quinta-feira, 9 de agosto de 2018

SAR, D. Afonso de Bragança está a estagiar num quartel, mas para já não pode combater fogos

D. Afonso, filho de D. Duarte, está em estágio nos Bombeiros Voluntários de Lisboa. Mas não pode ir apagar fogos tão cedo. "Não é bombeiro quem quer, é quem sabe", justifica o comandante.



Há muito tempo que Afonso de Santa Maria João Miguel Gabriel Rafael de Herédia de Bragança, filho primogénito de Dom Duarte Pio e de Dona Isabel de Herédia, discutia com a família e com os amigos “o estado de Portugal em matéria de incêndios”. A vontade de combater o problema cresceu ainda mais quando ardeu parte significativa do Pinhal de Leiria, obra pensada por D. Afonso III no século XIII e concretizada por D. Dinis, consumida nos grandes fogos de Outubro do ano passado.
Depois disso, D. Afonso encontrou-se com Paulo Vitorino, o comandante dos Bombeiros Voluntários de Lisboa: “Ele sugeriu que participasse no estágio para os bombeiros para ver como é que as corporações funcionavam e para ter essa experiência própria”. D. Afonso de Bragança aceitou o desafio. Agora, o Príncipe da Beira e Duque de Barcelos, segundo da linha de sucessão ao trono (caso Portugal fosse uma monarquia), está em recrutamento para os Bombeiros Voluntários de Lisboa.
A conversa entre D. Afonso e Paulo Vitorino aconteceu há coisa de “seis ou sete meses”, recorda o comandante. O processo de admissão do príncipe de Portugal para esse estágio não foi em nada diferente do de outro cidadão qualquer, garantiu ao Observador: “O senhor Dom Afonso de Bragança veio à nossa corporação porque queria fazer recrutamento para o corpo dos Bombeiros Voluntários de Lisboa na área Social e de Emergência Pré-Hospitalar”. Segundo o comandante, “a notícia foi recebida com muita naturalidade porque ele é igual aos outros”. Para chegar até aqui, Dom Afonso de Bragança teve de submeter-se a inspeções médicas para avaliar se “as condições físicas, psíquicas e de idoneidade” o tornavam apto para a missão.

D. Afonso: “Foram muito simpáticos, mostraram como funcionava o quartel e introduziram-me no grupo”


O estágio de D. Afonso de Bragança começou esta quarta-feira e, garante o príncipe, “correu muito bem”. “Foram muito simpáticos, mostraram como funcionava o quartel e introduziram-me no grupo”. Este era um passo que D. Afonso queria cumprir “desde sempre”: “Quando era pequeno já pensava em tornar-me bombeiro ou polícia. Achei correto. Eu quero cumprir o serviço militar, mas como já não há obrigatoriedade em fazê-lo e eu não posso fazê-lo por razões académicas, fiz aquilo que me parecia mais próximo dessa missão”, conta ele.
D. Afonso, que completou 22 anos a 25 de março, não foi requisitado para uma acção. “Eles [os estagiários] não são carne para canhão, isto não é como na I Guerra Mundial que eram todos chamados para o campo”, sublinha o comandante Paulo Vitorino. Pela frente Dom Afonso de Bragança ainda tem quase um ano de treinos para ver se está apto a cumprir a missão dos Bombeiros Voluntários de Lisboa, que celebram 150 anos de existência.
Até lá não vai sair do quartel. “Não é bombeiro quem quer, é quem sabe”, justifica Paulo Vitorino. Se terminar o estágio com sucesso, o Príncipe da Beira e Duque de Barcelos será oficialmente incorporado no corpo dos Bombeiros Voluntários de Lisboa, mas ainda não poderá combater os incêndios: para o fazer terá de passar por uma nova formação que leva mais quatro meses.
D. Afonso de Bragança não é o primeiro membro da família real portuguesa ligado aos bombeiros, algo que o príncipe só descobriu durante a primeira formação do estágio: “Aprendi muito sobre a história dos bombeiros. Contaram-me que nos emblemas dos bombeiros há sempre uma máscara de cavaleiro, que normalmente está de lado. Se aquela corporação já tiver tido um membro da família real como bombeiro, a máscara de cavaleiro aparece virada para a frente”.

O irmão do Rei D. Carlos, D. Afonso de Bragança, conhecido como o Infante D. Afonso, duque do Porto, foi comandante honorário dos Bombeiros Voluntários da Ajuda. Foi ele quem fundou essa corporação a 10 de abril de 1880. Conta-se que D. Afonso andava num carro de bombeiros a altas velocidades pelas ruas de Lisboa para acudir quem precisasse. Esse carro não tinha sirene, por isso D. Afonso gritava “Arreda!” para que as pessoas na rua se afastassem e deixassem passar o automóvel. Isso valeu-lhe a alcunha “O Arreda”.

