sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Nasceu há 254 anos

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Bocage está para o século XVIII como Antero está para o século XIX e Pessoa para o século XX. A obra é a súmula do tempo que soube encarnar, o perfeito espírito daquele "galante século XVIII". Um mundo de salões literários, da cultura de Corte, da paixão subtil, a época pós-Pombal, onde efervescem as grandes questões jurídicas e onde despontam as grandes discussões filosóficas.

Como um mito permanece indecifrável. Um boémio, um libertino, também o ateu e, mais tarde, o reconvertido, o arrependido ferido de angústias. A sua morte encerra uma era, da cultura clássica, erudita, aristocrática, já no pronúncio do fim dos doces anos do "reinado mariano". Não se conformando com o conforto sofreu as vicissitudes de uma vida desregrada e livre. Também a rivalidade com José Agostinho de Macedo não deixa de ser sintomática dos caracteres: são duas mundividências que se conflituam.

Dele sobra o anedotário, o complexo mistério que ensombra as figuras mais carismáticas. Cultivou a lírica erudita com o gosto popular, a cultura aristocrática com a grosseria do vulgo. Há que dizê-lo: Bocage revolucionou as letras lusas antes da revolução política assolar as estruturas do Antigo Regime, fazendo a lírica descer dos olimpos grandiloquentes do classicismo para as realidades quotidianas, arrancando a poesia do conforto dos salões para o mundo burguês. Ególatra eruptivo e angustiado, procurando engrandecer a palavra pelo universalismo das ideias, quase ascende ao épico. Polarizado entre a Razão e o Sentimento, antecipa a estética romântica, contudo ainda moldado e estruturado pelo neoclassicismo.

Talvez nenhum outro poeta tenha surtido tanta influência nele como Camões. Aliás, os poetas da Arcádia e os cultores do neoclassicismo conferiam a Camões uma nova vitalidade e reivindicavam ali uma nova inspiração. Mas Bocage foi mais longe, reivindicando uma identificação plena. A vida errante do vate quinhentista encontrava na mesma errância bocagiana um entendimento: "Camões, grande Camões, quão semelhante/ Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!"

No leito de morte suspira o arrependimento, um último Soneto: "Já Bocage não sou". É o Bocage anti-Bocage, a negação da vida errante, a descoberta de uma nova luz, um Bocage que grita: "Oh! Se me creste, gente ímpia,/ Rasga meus versos, crê na eternidade!". É o último fôlego de um homem sofrido. Morreu no alvorar de um tempo novo, quando os ventos da revolução sopravam e Portugal se preparava para, em breve, enfrentar um novo ciclo histórico.

Daniel Sousa

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

A rampa cada vez mais deslizante

Vão-se sucedendo os casos de prática da eutanásia que demonstram a sua progressiva e imparável extensão (a chamada rampa deslizante) e como é ilusório pensar que é possível a sua legalização apenas em situações contidas e excecionais.

