terça-feira, 10 de setembro de 2019

Portugal: Nação Fidelíssima


Feliz a Nação que, não ignorando os seus direitos tão autorizados, jura obediência ao seu Rei e o alivia do peso enorme d'um governo absoluto, como acontece ao Pai que tem filhos discretos e bem governados. Feliz a Nação que jura obediência a uma Religião Santa e às Leis fundadas em justiça e caridade; recompilação perfeita de todos os preceitos da Lei escrita e da Lei da graça: obra imortal, de que só um Deus podia ser o Autor, a quem só pertence a regeneração dos homens, que Ele criou para Si, como centro da imortalidade.

Pe. José Agostinho de Macedo in jornal «O Escudo», Nº 1, 1823


Fonte: Veritatis

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Sabia que o Carnaval do Rio nasceu para celebrar a independência de Portugal ?

A imagem pode conter: 1 pessoa, céu, ar livre e natureza
A imagem pode conter: 3 pessoas


O Primeiro Carnaval Carioca, 1641. Em 10 de Março de 1641, chegou ao Rio de Janeiro, vindo da Bahia, o jesuíta Padre António Vieira, que trazida a notícia da Aclamação em Lisboa do Rei Dom João IV e da libertação de Portugal e do império do jugo espanhol. Era o fim do domínio espanhol sobre a metrópole e seu territórios de ultramar. Governava então no Rio de Janeiro, Salvador Correia de Sá e Benevides, que tinha óptimas relações com a Coroa Espanhola, e era inclusive filho de uma espanhola. Tomado por rumores que duvidavam de sua lealdade com o novo Rei de Portugal, o governador do Rio de Janeiro convocou uma grande assembleia na Igreja Matriz no Morro do Castelo aonde deu apoio à Coroação de Dom João IV e declarou festividades por 8 dias. Com grande participação popular, a cidade encheu-se de mascarados, nobres e plebeus, brancos e negros, dançando e cantando. Segundo relatos da época, houve o uso de fogos de artifícios e até touradas à moda portuguesa. Porém apenas à luz do Sol, pois à noite não era costume festas na Cidade. E assim foi a feliz aclamação do Rei de Portugal, no primeiro carnaval do Rio de Janeiro. 

Fonte: Salvador Correia de Sá a Benevides: vida e feitos, 1940, Segredos e Revelações da História do Brasil, de Gustavo Barroso.


domingo, 8 de setembro de 2019

540º aniversário do Tratado de Alcáçovas

Divisão territorial de Alcáçovas-Toledo


A 4 de Setembro de 1479, foi assinado o Tratado de Alcáçovas entre D. Afonso V, o seu filho D. João II, e os Reis Católicos (Isabel de Castela e Fernando de Aragão), no qual Espanha reconhecia a soberania portuguesa sobre os arquipélagos da Madeira, Açores e Cabo Verde, e Portugal renunciava à posse das Canárias, que ficariam sob domínio espanhol. O acordo atribuía ainda a Portugal as terras que viessem a ser descobertas a sul do paralelo que passava no Cabo Bojador, enquanto Espanha ficaria com as terras a norte do paralelo. O Tratado foi ratificado em Toledo, no ano seguinte, e devidamente reconhecido pelo Papa Sisto IV em 1481.

No entanto, o Tratado de Alcáçovas-Toledo teve que ser revogado devido aos vários incumprimentos por parte de Espanha. Foi assim que em 1494 se assinou um novo tratado em Tordesilhas.


Fonte: Veritatis

sábado, 7 de setembro de 2019

Não foi excepção

A imagem pode conter: 1 pessoa

Mugabe foi inventado pelos soviéticos e aclamado pelo Ocidente como um homem de excepcionais qualidades. Sem tirar nem pôr, nada o separava dos machéis e outra gente que a boa consciência fez crismar como "nacionalistas" [de coisa alguma] e "freedom fighters", expressão de cintura larga onde cabiam os Ches, os Bin Ladens e os Pol Pots.

