terça-feira, 11 de outubro de 2016

SS. AA. RR., Os Senhores Duques de Bragança presentes no casamento do Principe Leka II da Albânia



ppe16100812

Le prince Georg Friedrich de Prusse, le duc et la duchesse de Bragance



The Duke and Duchess of Braganza, Portugal arrive for the galadinner at the Royal palace after the wedding of Crown Prince Leka II of Albania and Crownprincess Elia Zaharia in Tirana Albanie. 


Fonte: PPE Agency e Noblesse & Royautés

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Prova de Vida

marcelo_5outubro16_hastearbandeira.jpg


Ouvi com a atenção que pude o início do discurso do Senhor Presidente da República nas Cerimónias oficiais do 05 de Outubro.
E descobri, logo nas palavras iniciais, o pior lado de Marcelo.
O lado que lhe sobrou, não da brilhante carreira académica mas da liça politica onde sempre teve que trocar uma informação por uma deslealdade, um ar de graça por uma diatribe qualquer.
Marcelo começou o discurso sublinhando que o 5 de Outubro estava vivo! E entreteve-se a dar-lhe prova de vida.
Antes tivesse dito que estava vivo porque pertencia ainda ao calendário. Mas não disse!
Disse que o 5 de Outubro estava vivo em Portugal porque podemos escolher os nossos dirigentes sem termos que confiar em nenhum princípio sucessório. Olhei com incontida ironia para a mesa que o rodeava e que anuía a este estafado argumento, com acenos de cabeça tranquilos e sabedores: O Primeiro Ministro, o Presidente da Câmara de Lisboa e o Presidente da Assembleia da República que para além de irmanados nas acolhedoras palavras do Presidente, tinham apenas em comum o facto de nenhum dos 3 ter sido directamente eleito pelos portugueses, para o cargo importante que ainda ocupam.
Marcelo sim, foi eleito. Por uma minoria de cidadãos que de 5 em 5 anos são e serão chamados a escolher para Chefe do estado um, de entre dois portugueses: O que foi escolhido para o cargo pelo PSD e aquele outro que foi escolhido pelo PS.
Desde o General Eanes que emerge do período militar pós revolucionário, que o cargo é invariavelmente ocupado por um ex-lider de um destes dois partidos. E assim será pelos tempos fora, em nome de uma liberdade que, todos sabemos, está aprisionada a uma partidocracia sem ética, competência ou responsabilidade.
Por isso e porque a primeira fila estava repleta das não eleitas primeiras figuras do Estado Republicano, Marcelo precisou de fazer mais provas de vida. E falou vaga e obscuramente de uma ética que não sabemos bem qual é e que ligação possa ter ao 5 de Outubro.
Julgo que a ética republicana era apenas e historicamente a de se não traírem uns aos outros -desconfiados que eram e camaradas que pretendiam ser. Mas foi extrapolada como inspiradora de uma virtude que a República nunca fomentou, porque simplesmente nunca teve.
Quem lê a história dos primeiros 16 anos de República fica perplexo com tantas faltas de ética. Quem mergulha nos 48 anos de ditadura que se lhe seguiram, compreende que a ética republicana não tem muito a ver com tolerância, escolha ou liberdade!
Marcelo rematou esta prova de vida da pior maneira. O 5 de Outubro está vivo, dizia com aquela convicção dos velhos tempos, porque é o garante da falta de promiscuidade entre o poder político e o poder económico. Fiquei realmente atónito e a pensar nos muitos dirigentes da República que a justiça constituiu como arguidos por esse mesmo motivo. Fiquei a pensar que Portugal é porventura uma das únicas democracias do Mundo que, neste século, teve um seu Primeiro-ministro preso por essas exactas razões.
Na atabalhoada prova de vida, com referências despropositadas á Monarquia, Marcelo falou muitas vezes de liberdade. Como se as mais evoluídas democracias da Europa que são Monarquias não nos dessem lições de liberdade.
Como se o 05 de Outubro de 1910 que começou realmente dois anos antes com o assassinato do Chefe de Estado, o Rei Dom Carlos, não fosse uma revolução violenta perpetrada pelo partido Republicano (sim, existia!) que nas últimas eleições de então, não lograra atingir os 10% dos votos expressos.
E que, por isso, se apressou a fazer uma revolução para afirmar uma forma de regime que nunca foi sufragada pelos Portugueses e ainda hoje lhes é imposta pela Constituição. Na parte que eu não ouvi, o Presidente Marcelo, passou o tempo a dar provas de morte da Republica e da ética republicana.
O 05 de Outubro, caro Presidente Marcelo, está vivo, sim! Mas por outras bem mais elevadas razões. Porque comemora o dia da Fundação de Portugal consagrada pelo Tratado de Zamora em 05 de Outubro de 1143. E nós Portugueses, como todos os outros Países civilizados queremos festejar a nossa independência, a nossa existência como Nação. Só por isso o 05 de Outubro não morrerá!


António de Souza-Cardoso
Presidente da Causa Real

domingo, 9 de outubro de 2016

República do nosso descontentamento

republica.jpg


Curioso que na data em que se celebra o aniversário do Tratado de Zamora assinado a 5 de Outubro de 1143 e no qual que se fundou a nossa nacionalidade o regime insista festejar a revolução com que se deu início ao período mais negro da história recente de Portugal, que não foi mais do que o da institucionalização do ódio e ressentimento social. Se é verdade que todas as Nações convivem com esta moléstia feita arma de arremesso politico que mina a convivialidade e a promoção de consensos - que são o motor do progresso e do bem estar; é para mim uma trágica constatação que as elites emergentes do final da monarquia constitucional tenham capitulado perante esse funesto modelo estético alicerçado no ressabiamento e no ódio de classes que nos vem condenando a este triste destino que é o de nos mantermos ingovernáveis na cauda do mundo civilizado a perorar contra inimigos externos e imaginários – à falta de melhor.

Há quanto a mim essencialmente duas formas de uma comunidade se afirmar: ou através duma cultura da promoção do sucesso, tendo-se como virtude o desejo de triunfar e de ser feliz, e uma outra que é o da instigação da inveja e do rancor, modelo que se instituiu entre nós definitivamente através do ideário populista triunfante do PRP de Afonso Costa. Foi essa lógica que prevaleceu no fim da Monarquia Constitucional sequestrada por uma pequena minoria radical, com regicídio em primeiro lugar e com a revolução do 5 de Outubro dois anos depois. Assim se deitou por terra um longo e atribulado período de aprendizagem democrática que foi a segunda metade do século XIX.

Passados mais de cem anos constatamos com mágoa e angustia que de nada valeu o sangue derramado pelo Rei D. Carlos e pelo seu filho Luís Filipe, de nada valeram as revoluções, os golpes e brutalidades que se lhe seguiram, os despotismos, a repressão, os regimes mais ou menos ortopédicos e suas vítimas silenciadas. Acontece que um País não se resgata através da destruição dos seus símbolos e instituições, muito menos pela instigação ao ódio. Esse legado é execrável, e ainda hoje pesa nas nossas costas e reflecte-se na disputa política. Com as mesmas duvidosas intenções, brincamos com o fogo no tabuleiro do jogo do poder, é o que é. 