O último desses casos foi recentemente objeto de julgamento (dos poucos até agora ocorridos neste âmbito) num tribunal holandês. Uma mulher de 74 anos, que padecia de doença de Alzheimer, havia declarado, quatro anos antes, quando a doença já tinha sido diagnosticada mas ainda não lhe tinha retirado as normais capacidades intelectuais e volitivas, que queria ser eutanasiada quando perdesse essas capacidades e devesse, por isso, ser acolhida num lar. Chegado esse momento, o médico acusado nesse julgamento (cuja identidade não foi revelada) praticou a eutanásia com recurso à força, porque a doente resistiu fisicamente, num gesto de luta pela sobrevivência. Esse médico desprezou a vontade atual da doente e deu relevo apenas à vontade que ela havia manifestado quatro anos antes, na fase inicial da doença. Veio a ser absolvido, por se considerar que não desrespeitou as normas holandesas sobre a prática legal da eutanásia.
São vários os motivos de reflexão suscitados por este caso.
Desde logo, será aqui (ainda mais do que noutros casos de eutanásia) difícil falar em morte digna, quando ela é provocada com recurso à força e contra a vontade actual do doente.
Também é difícil dizer que em situações de demência, mais ou menos avançada, seja o sofrimento do doente, intolerável ou não, a motivar a opção pela eutanásia. Mais do que esse sofrimento, será o sacrifício que o cuidado desses doentes representa para familiares e outras pessoas a motivar tal opção. Uma opção que pode ser o próprio doente a tomar precisamente porque não quer ser um peso para os outros, não quer ser causa desse sacrifício. Neste caso, a doente manifestou o desejo de ser eutanasiada quando chegasse um momento não de mais intenso sofrimento, mas de mais acentuada incapacidade, em que, por isso, maior seria o peso que representava para quem dela tivesse de cuidar.
A questão que a este respeito se coloca é: deve uma sociedade que se pretende solidária confirmar, sob o pretexto de respeito pela vontade do doente, essa ideia de que a pessoa demente é um peso difícil de suportar e deve, por isso, ser eliminada? Que sinal está a ser dado, desse modo, a quem se sacrifica, às vezes heroicamente, por esses doentes?
O respeito pela vontade do doente é quase sempre apresentado como fundamento último da licitude da eutanásia. Neste caso, foi dado relevo a uma vontade manifestada quatro anos antes, num momento de suposta lucidez, contra a vontade atual, num momento em que essa lucidez supostamente se teria perdido. Mas como é possível ter a certeza de que a pessoa em causa não teria mudado de opinião (como muitas vezes sucede) perante a aproximação da morte? Manifestar a vontade de morrer num momento ainda tão distante do momento da morte é muito diferente de o fazer nessa altura, num contexto completamente diferente, quiçá muito diferente do que se imaginava anteriormente. A menor dúvida a este respeito deveria levar a tomar, em nome do respeito pela vida e também do respeito pela vontade (real ou hipotética) do doente, a opção contrária à que foi tomada pelo médico holandês em causa.
Este caso também revela, até de uma forma mais nítida, que, em última análise, não é a vontade genuína do doente a justificar a prática da eutanásia. Em última análise, é a decisão do médico e das entidades que o possam supervisionar (neste caso, até o próprio tribunal) a ajuizar da licitude da eutanásia, a interpretar a vontade do doente e a determinar a qual de várias manifestações de vontade deve ser dado relevo. E, como também esta caso revela, pode haver muita arbitrariedade na interpretação dessa vontade e na determinação de qual dessas manifestações de vontade será relevante.
Esta arbitrariedade é mais uma das derivas suscitadas pela rampa deslizante que qualquer legalização da eutanásia origina. Arbitrariedade e derivas que só podem ser evitadas quando se respeita aquele princípio básico e secular da civilização e da ética médica que é a proibição de matar. Quando se derruba essa barreira, é inútil tentar conter possíveis abusos.
Presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz
Fonte: Observador

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Escândalo


Escândalo é o que se diz, se faz, ou se omite menos rectamente, embora licitamente, dando a outrem ocasião de cair em pecado, ou causando-lhe alguma ruína espiritual. O escândalo pode ser dado directamente, se há intenção de levar outrem ao pecado; ou indirectamente, se somente se prevê que outrem cairá em pecado.
É severamente condenado por Jesus Cristo, quando diz: «Aquele que escandalizar um destes pequeninos que crêem em Mim, melhor é que se lhe pendure ao pescoço uma mó de atafona e seja lançado ao fundo do mar. Ai do mundo por causa dos escândalos» (Ev. S. Mat. XVIII, 6).
Quem escandaliza fica obrigado a reparar o escândalo dado, umas vezes por caridade, outras vezes por motivo de justiça. Devemos, pois, abster-nos de toda a palavra, acção ou omissão de que possa resultar escândalo para alguém.

Pe. José Lourenço in «Dicionário da Doutrina Católica», 1945


Fonte: Veritatis

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Singapura, filha de portugueses

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Em Singapura, praça-forte do poder britânico no estreito de Malaca, os luso-descendentes revelaram grande capacidade de adaptação ao novo quadro asiático dominado pelo imperialismo da Union Jack. Singapura nasceu de uma insignificante aldeia piscatória e desde os primeiros momentos coube a mestiços católicos luso-descendentes parte importante na invenção de uma cidade.