É sabido que o Ocidente tudo fez para impedir a solução compromissória representada pelo bispo Muzorewa que venceu as eleições gerais de 1979 - eleições justas, democráticas - teimando em não lhes reconhecer legitimidade, pois a legitimidade de armas na mão da ZANU era, como o foi em Moçambique com a FRELIMO, a única condição exigida pela boa consciência dos areópagos.

Depois, foi o que se sabe: o oligofrénico destruiu os seus compagnos de route - só não matou Joshua Nkomo, pois providencial cancro na próstata o retirou do número dos vivos - depois mandou retirar por decreto os lugares parlamentares reservados à minoria branca, destruiu a economia reeditando a deskulakização e as fomes bíblicas, mandou demolir todas as casas pertencentes a membros de tribos minoritárias que se haviam fixado em torno da capital, confiscou todos os poderes, baniu a oposição e empurrou para o exílio mais de 30% da população. Perante o desastre, o soba louco inventou cabalas e conspirações universais para desculpar as políticas ubuescas: a conspiração da rainha Isabel, a conspiração dos "pornógrafos britânicos" e outras espantosas maquinações que só uma transbordante veia ficcionista à Swift se atreveria passar ao papel.

Mugabe é o retrato da África que se quis pura e absolutamente negra, do racismo que não se queria ver ao espelho, da regressão até aos limites da luta pela sobrevivência. Mugabe foi a excepção: foi a regra de ouro, a mais perfeita decantação do pesadelo em que se transformou o continente. A culpa - se a definição importada do direito tem alguma possibilidade de vingar num continente sem lei - não é de Mugabe, mas de todos os estúpidos inteligentes que o colocaram onde imerecidamente não podia ter estado e de onde saiu quase morto. Como um dia fez questão em dizer, "o Zimbabwe é meu e ninguém mo tira".

O continente vai morrendo, num movimento que surge como imparável. Nunca tantos africanos sofreram tantos atropelos àqueles direitos que os bem-pensantes palradores invocam. Onde estão os Bernard Henri-Lévy, os Daniel Cohn Bendit, os Al Gore, os Bob Geldof e demais bufarinheiros dos negócios sentimentalóides?

MCB

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

A MALDITA TEORIA DO GÉNERO

“A opinião tem pela Câmara dos deputados um sentimento unânime e unanimemente declarado: o tédio. Diz-se mal da Câmara por toda a parte. Os jornais mais sérios falam constantemente da sua improdutividade. Ela é geralmente considerada como um sórdido covil de intrigas. Se se pergunta:
- Que houve hoje na Câmara?
- Uma farsa – respondem uns.
- Uma feira – respondem outros.”
  Eça de Queiroz, “As Farpas”, 1871.

Este texto vai sair fora das normas. Vai ser um texto de adjectivos, se quiserem, malcriado mesmo. Destinado a ofender, a agredir, a agitar, a provocar reacções. É um texto radical, não no sentido de procurar a raiz das questões ou dos problemas, mas de extremismo avassalador!

Não vou fazer o historial da teoria (merdosa) do género.

Não vou dar-me ao trabalho de procurar argumentação para desmontar a coisa.

Esfalfar-me a apontar as vis intenções dos promotores deste atentado à natureza, à ciência e à inteligência.

Menos ainda a esgadanhar-me a apresentar dados científicos para opôr a esta orgia subversiva da sociedade.

Tão pouco encontrar justificações para “compreender” os tarados que defecaram esta trampa toda, vinda sabe-se lá de que buraco negro. Não do espaço, mas da alma (des) humana!

Não estou interessado em “dialogar” sequer com anormais, que deviam estar internados em hospícios, tratados a pau de marmeleiro e duches frios, mas que uma falsa liberdade lhes permite tão descarado exercício de “nonsense”.

“Eles” não merecem e a tal “teoria” nem chega aos calcanhares de um cano de esgoto.

Esta estúpida e cobarde, complacência com os conceitos de tolerância, respeito mútuo, ausência de censura social, inclusão, imoralidade, etc., em síntese, com o relativismo moral, deu nisto!