João Távora


quinta-feira, 6 de outubro de 2016

A república

24727_1325672074912_1624215842_816465_3761379_n.jp


Diário de N. White Castle: 2 de Outubro de 1910, a chegada a Lisboa
Após uma breve viagem marítima sem história, cheguei esta manhã à capital portuguesa. Habituado à exiguidade territorial que os mapas mostram, jamais pensei encontrar uma cidade como Lisboa, mas sim um pequeno porto semelhante a tantos outros que já vira nas minhas meridionais deambulações em toda a bacia do Mediterrâneo. Esta cidade é diferente, beneficiando de uma entrada natural que só pode ser comparada ao Corno de Ouro da capital dos sultões. Tal como Constantinopla, Lisboa vista do mar parece incandescente, pois não podemos considerar a longa desembocadura do Tejo como um rio, dada a imensidão do potencial porto interior. A montante, deparamos com um espantoso mar interior a que deram o nome de Mar de Palha e que reflecte a luz solar com uma inaudita intensidade, surgindo a capital como uma miragem, onde a indefinição das formas lhe confere uma grandiosidade insuspeitada. Este imenso porto de refúgio, é uma das mais privilegiadas posições estratégicas do mundo, pois por esta costa passa todo o comércio que liga as metrópoles europeias ao Novo Mundo e às colónias em África e na Ásia. Conhecendo bem a nossa longa convivência com este país, compreende-se facilmente o vital interesse que representa para a Royal Navy, a manutenção desta maravilha natural em mãos amigas.
Desde a entrada daquilo a que os portugueses chamam a Barra, desfrutamos do privilégio de uma vista única da margem norte, pontilhada por casario ainda relativamente disperso e que num futuro que julgo não muito distante, acabará por unir a vila de Cascais à própria capital. Notam-se claros indícios do progresso material deste século, uma vez que tal como em qualquer uma das nossas cidades ribeirinhas, vislumbro muitas chaminés fumegantes, este mal necessário que a industrialização nos faz pagar para podermos auferir das apregoadas comodidades já indispensáveis. Infelizmente, neste caso parece não ter existido uma verdadeira preocupação em criar uma zona industrial, pois é notória a existência de fábricas espalhadas um pouco por toda a parte, mesmo aquela - que me disseram ser a do gás - construída mesmo diante de um dos principais monumentos do país, a Torre de Belém. O comandante disse-me que consta que a rainha Amélia muito tem admoestado consecutivos governos no sentido de ser desmantelada a dita fábrica, colocando-a noutro lado. Para grande irritação da soberana, a inércia e a falta de coragem para enfrentar os interesses económicos, vão mantendo a situação num impasse que visivelmente tem consequências desastrosas para a integridade desta construção com quatrocentos anos.

Após deixar a minha bagagem no Hotel Avenida, decidi apresentar-me na nossa Legação, situada na parte alta, num bairro bastante burguês denominado a Lapa. Pouco interessado nas ociosas tertúlias próprias do corpo diplomático, fui contudo praticamente coagido a voltar ao palacete nesta mesma noite. Realizar-se-á um jantar com alguns dos mais destacados homens de negócios ingleses estabelecidos em Portugal. Deixaram-me claro que o meu conhecimento da língua, será preciosa ajuda para o estabelecimento de conversas com algum interesse para a avaliação da situação política neste país. Não deixarão de estar presentes alguns portugueses, na sua maioria comerciantes, mas disseram-me que as expectativas vão todas no sentido de auscultar a opinião de alguns oficiais do exército. Vamos ver, todo este cheiro a pólvora e a conspiração começa a despertar a minha curiosidade.

A Baixa é talvez a zona mais animada, aí se situando o melhor comércio, bancos, casas de seguros e empresas de navegação. É espantosa a multidão nas ruas, pois dir-se-ia estarmos não num dia normal de trabalho, mas no reboliço próprio de festas populares. Bandos de ociosos à porta de cafés e de casas que vendem vinho e carvão, parecem discutir animadamente a razão das suas vidas, ou talvez apenas, a derradeira intriga ou boato que aqui alastra como fogo em palha seca. Já quando estivera em Goa, tivera a oportunidade de me inteirar da apetência que uma certa camada urbana tinha por historietas mirabolantes, geralmente desprovidas de qualquer veracidade, mas capazes de alimentar todo o tipo de sentimentos, desde o ódio mais feroz e irracional, até à compaixão que implica a lógica beatitude da criatura alvo da conversa. E o mais interessante, consiste no curioso facto de um beneficiado pelas palavras de louvor, ser no próprio dia e devido a um outro boato, passar a ser arrastado até às portas do inferno, onde, claro está, existem sempre uns pobres diabos capazes de unicamente se exprimir no calão mais grosseiro de que esta rica língua é capaz.

Muito a propósito, decidi entrar num café situado na Praça D. Pedro IV, local que como muitos outros possui duas denominações. Oficialmente, tem o nome do monarca luso-brasileiro, mas para o comum dos mortais, sempre foi e será o Rossio. Este café, o Gelo, é um local já meu conhecido apenas pelo nome, pois já há muito sabia que nas suas salas se tinham reunido os conspiradores republicanos que assassinaram o rei Carlos e o príncipe Luís Filipe. Discutia-se a alta voz e qualquer um podia escutar planos conspirativos, atoardas e o constante e impiedoso martelar de reputações. Dir-se-ia ser Portugal uma terra de milionários, pois os cafés encontram-se a abarrotar a qualquer hora do dia e fiquei a pensar com os meus botões, do que viverá toda esta gente que passa os seus dias diante de copos e garrafas? A cidade encontra-se razoavelmente limpa, nota-se uma certa prosperidade e os armazéns da zona do Chiado estão muito bem fornecidos de todas as novidades parisienses que parecem ser da preferência dos portugueses da capital. Tal como em Londres, Viena ou Paris, as equipagens rivalizam no luxo das carruagens abertas e as senhoras burguesas, geralmente acompanhadas por uma filha ou pela empregada, fazem a rotina diária das lojas, comprando mais um par de luvas ou um extravagante e emplumado chapéu para um hipotético grande dia de festa. Casas de chá mobiladas com esmero e nas quais podemos degustar deliciosas especialidades locais, oferecem o espectáculo da passagem de la mode parisiènne, tal como se verifica em qualquer outra cidade europeia. Lisboa possui várias estações de caminhos de ferro, de onde partem comboios para todas as regiões do país, existindo uma muito razoável cobertura da rede ferroviária que é moderna e segundo dizem, eficiente. O porto está praticamente sempre lotado de navios que dos confins do planeta, trazem das colónias os produtos destinados ao consumo interno e à exportação, adivinhando-se facilmente - se as condições políticas assim o permitirem - um futuro de progresso material que não deixará de beneficiar amplas camadas da população. O país é territorialmente pequeno, mas espantosamente, possui o terceiro maior Império colonial, exercendo a sua soberania sobre possessões banhadas por três oceanos e continentes. É certo que o facto de pertencer à sempre inconvenientemente considerada esfera de influência britânica, permite-lhe o luxo de exercer o domínio sobre territórios infinitamente mais valiosos que aqueles onde flutuam as bandeiras da Alemanha ou da Itália, por exemplo.

No café Gelo, discutiam-se animadamente as últimas novidade relativas ao mundo da política local e as responsabilidades sobre imaginárias desgraças recaíam alternada mas invariavelmente nas pessoas do rei Carlos ou Manuel, na rainha Amélia e claro está, nos padres, bem capazes, segundo esta gente, de todos os crimes que a mente mais retorcida pode imaginar. Seguros de verem em mim um estrangeiro disposto a escutá-los e que ainda por cima fala português, procuraram convencer-me acerca da justeza das suas ideias e projectos inconsistentes e recorrendo ao habitual argumento do Ultimatum, julgaram-me facilmente coagido pela timidez. Retorqui secamente que humilhação muito maior infligíramos à França em Fachoda, sem que por isso se pensasse seriamente derrubar o regime vigente naquele país. Mais acrescentei que isso provava a consistência de uma opinião pública que sabia distinguir o essencial daquilo que é perfeitamente negligenciável. Logo decorridos alguns minutos, pareceu-me que esta gente vive obcecada com sonhos de grandeza e com dogmas redentores de uma situação que afinal só se resolverá com persistência no trabalho, banco de escola, paz política e respeito pela hierarquia, coisa impossível de imaginar nestes ligeiros espíritos em teimosa efervescência. Poderia executar rapidamente um xeque-mate aos malcriados palradores, questionando-lhes acerca daquilo que consideram ser uma república, que tal como a Inglaterra, Portugal é e sempre foi. Creio que para os meus interlocutores, consiste num mero sucedâneo dos santinhos milagreiros que devotadamente adoravam na sua infância, esperando curas, alimentação farta e se possível, um bilhete premiado na lotaria. No fundo, para esta gente, a república é apenas um milagre, talvez tirado das profundezas de uma fé aparentemente renegada. Rapidamente cansado da colossal ignorância orgulhosamente assumida pelos revolucionários profissionais, decidi não perder mais tempo, pelo que polidamente me despedi, manifestando o interesse em ver o couraçado brasileiro S. Paulo que transporta o presidente Hermes da Fonseca que está de visita a este país. Maravilha técnica do engenho britânico, este navio e o seu irmão gémeo Minas Gerais, são decididamente peças essenciais na manutenção do status quo na sempre instável região do cone sul americano.