Embora subsistindo densa névoa sobre o lugar e importância dos portugueses na vida da cidade na sua primeira fase de existência, o que se sabe é que, ao lado de Raffles – o fundador inglês da cidade - estiveram alguns portugueses desde os primeiros dias. Cláudio Queirós, Tomás Ferrão e José de Almeida estavam na ilha no início da década de 1820. Precisando de povoar a recente aquisição da Coroa britânica, Raffles pediu a Almeida que angariasse todos os esforços para atrair a Singapura as comunidades católicas luso-descendentes de Malaca, Kedah e Penang. O número de portugueses não parou de crescer. Em 1824, entre 18 mercadores inscritos, um era português, mas cedo outros foram atraídos pela perspectiva de lucros chorudos.

O grande animador da constituição da comunidade foi, sem dúvida, José de Almeida (1784-1850), médico-cirurgião naval nascido em S. Pedro do Sul (Portugal) que se estabelecera em Macau no início do século XIX e aí casara com uma macaense. Sabe-se que, enquanto sócio capitalista da Casa de Seguros Mercantil, viajou para Calcutá diversas vezes em representação da empresa. Os lucros aí realizados foram investidos na compra de terrenos em Singapura. Porém, os acontecimentos políticos em Macau – episódio no enfrentamento entre liberais e legitimistas que se iniciou em Portugal em 1820 e terminaria em 1834 com o triunfo do Liberalismo – forçaram-no a procurar refúgio em Singapura.

Fixou residência na praça central da localidade, abriu consultório médico e uma loja, mas desde cedo se dedicou a investimentos agrícolas. Em 1837 fundou a Horticultural Society, que foi viveiro de experiências mais ou menos bem-sucedidas. Nas suas propriedades implantou as culturas da cana-de-açúcar, baunilha, algodão e frutos, tratando de aclimatar espécies existentes na China. Se as suas experiências como agrónomo ad-hoc não resultaram como esperava, Almeida foi marcante para o desenvolvimento da produção extensiva da árvore-da-borracha, que viria a ser um dos mais importantes esteios da economia da península Malaia nas décadas seguintes, chamando a atenção para as potencialidades da resina da borracha e sua aplicação industrial.

Almeida foi, também, uma referência cultural. No seu casarão recebia ao som de orquestra as mais importantes figuras da cidade, bem como forasteiros, em saraus de música e poesia que foram lembrados como preciosos apontamentos de entretenimento e presença da Europa num pequeno mundo dominado por expeditos homens de negócios.

Miguel Castelo-Branco

domingo, 15 de setembro de 2019

Irmandade de Santa Joana acolhe membros honorários


A Irmandade de Santa Joana Princesa, em Aveiro, agendou para 22 de Setembro, Domingo, às 15:00, na Igreja de Jesus, as investiduras como ‘Irmãos honorários’ de Santa Joana de Afonso de Santa Maria e Maria Francisca de Bragança (filhos dos Duques de Bragança) e, a título póstumo, de D. Manuel de Almeida Trindade e de Querubim do Valle Guimarães .
Na sessão, presidida pelo bispo de Aveiro, D. António Moiteiro será lembrada, especialmente, a figura de D. Manuel de Almeida Trindade, bispo de Aveiro entre 1962 e 1988, “que muito contribuiu para a dinamização do culto a Santa Joana, nomeadamente através da concessão obtida junto do papa Paulo VI em declarar a Infanta como Padroeira da Cidade e da Diocese de Aveiro e a instituição, em 1987, da Comissão Administrativa da Irmandade, que lhe imprimiu inegável dinamismo.
Querubim do Valle Guimarães, que foi deputado no Congresso Republicano (pela minoria monárquica) e na Assembleia Nacional, exerceu funções como Lugar-tenente de D. Manuel II, Presidente da Comissão Pro-restauração da Diocese e, entre outras Provedor da Irmandade de Santa Joana Princesa,durante 35 anos (1935-1970).
A Irmandade lembra que “é secular” a ligação do antigo Mosteiro de Jesus aos reis de Portugal. Foi D. Afonso V, quem lançou a primeira pedra do cenóbio e aí veria entrar em recolhimento a sua filha D.ª Joana.
“Porém, seria a Casa de Bragança que, de forma determinante, faria brilhar o culto à protectora de Aveiro, particularmente nos processos de beatificação e canonização, bem como na construção do Túmulo de Santa Joana e enriquecimento de vários locais do Mosteiro”, refere uma nota de imprensa.
A Irmandade fará descerrar na sacristia da Igreja de Jesus uma placa alusiva aos seus juízes perpétuos e aos novos Irmãos de honra, fazendo “memória da sua matriz e trazer presente, junto dos representantes da Casa de Bragança, o desejo de continuidade da ligação desta família ao culto à Padroeira de Aveiro”.
A sessão terá a colaboração do Coral Vera-Cruz e terminará com a deposição de uma coroa de flores junto do Túmulo de Santa Joana e oração pro-canonização.