Fonte: Observador

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Acompanhar os fogos!



Acompanhar os fogos é decididamente a nova estratégia para combater os incêndios e fazer política ao mesmo tempo. Tomemos como exemplo o fogo interminável que lavra na serra de Monchique e que tem sido acompanhado, ao segundo, por todas as corporações de bombeiros, ao minuto, por todos os técnicos e protectores civis de que dispomos, e de hora a hora, em cada telejornal, ficamos a saber que quer o primeiro-ministro quer o presidente da república também acompanham. E o português médio fica acabrunhado e interroga-se sobre a inevitabilidade do seu destino! Mas isto vai ser sempre assim?! Metade do ano a preparar a estação dos fogos e a seguir fazemos o respectivo acompanhamento?!


 


Fonte: Interregno

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Por um Museu dos Descobrimentos

Os Descobrimentos portugueses não inauguraram o Paraíso na Terra, mas deram origem ao mundo moderno tal como o temos, com os defeitos e virtudes inerentes a toda a construção humana.

A intenção de organizar um “Museu das Descobertas” anunciada pelo presidente da Câmara de Lisboa suscitou uma reacção histérica. Se me perguntam se concordo com a ideia, respondo: plenamente. Se me perguntam pelo nome, não. Prefiro “Museu dos Descobrimentos”.
A nossa língua é rica em subtis cambiantes semânticos, pelo que, ao contrário do francês ou do italiano, faz uma diferença entre descoberta e descobrimento. Descoberta usa-se sobretudo para coisas materiais e pode ser meramente fortuita: a descoberta do fogo na Pré-História, a do magnetismo terrestre pelos chineses da época Sung (960-1279), a da radioactividade pelo casal Curie, ou do ouro na Austrália, no século XIX.
Ao invés descobrimento denota um processo activo e voluntário de exploração geográfica, como em 1972 mostrou Armando Cortesão no seu artigo “Descobrimento” e Descobrimentos na revista Garcia de Orta. Eu dediquei-lhe um artigo relativamente extenso que enviei para publicação na revista Brotéria, onde, espero, sairá logo que haja paginação disponível. Aqui, não pretendo senão deixar um breve apontamento.
O abaixo-assinado contra o projecto do museu que por aí circula enferma de muita ignorância. Em primeiro lugar, da nossa própria língua, em que achamento, descoberta, descobrimento e invenção têm sentidos vizinhos mas não coincidentes. O que o autarca lisbonense quereria dizer era certamente “Museu dos Descobrimentos”, termo consagrado por largo uso, que é datável de c. 1470, para significar o que até aí era designado por enquerer, saber parte, colher certa enformação, haver manifesta certidão, etc. São tudo expressões que denotam um processo minucioso de colheita de informações, activo e interactivo, que ultrapassa em muito a ideia de achar, encontrar, topar com, que só se aplicaria com inteira justeza a terras desconhecidas e despovoadas.
Argumentam-me que as Américas haviam sido, muitos séculos antes de Colombo, descobertas pelos chamados “índios” que as habitavam. É verdade. Tão verdade que me recorda a elegia que os soldados de Jacques de Chabannes, senhor de La Palisse, morto em combate a 25 de Fevereiro de 1525 na batalha de Pavia, compuseram em sua honra: un quart d’heure avant sa mort, il était encore en vie…
Descobrir é um verbo pessoal, que conota um sujeito pensante, cujo ponto de vista, necessariamente subjectivo, assume. Michel Chandeigne publicou há anos em Paris um livro intitulado L’expédition de Gonneville et la découverte de la Normandie par les Indiens du Brésil: de facto, em 1505, Binot Paulmier, senhor de Gonneville, ao regressar do Brasil onde aterrara por acaso numa viagem cujo destino era a Índia, trouxe para Honfleur o filho de um morubixaba (chefe tribal) chamado Essoméricq, que acabou por adoptar e casar com uma sobrinha sua. Foi assim que ele descobriu a Normandia — que, bem entendido, existia muito antes de ele dela ter tomado conhecimento. É, porém, evidente que não foi Essoméricq, nem nenhum dos índios do Brasil, quem descobriu o caminho marítimo para a Europa, onde chegou graças aos conhecimentos náuticos dos normandos, arrimados por seu turno aos dos pilotos portugueses que haviam contratado a peso de ouro.
É porque descobrir envolve as ideias de “reconhecer, explorar, cartografar” que se pode aplicar a regiões de cuja existência se sabia há muito, mas imperfeitamente. Foi o que se passou, por exemplo, com o Amazonas, percorrido do Peru até a foz em 1541-42 por Francisco de Orellana, e de novo em 1560 por Lope de Aguirre: em 1639 foi, uma vez mais, a mando de Felipe IV, descido pelo jesuíta Cristóbal de Acuña, que inquiriu diligentemente das populações ribeirinhas, seu modo de vida e seus costumes, do que deu pormenorizada conta no seu livro, expressivamente intitulado Nuevo descubrimiento del Gran río de las Amazonas, impresso em Madrid em 1641.
Historicamente mais grave é o erro crasso de afirmar que 60 ou 70 anos antes de Vasco da Gama, no reinado de Yung Lo (1403-25), já o almirante chinês Cheng Ho descobrira, ou estivera prestes a descobrir, o caminho marítimo para a Europa pela via do Cabo: nenhuma das fontes de que dispomos para a história dessas viagens menciona a sua presença a sul de Mogadoxo e Brava, na Somália, a milhares de quilómetros do Cabo da Boa Esperança, sitas no hemisfério norte, onde reinam ainda as monções que a cada seis meses se invertem.