Descendo a Rua do Ouro - a oficialmente denominada Rua Áurea -, cheguei ao preciso local onde caíram varados pelas balas assassinas o rei Carlos e o seu herdeiro. As fachadas poente da magnífica Praça do Comércio - o Terreiro do Paço dos lisboetas eBlack Horse Square entre os meus compatriotas -, ostentam as indeléveis marcas da chacina, pois a cantaria foi fortemente atingida durante o tiroteio daquela tarde de inverno. Fiquei a pensar se a versão que corre, a de um acto isolado de dois assassinos, pode ser sustentada. Não foram apenas eles, tenho a certeza.
Bordejada por árvores que oferecem protecção ao inclemente sol, omnipresente durante mais de metade do ano, esta praça possui uma magnífica estátua ao rei José I e evidentemente, no seu pedestal podemos olhar para o rosto severo e decidido do marquês de Pombal, o hábil ministro que conduziu os trabalhos de reconstrução da cidade destruída pelo cataclismo de 1755. O comércio que aqui se pratica é bastante diferente daquele que vimos na Baixa, pois no Terreiro encontramos vendedores ambulantes e gente que vem dos arrabaldes da cidade para vender os seus produtos hortícolas e animais de capoeira. Os preços são razoáveis para a nossa bolsa, mas continuo a interrogar-me acerca da inextricável capacidade de tantos portugueses em permanecerem vivos e de boa saúde, dada a bem visível inércia e fare niente que salta aos olhos em praticamente todas as ruas da capital.
É uma interrogação que não deixarei de colocar esta noite aos meus convivas na embaixada.
3 de Outubro de 1910
Exausto pelo longo jantar e com a mente toldada pelos vinhos e licores que acompanharam e que se seguiram ao repasto, regressei a pé ao Avenida, pois nesta cidade é ainda possível caminharmos distâncias que no mapa parecem grandes, mas que bem vistas as coisas, consistem invariavelmente nuns centos de jardas, ou no máximo, uma milha e meia. 
Tive a oportunidade de conhecer alguns dos mais influentes compatriotas estabelecidos neste país, assim como convidados portugueses que esperava muito diferentes daquela gente que conhecera há umas horas no Rossio. Triste ilusão, pois as fatiotas, gravatas e lustrosas cartolas, serviam apenas de disfarce para as mesmíssimas enraizadas certezas no nada. A vacuidade da argumentação era atroz e não consegui vislumbrar o menor indício de um projecto exequível e baseado em factos que lhe dariam viabilidade. Nada, nada, apenas grandes tiradas sobre a liberdade e a igualdade, não se esquecendo o costumeiro progresso social, sempre na boca de gente que tem assalariados a seu cargo, sem nada se preocupar com condições de trabalho ou direitos de quem lhes dá o sustento. Pelo contrário, pareceram-me estranhamente elitistas, pois tentando compreender à luz da experiência inglesa e alemã, aquilo que se passa no ainda bastante incipiente operariado português, retorquiram-me apontando a ineficiência dos socialistas que no seu douto parecer ..."andam conluiados com o rei"... sendo aqui substituídos na função de renovação da sociedade, por um partido republicano - o deles -  que pretendendo meramente alterar a face do regime, julga poder modificar como num passe de mágica, toda a situação do país. Inacreditável, mas absolutamente verdadeiro. À mesa, o mais linguarudo foi um conhecido comerciante proprietário de um grande armazém no Chiado que bramia todo o tipo de impropérios contra o regime que afinal lhe permitia manifestar-se de forma tão aberta e descuidada. Um outro conviva segredou-me que constava que a dita rubicunda criatura, estivera envolvida na conspiração regicida, pelo que tomei de imediato as minhas distâncias, sem antes deixar-lhe bem claro que em Paris seria preso por muito menos. Calou-se e desviou o olhar para o copo.  No entanto, o conviva que mais atenção me despertou, foi um oficial do exército, o coronel Cunha que por várias vezes increpou o exaltado comerciante épicier, no sentido de moderar o tom com que se referia a personalidades públicas da Corte e do Parlamento. O que não deixei de estranhar, foi a presença desta gente em ágapes da nossa Legação, sabendo-se que o Reino Unido cultiva as melhores relações com o governo português, além de os soberanos deste país se encontrarem entre os numerosos parentes da casa real britânica. Muito estranho, mesmo muito estranho. Porque será?
Questionando o dito coronel Cunha acerca da viabilidade de um golpe subversivo dos republicanos, ele olhou fixamente o seu adversário natural - o comerciante milionário - e afagou a espada, dizendo: "ainda há uns dias estive com S.M. e com o Duque de Wellington no Buçaco, na celebração do primeiro centenário da nossa vitória contra a França de Napoleão. El-Rei D. Manuel é o Chefe do Estado e por inerência, o comandante em chefe das forças armadas. Devemos-lhe a lealdade de camaradas de armas e neste caso, ainda lhe digo mais: devíamos ter tomado rapidamente uma atitude no dia do regicídio, pois o país inteiro conhece quem foram os responsáveis!" Dito isto, apontou com o queixo na direcção do estupefacto negociante que não conseguiu articular qualquer resposta. E continuando, foi dizendo ..."que se tentarem algo, desta vez vão ver como lhes dói, atiramos a matar!"
Julguei o regime perfeitamente seguro, pois este exército tem uma certa experiência de combate. Quem não se recorda das grandes vitórias obtidas ainda há pouco tempo em Angola e Moçambique? Além disso, as celebrações do Centenário das Invasões francesas, consistiram num vibrante testemunho de fidelidade dos militares à Casa de Bragança e ao regime constitucional. 
Terminado o jantar e a natural sequência de cigarros, brandy e Porto, manifestei visivelmente o meu cansaço, que plenamente se justificava pela viagem e longa caminhada que já fizera na cidade. Tive a infelicidade de ser forçado a aceitar a carruagem do comerciante que pressurosamente se ofereceu para me conduzir ao Avenida, quiçá tentando escusar-se da verborreia que abruptamente lhe interrompi. Pelo caminho voltou à carga e foi incessantemente palrando acerca das virtudes propiciadas pelo regime novo que ardentemente quer ver alvorecer em Portugal. Fala-me da liquidação da Igreja e de uma súbita modernização do tecido produtivo nacional. Segundo o seu infalível ponto de vista, a simples proclamação da república, susceptibilizará uma rápida queda dos preços, a instrução das massas e a consequente industrialização do país que passará a rivalizar com uma Bélgica ou uma Suíça. O delírio da propaganda - decerto eficaz no Gelo, mas que em mim, experiente como sou na análise da situação económica e social dos países que visito e onde tenho interesses -, produziu o efeito exactamente contrário. Este homem sonha com uma esquadra de couraçados que esmague a espanhola em poder e número. Num Portugal onde a escola é quase universalmente tomada por excentricidade de classe, julga possível alfabetizar o país inteiro em apenas alguns poucos anos e declara muito senhor de si, que os recursos do Estado - os impostos, quer dizer, o seu dinheiro - têm sido malbaratados pelo actual regime e são suficientes para servir de alavanca ao que ele designou por novo fontismo, isto é, um amplo programa de modernização das estruturas nacionais, desde o ensino aos transportes e à indústria. Conhecendo a dependência portuguesa relativamente ao exterior, interrogo-me se este homenzinho possui a mais ínfima ideia acerca dos problemas que levantou, pois sendo de difícil resolução em países mais poderosos, aqui, sem o regresso de um longuíssimo período de estabilidade, encontram-se mais longe que qualquer estrela do firmamento apenas vislumbrável por potente telescópio. 
Aliviado por me furtar ao diluviano discurso de inanidades e pétreas certezas, recolhi-me ao meu quarto, sem que antes me tivessem avisado na portaria, que  ..."qualquer coisa se está a passar". O que será agora? Mediante o pagamento de algumas moedas, fiquei ciente de que o porteiro está a par de tudo aquilo que de estranho se passa nas redondezas e desta forma, não deixará de me fornecer informações. 