sábado, 14 de setembro de 2019

África do Sul: chegou a hora de salvar os nossos compatriotas


Primeiro foram os farmers brancos que produzem os víveres que alimentam o país, depois os lojistas portugueses que fornecem aos consumidores os géneros alimentícios. Logo de seguida, os retalhistas indianos e chineses passaram a ver queimados os seus estabelecimentos. Há dois anos, uma caça implacável, raiando a bestialidade, provocou a morte a dezenas de moçambicanos e zimbabueanos. Agora, uma vaga de terror abate-se sobre nigerianos, congoleses, zambianos e tanzanianos. Fala-se em dezenas de vítimas mortais, mas serão certamente centenas. Espanta-me que no Ocidente ninguém emita a mais leve crítica, o mais tímido protesto e que nas Nações Unidas não haja uma reacção colectiva e um voto de repúdio que obrigue o governo sul-africano a reprimir duramente os pogroms em curso. Todos sabemos que isto não é consequência do apartheid que acabou há trinta anos. Isto é o princípio do fim da tal nação arco-íris. Isto é o tribalismo que ditará a prazo a fuga das minorias empreendedoras, da elite cognitiva, dos técnicos qualificados. Há que deixar de simular esperança e encarar de frente o retorno de centos de milhares dos nossos portugueses expostos à matança.

A Nova Portugalidade vai enviar uma carta à Comissão dos Negócios Estrangeiros da Assembleia da República, sensibilizando os deputados para a urgência de se discutir a necessidade de uma ajuda efectiva aos mais de 500.000 portugueses residentes naquele país e sua eventual evacuação.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

SALAZAR, O REVISIONISMO HISTÓRICO E A MENTIRA CHAPADA


“Tempos difíceis criam homens fortes;
Homens fortes fazem tempos fáceis;
Tempos fáceis criam homens fracos
E homens fracos fazem tempos difíceis.”

Ditado Indiano

Como se sabe os vencedores impõem a sua visão dos acontecimentos que fazem a História dos povos, ignorando os argumentos dos antagonistas/inimigos e não raro fazendo desaparecer documentação que possa ilibar ou dar alguma respeitabilidade a quem foi vencido ou, por outro lado, macula a parte vencedora.

O que só raramente é corrigido e, por norma, muitos anos passados sobre os eventos a que dizem respeito.

Sempre foi assim e acreditamos que sempre assim será, pois a natureza humana não muda.

Por isso para se entender minimamente a História, é necessário muita reflexão, estudar diversas fontes e cruzar o máximo de informação.

Ora o que se passou neste âmbito a seguir ao Golpe de Estado ocorrido a 25/4/74 e que virou revolução, não fugiu à regra.

Mas antes de entrarmos a analisar o que se tem passado e nomeadamente, ao que agora corre sobre o anúncio de se estabelecer no Vimieiro, na antiga escola primária/cantina, Salazar - mandada construir em 1940, com donativos de emigrantes no Brasil e outros nacionais - de um “Centro Interpretativo do Estado Novo”, é mister dar dois exemplos que ilustram onde queremos chegar.[1]

O primeiro exemplo é o do Marquês de Pombal. Se fossemos atrás daquilo que uma procissão barulhenta de dementados, por aí tem zurrado, a estátua do Marquês de Pombal tinha que ser derrubada.