Não é, todavia, crível que alguma vez o tivesse podido alcançar: com efeito utilizava juncos, navios de fundo chato, concebidos para manobrarem nos esteiros, estreitos e canais do Extremo Oriente, mas incapazes de bolinar; e à latitude do Cabo reinam todo o ano os ventos gerais de oeste, que colhem o navio pela proa. Não é por acaso que a maioria dos naufrágios portugueses que a História Trágico-Marítima registra tenham tido lugar na costa do Natal, com naus, que embora providas de quilha arvoravam pano redondo, exceto no mastro da mezena, e mui dificilmente conseguiam bolinar, que os ventos dominantes e as correntes rechaçaram para nordeste, acabando por dar à costa.
Tecnicamente, se alguém estava apetrechado para descobrir o caminho marítimo para a Europa, não eram os chins, mas os árabes do Omão e da Costa Suahíli; mas não o descobriram…
Se os portugueses puderam explorar tanto as costas atlânticas como os mares do Oriente até o longínquo Japão, foi porque possuíam técnicas de navegação adequadas, nomeadamente a navegação por latitudes, aplicável em praticamente qualquer ponto do Globo. Embora o processo de determinar a latitude pela altura meridiana do sol tivesse sido inventado por Hiparco (190-125 A. C.), foi a mando de D. João II que dois técnicos judeus, Mestre José Vizinho e Mestre Rodrigo o simplificaram e adaptaram à náutica. Requeria a utilização de tábuas astronómicas que dessem a declinação do sol para todos os dias do ano, mas os portugueses dispunham das dos Libros del Saber de Astronomia de Afonso X, o Sábio, de Castela, traduzidos de textos árabes que retomavam e aperfeiçoavam as da época helenística.
Nos descobrimentos portugueses convergiu assim o saber acumulado por gregos, árabes, judeus, italianos, normandos e até chineses: a vela latina, que permitia bolinar, fora inventada no Mar Vermelho, varrido todo o ano por ventos do quadrante norte; a técnica de construção de cascos capazes de resistir aos mares mais agitados provinha sobretudo das costas do Mar Norte, frequentemente batido pelos temporais; as propriedades da agulha magnética haviam sido descobertas na China, mas a arte de a fazer girar sobre um eixo articulado dentro de uma bússola vinha de Itália. De Itália e de Maiorca viera a carta-portulano, com suas múltiplas linhas loxodrómicas, rumadas pela agulha magnética, indispensável para a navegação por rumo e estima, de que gradualmente se passou à navegação por diferenças de latitude e, finalmente, por latitudes e longitudes.
É verdade que a longitude (que jamais se pode determinar pelos astros, devido à rotação da Terra) apenas pôde ser medida com exatidão quando c. 1725 John Harrison inventou o cronómetro. Na prática, portanto, fazia-se a estimativa do caminho percorrido, convertendo as léguas em graus de longitude, o que não é fácil: devido à convergência dos meridianos para os polos, o grau de longitude apenas é equivalente ao de latitude sobre o equador; alhures, há que multiplicá-lo pelo cosseno da latitude para obter a sua medida exata. Mesmo assim chegava-se, muitas vezes, a resultados surpreendentemente precisos: no atlas de c. 1537 conservado no Archivio di Statod e Florença e atribuído a Gaspar Viegas, o primeiro a conter uma escala de longitudes, as ilhas de Maluco estão debuxadas a 145° E do Cabo Verde, no Senegal, o que é de uma aproximação espantosa, pois a diferença real de longitude entre os dois pontos é de exactamente 144°; e um relato do naufrágio da nau S. Paulo em Samatra em 1571 afirma que a ilha de Amesterdão, entrevista já por Elcano em 1522 e agora avistada de novo, “jaz norte-sul com o Cabo Comorim”, no que erra por apenas 30′.
É importante notar que os Descobrimentos Portugueses não só revelaram paragens mal conhecidas ou desconhecidas, como permitiram uma correta concepção do mundo. Havia quem exagerasse as dimensões do globo, reduzindo a “terra habitada” (o Velho Mundo) a um dos dois ou quatro supercontinentes existentes, demasiado distantes entre si para se poder passar de um a outro. Ligada a essa concepção arcaica e errada aparecia geralmente a noção da inabitabilidade da zona tórrida, entre os trópicos de Câncer e de Capricórnio, devido ao excessivo calor; como o Homem fora criado no hemisfério norte e não podia passar ao oposto sem atravessar aquela inóspita zona, a zona temperada do sul era “habitável mas desabitada”.
Foram os descobrimentos portugueses que arredaram definitivamente essas concepções erróneas. A habitabilidade das regiões intertropicais começou a tornar-se evidente logo em 1444, quando Nuno Tristão, ultrapassando a faixa saariana, chegou à “Terra dos Negros” (Senegal) em plena zona tórrida.
É de protótipos portugueses que derivam tanto os planisférios impressos na Europa no século XVI, como os mais antigos que se conhecem na China e no Japão. Como muito bem vincou Joaquim Barradas de Carvalho, devido aos Descobrimentos o Renascimento português apresenta um cunho decididamente experimentalista, em contraste com a tendência arcaizante e livresca da maioria das correntes do humanismo europeu, incapazes de se desmamar dos Antigos.
Como todas as grandes transformações históricas, os Descobrimentos — de que os portugueses foram em parte obreiros, em parte meros catalisadores, compendiando o saber dos seus predecessores — acarretaram, é certo, sofrimentos para muita gente, através de efeitos laterais que vão da intensificação da escravatura à difusão da sífilis americana no Velho Mundo, passando pela da varíola no Novo.
Não inauguraram, por isso, o Paraíso na Terra; mas deram origem ao mundo moderno tal como o temos, com os defeitos e virtudes inerentes a toda a construção humana. Qualquer pessoa, porém, o pode repudiar e recorrer por exemplo a coups-de-poing de pedra lascada ou polida em vez de facas, para descascar a fruta…
  • Luís Filipe Thomaz
Historiador
Fonte: Observador