Após o almoço, soube-se que um médico de loucos, um tal dr. Bombarda fora abatido por um dos seus doentes, mas já corria célere o boato apontando o dedo aos jesuítas que neste preciso momento, parecem ir ocupar o lugar que a sociedade durante séculos reservou aos filhos de Israel. É claro que diante do Gelo já pude verificar a concentração de todos os vadios do costume, em forte gritaria e clamando por sangrenta vingança. A certo momento, um dos mais exaltados berrou que era necessário ir à sede do partido republicano buscar armas e bombas. Não podia acreditar no que escutava. Que país é este onde se permite a transformação de uma sede partidária em arsenal de subversivos? Uma simples rusga policial teria decapitado o dito partido em apenas alguns minutos, pensei eu. Contudo, um numeroso bando lá foi em desalvorada correria em direcção ao Largo de S. Carlos, onde diante da Ópera, se situa a dita sede. Como curiosidade, devo acrescentar que concomitante a este largo, situa-se o próprio Governo Civil de Lisboa, local pejado de policias e funcionários governamentais que pelo que ouço, pretendem ignorar aquilo a que chamam de "picardias". Pretendem isso sim, acalmar os exaltados e segundo as suas preclaras cabeças decidiram, é melhor ignorar as provocações, porque ..."essas coisas morrem por si"...
No meio da grande confusão  e desta vez para minha satisfação, voltei a encontrar o comerciante que conhecera na Legação e que parecia estar plenamente ciente de tudo o que se passava. Mais, confessou-me com ar de altiva importância, que os republicanos escutavam todas as conversas telefónicas efectuadas pelo governo e pelo palácio real, pois algumas das telefonistas estavam incumbidas desse serviço de espionagem. É o deboche completo. Desta forma vim a saber  que o chefe do governo contactara telefonicamente a rainha Amélia, ausente  em Sintra, inteirando-a do que se passava na capital. O rei recebia o presidente brasileiro num banquete oficial em Belém e pensei que tudo isto não passava de mais um abortado devaneio dos amigos de alguns dos meus convivas de véspera. Esperava ver a todo o momento o exército a ocupar os pontos nevrálgicos da cidade, liquidando quaisquer intentos de desacato da ordem pública. Estranhamente, nada aconteceu. Fiquei também na posse da informação que dava como certo o refúgio dos chefes republicanos nos estabelecimentos de banhos de S. Paulo, ao Cais do Sodré. Toda esta bernarda parecia de antemão comprometida e decerto acabaria em rotundo fiasco. Num súbito impulso, lembrei-me que na véspera o coronel Cunha me oferecera o seu cartão, colocando-se à minha inteira disposição para aquilo que julgasse necessário. Dirigi-me ao local da sua residência, no Príncipe Real, onde me disseram que sua excelência estava de prevenção no quartel. Tranquilizado pelas palavras da esposa do oficial, resolvi retirar-me, convencido de que a manhã seguinte traria a esperada novidade do desvanecimento da combatividade revolucionária.
4 de Outubro de 1910
Durante a madrugada de hoje, não consegui adormecer devido ao tiroteio perfeitamente audível na Baixa. Subitamente, o pessoal do hotel decidiu fechar as portadas, evitando maçadas decorrentes de tiros perdidos. Sentimos o passo apressado dos militares da Guarda Municipal que ocupavam posições na Praça dos Restauradores, enquanto corriam boatos contraditórios acerca da adesão ou passividade dos regimentos aquartelados na capital. Tínhamos a perfeita consciência de que por muitas bombas artesanais que pudessem arremessar, os chamados carbonários e os "anarquistas" - eufemismo  pelos quais os republicanos se faziam tratar -, jamais poderiam conseguir qualquer resultado positivo face ás tropas de linha, bem armadas, organizadas e municiadas. O factor vital consistia na capacidade de decisão dos comandantes e pelo que ouvira da boca do coronel Cunha, a obediência à hierarquia era um facto. Desta forma, continuei seguro de uma rápida extinção do movimento subversivo que politicamente, teria de ter consequências na ordem interna. Julgava muito candidamente, ter agora o governo a oportunidade única de decretar a imediata expulsão da camarilha do directório do PRP que já há quase três décadas impedia o normal funcionamento das instituições. Muito a propósito, entabulei então conversa com um francês que há muito residia neste hotel e que para meu espanto, está plenamente convencido da inevitabilidade da derrota monárquica. Procurando  retorquir com o evidente carácter minoritário e local dos republicanos, respondeu-me exactamente aquilo que todos os estrangeiros consideravam um sinal evidente: no dia 1 de Fevereiro de 1908, sendo demitido João Franco das suas funções de presidente do Conselho de Ministros, consumara-se assim a queda do regime. Condescendera-se com os criminosos, o regicídio ficava impune, permitira-se o enxovalho público do novo rei, da sua família e da própria ordem constitucional. E voltando-se subitamente para mim declarou:
"Olhe que esta situação não é nova! Vivo neste país há quinze anos e o que tenho assistido durante todo este tempo, prova sobejamente tudo aquilo que lhe disse!" Dito isto, pediu-me para o acompanhar ao seu quarto, onde me mostrou alguns volumes com recortes de imprensa, cópias de actas de sessões parlamentares e uns quantos livrinhos  mal amanhados que me informou serem propaganda paga pelo PRP.
" - Está a ver esta colecção? Desde já lhe digo, cher ami, que é um autêntico libelo de acusação do criminoso processo de sabotagem deste Estado constitucional. Consiste num aterrador dilúvio de todo o tipo de infâmias inimagináveis além-fronteiras! Olhe e leia com atenção! O apelo ao crime  regicida "à moda sérvia" é constante. Por exemplo, aqui estão excertos de alguns discursos do António José de Almeida no Parlamento. Sabe quem é este sujeito, ainda por cima um médico? Acha isto possível em qualquer país civilizado? Em França, uns ditos destes dariam azo à imediata prisão dos atrevidos. Já viu em que termos esta gente se refere à rainha e ao resto da família? E o Costa, sabe quem é?"
Dito isto, acrescentou:  - "é uma das mais desprezíveis, cobardes e turvas criaturas que conheci em toda a minha vida. Homem capaz de todas as vilanias, de um egoísmo à prova de qualquer análise de foro psicológico. Acredite no que lhe digo. Esta gente não presta, é má, rancorosa, incompetente e tornará a vida deste país num inferno! Por exemplo, já ouviu falar deste exemplar de literatura de cordel? É o famoso " O Marquês da Bacalhoa" que arrastou até ao precipício, a reputação da rainha e da sua entourage. É difícil imaginarmos o grau de baixeza a que se recorre, tendo como objecto uma senhora que poucos meses antes da sangueira do 1º de Fevereiro e durante a sua visita a Londres, era a figura central na célebre foto de cabeças coroadas presentes no palácio de Buckingham. Rainha de um pequeno país, a sua reputação de um ideal de mulher do nosso tempo, honesta e de uma impressionante presença que apenas encontrava rival na czarina Alexandra, colocava-a sempre no centro das atenções gerais. O desvelo com que a imperatriz alemã a olhava, é revelador do respeito que a rainha Amélia merecia. O PRP tudo fez para amesquinhar a soberana e consumou o crime, fazendo publicar O Marquês da Bacalhoa. Coisa mais infame é difícil de conceber e claro está, tem a chancela do directório republicano, disso não existe hoje qualquer dúvida! Questiono-me quotidianamente acerca da atitude que as potências tomarão perante a quase certa vitória final destes bandidos e sempre lhe vou garantindo - rivalidades históricas à parte - que muito mal faz o governo de Londres em não intervir decididamente, pois o que está em causa, é também a segurança do flanco peninsular da nossa Entente Cordiale que no rei Carlos tinha um firme esteio. Imagino o desespero do rei Eduardo VII que cerceado na sua acção, pouco ou nada poderá decidir quanto aos seus familiares de Lisboa. Com este PRP no poder, não poderemos contar com um exército português sequer capaz de garantir a inviolabilidade das fronteiras das suas extensas colónias africanas. Veja bem o enorme perigo que isso representa para o Império Britânico. Terão enlouquecido em Westminster?!"

