sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Entrevista de SAR DOM DUARTE DE BRAGANÇA ao "Diário Económico" (2004)

“Diz-se com alguma ênfase que Portugal está na moda para o exterior, mas é necessário que Portugal esteja na moda antes de mais para os próprios portugueses”.

1 - Esta frase do Senhor Dom Duarte traduz a fraca auto-estima nacional. Considera que para atrair o investimento estrangeiro (uma das preocupações deste Governo) Portugal tem de reforçar o “orgulho nacional”? A imagem de marca de Portugal lá fora passa por uma prévia afirmação da imagem para dentro? Em resumo o que é que Portugal pode fazer para cativar o investimento estrangeiro? Em que áreas é que poderia apostar?

R: Antes de tudo, devemos ter uma Administração Pública que ,acautelando os interesses nacionais, facilite o trabalho dos investidores. Não é ao demorar dois anos a autorizar um projecto que se encoraja o investidor!

A legislação deve ser actualizada. Ouvi um ex - Primeiro-Ministro dar o exemplo da Irlanda. Tenho pena que ele não tenha visto isso quando estava no Governo...

A Irlanda formou a sua população, preparou-a para a concorrência na União Europeia e criou leis que facilitam a produtividade.

Em vez disso, nós investimos no cimento em vez de investir nos cérebros !

Não é desse modo que reforçaremos o orgulho nacional mas, sim, preparando a nossa gente para sermos melhores que os outros!

Não podemos esquecer também que sem uma justiça com meios humanos e materiais, um país não pode funcionar.

A reforma da lei das rendas é também um passo essencial que felizmente o Governo teve agora a coragem de abordar.


2 – Um regime Monárquico ajudaria Portugal a ter uma melhor “imagem nacional”?

R: Em todos os países que têm Reis e Rainhas como Chefes de Estado, estes desempenham um papel muito importante na promoção da imagem internacional do seu país.

Não é por acaso que estes países são sempre democráticos e contam-se entre os que têm maior índice de desenvolvimento humano em todo o mundo. Algumas Repúblicas também podem contar com os seus Presidentes para este fim mas, geralmente, falta-lhes o carisma que a Monarquia dá aos Reis, mesmo os de países muito pequenos como o Mónaco e o Liechtenstein.

Não é só uma questão de imagem, mas de realidade..

Em resumo, a Monarquia é o regime mais “ecológico” pois corresponde à estrutura mais natural da sociedade.

3 – Um dos sectores onde Portugal pode ser competitivo, em termos económicos, é o Turismo. Como é que este pode ser dinamizado? Consta que a Fundação da Casa de Bragança, da qual S.A.R. é Presidente, não tem investido na recuperação de monumentos históricos que estão degradados. Porquê? Não acha que este investimento poderia dinamizar o turismo? Considera que as autarquias deveriam ter um papel nesta recuperação? De que forma?

R: A Fundação da Casa de Bragança foi criada com as propriedades dos Duques de Bragança, nos anos 40, após a morte do Rei D. Manuel II.

Por mais estranho que pareça não tenho qualquer ligação a ela mas, ao que sei, tem mantido e restaurado os monumentos que a constituem.

Esta conservação deveria ser feita pela Direcção Geral dos Monumentos e Edifícios Nacionais que tem excelentes técnicos.

Actualmente, há uma certa sobreposição com o IPPAR, que também tem excelentes técnicos e arquitectos, mas cuja filosofia vai mais no sentido de fazer “intervenções” modernas nos monumentos antigos. Por vezes, alteram muito os próprios monumentos...

Não concordo com essa “alteração da nossa memória colectiva” feita com o argumento de que “ temos de marcar a nossa época”...

Não condeno os dedicados e competentes funcionários do IPPAR mas é ao Estado que compete definir a filosofia, de acordo com a opinião nacional devidamente informada.

4 – O Governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio, alertou recentemente para a alteração da composição do crescimento da economia portuguesa depois de conhecidos os dados do segundo trimestre publicados pelo INE (Instituto Nacional de Estatística). “Temos agora mais despesa interna, com maior consumo privado e maior consumo público, e um aumento do desequilíbrio do comércio externo com o forte e inesperado aumento das importações”, afirmou. O Governador do Banco de Portugal disse que se assiste a um novo aumento do endividamento das famílias e do Estado e a uma ligeira quebra da taxa de poupança privada. Considera que este é o melhor caminho para a Economia portuguesa entrar em retoma? Acha preocupante a fraca performance das exportações portuguesas?

R: Como não podemos impedir a importação excessiva de produtos estrangeiros, há que levar os portugueses a perceber que é do seu interesse pessoal preferir a produção nacional, sempre que possível.

Mas a Administração Pública deveria dar o exemplo!

Todos os governantes e toda a Administração Pública deveriam dar preferência a carros fabricados em Portugal, como acontece em todos os países normais . O carro da nossa família é o excelente Sharan fabricado em Palmela.

Já as Forças Armadas contribuíram para a falência da fábrica dos UMM ao preferirem comprar jipes no estrangeiro, com excepção da GNR.

E a Sorefame-Bombardier quase falia enquanto a CP comprava as carruagens dos comboios Alfa-Pendular em Itália...

Quando nós compramos fruta importada, atiramos a nossa agricultura à falência e o mesmo é válido para todos os sectores. É uma simples questão de raciocínio lógico e de civismo, e ambas matérias não são ensinadas nas nossas escolas…

Consta-me que a Senhora Ministra da Educação tenciona criar uma disciplina de “Cidadania “, para tratar desses assuntos e da ética e moral. Seria excelente!

5 – O fim dos benefícios fiscais (para os Planos de Poupança Reforma), anunciada pelo Ministro da Finanças, é uma medida justa? Quando tem que investir as suas poupanças, o que é que mais o atrai: a Bolsa, os certificados de aforro, imobiliário, outras? Se dependesse do Senhor Dom Duarte, que medidas (com impacto na Economia) teriam de ser urgentemente tomadas? Defende a redução do poder do Estado na Economia? A que funções deveria estar o Estado reduzido numa sociedade? Às funções sociais, por exemplo? Como se pode conciliar a moral cristã com o espírito “especulador” dos mercados de capitais? É possível ter uma visão cristã da economia de mercado?

R: Sempre achei injusto, porque arbitrário, alguns investimentos terem mais benefícios fiscais que outros.

E se eu quiser economizar para a minha reforma, investindo em apartamentos? É o que tenho feito, valorizando os apartamentos que alugo.

Acho que o Estado deve proteger o bem comum, o ambiente, a soberania nacional, o património cultural, etc.. E colocar os impostos necessários para isso e para manter as infra-estruturas.

Mas não é justo o Estado espoliar os cidadãos que trabalham e produzem para sustentar um excesso de funcionários e, sobretudo, sustentar quem não quer trabalhar.

Precisamos de menos Estado mas melhor Estado!

Quanto à visão cristã, deveria guiar os nossos investimentos para empresas e iniciativas que produzam riqueza em Portugal, e levar-nos a não investir em empresas que actuem de forma prejudicial para as populações portuguesas ou mesmo estrangeiras.

Por exemplo, as associações, os sindicatos, etc., deveriam boicotar os produtos provenientes de países que não respeitam os direitos humanos e laborais de forma grave, ou os navios de bandeiras de conveniência. Na Europa importamos coisas fabricadas com trabalho escravo, em campos de concentração onde vegetam centenas de milhares de prisioneiros políticos…

Toda a gente sabe disso mas fechamos os olhos. Só a África do Sul e a Líbia é que foram boicotadas, que me lembre...

Fonte: Unica Semper Avis

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