro numerosas entidades civis e militares, entre elas os Embaixadores de Portugal em França e de França em Portugal, os Adidos Militares da França, da Bélgica e dos Estados Unidos, as altas patentes portuguesas do Exército, Marinha e da Força Aérea.

Ao meio-dia iniciaram-se as cerimónias com a chegada do Coronel Louis Christian (França) e o Ministro da Defesa de Portugal Coronel Santos Costa.

A guarda de honra foi prestada por um Batalhão do Regimento de Infantaria N.º 7, Leiria.
O "Cristo das Trincheiras" foi então levado para a sala do Capítulo, estando o andor que o transportou ao cuidado de representantes da Liga dos Combatentes da Grande Guerra.

Aí deposto sobre um pequeno plinto adamascado, à cabeceira do túmulo do "Soldado Desconhecido".
Terminadas as orações, o Adido Militar Francês, Coronel Revault d'Allonnes, conferiu aos dois "Soldados Desconhecidos" duas Cruzes de Guerra, as quais foram depositadas sobre a campa rasa.
A fanfarra do Regimento de Infantaria n.º 19, de Chaves, tocou a silêncio no final da cerimónia, enquanto uma Bateria de Artilharia do Regimento de Artilharia Ligeira de Leiria, salvava com 19 tiros.

Mais do que um episódio ocorrido durante a 1ª Guerra Mundial, o "Cristo das Trincheiras" simboliza a fé que manteve os militares portugueses na linha de frente durante um par de anos, praticamente sem licenças, mal abastecidos, sentindo-se abandonados por quem os enviou para combater por algo que a maioria não entendia.



O Cristo das Trincheiras no Mosteiro da Batalha


Fonte: O Adamastor

terça-feira, 10 de abril de 2018

No centenário de La Lys, o Verdun português

A gesta do João Ninguém

Foto de Nova Portugalidade.



Na madrugada de 9 de Abril de 1918, iniciava-se a última grande tentativa alemã destinada a romper a Frente Ocidental e decidir a terrível guerra que se arrastava há quatro anos. Para a ofensiva da primavera, que recebera o nome de código Georgette, o Alto Comando alemão preparara um minucioso plano que visava aplicar o grosso das suas tropas de elite num pequeno sector da frente onde se estimava que as defesas ali existentes ofereceriam menor resistência à pretendida operação de ruptura. Para tal missão foi incumbido o Sexto Exército Alemão, forte de onze divisões, sob o comando do experimentado general Ferdinand von Quast (1850-1939).

Enfraquecidos por meses de luta na lama das trincheiras, com falta de meios humanos, munições e armas pesadas, o Corpo Expedicionário Português (CEP) pouco poderia contrariar a manobra alemã. Muito se tem dito a respeito da fragilidade das forças portuguesas, acusando-se amiúde o governo de Lisboa pelo suposto abandono a que votara as tropas. Contudo, os elementos hoje disponíveis oferecem um motivo diverso para explicar tal penúria. O Estado Maior Aliado desviara desde Março os comboios marítimos até aí destinados a municiar o CEP, colocando-os à disposição do exército norte-americano que então se preparava para participar no cenário europeu da guerra.

Às duas e meia da manhã daquela fatídica terça-feira de nove de Abril, quinhentas peças de artilharia alemãs iniciaram um bombardeamento cerrado sobre a linha da frente ocupada por duas divisões de infantaria portuguesa. A preparação durou cinco horas ininterruptas, tendo caído sobre as nossas posições cerca de 30.000 projécteis. O dilúvio de fogo foi sucedido por cerradas nuvens de gases tóxicos e, logo, por densas máscaras de fumos que permitiram à massa da infantaria alemã avançar com segurança sobre as trincheiras portuguesas. Combalidas, as forças portuguesas ofereceram a resistência possível, mas deram luta, atrasando por horas o plano alemão. Nesse longo dia, realizaram-se feitos de grande bravura. Então, o Zé Povinho que se fizera João Ninguém das trincheiras, deu mostras de tenacidade e heroísmo que salvou a honra da bandeira portuguesa e surpreendeu um inimigo altivo e militarmente superior em meios. Pelo final do dia, quando finalmente os portugueses recuaram, haviam perdido 327 oficiais e 7000 infantes, mortos, feridos ou desaparecidos.