Questionei-o então, acerca da verdadeira situação que o país vive, pedindo para se abstrair um pouco da guerrilha da propaganda. Respondendo, foi dizendo ..."pede-me o impossível, pois aqui é impensável tomarem-se medidas sejam elas de que carácter forem. Vigora a política da terra queimada e na verdade, só a instauração de um novo modelo constitucional que exima o soberano do jogo partidário - à semelhança daquilo que acontece na Inglaterra - poderá tranquilizar os espíritos. O mais curioso é que a esmagadora maioria da população é disso mesmo que está à espera e o rei Manuel é de facto popular. No entanto, os partidos nada mudarão, pois a garantia do seu sustento são os rendosos lugares proporcionados pelo exercício do poder político. O que pensa você pretenderem os ditos republicanos que aliás têm sido muito beneficiados pelos denominados rotativos? Até hoje têm servido como uma arma de arremesso de ambos, na feroz disputa pelo governo e nada mais que isso! No plano social, Portugal, sendo um país de escassos recursos materiais, não está assim tão atrasado como parece à primeira vista.  Possui inteligências, institutos científicos e infra-estruturas bem construídas e recentes. Se você quiser, pode escolher hoje ir à Ópera, ao teatro de variedades que aqui se chama de revista ou tão só deleitar-se com uma representação clássica.  Existem boas livrarias com todas as novidades que do estrangeiro chegam. A imprensa é livre e se existe censura, esta é sempre a posteriori, quando o mal já está dito e feito. Sempre quero ver o que os ditos republicanos farão com a liberdades de imprensa de que o país ainda beneficia... tenho sérias e razoáveis dúvidas quanto a tudo isto, para nem sequer mencionar a questão eleitoral"...

Esmagado pelas inesperadas revelações, decidi questioná-lo acerca da possível reacção das forças armadas:
- "Olhe, essas também estão em dúvida, porque desde o assassinato do rei, a impunidade da propaganda nos quartéis, conduziu à progressiva deterioração do respeito pela hierarquia. Não tendo existido uma imediata resposta ao assassinato de D. Carlos, muitos oficiais encararam a contemporização da política pretensiosamente crismada de "acalmação", como uma rendição total. Dos militares, também nada de bom podemos esperar. Não se trata de uma questão de cobardia, mas sim de puro e simples laissez-faire, oportunismo, falta de sentido daquilo que verdadeiramente interessa e consequentemente, talvez aceitarão a nova situação sem se manifestarem... enfim, mais uma vergonhosa ignomínia! Juramentos a bandeiras, são coisas vistas com displicência. As forças armadas? Não passam de funcionários públicos muito zelosos da segurança dos seus postos."

Soubemos então do motim a bordo de alguns dos cruzadores da armada, pelo que considerámos tornar-se de hora a hora, mais crítica a situação das forças leais ao regime. Apanhadas entre dois fogos, a única solução seria tomar de assalto a posição dos revoltosos na Rotunda, situada no cimo da Avenida da Liberdade. Do directório do PRP nada se sabia, sendo muito provável mais uma das habituais fugas ou um seguro esconderijo enquanto espera o desenlace dos acontecimentos. A polícia poderia facilmente procurá-lo, pois Lisboa inteira conhece por boato o local onde se acoita: os Banhos de S. Paulo. A posição das unidades militares da área de Lisboa é totalmente desconhecida e suspeitámos que o silêncio indiciava a pura abstenção. Contudo, o resultado da luta ainda parecia incerto, dada a resistência oferecida pelas tropas realistas que acabaram por confinar os revoltosos à Rotunda. Já se mencionava o nome do conhecido e bravo africanista Paiva Couceiro, uma garantia de lealismo. Tudo parecia possível ou provável e claro está, a situação residia única e simplesmente na decisão dos militares em intervir, esmagando a sedição. O porteiro do hotel acabou finalmente por nos informar que um dos caudilhos republicanos, o almirante Reis, se tinha suicidado, ao que parece por julgar perdida a sua causa. 
Os períodos de intensa fuzilaria -com escassas baixas de parte a parte, há que afirmá-lo - alternavam com outros de aparente calma. Surpreendentemente, soubemos que ambos os adversários recebiam visitas de populares, como se de uma festa ou romaria se tratasse e com os apetecidos "comes e bebes" de acompanhamento. Aquele que por mero acaso vencesse, contaria com a imediata adesão das massas citadinas, sempre prontas a festejar o herói do momento, aspecto caricato que dava a esta situação, uma sonora nota de ópera bufa. 
Durante algumas horas, tentei telefonar para a nossa Legação, sem que tal fosse possível e assim, já a altas horas da noite, decidi ir uma vez mais a casa do coronel Cunha, procurando obter o máximo de informações credíveis. Tocando a sineta, mal pude acreditar quando o próprio me veio abrir a porta, apresentando-se despenteado, de barba por fazer e fardado de roupão. Da forma mais amistosa que lhe foi possível, convidou-me a entrar e pelo caminho até ao salão, foi dizendo que nada sabia do que se estava a passar.
- "E a sua unidade"?, perguntei-lhe incrédulo.
- "Lá deve estar, de portões fechados e aguardando os acontecimentos"...
- "Aguardando os acontecimentos?! Mas não era suposto V. Exa. encontrar-se neste preciso momento à frente do seu regimento, honrando o juramento que fez questão em reafirmar há apenas 48 horas?!"
Empalidecendo, o coronel Cunha balbuciou algumas palavras incompreensíveis e depois, de forma mais decidida, concluiu a nossa rápida entrevista, apontando-me o caminho da saída:
- "Sabe, o meu compromisso é para com o país e não com este ou aquele regime. Os juramentos são feitos a uma determinada situação de um momento preciso. Se amanhã tivermos de proferir um outro, paciência"...
e encolhendo os ombros, deixou cair mãos, dizendo ..."é a vida"...

5 de Outubro de 1910

Durante toda a madrugada troou o canhão e já nem sequer sabíamos se os estrondos provinham de granadas lançadas pela esquadra amotinada ou pelas peças de 75 colocadas desde a Rotunda até ao Torel, estas últimas bem perto dos Restauradores, onde ainda me encontrava.  Dada a trágica situação que passava a irmanar Lisboa com a Odessa do couraçado Potemkine, dei graças aos céus por ainda não termos vendido qualquer couraçado à marinha portuguesa. Imagino os estragos que neste momento estaria a provocar numa cidade submetida a um dilúvio de granadas de 12 polegadas! Quem estava no hotel e conhecia bem a situação, dizia que os sediciosos venceriam, dada a abstenção do grosso do exército que facilmente teria liquidado a triste aventura. Para dificultar as coisas às unidades combatentes fiéis à legalidade, começaram a escassear as munições, pois os tiros provenientes das suas linhas tornaram-se cada vez mais espaçados, até quase cessarem por completo.