domingo, 5 de agosto de 2018

Paulo VI e a Humanae Vitae

A impopularidade da mais polémica encíclica é garantia da sua autenticidade evangélica, porque a Igreja está chamada a ser “sinal de contradição”.

No dia 6 de Agosto ocorre o 40º aniversário da morte do beato Paulo VI, cuja canonização está já marcada para 14 de Outubro próximo. Recentemente, no passado dia 25 de Julho, teve lugar outra efeméride relativa ao Papa Montini: os cinquenta anos da encíclica “Humanae vitae”.
O magistério do Papa Paulo VI foi particularmente fecundo, sobretudo nos primeiros anos do seu pontificado romano. Em 1964, o sucessor de São João XXIII assina a “Ecclesiam suam”, que se pode considerar o texto programático do seu ministério petrino.
No ano seguinte, 1965, são publicados dois documentos pontifícios relacionados, respectivamente, com o culto mariano e a adoração eucarística: “Mense Maio” e “Mysterium Fidei”. Esta última encíclica recorda a doutrina da Igreja católica sobre a presença real, verdadeira e substancial de Cristo na Eucaristia, anatemizando quantos reduziam este santíssimo sacramento a um mero símbolo ou representação de Jesus de Nazaré, negando portanto o dogma da presença real do seu corpo, sangue, alma e divindade.
No ano seguinte, 1966, com “Christi Matri Rosarii”, Paulo VI incentiva a prática da mais tradicional devoção mariana: a reza do santo rosário, ou terço. No ano seguinte, 1967, foi a Fátima, onde se encontrou com a única vidente então viva, a irmã Lúcia, e presidiu à celebração dos cinquenta anos da primeira aparição de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, na Cova da Iria. Cinquenta anos depois, no dia 13 de Maio de 2017, o Papa Francisco também veio a Fátima, festejar o centenário das aparições e canonizar os videntes Jacinta e Francisco Marto.
Foi também em 1967 que Paulo VI deu ao mundo a sua encíclica sobre a doutrina social da Igreja, que recebeu um título muito sugestivo: “Populorum progressio”. Segundo o Papa Montini, o desenvolvimento é o novo nome da paz, porque as injustiças sociais são as principais causas das guerras, que impedem o progresso material e espiritual das nações. O sucessor de São João XXIII foi também o primeiro papa que discursou perante a assembleia geral da ONU.
É também deste ano de 1967 a sua encíclica “Sacerdotalis Coelibatus”. O celibato que, na Igreja católica latina é obrigatório para quantos exercem o ministério sacerdotal como presbíteros ou bispos, tem o seu fundamento bíblico no exemplo e vida celibatária de Cristo e de muitos dos seus primeiros seguidores, como São João e São Paulo. Mas esta disciplina, que não constitui nenhum dogma, também decorre da experiência que a Igreja católica fez durante os primeiros séculos da sua história, em que era permitida a ordenação sacerdotal de homens casados. O celibato, que sempre se viveu na Igreja católica, não só pelos religiosos mas também pelos leigos que, no intuito de melhor imitarem a vida de Cristo, optaram também por essa condição, veio a ser reconhecido como o estado mais apto e congruente com o ministério sacerdotal e, por isso, paulatinamente se introduziu no ocidente esta prática, até ao ponto de se converter em lei obrigatória para todos os sacerdotes e bispos católicos latinos. Em nenhum caso, contudo, foi ou poderá ser válida a ordenação de mulheres na Igreja católica, mas na Igreja católica oriental, que se rege pelo seu próprio código canónico, permite-se a ordenação sacerdotal de homens casados, reservando o episcopado para os célibes que, quase sempre, procedem do clero regular.
Mas o mais emblemático texto do Beato Paulo VI é, sem dúvida, a Humanae vitae. Foi também a sua derradeira intervenção magisterial: nos últimos dez anos do seu conturbado pontificado, o Papa Montini não publicou mais nenhuma encíclica.
Na Humanae vitae, contrariando vários teólogos e até alguns bispos, Paulo VI, ao mesmo tempo que introduziu o conceito de paternidade e maternidade responsáveis, declarou ilícitos os métodos anticoncepcionais não naturais. Esta condenação, confirmada depois pelos seus sucessores na cátedra de Pedro, é já um princípio clássico da teologia moral católica.