Não se pode ser tolerante com o que não é tolerável, respeitar o que não é respeitável, “incluir” o que deve ser excluído, não censurar o que é deplorável, etc.. Muito menos transformar vícios em virtudes e vice-versa.

O Parlamento (já nem falo do PR, um católico dito progressista, risos…) ao aprovar estas leis sinistras, ultrapassou pela esquerda baixa (e reles), a apreciação do velho Eça.

Mas o país não aprende mesmo!

Andamos nisto desde 1820!

É preciso combater as taras, não incentivá-las; confinar os anormais, não reproduzi-los; dar “espaço” às minorias, não impô-las às maiorias.

Já basta a “Democracia” em que a quantidade quase sempre se impõe à qualidade, a demagogia, à seriedade, o acessório, ao fundamental!

É preciso combater por todos os meios as ideologias malsãs. Desobedecer quando é preciso!

Tudo isto, nada tem a ver com direitos humanos, mas sim com estupidez e perfídia humana.

Estou capaz de lhes trincar o fígado.

Por isso o meu argumento para viver com esta gentalha e estas leis é único, simples, enxuto e terminal:

Estimar que toda esta casta de adiantados mentais, defensores extremosos desta teoria escabrosa, juntem todos os seus haveres, coisas ou bagulhos e vão todos ter (em passo de corrida) com a leviana da sua progenitora; a mundana da sua mãe biológica ou, simplesmente, com a grandessíssima pata que os pôs!

PIM![1]

Abaixo a Revolução: viva a Contra - Revolução!


João José Brandão Ferreira
Oficial Piloto Aviador (Ref.)
           


[1] Atenção é PIM (de Almada), não é PAN de…


Fonte: O Adamastor

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Aeroporto Humberto Delgado? Preferimos Bartolomeu de Gusmão e Gago Coutinho

A imagem pode conter: 1 pessoa



Causará decerto estupefacção a quantos nos visitam que o Portugal actual pareça ter em tão pequena conta o seu passado, tudo parecendo reduzir às últimas décadas - décadas, aliás, que foram de emigração em massa, empobrecimento face à Europa e insignificância europeia e mundial, e cuja auto-celebração, por isso, só pode deixar-nos com um sabor amargo na boca. Essa tendência geral é ilustrada pelo aeroporto de Lisboa, entretanto pomposamente renomeado "Aeroporto Internacional Humberto Delgado".

Ora, cremos que a relação dos portugueses com a História deve ser tão ampla, saudável e liberta de ideologias quanto possível. Humberto Delgado foi, certamente, figura relevante no desenvolvimento da aviação civil portuguesa no século XX. Mas poderá Portugal admitir ter a dar nome ao aeroporto da sua capital uma figura, apesar de tudo, de segunda linha, de dúbio carácter, e ardente admirador, até, de Hitler e do nazismo quando contemporâneo daquele? Só muito dificilmente, e apenas, talvez, se Portugal e o espaço português não tivessem oferecido aos livros de História da Aviação tantos nomes incomensuravelmente maiores.

Porque os regimes não devem celebrar-se a si mesmos nem o tributo público estar dependente de ideologias, e sempre e só ao serviço do país, mais sentido faria que o Aeroporto de Lisboa tomasse o nome de Bartolomeu de Gusmão, pioneiro da aviação e inventor do primeiro balão de ar funcional da História. Nascido no Brasil português, mestiço, grande figura das nossas ciências, o seu nome marcaria o carácter aberto da nação portuguesa, assim como o alcance mundial da sua cultura. E, para o nascente aeroporto do Montijo, porque não Gago Coutinho, autor com Sacadura Cabral daquele que foi o primeiro vôo a cruzar o Atlântico Sul e a unir a Europa ao Brasil? Eis o que faria uma democracia adulta: reconheceria os seus maiores e deixaria a pequena mitologia de legitimação do poder para trás.

terça-feira, 3 de setembro de 2019

O Pai e o Rei


Pai e Rei são palavras sinónimas: Filhos, ou súbditos, têm a mesma significação – Pai é o legislador, que recebeu todo o poder para o governo e direcção da sua família, por meio da razão, ou da Lei escrita no coração do homem.