Logo pela manhã, parece que um representante do Kaiser Guilherme em Lisboa, quis garantir a segurança dos seus concidadãos residentes na capital e cometeu a imprudência de se deslocar com uma bandeira branca à terra de ninguém que separava os dois grupos contendores. Isto foi interpretado como uma rendição das tropas fiéis, o que provocou de imediato uma enorme aglomeração de gente excitada com os acontecimentos e consequentemente, terminaram os combates. 
Decidi sair à rua para ver o que se passava e soube que tinham proclamado a república na Câmara Municipal, situada num largo adjacente à Praça do Comércio. Sabemos como psicologicamente funcionam as multidões, pois se a tropa tivesse cumprido o seu dever consagrado pelo juramento, neste preciso momento andariam pelas ruas bandos populares à caça dos traidores e decerto a sede do PRP seria já pasto das chamas. Mas como o resultado foi diferente, verifiquei de imediato aquilo que decerto será o modus vivendi futuro neste país. Dois padres que iam a passar no Rossio, estavam a ser violentamente sovados e de vestes despedaçadas, submetiam-se à vindicta de uma gentuça comandada por uns tipos de aspecto inclassificável e que de espingarda na mão, iam organizando grupos de acção punitiva.  Coisa estranha esta, uma vez que desde o fim da guerra civil há já mais de setenta anos, a Igreja passara a ser fortemente controlada pelo Estado e até bispos pertenciam a organizações maçónicas, integrando plenamente a sociedade política liberal. Em Portugal, o radicalismo anti-religioso do PRP decerto mergulhará o país no caos. Os sectores mais conservadores da Igreja estarão finalmente livres para o exercício das suas actividades, pois é isso mesmo o que significa a dita separação da Igreja e do Estado. No nosso país, a igreja anglicana encontra-se de tal forma submetida, que podemos até afirmar que exercemos uma espécie de política regalista, na qual o nosso rei assume as funções aqui reservadas ao próprio Papa! Que estúpidos, tacanhos e ignorantes são estes pretensos republicanos portugueses...

O resto, é o que se previa. Adesões de última hora, delírios dignos do carnaval e pasme-se, esta gente que agora comanda, vai apresentando a revolução como coisa ordeira e decente, pois à porta dos bancos colocaram rufias armados, não vão os populares lembrarem-se de roubar os bens dos donos da revolução, quase todos homens de cabedais e boas posses, latifundiários, banqueiros e agiotas. Grande revolução esta, que começa logo por ser proclamada - segundo me disseram -, por um conhecido grande proprietário rural, bon vivant ocioso e dado a coisas do frisson mondain, um tal Relvas! 
Já para o fim da tarde, conheci os nomes das novas autoridades no poder. Na Legação sabem bem quem eles são e junto a um senil com pretensões a literato que dá pelo nome de Braga, surge logo o tal facínora Costa de quem me falou Monsieur Peyrot. A estes surgem igualmente associados um entusiasta das ditaduras que se chama Basílio Teles, um trânsfuga das hostes monárquicas de nome Machado (e que segundo me disseram tem o curioso título de barão de Joane), e alguns mais, cuja insignificância não lhes dá qualquer direito a que retenha a identidade. Não me posso esquecer do tal grosseirão parlamentar, o médico dr. Almeida que todos sabem ser o coordenador da manufactura de bombas terroristas do partido que ajuda a dirigir. O director do hotel disse-me que este sujeito é aquilo a que vulgarmente se designa de demagogo, capaz de grandes tiradas oratórias junto da ralé, ao mesmo tempo que no Parlamento protagoniza episódios onde a linguagem escandalosa, a infâmia e o simples insulto, serviram sempre para agradar aos arrebanhados contingentes de populares que assistiam às sessões. Que regime sairá daqui, é coisa que até o maior idiota pode facilmente prever, porque esta gente não se encontra minimamente preparada, não tem a confiança das grandes potências, está envolvida em numerosos crimes de sangue e pior que tudo isto, durante anos lançou prodigamente ao solo, as sementes da anarquia, do ódio e da falta de respeito pelo outro e pela Lei. Prevejo um futuro infalivelmente manchado pela ruína, guerra civil e rebaixamento de Portugal no concerto das nações e desta certeza, ninguém me tira.

Infelizmente, fui involuntariamente obrigado a presenciar uma deplorável cena de escabrosa cobardia e oportunismo. Quando regressava ao hotel, vi passar o tal coronel Cunha já impecavelmente fardado e levado em ombros por populares, coisa que me fez de imediato recordar cenas semelhantes que presenciara há uns anos no México. O inepto oficial já não ostentava no boné, a coroa regulamentar do uniforme! Aderira de imediato à nova situação e fico a pensar naquelas palavras altivamente proferidas no jantar na nossa Legação, quando afagando o sabre de cerimónia - pois apenas para isso serve e o futuro decerto o confirmará -, dizia ..."atiraremos a matar!" Que vergonha, que miserável criatura e dizem-se eles os herdeiros daqueles que talharam pela espada e pelo sacrifício este país, levando a sua bandeira ao Brasil, Índia e Japão! Como é isto possível? São estes os homens que a Europa passou a admirar após as chamadas campanhas de pacificação em África? É a desonra, o total opróbrio e isto dias após um solene juramento! Como poderá no futuro este país confiar nos militares que há séculos guardam ciosamente a sua independência? Para a segurança da Inglaterra e a partir de hoje mesmo, julgo que o nosso Estado Maior deverá deixar de contar com estas forças armadas para o cumprimento dos compromissos inerentes à Aliança, pois provaram-no até à saciedade que não merecem a mínima confiança. O que seria o seu desempenho num campo de batalha numa futura grande guerra europeia?  Na verdade, não tendo manifestado num heróico impulso a sua indignação pelo vil assassinato do seu próprio Comandante-em-Chefe há apenas dois anos, deixaram de contar como força de confiança e respeitabilidade. São um bando de energúmenos uniformizados, apenas cientes do seu papel consumidor de recursos de um Estado que lhes dá cama, mesa e um totalmente imerecido estatuto social.

Foi esta a minha experiência durante os dias de uma revolução que não o é, pois não vejo qualquer viabilidade nos megalómanos projectos redentores propalados pelos seus próceres. Não terão os idolatrados couraçados, nem o tal "bacalhau a pataco". O pão não será praticamente gratuito e agora definitivamente no poder, os grandes interesses económicos farão sentir pesadamente a sua mão estranguladora dos direitos dos operários. Estou seguríssimo de uma futura e radical repressão nas ruas, de mais sangue, opressão da imprensa, fraude eleitoral, esbulhos e ataques à integridade pessoal de muitos daqueles que dentro em pouco se recordarão amargamente dos tempos em que eles próprios de tudo se serviram para espezinhar quem durante décadas lhes deu liberdade de expressão, paz social e progresso material. O tempo o dirá.

6 de Outubro de 1910

Os acontecimentos dos últimos dias, forçaram-me a tomar a drástica decisão de anular os restantes compromissos aprazados muito antes do início desta viagem. Era suposto visitar o Porto e as suas adegas, assim como Leixões e uma parte do Minho, onde tenho alguns amigos. Desisto. Tudo o que vi nestas últimas horas é demasiadamente angustiante e digo-o sem pestanejar, fez com que perdesse o respeito por este velho e fiel aliado que tantos serviços prestou à nossa pátria, sem que muitas vezes nós, ingleses, o reconhecêssemos. Agora é tarde, não ajudámos a quem muito devíamos e que neste momento de desgraça, ruma em direcção a Inglaterra, onde esperam encontrar abrigo.  Estou certo de que saberemos acolhê-los com a merecida dignidade e que por fim estejam a salvo destes energúmenos que agora em Portugal ditam a sua lei.