O Beato Paulo VI intuiu que este seu texto iria provocar algumas reacções desagradáveis porque, na sua introdução, profeticamente escreveu: “É de prever que estes ensinamentos não sejam acolhidos facilmente por todos”. Mas essa aparente impopularidade não era senão a garantia da sua autenticidade evangélica. Com efeito, a Igreja está chamada a ser, no esteio do seu divino fundador, “sinal de contradição” (Lc 2, 34).
Cinquenta anos depois da publicação da polémica “Humanae vitae”, já é possível reconhecer o seu carácter profético. É certo que esta encíclica se propunha evitar, pelo menos entre os casais católicos, o recurso aos meios anticonceptivos artificiais e, nesse sentido, não parece ter sido especialmente convincente: não obstante a proibição papal, não só bastantes fiéis recorrem habitualmente a esses meios, como também alguns padres e bispos católicos aprovam o seu uso, em contradição com os ensinamentos de Paulo VI e dos seus sucessores na cátedra de Pedro.
Contudo, a “Humanae vitae”, embora tão contestada por teólogos e pastores, foi absolutamente certeira na sua previsão das funestas consequências decorrentes da prática dos métodos anticoncepcionais artificiais. Ao contrário do que alguns ingenuamente pensam, a razão da proibição não reside principalmente no carácter técnico, ou artificial, desses meios, mas na sua essência antinatural, por oposição aos meios naturais, que a Igreja católica aceita e recomenda, sempre que tal decorra da recta aplicação do princípio da paternidade responsável. Paulo VI era assumidamente favorável aos avanços científicos e tecnológicos, também quando aplicados ao processo biológico da geração humana, mas só se respeitassem a dignidade da natureza humana.
No contexto da ‘Humanae vitae”, o contrário de ‘natural’ não é ‘artificial’, porque a técnica é bem-vinda quando cumpre a sua nobre missão de melhorar e aperfeiçoar a natureza. O contrário de natural é, no que respeita à anticoncepção, antinatural, ou seja, qualquer meio que pressuponha o desrespeito pela intrínseca dignidade da natureza humana.
Grande parte da actual investigação e manipulação genética é feita sem consideração pela condição humana do embrião, reduzido a um mero produto de uma operação de engenharia biológica que, se for considerado excedentário, se elimina sem qualquer escrúpulo, ignorando a sua intrínseca e inalienável dignidade humana. Também às crianças geradas por estas vias artificiais, se nega o essencial direito a nascer no seio da sua família natural, constituída por pais e irmãos. A fabricação de seres humanos através das técnicas da fecundação ‘in vitro’, ou por via do recurso a barrigas de aluguer, são práticas que, embora tecnicamente possíveis, são eticamente reprováveis, na medida em que são contrárias à natureza e dignidade do ser humano concebido por essa via artificial, ou seja antinatural.
Os anticonceptivos artificiais dissociam os dois fins próprios do acto conjugal –unitivo e procriativo – na medida em que, artificialmente, se impede que o acto sexual possa ser fecundo. Também, a seu modo, a fecundação ‘in vitro’ e as barrigas de aluguer permitem que a geração aconteça sem a prévia união sexual dos progenitores. O anonimato do dador masculino, na fecundação ‘in vitro’, ou da mulher que concebeu e que serviu de barriga de aluguer, impedem que o filho assim gerado nasça e viva no ambiente natural da sua família, a qual deveria ser formada pelos seus progenitores naturais. Reduzido à triste condição de filho de pai incógnito, ou de filho sem mãe, é-lhe negado o ambiente familiar natural, que é necessário para o seu saudável desenvolvimento físico, psíquico e espiritual.
Um tal exercício da paternidade e da maternidade não só são antinaturais como irresponsáveis, na medida em que não é respeitada a dignidade do novo ser humano, que é concebido como se fosse um objecto de outrem. Quando, amanhã, os filhos de ninguém, porque gerados por um pai anónimo ou de uma incógnita barriga de aluguer, reclamarem o seu inalienável direito a um pai e a uma mãe, como é natural, muitos reconhecerão quanta sabedoria havia na encíclica ‘Humanae vitae’, do bem-aventurado Paulo VI.
P.S. Quando esta crónica já estava escrita, foi noticiada a nova versão do nº 2267 do Catecismo da Igreja Católica. Mais do que uma alteração da doutrina, trata-se de uma melhor explicitação do que é o actual entendimento da Igreja em relação à pena capital. Sobre este tema, a considerar numa próxima crónica, remeto para o que aqui escrevi, em “A Igreja e a pena de morte”, a 4 de Março de 2017.
Fonte: Observador