Senão vejamos: Sebastião José mandou cercar uma aldeia de pescadores na Trafaria, para onde tinham fugido alguns desertores, por um esquadrão de cavalaria. Foi tudo morto pelo fogo.

Após protesto, uma parte considerável dos lavradores do Douro, na Régua, foram reprimidos à bruta, e na execução de uma pena prescrita, à revelia das mais elementares regras do Direito – mesmo daquela altura – mandou matar com requintes de crueldade (após tortura pública) os membros de duas ilustres famílias nobres portuguesas.

Foi ainda o maior expoente do “Despotismo Esclarecido”, a ponto de ofuscar o próprio Rei.

Só para ficarmos por aqui.

Caiu em desgraça no reinado de D. Maria I, mas foi recuperado (com juros) após a implantação do Liberalismo no nosso País, em 1820.

Não acham estranho que um ser deste quilate goze da fama de estadista (e sim ele teve alguns rasgos) e tenha a maior estátua existente no país - começada no tempo da I República (o concurso foi lançado em 1915), mas inaugurada no Estado Novo, a 13 de Maio de 1934 - que encima uma avenida chamada da Liberdade? Da Liberdade? Porque será?

Segundo exemplo, D. Pedro IV, Rei, por pouco tempo, mas Rei.

Como é que um príncipe herdeiro da coroa portuguesa – note-se na altura constituído como Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves (uma fórmula política única no mundo!), se pode tornar Rei de um país e de uma dinastia que traiu, após ter liderado a secessão da mais importante parcela do território nacional?

Mesmo tendo em conta, a desastrosa acção do Governo e das Cortes, na altura; a complacência de D. João VI (que desventuradamente dizia algo como isto: “Pedro se o Brasil se for, ao menos que seja para ti, que me obedeces, do que para alguns dos aventureiros que por aí abundam”) e da quebra do acordo espúrio, de casamento entre D. Miguel e sua filha menor D. Maria (com sete anos de idade).

O que veio a causar a mais sangrenta guerra civil que em Portugal já houve!

Algum livro de História coloca hoje em devida perspectiva o que se passou ou falecem os encómios a D. Pedro, suspeito ainda do que hoje se chama de “violência doméstica”?

Porquê?

Ora após o 25/4/74 o revisionismo histórico, o deitar abaixo e o alterar tudo o que estava, atingiu foros inauditos. Sobretudo relativamente ao período conhecido por Estado Novo (1933-1974).

O frenesim para derrubar estátuas, mudar nomes às ruas e erigir piras para tudo o que se relacionasse com esse período (extraordinário) da nossa História e do seu principal doutrinador e líder, que não contivessem as mais fundas condenações do inferno, foi … infernal!

A bandalheira instituída, a censura dos “média”, a cobardia institucionalizada, o cretino do politicamente correcto e a ignorância e perfídia dos governantes, fizeram o resto.

O PC (P) e, mais tarde, o Bloco de Esquerda tomaram conta do Ministério da Deseducação Nacional (e não só) e instituíram “dogmas” que nem a Inquisição, nos seus piores dias, se atreveu a formalizar, mesmo tendo a Fé como respaldo.

Este último partido desencadeou nos últimos anos - ultimamente com a ajuda de um mentecapto importado, cujos caninos fazem lembrar os seus antepassados canibais - um revisionismo histórico radical e ultramontano, tentando a culpabilização e demonização do homem branco; tecendo um manto de mentiras sobre a Escravatura; a extraordinária “aventura” dos Descobrimentos; o rebaixamento dos heróis nacionais, as referências da Cultura, do Bem, do Belo, do Nacionalismo (palavra que virou maldita que devia ser elevada, nas sua verdadeira expressão); na ocultação da memória histórica do povo, etc., e na exaltação de piratas, bandidos, traidores, desertores, ou simples delinquentes do foro comum.