Um pouco por todo o lado surgem grupos perfeitamente identificados com o PRP e as suas ramificações carbonárias - ou será exactamente o inverso? - que procedem a depredações e violências de todo o tipo, encarniçando-se especialmente contra os edifícios religiosos e a propriedade de alguns destacados responsáveis do regime deposto. Os padres continuam a ser humilhantemente despidos das suas vestes em plena rua, são tosquiados como se fossem gado e sovados a murro, estalo ou bastonada, sob o olhar indiferente de uma Guarda Municipal ainda ontem derrotada pela própria inércia. Ardem conventos e claro está, os senhores do momento aproveitam para fazer mão baixa nos valiosos bens que encontram portas  adentro. Missais preciosos, iluminuras, incunábulos, tudo é roubado ou destruído. Após os saques, na calçada estão já em cinzas telas de mestres portugueses dos séculos XV ao XVIII e figuras religiosas de santos em talha são despedaçadas sem olhar, pelo menos, ao seu valor patrimonial. Outra nota absolutamente iníqua e revoltante, é o facto do surgimento de bandos armados que confiscam as bandeiras nacionais, ateando-lhes fogo em crepitosos autos-da-fé nos Restauradores e Rossio e tudo isto, sem que o pusilânime exército tome uma atitude. É a selvajaria mais infrene que campeia em toda a sua violência primitiva, no meio de dichotes e cantorias com as estrofes mais reles que possamos imaginar. As freiras são tratadas como se prostitutas fossem, sendo despojadas dos seus bens e postas na rua. É este o novo Portugal. Um pouco por todo o lado, meliantes armados de martelos, destroem as coroas que encimavam os escudos nacionais dos edifícios públicos e isto acontece, segundo alguns decentes transeuntes me disseram, para o costumeiro fingimento futuro de obra feita. Assim, dentro de algumas décadas, um povo estupidificado por uma pretensiosa elite de escroques, pensará que tudo aquilo que existe, tem a autoria dos santarrões adoradores da estrangeira Marianne. Simultaneamente, grupos de caceteiros invadem as residências de conhecidas figuras da sociedade lisboeta, forçando os atemorizados proprietários a fazer sumir sob panos negros, os brasões que durante séculos adornaram as fachadas. Parece aos olhos do mundo que o país morreu ou está de luto e sem disso ter a consciência, são os próprios cangalheiros que fazem a festa e se ufanam com o funeral das suas próprias vidas de homens livres. Vou partir, nada mais tenho para fazer aqui, num país que se rebaixou à condição de tugúrio mal frequentado. Até os cabecilhas do novo regime já assumiram sem pejo a sua herança de mau agouro, pois organizam-se procissões comandadas pelo directório republicano, que ao cemitério do Alto de S. João, situado nos arrabaldes da cidade, vão prestar homenagem aos regicidas de 1908. E nem é preciso procurar muito para encontrar a perfeita sintonia que impera naquelas hostes, uma vez que os retratos dos assassinos surgem nas lacrimosas pagelas profusamente distribuídas pelo partido, lado a lado dos mais conhecidos dirigentes, como o Costa, o Almeida ou o Bernardino. Estranhamente, fazem-me de imediato recordar uma certa espécie de gente que tive a ingrata oportunidade de observar na Sicília, quando da minha visita aos monumentos mais importantes da antiga Magna Graecia. O mesmo olhar turvo e reservado, o semblante raivoso e a arrogante aspereza nas atitudes, submetendo qualquer acto a senhas e contra-senhas.  São estes os grandes homens que querem governar Portugal e para confirmá-lo, já fizeram içar por todo o lado o miserável trapo do partido, pretendendo vê-lo consagrado como nova bandeira nacional. Chegarão a tanto?

A caminho do cais, continuam as mesmas cenas acima descritas e pasme-se, uma reedição tardia do Carnaval, mas desta vez, em Outubro. Surgem por todo o lado crianças com aspecto de macaquinhas de feira vestidas de ... república! Incrível mas absolutamente verdadeiro, mais parecendo viciosos duendes mascarados de carrascos de boné vermelho, tal o grotesco das figuras. Tudo isto é bastante ordinário e descoroçoante e passa-se já em pleno século XX! Atrasados, atrasados, o rei Carlos tinha razão quando afirmava que há males que de longe vêm. 

Agora, uma das primeiras atitudes das autoridades é rastejar perante o país que odiaram durante décadas. Suprema hipocrisia, protestam a sua fidelidade aos ingleses, fazem por esquecer quarenta anos de agravos e de suicida loucura que nos obrigou a um indesejável Ultimatum.  Suspeito que cairão em todo o tipo de torpezas para conseguirem o reconhecimento internacional que ninguém no seu perfeito juízo parece, por agora, disposto a conceder-lhes, tal a má reputação desta cambada.

Tendo finalmente embarcado para Portsmouth, fico a pensar como será este país dentro, digamos, de  cem anos? Terá conseguido esquecer toda esta violência, desperdício de energia e falta de respeito por si próprio e por uma história sem igual? Terá concedido de forma pacífica e ordeira a independência ao seu imenso império colonial que logicamente um dia se emancipará tal como a monarquia o soube fazer relativamente ao Brasil? Terá finalmente atingido o nível de desenvolvimento dos seus parceiros europeus de quem lenta mas inexoravelmente se ia aproximando? Consolidará uma democracia, ou passará por uma ininterrupta e mortífera série de revoluções, golpes de Estado, assassinatos de homens públicos, ruína financeira, corrupção e generalizada miséria?

Não acabará tudo isto pela instauração de uma ditadura que se eternizará no tempo e nos espíritos? 

Já a caminho da barra, olhei em direcção à popa e pela última vez vi Lisboa. Pareceu-me estranha. Já não era a mesma cidade refulgente de luz branca que tinha encontrado há apenas alguns dias. O sol poente tingia-a de uma luz avermelhada, como se um imenso incêndio a abrasasse. 


Nuno Castelo-Branco

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

II COLÓQUIO TRATADO DE ZAMORA


873º. ANIVERSÁRIO DE PORTUGAL

EM 5 DE OUTUBRO DE 1143 NASCEU PORTUGAL!

É em 5 de Outubro de 1143, com o Tratado de Zamora e na presença do Legado Pontifício, Cardeal Guido de Vico, que D. Afonso VII de Leão reconhece a existência de um novo Estado, PORTUGAL.

Esta declaração de PORTUGAL como REINO INDEPENDENTE infelizmente não é comemoradaoficialmente no próprio País.

PORTUGAL deve ser o único País do Mundo que não celebra oficialmente a data da sua INDEPENDÊNCIA.


A REAL ASSOCIAÇÃO DE COIMBRA tem comemorado em cada “5 de OUTUBRO” o ANIVERSÁRIO da FUNDAÇÃO da NACIONALIDADE, mandando celebrar na Igreja do Mosteiro de SANTA CRUZ, em Coimbra, MISSA sufragando a alma do Rei Fundador e dos seus Descendentes.


Neste ano de 2016, a Missa será celebrada às 11,30 horas.


Na mesma Cerimónia será igualmente sufragada a alma do recentemente falecido Eng.º Luís Marçal Correia de Oliveira, que exercia as funções de Vice-Presidente do Conselho Fiscal da Real Associação de Coimbra, tendo exercido durante vários mandatos as funções de Tesoureiro da Direcção e que, durante a sua vida terrena, prestou relevantes serviços à Instituição Real e ao Movimento Monárquico, realçando-se a sua sempre decisiva intervenção na organização dos sucessivos eventos da R. A. C., particularmente dos arraiais monárquicos na cidade da Figueira da Foz.


         Após a Eucaristia realizar-se-á a Cerimónia evocativa da efeméride junto aos túmulos dos Reis Fundadores (D. Afonso Henriques e D. Sancho I).