Este poder é transmissível, quando o requer o bem da família, ou seja pelo instinto social, ou pelo desejo de comunicar seus pensamentos uma alma racional, ou pelo medo e temor dos adversários da vida, ou pela força, ou por qualquer outro motivo d'atracção, sobre que são baldadas as disputas ou entretimentos.

O certo é o poder dos Pais sobre os Filhos, e o poder dos Reis sobre os súbditos: não são diversos direitos, ou poderes; são idênticos; o Rei não pode mais que o Pai: estes poderes não foram concedidos, como privilégios, mas só ao fim da conservação das famílias.

Nasceram os homens em dependência absoluta de seus progenitores, até ao tempo em que possam trabalhar, e ganhar o pão com o suor do seu rosto: lei formidável, mas necessária para expiação, e regeneração da carne corrompida pelo pecado: o que não escapou ao Filosofismo natural d'um Platão, e outros homens ilustrados pela revelação primitiva, ou por dom da graça, que não é tão restrita, como pensam muitos homens.

Esta dependência peculiar do género humano, não converteu em coisas as pessoas, mas produziu o direito paternal, o mais sagrado de todos os direitos, para criar, educar e vigorizar a sua descendência, que deve crescer e multiplicar-se, enquanto couber na terra: esta é a força da palavra "replete" escrita no Génesis, que deve entender-se por faculdade de propagar-se.

Pe. José Agostinho de Macedo in jornal «O Escudo», Nº 1, 1823.


Fonte: Veritatis

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Bangkok foi fundada por portugueses e quer dizer Azeitão

Nenhuma descrição de foto disponível.

Os thais chamam à sua capital Krung Thep Mahanakhon (กรุงเทพมหานคร), pelo que se o caro leitor se referir a Bangkok (Banguecoque grafado em português) em frente de um tailandês comum, este não compreenderá de que lugar se está a falar. Isto tem uma explicação. Bangkok foi criada por portugueses em meados do século XVII e, traduzido para português, quer dizer tão só Azeitão ou "aldeia das oliveiras" (Ban = aldeia + Kók/กอก = oliveira). Originárias da América do Sul, as spondias mombin (cajá-manga para os brasileiros) foram introduzidas no Sudeste-Asiático pelos portugueses em inícios do século XVII e usadas como base para molhos e conservas, ou seja, com a mesma finalidade do azeite de oliveira na Europa da Antiguidade e Idade Média. A aldeia de Bangkok nasceu no actual distrito de Samsen, três quilómetros a norte do complexo religioso-administrativo do palácio real, que só seria erigido a partir de 1782. Ali havia uma igreja em madeira que servia o Padroado e era em Bangkok que as embarcações que subiam o Chao Phrya (rio de Bangkok) em direcção à antiga capital (Ayutthaya), interrompiam a sua viagem para receberem pilotos experimentados na navegação fluvial. Estes pilotos eram luso-siameses católicos, os únicos siameses que falavam a língua franca comercial e diplomática da região entre os séculos XVI e XIX, a língua portuguesa.


domingo, 1 de setembro de 2019

Inquisição: a História lava mais branco

Os preconceitos, originados pela má-fé, combatem-se com a verdade. O pior inimigo da fé cristã não é a ciência, mas a ignorância.