sábado, 4 de agosto de 2018

Aqueles que desdenham do patriotismo

Foto de Nova Portugalidade.

Na apologia que precede a Década 4.ª da Ásia, João de Barros - talvez o inventor do patriotismo português - desabafava as mágoas que lhe haviam causado o entusiasmo e o ciclópico trabalho a que dedicara trinta anos da sua vida. Não sendo o cronista do Reino, mas feitor da Casa da Índia, redigiu as quatro primeiras décadas sem receber qualquer recompensa. Os seus inimigos não lhe perdoaram. As murmurações perseguiam-no, acusando-o de aplicar o seu tempo em ofício que não era do interesse do Rei.


"E junto [d'El Rei Midas = D. João III], (...) uma mulher chamada Calúnia, que é a falsa acusação. E logo junto dele, juíz [Rei], estavam duas mulheres, que eram a Ignorância e [a] Suspeita; e a figura da Calúnia estava mui afeitada por mãos de duas moças que tinha junto de si, chamadas Traição e Insídia, que espreitava vidas alheias; a qual Calúnia estava mui furiosa e indignada (...). E diante da Calúnia ia uma mulher já mui velha, disforme em figura torpe e vil em hábito, que via muito, chamada Inveja".

Sem poder responder directamente aos seus detractores, Barros lembrou a história da calúnia de Apeles (pintor da Antiguidade que fora difamado junto do Rei Ptolomeu), o qual, para se defender, pintara numa tela um animal que reunia todas as características dos seus inimigos. "Tem [esse animal] mais por condição ranger por inveja, ladrar por ódio, morder por vingança e, o que é pior, é que ninguém lhe sabe em que parte há-de sossegar e quietar o seu espírito, porque, quando o quer fazer, anda redondo, até que se enrosca à maneira da cobra"(1).

Barros foi o criador da historiografia ultramarina, género discursivo empolgante, grandioso e patriótico que Camões certamente terá lido. Num tempo em que o os soldados práticos campeavam e em que o serviço do Rei justificava a riqueza fácil, poucos lhe perdoaram ter vivido imune ao demónio do ouro, ele que vivia cercado das riquezas que afluíam da Ásia a Lisboa. Barros escreveu as Décadas sem outro interesse que o edificante, contar os feitos e glórias que doutro modo se perderiam na memória da humanidade.

Ou não conhecemos, todos nós - aqueles que tentam fazer algo pelo país - o latir desse animal que Barros tão bem conheceu ?