Por isso não existe qualquer surpresa nem admiração, por um grupo dos de sempre, quando ouviu falar que a Câmara Municipal de Santa Comba Dão está em vias de concretizar um museu na terra do auto consagrado (sem direito a contraditório) “ditador” e negregado “fascista”, António de Oliveira Salazar, com o nome de “Museu de Interpretação do Estado Novo” a que já, ostensivamente, mudaram para “Museu Salazar”.

O que não é a mesma coisa.

A contestação foi assumida prioritariamente por duzentos e tantos cidadãos através de uma petição, a maioria dos quais se intitula perseguida, prisioneira e vítima de maus tratos (vulgo tortura) por parte dos “esbirros” do regime deposto em 1974.

Pelos vistos não lhes basta a ditadura política e histórica imposta após o 25/4, o domínio dos “média”, a imposição ideológica nas escolas, a mentira do discurso político onde reinam mas, mesmo assim, tremem-lhes os pêlos do cóchis sempre que ouvem falar no fantasma do “Ditador”.

Faz lembrar o episódio ocorrido aquando da vinda a Lisboa de Filipe I, em 1581, e este visitou aquela que classificou de “igreja digna desse nome” que vislumbrou em Portugal, a do Convento do Carmo, onde estava sepultado o grande D. Nuno Álvares Pereira - o qual, curiosamente, ainda não foi alvo da sanha revisionista que por aí medra.

Quando os membros da comitiva de Filipe I souberam disto, um temor instintivo os fez recuar, a que Filipe I retorquiu algo parecido com, “Podeis avançar, o homem está morto há muitos anos…”.

Mas esta gente por cobardia e perfídia tem horror à verdade e pesa-lhe a consciência, se é que lhes resta alguma.

Vou ainda ser mais cru, de um modo que talvez nunca se tenha ouvido em Portugal, após a data florida a cravos e cravanços.

Desde 1933 – data da instituição do Estado Novo e do seu criador - morreram nas prisões, ditas políticas, portuguesas, cerca de 50 presos, como de resto escreveu José António Saraiva, no “Sol” de 31/8.

Ou seja em 41 anos (1933-1974), morreu pouco mais de uma pessoa por ano. Não sei (mas alguém há-de saber) quantas pessoas foram presas.

Um “site” de um conhecido admirador da seita e com antepassados carbonários (ou seja insuspeito de simpatias pelo Estado Novo) pode ler-se que entre 1931 e 1974, morreram 88 cidadãos às mãos das polícias e nas prisões (parte delas por doença), alegadamente por razões políticas, o que inclui o assassinato de Mondlane e Amílcar Cabral – o que nem sequer é correto e não fosse lícito eliminar aqueles que combatiam a soberania portuguesa e nos emboscavam as tropas; Catarina Eufémia, que toda a gente sabe ter-se tratado de um acidente e outros casos que necessitam enquadramento devido o seria ocioso fazer aqui.

Não direi que não houve violência e que vários cidadãos foram violentados na sua integridade física.

Mas pergunta-se: só houve violência durante o Estado Novo?

Na Monarquia Constitucional e na I República não houve violência? Havia alguma razão moral, racional, jurídica ou política para se atentar contra a Família Real ou fazer cair a Monarquia à bomba?

Só houve violência por parte dos defensores do Estado Novo? Os opositores demo - republicanos que tinham desgraçado o país e sobretudo a nóvel força internacionalista dos anarcas e comunistas nunca mataram ninguém? Não fizeram atentados? Não se mataram até, entre eles?

Não chegaram a atentar contra a vida do Chefe do Governo, em 1937? Não revoltaram dois contratorpedeiros no Tejo, para se irem juntar às forças republicanas em Espanha – uma autêntica traição à Pátria – episódio que está na origem da criação da prisão do Tarrafal?

Aquando da inauguração da Ponte Salazar, em 6 de Agosto de 1966, não quiseram sabotar um dos pilares da ponte de modo a derrubá-la, episódio frustrado “in extremis” pela polícia e que se pode considerar um atentado equivalente à das Torres Gémeas, em Nova Iorque?