Se há coisas que não faltam na bimilenária História da Igreja Católica são lendas negras: as cruzadas, a Inquisição, a expulsão dos judeus, o caso Galileu, Pio XII, etc.
A receita para cozinhar uma lenda negra é simples: parte-se de um episódio verdadeiro, descasca-se o seu contexto, retiram-se os aspectos positivos, apimenta-se com uma dose de ódio q.b. e o pratinho está pronto para ser servido à opinião pública!
Não se responde às lendas negras com o branqueamento da História, mas com os factos que contradizem os preconceitos originados pela má-fé e, sobretudo, pela falta de conhecimento. O pior inimigo da fé cristã não é a ciência, mas a ignorância: os homens, como os peixes, pescam-se pela cabeça.
Uma lenda negra recorrente é a Inquisição, não porque não tenha existido, mas porque é apresentada de uma forma distorcida. Por exemplo, os inquisidores, embora sentenciassem penas graves, como a capital, também absolviam alguns arguidos e até indultavam quem já tinha sido condenado. Às vezes, as penas eram comutadas por uma razão de caridade, o que aconteceu a 3-9-1252, a Brice de Montréal, que viu substituída a sua pena de prisão por uma peregrinação à Terra Santa. Outro réu, que em 1256 tinha sido condenado a ir aos Santos Lugares, pôde, atendendo à sua idade avançada, cumprir a pena com o pagamento de uma multa. Não eram raros os indultos, cuja fórmula o inquisidor Bernardo de Gui previu no seu Manual.
Os Papas, aos quais cabe a suprema jurisdição eclesial, várias vezes anularam as sentenças da Inquisição. Bonifácio VIII revogou a condenação, por heresia, de Rainero Gatti, de Viterbo, a 13-2-1297 e, no ano seguinte, mandou restituir aos filhos de um herege, condenado pelo Santo Ofício, os bens que lhe tinham sido confiscados.
Por regra, havia humanidade no modo como as penas eram impostas pela Inquisição. Assim, por exemplo, houve cristãos detidos – só os fiéis podiam ser julgados por este tribunal da Igreja! – a quem se permitiu que fizessem férias, ausentando-se da prisão por um período de tempo determinado, com a obrigação de, expirada a licença, regressarem ao presídio, para completarem a pena. O Bispo de Carcassone autorizou uma mulher, Alazais Sicrela, a permanecer, durante sete semanas, fora do cárcere da Inquisição, sem ficar em prisão domiciliária, nem com termo de residência. Também Pagane, viúva de Pons Arnaud de Preixan, que estava presa, teve licença para gozar dois meses de férias de 15 de Junho a 15 de Agosto de 1251!
Permitiu-se igualmente que os condenados pelo tribunal da Igreja fossem dispensados, por razão de doença, do internamento penitenciário. São tantos os casos que se conhecem – só em 1250, foram excarcerados, por esta razão, Bernard Raymond, Armand Brunet, Bernard Mourgues, Arnaud Miraus e muitos outros – que se pode afirmar que não se tratava de uma excepção, mas de uma praxe habitual.
Também se conhecem histórias de condenados que foram dispensados do cárcere por razões familiares. O rigoroso juiz Bernard de Caux condenou a prisão perpétua, em 1246, um herege relapso, Bernard Sabatier mas, como o réu tinha um pai velho e doente, na própria sentença em que o condenou também o autorizou a viver com o seu progenitor, até à morte deste, para lhe dar o apoio de que necessitava.
Quer isto dizer que a Inquisição era um exemplo de humanidade e não houve excessos na aplicação da justiça eclesiástica? Claro que não: certamente que houve abusos e a própria prática da tortura, como meio processual para a confissão do arguido, que tem a sua origem no direito romano, é abominável. Os inquisidores eram, como todos os homens, pessoas capazes do bem e do mal. Houve, com certeza, juízes do tribunal do Santo Ofício que foram rectos e justos na aplicação da lei eclesiástica então vigente, como também os houve que se excederam, sendo responsáveis por abusos deploráveis, que não podem ser justificados, nem esquecidos. Mas a Inquisição não só foi melhor do que os estabelecimentos prisionais do seu tempo e posteriores – piores foram, decerto, os tormentos infligidos aos Távoras – como também era mais humana do que muitas prisões contemporâneas como, por exemplo, a de Guantánamo.