MCB

(1) Andrade, António Alberto Banha de, João de Barros: historiador do pensamento humanista português de Quinhentos, Lisboa, Academia Portuguesa de História, 1980.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Descobrimentos, Naturalmente!


Aguarela de Roque Gameiro


“A História há-de ser luz da verdade e testemunha dos antigos tempos”, escreveu Fernão Lopes.
Com o enorme e recortado litoral português a vocação marítima deste tão grande e aventureiro Povo, virado para o imenso e misterioso Mar, era inevitável, pelo que naturalmente foi impulsionado a partir para rumos incertos descobrindo assim novos caminhos e novas terras.
Com o fim da Idade Média, encerrou-se, também, uma Era que para Portugal foi a da consolidação da Independência e afirmação como potência. Era altura de levar o Sonho Portugal mais além, e inicia-se aquela Época que ficará e será sempre indissociável de quando se falar de Portugal: os Descobrimentos.
É com o início da Dinastia de Avis que, de facto, a sociedade portuguesa sofre a sua maior metamorfose, pois dá-se a introdução da mentalidade Humanista do Renascimento em Portugal.
Para começar a língua portuguesa toma a sua característica e inconfundível fisionomia que é enriquecida com os neologismos que advém do contacto com as obras clássicas e esse contacto influência a mentalidade tornando-, tal-qualmente, científica. Com o Renascimento vem a ideia de tomar a Antiguidade Clássica como modelo.
A educação que Dom João I recebeu como Grão-mestre da Ordem de Aviz transformou-o num Rei invulgarmente culto para a época e o seu gosto pelo saber passou-o para a sua Ínclita Geração, assim como a sua necessidade de sonhar mais longe.
A expansão portuguesa ultramarina principiou em 1415, com a conquista de Ceuta. Nem vamos abordar o papel guerreiro que o Infante D. Henrique teve nos Descobrimentos portugueses, mas sim o seu papel como patrocinador da criação de uma cadeira de Astronomia na Universidade de Coimbra, ou o seu empenho no desenvolvimento da Caravela, de portulanos, de roteiros e de instrumentos náuticos que facilitassem essas mesmas descobertas por parte dos navegadores. “O Navegador” investiu toda a sua fortuna em investigação relacionada com navegação, náutica e cartografia, dando início à epopeia dos Descobrimentos. Esta descoberta geográfica do Mundo empreendida pelos portugueses que se expandirá por séculos, é reflexo do paradigma do Renascimento na medida que o humanismo não se trata apenas de um ideal de cultura, mas um ideal de pensamento de confiança no Homem. Com os Descobrimentos, Portugal participa na primeira linha da construção de um admirável Mundo Novo.
Sulcaram-se Mares e Oceanos e como escreveu Luís Vaz de Camões, no Canto VII d’Os Lusíadas:
“E se mais mundo houvera, lá chegara”.

Miguel Villas-Boas

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

O primeiro triunfo naval português


Testemunho de Gratidão a D. Fuas Roupinho


A 15 de Julho de 1180, D. Fuas Roupinho, cavaleiro templário da Corte de D. Afonso Henriques, parte de Lisboa com nove galés, em perseguição a uma esquadra mourisca que vinha de São Martinho do Porto em direcção a Sesimbra. D. Fuas Roupinho encontra o inimigo ao largo do Cabo Espichel e toma os seus navios um a um. A esquadra portuguesa, embora em menor número, acaba por sair vitoriosa do confronto. Triunfante, D. Fuas Roupinho regressa a Lisboa com os navios e as guarnições capturadas. Pelo grandioso feito, D. Afonso Henriques atribui-lhe o título de Almirante, o primeiro da Real Marinha Portuguesa.


Fonte: Veritatis

terça-feira, 31 de julho de 2018

Há 172 anos nascia a última Princesa Imperial do Brasil, Dona Isabel de Bragança

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Há 172 anos nascia no Palácio de São Cristóvão, Dona Isabel Cristina de Bragança e Bourbon (1846-1921), cognominada “A Redentora” por ter liberto os escravos brasileiros com sua assinatura no decreto da Lei Áurea de 13 de maio de 1888. Dona Isabel foi à última Princesa Imperial do Brasil. Filha de dom Pedro II e dona Teresa Cristina, foi casada com Gastão de Orleans, Conde d’Eu, e com ele teve três filhos; Dom Pedro de Alcântara, Dom Luis e Dom Antônio.

Dona Isabel faleceu em 14 de Novembro de 1821, um dia antes do aniversário de 32 anos do golpe militar que a exilou junto com sua família. Foi primeiramente sepultada em Dreux na França e posteriormente tendo seu corpo transladado para o Brasil junto de seu consorte e sepultados em 1971 na Catedral de São Pedro de Alcântara em Petrópolis.