Convidam-se todos os Portugueses a participar nas Comemorações do 872.º ANIVERSÁRIO da INDEPENDÊNCIA de PORTUGAL, em Coimbra.

FAÇAMOS DO ANIVERSÁRIO DE PORTUGAL uma data que UNA OS PORTUGUESES!

VIVA PORTUGAL! 
                                    O Presidente da Direcção da R.A.C.       
Joaquim Leandro Costa e Nora

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

VAMOS COMER A REPÚBLICA E CELEBRAR A FUNDAÇÃO DE PORTUGAL


No próximo dia 4 de Outubro, véspera do dia em que Portugal nasceu, mas também foi interrompido, a JMP vai trinchar a república e celebrar os 873 anos do Tratado de Zamora. Não há melhor maneira de celebrar a Fundação de Portugal do que numa mesa em que a república, responsável pela interrupção de Portugal, é o prato principal.

Neste mesmo dia, mas em 2013, nasceu a JMP. Assim, há dois motivos para festejar que se fundem num só: a JMP nasceu para restaurar Portugal pela monarquia e não existe para além desta missão.

Esta comemoração também será o último evento público organizado pela actual Direcção Nacional da JMP. Por isso, os jovens monárquicos querem ter a honra de partilhar este momento com todos os que acompanharam a JMP nos últimos três anos.

Estão todos convidados.

Juventude Monárquica Portuguesa

domingo, 2 de outubro de 2016

Bosch, entre o paraíso e o deboche

Mesmo quem não aprecia a acção espiritual e social da Igreja católica não pode deixar de reconhecer que nenhuma outra religião foi tão importante para o desenvolvimento do conhecimento e da arte.

No passado dia 23, aproveitando uma deslocação a Madrid por razões de trabalho, tive o privilégio de visitar a exposição que o Museu do Prado dedicou a Hieronymus Bosch, no quinto centenário da sua morte. Foi tal o êxito desta iniciativa que, apesar de inaugurada a 31 de Maio, a sua conclusão, prevista para 11 de Setembro, teve que ser adiada quinze dias.
Bosch não é um pintor desconhecido em Portugal: uma das suas mais emblemáticas obras, o tríptico das tentações de Santo Antão, faz parte do espólio do Museu Nacional de Arte Antiga. Nascido provavelmente no ano de 1450, em ‘s-Hertogenbosch (Bois-le-Duc), uma povoação ao norte do ducado de Brabante, na actual Holanda, Hieronymus van Aken passou à história não com o seu apelido, mas com o nome que tomou da terminação da designação da sua cidade natal: Bosch. Consta que Filipe I de Portugal e II de Espanha foi grande apreciador da obra de ‘el Bosco’, como é designado este seu súbdito em terras espanholas, o que explica a existência de muitas obras suas na península ibérica.
A iniciativa do Museu do Prado não é inédita, pois surgiu na continuidade da exposição que já se tinha celebrado, também este ano, na terra natal do pintor neerlandês, com um expressivo título: ‘Bosch. Visions of Genius’.
Quem percorresse, com alguma atenção, a meia centena de obras expostas, não teria grande dificuldade em reconhecer a genialidade de Bosch. De facto, a sua pintura é de uma surpreendente mestria técnica, sobretudo pela criatividade das composições, quase sempre de uma enorme complexidade. Talvez o que mais surpreenda seja a originalidade na forma como são representados os temas, em geral de índole religiosa.
Muito embora a sua pintura não se possa considerar sacra, porque não cumpre o objectivo de oferecer imagens que favoreçam a devoção dos fiéis, é no entanto uma arte essencialmente cristã, em que predomina a temática escatológica, na representação fantástica dos dois destinos eternos: a salvação e a condenação. Mas Bosch não se limita a representar o paraíso e o inferno: desenha-os com uma tal originalidade que, por vezes, parece antecipar-se aos mais audazes representantes do surrealismo moderno.
O seu traço é de uma enorme precisão, de uma perfeição minuciosa e, ao mesmo tempo, de uma grande tensão dramática: mesmo quando se atreve a devaneios tão grotescos que quase parecem risíveis, as suas telas nunca esquecem a dimensão trágica do sobrenatural. Na sua pintura há sempre um ensinamento moral, mesmo que os pormenores fantásticos possam levar a crer que tudo não é mais do que uma ilusória visão de um mundo irreal. Pintando, lado a lado, o paraíso e o mais incrível deboche, Bosch grita, ao homem de todos os tempos, o sentido moral da existência humana: consoante a vida terrena, cada qual terá o prémio ou o castigo que merecer.
Para quem ainda pensa que a fé cega a razão e corta as asas à imaginação, Bosch prova o contrário: a revelação sobrenatural não só não limita a visão e compreensão da realidade, como desperta a imaginação e o entendimento para novas e insuspeitáveis dimensões. Mesmo quem não reconhece, nem aprecia, a acção espiritual e social da Igreja, não pode deixar de louvar o extraordinário contributo do catolicismo para a cultura humana. Nenhuma outra religião foi, decerto, tão importante para o desenvolvimento do conhecimento e da arte.
Uma outra nota é igualmente digna de menção: a pintura de Bosch é também um exercício de liberdade, enquanto expressa uma veemente crítica contra os poderes instituídos. É chamativo que, por exemplo, no tríptico do carro de feno, o pintor tenha representado papas, reis e bispos, entre os que desprezam o chamamento do alto, na pessoa de um anjo que aponta para o Crucificado, e se deixam seduzir pela palha das coisas vãs.
Ao invés do que uma certa historiografia laica fez crer, a Europa cristã, não obstante a inegável actuação repressiva de alguns poderes civis e religiosos, foi também um espaço de relativa liberdade de pensamento e de expressão, pois até a crítica religiosa e social, também das máximas autoridades eclesiásticas e políticas, se consentia.
Pelo contrário, nos actuais regimes totalitários, não se permite nenhuma censura política ou social; e, nos Estados onde vigora a lei islâmica, qualquer alusão religiosa menos ortodoxa é tida por blasfema e punida com a pena de morte. Pelos vistos, uns e outros estão hoje mais atrasados do que estava a Europa católica do século XV…
Fonte: Observador

sábado, 1 de outubro de 2016

27 de Setembro de 1910 – D. Manuel II no Buçaco

dom-manuel-ii-no-bussaco-com-duque


Integrada nas comemorações do Centenário da Guerra Peninsular, a 27 de Setembro de 1910 Sua Majestade Fidelíssima El-Rei Dom Manuel II de Portugal assistiu, acompanhado do 4.º Duque de Wellington, à cerimónia do 1.º Centenário da Batalha do Buçaco, onde havia 100 anos Lorde Arthur Wesley (que depois mudou para Wellesley), 1.º Duque de Wellington, 1º Marquês Douro (Douro, era o nome com que era aclamado em campanha pelas tropas da aliança luso-britânica e é o título usado pelo herdeiro do título de Duque de Wellington), e com os títulos portugueses de 1.º Duque da Vitória, 1.º Marquês de Torres Vedras e 1.º Conde do Vimeiro, havia derrotados as tropas napoleónicas durante as Invasões Francesas.
Enquanto Dom Manuel II vestia grande uniforme de Marechal-General do Exército – posto privatístico do Rei de Portugal -, Lorde Arthur Wellesley trajava o característico uniforme de coronel-em-chefe dos British Royal Foot Guards Reserve Regiment, com o notório capacete alto de pelo de urso.
Recorde-se que a aliança entre Portugal e a Inglaterra, que perdura até aos dias de hoje, remonta ao ano 1386 data em que foi assinado o Tratado de Windsor, aliança consolidada em 1387 pelo casamento do Rei D. João I de Potugal com a Princesa Inglesa Dona Filipa de Lencastre (Lady Phillippa of Lancaster), filha de John Gant, Duque de Lancaster, e neta do então monarca inglês Eduardo III, de cujo consórcio matrimonial nasceria a Ínclita Geração.
Miguel Villas-Boas