Mas a sangreira ainda não terminara. No dia seguinte, o Quarto Exército do general Von Armin atacou o saliente de Ypres. Na planície de Lys, os 13º e 15º regimentos de infantaria portugueses agarraram-se a La Couture, defendendo ferozmente a aldeia ao lado dos escoceses. Apesar dessa vigorosa resistência, os alemães chegaram ao Lys no dia seguinte, atravessaram-no em grande parte e avançaram em direcção às colinas da Flandres.

Passam na segunda feira cem anos sobre a chamada batalha de La Lys. No cemitério militar de Richebourg repousam 1831 corpos de portugueses caídos no campo de honra. O cemitério, um verdadeiro altar da pátria, será visitado e homenageado pelo presidente francês que ali, solenemente, em nome do povo francês, agradecerá a Portugal a oferta em sangue dos seus jovens caídos na defesa da terra francesa. Honra, pois, aos nossos heróis.

MCB

segunda-feira, 9 de abril de 2018

O paradoxo da Páscoa e outros mistérios

Ao contrário das outras ressurreições de que nos falam os Evangelhos, a de Cristo não foi um mero regresso à existência anterior à morte.

Os relatos evangélicos relativos à ressurreição de Jesus Cristo escondem vários mistérios e, como escreveu Bento XVI em ‘Jesus de Nazaré’, um paradoxo.
O primeiro mistério respeita à própria ressurreição. Os soldados, que estavam de guarda ao sepulcro, não referiram nenhum acontecimento extraordinário ocorrido entre o encerramento do túmulo e a sua abertura, na madrugada do domingo, quando se descobriu que estava surpreendentemente vazio. As mulheres que, nessa manhã, se dirigiram para o sepulcro, não só não viram nenhuma ressurreição, como julgaram, como parecia óbvio, que o cadáver tinha sido roubado (Jo 20, 2).
Naquele mesmo primeiro dia da semana, Cristo aparece a Maria Madalena (Jo 20, 1-18); a Simão Pedro (Lc 24, 34); aos discípulos de Emaús (Lc 24, 13-35); e, por último, aos apóstolos, já excluído Judas Iscariotes e faltando Tomé (Jo 20, 19-23). Todos o vêem, é certo, mas nenhum deles o viu ressuscitar e, por isso, mais do que testemunhas da ressurreição de Jesus, são só testemunhas do ressuscitado.
Um segundo mistério respeita ao momento em que aconteceu a ressurreição de Jesus de Nazaré, pois não se sabe ao certo quando foi. Supõe-se que ocorreu na madrugada do domingo, porque era o terceiro dia, tal como fora repetidas vezes profetizado.
Os cientistas forenses que estudaram o sudário de Turim – que não é objecto de fé, embora a Igreja, na medida em que é cientificamente credível, o venere como relíquia da paixão e morte de Cristo – envolveram em lençóis de linho puro, perfumados com mirra e aloés, cadáveres ensanguentados e observaram que “depois de 36 ou 40 horas de contacto (…) as imagens dos corpos ficaram impressas nos respectivos lençóis, mas muito longe da perfeição que a síndone apresenta”. Muito embora a precisão e permanência extraordinária da imagem do sudário de Turim leve a crer que a sua impressão se ficou a dever a causas transcendentes, é provável que o tempo de contacto do sudário com o corpo nele retratado tenha sido também de 36 horas, aproximadamente. Assim sendo, se Jesus foi sepultado pelas 18h de sexta-feira, a ressurreição teria acontecido por volta das 6h da madrugada do domingo seguinte.