A verdade é que a Igreja exigia especial probidade aos juízes da Inquisição. Um dos mais severos inquisidores, Bernardo de Gui, traçou o seu perfil: “O inquisidor (…) permanecerá calmo, nunca cederá à cólera nem à indignação (…). Deve ser insensível aos rogos e às propostas dos que o querem aliciar; mas também não deve endurecer o seu coração, a ponto de recusar adiamentos e abrandamentos das penas, conforme as circunstâncias (…). O amor da verdade e a piedade, que devem residir no coração de um juiz, brilhem nos seus olhos, a fim de que as suas decisões jamais possam parecer ditadas pela cupidez e a crueldade”.
Como, não obstante estes critérios, alguns magistrados causaram um grave dano às vítimas e à própria Igreja, a máxima autoridade eclesial, uma vez informada desses excessos, teve que intervir. Por exemplo, em 1305, a crueldade do inquisidor de Carcassone levou os habitantes desta cidade francesa a dirigir um protesto ao Papa Clemente V que, a 13 de Março desse mesmo ano, incumbiu os Cardeais Pierre Taillefer de la Chapelle e Béranger Frédol de uma inspecção a esse tribunal, que foi feita logo em Abril desse ano. Em consequência, os carcereiros foram substituídos, foi garantido aos presos que receberiam os bens alimentares fornecidos pelos seus familiares e amigos; e melhoradas as condições sanitárias do presídio. Na prisão de Albi, mandaram tirar as correntes aos presos e abrir maiores janelas, para que entrasse mais luz e ar.
A Inquisição foi, na sua génese, uma instituição da Igreja, mas a ação dos juízes eclesiásticos reduzia-se à verificação da heresia, que requeria magistrados que fossem teólogos. Se constasse, o herege era entregue ao ‘braço secular’, que executava a pena que, nos casos mais graves, era a de morte. Portanto, não era a Inquisição que matava os hereges, mas o Estado, porque a heresia era então um crime de lesa-pátria. A Inquisição ibérica foi tão dominada pelo poder político que deixou de se chamar eclesiástica, para se intitular régia. Pombal, por exemplo, para usar e abusar deste tribunal para fins políticos, fez com que um seu irmão, Paulo de Carvalho, fosse nomeado inquisidor-mor do reino.
Não é fácil saber o número dos que foram condenados pelo tribunal do Santo Ofício e depois executados pelo Estado. Henry Kamen, da Universidade de Yale, que investigou a Inquisição espanhola, talvez a mais activa da Europa cristã, chegou à seguinte conclusão: “Podemos com toda a probabilidade aceitar a estimativa, feita com base na documentação disponível, que um máximo de três mil pessoas podem ter sofrido morte durante toda a história do tribunal” (Yale University Press, 4ª edição, 2014, p. 253). Segundo um estudo recente do Professor Agostino Borromeo, só 1,8% dos casos julgados por essa Inquisição resultaram em condenações à morte: 98,2% dos restantes foram ilibados, ou condenados a penas de prisão.
A Suíça calvinista queimou quatro mil feiticeiras e “a Alemanha protestante matou mais bruxas e bruxos que em qualquer outro lugar: cerca de 25 mil” (Zenit, 20-6-2004). As três mil condenações à morte, pela Inquisição espanhola, não podem ser menosprezadas mas, em termos numéricos, não são equiparáveis aos supliciados pela Inquisição protestante, ou aos seis milhões de mortos causados pelo nacional-socialismo alemão, ou ainda aos cem milhões de vítimas do comunismo mundial.
Resumindo e concluindo, a Inquisição católica foi um exemplo de justiça e humanidade e tudo o que dela se diz é uma falsificação histórica? Claro que não, porque muitos inocentes foram injustamente condenados, como Joana d’Arc, que a Igreja canonizou. São João Paulo II, no jubileu do ano 2000, pediu publicamente perdão pelos “erros cometidos ao serviço da verdade, por meio do uso de métodos que não têm relação com a palavra do Senhor”. Mas também é verdade que a Inquisição não é o que certa propaganda laica, de tendência liberal-maçónica ou marxista-leninista, afirma.
A Igreja, para refutar esta lenda negra, não precisa de branquear a sua História: basta que exponha, com objectividade, os factos, até porque nada lava mais branco do que a verdade. Ao contrário do que acontece com muitas ideologias políticas e outras religiões, a verdade é a essência do Cristianismo, não só porque Cristo com ela se identificou (Jo 14, 6), mas também porque ensinou que só a verdade liberta (Jo 8, 32).
Fonte: Observador