E em plena Guerra do Ultramar – a que aleivosamente chamam “colonial” - não causaram a destruição de 28 aeronaves na Base Aérea de Tancos, em 8 de Março de1971, o que representou o maior dano material no esforço de guerra e que não encontra paralelo nas três frentes de guerrilha? Será que um dia vão revelar o que fizeram com a tripulação do navio Angoche? Querem que continue?

Lamento que tenha havido violência e mortes, sobretudo entre portugueses, e por razões políticas, mas tudo isto faz parte das opções de vida e da História.

A perda de uma simples vida, por motivos injustos, será sempre de lamentar, em termos absolutos.

Mas na vida real não há o “Absoluto” (apenas “Deus” é o Absoluto), mas sim o relativo.

Quer isto dizer que, no caso vertente, os mortos que houve por cá, na repressão às forças comunistas representam todas elas se comparadas com o que aconteceu na União Soviética, apenas um episódio decidido num pequeno – almoço em que o “kamarada” Estaline palitava os dentes, estando bem - disposto.

Sabe-se que o Marxismo e o Comunismo, para além de serem ideologias erradas, mentirosas, anti naturais, incompetentes, irrealistas, visando até um utopismo inconsequente por estúpido e onde os fins justificavam todos os meios, nos países em que se impuseram, o fizeram por meios violentos, sem respeito por nada nem ninguém, massacraram e violentaram populações inteiras à moda de Tamerlão, com a justificação da criação do “homem novo”. Malditos sejam.

E fizeram isto, não só na pobre e infeliz Rússia, mas em dezenas de países em todo o mundo, numa orgia de sangue e violência que causou cem milhões de mortos e culpa-se o Estado Novo por os reprimir?

Chama-se a isso antecipar problemas, higienização política e social ou simplesmente legítima defesa. Diria até, simples bom senso.

E digo mais, face ao que se passou e à experiência que tivemos aqui ao lado aquando da guerra civil espanhola (1936-1939), que possivelmente correspondeu à repressão mais dura por parte do governo português, toda a repressão foi branda, ou não sejamos conhecidos pelos nossos “brandos costumes”.

Mas nunca fiando, imaginem só por um momento, o que teria acontecido se o PCP e as forças que o apoiavam, não tivessem sido derrotadas no 25 de Novembro de 1975. Aí tivemos uma pequena amostra do que iria acontecer no após…

Por último, que Nação – digna desse nome - representada pelo seu Estado pode admitir uma força política no seu seio, que obedeça a uma potência estrangeira (a URSS) e que se manteve inimiga de Portugal entre 1917 e 1989, como foi objectivamente o caso do PC – o que o excluiu moralmente de ostentar o “P” de português? Mas que insanidade é esta?

Por tudo isto as razões aventadas pelos “dinossauros” que assinaram a petição (e agora estão caladinhos depois de uma intervenção do senhor PM…) contra a existência do Centro Interpretativo do Estado Novo (que volto a dizer, não é um museu sobre Salazar – e que fosse), não cabem na cabeça de um fósforo; revelam uma mentalidade cobarde, censória, medrosa da verdade, totalitária (que é o que sempre foram) enfim, a todos os títulos errada.

O despautério e o despeito é tanto que têm a lata de terem estas iniciativas depois de já terem assegurado a existência de museus (Peniche, da Resistência, etc.), fundações, estátuas, nomes de ruas, etc., onde pretendem perpetuar os seus erros, as suas falsidades, as suas ignomínias, os seus crimes e parte daqueles que foram os protagonistas.

E devo lembrar que o Estado Novo, ao contrário dos próceres da I República e do Regime saído da Constituição de 1976, nunca mudaram nomes a ruas ou apearam estátuas, de quem esteve antes…

Dou-lhes, por isso, um alvitre: proponham a existência de um museu (chamem-lhe o que quiserem) onde fique exposta a papelada roubada da sede da PIDE e enviada para Moscovo, n os idos de 1974/5, fora aquela que foi destruída ou posta a recato, parte da qual foi utilizada para todo o tipo de torpezas e chantagens para podermos ter um cabal entendimento de tudo o que se passou…

Até lá, ganhem vergonha e deixem de atacar o extraordinário estadista a quem com propriedade, o historiador José Hermano Saraiva chamou de “ditador santo”.