Como em tantos outros episódios bíblicos, algumas aparições do ressuscitado são anunciadas por anjos. Aparecem às santas mulheres (Lc 24, 1-7), nomeadamente a Maria Madalena, que vê dois anjos sentados no sepulcro vazio, um à cabeceira e o outro aos pés de onde estivera o corpo de Jesus (Jo 20,12-13). É curiosa esta certeza de que eram anjos, porquanto devem ter aparecido com figura humana, como sempre acontece pois, em caso contrário, não poderiam ser facilmente vistos, nem ouvidos.
Embora Pedro tivesse sido confundido com o seu anjo (Act 12,15), ninguém crê que se lhe apareceu um anjo e não Jesus de Nazaré. Inicialmente, é certo, não é reconhecido por aqueles que, sendo os seus mais próximos discípulos, o conheciam muito bem, mas nunca ninguém o confundiu com um anjo. Quando Maria Madalena, estando à procura do seu Mestre e Senhor – que trata sempre com a veneração devida pela criatura ao Criador e nunca com intimidades de esposos ou amantes – o vê mas não o reconhece, pensa tratar-se do hortelão e não de um anjo (Jo 20, 14-16).
A misteriosa volatilidade da enigmática e vaporosa presença do ressuscitado – aparece no cenáculo estando fechadas as portas (Jo 20 19) – seria sinal de que ali estava apenas a sua alma e não o seu corpo?! Seria uma hipótese razoável, se não fossem as palavras e acções do próprio Cristo: “‘Olhai para as minhas mãos e os meus pés, porque sou eu mesmo; apalpai e vede, porque um espírito não tem carne, nem ossos, como vós vedes que eu tenho’. Dito isto, mostrou-lhes as mãos e os pés. Mas, estando eles, por causa da alegria, ainda sem querer acreditar e estupefactos, disse-lhes: ‘Tendes aqui alguma coisa que se coma?’ Eles apresentaram-lhe uma posta de peixe assado. Tendo-o tomado, comeu-o à vista deles” (Lc 24, 39-43).
Contudo, como é possível que os apóstolos, que já o tinham visto ressuscitado pelo menos duas vezes, e Pedro três, não sejam capazes de o identificar, nem sequer pela voz, quando ele, da margem, lhes diz que lancem as redes ao mar?! (Jo 21, 1-14).
Mais escandaloso é ainda o caso dos discípulos de Emaús que, falando longamente com ele sobre a sua própria paixão e morte, o não identificam durante toda aquela demorada conversa, que termina apenas ao fim do dia, quando finalmente o descobrem, na fracção do pão (Lc 24, 13-35). Estão com ele, a falar dele e não o reconhecem!
Ao contrário das outras ressurreições de que nos falam os Evangelhos – da filha de Jairo (Mt 9, 18-26), do filho da viúva de Naim (Lc 7, 11-17) e de Lázaro (Jo 11, 1-46) – a ressurreição de Cristo não foi um mero regresso à existência anterior à morte. Aqueles três ressuscitados voltaram a ser quem eram e como eram antes de morrer e, mais tarde, como quaisquer mortais, morreram. Mas não assim Cristo. Os apóstolos talvez pudessem ‘inventar’ uma ressurreição como as que Jesus tinha realizado diante deles, mas nunca poderiam imaginar que ele, ressuscitando, fosse verdadeiramente ele mesmo, sendo também totalmente diverso!
Jesus, ao ressuscitar, reassumiu a sua humanidade de uma forma completamente original. A sua natureza divina permaneceu imutável, mas a sua natureza humana era agora, visivelmente, muito diferente – daí a dificuldade do seu reconhecimento, até pelos seus mais próximos – mas sendo absolutamente ele: eis o paradoxo da Páscoa! É ele mesmo, mas de outro modo e, até, com outro aspecto: a mesma identidade, com o mesmo corpo ressuscitado, mas totalmente diferente. Mais do que um mero regresso à vida, Jesus Cristo, com a sua ressurreição, inaugurou uma nova vida, que é também para todos os que são salvos em seu nome.
Fonte: Observador