Dona Isabel do Brasil era prima de Dom Manuel II de Portugal em terceiro grau.

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Aniversário D’El-Rei D. Afonso I Henriques de Portugal



A 25 de Julho de 1109 nascia o Maior de todos os Reis na Terra: Sua Mercê Dom Afonso I Henriques, Pela Graça de Deus Rei dos Portugueses e Pela Graça de Deus Rei de Portugal. O Rei Fundador, era filho do Conde de Portucale D. Henrique de Borgonha e da Infanta Dona Teresa de Leão, auto-proclamada Rainha de Portugal.

El-Rei Dom Afonso I Henriques tinha por avoengos os Imperadores romanos da Dinastia Comnenus e Paleólogo, os Reis Capetos de França, o Imperador da Hispânia, o 1° Rei de Leão e Castela, e assim, era Príncipe de Borgonha e Infante de Leão, e foi Dux Portucalensis a partir de 1128 e Sua Mercê Dom Afonso I Henriques, Pela Vontade dos Portucalenses Rei dos Portugueses e Pela Graça de Deus Rei de Portugal a partir de 1139.

Devem-se-Lhe os Actos que levaram ao Nascimento de Portugal: no dia 24 de Junho de 1128, à dianteira dos barões e fidalgos portucalenses, Dom Afonso Henriques defrontou no campo de São Mamede, perto de Guimarães as forças galegas comandadas por Dona Teresa e por Fernão Peres de Trava, derrotando-os naquela que ficou conhecida pela Batalha de São Mamede e que marcou a Fundação da Nacionalidade Portuguesa, uma vez que o Infante Dom Afonso Henriques avoca a si o governo do Condado Portucalense, com pretensões de independência. Não é ainda após esta Batalha que se auto-intitula Rei, Rex Portucalensis, pois com duas frentes de Batalha – uma contra Leão e Castela, outra contra os sarracenos –, tal só se viria a acontecer após a Batalha de Ourique, em 1139, quando arrasou os mouros – que o temiam sobremaneira e Lhe chamavam o terrível Ibn Erik (Filho de Henrique) – e consegue uma importante vitória que o engrandece sobremaneira e assim declara a Independência face a Castela-Leão. Nascia, assim, em 1139, o Reino de Portugal e a sua 1.ª Dinastia, com El-Rei Dom Afonso I Henriques de Borgonha. Em 1143, quando assina a Paz em Zamora com o Primo Rei de Castela e Leão, onde é reconhecido como Rei, Dom Afonso Henriques usava já o título havia três anos, desde o torneio de Arcos de Valdevez, em 1140, após o episódio de Ourique. Mas desaparece, assim, e só aí, a designação histórica de Condado Portucalense e nasce o Reino de Portugal.

Assim, Dom Afonso Henriques, guerreiro completo, governante exemplar e virtuoso cristão, nasceu em 1111 e Reinou entre 1128 e 1185, como Dom Afonso I Henriques, 1.º Rei de Portugal, isto é, 57 anos – o 4.º Reinado mais longo da História, imediatamente ao Rei-Sol Luís XIV de França e a Suas Majestades a Rainha Isabel II e a Rainha Victoria do Reino Unido.

Morreu em Coimbra onde jaz sepultado em túmulo manuelino no Mosteiro de Santa Cruz , na capela-mor do lado do Evangelho.

Na inscrição original do túmulo podia-se ler:
“Aqui jaz um outro Alexandre, ou outro Júlio César,
guerreiro invencível, honra brilhante do orbe.
Douto na arte de governar, alcançou tempos seguros,
alternando a sucessão da paz e das armas.
Quanto a religião de Cristo deve a este homem
provam-no os reinos conquistados para o culto da fé.
Alimentado pela doçura da mesma fé, cumulou,
além das honras do reino, riquezas para os pobres infelizes.
Que foi defensor da Cruz e protegido pela Cruz
assinala-o a Cruz, formada de escudos, no seu próprio escudo.
Ó Fama imortal, ainda que reserves para ti tempos longos,
ninguém pode proclamar palavras dignas dos seus méritos.”
Ainda no dia 25 de Julho de 1139 travou-se a célebre Batalha de Ourique, em que D. Afonso Henriques, segundo o Mito, recebe as Armas de Cristo e à frente dos barões e fidalgos portucalenses, arrasa os exércitos mouros de Omar que eram em razão numérica cinco vezes superior. Após a Batalha, na qual derrota avassaladoramente a hoste inimiga, os Barões aclamam Rei o jovem Infante que os guiara à vitória sobre cinco reis mouros que comandaram os exércitos sarracenos de África e da Hispânia.

Miguel Villas-Boas