Vocês não valem o pó que ele tinha nos sapatos.

E que ao contrário do que escreveu, equivocado, António Barreto, nós não vamos tratar Salazar como ele nos tratou a nós!” A razão é simples: nós não merecemos o que fez por nós e pelo País.[2]

Viva a Verdade; abaixo a mentira! (que é aquilo que qualquer Estado, seja democrático ou não, e qualquer pessoa singular, deve defender).


João José Brandão Ferreira
Oficial Piloto Aviador (Ref.)


[1] Salazar, na altura com 51 anos, não esteve presente na inauguração. Imaginem se fosse hoje…
A cantina destinava-se a apoiar as crianças carecidas da freguesia do Vimieiro.
A escola primária que Salazar frequentou, foi construída no final do século XIX, sendo nela que, mais tarde, a sua irmã Maria do Resgate Salazar, foi professora.
[2] Artigo publicado no “Público”, a 1 de Setembro, intitulado “Três Museus”. E, tirando a parte referida, um bom e equilibrado artigo.


Fonte: O Adamastor

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Trinta milhões para a parede mais cara do mundo, zero para o Museu dos Descobrimentos: o descaramento nu da Câmara de Lisboa


A Câmara Municipal de Lisboa anuncia que as obras de remate do Palácio da Ajuda custarão, afinal, o dobro da verba prevista - ou seja, 29.7 milhões de euros, valor certamente espantoso (ou mesmo misterioso) para obras que se resumem, na prática, à construção de uma parede na fachada ocidental do palácio. Ao mesmo tempo, anuncia a mesma instituição que nem um euro da taxa turística por ela colectada será destinada a "projectos relacionados com os Descobrimentos". A fórmula usada é desonesta; os "projectos relacionados com os Descobrimentos" são, concretamente, o Museu dos Descobrimentos por que a Nova Portugalidade se bateu, que defendeu com uma petição assinada por milhares de portugueses e cidadãos da Portugalidade, levou à Assembleia Municipal de Lisboa e viu por ela aprovada. E o argumento orçamental para que se não faça o dito museu - estrutura pedida por nós e, connosco, por tantas figuras notáveis da cultura portuguesa - padece de visível oportunismo, para além de denunciar completo e escandaloso desgoverno numa obra, a de conclusão do Palácio da Ajuda, cuja simplicidade, até mau gosto, não permitem compreender como ali se gastarão trinta milhões de euros.

Lisboetas, portugueses e lusíadas de todos os países, continentes, cores e religiões (pois a todos eles interessa que a Câmara erga o prometido Museu) podem bem reagir com incredulidade e indignação ao recente anúncio. Para lá das desculpas esquivas e das explicações improváveis, resulta muito claro que o que impossibilita a abertura do Museu dos Descobrimentos não é a falta de dinheiro, mas a falta de vontade por parte dos detentores do poder autárquico na capital portuguesa. Digamo-lo de modo limpo e seco: eles negam-nos o Museu que nos prometeram, por cuja criação milhares deram a sua assinatura, que a Nova Portugalidade defendeu com sucesso na RTP e cuja abertura conseguimos ver aprovada em Assembleia Municipal por não quererem dar o braço a torcer, não poderem aceitar que a campanha dos agitadores falhou e não poderem tolerar que em Lisboa se faça um espaço sério focado na expansão imperial e sem rendição a histerias anti-científicas, anti-históricas e anti-portuguesas. Protestamos: o Museu é desejado, foi prometido e faz toda a falta do mundo a uma cidade, Lisboa, cuja identidade é indissociável do papel cimeiro que ocupou durante a era dos Descobrimentos. Intolerável é, pois, que o grande projecto por que os lisboetas votaram e que viram aprovado lhes seja negado, agora, através de manobras de bastidor. Não, não pode ser. E o truque não passará.